28 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (8)


[Ler texto anterior]

A cultura é o espaço ideal para o lançamento de pontes entre o local e o universal. Um projecto com a dimensão que terá, necessariamente, uma Capital Europeia da Cultura deve contribuir para se poder observar o mundo através das janelas de uma cidade. As temáticas a abordar na Capital Europeia da Cultura com epicentro em Guimarães devem ser capazes de estabelecer essa relação. Havendo a intenção, já anunciada, de não apostar em produtos culturais pré-formatados, adquiridos com recurso a cardápios pré-existentes e entregues em regime de chaves-na-mão, haverá que dosear, em porções adequadas, o conhecimento com a imaginação e a criatividade ,para se encontrarem as temáticas capazes de enlaçarem a identidade local na universal ede irradiarem manifestações da cultura universal a partir da perspectiva local. Já antes aqui se avançaram algumas sugestões com tal propósito. Aqui fica outra, susceptível de ser desdobrada em diferentes produtos culturais.

Em Guimarães, porventura mais do que em muitos outros lugares, há uma propensão ancestral para a apropriação paródica e irreverente da realidade, presente em inúmeras manifestações da cultura local, das Nicolinas à Marcha Gualteriana, e bem reflectida na imprensa de Guimarães, onde não faltam títulos onde a sátira e o humor se assumiam como os principais veículos de crítica social e de costumes, não raras vezes apimentados pelo vernáculo corrosivo e algo obsceno, tão presente na expressão oral dos vimaranenses, independentemente das suas condições sociais.

É nesta tradição que podemos encontrar a ancoragem de uma literatura de satírica e de crítica social, onde se filia o teatro de Gil Vicente, mas que teve outros cultores. Basta lembrar que Guimarães foi o berço de António Lobo de Carvalho, o “Lobo da Madragoa”, sobre quem Natália Correia escreveu, na sua "Antologia da Poesia Portuguesa Erótica Contemporânea" (3.ª edição, 1999, pág. 188):

Lobo de Carvalho não só merece um lugar de especial destaque entre os satíricos portugueses, como deve o seu nome, obscurecido pela ignorância ou pelo preconceito dos cronistas literários, figurar na galeria dos relevantes poetas portugueses, posto que, pelo quilate poético, superou a circunstancialidade da sátira. Raramente o escárnio fescenino teve ao seu serviço um engenho formal e uma imaginação satírica em tão perfeito equilíbrio. O lirismo negro português é-lhe credor das melhores páginas do género que se não desbrilham quando confrontadas com a de Bocage, oferecendo um cunho mais popular onde o cantor de A Manteigui revela um maior arrebatamento poético.

2012 pode ser uma oportunidade para recolocar António Lobo de Carvalho no lugar que é o seu por direito no contexto da poesia de língua portuguesa. À volta do seu nome e de outros autores que cultivaram o mesmo género de poesia satírica e erótica, é possível construir um conjunto de iniciativas relevantes, capazes de enriquecerem o programa da CEC. Penso, por exemplo, em ideias que associem o nosso Lobo ao grande Gregório de Matos, escritor baiano do século XVII, filho de um vimaranense, cuja ousadia literária lhe valeu o cognome de “Boca do Inferno”, ou a Bernardo Guimarães, escritor brasileiro (cujo nome não deixa lugar para engano quanto às suas raízes), o romancista consagrado, autor de A Escrava Isaura, e o poeta maldito, de cuja pena saíram poemas como A Origem do Mênstruo ou A Orgia dos Duendes.
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João de Meira, escritor-fingidor (13)

Capítulo da “Relíquia”

Então o douto Topsius disse-me, formalizado e solene:

– Dom Raposo, afiança-lhe um homem que a Alemanha escuta em questões de crítica e de história; há no seu país uma figura que basta à reputação de uma nação.

Eu murmurei vagamente: – Sim, em Portugal há grandes vultos, há o Herculano, há o Rebelo da Silva, o Zé Ricardo, o Morgado de Covas...

Não, D. Raposo, não, atalhou o erudito homem, Herculano foi um rígido, alimentando-se do facto nu, estreme, sem poesia, sem centelha...

Eu pressuroso ia atalhar: – E o Eurico, e o Eurico ?

Mas já Topsius epilogava esguio e lento com os doutos óculos refulgindo na ponta do bico:

Herculano era um seco, Rebelo da Silva um retórico, Oliveira Martins um diletante. Não, D. Raposo, em verdade lhe digo, o homem a quem me refiro é o Maximiano...

– O nosso, o do Porto? gritei arrebatado. E depois, mais sereno, passando a língua pelos lábios, saboreando com gula essa delícia:

– É para ver Topsius, é para você ver! Grandes escritores não nos faltam. Sabe você o que há pouco em Portugal? É quem saiba ler, sapiente amigo, É quem saiba ler!

Eça de Queirós [aliás, João de Meira, 1911]
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27 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (7)

O Conde D. Henrique (?-1112), numa litografia de meados do séc. XIX

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Muitas vezes esquecido, o Conde D. Henrique é uma figura central na construção da nossa identidade nacional, mas também da nossa afirmação enquanto europeus.

Filho de Henrique, neto de Roberto I e irmão de Odo e Hugo, duques da Borgonha, bisneto de Roberto II, rei da França, sobrinho-neto do poderoso D. Hugo de Cluny, sobrinho de Constança, mulher de Afonso VI de Leão e Castela, de quem foi genro, por força do casamento com Teresa de Leão, com que se fez Conde de Portucale, D. Henrique desempenhou um papel central na reconfiguração do território ocidental da Península Ibérica, na passagem do século XI para o século XII. Sem a acção do Conde D. Henrique, Portugal, certamente, não existia.

