14 de Novembro de 2009

Os limites da cidade de Guimarães em 1853


Vista de Guimarães, em meados do século XIX.

Em 1916, o jornal o Republicano, de Guimarães, publicou uma nota em que se descreviam os limites de Guimarães, em meados do século XIX, no momento em que de vila passou a cidade:

Velharias

A vila de Guimarães, elevada à categoria de cidade por decreto de 22 de Junho de 1853, como os leitores sabem, tinha os seguintes limites:

1.º Arco dos Capuchos.

2.º Embocadura da Rua de Santa Cruz, junto às casas do Padre Martinho.

3.º Carrapatosa, ou Casa das Hortas.

4.º Portal de ferro do Conde de Vila Pouca, do lado das Capuchas.

5.º A casa de Vila Verde, além do rio da Rua de Couros.

6.º A cancela do fim da Rua de Relho.

7.º O portal do Sabacho, acima do Estrepão.

8.º O ortatório da rua de Cruz de Pedra, ou o largo desta Rua.

9.º O portal de ferro da quinta dos Pombais.

10.º A porta do carro, que dá entrada para a cerca do extinto convento de S. Domingos.

12.º As casas do portelo ao Norte da Margaride.

[O Republicano, n.º 2, ano 1, Guimarães, 1 de Abril de 1916.]

10 de Novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (6)


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Do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, provavelmente o primeiro proprietário da edição de 1572 de Os Lusíadas da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, eis a biografia conhecida, traçada pelo Abade de Tagilde no n.º 1 da Revista de Guimarães:

Torquato Peixoto de Azevedo

Filho do sargento-mor João Rebelo Leite e de sua mulher D. Isabel Peixoto de Azevedo, irmão do célebre João Rebelo Leite, cujos serviços à pátria na guerra da Aclamação lhe granjearam a graduação de Mestre de campo ad honorem por carta régia de 15 de Janeiro de 1664 e a quem bem cabe a antonomásia de Lidador Vimaranense, que lhe dá o P.e Caldas, nasceu o nosso terceiro monografo — e não primeiro, como erradamente se afirma no Dicionário Popular dirigido pelo exc.mo Pinheiro Chagas — a 2 de Maio de 1622.

Desde criança madrugou nele a inclinação para as letras, especialmente para a história, predilecção que sempre conservou até aos últimos dias de sua vida, empregando todas as horas, que lhe restavam das suas obrigações sacerdotais, no estudo para que, como ele mesmo diz, a ociosidade, mãe de vícios por inimiga da virtude, não fosse ocasião de estragar-se-lhe a honra.

Trabalho tão assíduo não podia deixar de produzir fruto, e assim a sua pena se (levem além de três cadernos de importantes notícias, trinta e cinco volumes; vinte e dons dos quais no tempo de Barbosa Machado se achavam em poder de Manuel Peixoto dos Guimarães Freitas e Miranda, senhor da quinta de Lamelas na freguesia de Santo Adrião de Vizela então do termo de Guimarães e hoje do concelho de Felgueiras, filho de D. Mafalda Luísa Leite de Azevedo, filha de António Leite Ferreira, irmão do nosso monógrafo.

Segundo o testemunho de Barbosa Machado e de D. António Caetano de Sousa, dez destes volumes ocupavam-se das vidas de diversos reis de Portugal e Castela, duques de Bragança e de Lorena e descendência das casas reais de Castela e Áustria e as doze restantes tratavam de genealogias de famílias portuguesas, provavelmente minhotas, examinadas com judiciosa crítica.

Uma outra obra se deve ao estudo incansável do P.e Torquato Peixoto de Azevedo e é ela que nos leva a ocuparmo-nos agora deste nosso patrício. São as Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, impressas em 1845 no Porto — tipografia da Revista.

Esta obra, escrita pelo seu autor para fornecer a seus leitores exemplos não só "para conservação da vida humana como para o conhecimento do perigo de que nos devemos desviar para não chegar a perder a eterna" compreende "as primeiras polícias da nossa antiga Araduca, a fundação da nova Guimarães e de sua igreja real; sua grandeza, moradores, freguesia, concelhos, coutos e honras de seu termo; edifícios, mosteiros, capelas, rios, pontes e fontes suas vizinhas; morgados e privilegias, isenções e liberdades com que foram honrados de seus réis; casos e sucessos que na sua defesa e do reino lhe sucederam", Assim o promete a autor na prefação. Satisfaria?

Tem a Antiga Guimarães 142 capítulos, que nem todos se ocupam de Guimarães, pois os primeiros 44 tratam, ainda que resumidamente, da divisão da terra pelas filhos de Noé, descrição da Europa, povoação da Espanha e diferentes divisões que no correr dos tempos sofreu, formação de Portugal, povoação e sucessos de Entre-Douro-e-Minho, tanto no tempo dos Gregos, Celtas — se estes aqui vieram —. Como no dos Romanos, Gados e Árabes. Os restantes 98 capítulos, que abrangem 355 páginas, ocupam-se do que mais directamente diz respeito a Guimarães situada "no meio de tão excelente província de Entre-Douro-e-Minho, como pedra preciosa desta jóia, esmaltada de excelências".

No curto espaço duma biografia e escrita corrente calamo não nos é possível, embora possuíssemos a competência que nos mingua, desenvolver apreciações criticas relativas aos capítulos, que tratam das causas de Guimarães, e mesmo porque a confrontação da Antiga Guimarães com a obra ultimamente publicada Guimarães, apontamentos etc., põe em relevo as faltas e merecimentos do P.e Torquato.

Suposto que este título da Antiga Guimarães não seja muito próprio para cativar e prender a atenção do leitor e apesar de em tanta variedade de factos depararmos algumas inexactidões e mesmo contradições e por vezes nos enfadar tanta difusão, talvez desnecessária e nem sempre uma rigorosa crítica lhes servir de norte, as Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães hão de sempre ser consultadas por quem deseje conhecer as transformações por que a velha pátria do rei conquistador ia passando.

O P.e Torquato coloca-nos à mão muitos dados, cujo conhecimento só alcançaríamos manuseando grossas volumes e dá-nos conta de outros, que não adquiriríamos sem o seu auxílio. Deixa-nos alguns pontos que desejaríamos mais lucidamente desenvolvidos e de boamente prescindiríamos de algumas minuciosidades, que nos narra. Mas onde a formosura sem senão?

É necessário também ter em vista a época em que escreveu o nosso patrício; sua obra não podia deixar de ressentir-se da influência do seu tempo e neste quase todas as produções literárias, como diz o Dicionário Popular, são difusas, prolixas, obscuras.

Eis o nosso desautorizado parecer acerca da P.e Torquato Peixoto de Azevedo, esse indefesso vimaranense, que terminou sua longa carreira na idade de 83 anos aos 23 de Junho de 1705.

João Gomes de Oliveira Guimarães, "Monógrafos vimaranenses", Revista de Guimarães, n.º 1 (4) Out.-Dez. 1884, p. 190-195

Se as Memórias ressuscitadas do Padre Torquato se ressentem, quanto à objectividade histórica, da influência do seu tempo, da sua leitura parece resultar claro tratar-se de um excelente prosador.

