14 de setembro de 2009

João de Meira, escritor-fingidor (1)


Muitos o chamaram de génio, alguns o apodaram de falsário. João de Meira foi, no dealbar do século XX, uma das nossas inteligências mais luminosas. Escritor talentoso, divertia-se a imitar os estilos de autores de diferentes épocas da história da literatura, de D. Dinis a Conan Doyle, de Camões a Emile Zola. Em 1918, seis anos depois da sua morte, o jornal Ecos de Guimarães homenageou João de Meira, publicando alguns escritos seus, a par de textos de amigos que celebravam a sua memória. Entre eles, lemos este, de Cândido de Pinho:

João de Meira pertencia à falange dos estudiosos e as afinidades do seu espírito orientavam-no sobretudo para as situações e acontecimentos do passado.

Era um evocador; e debaixo deste ponto de vista o seu talento exercitava-se todos os dias em fazer viver e falar os actores e cenários, que se impunham à sua sensibilidade e que a sua fantasia debuxava em contornos luminosos.

Esta tendência inclinava-o irresistivelmente para os estudos históricos. Era já neste campo um erudito e em breve seria um organizador da tradição, um sistematizador da História.

Ao entrar no magistério encontrou alguém que o relacionava intimamente com essa corrente de investigadores, que na nossa Faculdade iniciou a História da Medicina. Maximiano de Lemos levava já muito adiantada a obra que tem constituído a preocupação da sua vida; e esse recebera directamente dos que o precederam o fogo sagrado que só os predestinados e os adeptos descobrem e sabem conservar. Pacientemente, obstinadamente, ia reunindo os materiais da construção que delineara.

Era um centro de atracção. João de Meira acercou-se naturalmente dele e em breve o nome dos dois figurava na testeira de “Os arquivos”, onde um e outro iam apurando materiais para novas edificações.

Assim vieram à luz alguns ensaios onde, a par da exegese histórica, se retemperava o estilo e o critério.

Não me proponho acompanhá-lo na sua tão curta e malograda carreira. Neste momento e para desafogo da saudade em que vai também um preito de admiração, eu quero apenas aludir a um episódio, em que o génio e o saber de João de Meira se revelam flagrantemente.

Maximiano de Lemos decidiu em 1911 abandonar o ensino para se entregar mais de espaço a sua paixão absorvente. As simpatias que o seu convívio lhe granjeara na Faculdade iam passar por uma rude prova.

Decidiram pois os seus colegas oferecer-lhe um jantar de despedida, a que Maximiano de Lemos respondeu pouco depois com um outro, em sua casa, onde a amenidade efusiva do trato se prolongou até altas horas.

Não há o menor exagero em supor que uma reunião destas, constituída por uma dúzia de homens ilustrados, inteligentes, duma cultura que sem favor se pode considerar notável no nosso meio, havia de decorrer em lances de interesse a que não faltava nenhum dos a atractivos de que se rodeia a conversação cintilante, e o propósito subtil e jovial, a facécia donairosa e louçã.

Pois é forçoso confessar que nesse concurso de praça e beleza espiritual João de Meira encontrou ensejo de fazer sobressair a feição característica da sua individualidade por forma que a nuvem de melancolia que, às vezes pairava no seu rosto, se convertia em auréola de inspirado.

No intervalo de cada um dos pratos João de Meira levantava-se, simples, recolhido e solene, e, chegando junto de Maximiano, recitava-lhe um texto, composto no estilo dos nossos literatos mais notáveis desde o XII século até agora, alusivo à sua jubilação. A linguagem, o pensamento, a estrutura da frase, a própria feição crítica ou dialéctica do autor, achavam-se reproduzidas com uma exactidão inexcedível. Ninguém diria que não estava ouvindo um trecho impressivo dum dos nossos mais considerados literatos, prosadores e poetas. Assim foram desfilando naquele cortejo apoteótico e comemorativo o rei D. Dinis, Fernão Lopes, Cristóvão Falcão, Luís de Camões, Diogo Bernardes, Padre António Vieira, Fialho de Almeida, Eça de Queirós, António Nobre, Xavier de Novais e outros até concluir por uma engraçada facécia, estilo Conan Doyle, intitulada Sherlock Holmes no Porto. Era uma verdadeira balada heróica, fazendo lembrar a balada dos mortos, de Huland.

Quando assim se consegue imprimir ao estilo um tal poder de penetração e análise, ele deixa de ser uma simples manifestação do carácter para se tornar uma arte requintada e suprema, que só o estudo e o trabalho assíduo podem conferir.
Cândido de Pinho.
[in Ecos de Guimarães, n.º 200, de 10 de Março de 1918]
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