17 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Donim

Ponte de Donim.


Há uma tradição que fala em misteriosos baptismos realizados à meia-noite na ponte de Donim (como noutras pontes), que Martins Sarmento coligiu nos seus apontamentos etnográficos. Era
um ritual que funcionava para mulheres grávidas que temiam não vir a ter uma boa hora no momento do parto. A grávida deveria ir esperar a meia-noite em cima da ponte. A primeira pessoa que lá passasse, seria o padrinho da criança que ainda estava por nascer, devendo baptizá-la, no ventre da mãe, com água que se tirava do rio, com um copo preso a um cordel que se lançava do cimo da ponte, dizendo: “Eu te baptizo, criatura de Deus, em nome do Padre, do Filho e do espírito Santo.”
Antes da hora, havia que se montar guarda nas entradas da ponte, para evitar que o primeiro ser vivente que ali passasse depois da meia-noite não fosse um bicho qualquer, o que poderia contrariar o efeito do ritual.
Para completar o processo, e para que este produzisse pleno efeito, quando a criança nascesse deveria ser chamada de Senhorinha, se fosse menina, ou Gervásio, se fosse menino, nomes que, em tempos, eram muito comuns em terras situadas nas imediações das pontes onde aconteciam estes baptismos da meia-noite.
Esta tradição acontecia na “ponte de cantaria, com quatro arcos, apta para todo o uso a que chamam a ponte de Donim”, de que fala o pároco na memória paroquial de 1758.

Donim
Freguesia do Salvador de Donim, visita do Chantrado da Sé Primacial de Braga Primaz das Espanhas.
Fica esta freguesia na Província do Minho, Arcebispado de Braga, comarca e termo da vila de Guimarães, da Majestade Fidelíssima de Portugal. Tem sessenta e seis vizinhos, a que vulgarmente chamam fogos, e duzentas pessoas. Está situada em vale, nas margens do rio Ave. Não se descobrem dela povoações, suposto dista da vila de Guimarães só légua e meia e pouco mais da cidade de Braga e, da vila da Póvoa de Lanhoso, só uma légua. Compreende os lugares do Forno, Outeiros, Cima de Vila, Quintãs, Lamas, Freixieiro, Eirado, Ponte, Feitel, Carreira, Ruela, Paço, Requeixo e Pedreira, que todos constam de poucos vizinhos, só os dois últimos [são excepções], e ficam todos distando pouco da paróquia, ficando mais próximos a ela a casa do Agrelo e o caseiro da igreja, cujo orago é o Salvador, colocado no altar maior, e, a seu lado direito, Nossa Senhora do Pilar e Santa Bárbara, e, ao esquerdo Jesus Menino e Santo Amaro, que se festeja no seu dia, no qual concorrem várias pessoas das freguesias circunvizinhas, com suas esmolinhas e sinais de milagres, como braços e pernas de cera, o que acontece também algumas vezes pelo discurso do ano.
No corpo da igreja, que consta de uma nave, estão dois altares próximos ao arco e, no da parte direita, as imagens de Nossa Senhora do Rosário, da Conceição e das Neves e, no da esquerda, o de São Sebastião. Contígua à capela maior, da parte do Evangelho, está a capela de Santo António, com altar e imagem do mesmo Santo, comunicando-se para a maior por um arco muito bem formado. Passa de duzentos anos que mandou fazer esta capela o Licenciado António Pires do Canto, abade que foi desta igreja, e deixou réditos para nela dizerem duas missas cada semana, e um carro de pão cada ano, que dele são cinco alqueires, para fábrica da capela, e, os mais, para se repartirem dia de Santo António pelos pobres da freguesia, conforme a necessidade, o que até ao presente se executa, sendo administradores os oficiais da freguesia, presidindo o pároco, e assim consta da instituição.
É esta paróquia abadia, apresentada a oposição pela Mitra de Braga e renderá, de frutos certos e incertos, trezentos mil réis.
Colhe-se algum vinho, azeite e frutas, milhão, abundante, e milho branco, centeio e feijão ordinário.
É regida pelas justiças de Guimarães, de cujo correio se serve, ou de Braga, que partem na sexta e chegam no domingo. E dista de Braga, capital do Arcebispado, pouco mais de légua e meia, e, de Lisboa, capital do reino, sessenta.
Tem fontes de boas águas, não só para o uso mas também para regar.
Tem esta freguesia, do Nascente para o Poente, um pequeno quarto de légua, e, do Sul para o Norte, um grande. Confina do Poente com a freguesia de Santo Estêvão de Briteiros, que antigamente se denominava da Silva Escura, e com a do Salvador de Briteiros, na qual divisão está o pequeno, mas elevado, monte da antiga cidade Citânia, onde se vêem vestígios de ser bem povoada, pelos sinais de casas e muros arruinados, agora tudo monte frio, onde pastam gados e se caçam alguns coelhos e perdizes e não produz senão torga miúda. É estreito e, de comprido, terá meio quarto de légua. Do Norte, parte com as freguesias de Sobreposta e de Pedralva, pelo monte Filgueiras e Monte Alto, tudo sem cultivação nem outro fruto mais que torga rasteira para pastos dos animalejos. Do Nascente, parte com a freguesia de Santo Emilião de Lanhoso pelo monte da Pedreira, que cuido ter tal nome por ser abundante de pedra muito bem fina, da qual se utiliza a vizinhança para edifícios e casas.
Do Sul, parte com a freguesia de Santa Maria de Souto, servindo de baliza o rio Ave, que dizem tem seu princípio distante daqui três para quatro léguas, na freguesia de Rossas e, logo abaixo, em Vieira, se junta outro regato, que principia no elevadíssimo e grande monte da Cabreira, e outro, que nasce em Vieira. Antes que aqui chegue, se lhe juntam mais dois regatos na freguesia de Vilela. Já neste sítio, é caudaloso, mas não capaz de embarcações. Corre do Nascente para o Poente, e não muito arrebatadamente. Cria algumas trutas, escalos, e enguias mas, com mais abundância, bogas e barbos. Neste distrito pescam todos livremente, no tempo que permitem as leis. E, nos reprovados, que são os da criação, pescam muitos, que, se não fosse isso e não houvesse coca, nem lhe lançassem cal e trovisco nas moradas, haveria muitos mais e grandes, para utilidade da república e bem comum. Tem neste distrito duas levadas, ou açudes; numa, dois moinhos e, na outra, quatro. Uma ponte de cantaria, com quatro arcos, apta para todo o uso a que chamam a ponte de Donim. Cultivam-se suas margens e nelas estão algumas árvores silvestres e também castanheiros e parreiras. São boas águas para refrescar e não se usa delas para a cultura, por se não poderem tirar. Morre em Vila do Conde, conservando o nome Ave, suposto daqui até lá se juntem outros. Dizem que daqui a Vila de Conde se contam oito léguas e, do seu nascimento, onze para doze.
É o que me parece ser verdade, e aos mais interrogatórios que não respondo, é que não tenho que lhe dizer.
Salvador de Donim, 11 de Abril de 1758 anos.
José de Araújo, abade do Salvador de Donim.
O padre Francisco Vieira, vigário de Santo Emilião de Lanhoso.
O abade de Santa Maria de Souto, Domingos da Torre.