Tem a antiguidade muitas sombras, porque são nela tantas as escuridades como os anos, e o que se soube bem esconder nunca se pode bem conhecer, pelo que acham os tempos testemunhas falsas nas histórias, se os anais não são verdadeiros, e é temeridade querer pôs à luz o seu principio, quando o descuido dos que viveram naqueles primeiros séculos não deixaram notícias de suas memórias…

Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memorias ressuscitadas da antiga Guimarães, 1692 (edição de 1845, cap. I, p. 9).

9 de Novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (5)


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Apurado tudo quanto haveria para apurar em relação ao último proprietário do volume do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, antes da sua entrada para o acervo da SMS, passou-se a explorar a pista "Azevedo", manuscrita no frontispício da obra. Como Azevedo se trata de um sobrenome relativamente comum, tentou-se encontrar algum nexo entre os Lusíadas, Guimarães e alguém assim chamado. Colocaram-se diversas hipóteses, das quais ressaltou uma especialmente plausível: um dos primeiros monógrafos de Guimarães, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705), autor das Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, que conhecia bem a obra de Camões, a quem cita, dizendo que o insigne Camões a quem nada ficou por dizer tocou a luz (pp. 155-156 do manuscrito de 1692 e 202-203 da edição impressa de 1845, que contém graves erros de transcrição, como por exemplo o de, na citação da estrofe 7.ª do Canto I, trocar o Ocidente, que aparece no manuscrito, pelo Oriente).



Procedeu-se, em seguida, à comparação do 'Azevedo' do frontispício dos Lusíadas com o da assinatura do Padre Torcato no manuscrito das suas Memórias ressuscitadas… e, apesar da diferença óbvia no desenho da letra z, que resulta do facto de, nos Lusíadas, a palavra ter sido quebrada em duas linhas (Azeve/do), apresenta semelhanças muito convincentes: os dois Azevedos parecem ser um só. Em seguida, procuraram-se outros manuscritos do Padre Torcato e encontrou-se um grosso volume contendo um Nobiliário, da sua autoria, onde se traçam as genealogias de diversas famílias da nobreza portuguesa. Cotejando este manuscrito com a rubrica que aparece nos Lusíadas, desvaneceram-se as dúvidas, mesmo em relação ao z dissonante. O 'Azevedo' da marca de posse dos Lusíadas é o ilustre Padre Torcato Peixoto de Azevedo.

8 de Novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (4)



No livro de actas da direcção da SMS está registado que, na sessão de 1 de Novembro de 1886, foi decidido comprar por duzentos mil réis as livrarias dos dois irmãos Cardoso (o cónego dedicava-se à escrita, sendo autor de diversas peças teatrais; o seu espólio literário foi doado por uma irmã à SMS). No "Boletim" referente ao último trimestre de 1996, publicado na página 48 do n.º 4 da Revista de Guimarães (1887), faz-se menção à aquisição destas importantes livrarias, obtidas pela diminuta quantia de 200$000 réis. Quanto ao espólio adquirido, diz-se que é composto na sua máxima parte de obras de reconhecido merecimento e necessidade incontestável. Nada se refere quanto aos Lusíadas. A notícia de que esta obra fazia parte do acervo bibliográfico adquirido pela SMS aparece no jornal O Comercio de Guimarães, em 10 de Janeiro de 1887:

A primeira edição dos «Lusíadas»

Entre as obras valiosas e raras, que faziam parte da importante livraria do falecido jurisconsulto, snr. Dr. Bento António de Oliveira Cardoso, adquirida, como noticiámos, pela benemérita Sociedade Martins Sarmento, encontra-se a primeira edição dos «Lusíadas» impressa em 1572, sendo ainda vivo o grande poeta.

O exemplar dessa edição, que, como se sabe, é raríssima e dum alto valor, está no mais perfeito estado de conservação, e cobre-a uma encadernação magnífica e sólida.

Estabelecido o modo como o volume chegou à posse da Sociedade Martins Sarmento, falta traçar-lhe o percurso até entrar na posse de Bento Cardoso. Num dos anúncios para a venda da biblioteca de Bento Cardoso publicados no Comércio de Guimarães, encontrámos a referência a um catálogo que poderia ser consultado por eventuais interessados que com a compra dos livros também deveria ter passado para a posse da SMS. Efectivamente, no ficheiro dos manuscritos da Biblioteca da Sociedade há um documento com o título Catálogo dos livros do Dr. Bento António de Oliveira Cardoso. Trata-se de um grosso volume, com excelente encadernação. Infelizmente, todas as suas páginas ficaram em branco.

7 de Novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (3)



Como os livros que eram oferecidos à Sociedade Martins Sarmento eram registados nas actas da Direcção e nada havendo a respeito do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, presumiu-se que a obra teria chegado á biblioteca por outra via. Seguindo uma indicação da investigadora Maria José Meireles, que já se tinha deparado com uma referência à chegada dos Lusíadas na década de 1880, foi possível apurar que, afinal, o exemplar da SMS não tinha sido doado, mas que havia sido comprado num leilão, após a morte do seu anterior proprietário o Dr. Bento Cardoso, um conhecido bibliófilo, reputado advogado de Guimarães, (Camilo Castelo Branco refere-o na Brasileira de Prazins). Nas páginas 166 e 167 da 2.ª edição, de 1996, da obra Guimarães – Apontamentos para a sua História, do Padre António José Ferreira Caldas (1.ª edição: 1881), encontra-se a seguinte nota:

"— Bento António de Oliveira Cardoso, cavaleiro da Ordem de S. Tiago da Espada, bacharel em cânones pela universidade de Coimbra, sócio correspondente da Associação dos advogados de Lisboa, etc. Nasceu a 25 de Janeiro de 1806. Escreveu magistralmente sobre vários assuntos jurídicos, que se acham publicados na Gazeta dos Tribunais e no Portugal, assim como vários artigos sobre medicina legal. A respeito da sua ALEGAÇÃO JURÍDICA, QUESTÃO DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS, etc., diz o snr. António Gil que é uma das mais ricas alegações que se podem imaginar, rica na forma e na matéria, e notável principalmente na parte em que trata dos vedores, e da vedoria, por ser este assunto, se não completamente ignorado, ao menos bastante estranho a quase todos que cursam o foro na capital. As ALEGAÇÕES JURÍDICAS do nosso egrégio patrício, das quais faz comemoração honrosa o snr. Inocêncio no seu DICIONÁRIO, são de tal alcance e valimento, que não posso roubar-me ao desejo de citar aqui algumas das mais importantes, e que por isso mereceram levantados encómios dos mais abalizados jurisconsultos do nosso país. Seja a primeira REFLEXÕES JURÍDICAS A FAVOR DA MISERICÓRDIA DE GUIMARÃES, com o seguinte enunciado: «Devem as misericórdias pagar emolumentos aos párocos pelo baptismo dos expostos, e será justo e louvável ou racionável tal costume quando exista? - Não, porque tudo quanto se der ao pároco por tal título é à custa dos miseráveis expostos ou de suas pobres mães que na dita misericórdia vão procurar um asilo em tal transe». - Vem publicada na Gazeta dos Tribunais, tom. XIV, nº 1981, e é ali tratada a questão com tal proficiência, que a redacção a aprecia deste modo: «Esta alegação jurídica acha-se tão bem deduzida, e é tão rica de argumentos tirados do direito canónico e do direito civil, que nada deixa a desejar, podendo servir de modelo no seu género». É igualmente digna de menção a sua ACÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA que se lê no tom. XXV da mesma Gazeta, nº 3713. Tratam-se aqui com uma profundidade e erudição jurídica e médico-legal, pouco vulgar, duas das mais importantes e duvidosas questões que se debatem e tem debatido no nosso foro tanto antigo como moderno. Finalmente no tom. XXVIII da mesma Gazeta, e ainda em outras muitas, o nosso prodigioso patrício apresenta-se nas variadíssimas e intrincadas questões jurídicas como um dos mais distintos, mais vigorosos e invencíveis polemistas. O nosso imortal jurisconsulto possui ainda muito notável erudição em todos os ramos de literatura, e é senhor duma das mais selectas e preciosas livrarias da província do Minho."

