3 de agosto de 2017

2 de agosto de 2017

Braga tem? Guimarães merece.

Num texto anterior, escrevi:
É certo que, nos tempos que correm, como noutros, nem tudo é bonito no combate eleitoral. Em parte, já se faz nas chamadas redes sociais, que é território muitas vezes mal frequentado e pouco recomendável, povoado de jagunços e de perfis falsos ou ocultos que desempenham a missão de fazer o trabalho sujo a que outros se escusam a meter as mãos.
A propósito do modo como a batalha autárquica se vai travando nas chamadas redes sociais, poderia dar vários exemplos do que transcrevi acima, mas dou só um. Trata-se de uma página do Facebook que se diz dedicada aos vimaranenses zelosos da sua cidade, do seu concelho e da sua identidade, e que afirma “uma visão de futuro ancorada no orgulho do nosso passado e na vivência do nosso presente”. Não se sabe quem são os seus autores, que usam como imagem de perfil uma fotografia do monumento de D. Afonso Henriques e como foto de capa a legenda da Torre da Alfândega, Aqui Nasceu Portugal. Tem cerca de 3700 seguidores.
Não é preciso construir um algoritmo muito complexo para se perceber por onde alinham os seus mentores (basta seguir o rasto das partilhas dos artigos que ali se publicam e a frequência das partilhas pelos mesmos utilizadores). É, manifestamente, um instrumento de comunicação politicamente orientado com o propósito de promover uma das candidaturas às próximas eleições autárquicas em Guimarães. Embora algo tosco, porventura intencionalmente, é dado a algumas subtilezas, como dedicar uns textos elogiosos a figuras com orientações políticas distintas das dos seus mentores, mas só das que, nas actuais circunstâncias, não aquentam, ou partilhar alguns textos que não arrefentam de pessoas não conotadas com a sua linha “editorial” (inclusive textos meus). As caixas de comentários são o que seria de esperar num espaço com esta natureza: não raras vezes, fazem lembrar um recipiente que existia nos velhos cafés, o escarrador. Nada de inesperado, nada de ilegítimo. Tudo nos conformes. Muitos dos textos que ali se publicam acabam com uma proclamação: Guimarães merece melhor. E eu até estou de acordo com ela.
Uma breve análise ao que ali se escreve permite concluir que tudo gira em torno de ideias básicas: em Guimarães, tudo o que é feito pela administração municipal é mal feito, o concelho vai de mal a pior em todos os rankings e devia pôr os olhos em Braga, onde se faz tudo bem (mesmo quando o que por ali se faz não é mais do que a continuação ou a reprodução do que fazia o dinossauro que, durante décadas, presidiu à Câmara de lá, de orientação política contrária à actual maioria).
A crer no que se publica naquele espaço, Braga é o padrão da administração autárquica, a candeia luminosa que deveria guiar os passos deste concelho pequenito, mísero e atrasado, rumo a um  futuro radioso - a bracarização de Guimarães como caminho.
Eu só estranho ainda não ter encontrado por ali qualquer referência à última grande obra braguesa: o César Augusto tintado, a escultura garrida do imperador da Bracalândia, recentemente inaugurada, com pompa e circunstância à altura dos melhores carnavais e com uma monumental saudação em forma de pateada da parte dos arqueólogos e dos historiadores de arte, que adjectivaram a coisa de kitsch, que é um modo abreviado de lhe chamar parola por parte de pai e mãe. Muito me admira ainda não ter lido, na página de que falo, o lamento-reivindicação que proclamaria que, se Braga tem, Guimarães também merece uma estátua pintada e que, não havendo por cá imperador, até poderia ser o Guimarães das duas caras que, tal como as estátuas romanas que o renascimento descoloriu, também era pintado de origem. Andam distraídos, os Vimaranenses?

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1 de agosto de 2017

Lugares secretos


Há lugares a que regressamos com o estremecimento de quem encontra um tesouro ou a clareira de um bosque. Nele nos apaziguamos ou celebramos a intimidade do mundo — assim se anuncia o programa Lugares Secretos, imaginado e construído por Fernando Alves, com edição sonora de Alexandrina Guerreiro e Herlander Rui, que passa na TSF nas manhãs e nos fins de tarde destes dias de Verão. Por lá já passaram mais de vinte lugares contados pela mais desvairada gente, entre eles o Esser Jorge Silva, que desfiou memórias da livraria do Luís Pinto dos Santos, o Abel Fernandes, do restaurante Oriental, que contou histórias vividas com velhas glórias do nosso futebol no antigo salão de bilhares Vitória, na rua de Gil Vicente, a Isabel Fernandes, que fez uma preciosa visita guiada ao Paço dos Duques. E mais haverá, enquanto houver Verão. Hoje foi a minha vez de responder ao desafio de Fernando Alves, contando um par de segredos de um lugar que andará nas bocas das gentes ao longo dos próximos meses: Santa Clara de Guimarães.

Havendo uns minutos, pode ser escutado aqui:


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31 de julho de 2017

Não vale tudo


O Domingos é de Pinheiro, o André de Pevidém, o José Manuel nasceu em S. Sebastião e o Wladimir veio de muito mais longe. São candidatos à presidência da Câmara Municipal de Guimarães, por diferentes forças políticas. Tenho divergências políticas em relação a todos eles, em diferentes graus, consoante os assuntos. Mas posso dizer, sem receio de desmentido dos próprios, que, não obstante o que nos separa, todos são meus amigos, de diferentes maneiras. No meio do muito que os separa há algo de primordial que os une: são todos vimaranenses. Cada um deles é um dos nossos. Era bom que isto não fosse esquecido, nestes tempos de combate político.
Defendo que o debate político deve ser intenso e sem falinhas mansas. Mas deve mover-se, permanentemente, no terreno da discussão das ideias, dos projectos e dos actos políticos, mas nunca das pessoas.
É certo que, nos tempos que correm, como noutros, nem tudo é bonito no combate eleitoral. Em parte, já se faz nas chamadas redes sociais, que é território muitas vezes mal frequentado e pouco recomendável, povoado de jagunços e de perfis falsos ou ocultos que desempenham a missão de fazer o trabalho sujo a que outros se escusam a meter as mãos. Quanto a isto, há pouco a fazer. No entanto, os que têm responsabilidades políticas têm a obrigação de tentar fazer alguma coisa pela elevação da discussão política, dando o exemplo e abstendo-se de alimentar jogos rasteiros de baixa política, que são especialmente perniciosos no quadro local de um meio pequeno, em que todos somos vizinhos uns dos outros, como é o caso de Guimarães. A política não é o vale-tudo.
Não concebo a discussão política sem paixão, vigor e frontalidade, mas sem romper com o compromisso com a ética, a civilidade e o respeito pelos adversários.
Vem isto a propósito de um post na página pessoal do Facebook de alguém que me habituei a respeitar e que é conhecido como próximo do atual presidente da Câmara Municipal de Guimarães, de quem se diz ser um dos conselheiros que mais escuta. Esse post é um ataque de uma violência inaudita a um dos candidatos à Câmara Municipal de Guimarães, que não nomeia, mas que qualquer um percebe logo ser dirigido a André Coelho Lima. É um ataque especialmente gratuito, injustificado e sem fundamento, porque visa a pessoa, a sua origem familiar, o seu percurso profissional, o seu carácter. Um ataque, tecido de afirmações e insinuações, que não honra quem o profere. Uma catilinária manifestamente ofensiva que, mais do que desrespeitar aquele a quem se dirige, desrespeita o que a profere e aquele a quem apoia.
É público que não apoio a candidatura de André Coelho Lima e que tenho combatido frontalmente, e continuarei a combater, alguns dos projectos que tem para Guimarães. Não partilho os fundamentos da sua ideia de cidade. Não lhe darei o meu voto, mas isso não me impede de lhe dar a minha solidariedade pessoal, depois da agressão desbragada e injusta de que foi alvo.
O que melhor se ajusta à situação que aqui me trouxe já foi escrito por José João Torrinha, no discurso clarividente que proferiu na cerimónia comemorativa do 25 de Abril deste ano, cuja leitura, na íntegra, recomendo aos que, de vez em quando, não resistem ao deslisar do pé para a chinela:
O ataque pessoal, ad hominem, desde sempre que foi um cancro de qualquer disputa política, mas atualmente quase que parece que falham outros argumentos que não esses quando se quer ganhar eleições.