Donim”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 13, n.º 25, p. 145 a 147.
[A seguir: Briteiros, São Salvador]

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16 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Santo Estêvão de Briteiros

A Pedra Formosa.

Em Santo Estêvão de Briteiros ergue-se o monte da Citânia, de onde veio uma pedra muito lavrada (diz a lenda que foi uma moura que a carregou à cabeça) que o povo baptizou de pedra formosa e que, em 1758, quando o seu pároco respondeu ao inquérito das memórias paroquiais, estava no adro da respectiva igreja, “ suspensa em colunas não muito compridas com grossura suficiente para a sustentar”.
Por estas terras corre o rio Ave, “de Nascente a Poente, caminhando ordinariamente brando e suave, por entre terras lavradias, de que se colhe pão, cujas margens se vêem tecidas de árvores frutíferas enlaçadas com vides”. São as árvores do enforcado, a que tornaremos um destes dias.

Santo Estêvão de Briteiros
Freguesia de Santo Estêvão de Briteiros.
Santo Estêvão de Briteiros, freguesia da Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado e comarca de Braga, termo de Guimarães, distando de uma e outra povoação légua e meia, por ficar situada no meio delas, e seus moradores se servem do correio de qualquer destas povoações, sendo sujeita e governada pelas justiças da mesma vila.
Está num vale plano, de cujo sítio se descobre uma légua em circunferência, ficando-lhe fronteiro um monte chamado da Citânia, célebre pelas tradições e vestígios que se descobrem na formatura de ruas e alicerces de muros. Para o adro desta igreja se transportou uma grande pedra, ornada de vários lavores, trazida da Citânia com muito trabalho, e se acha suspensa em colunas não muito compridas com grossura suficiente para a sustentar.
Está a paróquia no meio da freguesia e é de uma só nave. É o orago dela Santo Estêvão, cuja imagem se acha colocada no altar-mor, fazendo correspondência a Santo Inácio de Loyola. No meio se venera o Santíssimo Sacramento, num sacrário de que é administrador o Chantre de Braga, por obrigação nascida da sua devoção.
Tem mais dois altares, dedicado um a Santa Luzia, no qual se acham as imagens de Santo António e São Sebastião, outro de Nossa Senhora da Graça, com sua irmandade. E também as Benditas Almas têm irmandade.
Descobre esta freguesia as freguesias que a cercam, como o Salvador do Souto, Santa Marta do Souto, São Cláudio do Barco, Santa Leocádia de Briteiros, o Salvador de Donim e o Salvador de Briteiros.
Tem duzentas e sessenta e cinco pessoas de sacramento e os lugares que compreende são: Bouça da Laje, Codesso, Linhares, Fafião, Ribeira, Real, Vila Chã, Danso, Ribas, Forno e Assento.
Pertencem os frutos desta freguesia ao Chantre de Braga, por ser esta igreja unida à sua dignidade, e apresenta todos os anos, pelo São João, um cura, que terá de rendimento trinta e cinco mil réis, e, para o Chantre, trezentos mil réis, sendo os frutos que ordinariamente colhem milho grosso, vinho verde, painço, centeio, milho alvo, feijão e bastante fruta. É muito falta de águas, porém, sempre pelo Inverno, tem cinco fontes de que se aproveitam os moradores, não só para o uso de suas casas, mas para limarem algum campo vizinho. Fica distante da cidade de Lisboa sessenta e uma léguas.

Rio.
Pela parte do Nascente, cerca esta freguesia o rio Ave ,oriundo nas partes de Vieira, o qual conserva sempre o mesmo nome até Vila do Conde, onde entra no mar. As suas águas são copiosas pelo Inverno e, sendo este muito continuado, não se pode passar senão em barco, na freguesia de São Cláudio. Porém, sendo moderado, sempre se atravessa, ou por um pontilhão de padieira, que está no lugar da Ribeira desta freguesia, ou, mais abaixo, na sobredita freguesia de São Cláudio, por umas pedras que atravessam o rio, que, pelo Verão, como são neste sítio limitadas as águas, passa-se a pé enxuto por cima de alguns açudes e levadas que tem este rio. O qual tem o seu curso de Nascente a Poente, caminhando ordinariamente brando e suave, por entre terras lavradias, de que se colhe pão, cujas margens se vêem tecidas de árvores frutíferas enlaçadas com vides. Cria com abundância barbos, bogas, bordalos ou escalos, enguias e trutas de especial bondade. Tem, neste limite, sete moinhos negreiros no lugar da Ribeira e, por ter levadas e cachoeiras, por isso não é navegável. Porém, é livre a sua pesca a todos os que querem pescar com rede ou anzol.
Ao mais, não tenho que dizer.
Santo Estêvão de Briteiros, vinte e seis de Abril de 1758.
O pároco, Domingos Marques Ribeiro.
João da Costa Ribeiro, abade do Salvador de Briteiros.
Referências documentais:
Briteiros, Santo Estêvão de”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 7, n.º 72, p. 1237 1238.
[A seguir: Donim]