Nascido no seio da mais alta aristocracia francesa do seu tempo e tendo contribuído, pela sua acção e pela do seu sucessor, D. Afonso Henriques, para a fundação de Portugal (há mesmo quem considere o fundador do Estado Português), está estreitamente vinculado a Guimarães, onde teve a sua corte, que agraciou com a outorga carta de foral em 1096 (o primeiro foral português). O Conde D. Henrique é uma das figuras que, a partir de Guimarães, melhor cruzam as dimensões local, nacional e europeia. Na Primavera de 2012 passam 900 anos sobre a sua morte.

Não faltam razões para que seja um dos protagonistas da Capital Europeia da Cultura. Impõe-se que o seu centenário seja assinalado com o destaque que merece. 2012 vai ser tempo de conhecermos o Conde D. Henrique, a sua vida e a sua obra. E faz todo o sentido que a homenagem inclua o preenchimento de uma lacuna imerecida: a publicação da sua biografia.
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João de Meira, escritor-fingidor (12)

Saber

Saber, filho espúrio da Verdade,
A quem a mãe cruel sempre enjeitou!
Tu que quanto mais cresces em idade
Mais longe vês a mãe que te gerou,

Para que ao começar-lhe a mocidade
Foi que teu hálito rude o bafejou?
Pois para que há-de ele, para que há-de
Cansar um dia que inda não chegou?

De que vale, Saber, o consumir
Esterilmente um ano e outro ano.
Se o tempo tudo há-de enfim delir?

De que vale, Saber, estudo insano,
Se o passado, o presente e o porvir
São engano… são tudo o mesmo engano!

Antero de Quental [aliás, João de Meira, 1911]
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26 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (11)

Rimance popular

O dia 8 d’agosto
É dia de festejar!
E a nobre vila da Régua
Jamais o há-de olvidar,
Que nesse dia nasceu
Quem muito a há-de ilustrar,
Quem muito já a ilustrou
E há-de continuar...
Maximiano de Lemos,
Pois que é assim seu chamar,
Nesse tal dia nasceu
Nesse pequeno lugar.
Depois que chegou à idade
Ao Porto veio estudar,
E as aulas do Liceu
Principiou a cursar,
Mostrando desde o começo
No que havia de vir dar,
Pois que ainda tão menino
Começou a rabiscar.
Passando na Academia
À Escola foi parar.
Onde no primeiro ano
Um R lhe foram dar,
Injustiça reparada
Dando-lhe lá um lugar,
Onde brilhou por maneira
Impossível de narrar.
Agora, que chega o dia
De se poder reformar,
Em tão bela companhia
Vai papar um bom jantar.
Anónimo [aliás, João de Meira, 1911]
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25 de setembro de 2009

A ler: "E a Memória, meus senhores, a Memória?"

"(...) "Vir Almeida Fernandes, e hoje o seu genro, anunciar ao mundo um novo bezerro de ouro (que muitos foram venerar a Viseu), reivindicando mudanças nos manuais de história e na mitografia nacional é tão absurdo como inexequível. Os manuais de história já quase não existem e a Memória dos homens não se muda de um dia para o outro. Aliás, a Memória implica que eu faça esta pergunta: como é que em 900 anos, não restou um único documento que atestasse ou pudesse sugerir esta nova teoria? Como é que em vida do primeiro rei ou nas gerações imediatamente seguintes ninguém registou este dado de semelhante importância: o local do nascimento de um monarca que governou durante quase meio século, sendo a sua presença marcante na Europa do século XII? Dado que Viseu não era uma aldeia nessa época, talvez o verdadeiro local onde Afonso veio ao mundo não fosse propriamente digno de um príncipe e rei, de tal forma que a tradição o fez nascer em Guimarães. Em qualquer dos casos nunca se pode ignorar a Memória, por muito nebulosa ou a-histórica que ela seja - sempre nos conta algo que fica por contar..."
Nuno Resende, in Obliviário
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24 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (10)

Crónica

Em aquesto tempo vivya em Gaya que ora chamom villa nova delRey un homē muy honrado e bom letrado, amiguo de poer por letra as vidas dos que antiguamente uzaram de çolorgia e physica, e lia physica no Estudo do Porto O qual se chamava Mestre Maximiano e era muy aceyte delRey, que folgava muyto de o ouvir. E sendo de LI annos pouco mais e menos se veio aa junta, que o reformassem, que era sordo e mais nom podia ler physica; e o reformaram e se foi ende a tornar pera seu: livros. Por cujo aazo prouge a seus amiguos de lhe offerecer de jantar que todos comeram e grandemente lhes prestou.

Fernão Lopes [aliás, João de Meira, 1911]
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23 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (6)


[Ler texto anterior]

A exploração da vertente europeia da nossa cultura implica a necessidade de se afirmarem e valorizarem produções culturais que, com algum nível de ancoragem em Guimarães, tenham extravasado os limites locais e adquirido dimensão universal. A escolha das figuras-chave que podem assumir protagonismo na CEC deverá ser feita com base em dois critérios cumulativos: projecção nacional e europeia e vinculação a Guimarães. Aparentemente, a procura seria problemática. Só aparentemente, porque não será muito difícil encontrar, em diferentes áreas da arte e da cultura, figuras cujo perfil se ajusta ao que se pretende. Eis os exemplos que me parecem mais óbvios:

No campo da escrita: Raul Brandão. Autor da transição do século XIX para o século XX, é incontornável na história literatura portuguesa, tendo-nos legado uma obra rica e marcante. Nasceu no Porto. Viveu em Guimarães, onde está sepultado e onde se guarda o seu espólio literário. 2012 poderá ser um ensejo para divulgar a sua obra, promovendo o estudo e a difusão da sua obra, nomeadamente por via da edição da sua obra completa e da sua tradução para outras línguas.

Nas artes plásticas: José de Guimarães. Provavelmente o artista português com maior projecção internacional. Nasceu em Guimarães e tomou da sua terra o nome com o qual se deu a conhecer ao mundo. Está associado, desde o início, à ideia da Capital Europeia da Cultura em Guimarães.

Nas artes de palco: Gil Vicente. É o primeiro e o mais notável dramaturgo português. A sua associação a Guimarães tem a ver com a forte tradição segundo a qual terá nascido aqui.