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22 de julho de 2017

A bem da transparência


O que está em causa, no que agora se discute por aí, não é o direito de alguém ganhar a vida com o seu trabalho ou a faculdade de um cidadão se candidatar em eleições ao exercício de um cargo político. Esses são direitos inalienáveis. O que está em causa é um processo que deixa no ar muitas dúvidas que carecem de elucidação urgente, porque tem a ver com o modo como se dispõe de dinheiros públicos. A demora nos esclarecimentos que se impõem, em especial no contexto em que estaremos até Outubro, não é saudável.
Até hoje, ainda não consegui entender o racional de se ir contratar fora, para fazer um estudo, uma entidade da qual não se conhece especialização nem experiência de relevo na matéria a estudar, quando se tem dentro de portas quem tenha essas competências, há muito reconhecidas e demonstradas por longos anos de experiência. Admiti que pudesse estar enganado, mas o resultado do tal estudo apenas serviu para consolidar o meu pasmo. Sobre isso já escrevi aqui ("Podendo indicar", indica ou não indica? e Do estacionamento automóvel na área urbana central de Guimarães - contributo para o debate).
As razões da minha perplexidade vão um pouco para além do que até agora tem sido dito sobre este assunto. Não têm a ver com o resultado, pobre no conteúdo e algo descuidado na forma, mas com o processo da encomenda. Isto poderia ser um desenho (até dava uma infografia muito sugestiva), mas vai no registo mais simples de uma cronologia. Atente-se nesta sequência, temporalmente contínua, mas sinuosa nos factos:
17 de Janeiro de 2017 – Constituição da empresa SAM Arquitectos, Lda (informação colhida no jornal online Duas Caras). Um dos seus sócios é o arquitecto Fernando Seara de Sá , autor do projecto do parque de estacionamento de Camões-Caldeiroa.
Maio de 2017 – Fica concluído o documento intitulado Estudo sobre o estacionamento na área urbana Central de Guimarães, pela empresa SAM Arquitectos.
18 de Maio de 2017 — Governo aprova novas regras para a contratação pública, que tornam obrigatória a consulta a três entidades para ajustes directos superiores a 20.000 euros
1 de Junho de 2017 — Data da assinatura pelo Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, e pelos sócio da empresa SAM Arquitectos de um contrato de ajuste directo para a aquisição de serviços designada por “Realização de estudo sobre estacionamento automóvel na área urbana central de Guimarães”, pelo preço contratual de 19.750 euros.
Em resumo, em 23 de Janeiro de Janeiro, o Presidente da Câmara de Guimarães informou que já tinha encomendado (sem precisar quando), ao arquitecto Seara de Sá, um estudo, que ficou pronto em Maio, a que se refere um contrato entre a Câmara e a empresa SAM Arquitectos (constituída em 17 de Janeiro), datado de 1 de Junho e publicitado a 5 do mesmo mês no portal BASE (esta publicitação é condição de eficácia para qualquer contrato desta natureza).
Haverá por aí alguém que, a bem da transparência, nos faça um desenho que nos oriente neste labirinto? 

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11 de julho de 2017

Isto não é um sabonete



Sabonete República (fotografia colhida no Almanaque Republicano).

Aqui há uns anos, deu muito que falar a afirmação de Emídio Rangel de que uma televisão vende tudo — tanto um sabonete, como um Presidente da República. Uns vinte e cinco séculos antes, Confúcio terá dito que uma imagem vale mais que mil palavras. Um dia destes, numa visita de estudo, constatei uma alteração radical na razão de ter alunos que, sistematicamente, ficavam para trás. Há algum tempo, muito menos do que o que pode parecer, os alunos ficavam para trás a tirar fotografias àquilo que lhes tinha sido mostrado e explicado. Agora, atrasam-se porque perdem tempo a tirar fotografias a si próprios. Nunca como nos dias de hoje, em que todos trazemos no bolso uma máquina fotográfica, o poder da imagem foi tão avassalador. Passámos (em definitivo?) de uma cultura da palavra para uma cultura da imagem. Quanto a isto, não me parece que haja muito a fazer: é para onde o vento sopra. No entanto, impõe-se que o império da imagem não nos faça perder o pé em relação ao que é importante. É que, para além das imagens, ainda deve haver ideias que valham a pena ser discutidas.
Vem isto a propósito de algumas imagens que, nestas vésperas de campanha eleitoral, tenho visto por aí e que, olhadas com atenção, desafiam o bom gosto, atropelam o bom senso e arrasam os bons costumes. Dou dois exemplos.
O primeiro é uma imagem que encontrei na net. Mostra os cidadãos que foram medalhados pelo Município de Guimarães no último 24 de Junho. Os agraciados foram nove cidadãos cujos méritos foram reconhecidos, por unanimidade, pelos eleitos da Câmara de Guimarães. Porém, a imagem tem dez fotografias e está dividida a meio: a metade da direita está preenchida pelas fotografias dos medalhados; a outra metade é ocupada pela décima fotografia, com tamanho igual à soma de todas as outras, e nela sorri o actual Presidente da Câmara. Por baixo desta fotografia, lê-se: “Medalhados – 24 de Junho”. Esta montagem resulta de uma intervenção aplicada, para fins de simples propaganda política, sobre uma outra imagem, da Câmara Municipal de Guimarães, em que o lado direito era ocupado pela cruz que este ano foi usada no cartaz das comemorações da Batalha de S. Mamede. Não tenho dúvidas de que o Presidente da Câmara não se revê neste tipo de aproveitamentos, mas a verdade é que, sendo manifestamente abusivos, resultam da manipulação de documentos municipais para fins partidários e usam as imagens de cidadãos distintos para fins de promoção de uma candidatura eleitoral, que naturalmente não autorizaram.
E, neste caso, pode induzir uma de duas ideias, ambas falsas: ou que o Presidente da Câmara também foi medalhado, porventura com uma condecoração mais importante do que a foi entregue aos restantes nove; ou que as medalhas foram concedidas por decisão pessoal do Presidente da Câmara.
Será difícil de perceber que este tipo de aproveitamentos desacreditam as condecorações e desrespeitam os condecorados?
À esquerda, documento original, à direita versão manipulada que circula na net.