Bento Cardoso faleceu em 12 de Abril de 1886. Consultados os jornais da época, encontrou-se a notícia da sua morte, redigida em termos muito curiosos para um obituário, no Religião e Pátria de 14 daquele mês:

"— Falecimento – Até que enfim, já não é deste mundo o exmo. snr. dr. Bento António de Oliveira Cardoso, o abalizado jurisconsulto, honra e glória desta terra e ornamento distintíssimo do foro português. Vitimou-o anteontem a penosíssima enfermidade que há muito tempo o atormentava, e o seu cadáver teve hoje os respectivos ofícios fúnebres na igreja de S. Francisco, sendo depois conduzido, em luzido cortejo, ao cemitério municipal, onde foi sepultado."

No Comércio de Guimarães de 18 de Novembro seguinte aparece um anúncio intitulado "Venda de Livraria, onde se lê que até ao dia 31 de Dezembro do corrente ano, está patente o catalogo da livraria que foi do falecido Dr. Bento António de Oliveira Cardoso, na casa do mesmo falecido, rua de Camões, n. 101". A residência na rua de Camões parecia ser um bom augúrio… No Religião e Pátria de 4 de Dezembro, já se noticiava que a Sociedade Martins Sarmento "adquiriu por compra, para a sua biblioteca as livrarias do afamado jurisconsulto dr. Bento António de Oliveira Cardoso e do seu irmão cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso". Por esses dias, não se encontra qualquer referência ao poema de Camões.

"... Porque tanto amamos a nossa Guimarães?"


"… Porque tanto amamos a nossa Guimarães? Fora uma junqueira brava, com um passado de cabana, amortecida na atonia das horas indiferentes e paradas! Mas ela tem, neste formoso quadro minhoto, a mais enternecida paisagem de suavidade e maravilha. As suas casinhas arruam-se em estâncias saudosas. Tressua a pedra dos seus muros o sangue forte dos gloriosos fundadores da nossa nacionalidade. E nem uma só hora, uma só, viveu a inquietação da alma pátria em que ela não estivesse identificada com toda a sua alma. Era terrível e vitoriosa a sua espada, porque ela mesma lhe forjara a têmpera. Longamente se entregou a um sonho de misticismo fervoroso — e é ainda essa luz tão meiga e profunda, admirável, que ilumina os olhos das suas moças. Fez o bragal do linho da terra, o doce — do fruto das suas árvores. Pintou, agricultando, o quadro esverdecido e doirado das suas encostas e das suas várzeas. Cantou e sofreu. Foi S. Mamede e verteu, regou com seu sangue Aljubarrota, Ceuta e índia. Não temeu o Império dos Filipes e defrontou-se com Napoleão. E trabalhou sempre. A enxada, o escopro, o cinzel, a forja. Apegou-se à terra, entocou-se nas oficinas, sulcou os mares, estremeceu na ânsia da arte. Com insistência tão devotada e tão amorosa, ao comprido de tantos séculos, que, neste recanto afastado, ao mesmo tempo que amassava em glória um passado brilhante e limpo, fortalecia uma grande e bela tradição de trabalho, essa de que descende e criou a laboriosa e honrada Guimarães de nossos dias."

Setembro de 1925
Eduardo de Almeida
[in Guimarães - O Labor da Grei, Guimarães, 1926]

6 de Novembro de 2009

"O tempo que se perde, não se torna mais a achar"


"O período que permeia entre a data actual de apresentação da candidatura à atribuição do título de Capital Europeia da Cultura e o ano de celebração desse título, em 2012, será o TEMPO adequado para impulsionar novas forças de actividade cultural na cidade e no concelho, no sentido, nomeadamente, de criar condições para a sustentabilidade do projecto da Capital."
Do documento de Candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura.

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (2)




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Não existindo documento de registo da entrada na Sociedade Martins Sarmento do exemplar da edição de 1572 de Os Lusíadas, à partida apenas se sabia, com certeza, que a obra já se encontrava na Biblioteca da SMS em 1887, aquando da edição do seu primeiro catálogo impresso (onde já consta, mas sem qualquer indicação de proveniência), e que ostenta, além do carimbo da SMS, uma outra marca de posse, manuscrita na base do frontispício ('Azevedo').

No "Dicionário Bibliográfico Português", de Inocêncio Francisco da Silva, publicado num tempo em que a versão Ee… era tida como a 2.ª) aparece uma listagem dos exemplares desta edição de que Inocêncio teria notícia (p. 251, tomo 14.º), a saber:

1.º o da Biblioteca Nacional de Lisboa: 2.° o que existia no convento de Jesus, pertencente hoje á Academia, dado aos religiosos do dito convento pelo falecido dr. Lima Leitão, como consta de uma declaração autógrafa nele exarada: 3.° o que foi do falecido Visconde de Almeida Garrett, pertencente hoje ao sr. José Maria da Fonseca: 4.° o da colecção Norton: 5.° o da colecção Adamson (vendido por 11 £): 6.° o que foi do dr. Abranches, e depois de Joaquim Pereira da Costa: 7.° o que pertenceu ao extinto mosteiro de S. Bento de Lisboa, daqui levado pelo ex-beneditino Fr. João de S. Boaventura em 1834 (vej. no Dicionário, tomo III, pág. 330) existente agora na Biblioteca Pública do Rio de Janeiro: 8.° o do Gabinete Português de Leitura da mesma cidade, comprado por 154:000 réis (moeda do Brasil): 9.° o da Biblioteca Imperial de Paris, etc., etc.