Nas ciências: Francisco Martins Sarmento. Este arqueólogo é, inquestionavelmente, uma das figuras mais proeminentes da cultura portuguesa de finais do século XIX. As suas pesquisas arqueológicas tiveram grande ressonância na Europa do seu tempo, sendo geralmente colocado a par de figuras como Heinrich Schliemann, Virchow ou Émile Cartailhac.

Acredito que numa CEC com abertura para o mundo, mas ancorada em Guimarães e nas suas raízes culturais, estes nomes ocuparão os lugares que são seus por direito próprio.

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João de Meira, escritor-fingidor (9)

Maximiano médicin-légiste

Le cadavre était couché sur la table. Ses chairs flasques pendaient et sa peau ridée semblait trop grande pour ses muscles. Toute une moitié du crâne avait disparue, prise et broyée entre deux rouages dons l’usine. La cervelle avait jailli, et des taches de sang éclaboussaient son cou, ses bras et sa poitrine velue comme celle d’un singe. Des os pointaient à ses coudes, ses ongles étaient brodées de noir. Il n'avait plus de pieds; seulement des paquets de nerfs arrachés pendaient aux extrémités de ses jambes coupées, comme des cordages à la mature d’un navire.

Maximiano paru, un bistouri a la main. Il renifla l’air, il hocha la tête et il lâcha; - Nom de nom de Dieu! Faut que je répète pour la centième fois que je veux ces portes toujours ouvertes? On ne peut pas tenir avec une puanteur pareille!

Le vieux employé s’avança clopin-clopan; il trainait la jambe gauche et louchait d’une façon terrible. Sans une parole, de ses mains noueuses et rouges, marbrées de cicatrices et de taches brunes, il ouvrit la porte toute grande.

L’air extérieur s’engouffra dans la large baie, balayant les mauvaises odeurs, agitant une mèche de cheveux restée à la tempe droite du mort, apportant du dehors les senteurs amoureuses du printemps, si puissantes que le propre cadavre en parut ému.

Alors Maximiano se rapprocha de la table; et regardant d’un œil impassible et froid cette lamentable guenille, où il manquait le crâne et les pieds: - Voilà, dit-il, une affaire qui n’a ni queue ni tête.

Émile Zola [aliás, João de Meira, 1911]
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22 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (8)

Antelóquio

Feixe de imitações, pastiches, ou o quer que é, pretende seu autor que breve explicação eu aqui lhe exare. Vá de fazer-lhe a vontade. Mais não pode ser, conforme em seu recente volume da Formation du style o francês Albalat pretende, esta ordem de trabalhos que, de ginástica literária, simples exercício. E quão fácil seja imitar um autor, pois que difícil se não torna apanhar-lhe os defeitos e exagerá-los em traço caricatural, vai para um século que o Marquês de Roure o escreveu.

Mas verdade manda que dito fique ser o pastiche um estudo útil, que leva a analisar o estilo dos mestres e orienta para que um estilo próprio se obtenha, embora paradoxal pareça. Eis o que tenho a frisar tão só, já que da personalidade a que o livro à consagrado ocupar-me não quero, que lugar, e de destaque, lhe reservo em Os do Liceu, livro que tenho planeado sobre a geração em que o único desaproveitado precisamente sou.

Bruno [aliás, João de Meira, 1911].
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21 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (7)

Auto do jantar

Figuras: RUBENA, BRAZ

Este auto foi representado ao muito poderoso senhor D. Maximiano no ano de 1911, no Porto.


Braz – Deixa-me ver o tabardo
E a minha carapuça!

Rubena – Donde vás, por saber ardo ?

Braz – Mulher estás uma ussa,
Não sejas curisidosa,
Que não é cousa formosa,
Cata amanhos que fazer,
Não sejas intrometida.

Rubena – Io lo quiero saber,
Pues que soy io tu mujer!

Braz – Não virá por ti má trama,
Que me importuna teu zello?
Não vou com outra na cama…

Rubena – Y parte, Dios de lo cielo!

Braz – Cala-t'hi boca praguenta,
Fuge lá, bicha sarnenta,
Que vou jantar com amigos,
E mail-o Maximiano,
Que ora foi reformado,
E vae viver descançado.
Cuidarás tu que t’engano?
Ficam-te ahi quatro figos
E um salemim d’azeitonas,
Já muito tens que comer,
Se lhe aproveitar's as tonas,
Emquanto eu não vier.
Gil Vicente [aliás, João de Meira, 1911]
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20 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (6)

Outro texto lido por João de Meira no jantar de homenagem a Maximiano Lemos:

Crónica


Em aquesto tempo vivya em Gaya que ora chamom villa nova delRey un homē muy honrado e bom letrado, amiguo de poer por letra as vidas dos que antiguamente uzaram de çolorgia e physica, e lia physica no Estudo do Porto O qual se chamava Mestre Maximiano e era muy aceyte delRey, que folgava muyto de o ouvir. E sendo de LI annos pouco mais e menos se veio aa junta, que o reformassem, que era sordo e mais nom podia ler physica; e o reformaram e se foi ende a tornar pera seu: livros. Por cujo aazo prouge a seus amiguos de lhe offerecer de jantar que todos comeram e grandemente lhes prestou.

Fernão Lopes [aliás, João de Meira, 1911]
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19 de setembro de 2009

“Afonso Henriques 900 anos depois” - Congresso em Viseu - 4

Terminou o congresso de Viseu, onde, contrariando a afirmação do principal responsável por aquela iniciativa, de que o nascimento em Viseu de D. Afonso Henriques “não deixa dúvidas”, houve quem as tivesse demonstrado. Onde se poderia esperar unanimidade, terá havido apenas “consenso da maioria dos conferencistas” quanto àquela matéria, havendo até um conferencista que “apontou o nascimento para Guimarães, sem, no entanto, ter indicado um só documento nesse sentido”, segundo João Silva de Sousa.