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15 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: São Cláudio do Barco

Igreja de S. Cláudio do barco


O nome de S. Cláudio virá do barco que ali servia, por ser o único meio viável para a travessia do rio Ave durante os meses de Inverno (que não nos outros, porque, como diz o pároco na memória paroquial de 1758, “por serem poucas as suas águas no Verão, tem muitas passadeiras”). Na idade Média chamava-se S. Croio de Riba de Ave.
No Ave criavam-se “barbos, também bogas e algumas trutas e também, nos tempos antigos, se caçavam muitas lampreias e sáveis, o que agora raras vezes aparece neste sítio”. É em Barco que o regato a que chamam Febras, que vem de Briteiros, se mete no Ave. Nele funcionavam, nos tempos de maior caudal, além de oito moinhos e uma azenha, “três pisões, em que se fabricam uns fracos panos da terra a que chamam serguilha e burel”.


São Cláudio do Barco
Freguesia de S. Cláudio do Barco.
S. Cláudio do Barco fica na Província de Entre-Douro-e-Minho, pertence ao Arcebispado de Braga Primaz. É termo e comarca de Guimarães.
Não conhece outro senhor mais que Sua Majestade Fidelíssima e suas justiças.
Tem oitenta e seis moradores, entre pobres e ricos. Tem duzentas e vinte e uma pessoas entre maiores, menores e ausentes.
Está esta freguesia situada num plano levantado, na beira e margem do rio Ave, que a divisa pela parte do Sul, ficando esta para a parte do Norte do mesmo rio Ave. Desta se descobrem, em circuito, muitas freguesias, como são Santa Eufémia de Prazins, Santo Estêvão de Briteiros, O Salvador de Briteiros, São Tomé de Caldelas. Tem em si esta freguesia cinco lugares, a saber, São Martinho, Torre, Monte, Pinheiro e Souto, nos quais estão todos os seus moradores, vivendo separados e não em forma de rua.
Bem no meio da freguesia está situada a igreja paroquial e, pegadas a ela pela parte do Nascente, as casas da residência, situadas num limitado campo, que lhe serve de passal. A igreja é muito pequena e é ao antigo. É o seu orago o glorioso São Cláudio Mártir e se festeja em todos os trinta de Outubro, como patrono dela. Fica a igreja versa ao Poente e tem três altares, o primeiro, da capela maior, em que está a gloriosa imagem de São Cláudio seu patrono e o Menino Deus. O segundo altar está no costão do Sul e tem o glorioso São Sebastião. O terceiro altar se acha no costão do Norte e tem em si a gloriosa imagem da Senhora dos Remédios, que tem sua irmandade. Não há capelas nesta freguesia.
O seu pároco é vigário ad nutum. É a apresentação do Reverendo Arcediago de Santa Cristina de Longos, hoje monsenhor na Santa Igreja patriarcal de Lisboa e se intitula Ferreira Abreu e, como arcediago, a ele pertence toda a dizimária dos frutos que se colhem nesta [freguesia]. Tem o pároco só uma limitada porção de dez mil réis em dinheiro e, para o reverendo Arcediago, renderá cento e quarenta mil réis.
Os frutos que colhem os seus moradores em maior quantia são milhão, também centeio, milho miúdo, feijão, linho, fruta, castanha e algum pouco azeite e vinho de enforcado e verde, por ser à beira do rio.
Três de seus moradores são privilegiados da Senhora da Oliveira da vila de Guimarães. E todos vivem debaixo do governo do juiz de fora e corregedor da mesma vila, perante quem pleiteiam todos seus negócios e demandas, e se servem do correio da mesma vila, que da cidade do Porto nela entra ao domingo à noite e sai à sexta-feira de manhã.
Dista esta freguesia da vila de Guimarães uma légua grande, da cidade de Braga, cabeça do Arcebispado, duas, e sessenta da cidade de Lisboa, capital do Reino.
Os montes desta freguesia são limitados e neles não há caça estimável.
Notícias do rio.
Do Nascente para o Poente corre, por entre esta freguesia e a de Santa Eufémia de Prazins, o rio Ave, nome que sempre consta conservou e conserva desde a antiguidade. Tem o seu nascimento daqui cinco para seis léguas, numa serra junto a Vieira, e se recolhe no mar daqui sete léguas para o Poente, em Vila de Conde. Neste sítio é caudaloso, suposto que em seu nascimento é diminuto. Nele se metem muitos regatos, nascidos das ribeiras a ele vizinhas, e daqui três léguas e meia, junto à vila de Santo Tirso, pela parte do Sul, nele entra o rio Pombeiro. Tem a sua corrente branda e as suas margens se cultivam, quase em todo o seu curso, de pão e árvores de vinho. Dele se não tiram águas para regar, por correrem fundas. Não é navegável, por ter muitas levadas de moinhos e azenhas e penedos, que o podem impedir. Tem seis pontes de cantaria, quatro para o seu ocaso e duas para o nascimento. E, por serem poucas as suas águas no Verão, tem muitas passadeiras e, no sítio desta [freguesia], tem um barco para o Inverno, que nela sai da parte do Norte e, do Sul, sai na de Santa Eufémia de Prazins, e também passadeiras de pedra para o Verão. E nesta freguesia tem duas levadas, em que tem uma azenha e quatro moinhos, que moem só de Verão. Não há neste sítio pesqueiras e com redes se caça no rio em qualquer tempo do ano, por ser livre a toda a pessoa. A maior quantidade de peixes que cria são barbos, também bogas e algumas trutas e também, nos tempos antigos, se caçavam muitas lampreias e sáveis, o que agora raras vezes aparece neste sítio.
Também pelo meio desta freguesia corre, do Nordeste, um regato que chamam Febras, e tem o seu nascimento daqui uma légua, na freguesia de Santa Maria de Sobreposta, e se mete no rio Ave pela parte do Norte, nos limites desta. Tem em si três pisões, em que se fabricam uns fracos panos da terra a que chamam serguilha e burel, e só andam de Inverno. E tem também oito moinhos e uma azenha, que só mói de Inverno, por de Verão lhe faltarem as águas. Também nele se criam trutas de bom gosto, e muitos escalos, e é a qualidade de seus peixes. Não há serras neste sítio.
Francisco Gomes Luís, pároco de S. Cláudio do Barco, termo da vila de Guimarães, faço certo que, com uma ordem do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor deste Arcebispado Primaz, me foram entregues uns interrogatórios em letra redonda, para por eles dar toda a notícia que tivesse, tudo na forma que neles se declarava, aos quais respondo tudo acima. E, por ser verdade, me assino e comigo o reverendo Domingos de Novais, abade de Santa Eufémia de Prazins e o reverendo Domingos Fernandes, vigário de S. Tomé de Caldelas, ambos mais vizinhos a esta. Hoje, de Maio, 10 de 1758 anos.
O vigário Francisco Gomes Luís.
O abade Domingos de Novais.
O vigário Domingos Fernandes.