Quanto ao exemplar da Biblioteca da SMS, nada em Inocêncio. O seu continuador, Brito Aranha, na página 32 do Tomo 5.º, insere uma outra listagem dos exemplares da versão Ee…:

Desta segunda edição, são conhecidos os seguintes exemplares em Lisboa: da academia das ciências, da biblioteca nacional (dois, um em melhor estado de conservação, que o outro); dos srs. Fernando Palha, conselheiro Gama Barros (que pertenceu ao falecido José Maria da Fonseca); bacharel António Augusto de Carvalho Monteiro (que o adquiriu no leilão dos livros do conselheiro Minhava), e João Henrique Ulrich; no Porto: o sr. dr. José Carlos Lopes, no Brasil: sua majestade o imperador, o gabinete português de leitura do Rio de Janeiro, e a biblioteca nacional da mesma cidade; e em Paris: a biblioteca nacional. O exemplar da segunda edição, que possui a biblioteca nacional do Rio de Janeiro, foi comprado em 1880 ao livreiro editor, sr. B. L. Garnier por 405$000 réis (moeda fraca). Pertencera a D. Diogo de Rocaberti y de Pau, cuja assinatura autografa vem na folha do rosto. Está em perfeito estado de conservação.

Também aqui, nenhuma referência ao exemplar da SMS.

Para a edição em fac-simile dos Lusíadas (ed. de 1921), a Biblioteca Nacional fez o levantamento dos exemplares existentes, cujo resultado aparece na pág. XXXIV da obra. É o seguinte:

EXEMPLARES DE Ee

A Biblioteca Nacional de Lisboa possui quatro, marcados na Camoneana com os n.os 2, 3 (foi este o reproduzido), 4 e 11 (preto). O frontispício, licenças, privilégio (4 pág.) e as ff. 177 e segg. do texto de Ee 11 pertencem à ed. de 1597, sendo por isso colocado ao pé dos exemplares desta ed. Foi posto o n.º 1 ao exemplar de E.

Ha também um exemplar de Ee na Biblioteca da Academia das Sciências. Vai reproduzida uma est. deste ex. no § 1 da Introd.

Responderam à circular da Direcção da B. N. de Lisboa, informando que possuíam um exemplar de Ee, as seguintes entidades

Portugal, Lisboa: Os Srs. Henrique da Gama Barros, D. Francisco de Almeida e Conde de Avilez. Porto: Ateneu Comercial (1). Guimarães: Sociedade Martins Sarmento (2).

Brasil, Rio de Janeiro: Gabinete Português de Leitura (3).

França, Paris: Biblioteca Nacional (4).

Inglaterra, Londres: Museu Britânico (5). Oxford: A Bodleiana (6). Comunica também a Direcção do Museu Britânico que existem ali dois exemplares de E, num dos quais as 2 primeiras folhas são de Ee.

Itália, Nápoles: Biblioteca Nacional. Ex. que pertenceu à casa Farnese (7).

Os números entre parêntesis remetem para pormenores de cada exemplar que foram objecto do inquérito da BN, que aqui se omitem.

5 de Novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (1)





Entre os incontáveis tesouros que se guardam na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, conta-se um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas. Por facilidade, reproduzo aqui a descrição que preparei há alguns anos para a página na internet da Casa de Sarmento:

Os Lvsiadas / de Luis de Camões .- Impressos em Lisboa : em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572, 186 f.; 4ª (25 cm).

Edição conhecida por edição "Ee".

A primeira edição, de 1572, produzida em casa do impressor António Gonçalves, de Lisboa tem sido objecto de uma velha controvérsia, iniciada no século XVII com a publicação de "Os Lusíadas Comentados" de Manuel de Faria e Sousa, que descobriu que o pelicano que figura no frontispício da edição de 1572 aparece voltado para o lado esquerdo, nuns exemplares, e para o direito, em outros. A partir dos comentários deste autor, passou a aceitar-se a existência de duas edições da obra no ano de 1572, geralmente identificadas por A (pelicano voltado para a esquerda) e B (pelicano voltado para a direita) ou Ee e E, conforme no penúltimo verso da primeira estância apareça, sem a conjunção E entre gente remota edificarão ou apenas Entre…

A Sociedade Martins Sarmento possui um exemplar da edição conhecida por A ou Ee, hoje admitida como edição princeps, que apresenta o colo do pelicano voltado para a esquerda, e cuja impressão se pensa ter sido acompanhada pelo próprio poeta.

A primeira edição do poema camoniano deu origem a uma polémica, iniciada por Manuel de Faria e Sousa, na sua edição de 1639 de Os Lusíadas Comentados, quando constatou que o pelicano que figura no frontispício da obra aparecia voltado ora para a esquerda ora para a direita, em diferentes exemplares dessa edição, concluindo que terão saído do prelo, no ano de 1572, duas edições da obra.

Há alguns anos, Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, que consultou e comparou diferentes exemplares de 1572 de Os Lusíadas, foi de encontro a uma conclusão já avançada em 1846 por Rodrigo da Fonseca Magalhães, segundo a qual as diferenças detectadas em diversos exemplares da obra seriam o resultado de correcções efectuadas por Luís de Camões durante o processo de impressão. Não haveria, portanto, mais do que uma edição de 1572.

Quando a Universidade do Minho decidiu assinalar o seu trigésimo aniversário com a edição de um fac símile do exemplar de Os Lusíadas da SMS, com prefácio de Vítor Aguiar e Silva, tentei descobrir o rasto daquele volume até à sua entrada na Biblioteca de Guimarães. Aquilo que encontrei tem as suas curiosidades, que irei descrever aqui por estes dias.

3 de Novembro de 2009

Martins Sarmento, por Raul Brandão


Francisco Martins Sarmento, retrato a carvão de Abel Cardoso. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.


O sábio, e o arqueólogo sobretudo, sempre me apareceram sob este aspecto singular: homens que, à força de conviverem com a ciência hirta e as secas pedras, tinham endurecido o coração; homens de método e experiência, desavindos de tudo o que na vida e na natureza é simples e emotivo: arvores, amores, sol, o quinhão dos poetas enfim. Depois, porém, que conheci Martins Sarmento comecei a duvidar: estava diante dum sábio a valer, e ao mesmo tempo — o que é mais raro e mais apreciável — dum grande homem de coração e carácter.

Guimarães deve-lhe muito: escolas, instrução, e essa admirável biblioteca Martins Sarmento, que tem, ao contrário de quantas outras eu conheço, a extraordinária opinião de que os livros se fizeram para se ler e assim os empresta a quem os queira, sócio ou não.

E este foi o pensamento dominante de toda a sua vida — instruir. Por isso Martins Sarmento tem um valor mais alto, mais nobre: além dum sábio e dum grande coração, foi um homem que olhou para o futuro. Fundando escolas, dedicando a sua vida inteira à instrução, trabalhou para os homens de amanhã.

E eles decerto não o esquecerão.

