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Mensagens

A quadratura do círculo

Conta-se que o filósofo grego Anaxágoras de Clazómenas, mestre de Péricles, quando esteve preso, no início do segundo quartel do século V a. C., terá dedicado o tempo que passou na prisão a tentar resolver o problema da quadratura do círculo. Não consta que tenha encontrado a solução, até porque, quase no final do século XIX, Ferdinand Lindemann demonstrou a impossibilidade de solucionar este problema. Hoje, a expressão ‘quadratura do círculo’ é utilizada para designar algo que é impossível de fazer ou de construir.
Durante a discussão que se abriu em 2007 a propósito do anterior projecto de esventramento do Toural para a construção de um túnel e de um parque de estacionamento subterrâneo, um dos temas mais escalpelizados foi o das feridas que essas construções abririam à superfície da praça: as bocas do túnel e rampas de acesso ao parque para automóveis, os sistemas de ventilação, natural e mecânica, os acessos de peões, por escada e por ascensor. Na altura, houve uma discussão acessó…
Mensagens recentes

Ruas antigas: Couros, Guardal, largo do Trovador

A rua de Couros tem início junto ao antigo terreiro de S. Francisco, que também se chamou praça de D. Afonso Henriques, por ter sido o primeiro lugar de implantação do monumento ao rei fundador, e que hoje conhecemos, simplesmente, como a Alameda. Termina quando chega à margem do rio que tem o mesmo nome. Percorrida de sul para norte, desdobra-se, a certo passo, na estreita rua do Guardal, a poente, em cujo cotovelo se recolhe a Ilha do Sabão, e no íngreme largo da rua de Couros, que se expande do lado do nascente.
A origem do nome da rua de Couros não suscita quaisquer dúvidas: remete para a actividade artesanal e industrial em que se especializou, a curtimenta de peles e de couros. Aparece em documentos que datam, pelo menos, desde meados do século XIII, onde é referenciada como a rua que vai para o rio de Couros. Desde a idade Média que está mencionada a existência de pelames (palavra que tanto designa as oficinas dos curtidores, como os tanques em que se pelam as peles) na rua de C…

Ruas antigas: rua do Relho ou de Vila Flor

A rua do Relho é a que desce, pelo lado do nascente, do actual largo Bernardo Valentim Moreira de Sá para Couros. Antigamente, era por ela que se chegava ao Palácio de Vila Flor. Depois da chegada do comboio, em 1884, até à abertura da Avenida do Comércio, actual D. Afonso Henriques, ficaria, durante vários anos, no principal caminho de acesso à estação do caminho-de-ferro, que atravessava o campo do Minhoto. Era tida como rua de pouca importância, ao ponto do Eng.º Almeida Ribeiro, ao delinear as suas propostas de melhoramentos urbanos encomendadas pela Câmara de Guimarães em 1863, ter sugerido que esta artéria fosse desprezada, rasgando-se uma nova com a mesma direcção, mais ampla e de traçado mais regular. Como facilmente percebe quem a atravessa hoje, o projecto de Almeida Ribeiro nunca foi concretizado. Está longe de ser clara a origem do nome desta rua. Relho é o nome que se dava a diversos tipos de fivelas; também aparece na expressão popular “velho e relho”, com o significado d…

Ruas antigas: Caldeiroa

Saindo do Toural na direcção do monte Cavalinho, no largo que, desde 1953, ostenta o nome do musicólogo vimaranense Bernardo Valentim Moreira de Sá, abrem-se duas ruas descendentes em direcção ao rio de Couros. A que corre pelo lado do poente é a rua Caldeiroa ou, mais simplesmente, a Caldeiroa. Trata-se de uma das ruas mais antigas dos arrabaldes do velho burgo vimaranense, aparecendo, já com essa designação, na documentação medieval. Tem-se pretendido explicar o seu nome com o facto de ter sido uma rua onde, no passado, se concentraria a actividade de caldeireiros e latoeiros. Todavia, não há nada que autorize tal conclusão, excepto o que o nome sugere. A. L. de Carvalho, nos seus Mesteres de Guimarães (vol. V, pág. 81), escreve:
Temos nos topónimos de ruas uma artéria designada, desde o século XIII, — Rua da Caldeiroa. Não falta quem lhe queira, por esse facto, dar as honras de artéria onde poisaram caldeireiros. Tanto não avanço.
A investigação sistemática de Maria da Conceição Falc…