Com esta vai o instrumento da visita do Chantrado.
Barco, São Cláudio do”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 6, n.º 35, p. 289 a 293.
[A seguir: Santo Estêvão de Briteiros]

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14 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Caldelas

Monumento conhecido como Ara de Trajano (ou de Nerva). À direita, o edifício dos Banhos Velhos)

Em Caldelas, havia o lugar da Taipa de Cima e o lugar (ou quinta) da Taipa de Baixo. Com o tempo, mais do que Caldelas, passaram a chamar-lhe Caldas das Taipas. O topónimo Caldas, como Caldelas, deriva do latim calidae (águas quentes) por ser terra onde nascem águas com temperaturas elevadas a que os romanos deram uso termal, embora as águas das Taipas, com os seus 30º centígrados, sejam mais mornas do que  cálidas.
Da resposta que o padre de S. Tomé de Caldelas deu ao item 22 do questionário das memórias paroquiais de 1758 (se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas têm alguma especial qualidade?) percebe-se que, por aqueles anos, poucos tirariam proveito das virtudes curativas das águas termais que ali nasciam:
Há nesta freguesia, no lugar da Canhota, em terra de José Gonçalves e de João de Sousa, do lugar do Canto, nascem dois cachões de água que dizem vem de mineral de enxofre, que tem alguma virtude, a dita água, para nela tomar banhos frescos e muitas pessoas se têm achado bem com os ditos banhos. É a dita água, em todo o tempo, tépida.
E, além do mais, em Caldelas passa um rio, o Ave, que, diz o padre,  sic, “vai morrer ao Douro, junto com outros rios”, que “tem em si moinhos, azenhas e lagares de azeite, pisões e algumas noras, para dele tirar água para as terras”, e em cujas águas nadam e se pescam “ peixes, como são barbos, bogas, trutas, poucas, escalos e panchorcas da asa vermelha”.
Para melhor compreensão, recomenda-se acompanhar as respostas do pároco de Caldelas aos interrogatórios de 1758 com a consulta do respectivo questionário, que já publicámos aqui. Note-se que, a partir da pergunta n.º 21 do primeiro conjunto de questões, a resposta usa uma numeração diferente.