Raul Brandão, in Revista de Guimarães, Volume especial, 1900, p. 73

1 de Novembro de 2009

Como António Lobo de Carvalho ganhou uma casaca nova



De António Lobo de Carvalho tem-se destacado a sua verve desabrida e obscena. Mas os sonetos de António Lobo, onde o tom jocoso estava quase sempre presente, também adoptavam outros registos, e, por vezes, não escondiam propósitos comezinhos, como ser convidado para um jantar ou... obter uma casaca. Aqui fica um exemplo, num soneto dirigido ao Conde da Calheta, em que anunciava que a condessa sua esposa iria dar à luz um filho varão:

Eu tenho, excelso conde, um livro antigo,
Nunca das mãos me sai ou da algibeira,
Que um cigano deixou a uma parteira,
A qual em vida quis casar comigo!

Contém de adivinhações um longo artigo
Sinais de parto pela vez primeira;
E trata esta questão em lauda inteira, 
La Dama encinta si trae hombre, ó hijo;

Com que eu cá me entendo: isto suposto,
Quereis vós apostar um tanto ou quanto,
Pois mais que o ganho, a perda vai de gosto?

Se for varão, que venha a lume santo,
Perdeis uma casaca, e eu sempre aposto.
Sendo fêmea, atrás dela andar de manto.


Fosse pelas virtudes do livro do cigano, fosse por mera sorte, o poeta acertou no seu prognóstico. A Condessa da Calheta pariu um rapaz, em dia de Santa Rita de Cássia. António Lobo livrou-se de ter andar de manto, atrás de uma condessinha, e não tardou a reivindicar a casaca que ganhou na aposta:


Santa Rita a impossíveis consagrada,
Todo o mundo a respeita com fé pia
Cássia o diga, que incrível romaria
Não cobre o seu altar, e a sua entrada!

Mas co'a ilustre condessa atribulada
Na acção do parto, cuja dor sentia,
Que fez a Santa? Emprestar-lhe o seu dia,
Mas, além disso, não lhe fez mais nada.

Mais fiz eu, que observando o meu planeta,
Bem que sou de futuros língua fraca,
Vaticinei um conde em linha recta.

Morda-se a inveja agora ímpia e velhaca,
E em tanto acendereis a este profeta
Três velas de calção, véstia e casaca!


30 de Outubro de 2009

Do nascimento de António Lobo de Carvalho



 O Largo da Misericórdia, numa fotografia de 1890. A Rua das Flores, onde nasceu António Lobo de Carvalho, corria pelo lado esquerdo da fotografia. Foto da Casa de Sarmento.


Do notável “poeta fescenino” António Lobo de Carvalho não conhecemos o retrato. Da sua biografia, também não sabemos muito. Os que se debruçaram sobre a história da sua vida, como Natália Correia, dizem que “nasceu em Guimarães, provavelmente em 1730”. O Padre António Caldas registou que António Lobo “nasceu em Guimarães pelos anos de 1730, tendo por pais Diogo Ferreira da Silva e Jerónima Lobo, e viveu por muitos anos e falta de meios na Rua de Santa Rosa de Lima”.

Camilo Castelo Branco, que o chamou de “ave rara”, escreveu que “o poeta satírico António Lobo de Carvalho, falecido em Lisboa aos 26 de Outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era filho ilegítimo de fidalgo, e tinha em Vila Real parentes maternos que o educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lhas”.

Fomos à procura do registo de nascimento do nosso poeta, e encontrámo-lo a nascer em Guimarães, na paróquia de Nossa Senhora da Oliveira, no dia 2 de Abril de 1733. Ao contrário da informação de Camilo, era filho legítimo. Teve, pelo menos, quatro irmãos, um dos quais, José António Lobo, dois anos mais novo, se finaria em Lisboa em meados de 1756. Quanto à residência na Rua de Santa Rosa do Lima, ainda não encontrámos qualquer referência na documentação do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. É certo que o seu nascimento ocorreu na antiga Rua das Flores, que corria pelo lado voltado a Poente do Largo da Misericórdia (na sua configuração actual), em direcção a Valdonas. Temos notícia da residência da sua família nessa rua durante vários anos. Em 1756, já se havia mudado para a Rua do Gado. Quando o seu pai faleceu, no final de 1760, a família era moradora na Rua de Santa Maria.

Aqui fica a transcrição do registo de nascimento de António Lobo de Carvalho, não sendo ainda claro onde foi buscar o último apelido que utilizou ao longo da vida (Carvalho):

António. Aos dois dias do mês de Abril de mil setecentos e trinta e dois digo e trinta e três anos nasceu António filho legítimo de Diogo Ferreira da Silva e de sua mulher Jerónima Lobo Machado moradores na Rua das Flores desta freguesia e foi baptizado aos dez do presente mês e ano e lhe não pus os santos óleos pelos não haver ainda nesta igreja. Foram padrinhos o Capitão Gonçalo Lopes Pereira morador a Santa Cruz desta freguesia e Teresa Maria Borges mulher de Joaquim da Costa, moradores a Santa Luzia, freguesia de São Paio. Foram testemunhas o mesmo padrinho e o marido da madrinha, os quais assinam, e por verdade fiz este assento era ut supra.

O Cónego Cura, Luís Álvares Pereira
Gonçalo Lopes Pereira
Joaquim da Costa Silva

(à margem: Recebeu os santos óleos.)

[Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães. Livro de nascimentos n.º 6 da paróquia de Santa Maria da Oliveira.]

29 de Outubro de 2009

Desde que nasce o sol até que é posto

Desde que nasce o sol até que é posto
Governa o lavrador o curvo arado,
E de anos o soldado carregado
Peleja, quer por força, quer por gosto:

Cristalino suor alaga o rosto
Do barqueiro, do remo calejado;
Do cascavel ao dente envenenado
Anda o rude algodista sempre exposto:

Trabalha o pobre desde a tenra idade;
O destro pescador lanços sacode
Para escapar da fome à atrocidade;

Todos trabalham, pois que ninguém pode
Comer sem trabalhar; somente o frade
Come, bebe, descansa e depois fode.

António Lobo de Carvalho, poeta português do séc. XVIII. Nasceu em Guimarães.

27 de Outubro de 2009

Traços de Guimarães


Guimarães a traço de caneta. Uma boa desculpa. Um blogue de Alexandre Reis. A Seguir.

25 de Outubro de 2009

Guimarães: mãe ou madrasta?



Se acaso em Guimarães um rio houvera

com ninfas pelas margens em cabelo

e espuma donde brota a de Citera

 
Eu cantaria o Rei e o seu Castelo,

a velha Igreja, Mumadona austera,

Pedralva – o Velho, e até qualquer camelo,

 
Se acaso em Guimarães tal coisa houvera.

[M. Branco de Matos, Este Chão, Esta Cidade (Guimarães – um roteiro poético), Guimarães, 2008, p.7]



Gostar de Guimarães não se constrói, nasce connosco.

Costuma dizer-se que Guimarães é "má mãe e boa madrasta".




Um dos traços que mais me fascina em Guimarães está no modo aberto como esta cidade encanta e se deixa amar por aqueles que a descobrem. Ao longo dos tempos, muitos têm sido os que, vindos de outras paragens, entre tantas escolhas possíveis, elegeram Guimarães para viver. É que, se ninguém escolhe a terra onde nasce, está ao alcance de qualquer um escolher a terra onde quer viver e fazê-la sua. Guimarães é uma terra generosa, acolhedora e franca. Boa mãe, para os seus filhos e para todos os que a adoptam como mãe. Sempre foi assim.