Da anunciada documentação inédita sobre o nascimento de Afonso Henriques em Viseu, cuja discussão estava prometida para este congresso, não há notícias. Continuaremos à espera.
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João de Meira, escritor-fingidor (5)

Outro poema da série de pastiches dedicados por João de Meira a Maximiano Lemos:


Inveja

Quando ele entrava na Escola,
Em tempo de maior bitola,
Alguns se punham a bradar:
- Aí vem o Maximiano,
É o terror do terceiro ano.
Rapazes, toca a estudar!

E chegados aos exames
Eram raposas aos enxames,
Eram raposas de escacar!
Mas ninguém topa, com verdade,
Uma falta de probidade
Para poder vir-lhe assacar!

Passou, depois, ao quinto ano,
Aí tornou-se mais humano,
Como bem era de esperar,
Já não dava raposaria,
Que tal lugar não permitia
Por ir o curso terminar!

Há pouco, enfim, chegou-lhe a hora
De poder ir por aí fora,
E a nossa Escola abandonar.
Deixa saudade e deixa inveja,
Pois, ai de nós! quem não deseja
Na sua pele poder estar!
António Nobre [aliás João de Meira, 1911]
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18 de setembro de 2009

“Afonso Henriques 900 anos depois” - Congresso em Viseu - 3

D. Afonso Henriques numa caricatura de 1905, de José de Meyra.

O jornal Público de 17 de Setembro reproduz uma notícia da agência Lusa, a propósito do congresso sobre Afonso Henriques que está a decorrer em Viseu, onde se transcrevem declarações produzidas naquele encontro pelo respectivo comissário, João Silva de Sousa, e pela presidente da Academia Portuguesa de História, Manuela Mendonça, que merecem algumas reflexões:

1. “João Silva de Sousa considera que os documentos em que Almeida Fernandes sustenta a tese Viseu, Agosto de 1109, nasce D. Afonso Henriques não deixam dúvidas e lembrou que é defendida por vários outros historiadores.” Será que se pretende transformar uma simples construção hipotética, de impossível demonstração à luz da documentação conhecida, e que, ao contrário do que se afirma, suscita muitas dúvidas entre os historiadores, numa verdade definitiva?

2. O senhor Comissário defende a alteração nos “manuais escolares do local de nascimento de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, de Guimarães para Viseu, na sequência de uma tese de Almeida Fernandes”. E afirma expressamente: “O Ministério da Educação deve dar ordens para que essa matéria seja alterada e toda ela bem resolvida”. Ou seja, proclamada a verdade única e definitiva, pretende-se que seja transformada em doutrina de Estado. Saudades do tempo do livro único?

3. Afirma também o Professor João Silva de Sousa que a imposição do Ministério da Educação aos autores dos manuais escolares deverá ser feita “nunca retirando a Guimarães o berço da independência, porque não há razão para isso, porque foi realmente por S. Mamede que se deu o facto, mas dando o berço da nacionalidade à cidade de Viseu enquanto não se descobrir outra”. Confesso que fico confundido, não conseguindo perceber bem a diferença entre as expressões “berço da independência” e “berço da nacionalidade”. Poderia tentar avançar com várias hipóteses explicativas, mas iria acabar por concluir que seriam manifestamente artificiosas. O que constato é que há em Viseu quem, depois de proclamar a sua cidade como berço de Afonso Henriques, pretende também apropriar-se de uma das marcas de Guimarães, o título de Berço da Nacionalidade. Há em tudo isto uma incompreensível confusão: a condição de Berço da Nacionalidade de Guimarães não resulta do nascimento de Afonso Henriques, mas do facto de ter sido a partir daí que Portugal iniciou a sua marcha para a independência, com D. Afonso Henriques. Ou será que também se pretende mudar a batalha de S. Mamede e trasladar o Castelo de Guimarães para Viseu? Não se percebe como Viseu possa invocar a condição de Berço da Nacionalidade. Até porque a fundação da nacionalidade resulta de um movimento encabeçado por D. Afonso Henriques contra D. Teresa e, como o próprio Almeida Fernandes afirma na obra em que avançou com a sua tese viseense, naquela altura, os senhores de Viseu terão estado com D. Teresa, contra Afonso Henriques. Tendo estado do outro lado da barricada, portanto, não se vê qual a legitimidade que Viseu poderia invocar para passar a ostentar tal título.

4. Já a Presidente da Academia Portuguesa de História, afirmando subscrever, a título pessoal, a tese de Almeida Fernandes, afirmou que “oficialmente, e em nome da Academia Portuguesa de História, não o posso fazer, porque a temática não foi objecto de debate entre os medievalistas”. De onde se conclui que, ao contrário do que afirma João Silva de Sousa, a tese de Almeida Fernandes não só suscita dúvidas, como nem sequer foi discutida entre os medievalistas. Manuela Mendonça também advoga que o nascimento em Viseu “terá que ser registado nos manuais escolares e transmitido aos alunos”, embora com alguma divergência em relação à posição mais terminante de João Silva de Sousa: será necessário que, primeiro, a comunidade científica aceite a tese em questão. Para isso falta, diz, “um debate nacional, a nível pelo menos dos medievalistas, e depois um acordo final”. A meu ver, um debate nacional para se encontrar a verdade sobre o nascimento de D. Afonso Henriques seria, só por si, um acontecimento histórico, algo nunca visto na nossa comunidade científica, sendo altamente improvável a adesão dos medievalistas portugueses a tal conclave. Acredito que os historiadores tenham mais que fazer do que envolverem-se em discussões estéreis, em busca de uma mirífica verdade oficial sobre tal matéria.

Entretanto, da prometida "documentação inédita sobre o nascimento de Afonso Henriques" em Viseu, ainda não não nos chegaram notícias.

A notícia do Público citada neste texto encontra-se aqui.
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17 de setembro de 2009

“Afonso Henriques 900 anos depois” - Congresso em Viseu - 2

Do congresso "Afonso Henriques 900 anos depois", a decorrer em Viseu, já surgem ideias: criar "uma associação dedicada a D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, para reforçar a teoria de que a cidade foi o seu ‘berço’" e substituir Guimarães por Viseu nos manuais escolares.