A segunda fotografia que me despertou atenção vi-a na capa da última edição da revista cor-de-rosa cá da terra, a Bigger Magazine, e mostra um grupo de 22 crianças, quase todas, se não todas, perfeitamente identificáveis, com o Presidente da Câmara no meio delas. Também encontrei esta imagem na internet, mas não a reproduzirei aqui por razões facilmente compreensíveis (uma delas é que a lei me impede de o fazer). O grupo, ao que se percebe, é constituído por crianças praticantes de ginástica, com excepção do autarca, que até pode praticar aquela modalidade desportiva, mas já há muito deixou de ser criança, não se entendendo bem qual possa ser a pertinência da sua presença dissonante em grupo tão homogéneo, a não ser passar a sua imagem, que é algo que, manifestamente, não lhe faz nenhuma falta.
Nos tempos que correm, com os meios de publicação que já estão ao dispor de qualquer um, este é um assunto que tem gerado ampla discussão, não faltando doutrina sobre os perigos que podem resultar da replicação de imagens de crianças, nomeadamente na internet e nas redes sociais. Os especialistas têm alertado para o perigo acrescido de publicar fotografias de menores, especialmente quando incorporam informações que possam permitir a sua localização (por exemplo, a identificação da escola que frequentam). Recentemente, uma deliberação da Comissão Nacional de Protecção de Dados, proibiu as escolas de publicarem na internet fotografias dos seus alunos “ainda que para o efeito exista consentimento dos pais ou encarregados de educação”. O que diz a CNPD não se aplica apenas às escolas, mas a todos os estabelecimentos frequentados por crianças, como será o caso da Academia de Ginástica de Guimarães. Mesmo acreditando que tenham sido cumpridas todas as regras para a publicação daquela fotografia — que mandam, nomeadamente, que tenham sido colhidas, previamente e por escrito, as autorizações de todos os pais das crianças fotografadas, em que estes consentissem expressamente (1) que os seus filhos fossem fotografados e que (2) a fotografia fosse publicada na revista e (3) na internet —, partilho da opinião dos que, em relação a situações semelhantes, defendem que mandaria o bom senso que a revista se tivesse abstido de a publicar e de a partilhar na net.
O admirável mundo novo em que vivemos apetrechou-nos com ferramentas que nos permitem fazer aquilo que ainda há pouco nem sequer imaginávamos. Trazem manuais de utilização, mas não os códigos de conduta que tanta falta nos fazem.

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10 de julho de 2017

Sarmento: efeméride tripla

Francisco Martins Sarmento (1833-1899)
Quando fazemos o inventário das personalidades mais marcantes de Guimarães, da sua história, da sua cultura e do seu imaginário, pensámos, primeiro, em Afonso Henriques e, logo a seguir, em Francisco Martins Sarmento. O arqueólogo que desvendou a Citânia de Briteiros personifica a viragem que se deu em Guimarães a partir do último quartel do século XIX, em que a cidade se insufla de auto-estima e dá início à sua caminhada, a passos firmes, rumo à modernidade. Se Afonso Henriques é a figura-símbolo da fundação de Portugal, Martins Sarmento personifica a refundação de Guimarães, com uma nova atitude perante os poderes constituídos que se pode exprimir com o que escreveu em 1884 para o número único do jornal A Indústria Vimaranense, que assinalava a abertura da para sempre memorável Exposição Industrial de Guimarães:

...e pela nossa parte aconselharíamos os nossos compatrícios a acabarem por uma vez com o papel de suplicantes. Quando os governantes, como o tiranete antigo, têm as orelhas nos pés, o pedido, ainda o mais justo, obriga a uma posição humilhante.
O que temos a fazer é coisa muito diferente.

10 de Julho é uma data em que se relembra Francisco Martins Sarmento em dose tripla:


Passaram-se exactamente 20 anos, até ao dia em que Sarmento iniciou a exploração sistemática da Citânia de Briteiros, momento fundador para a arqueologia portuguesa.

O terceiro momento desta rememoração acontece precisamente 30 anos depois do início das escavações em Briteiros: no dia 10 de Julho de 1904 procedeu-se à trasladação dos restos mortais do arqueólogo do cemitério da Atouguia para o seu jazigo em S. Salvador de Briteiros.

Três vivas a Martins Sarmento!

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7 de julho de 2017

"Le tour du Monde": Guimarães em 1907

Ruínas da Citânia de Briteiros (fotografia de Francisco Martins Sarmento)

Em 1907, a revista francesa de Tour du Monde publicou o relato de uma viagem Gérard de Beauregard e Louis de Fouchier ao Norte de Portugal, de onde extraímos e traduzimos o excerto que se refere à passagem dos dois viajantes por Guimarães e pela Citânia de Briteiros, onde é particularmente curiosa a descrição de uma missa em dia de Ascensão a que assistiram em Briteiros. Aqui fica.
[Já antes a mesma revista tinha passado por Guimarães. Foi em 1857, eo respectivo relato pode ser lido aqui.]