Poderia deixar aqui um longo rol de nomes de vimaranenses que vieram ao Mundo em outros lugares e que em Guimarães deixaram a marca das boas obras.

(Assim como poderia indicar uns quantos que, nascendo dentro dos muros do velho burgo, se foram daqui e não mais deram sinais de afeição pela terra que lhes escutou o primeiro choro.)

É por isso que me causa uma certa pele-de-galinha a conversa de que Guimarães é má mãe e boa madrasta, especialmente quando aparece na boca de pessoas lúcidas, mas que, porventura, não serão imunes às manifestações um tanto primárias de um certo fundamentalismo bairrista.

Num dos últimos dias do último ano, foi lançado um livro de poesia muito bonito, que é uma das mais belas manifestações de amor a Guimarães escritas em  verso que eu conheço. A sessão foi um acto de amor inteligente a esta cidade. Ainda me lembro como, a certa altura, reparei que, ao meu lado, na mesa onde eu fazia o papel de anfitrião, estavam o autor do livro, a pessoa a quem coube a sua apresentação e o primeiro responsável autárquico de Guimarães. Todos eles são vimaranenses com obra feita em Guimarães. Sei que cada um deles, à sua maneira, aprendeu a amar esta cidade. No entanto, nenhum nasceu em Guimarães.

Certo dia, na altura em que, há alguns anos, a roda do destino me atirou para algo que não fazia parte do meu projecto de vida, colocando-me à frente da Sociedade Martins Sarmento, um grupo de pessoas veio ter comigo, com a intenção de me dar os parabéns, porque, "finalmente, havia um vimaranense à frente de uma instituição de Guimarães". Confesso que o propósito daquela embaixada, sei que bem intencionada, me tocou como um murro no estômago. Com aquele gesto, estava-se a negar a cidadania vimaranense à pessoa a quem substituí, num momento em que as suas cinzas ainda nem sequer tinham arrefecido. De seu nome Joaquim António dos Santos Simões, foi, de todas as pessoas com quem até hoje trabalhei, aquela que mais generosa e persistentemente dedicou a sua vida a Guimarães (e a quem esta cidade tanto deve). Na cabeça pequenina daquela gente, não era um vimaranense. Enganavam-se duplamente: porque poucos terão sido vimaranenses como Santos Simões (e eu não conheço nenhum que demonstrasse um afecto mais genuíno por esta cidade) e porque eu, por acaso, embora haja por aí muita gente que pensa o contrário, também não nasci em Guimarães.


Confesso, a quem julgar que isso possa ser um defeito, que o meu modo de gostar de Guimarães não me veio do nascimento: é uma construção, tecida com  razão e afeição, de que me orgulho.

24 de Outubro de 2009

Dos incêndios


Guimarães, 23 de Outubro de 2009

A notícia do incêndio de dia 23, na rua de Camões, renovou um velho debate sobre as condições de segurança nas construções antigas de Guimarães situadas no Centro Histórico e na respectiva "zona tampão". Essa é uma discussão importante. Pode contribuir para que se não deixe cair a guarda em matéria de prevenção, mas a verdade é que não há nenhum meio para tornar aquelas velhas construções imunes a incêndios. A solução seria a substituição dos materiais e técnicas de construção tradicionais, em que o granito se conjuga com a taipa de fasquio e a taipa de rodízio, por materiais incombustíveis, promovendo-se a betonização dos edifícios. Mas aí já não estaríamos a falar, seguramente, do Centro Histórico de Guimarães.

Incêndios sempre os houve e, certamente, sempre os haverá. Mas a cidade sempre se soube recompor a seguir às grandes catástrofes que a atingiram ao longo da sua história.

Não faltam memórias de grandes incêndios. Um dos mais terríveis de que temos registo é o que levou, em 4 de Junho de 1869, quase todo o topo norte do Toural (apenas se salvou o edifício da esquina virada a poente, que era de construção recente e em pedra), provocando quatro mortos e centenas de feridos, resultantes de uma explosão num armazém onde se guardavam, entre outro produtos inflamáveis, pólvora e gás. Na altura, foi voz corrente que o número de mortos seria mais elevado, porque não terão voltado a ser vistos uns carpinteiros da Senhora do Porto que então estavam a trabalhar em Guimarães.


Aqui fica o relato desse desastre, tal como apareceu no jornal Religião e Pátria:



O lado virado a Norte do Toural, já recuperado do grande incêndio de 1869 (fotografia de 1884)


Horrorosa catástrofe

Guimarães presenciou, na madrugada de ontem, uma das mais horrorosas catástrofes de que aqui há notícia.

Pelas duas horas deram as torres sinal de incêndio, que estava já muito ateado, numa casa ao Toural, onde o snr. João José de Sousa Aguiar tinha um armazém de fazendas e de molhados e materiais inflamáveis, e uma fábrica de refinação de açúcar.

Os socorros acudiram prontos e, apesar do incêndio ter tomado proporções assustadoras, várias pessoas se dispunham já com corajosa dedicação a combatê-lo, quando se ouviu uma fortíssima detonação seguida de uma violenta explosão. É escusado descrever a cena horrorosa que se passou então. Passado o primeiro pasmo, principiaram a ouvir-se clamorosos alaridos, gritos aflitivos de dor.

As vítimas haviam sido muitas. A explosão arremessara para longe uns, a outros fizera-os cair dentro da labareda, que então tomara proporções gigantescas.

Ninguém, por muito tempo, se chegou a o incêndio. Apenas se tratou logo de valer às vítimas, que principiaram a ser conduzidas em macas para o hospital da Ordem se S. Domingos, que a respectiva mesa prontamente franqueou.

Dos que se sabe, contam-se vinte e dois gravemente feridos, dos quais já faleceram três.

Dos outros, mais ou menos levemente contusos e feridos, talvez possa dizer-se que foram todas ou quase todas as pessoas que assistiam e trabalhavam na extinção do incêndio, porque a explosão fez voar estilhaços, que varreram o terreiro e quebraram as vidraças das casas vizinhas.

Afinal, o incêndio, achando elemento, desenvolveu-se numa escala espantosa, passou às casas contíguas e devoraria ainda as outras se não fosse fortemente combatido; mas era já alto dia, e ainda nãos e tinha conseguido a sua completa extinção.

Além das lamentáveis desgraças, que consternaram toda esta população, os prejuízos foram também grandes, apesar de se fazerem muitos salvados em géneros de negócio e móveis pertencentes às casas vizinhas que mais ou menos sofreram o incêndio.

Todos trabalharam com dedicação e coragem; mas são dignos de especial menção os bombeiros e os soldados do destacamento do 14, que se arrojavam denodadamente ao perigo, e que se viam sempre no mais aceso do incêndio.