Da prometida "documentação inédita sobre o nascimento de Afonso Henriques" em Viseu, ainda não há notícias.
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João de Meira, escritor-fingidor (4)

O seu retrato

Verruga no nariz, barba aguçada.
Curta a vista, o pescoço e o cabelo;
Gordo, mas não de mais, um ar singelo,
A mão pelo cigarro defumada.

Linda gravata, roupa bem talhada,
Chapéu em que Avelino pôs bom pêlo,
Colete que o Viegas cora ao vê-lo.
Bota de couro inglês bem engraxada.

Escritor que procura novidades
Nos entulhos do eterno esquecimento
E assim faz reviver outras idades.

Eis Lemos, em quem luz grande talento.
Um colega escreveu estas verdades
Dizendo ser Bocage em tal momento.
Bocage [aliás, João de Meira, 1911]
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16 de setembro de 2009

“Afonso Henriques 900 anos depois” - Congresso em Viseu

D. Afonso Henriques. Escultura em bronze de Soares dos Reis (pormenor). Guimarães. Séc XIX (1887).
Da exposição “Os Rostos de Afonso Henriques”, patente na Sociedade Martins Sarmento”.

Começa hoje o congresso “Afonso Henriques 900 anos depois”, onde se promete “debate sobre o nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu”, embora o programa das comunicações a apresentar naquele encontro não seja particularmente esclarecedor a tal respeito. De qualquer modo, aguarda-se com alguma curiosidade a revelação de nova documentação sobre o assunto, de acordo com declarações do comissário da iniciativa, que já avançou que “Viseu tem documentação inédita sobre o nascimento de D. Afonso Henriques na cidade", frisando que “ela será discutida, com mais profundidade no congresso”.
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João de Meira, escritor-fingidor (3)

Saudade

Qual o doce ribeiro, que de leve
Atravessa mil prados e campinas
E as águas parte, que depois recebe,
Em duas puras fontes cristalinas,
Juntas as nossas vidas tempo breve
Se apartaram depois por várias sinas,
E agora vão seguindo de ano em ano,
Pobres vidas, de engano em desengano.
Mas se a água dos rios não percebe
Saudade de outras águas diamantinas,
Não são gémeas das águas, nem se deve
Às águas comparar vidas tão dignas;
Que por longe que o triste fado as leve
Saudades vem juntar as peregrinas,
Sem esperar que ao fim de tanto engano
As junte a morte, que é profundo oceano.
Luís de Camões [aliás, João de Meira, 1911]
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15 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (2)

Maximiano Lemos

Da série de textos dedicados a Maximiano Lemos:

Cantar de amigo

Ay flores, ay flores do verde mato,
Se sabedes novas do autor do Amato,
Ay Deus, e ué?

Ay pozes, ay pozes, pozes de bismuto,
Se sabedes novas de quem fez Zacuto
Ay Deus, e ué?

Ay neve, ay neve, neve em avalanches,
Se sabedes novas do autor do Sanches,
Ay Deus, e ué?

Ay flores, ay flores, de todo o ano,
Se sabedes novas do Maximiano,
Ay Deus, e ué?

Vos perguntades por Maximiano
E eu bem digo que ele é vivo e sano,
Ay Deus, e ué?

Rei Dom Dinis [aliás, João de Meira, 1911]

NOTA: Maximiano Lemos é autor de uma vasta bibliografia. São suas, entre muitas outras, as seguintes obras, referidas neste poema por João de Meira:

Amato Lusitano: a sua vida e a sua obra
Zacuto Lusitano: a sua vida e a sua obra
Ribeiro Sanches: a sua vida e a sua obra
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14 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (1)


Muitos o chamaram de génio, alguns o apodaram de falsário. João de Meira foi, no dealbar do século XX, uma das nossas inteligências mais luminosas. Escritor talentoso, divertia-se a imitar os estilos de autores de diferentes épocas da história da literatura, de D. Dinis a Conan Doyle, de Camões a Emile Zola. Em 1918, seis anos depois da sua morte, o jornal Ecos de Guimarães homenageou João de Meira, publicando alguns escritos seus, a par de textos de amigos que celebravam a sua memória. Entre eles, lemos este, de Cândido de Pinho:

João de Meira pertencia à falange dos estudiosos e as afinidades do seu espírito orientavam-no sobretudo para as situações e acontecimentos do passado.

Era um evocador; e debaixo deste ponto de vista o seu talento exercitava-se todos os dias em fazer viver e falar os actores e cenários, que se impunham à sua sensibilidade e que a sua fantasia debuxava em contornos luminosos.

Esta tendência inclinava-o irresistivelmente para os estudos históricos. Era já neste campo um erudito e em breve seria um organizador da tradição, um sistematizador da História.

Ao entrar no magistério encontrou alguém que o relacionava intimamente com essa corrente de investigadores, que na nossa Faculdade iniciou a História da Medicina. Maximiano de Lemos levava já muito adiantada a obra que tem constituído a preocupação da sua vida; e esse recebera directamente dos que o precederam o fogo sagrado que só os predestinados e os adeptos descobrem e sabem conservar. Pacientemente, obstinadamente, ia reunindo os materiais da construção que delineara.

Era um centro de atracção. João de Meira acercou-se naturalmente dele e em breve o nome dos dois figurava na testeira de “Os arquivos”, onde um e outro iam apurando materiais para novas edificações.

Assim vieram à luz alguns ensaios onde, a par da exegese histórica, se retemperava o estilo e o critério.

Não me proponho acompanhá-lo na sua tão curta e malograda carreira. Neste momento e para desafogo da saudade em que vai também um preito de admiração, eu quero apenas aludir a um episódio, em que o génio e o saber de João de Meira se revelam flagrantemente.

Maximiano de Lemos decidiu em 1911 abandonar o ensino para se entregar mais de espaço a sua paixão absorvente. As simpatias que o seu convívio lhe granjeara na Faculdade iam passar por uma rude prova.