Uma vez passada Santo Tirso, famosa pelas suas belas mulheres e pelos seus ornamentos, a paisagem muda. Alarga-se uma garganta onde ruge uma torrente; as encostas, muito íngremes, são feitas de enormes blocos de granito, entre os quais se erguem pinheiros; em seguida, de novo a garganta se torna vale; a estrada serpenteia entre bosques e pára à vista de Guimarães.
É uma cidade muito antiga que domina as ruínas, também elas quase tão antigas como o castelo onde nasceu Afonso, o primeiro rei de Portugal, príncipe meio francês, por ser filho de Henrique de Borgonha. Mas, ao mesmo tempo que é uma cidade de história, é também uma cidade de lenda. Não foi ali, no mesmo lugar que ocupa Nossa Senhora da Oliveira, que o visigodo Wamba não consentiu aceitar a coroa que lhe foi oferecida sem antes ver o seu aguilhão de oliveira ganhar raízes e cobrir-se de folhas? Os velhos ainda viram a oliveira caduca e venerável, cercada pela sua pequena grade. Extinta pelo nosso cepticismo, a estaca miraculosa desapareceu, há muitos anos.
Em Guimarães, tudo transmite uma atmosfera de exotismo e de antiguidade. As janelas das casas, grandes e de guilhotina, fazem lembrar uma cidade holandesa ou inglesa, enquanto que o claustro São Domingos abriga uma série de relíquias escultóricas, não só romanas, mas também ibéricas, estas tão antigas que não ousámos atribuir-lhes uma data, e provenientes da Citânia, cujos vestígios são ainda visíveis a algumas léguas de Guimarães. É preciso subir muito para lá chegar, por caminhos de cabras, mas somos largamente recompensados dessa dificuldade. Desde logo, não há ninguém, os Cook’s Tourist’s[1] desdenham lugares tão distantes; em seguida, toda a província do Minho se explana sob o olhar em dez planos sucessivos de montanhas, onde brilham todos os azuis da criação, misturados com os melhores verdes de vegetação que é possível ver. Existem inúmeras aldeias espalhadas entre os vales até Penafiel que se conseguem distinguir, numa aberta, a mais do que doze léguas.
No que se refere a ruínas, são curiosas, mas sumárias: paredes em quadrado ou em círculo, pouco saindo da terra e desenhando, no final do promontório, pequenas casas, ou cabanas, e ruas ainda reconhecíveis pela sua calçada. Nenhum traço de palácio ou grande edifício; os poucos fragmentos de arte que pudemos descobrir estão em Guimarães. Os ibéricos que construíram esta aldeia de que encontrámos, pelo menos, um plano intacto, eram, sem dúvida, meio selvagens, para não dizer mais. Eles sabiam, em qualquer caso, escolher os lugares.
Tendo, à descida, percebido um barulho estranho, reconheci que provinha de uma pequena igreja, mesmo aos pés da Citânia. Era o dia da Ascensão, a aldeia estava na missa: entrei. Da minha vida, não esquecerei esta orquestra alucinante, composta por um violino, um trombone e um clarinete. Era, ao mesmo tempo, infernal, ingénua e ridícula; todavia, o fervor e a convicção daquelas boas gentes tudo acomodavam.
Os homens estavam à frente, perto do coro, e as mulheres, em massa compacta, enchiam o resto da igreja, oferecendo, vistas de trás, as suas cabeças cobertas com um lenço simples dobrado ao meio e amarrado sob o queixo. Ora, esses lenços também formavam uma orquestra, mas de cores quentes e variadas, que fazia esquecer a cacofonia da outra. De resto, todos os fiéis davam mostras da mais profunda piedade e permaneciam ajoelhados sobre as lajes, durante toda a missa.
À porta da igreja, voltámos a subir ao carro e, numa hora de caminho, atravessando a modesta estância sulfurosa de Caldas de Taipas, estávamos em Braga.



[1] Cook's Tourist's: guias para viajantes, muito populares em finais do século XIX e princípios do século XX.

Gérard de Beauregard e Louis de Fouchier, "Voyage en Portugal: le nord", in Le Tour du monde : nouveau journal des voyages / publié sous la direction de M. Édouard Charton et illustré par nos plus célèbres artistes, Hachette, Paris, Tomo XIII, nova série, n.º 47, 1907, pp-561-562.

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5 de julho de 2017

O Guimarães vai de lança?


Antigos Paços do Concelho de Guimarães (fotografia do início do século XX).

A fotografia que vai aí acima está disponível no site Gallica, a biblioteca digital da Biblioteca Nacional de França. Faz parte de uma colecção de 767 fotografias de Espanha, de Portugal e do Rossilhão (Catalunha Francesa), do casal de arqueólogos franceses Marcel e Jane Dieulafoy. No respectivo inventário, a colecção tem a data de 1922, mas as fotografias são seguramente anteriores, já que Jane Dieulafoy faleceu em 1916 e Marcel a seguiu em 1920. Terão sido obtidas quando o casal andou por Portugal, no tempo em que preparava o livro Art in Spain and Portugal, que foi publicado em 1913. Podemos, portanto, datar a fotografia dos primeiros anos do século XX. Uma pesquisa posterior permitiu-nos perceber que o Centro Português de Fotografia tem uma outra reprodução desta fotografia, menos cortada em ambos os lados, mas a cópia que encontrámos na internet é de muito fraca qualidade.

À primeira vista, a fotografia nada acrescenta ao que já conhecemos do edifício dos antigos Paços do Concelho de Guimarães. Porém, uma observação mais atenta, dá-nos assunto para alongar a conversa.
Atentemos nos detalhes.

Entrada da rua dos Açoutados no início do século XX.
Desde logo, na outra esquina da Viela dos Açoitados anunciava-se ‘cerveja alemã / cerveja inglesa’ (na fotografia do CPF aparece uma terceira linha no anúncio, que não conseguimos ler, cuja primeira palavra também é ‘cerveja’).

Pormenor da fachada dos Paços do Concelho de Guimarães, no início do século XX e na actualidade.

Por outro lado, salta aos olhos que a Casa da Câmara ainda não tinha sido descarnada, para colocar a pedra à mostra e dar-lhe um ar mais “rústico”. No início do século XX, como já notámos várias vezes, a fachada estava rebocada, embora não se consiga perceber de que cor estava pintada.
Varanda dos Paços do Concelho de Guimarães, no início do século XX e na actualidade.
É também visível que o gradeamento da varanda era muito diferente do actual. Uma obra mais ajustada à tradição e aos méritos da arte do ferro forjado vimaranense. Mais fino e elegante.
Por fim, o Guimarães. Fixemos a sua imagem numa fotografia actual:
O Guimarães (fotografia actual).
Agora, reparemos no que aparece na fotografia que estamos a observar:
O Guimarães (pormenor da fotografia do início do século XX que encima este texto).
À primeira vista, o que lá se vê de diferente pareceu-me uma mancha na imagem, como tantas outras que nos irritam quando trabalhámos com fotografias antigas. Olhando com atenção, percebe-se que pode não o ser. Vendo bem, o que o Guimarães segura na mão não é uma lança, como a que empunha hoje, mas uma espécie de alabarda (uma lança atravessada, perto da sua extremidade superior, por uma espécie de machado).

E é mesmo uma alabarda, como se confirma na fotografia seguinte, que deve ter sido tirada pela mesma altura da que publicámos aí acima.

Antigos Paços do Concelho de Guimarães (fotografia do início do século XX).

Resta saber quando (e porquê) a alabarda foi convertida na lança que agora vemos nas mãos do Guimarães…

O Guimarães (pormenor da fotografia anterior).

PS: Segundo informação a que acedi por via de Nuno Saavedra, a fotografia tem a data de 1903 e é obra do fotógrafo Emílio Biel. Já foi publicada no Facebook por Francisco Nunes. A linha que não conseguia identificar no letreiro da entrada da rua dos Açoutados diz: Cerveja Schrek (ou Schbek).