Caldelas
Declaração das notícias que contêm os interrogatórios juntos desta freguesia de São Tomé de Caldelas, termo de Guimarães, Arcebispado de Braga.
1. Está sita esta freguesia na Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado de Braga, comarca e termo da vila de Guimarães.
2. É terra de el-rei Nosso Senhor, não tem outro donatário.
3. Tem vizinhos, ou fogos, cento e quarenta e três; pessoas, entre menores e de sacramento, tem seiscentas.
4. Está situada numa campina e vale, tudo plano. E dela se descobrem várias povoações e freguesias. Para a parte do Norte, até à freguesia de Santa Cristina de Longos, que distará um quarto de légua; para a parte do Nascente, se descobrem as freguesias de São Cláudio do Barco, Santo Estêvão de Briteiros e o Salvador de Briteiros, distância de outro quarto de légua; para a parte do Poente, as freguesias de São Martinho de Sande e São Clemente de Sande, que distarão meio quarto de légua; e, para a parte do Sul, as freguesias de São João de Ponte e Santa Maria de Corvite, que distarão também um quarto de légua. E todas estas são circunvizinhas.
5. Não tem termo seu, é do termo de Guimarães, como já se disse no primeiro artigo. Tem lugares os seguintes: lugar do Souto, lugar da Baiona, lugar de Pedraído, lugar da Faisca, lugar da Quintã, lugar de Melre, lugar da Bemposta, lugar da Rabata, lugar da Bouça, lugar dos Campos, lugar do Azemel, lugar de Surrego, lugar de Carapitas, lugar do Penedo, lugar da Lama, lugar de Bouçós, lugar do Largatal, lugar do Pinhel, lugar da Charneca, lugar da Lameira, lugar do Rabelo, lugar das Caldas, lugar da Canhota, lugar do Canto, lugar do Ferreiro, lugar do Piário, lugar da Taipa de cima, lugar da Venda, lugar da Bouça do Rio, lugar da Taipa de Baixo, lugar de Além, lugar do Carregal, lugar do Alvite, lugar da Seara, lugar do Bacelo, lugar do Assento.
6. A igreja paroquial está situada no meio da freguesia e consta ter esta freguesia trinta e cinco lugares, que ficam declarados por seus nomes no quinto artigo.
7. O orago desta freguesia é São Tomé. Tem a igreja três altares. O altar-mor, tem imagens de São Tomé, São Gonçalo e uma imagem do Senhor da Agonia e a imagem do Menino Deus. Os dois altares colaterais, um tem a imagem de Nossa Senhora da Purificação e o outro tem a imagem de São Sebastião e São Brás.
Há nesta igreja uma irmandade do Coração de Jesus e não tem nesta igreja mais irmandades.
8. Esta igreja é vigairaria e é apresentada pelo Reverendo Cabido de Guimarães. Poderá render sessenta mil réis.
9. Não há nesta freguesia beneficiado algum.
10. Não há nesta freguesia convento algum, nem de religiosos, nem de religiosas.
11. Não há nesta freguesia hospital algum.
12. Não há também nesta freguesia casa de misericórdia.
13. Tem esta freguesia uma capela de Santo António. Esta tem três altares, num tem a imagem de Santo António e Nossa Senhora da Abadia, os outros dois têm as estampas das Almas. Há nesta capela duas irmandades, uma de sacerdotes e outra de leigos, que têm, em dinheiro a juro, duzentos mil réis. E tem fábrica a dita capela de um cruzado, que paga Jerónimo Marques, do lugar da Taipa de Cima e está sita a dita capela nesta freguesia.
14. Tem romagem no dia treze de Junho, onde vem algum povo de fora, nesse tal dia, por virem à festa que se costuma fazer todos os anos.
15. Os frutos que colhem os moradores, em maior abundância, são milhão e algum milho branco e centeio; porém, destas duas castas de pão, milho branco e centeio, é pouco.
16. Nesta freguesia não há juiz ordinário, nem câmara, mas sim está sujeita às justiças de Guimarães, como são corregedor, provedor, juiz de fora, almotacés, vereadores.
17. Não é couto, nem cabeça de concelho.
18. Nesta freguesia não consta houvesse homens de distinção, nem em letras, nem em armas.
19. Nesta freguesia não há feira de qualidade alguma.
20. Também não há correio. Servem-se do correio de Guimarães e de Braga, que entram no domingo e saem na sexta-feira. E dista desta freguesia a Braga duas léguas e a Guimarães légua e meia.
21. Esta freguesia é do Arcebispado de Braga, e é distância de duas léguas e, da de Lisboa Ocidental, sessenta léguas.
22. Não há nesta freguesia privilégios, só sim das Tábuas Vermelhas de Nossa Senhora de Oliveira, da vila de Guimarães, concedidas por el-rei Nosso Senhor, e são três: João Marques, do lugar do Pinhel, é senhor de um, Manuel Fernandes Branco, de Bouçós, outro e José Gomes Branco, do lugar do Souto, senhor de outro. E não há outra coisa digna de memória.
23. Há nesta freguesia, no lugar da Canhota, em terra de José Gonçalves e de João de Sousa, do lugar do Canto, nascem dois cachões de água que dizem vem de mineral de enxofre, que tem alguma virtude, a dita água, para nela tomar banhos frescos e muitas pessoas se têm achado bem com os ditos banhos. É a dita água, em todo o tempo, tépida.
24. Não há nesta freguesia embarcação alguma, nem sítio para ela, por não haver nesta terra porto de mar.
25. Não há nesta terra muralhas, nem praça de armas, nem menos torre, nem castelo.
26. Não houve nesta freguesia ruína alguma no terramoto de mil e setecentos e cinquenta e cinco.
27. Não sei que houvesse nesta terra ruína alguma no dito terramoto que fosse coisa digna de memória.
*****
1. Não há nesta freguesia serra alguma, só um monte muito plano que, por nome, se chama o Monte Baixo.
2. Terá de comprido meia légua e, de largo, um quarto de légua. Principia no lugar da Canhota, desta mesma freguesia, e acaba no lugar de São Martinho, freguesia de São Cláudio do Barco.
3. Não tem o dito monte outro nome, senão o Monte de Baixo, como acima fica dito no primeiro artigo.
4. Nesta freguesia nasce o ribeiro das Caldas, por ser próprio nome, e corre para a parte do Sul e fenece no rio chamado Ave. Não tem propriedades algumas.
5. Nesta freguesia não há serra, nem vilas.
6. Nesta freguesia não há fontes de propriedades.
7. Não há nesta freguesia minas que constem de metais, nem de cantarias, nem de qualidade alguma.
8. Não tem o monte desta freguesia ervas algumas medicinais, nem se cultiva. Só cria uma fraca carqueja.
9. Não há no dito monte mosteiros, igrejas, nem imagens.
10. A qualidade do dito nem é muito frio, nem muito quente.
11. A criação de gados, são ovelhas. Caça, cria alguns coelhos e poucas lebres.
12. Não tem lagoa alguma, nem fojos.
13. Não há mais coisa digna de memória.
****
1. Ao pé desta freguesia corre um rio chamado o rio Ave. O seu nascimento é ao pé das Caldas do Gerês.
2. O nascimento do rio não é caudaloso. Todo o ano corre. Porém, no tempo do Verão, leva muito pouca água.
3. Neste rio não consta entre nele rio algum, só sim alguns regatos de pouca água, isto de Inverno que, de Verão, não levam água.
4. Não tem o tal navegação alguma, por ser de pouca água.
5. É de curso moderado e quieto em toda a sua distância.
6. Corre do Nascente para o Poente.
7. Cria peixes, como são barbos, bogas, trutas, poucas, escalos e panchorcas da asa vermelha.
8. Todo o ano se caça nela com chumbeiras, mingachos e anzóis e também, de Verão, com varredouras e alvitanas.
9. As pescarias não têm particular, caça nele quem quer.
10. Cria ao pé de si árvores, como são castanheiros, carvalhos, e também conserva algumas laranjeiras.
11. As águas dele são frescas e algumas pessoas, de Verão, tomam nele banhos frescos.
12. Não perdeu, em tempo, algum o seu nome de rio Ave e sempre assim se chamou.
13. Vai morrer ao Douro, junto com outros rios, como são o rio de Pombeiro e o rio de Prado.
14. Não tem cachoeira, nem levadas, nem açudes que lhe impeçam o ser navegável.
15. Tem este rio, que se saiba aqui, três pontes de cantaria como é a ponte de Domingos Terres, cita no concelho de Basto, a ponte de Donim e a ponte de São João, ambas sitas no termo de Guimarães.
16. Tem em si moinhos, azenhas e lagares de azeite, pisões e algumas noras, para dele tirar água para as terras.
17. Não consta que em tempo algum dele se tirasse ouro de suas areias.
18. Usa o povo de sua água livremente para os seus campos, sem foro nem pensão.
19. Tem o tal rio, de onde nasce até ao Douro, onde vai morrer, quinze léguas de comprido. Não passa por povoação alguma.
20. Não sei de outra coisa alguma que seja digna de memória.
E desta sorte houve todos os artigos por declarados de tudo o que sabia e me constou. E me assino com os dois reverendos párocos vizinhos, o reverendo vigário de São Lourenço, Miguel de Abreu Pereira, e o reverendo coadjutor de São Martinho de Sande, o reverendo Manuel de Freitas Vieira. Hoje, dois de Maio de mil e setecentos e cinquenta e oito anos.
O vigário desta igreja de São Tomé de Caldelas, Domingos Fernandes.
O coadjutor Manuel de Freitas Vieira.
O vigário de São Lourenço, Miguel de Abreu Pereira.