Decidiram pois os seus colegas oferecer-lhe um jantar de despedida, a que Maximiano de Lemos respondeu pouco depois com um outro, em sua casa, onde a amenidade efusiva do trato se prolongou até altas horas.

Não há o menor exagero em supor que uma reunião destas, constituída por uma dúzia de homens ilustrados, inteligentes, duma cultura que sem favor se pode considerar notável no nosso meio, havia de decorrer em lances de interesse a que não faltava nenhum dos a atractivos de que se rodeia a conversação cintilante, e o propósito subtil e jovial, a facécia donairosa e louçã.

Pois é forçoso confessar que nesse concurso de praça e beleza espiritual João de Meira encontrou ensejo de fazer sobressair a feição característica da sua individualidade por forma que a nuvem de melancolia que, às vezes pairava no seu rosto, se convertia em auréola de inspirado.

No intervalo de cada um dos pratos João de Meira levantava-se, simples, recolhido e solene, e, chegando junto de Maximiano, recitava-lhe um texto, composto no estilo dos nossos literatos mais notáveis desde o XII século até agora, alusivo à sua jubilação. A linguagem, o pensamento, a estrutura da frase, a própria feição crítica ou dialéctica do autor, achavam-se reproduzidas com uma exactidão inexcedível. Ninguém diria que não estava ouvindo um trecho impressivo dum dos nossos mais considerados literatos, prosadores e poetas. Assim foram desfilando naquele cortejo apoteótico e comemorativo o rei D. Dinis, Fernão Lopes, Cristóvão Falcão, Luís de Camões, Diogo Bernardes, Padre António Vieira, Fialho de Almeida, Eça de Queirós, António Nobre, Xavier de Novais e outros até concluir por uma engraçada facécia, estilo Conan Doyle, intitulada Sherlock Holmes no Porto. Era uma verdadeira balada heróica, fazendo lembrar a balada dos mortos, de Huland.

Quando assim se consegue imprimir ao estilo um tal poder de penetração e análise, ele deixa de ser uma simples manifestação do carácter para se tornar uma arte requintada e suprema, que só o estudo e o trabalho assíduo podem conferir.
Cândido de Pinho.
[in Ecos de Guimarães, n.º 200, de 10 de Março de 1918]
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11 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (5)

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O tema da memória está no centro da ideia para Guimarães, Capital Europeia da Cultura. Porque, no quadro das representações simbólicas, Guimarães assume, naturalmente, a condição de capital histórica de Portugal. Aqui, a presença da História é fortíssima, constituindo uma das nossas marcas identitárias mais vincadas. A nossa tradição historiográfica também é assinalável. Mas falta uma História de Guimarães (a melhor monografia de história local de que dispomos, do Padre António Caldas, já tem quase 130 anos). Fará todo o sentido acreditar que a CEC será uma boa oportunidade para se colmatar essa lacuna. A recente experiência da obra colectiva Minho. Traços de Identidade pode dar indicações preciosas quanto ao processo de construção de uma obra com a qualidade e a dimensão que se impõem.
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8 de setembro de 2009

Das esplanadas

É verdade que a oliveira (a árvore) da praça já teve melhores dias: a que ali vemos é uma árvore doente, a pedir que a tratem ou que a substituam por um espécime mais saudável e frondoso. Mas não é isso que mais fere o olhar quando olhamos para dois elementos da identidade visual e simbólica de Guimarães implantados na nossa praça maior: a oliveira, um dos símbolos de Guimarães, com lugar no brasão da cidade, e o Padrão da Vitória, um dos ex-libris vimaranenses mais fotogénicos. Custa a perceber como é que, num Centro Histórico classificado como Património Mundial, se permite o afogamento de duas peças relevantes do seu património, hoje sitiadas pelas esplanadas, que foram ganhando espaço na Praça à medida que novos estabelecimentos abriram portas. Todos sabemos que a condição de património classificado implica um conjunto de regras e de restrições muito apertadas que, pelos vistos, não se aplicam a esta forma de ocupação do espaço público.

Aliás, esta questão não afecta somente aquele espaço do Centro Histórico. Vai-se estendendo por diferentes praças e artérias da cidade, em especial depois da entrada em vigor da lei que regula o consumo de tabaco, e que, conquistando espaço ao passeio público, dificultam os movimentos dos transeuntes, nomeadamente daqueles que têm a sua mobilidade diminuída.
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7 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (4)

João Guimarães Rosa

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Uma das principais ambições da Capital Europeia da Cultura deverá ser a de estimular o aprofundamento da dimensão europeia e a valorizar a presença de Guimarães no Mundo.

Quanto à dimensão europeia, a pista histórica, com a afirmação das raízes da cultura europeia, pode ser especialmente frutuosa. Pelo seu perfil cultural e histórico, bem assim como pela sua tradição de investigação, Guimarães tem condições únicas para afirmar na originalidade do seu contributo, entre outras possíveis, em três áreas:

a) A cultura castreja e a sua singularidade no contexto da Proto-História Europeia, à qual Guimarães está estreitamente vinculada, quer pela forte presença de vestígios dos velhos castros no seu território, com relevo para o mais emblemático de todos eles, a Citânia de Briteiros, quer por ter sido aqui que, em 1875, Francisco Martins Sarmento iniciou o seu estudo.

b) As raízes medievais das nacionalidades europeias, no quadro da Europa das Nações, por força da incontornável associação de Guimarães, o “Berço da Nação” portuguesa, à fundação de deste país.

c) A demografia e a história das populações, como resultado do trabalho do antigo Núcleo de Estudos de População e Sociedade (o “grupo de Guimarães”), da Universidade do Minho, coordenado por Norberta Amorim, que adquiriu grande visibilidade e prestígio científico internacional, em resultado do pioneirismo, da qualidade e da dimensão dos trabalhos que aqui se desenvolveu e se continua a desenvolver.