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4 de julho de 2017

A tragédia do Teatro Baquet vista de Guimarães (2)

O antigo Teatro Baquet, no Porto (fachada voltada para a rua de Santo António/31 de Janeiro)

Entre finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX, antes do advento de outros meios de informação mais imediatos, como a rádio e a televisão, a imprensa tinha uma grande força na informação e na formação da opinião pública. Em Março de 1888 publicavam-se em Guimarães três jornais, o Religião e Pátria, fundado em 1862, que se apresentava como “religioso, político e noticioso” e se publicava à quarta-feira e ao sábado, O Comércio de Guimarães, à época sem rótulos quanto à sua orientação, que saía às segundas e ás quintas, e O Zirro, “folha satírica e literária”, quinzenário fundado em 1887 pelo Padre José António Fernandes, que ficaria conhecido como o Padre José Zirro e que teria publicação algo irregular, extinguindo-se ao 13.º número. Com a chegada do telégrafo, na década de 1860, as notícias do país e do mundo passaram a chegar a Guimarães bastante com muito maior actualidade do que antes. Assim se explica o Religião e Pátria ter dado a notícia da tragédia do Baquet na edição do dia em que o teatro ardeu. Na sua edição de 24 de Março, relata o incêndio do Porto com mais desenvolvimento.

O incêndio no teatro Baquet.
Desceu o pano.
Acabou o drama de que o Porto foi teatro, — drama sangrento, horrível, o mais tétrico e horrível que se pode imaginar. A pena treme ao descrever a fúnebre tragédia, e a memória sente-se como que duvidosa, se a catástrofe se deu ou se foi um sonho de pesadelo!
E, na verdade, mal se pode imaginar um instante no fúnebre drama!
Um vasto recinto cheio de pessoas; um violento incêndio destrói rapidamente o edifício: todos tratam de escapar à morte, e, em tal caso, todos os meios de salvação são lícitos: avançam corpos sobre corpos, e enquanto uns querem avançar para se escapar, outros os seguram nas agonias da morte e lá ficam ambos; pais, filhos, parentes e amigos, e outros por caridade, chegam-se para salvar algum dos desgraçadas, e também lá ficam vítimas da sua dedicação!
Completou todo o drama imensamente horroroso uma derrocada que parecia dizer: Morre aqui tudo porque eu assim o quero. E morreu! Oh Deus!... E os inocentinhos?!...
São para cima de 100 os cadáveres. Os pertencentes à cidade do Porto já são conhecidos, mas os estranhos?...
Depois, a cena lugubremente patética. Dezenas de cadáveres disformes, choros, luto, e casas fechadas porque desapareceram os seus habitantes...
Oh! que horrível! A ponte do Douro na invasão francesa; o naufrágio do vapor Porto; e o incêndio do teatro Baquet, é a trindade memorável do Porto na perda de vidas.

Religião e Pátria, 24 de Março de 1888
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3 de julho de 2017

A tragédia do Teatro Baquet vista de Guimarães (1)

O Teatro Baquet, numa ilustração da revista Arquivo Pitoresco, n.º 33, 1863

A tragédia que se abateu sobre Pedrógão Grande em meados de Junho de 2017 tem sido apresentada como o incêndio mais mortífero de que haverá registo em Portugal. Pode ser verdade, mas se só estivermos a falar de incêndios florestais. O incêndio que provocou maior número de vítimas de que há memória em Portugal aconteceu no Porto, na noite de 20 para 21 de Março de 1888, quando ardeu o Teatro Baquet. Nunca se soube ao certo quantas pessoas terão morrido neste desastre. Acredita-se que foram mais de 120, embora só tenham sido identificados 96.

O Teatro Baquet, com frente para a Rua de Santo António e uma saída para a rua de Sá da Bandeira, tinha sido inaugurado com um baile de máscaras, no Carnaval de 1859. Tinha sido construído por António Pereira, um alfaiate que tinha feito fortuna em Espanha, de onde trouxera a alcunha Baquet. Depressa se tornou numa sala de espectáculos muito popular, conhecida por acolher os espectáculos que o público queria ver. Tinha uma companhia residente, que chegou a actuar no Teatro D. Afonso Henriques de Guimarães, em Julho de 1876.

Anúncios dos espectáculos da Companhia do Teatro Baquet no Teatro D. Afonso Henriques, em Guimarães, publicados em Julho de 1876 no Jornal de Guimarães.

Na noite de 20 para 21 de Março, com a sala cheia, um pano do cenário tocou numa gambiarra de iluminação a gás, pegando fogo, que rapidamente alastrou. O teatro encheu-se de fumo, o corte do gás lançou-o na escuridão, o pânico e o fogo fizeram o resto. Passadas duas horas, estava reduzido a escombros.

A notícia espalhou-se quase tão depressa como o fogo. Chegou a Guimarães pelo fio do telégrafo e já aparece nas páginas do jornal Religião e Pátria do dia 21. Ainda naquela madrugada, não faltou quem se dirigisse ao Porto, para saber de notícias de familiares e amigos. Quando amanheceu, não se falava de outro assunto. Durante um par de semanas iria fazer correr muita tinta nas páginas dos jornais locais.

Teatro Baquet em chamas

No dia 22, O Comércio de Guimarães dava pormenores do sinistro:

Grande catástrofe

Está de luto o Porto! Uma grande catástrofe, como os nossos leitores já devem saber, pelas notícias vindas dali, acaba. de enlutar muitas famílias, pela perda de esposas, filhos, maridos, parentes e amigos, um horror! Um incêndio pavoroso destruiu em poucas horas o teatro Baquet, e quantos cadáveres estarão ali sepultos!

Um nosso amigo que presenciou aquele espectáculo medonho, e do que felizmente saiu salvo, pinta-nos com cores bem tristes o quadro de angústias, de gritos, de confusão enorme. que houve ao descobrir-se o fogo quando se estava no espectáculo. E em 15 minutos, nos disse ele, que tanto seria para poder chegar da plateia superior à rua de Santo António, o teatro Baquet era todo uma fogueira! Não se explica a rapidez da voragem do incêndio, senão pela muita velhice dos madeiramentos.

Ontem de manhã espalhou-se nesta cidade esta triste notícia, mas ninguém supunha que teríamos no Porto a imitação do incêndio da Ópera Cómica de Paris. Só agora, pelos jornais dali chegados, é que se vê que o incêndio do Teatro Baquet foi um horror completo, cheio de desgraças, de vítimas e de prejuízos enormes.

Triste, muito triste o que ali se passa!

O número de vítimas ascende a mais de cem e ainda se não sabe o que mais haverá.

Leitor amigo, permite que não prossigamos na descrição, porque a tristeza nos veda e impossibilita. Calcula somente que um edifício enorme incendiou-se dentro de 15 minutos, estando repleto de gente.