Caldelas”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 43, n.º p. 259 a 266.


[A seguir: São Cláudio do Barco]

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13 de fevereiro de 2018

Memórias Paroquiais de 1758: Ponte

Ponte de Campelos (fotografia da Junta de Freguesia)
Chama-se Ponte e, por assim se chamar, faz parte do grupo das freguesias de Guimarães cujas memórias paroquiais de 1758 se extraviaram. Em finais do século XIX, São João de Ponte tinha duas pontes (a das Taipas, com três arcos, então nova, que permitia ao atravessamento da estrada real sobre o rio Ave) e a de S. João, com quatro arcos, a velha e memorável, de onde teria vindo o nome da freguesia. Segundo os apontamentos do Abade de Tagilde, no seu curso por São João de Ponte, o Ave era ainda atravessado por dois pontilhões, o de Caldelas e o de Pomarelho. Tinha muitos moinhos nas suas margens, sendo dois de azeite. E mais havia no regato de Pouve, que nascia em Corvite e atravessava a freguesia até morrer no rio Ave, mas estes só trabalhavam no Inverno, por lhes ser escassa a água nas outras estações.

Na Idade Média, aqui existiu um mosteiro beneditino que, no ano de 957, o rei Ramiro doou ao outro mosteiro que a sua tia, Mumadona Dias, fundou em Guimarães.

Em 1306, os rendimentos da igreja de Ponte foram anexados à Colegiada de Guimarães. Em 1360, seriam arrendados ao seu tesoureiro-mor, Martim Afonso, enquanto durasse a sua vida, com a obrigação de pagar 80 libras de renda anual, além de 54 libras de remuneração ao capelão da igreja, com a obrigação de o prover de um mocinho para ajudar à missa, almuinha (horta) e “manceba que lhe cozinhe a carne, e pescada e broa” (na transcrição que fez dos apontamentos do Abade de Tagilde, João Lopes de Faria sublinhou a palavra manceba...). Ademais, tinha que pagar ao arcebispo de Braga 14 libras anuais pelos bodos (festins de comer, que antigamente se faziam nas igrejas por ocasião de certas solenidades ou em satisfação de votos).
Pelas Efemérides Vimaranenses, coligidas pelo incansável João Lopes de Faria, sabemos que, no final de Setembro de 1483, a Colegiada de Guimarães, em que, os moradores de São João de Ponte se incumbiam de dar um dia de trabalho em cada ano, para malharem “as messes (colheitas) e trigos dos dízimos da freguesia que eram do Cabido”, a troco de dois almudes de vinho, que o Cabido forneceria “para a fogueira do Natal”.


Ponte
Ponte é aldeia e paróquia do termo da vila Guimarães, na comarca do mesmo nome. O seu povo consta de 250 fogos, com 750 almas de comunhão, na matriz dedicada a São João Baptista.
O pároco é vigário colado apresentado pelo Cabido da Real Colegiada de Guimarães. Tem de côngrua 150$000 réis.

Ponte”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 42, n.º 333, p. 159.
[A seguir: Caldelas]

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12 de fevereiro de 2018

Quem salva a igreja de Corvite?, por Santos Simões



A propósito do estado da velha igreja de Santa Maria de Corvite, recordo um texto que Santos Simões escreveu na sequência de uma visita que fez ao monumento, no Verão de 2003. O texto carrega um alerta, lembrando a tantas vezes repetida urgência de uma intervenção que protegesse e acautelasse os valores patrimoniais únicos que aquelas pobres paredes resguardam, e também uma esperança, a de que o ressurgimento da freguesia de Corvite, que entraria em vigor no dia 1 de Janeiro do ano seguinte contribuísse para ajudar a salvar o que ainda restava do monumento. É certo que, entretanto, esta igreja já foi classificada como monumento de interesse público e lhe foi fixada uma zona especial de protecção. Mas, que se saiba, nada mais aconteceu.
Entretanto, a freguesia de Corvite, foi e já não é.
O texto aqui fica. As fotografias que o acompanham, tirei-as em 23 de Junho de 2001.