Estas três vertentes do conhecimento do passado, com sólida ancoragem no presente, constituem um importante capital histórico e científico de Guimarães, que não pode ser ignorado nem desperdiçado quando se aborda a dimensão europeia da nossa cultura.

Já no vector da presença no Mundo podem ser seguidas várias pistas. É inegável a relevância do contributo de Guimarães (e do Minho, em geral) na irradiação ultramarina da cultura europeia, na sequência das navegações dos séculos XV e XVI. A presença de Guimarães está espalhada por todo o Mundo, sendo especialmente visível na cultura brasileira. Uma das vias de trabalho mais promissoras será a da exploração da teia que foi montada pelos colonizadores, emigrantes e aventureiros que partiram de Guimarães e se espalharam pelo Mundo, hoje ainda visível naqueles que ostentam as suas origens no seu nome de família, alguns dos quais se destacaram como figuras proeminentes da cultura de outros países. De todos esses, o que atingiu maior projecção terá sido o escritor Guimarães Rosa, o autor de “Grande Sertão: Veredas”, renovador da literatura brasileira. A evocação da sua obra, no contexto da CEC, faria todo o sentido como forma de celebrar a presença de Guimarães e dos Guimarães no Mundo.
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6 de setembro de 2009

Congresso “Afonso Henriques 900 anos depois”

O processo de apropriação viseense da figura de D. Afonso Henriques, como resultado tardio da tese de Almeida Fernandes que afirma que o rei fundador nasceu naquela cidade, terá como ponto mais alto o Congresso Internacional “Afonso Henriques 900 anos depois”, cujo programa definitivo já foi divulgado, e que apresenta algumas similitudes com o do II Congresso Histórico de Guimarães, dedicado a D. Afonso Henriques, realizado em 1996. Tratou-se de um encontro científico de grande dimensão, que contou com mais de centena e meia de comunicações e com a participação de figuras centrais dos estudos medievais portugueses, como Oliveira Marques ou José Mattoso, com Baquero Moreno como presidente da Comissão Científica e Freitas do Amaral como impulsionador e Presidente da Comissão Organizadora.

O Congresso de Viseu, que decorrerá entre 16 e 19 deste mês, irá repartir-se por nove painéis e contará com quatro dezenas de comunicações, algumas das quais, pelos temas que abordam, prometem trazer novas luzes para o conhecimento da nossa Idade Média. De acordo com o programa definitivo do Congresso, poderá causar alguma estranheza o facto de nenhuma das comunicações se propor abordar a obra de A. de Almeida Fernandes que está na origem da recente vocação afonsina de Viseu. Aparentemente, também não será tratada a controvérsia sobre o nascimento de Afonso Henriques (a excepção poderá ser a exposição de Rui Fernando B. Moura, Coronel de Infantaria, com o título “D. Afonso Henriques e Viseu”).
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4 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (3)

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Na abordagem aos desafios de 2012, devemos começar por pôr os pés bem assentes no chão e ter clara percepção dos limites da realidade cultural nos dias que correm. É certo que, à sua dimensão, Guimarães tem, no quadro regional e nacional, uma projecção cultural interessante. Mas é possível que a imagem projectada supere a realidade a partir da qual se projecta. Até aqui, Guimarães não tem sido uma cidade particularmente rica em acontecimentos culturais de grande dimensão, nem se tem distinguido especialmente enquanto centro de produção de obras culturais e artísticas de qualidade e dimensão internacionais. Não tem sido, mas tem, inevitavelmente, que passar a ser, aproveitando uma oportunidade única e, porventura, irrepetível, cujo horizonte não se pode encerrar em 2012. Porque, como várias vezes ouvimos a Robert Scott, será em 2020, quando olharmos para o que de perene ficou da CEC, que poderemos avaliar a dimensão do sucesso ou do insucesso de 2012.

A CEC deve mexer com a cidade e com as suas gentes. Deve utilizar e potenciar, activamente, a reconhecida capacidade de mobilização dos vimaranenses para empreendimentos colectivos. Fará todo o sentido estimular o envolvimento cívico, nomeadamente através da criação de grupos de discussão sobre temáticas culturais susceptíveis de serem trabalhadas e desenvolvidas no contexto da CEC. Este será um processo que permitirá enriquecer o projecto, ganhar para ele a população e assegurar meios para a elevação cultural dos cidadãos.

Para muitos, pela falta de oportunidades de trabalho e de crescimento, Guimarães tem estado cercada por muros demasiados estreitos. Não faltam hoje, fora de Guimarães, exemplos de vimaranenses, muitos deles jovens, que vão dando cartas em diferentes territórios criativos, da música à dança, do teatro às artes plásticas, ao cinema ou às novas tecnologias. A CEC deve criar condições para os chamar. Todos devem ser convocados. E não apenas os que estão fora: a CEC deve apostar em dar meios para a valorização e para o crescimento do mais valioso património que Guimarães possui, as suas gentes. Por aqui, podendo faltar oportunidades, não faltam talentos. Dêem-se condições para que cresçam. Dêem-se asas a quem é capaz de voar.

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3 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (2)

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O factor tempo tem uma importância vital para que o efeito de mudança e de regeneração que se espera da CEC se faça sentir em termos duradouros e sólidos, repercutindo-se no tecido cultural, económico e social da região. E já estamos num ponto crítico, porque já decorreu mais tempo (praticamente três anos) desde que se soube que Guimarães foi a cidade escolhida, do que o que falta para 2012 (pouco mais de dois anos). E, no transcurso do tempo que já se esvaiu, pouco de substantivo aconteceu, em grande medida em resultado de ocorrências e de circunstâncias geradoras de inércia que, à partida, não se poderiam prever.

