16 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (3)

Saudade

Qual o doce ribeiro, que de leve
Atravessa mil prados e campinas
E as águas parte, que depois recebe,
Em duas puras fontes cristalinas,
Juntas as nossas vidas tempo breve
Se apartaram depois por várias sinas,
E agora vão seguindo de ano em ano,
Pobres vidas, de engano em desengano.
Mas se a água dos rios não percebe
Saudade de outras águas diamantinas,
Não são gémeas das águas, nem se deve
Às águas comparar vidas tão dignas;
Que por longe que o triste fado as leve
Saudades vem juntar as peregrinas,
Sem esperar que ao fim de tanto engano
As junte a morte, que é profundo oceano.
Luís de Camões [aliás, João de Meira, 1911]
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