A desolação que causou esta catástrofe nesta cidade, é enorme, e o telégrafo tem trabalhado constantemente a saber de famílias e amigos desta cidade.
[continua]

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1 de julho de 2017

Pelourinho, polé, forca

Lá para o alto do Monte Cavalinho, em vez de uma forca, está hoje um eucalipto de que se contam muitas petas.
Tem a data de 1 de Julho de 1867 a carta de lei de D. Luís que declara abolida a pena de morte em Portugal para delitos civis (a pena de morte para crimes políticos já estava abolida desde 1852 e a abolição para crimes militares só acontecerá em 1911, depois da implantação da República). Passam hoje 150 anos. Não conhecemos a repercussão desta notícia em Guimarães, mas é provável que não tenha tido grande impacto, já que não há memória de qualquer execução de pena de morte nesta terra.
Em Guimarães havia um pelourinho, primeiro na Praça Maior, depois no largo da Rua de Couros, que lhe tomou o nome e que hoje conhecemos por largo do Trovador. O pelourinho era um dos símbolos do poder municipal, onde eram executadas as penas desonrosas e exemplares, de baraço e pregão, impostas a condenados que nele eram amarrados e sujeitos a açoites ou à vergonha pública.
No tempo da Guerra da Restauração, chegou a ser construída uma polé no Toural. Era um instrumento de suplício, que o governador de armas da província do Minho, Álvaro de Abranches, mandou que o capitão-mor de Guimarães, Gregório Ferreira de Eça,  fizesse erguer e onde deveriam ser sujeitos a “três tratos” os soldados que desertassem da sua companhia. Uma polé era um instrumento de tortura e de castigo, em que os supliciados, com pesos amarrados aos pés, eram levantados do chão por cordas, presos pelas mãos, para depois serem deixados cair repentinamente. A este processo dava-se o nome de trato de polé ou suplício da estrapada. Não temos notícia de que esta polé, que foi levantada no Toural, tenha algum dia funcionado. A ordem do governador de armas tem a data de 10 de Maio de 1657 e o capitão-mor de Guimarães ordenou, no dia 18, que a Câmara de Guimarães a executasse. A ordem foi cumprida. Porém, passada uma semana, no dia 25 de Maio, já a Câmara decidia emprestar o calabre (a corda) da polé aos frades capuchos, para servir nas obras de construção do seu convento…
Pelourinho e polé eram instrumentos de execução de penas que, podendo ser dolorosas e aviltantes, eram do género das que moem, mas não matam.
Notícia de forca em Guimarães só a teremos no dia 4 de Maio de 1729, data em que foi arrematada por um pedreiro de Golães a construção de uma forca, “de altura de treze palmos e dois pilares de três palmos de largo em quadro, acabando cada uma com sua pirâmide”. A informação está no Guimarães – apontamentos para a sua história, do Padre António José Ferreira Caldas, no capítulo em que trata da Cadeia, que termina com uma congratulação:
Felizmente um tal monumento nunca chegou a levar-se a efeito.
Numa efeméride em que assinala aquela data,  publicada no jornal Vimaranense de 21 de Maio de 1897, o Abade de Tagilde reproduz a informação do padre Caldas, embora note que
não nos diz se a forca devia ser levantada no mesmo local do referido pelourinho. Felizmente não chegou a ser neste local ou noutro qualquer da vila.
Apesar do que nos dizem os bem informados Padre Caldas e Abade de Tagilde, a forca terá mesmo sido levantada, algures no alto do monte da Quinta de Vila Flor, ou do Cavalinho. A referência ao monte da forca aparece num registo de entrada de um enjeitado a que deram o nome de Bento, um menino encontrado “no monte da forca ao pé da Bouça da Maina”, em Urgezes, datado de 6 de Abril de 1756.
Segundo João Lopes de Faria,
a forca fez-se no alto do monte da Quinta de Vila Flor, onde ainda estão duas pedras quadradas, soleiras dos pilares, e no respectivo livro da despesa feita pela Câmara no ano de 1729 consta a seguinte verba: "com a forca que se fez e ferro para ela e chumbo e cal 9$190 réis".
Portanto, Guimarães teve uma forca, mas parece que nunca teve serventia.

A abolição da pena de morte em Portugal não produziu efeitos em Guimarães. Aqui, tanto quanto se sabe, já estava abolida: a famosa Justiça de Guimarães de que fala a Arte de Furtar, nunca a praticou a pena capital.

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30 de junho de 2017

O farol da Penha

Farol na Penha (fotomontagem sobre fotografia do início do séc. XX).

Há pouco mais de um ano, escrevia num texto destinado a uma exposição de fotografia dedicada à Penha, promovida pelo Cineclube de Guimarães:
Cidade que se preze da sua condição tem que ter a sua montanha sagrada, um promontório onde a terra se introduz pelo céu adentro. A de Guimarães chama-se Santa Catarina, mas o povo deu-lhe nome de pedra bruta, de rochedo, inamovível e imutável: é a Penha, o triângulo rochoso que o homem pintou de verde e que se recorta no horizonte, servindo-nos de farol sempre que nos aproximámos de casa. Pelo seu corpo, de compleição rude e bravia, emaranham-se as veias por onde escorre, essencial e límpida, a água que sustenta de vida a terra e as gentes que se dispersam pelo território que se estende a seus pés. A Penha é a varanda onde, nos dias calmosos e de céu límpido que se seguem às tempestades, o nosso olhar se espraia pelas lonjuras do horizonte e alcança o mar.
É verdade que, quando falava de um farol, usava uma metáfora, na tentativa de exprimir a ideia de ser a Penha primeira imagem que nos surge sempre que nos regressámos de Guimarães. Porém hoje, quando arrumava umas pastas com recortes, encontrei uma pequena notícia que saiu no jornal O Comércio de Guimarães de 26 de Março de 1888, onde se lê 

          Farol na Penha
Acendeu-se ontem pela primeira vez o farol que o snr. Albano Belino mandou colocar no ponto mais culminante da Penha.
O farol apenas se descobriu depois das 10 horas, em virtude da densa neblina que envolvia a nossa formosa estância.
Às 11 horas, quando a noite se tornou mais clara, observavam-se distintamente as cores — verde, branco e vermelho, à medida que o farol circulava sobre a sua coluna tríplice.
O efeito era magnífico.
Felicitámos o nosso bom amigo snr. Albano, pela sua bela lembrança. 