Foi já em meados de 2009 que começou a ganhar forma a estrutura que terá a seu cargo a gestão do projecto da CEC. Nesta altura, pelo menos do ponto de vista formal, os seus órgãos não estarão ainda em funcionamento, uma vez que só no final de Agosto entrou em vigor o decreto-lei que institui a Fundação Cidade de Guimarães, entidade que terá a missão de gerir o processo da CEC. Pelo menos ao nível do que é do domínio público, ainda não é muito claro qual seja o modelo de funcionamento da estrutura de gestão e qual a sua articulação com as restantes entidades envolvidas. E é de temer que a conjuntura eleitoral que se aproxima não ajude muito à solidificação do processo.

Em Julho, aconteceu a cerimónia de apresentação pública da CEC. A intervenção programática da Presidente indigitada da Fundação Cidade de Guimarães apresentou uma linha de rumo traçada com bom critério, nomeadamente no que toca à necessidade de assegurar o envolvimento das pessoas, à aposta na qualidade e na criatividade, ao primado da produção original e à recusa da adopção de soluções de pronto-a-vestir e de compra por catálogo. No entanto, sobre o que irá acontecer em 2012, ficou-se a saber muito pouco, quase nada, para além do enumerar de dados estatísticos que, a esta distância, não serão mais do que simples declarações de intenção. O que ficou para mostrar depois da cerimónia de apresentação, a página oficial de Guimarães 2012, não é especialmente estimulante. E, nos tempos que correm, devia sê-lo. Temos, além de obrigação, capacidade para fazer melhor. Muito melhor.

A oportunidade que se coloca perante Guimarães não pode ser desperdiçada, transformando-se 2012 numa grandiosa celebração ao efémero, com demonstrações eloquentes da nossa proverbial capacidade de improviso. Como tantas vezes tem sido repetido, a Capital Europeia da Cultura deve criar raízes, deixar estruturas e rotinas perenes e colocar Guimarães no mapa cultural regional, nacional e internacional para lá do horizonte de 2012. Porventura, deveríamos regressar, provisoriamente, ao ponto em que estaríamos em 2007, procedendo ao levantamento, sem cedências à facilidade ou ao conformismo, das debilidades e das potencialidades culturais de Guimarães e da sua região. Paralelamente, fará sentido prosseguir com o aprofundamento do conhecimento do nosso potencial de afirmação europeia. Para tal, é preciso estudar, conhecer mundo, conhecer o que se faz por essa Europa, colher as boas experiências e usá-las como base de trabalho. Para se fazer mais e melhor.
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2 de setembro de 2009

O Desafio de 2012 (1)


De regresso, depois de umas semanas por fora, proponho-me partilhar aqui algumas reflexões pessoais sobre os desafios para 2012, que temos pela frente.

É possível que ainda não nos tenhamos dado conta, mas Guimarães vai ser Capital Europeia da Cultura já ali, ao virar da esquina, em 2012. Será o maior e mais exaltante de todos os desafios que Guimarães tem enfrentado em toda a sua história, que não é pequena. Um desafio que, há alguns anos, nem nos sonhos dos mais fantasistas se poderia conceber como possível. Um grande desafio, alguns disseram que demasiado grande, para uma cidade com a dimensão se Guimarães. Estará à altura de lhe corresponder? Mal andaríamos se não acreditássemos que sim, mas temos que ter consciência de que, para que tal aconteça, a cidade terá pela frente os seus doze trabalhos de Hércules.

O anúncio de que Guimarães seria Capital Europeia da Cultura, já lá vão quase três anos, foi, a todos os títulos, inesperado e surpreendente. Um dia, há-de escrever-se a história deste processo. O segredo estava tão bem guardado que, naquele já distante 7 de Outubro de 2006, não haveria em Guimarães mais do que um par de pessoas que sabiam o que se ia anunciar. Guimarães não estava munida de um projecto de Capital Europeia da Cultura, mas tinha em carteira algumas ideias que repousavam, aguardando por dias melhores (o projecto CampUrbis, um Centro de Arte Contemporânea associado ao nome de José de Guimarães, a Casa da Memória). Não tinha, nem podia ter, um programa para Capital Europeia da Cultura. Era expectável que de imediato fosse desencadeado o processo de construção do projecto de Guimarães para 2012, criando-se grupos de trabalho, desenvolvendo-se rotinas, estimulando-se públicos. A Capital Europeia da Cultura deveria começar a acontecer logo ali. É verdade que se criou um grupo de missão e que o ano de 2007 foi, em parte, preenchido pelo trabalho de auscultação de entidades, personalidades e sensibilidades, em busca de uma ideia para a CEC. Criou-se, então, a ideia de que os trabalhos para a Capital Europeia da Cultura estavam a entrar em velocidade de cruzeiro e que avançariam decididamente no ano de 2008. Não foi bem isso que sucedeu, mas deram-se alguns passos importantes, com destaque para a apresentação dos cinco projectos de intervenção urbana que tinham 2012 como horizonte.

Entretanto, a crise económica e a mudança da equipa do Ministério da Cultura caíram em cima do processo e prejudicaram-no seriamente. Deu-se também a saída de cena do vereador que era a cara dos cinco projectos, que, por força das circunstâncias, caíram, em larga medida, num limbo de indefinição.

O CampUrbis, está no terreno; a Feira Semanal vai avançar; o projecto de intervenção no Toural e nas áreas adjacentes da Alameda e da Rua de Santo António foi abandonado, tendo sido substituído por um outro, mais consensual, que vai irá avançar em meados de 2010; a ideia de instalação da Plataforma das Artes em espaço adjacente ao CCVF e ao CampUrbis, envolvendo a recuperação do Teatro Jordão, parece que se perdeu em definitivo, porque os seus custos não puderam ser acomodados no orçamento disponível, com o que Guimarães ficou a perder (podendo ganhar uma chaga de degradação urbana, como consequência da surpreendente falência da empresa de frigoríficos que estava instalada naquele espaço). No meio destas indefinições, ainda não é claro o que irá ser feito com o que se projectava para o Mercado Velho.

O factor tempo vai ser determinante para o sucesso da CEC. É preciso tempo para os projectos, para a construção de obra física, para a criação de conteúdos, para o envolvimento da cidade e dos cidadãos. E o tempo urge.

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