Quem salva o tesouro guardado (?) na igreja de Santa Maria de Corvite?

por J. Santos Simões


Como sempre, a meia encosta, lá está a igreja de Corvite. Faz pena o abandono a que está votada. É espectáculo surpreendentemente triste neste Minho agora encharcado de verde, aquele estendal de feno descuidado, erva desafeiçoada, também ela triste de seca. Paradoxalmente, só gritam, mesmo ao lado da igreja, no cemitério velho, duas sepulturas em mármore branco, uma delas com gritantes flores vermelhas. A porta, onde se adivinha uma importância antiga, ameaça desfazer-se ante os nossos olhos que, ao erguerem-se, encontram, a norte e a sul do corpo da nave, uma inqualificável cornija de cimento que substituiu a que era e (devia continuar) em pedra, que se mantém na parte restante. Este pseudo restauro só se compara à cobertura em telha à portuguesa de cano e capa quando devia ser telha de canudo. Parece que em 1988 houve (também?) uma intervenção dentro da igreja que pôs a descoberto um interessante conjunto de pintura a fresco. A caquéctica porta cerrada, parece ser a montra do desmazelo que se oculta atrás dela. Adivinha-se o pavimento em terra batida e os altares arrumados e os frescos abandonados. Tudo isto é uma imagem oculta do nosso olhar, mas efectivamente real, como acontece com a maior parte do nosso património cultural. As raízes da igreja, que vêm pelo menos de 1220, quase oito séculos, deviam merecer outra atenção. Do alpendre, nem rasto, deve ter desaparecido antes de 1930. Oxalá que a recriação da freguesia de Corvite ajude a salvar o que ainda eventualmente reste.
Para isso é necessário, desde já, no mínimo, que algumas telhas deslocadas sejam repostas no seu lugar para evitar que chova dentro da igreja, deteriorando o tecto da nave, que é em madeira. Deve ser tomado este cuidado, ou mais outro qualquer, que uma vistoria ao interior da igreja aconselhe. Mas será sempre coisa de pouca monta em trabalho e dinheiro. Até a Comissão de Moradores o pode (deve) enquanto não cheguem melhores dias!
A visita que fiz ao local, no dia 19 deste mês, levou-me a indagar tudo o que se escreveu sobre o templo. Não foi coisa de pequena monta, como se pode ver no texto e no final dele.
Na Vimaranis Monumenta Historica, não procurei mais, depois de ter encontrado nas inquisições do rei D. Afonso II, de 1220, uma referência à igreja. É a baliza mais antiga, pese embora a actual construção nada ter a ver com essa sua antepassada. Quanto à igreja propriamente dita, só encontrei dois registos originais: o de Martins Sarmento e o do Abade de Tagilde, que a seguir transcrevo.
Escreve Sarnento nos Dispersos: A igreja de Corvite merece algumas palavras. Não sendo muito antiga, porque já não é a primitiva, é ainda assim uma das mais antigas de todo o vale do Ave, pertencente ao nosso concelho, e em todo o caso um curioso tipo de igrejelha rural minhota. É pequena e baixa, precedida dum vestíbulo alpendurado, acessível só por dois lados. O alpendre firma-se em duas colunas grosseiras; mas, como no ponto, em que devia assentar a coluna da direita, existia um pequeno penedo que aflorava um pouco acima do nível do pavimento, achou-se inútil quebrá-lo para assentar a base das colunas num mesmo plano, de sorte que a coluna da direita é mais curta que a da esquerda. Toda a construção revela uma tal pobreza, que, entrando-se nela, sente-se uma surpresa agradável, ao encontrar dois altares de talha que não deixa de ter certo valor; mas sente-se logo em seguida uma impressão muito desagradável, reparando em que, para ajustar o bordo duma tábua de castanho contra os relevos da talha, em vez de recortar a tábua, se rompeu brutalmente pelos relevos a formão e martelo. Simplificou-se o trabalho, sem atenção ao prejuízo irreparável duma obra de arte, que merecia algum respeito. Ainda bem que os altares de talha não foram vendidos, como tem acontecido noutras paróquias. ¡E se as juntas de paróquia apenas vendessem a talha das suas igrejas!; Sarmento também se lhe refere nos Apontamentos de Arqueologia, onde se pode ler: desci a Corvite e fui ver a igreja. É extremamente pobre. De curiosos tem restos de carneiros, alguns desenterrados debaixo do alpendre da frente – alpendre escorado em dois esteios, um dos quais mui mais curto por assentar num penedo que passa acima do nível da soleira; na capela mor, pelo lado de fora, há marcas de pedreiro, mas pouco variadas. Só vi variedade de duas, e uma cruz muito bem gravada noutra pedra de aparelho.(...) os dois altares laterais, pequenos, têm todavia seu valor, por serem obra de talha, com algumas figuras em relevo, parte das quais os bentos esconderam com tábuas de castanho, para levantar a banqueta. E o pior é que parece que afundaram as figuras em relevo, para não entrarem nas tábuas de castanho! As pinturas destes altares também parecem antigas, embora não devam exceder o século XVII.
O Abade de Tagilde, por seu lado, escreveu: CORVITE/Santa Maria (Nª Sª da Expectação). Em 1220 a Ordem de Malta tinha aqui quatro casais e uma vinha. Vigairariado arcediago de Sta Cristina de Longos. 12$000 e pé d’altar, 71 fogos.
A igreja tem três altares, mor, S.ª do Rosário e Sr.do Bonfim. Tem uma sineira sobre a fachada e arco de meia volta a porta principal. É provavelmente 2.ª reconstrução pois na parede exterior encontram-se duas pedras com lavores toscos, que talvez foram cornijas da antiga. (1)
Uma referência, ainda, ao centenário caminho de acesso. Não o utilizei (fui de automóvel, por estrada, até o caminho acabar numa propriedade privada, que fica a escassos cem metros da igreja), mas adivinho-o em muito mau estado. Aliás esta desgraça é pecha antiga- «O mandado do visitador de 1571 refere: “os fregueses(...) e assim consertarão o caminho que vem para a igreja que está na posse de Tarrio pena de quatrocentos reais até o dito dia (natal)».  (2)
Mas, ultrapassando as referências feitas à singela igreja, principalmente por Sarmento, a intervenção de 1988 (se foi negativa no que concerne ao exterior, quanto à cornija e telhado), o mesmo se não pode dizer da remoção do reboco exterior e principalmente do interior, que fez aparecer frescos em grande parte das paredes, frescos da maior importância que deviam obrigar à conclusão da intervenção que já ocorreu há quinze anos!!. Pese embora a importância do imóvel, a edição de 1993 do Património Classificado, do então Secretariado da Cultura, não o registou como património classificado já que, nem sequer a Câmara Municipal o reconheceu ainda como valor concelhio. (3)
Quem quiser obter uma referência mais pormenorizada, procure-a, na Internet, no sítio dos Monumentos Nacionais.