Ruas antigas: rua Nova das Oliveiras, Molianas, Madroa

A rua de Camões é a artéria descendente que sai do Toural pelo lado do vendaval (Sul). Tem essa designação desde o 10 de Junho de 1880, data em que se assinalou o terceiro centenário da morte do poeta. Antes, chamava-se rua Nova das Oliveiras. Nas suas fachadas, destacam-se as belas varandas e portadas em madeira trabalhada e pintada. Terminava junto à rua Travessadas Oliveiras, hoje Dr. Bento Cardoso, que também se chamou rua de S. Sebastião ou rua de Santa Rosa do Lima, mas a que a gente teima em continuar a chamar de rua das domínicas (pronunciando dominícas). No ponto onde essas ruas se encontravam havia um cruzeiro, que está representado na planta de Guimarães do século XVI e descrito pelo padre Torcato Peixoto de Azevedo em finais do século seguinte, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães(“um cruzeiro de pedra, de vinte e cinco palmos, com a cruz floreteada, e sobre degraus de pedra”). Do destino que terá levado tal cruzeiro, nada sabemos.

A seguir ao local onde ante…

O Rio da Vila

É um rio com vários nomes, porque, à medida que vai percorrendo o seu curso, vai adoptando os nomes dos lugares por onde passa. Também lhe chamaram rio merdeiro, não por esse ser o seu nome, mas a referência à função de escoadouro dos dejectos (humanos, animais ou "industriais") que outrora desempenhava. É o rio De Couros, que, nascendo na encosta da Serra de Santa Catarina, bordejava a antiga vila de Guimarães pelo lado do Sul. Aqui fica a sua descrição, delineada pelo padre Torcato Peixoto de Azevedo em finais do século XVII.
Do rio da Vila. Dos rios que correm junto a Guimarães pela parte do norte dei notícia, agora a darei dos que correm pela parte do sul, dando princípio no rio da Vila, tem este quase tantos nomes quantos os lugares por onde passa: tem o seu nascimento no oriente, na fonte dos Passais da igreja de S. Romão de Mesão Frio, distante desta vila dois tiros de mosquete. Tinham estas águas algum dia muito diferente corrente, porque iam encanadas ao palácio dos d…

Dia de Páscoa

Já o disse antes, repito-o agora: a minha participação na discussão acerca das propostas para a construção de parques de estacionamento no Centro Histórico de Guimarães não é movida por inquietações provocadas pela proposta avançada pela coligação Juntos Por Guimarães, para a construção de túneis e parques subterrâneos no Toural e no Campo da Feira. Entendo a sua natureza pré-eleitoral, da qual decorre que ainda haverá que correr muita água pelo rio de Couros até que a sua concretização se possa colocar em cima da mesa. A minha preocupação actual decorre, exclusivamente, do projecto da Câmara para a construção de um grande parque de estacionamento no espaço interior do quarteirão Camões-Caldeiroa-Travessa da Madroa. Porque, neste momento, ao contrário da Coligação, a Câmara tem poder para fazer avançar o seu projecto, tornando-o num facto consumado, porventura irreversível. E temo que a apresentação da proposta da Coligação possa, involuntariamente, eu sei, ir de encontro à vontade da…