Afinal, sempre chegou a haver um farol na Penha. Teve inauguração no dia 25 de Março de 1888, domingo, e não há notícia de que tenha voltado a iluminar-se (os dias que se seguiram foram de tempo adverso, com vendavais assustadores, tendo chegado a cair um formidável nevão na manhã do dia 27). O responsável pela iniciativa, Albano Belino, era dado a algumas extravagâncias. 
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29 de junho de 2017

Do estacionamento automóvel na área urbana central de Guimarães - contributo para o debate


No início de 2017, a Câmara Municipal de Guimarães anunciou que tinha encomendado um estudo sobre a viabilidade da instalação de um parque de estacionamento subterrâneo no Largo República do Brasil e Alameda. O resultado do estudo já foi entregue e publicado para recolha de contributos, tendo no horizonte a intenção de promover uma “discussão pública sobre o tema do estacionamento automóvel tão alargada quanto possível”. Entendendo o convite para a apresentação de sugestões, críticas e propostas, como uma manifestação de abertura democrática e de incentivo à participação dos cidadãos na definição do futuro da sua cidade, lemos com atenção o documento apresentado. Dessa leitura, resultaram as reflexões e as sugestões que se seguem.

O “Estudo sobre estacionamento na área urbana central de Guimarães”, datado de Maio de 2017 e agora em discussão pública, divide-se em duas partes: uma introdução breve e genérica, no tocante à problemática do estacionamento no centro urbano de Guimarães, assinada pelo engenheiro Álvaro Costa, professor Universidade do Porto, com o título “Uma estratégia integrada para a mobilidade”, e um estudo dos arquitectos Fernando Seara de Sá e Marlene Assunção Sousa, com o título “Contributos para a definição de uma política de mobilidade urbana”. Será nesta segunda parte que incidirá o nosso contributo para o debate que se impõe. 
Segundo os autores do estudo, as fontes de informação que serviram de base a este estudo resumem-se, no essencial, à leitura e conhecimento de projectos e outros documentos disponibilizados pela Câmara Municipal de Guimarães, e ao conhecimento empírico adquirido pelos autores na sua “vivência quotidiana da cidade”. Ou seja, o documento em análise não tem uma componente de trabalho de campo, nem aporta novos dados, apenas nos dando uma nova leitura de informações pré-existentes. Por outro lado, não limita o seu campo de análise ao centro urbano, alargando-o áreas territoriais periféricas.
Na descrição que o documento traça do território, está implícita uma crítica à orientação urbanística que tem sido aplicada em Guimarães. Defendendo “uma cidade homogénea, inclusiva e equilibrada”, aponta uma “desigualdade e assimetria gritante entre o centro e as periferias”, assumindo uma visão coincidente com a do geógrafo Álvaro Domingues que, há alguns anos, gerou acesa polémica e indignação extemporânea, quando utilizou a expressão cidade ordinária, para se referir à periferia que ficava para lá da redoma protectora da cidade extraordinária, que coincide com o centro histórico, cuidado, protegido e classificado como Património Mundial. Esta crítica está bem expressa na referência às duas caras de Guimarães:
Guimarães tem hoje duas caras, uma que é a sua montra e tem sofrido um continuado “face lift” - o seu centro histórico - aquilo que se exibe com indisfarçado orgulho, e depois tem os seus bairros periféricos onde a imagem da cidade se degrada, está negligenciada e funciona quase como umas traseiras escondidas e envergonhadas.
O mesmo sentido crítico está presente quando se nota a persistência de uma atitude de “quase diabolização do automóvel traduzida numa clara inclinação no desenho dos espaços urbanos para a supressão continuada de lugares de estacionamento no centro da cidade, numa lógica do “politicamente correcto”, nunca questionado”. Estas afirmações contrastam com o pensamento que o Presidente da Câmara tem expressado, nomeadamente quando afirma a sua vontade de “devolver todo o território ao cidadão para que, com todo o conforto e segurança, possa usufruir do espaço público” ou quando manifesta a opinião de que, “se fosse possível tirar todo o aparcamento da superfície da cidade, estávamos a contribuir de modo decisivo para a estética de Guimarães”.
Discorrendo sobre os “novos paradigmas da mobilidade”, os autores do projecto recusam assumir a condição de adivinhos, mas não deixam de prognosticar que “o futuro próximo não será provavelmente construído com coisas muito diferentes do que temos hoje”. Ora, não é preciso ser profeta para se perceber que os novos paradigmas da mobilidade já estão aí, a bater-nos à porta, demonstrando-nos que, muito provavelmente, teremos que pensar a mobilidade de uma maneira diferente. Sobre o assunto, não faltam notícias que dão que pensar. Por exemplo:
As cidades têm de deixar de ser desenhadas a pensar nos carros (José Pedro Matos Fernandes, Ministro do Ambiente)
A mobilidade do futuro em Guimarães terá que passar, necessariamente, por um maior investimento em mais e melhores transportes públicos. Os autores do estudo sugerem “que a CMG tenha como objectivo político e procure em conjunto com o concessionário dos transportes públicos urbanos formas e modos criativos de dinamizar e incrementar a utilização deste meio de transporte de forma a contrariar a utilização recorrente do automóvel como meio de transporte usual pela população, preferencialmente sem o recurso ao uso sistemático de políticas restritivas e penalizadoras”. Estimular a utilização dos transportes públicos urbanos implica criatividade e investimento no alargamento da oferta disponível, adaptando, como sugerem os autores, “percursos e frequências às necessidades dos utilizadores”. Na nossa opinião, a aposta na oferta sobredimensionada de lugares de estacionamento em espaço urbano, que parece ser uma aposta da autarquia vimaranense e transparece da afirmação do Presidente da Câmara de que “todo o aparcamento que se vier a construir faz falta”, é um sinal que vai em sentido contrário.

