28 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (13)

Capítulo da “Relíquia”

Então o douto Topsius disse-me, formalizado e solene:

– Dom Raposo, afiança-lhe um homem que a Alemanha escuta em questões de crítica e de história; há no seu país uma figura que basta à reputação de uma nação.

Eu murmurei vagamente: – Sim, em Portugal há grandes vultos, há o Herculano, há o Rebelo da Silva, o Zé Ricardo, o Morgado de Covas...

Não, D. Raposo, não, atalhou o erudito homem, Herculano foi um rígido, alimentando-se do facto nu, estreme, sem poesia, sem centelha...

Eu pressuroso ia atalhar: – E o Eurico, e o Eurico ?

Mas já Topsius epilogava esguio e lento com os doutos óculos refulgindo na ponta do bico:

Herculano era um seco, Rebelo da Silva um retórico, Oliveira Martins um diletante. Não, D. Raposo, em verdade lhe digo, o homem a quem me refiro é o Maximiano...

– O nosso, o do Porto? gritei arrebatado. E depois, mais sereno, passando a língua pelos lábios, saboreando com gula essa delícia:

– É para ver Topsius, é para você ver! Grandes escritores não nos faltam. Sabe você o que há pouco em Portugal? É quem saiba ler, sapiente amigo, É quem saiba ler!

Eça de Queirós [aliás, João de Meira, 1911]
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