Da estatística e dos seus usos

Há em Guimarães uma nova paixão: as estatísticas.
À entrada da cidade, deparo-me com um cartaz que me informa que Guimarães já ocupa o quinto lugar no ranking dos concelhos mais exportadores do país. Magnífico. Mas o que é que isso me diz sobre o nível de vida dos vimaranenses? Nada. Consulto as estatísticas e verifico que, segundo os últimos dados disponíveis (referentes a 2013), a remuneração média mensal dos trabalhadores por conta de outrém de Guimarães se ficava por uns tristes 77% da média nacional. Céu ou Inferno?
O portal da PORDATA, na informação desagregada por municípios, disponibiliza quase uma centena de indicadores, havendo-os para todos os gostos. Escolhas cirúrgicas desses indicadores permitirão pintar o quadro de Guimarães com os tons do mais luminoso cor-de-rosa, ou com as diferentes variações de cor-de-laranja, que é a cor que, na pintura antiga, predomina nas representações do Inferno.
As estatísticas são ferramentas muito úteis para a análise dos diferentes proce…

O Apocalipse, segundo a PORDATA

Eis um diálogo que, nos últimos tempos, se tem repetido, de diversos modos e a propósito de tudo e mais alguma coisa, nas redes sociais:
“— Guimarães está à beira da catástrofe!
— Como disse?
— Não acredita? Vá consultar a PORDATA.”
Fui.
Percorro os quadros estatísticos, uns a apontarem para cima, outros para baixo, outros para o lado, sem que nada encontre que justifique afirmação tão categórica, até que esbarro no indicador “alunos matriculados no ensino superior: total e por sexo – Municípios”, que mostra “onde há mais e menos homens ou mulheres a frequentar o ensino universitário e politécnico”.
O que vejo, deixa-me num estado de profundo desalento. São dados arrasadores, que confirmam e superam as teses mais catastrofistas.
Então não é que, segundo a PORDATA, a nova fonte de fé, Guimarães tem menos estudantes a frequentarem o ensino superior do que a Póvoa de Lanhoso? Que em Fafe se multiplica por cinco o número de estudantes universitários de Guimarães? E que em Famalicão são 16 vezes …

Severino, o pastorinho esquecido

Hoje, ao ler no Expresso uma entrevista em que o padre Anselmo Borges, depois de notar que “posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma”, afirma que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”, recordo um facto que demonstra que a relevância de Fátima enquanto fenómeno de fé não foi uma irrupção instantânea, mas sim uma construção de elaboração lenta. A certa altura, quando estudava na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, andava pela Biblioteca Municipal do Porto a consultar jornais vimaranenses, recolhendo materiais para um trabalho, a desenvolver no âmbito duma cadeira de História Contemporânea, acerca do impacto que as revoluções russas de 1917 teriam tido numa terra que fica à distância mais de quatro mil quilómetros de Moscovo. Como não encontrei material suficientemente interessante para o que pretendia, mudei de tema. No entanto, dessa pesquisa, ficou-me uma estranheza: tendo feito uma consulta sistemática aos jornais que se publi…

Vento e casamento

A identidade vimaranense é um composto em cuja fórmula se amalgamam ingredientes de diferentes naturezas. Um deles é a pulsão gregária epidérmica que sempre se manifesta em resposta às investidas de desafectos exteriores à comunidade. Ao longo da História, os contributos dos inimigos externos para a consolidação da identidade vimaranense têm variado em função dos tempos e das modas, mas há um elemento que é constante: a eterna rivalidade, melhor dizendo, emulação, em relação aos vizinhos que vivem do outro lado da Morreira, de onde, segundo o ditado, não sopra bom vento.
Foi sempre assim. Escrevi foi, porque parece que está a deixar de ser. Agora, vivemos tempos bem mais fraternais. É só paz, amor e amizade. Para anjinhos, já só nos faltam as asas.
Tempos houve em que correrias entre Guimarães e Braga correspondiam, quase fatalmente, aos de uma cidade a serem corridos da outra. Não poucas vezes, à pedrada, como aconteceu na tarde de má memória de 28 de Novembro de 1885, em que três dos …