Entrando na matéria central do estudo, o problema do estacionamento no centro urbano de Guimarães, os autores começam por descrever a oferta actualmente disponível, com a sua distribuição pelos diferentes eixos de acesso ao centro urbano. Como não indicam dados agregados, que nos permitiriam uma visão sobre o conjunto da oferta existente, fizemos as contas aos números que avançam. Ao todo, entre estacionamento de rua ou fechado, público ou privado, formal ou informal, pago ou gratuito, contámos 5352 lugares disponíveis. Mesmo acrescentando os cerca de 400 lugares das Hortas (parque referido no estudo, mas não quantificado), percebemos uma significativa discrepância em relação ao levantamento que a CMG realizou em 2015 que, na área urbana central de Guimarães, contou 13534 lugares de estacionamento. Ora, quando se avalia a necessidade de estacionamento numa cidade com base em dados deixam de fora quase 60% da oferta existente, é muito provável que se chegue a conclusões que a realidade não sustenta.
Para a compreensão desta discrepância na enumeração dos lugares de aparcamento público é preciso perceber o que ficou de fora das contas dos autores do estudo. Só no que toca a parques de estacionamento dedicados, sem entrar em conta com lugares na via pública, o estudo ignora, pelo menos, os parques do centro comercial Santo António, do centro comercial Palmeiras, da garagem situada entre as ruas Gil Vicente e Paio Galvão, de Santa Luzia (padres redentoristas), da Av. de S. Gonçalo (lado poente), da Caldeiroa (parque existente), do novo Mercado e do amplo recinto da Feira, que cumpre a função de parque de estacionamento seis dias por semana.
De Trás-Gaia à Caldeiroa: mercado, feira e aparcamento privado da Caldeiroa, três parques que o estudo não considera.
Da caracterização dos diferentes eixos que observaram (saídas para Braga e S. Torcato, a norte, para Fafe, a poente, para Famalicão, a nascente, para Santo Tirso, a Sul, e envolvente do Centro Histórico), os autores concluíram que todos estarão suficientemente cobertos em termos de satisfação necessidades de aparcamento, com excepção do “acesso pelo sul, correspondente à Rua Eduardo de Almeida, Av. D. João IV e Largo da República do Brasil, que estrutura a entrada de Santo Tirso e o trânsito local de e para Urgeses”. Ora, em relação à oferta já disponível neste espaço, situado a Sudeste do centro Histórico, o estudo esteia-se em três afirmações cujos fundamentos carecem de demonstração:
— que a nova zona de estacionamento gratuito criado no interior do quarteirão de Couros no âmbito da sua requalificação, “veio sobretudo responder à rarefacção de estacionamento produzida com as obras de requalificação do espaço público na Zona de Couros”. Vivemos, há mais de duas décadas, junto ao quarteirão de Couros e não cremos que a operação de regeneração urbana de que foi objecto tenha causado tal rarefacção. O número de lugares de estacionamento que foram criados é muito superior ao dos lugares suprimidos que, se existiram, tiveram uma dimensão manifestamente residual.
Couros, antes da requalificação (fotografia de satélite de 26 de Junho de 2010, sábado). Fonte: Google Earth.
Couros, depois da requalificação (fotografia de satélite de 12 de Maio de 2013 - não se estranhe ver tão poucos automóveis estacionados, porque a imagem foi colhida num domingo). Fonte: Google Earth.
— Que o parque do Centro Comercial S. Francisco, com 285 lugares, “supre as necessidades do Centro Comercial S. Francisco”. Supre as necessidades do centro comercial e muitas outras, dizemos nós. Basta estar atento na fila para as caixas da loja-âncora daquele centro comercial, o supermercado Froiz, e contar quantos são os clientes que solicitam o ticket de estacionamento gratuito a que teriam direito. São muito poucos.
— Que o Parque das Hortas “responde à necessidade correspondente ao uso de alguns equipamentos existentes no local”. Não estamos a ver que equipamentos estejam por ali instalados que justifiquem a necessidade de cerca de 400 lugares de estacionamento.
Estacionamento nas Hortas  (fotografia de satélite de 12 de Maio de 2013). Fonte: Google Earth.
No seu conjunto, aqueles três parques somam quase 800 lugares para estacionamento e, no essencial, dão resposta a necessidades de quem frequenta o centro urbano de Guimarães.
Com base na análise dos dados com que trabalharam, os autores do estudo correspondem à encomenda que lhes foi apresentada pela CMG, a saber, avaliar a “viabilidade para a instalação de um parque de estacionamento subterrâneo no Largo República do Brasil e Alameda”. São do parecer de que será “óbvio excluir a opção Alameda dados os custos inerentes, sobretudo de carácter ambiental” e de que o Campo da Feira “pelas suas características morfológicas e pelo tipo de revestimento vegetal que apresenta, pode comportar no seu subsolo um parque subterrâneo com cerca de 250 lugares desenvolvido em dois pisos”, embora condicionado pelo atravessamento do ribeiro de Couros, que aconselharia a sua implantação do lado mais a Norte daquele espaço.
Apesar de afirmarem a viabilidade construtiva de um parque enterrado no Campo da Feira, os autores do estudo não chegam a emitir opinião sobre a sua concretização. Propõem, sabiamente, que se estude melhor e se reflicta mais aprofundadamente, no quadro de “uma definição clara de uma política de mobilidade estruturada para a Cidade”:
De qualquer forma a construção deste novo parque deve, a ser construído, assentar no estudo e monitorização da realidade que resultará da construção do Parque de Camões e, num outro nível, de uma definição clara de uma política de mobilidade estruturada para a Cidade e significará a escolha entre as várias opções e realidades possíveis mas isso é do domínio da decisão política.
Não poderíamos estar mais de acordo com esta sugestão. Para esse estudo, é importante que se deixe de ignorar o diagnóstico que já foi feito pela autarquia e que consta, nomeadamente, do Plano de Mobilidade Urbana Sustentável, de Setembro de 2015, onde se lê:
Ao nível do estacionamento automóvel, e numa focalização na área urbana central, verifica-se que a oferta de estacionamento é de 13534 lugares, sendo 6357 lugares localizados em parques de estacionamento dedicados e os restantes na via pública.
Apesar do número elevado de estacionamento automóvel, verifica-se uma taxa de estacionamento ilegal (diurna e noturna) que chega a atingir 30% e uma taxa de ocupação dos parques de estacionamento ainda indesejavelmente baixa, julgando que tal resulta da falta de integração da gestão do estacionamento, concertação de preços, relativa facilidade em estacionar com um tempo de procura não elevado.
Embora nas últimas décadas, Guimarães assistiu a uma intervenção continuada no espaço público tendente à racionalização do estacionamento e circulação viária, bem como à valorização pedonal, esta situação reflete uma pressão sobre o espaço público acentuada e movimento automóvel de procura na área central excessivos e nocivos à boa gestão do espaço de todos nós e qualidade do ambiente urbano.
Mais do que criar mais oferta de parques de estacionamento, quando os existentes têm uma taxa de ocupação “indesejavelmente baixa”, importa trabalhar melhor as questões da informação, da gestão integrada de toda a oferta disponível, pública e privada, e da criação de condições diferenciadas de utilização, atendendo à condição dos utilizadores. Tudo isto se pode fazer com criatividade e baixos custos e pode passar, por exemplo:
— pela criação de uma plataforma partilhada pelos diferentes operadores, públicos e privados, acessível por simples aplicações para telemóveis, que permita aos interessados conhecerem, em tempo real, onde há estacionamento disponível, qual o seu custo e como lá chegar. Informação que, devidamente adaptada para facilitar a leitura nesses suportes, também pode ser colocada em painéis electrónicos, a implantar nas diferentes entradas da cidade;
— pela fixação de tarifas de estacionamento diferenciadas, quase simbólicas para moradores dos edifícios do centro urbano sem estacionamento privativo e com custos reduzidos para quem trabalha na cidade;
— pela instituição de um cartão electrónico de utilizador, que permitiria operacionalizar a diferenciação de tarifas e assegurar que os utentes apenas paguem o tempo de estacionamento que efectivamente utilizam;
— pela oferta de tempo de estacionamento gratuito aos cidadãos de Guimarães, com um crédito mensal de horas no cartão de utilizador;
— pela discriminação positiva, com tarifas mais baixas, para o estacionamento de veículos eléctricos ou híbridos.
Muito pode ser feito para melhorar a oferta de estacionamento em Guimarães. Mas, mais parques? Não, obrigado.

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