(1)Manuscrito da Sociedade Martins Sarmento “Apontamentos para a história do concelho de Guimarães coligidos por João Gomes de Oliveira Guimarães Reitor de S. Vicente de Mascotelos” 30 de Agosto de 1884, p 22, livro 1º
(2) In Ensino e Arte na região de Guimarães através dos livros de visitações do séc. XVI de Franquelim Neiva Soares, Revista de Guimarães nº93, p.374
(3) No concelho de Guimarães há, apenas, registados como valores concelhios, a Casa do Proposto e a Capela do Bom Despacho, em Gominhães.


Outras obras consultadas:
Inquérito Paroquial de 1842, Revista de Guimarães nº 108, 1998, pp 231 a 233 - nenhuma referência ao edifício da Igreja.
Portugal Antigo e Moderno de Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Lisboa, 1874, vol.2, pp.407,408 - nenhuma referência ao edifício da Igreja.
Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular de Américo Costa, vol.V, pp. 781 a 783 - nenhuma referência ao edifício da Igreja.
Corografia Portuguesa de P. António Carvalho da Costa, tomo primeiro, p.93 - nenhuma referência ao edifício da Igreja.
Guia de Portugal, Entre-Douro e Minho – II Minho, 1965, p. 1252, Sant’Anna Dionísio transcreve parte do texto de Sarmento, que aqui publico
Guimarães, Terras de Santa Maria de Adelaide Pereira de Moraes, Guimarães, 1978, pp 86-87, no essencial, transcreve Sarmento.

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Memórias Paroquiais de 1758: Corvite

Igreja de Santa Maria de Corvite.

Na Memória paroquial que escreveu em 1758, o pároco classifica Corvite como “terra salutífera e de bom temperamento”. Todavia, tais qualidades não têm impedido que esta freguesia vá andando de maço para cabaço, com sucessivas anexações, desanexações e reformas administrativas cuja lógica, as mais das vezes, escapa à nossa compreensão. Em 1896 foi anexada a Fermentões, depois passou para a freguesia de S. João de Ponte, em 2004 recuperou a independência, para ser extinta em 2013 e agregada a Santo Tirso de Prazins. Até ver.
A igreja descrita em 1758 é do século XVI, aparentemente reconstrução de uma outra mais antiga. Fica no meio de campos e é especialmente notável pelas suas raras e belas pinturas a fresco que estão no seu interior, representando, por exemplo, o martírio de S. Sebastião e os mistérios da Anunciação, da Purificação e da Maternidade. Estes frescos serão sobrevivências da igreja original, que já existia em meados do século XIII.

Igreja de Santa Maria de Corvite ( pormenor dos frescos).


Corvite
Informação de uma ordem que me foi entregue do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor da Relação de Braga Primaz.
Na Província de Entre-Douro-e-Minho, termo de Guimarães, Arcebispado de Braga Primaz, se acha a freguesia de Santa Maria de Corvite. Está a igreja situada num vale de monte. Para a parte do Norte, não se descobre deste sítio povoação alguma, só, sim, algumas terras de aldeia, para a parte do Poente e Norte, pouco mais ou menos duas léguas de terra.
Tem esta freguesia cento e cinquenta pessoas de sacramento e os lugares que tem próximos à igreja é a casa de residência, o Assento, e os que há nesta freguesia mais remotos são Tarrios, Passinhos, Cartas, Tulha, Ribeiras, Cancela, Fragosos, Bouça, Fundo, Frijão, Carreira, Sobreira e Souto de Ribas.
Tem esta igreja três altares. No altar maior está colocada Nossa Senhora da Expectação, padroeira desta igreja, a qual tem sua irmandade, e, no altar da parte do Nascente, está São Sebastião e, no outro, São Caetano. O pároco desta igreja é vigário ad nutum, apresentação do Arcediago de Santa Cristina de Longos. Renderá, para o dito arcediago, cento e setenta mil réis e, para o vigário, doze mil réis, que lhe paga o rendeiro.
Não há nesta freguesia beneficiados, conventos, hospital, casa de misericórdia, nem ermidas.
Os frutos que mais comummente colhem os lavradores desta terra são milhão, milho branco, centeio, painço e algum trigo, feijões de várias castas, e também fabricam vinho verde, em quantidade.
É sujeita esta terra ou seus moradores à Câmara e justiças de Guimarães e não tem couto, nem concelho, nem goza de alguns privilégios ou honras. Não há memória de homem algum que florescesse por Armas ou Letras que desta freguesia fosse nascido. Também não há feira alguma, nem correio e servem-se os moradores desta pelo de Guimarães, que chega no domingo e parte na sexta.
Desta freguesia a Guimarães será distante meia légua, e a Braga, duas léguas e a Lisboa, sessenta, pouco mais ou menos.
Nesta freguesia há várias fontes, mas sua água não é de especial qualidade, só, sim, com ela regam os moradores seus frutos e não passa rio algum por esta freguesia, pelo que não tem moinhos e fica esta terra distante do mar.
Não padeceu ruína alguma esta terra no terramoto, Deus louvado.
Não há serra célebre de que se possa dar notícia, nem que se achem metais, nem pedra de estimação, nem há ervas que sirvam de medicina especial.
É esta terra salutífera e de bom temperamento. Nela se criam alguns gados e se caçam alguns coelhos e perdizes. Não há fojos, nem lagoas e, finalmente, não há coisa notável de que mais dê notícia, o que passa na verdade.
Santa Maria de Corvite, cinco de Maio de mil setecentos e cinquenta e oito anos, e vai esta assinada pelos dois reverendos párocos vizinhos e por mim, o vigário que de presente sirvo nesta igreja.
O vigário Domingos de Macedo.
O pároco de S. Cláudio do Barco, Francisco Gomes Luís.
O abade António José de Araújo.

Corvite”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 42, n.º 400, p. 2739 a 2740.

[A seguir: Ponte]



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