Merecem também louvores os facultativos que imediatamente correram a valer às vítimas, os padres que se dispuseram a ministra-lhes os sacramentos, as mesas da V. Ordem Terceira de S. Domingos e de S. Francisco, pela prontidão com que mandaram abrir os seus hospitais.

As casas estavam seguras nas companhias Garantia e Bonança.

Parece que o proprietário do armazém fora há tempos intimado para retirar dali os materiais inflamáveis, e que não fizera caso da intimação.

Como este, há ainda por aí outros armazéns e depósitos, que nunca deviam ser consentidos senão em casas isoladas, para fora de barreiras.

Sirva ao menos isto de exemplo e prevenção para futuras catástrofes.

Religião e Pátria, 9.ª série, n.º 47, 5 de Junho de 1869


23 de Outubro de 2009

Um problema de ‘lana caprina’


Guimarães é uma cidade com as suas curiosidades. Uma delas reside no facto de, por aqui, os "historiadores" parecerem brotar às catadupas, de onde menos se espera. Dá-se um pontapé numa pedra e saltam dois "historiadores" de baixo dela. O mais certo, é serem especialistas num dos ramos mais obscuros dos estudos históricos nacionais, a Idade Média. O que não falta por aí são "medievalistas de bancada", que nunca entraram num arquivo e que são incapazes de ler e de interpretar um documento medieval, por manifesta iliteracia paleográfica, mas que transluzem certezas em matérias em que os humildes historiadores profissionais apenas conseguem avançar, e muito à cautela, com dúvidas e incertezas.

Não tenho por hábito discutir medicina com médicos, nem leis com juristas, nem gáspeas com sapateiros. Do mesmo modo, não discuto história com qualquer um, pelo que há muito adoptei o hábito higiénico de ignorar as "obras" desses historiadores adventícios. E, confesso, também não tenho como argumentar com tais "eruditos", uma vez que não tenho o hábito de ler o que escrevem, por falta de interesse e de paciência.

Mas quase que vou abrir uma excepção.

Mão amiga chamou-me a atenção para um texto hoje publicado no jornal Notícias de Guimarães, onde, a certa altura, se escreve que, num livro recentemente publicado em Viseu, um certo Coronel do Exército Português "cita, longamente, o nome do actual Presidente da Sociedade Martins Sarmento, Amaro das Neves, e as suas «Memórias de Araduca», em proveito da teoria Viseense". Não percebo como, com tudo o que aqui já escrevi, o meu nome possa ser invocado em nome de tal teoria. Mas percebo a intenção da bicada, na linha de outras que me têm passado ao lado, que está por trás da expressão "em proveito da teoria Viseense". Pretende-se sugerir, de modo enviesado, que eu seria um agente ao serviço da causa dos que defendem o nascimento de Afonso Henriques em Viseu. Não estou ao serviço dessa causa. Nem, em matéria de investigação histórica, estou ao serviço de qualquer causa, seja ela qual for.

O que hoje espicaçou o meu interesse foi encontrar, no tal artigo, a transcrição de um excerto de um texto que escrevi há quase vinte anos, onde afirmei que «a questão do lugar de nascimento de Afonso Henriques é, no contexto da História nacional, um problema de lana caprina, dos que não tiram o sono a qualquer historiador». O texto em referência, com o título "Afonso, rei de Portugal nascido em parte incerta", foi publicado no jornal O Povo de Guimarães, no dia 23 de Março de 1990. O assunto era o local de nascimento de Afonso Henriques. Na altura, saltou-me às canelas, com uma ferocidade carregada de despropósito, um colaborador do jornal O Comércio de Guimarães, em termos que considerei completamente desajustados, o que me levou a escrever ao então director daquele jornal, perguntando-lhe se já "valia tudo". Em resposta, recebi uma carta simpática, através da qual o director de O Comércio de Guimarães dava conta da sua solidariedade com a minha irritação e, por entre expressões pouco generosas para o autor do tal texto que o seu jornal publicara, me informa, de livre e espontânea vontade, que não tenho razões para acreditar que não fosse sincera, que concordava com aquilo que eu havia escrito no meu texto que estivera na origem do incidente.

Resta dizer, a quem ainda não tenha reparado, que, por ironia, aquele que era director do jornal O Comércio de Guimarães, na Primavera de 1990, vem a ser o autor do texto a que aqui me referi, hoje publicado no Notícias de Guimarães. O meu texto, que agora cita e com o qual afirmou concordar na altura da sua publicação, pode ser lido aqui.



21 de Outubro de 2009

O Desafio de 2012 (9)

[Ler texto anterior]

Joaquim Novais Teixeira, nascido em Guimarães em 1899, ganhou o Mundo.

Emigrante em Espanha desde os 20 anos, ali frequentou o meio literário e artístico, tendo-se relacionado com vultos da cultura espanhola do seu tempo, como Unamuno, Garcia Llorca, Pio Baroja, Diez Canedo, Valle-Inclán, Luís Buñuel. Durante a República Espanhola, colaborou com o Presidente Manuel Azaña, tendo chefiado o Serviço de Imprensa Espanhola. Viveu de perto os acontecimentos da Guerra Civil. Os textos que publicou em diversos jornais sobre a República espanhola, hoje quase ignorados, constituem um dos mais notáveis contributos para o conhecimento daquele período intenso e conturbado da história de Espanha. Finda a Guerra, refugiou-se em França. Impedido pelo regime salazarista de regressar a Portugal, a invasão da França pelas tropas de Hitler conduziu-o ao exílio no Brasil. Aí, dirigiria a Interamericana, serviço que, no Brasil, apoiava a causa dos Aliados.

Colaborou na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, de que foi secretário-geral. Também se dedicou à tradução, tendo transposto do castelhano para português diversas obras. Esta actividade foi particularmente intensa no ano de 1927. No Brasil, teve particular ressonância a edição que preparou das cartas do Padre António Vieira, que veio ao lume pela primeira vez no ano de 1948.

Como jornalista, foi considerado um dos melhores especialistas mundiais na política internacional do seu tempo. Em França, foi o representante de jornais brasileiros prestigiados, como O Globo e O Estado da São Paulo. Ficaram famosas as suas reportagens na Itália e Suíça, os trabalhos que publicou sobre a questão franco-árabe e as reportagens que realizou na Tunísia, na Argélia e em Marrocos.

Desde cedo ligado ao cinema, Novais Teixeira foi um dos mais respeitados críticos do seu tempo. Integrou os júris de diversos festivais internacionais de cinema (Cannes, Locarno, Berlim, etc.), chegando a presidente da direcção da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique. Em 1972, colaborou na organização do Festival de Cinema de Nice, nesse ano dedicado ao jovem cinema português. Em homenagem ao jornalista vimaranense, o Syndicat Français de la Critique de Cinéma atribui o prémio Novais Teixeira, à melhor curta-metragem de cada ano.

Novais Teixeira é hoje uma figura quase esquecida na terra que o viu nascer e que ele próprio nunca esqueceu. Cidadão do Mundo, com raízes em Guimarães, a sua obra deixou marcas profundas em países como a Espanha, a França ou o Brasil. Guimarães deve-lhe uma homenagem. 2012 parece ser uma excelente ocasião para a concretizar.


20 de Outubro de 2009

Cónego José Maria Gomes, republicano

O Cónego José Meria Gomes, numa caricatura de José de Meyra de 1905. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Quando a República ainda dava os primeiros passos em Portugal, o Cónego José Maria Gomes escreveu ao jovem Administrador do Concelho de Guimarães, Eduardo de Almeida, uma carta em que dava conta da sua adesão à causa republicana, mais tarde publicada no jornal Alvorada:


Meu exm.º am.º

Após umas enormes férias (não falando em feriados) que oxalá o novo regime reduza, como já reduziu as galas, entro hoje em exercício de funções professorais, no Liceu desta cidade. Apraz-me vir declarar neste momento a v.ª ex.ª digníssima autoridade administrativa local, – que adiro franca e lealmente à República que a evolução nos trouxe no rápido carril dos desmandos e descrédito do regime extinto.

Adiro não com o simples acatamento da impotência, não com a mera obediência passiva, mas com a rasgada afirmação da minha simpatia e da firme crença, em que estou de que, com o advento da República, raiaram para a nossa Pátria melhores tempos. Do que tenho pena é se, quase a cinquentar, não logro ver toda essa pujante florescência que antevejo a nova seiva fará brotar da grande árvore secular, tão depauperada!

Adiro, sim, à República e creio que, sob o seu regime, o velho Portugal pode renascer para a realeza das máximas prosperidades e todos podem, se o quiserem, ascender até às culminâncias da santidade cristã.

Adiro e pergunto: "Porque hão-de apavorar-se os padres com a República?" Eu penso que só terão que recear dela aqueles de quem ela tiver que recear também.

Oxalá que eles saibam, salvaguardando crenças, não excrescências, receber sem esgares doentios a Jovem República triunfante e compreender que as hostilidades e intransigências criaram ao clero francês uma situação de desfavor e revindicta que pudera ter-se atenuado.

Este meu deslizar para a República, meu caro amigo, não é um gesto astucioso de adoração ao sol nascente, não é um passo calculado de maromba política; é o naturalíssimo pendor e suave declive de um homem que sempre buscou elevar-se pelo trabalho, que sempre pugnou por ideais de justiça e honestidade, e que, há mais de 20 anos, tem vivido alheio às agremiações e lutas partidárias.

Adiro, pois, sem encavacar porque, se é certo que nunca estive inscrito nas fileiras republicanas, não o é menos que, desde há muito, pairava nessa atmosfera o meu espírito liberal. Esta adesão, meu caro dr., faço-a agora com tanto mais prazer quanto é nas mãos de v. ex.ª que a deponho, de v. ex.ª, cujas qualidades de inteligência e carácter há muito admiro; e as de prudência, cordura e bondade ainda nos últimos dias se revelaram altíssimas como administrador de Guimarães.

Dizia-me ontem um amigo de alta posição no nosso meio: "Teve Guimarães a boa fortuna de dar-lhe a República para administrador aquele rapaz (perdoe v. ex.ª o aparente desprimor) que é inteligente e delicado e que, sem quebra dos seus princípios nem postergar ordens superiores, tem sabido dulcificar as agruras do momento."

Para findar, saúdo na pessoa de v. ex.ª a República Portuguesa!

Esta carta pode v. ex.ª torná-la pública e até o desejo, mas na sua integra.

Saúde e Fraternidade!

Guimarães, 17 de Outubro de 1910.

De v. ex.ª, amigo, atento e venerador.

Cónego José Maria Gomes.

in Alvorada, n.º 17, 1.º ano, Guimarães, 18 de Março de 1911

19 de Outubro de 2009

Capitão Luís de Pina Guimarães, republicano

O antigo Café Oriental, obra do Capitão Luís de Pina

Do Capitão Luís de Pina, militar e artista vimaranense (entre as suas obras conta-se saudoso Café Oriental), defensor da causa republicana, aqui fica um texto publicado na Alvorada, no início de 1911:


Sosseguem...

Quem ouvir a oposição fazer grande celeuma por falta das constituintes ou por abuso da justificada ditadura do governo provisório e não estiver bem precavido ou orientado do que realmente têm sido entre nós as eleições para deputados, há-de naturalmente supor que desde o dia 5 de Outubro tudo corre mal por falta de parlamento, e que elas se deviam ter realizado desde logo.

Ora o governo provisório não devia fazer eleições pela ignóbil porcaria, e uma lei eleitoral não podia decretar-se do pé para a mão sem aturado estudo fundamentado nas conveniências da acção reformadora das novas instituições, às quais o governo devia prestar todas as suas mais urgentes atenções e energias, sem perder de vista a sua própria e indispensável defesa, porque os inimigos são numerosos e atrevidos, uns por conservantismo piegas, outros por conveniências partidárias de arranjos, e muitos, como o povo inculto, que é a grande maioria, por supor a República uma coisa detestável, cuja síntese e o roubo, o latrocínio.

E, decretada a nova lei eleitoral e chamado o país para a boca da urna, imaginar-se-á que vai ali a consciência e a vontade livre dos eleitores?

Como estão enganados…

No actual estado de educação do povo as eleições não podem representar mais que uma farsa, cujo principal papel cabe ao caciquismo, que há 60 anos tem servido de comparsa a uma ditadura a que se tem chamado constitucionalismo, e em que a maioria pertencia sempre, invariavelmente, àquele dos dois partidos que se revezavam no poder.

Por muito tempo ainda a urna deixará de representar a consciência livre do país, porque a grande maioria ignora o importante papel cívico que perante ela tem a desempenhar, e é levado como um rebanho obediente de carneiros indiferentes.

Desde que assistimos de perto às últimas eleições em Braga, nenhuma significação elas têm para nós, no campo monárquico.

Vimos ali anafados sacerdotes, suando como bois, visivelmente cansados por uma torpe galopinagem, redemoinharem à roda das urnas, de olhar perscrutador, risonhos do seu predomínio num povo embrutecido, enquanto este, como em S. Victor, olhava, indiferentemente criminoso, para o estado de ruína e de desolador desconforto do edifício escolar, ao centro de cuja sala o regime, por escárnio e por seu peculiar egoísmo, colocava a mesa da assembleia, em risco de desaparecer nos boqueirões abertos no pavimento, tão podre como as instituições que assim patenteavam um dos seus corpos de delito em crimes de toda a espécie.

E esse povo, com bastante mágoa nossa, lá ia de lista na mão votar nos réus de tão descarado desleixo, concorrer com o seu voto, inconsciente ou forçado, para a continuação da bambochata nacional.

Como um tremendo protesto contra tamanha imoralidade surgiu então um oportuno pontapé na urna do Souto, que fez voar em várias direcções as listas de diversos matizes; pontapé que foi numa apoteose, o mais eloquente e formal desdém por um acto que nada significava em vésperas da derrocada salvadora.

Capitão Pina.

in Alvorada, n.º 9, 1.º ano, Guimarães, 21 de Janeiro de 1911