31 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (7)

João de Meira


[Continua daqui]
 

Quanto à relação da servidão da vassoura com feitos e mal feitos de Guimarães e Barcelos aquando da conquista de Ceuta, não faltam referências nos textos que tratam da história de Guimarães. Assim sucedeu com João de Meira, que, numa conferência que ficaria inédita aquando do seu falecimento, alude ao assunto com expressões de dúvida (parece, diz a lenda):

"Na tomada de Ceuta o concelho parece ter-se representado gloriosamente. O contingente de Guimarães, diz a lenda, combatendo ao lado das tropas de Barcelos no assalto da praça, atacou com valentia o lugar que lhe coube em sorte, e ainda acudiu esforçadamente ao lanço que os barcelenses abandonaram, ganhando por esse feito o privilégio de as ruas da vila serem varridas na véspera de certas solenidades pelos vereadores de Barcelos num traje vexatório e grotesco."

João de Meira, Guimarães. 950-1580. Conferência inédita. Publicação póstuma na Revista de Guimarães n.º 31, 1921, p. 135
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30 de maio de 2010

S. Dâmaso, papa de Guimarães?


S. Dâmaso


S. Dâmaso Sumo Pontífice


Foi S. Dâmaso Português, filho de António, nasceu em Entre-Douro-e-Minho, junto a Guimarães, ou no mesmo povo, como claramente o testificam os Breviários Bracarense, e Eborense antigos. E João Vaseu, varão douto, João de Barros, jurisconsulto nas suas Antiguidades de Entre-Douro-e-Minho, c. 13, falando de Guimarães, onde além dos Autores, que por si alega, diz que duas léguas de Guimarães, e uma de Braga estão no Couto de Pedralva umas casas e edifícios, muito antigos e arruinados, os quais têm por tradição antiquíssima os daquele lugar, que morou ali a mãe de um Papa, que foi em Roma Santo, e que dali se foi para lá. O que além de ter autoridade pela tradição, concorda com o que lemos em sua vida, que foi enterrado em Roma com sua mãe e irmã; as quais parece deixaram sua pátria e assento natural, por viverem em companhia deste Servo de Deus. Porém invejosos alguns estrangeiros do lustre e honra, que a esta Província resultava de ser mãe de tão santo filho, no-lo quiseram usurpar, para ilustrar com ele suas Pátrias; como foi o Doutor Pedro Antão Beuter, que sem fundamento, por engrandecer a sua, o faz de Barcelona; e os Castelhanos, que contendem ser nascido em Madrid, e alegam com Marineo Sículo, o qual ainda parece sentir o contrário; pois tratando no seu quinto livro mui particularmente dos Santos dos Reinos de Castela, e Aragão, não põem este, tendo tão notável; e somente falando de Madrid no livro fegundo, acaso diz estas palavras: Est Præterea felicissimum Sancti Damasi Summi Pontificis meritis, qui Maioritanus fuisse perhibetus a multis. E desta sua opinião não dá mais razão alguma, nem mostra outros Autores, em que se funde, senão uma pedra moderna sem autor, nem autoridade. Pelo que se vê claramente, que só tuas paixões particulares os fazem desviar da verdade conhecida. Temos além de tudo por nós Onófrio Panvino, o qual o nomeia sempre Português. E posto que no livro, que compôs de Vitis Pontificum, & Cardinalium, diga que era Egitanense, ultimamente no Chronicon dos Pontífices Romanos diz que é de Guimarães. E o Doutor Gonçalo de Ilhescas em sua vida confessa esta verdade, e diz estar tido universalmente por Português. O que parece é bastante para abonar a parte de nosso, em que tanto interessamos. (...)

(Manuel Severim de Faria, Notícias de Portugal, Lisboa, Oficina de António Gomes, 3.ª edição, 1791, Tomo II, pp. 215-218)

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28 de maio de 2010

Ao Marquês de Pombal, por António Lobo de Carvalho (4)


 
Na morte do Marquês de Pombal em 1782
 
Apesar dos esforços, que fazia
Por dilatar a vida sempre astuto,
O Marquês de Pombal paga o tributo,
Que desde que nasceu pagar devia:
 

Na duração eterno parecia,
E o mundo para ele diminuto:
Se ele foi bom, ou mau, não o disputo,
Que isto toca a mais alta jerarquia:
 
Sei que mostrou, que todo aquele enredo
De máximas, ideias, vigor forte,
Acaba de uma vez, ou tarde ou cedo:
 

Restam hoje as exéquias desta morte;
E para pregar nelas o Macedo
Que está pronto a mentir de toda a sorte.

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27 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (6)


A antiga Casa da Câmara de Guimarães 

[Continua daqui]
 


A servidão da vassoura a que estavam obrigados os moradores de Cunha e de Ruilhe é um facto histórico, demonstrado por diversos documentos, como por exemplo o Tombo de 1735, no qual são descritos os bens pertencentes ao Senado da Câmara de Guimarães. Entre eles, estavam os barretes e as faixas com que eram investidos os varredores que vinham cumprir a penitência:

 
Barretes de Cunha e Ruilhe — Tem mais o Senado que se guarda na casa dele três barretes de rabo comprido feitos à mourisca e três faixas tudo de baeta vermelha com que os moradores das duas freguesias de S. Miguel de Cunha e de São Paio de Ruilhe cada uns no seu giro se preparam e compõem quando vêm varrer a praça e terreiro de Nossa Senhora da Oliveira e açougues desta vila nas festas da Câmara cuja varredura fazem nos próprios dias das mesmas festas pela manhã com um pé descalço e o outro calçado e a espada metida na faixa que cada um ata pela sua cinta às avessas pela parte esquerda e o barrete metido na cabeça com o rabo estendido pelas costas abaixo, e nesta forma é que varrem.

 
[Tombo de 1735, publicado por Alberto Vieira Braga in Administração Seiscentista do Município Vimaranense, Guimarães, 1953, pág. 300]

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Ao Marquês de Pombal, por António Lobo de Carvalho (3)



Ao mesmo jarreta do Diabo, encaixotado no Pombal, com dinheiro em barda
 

Sim senhores, tem feito maravilhas,
Vai purgando o Marquês o seu pecado;
E na apreensão do vulgo amaldiçoado
Todos estes trovões são cascarrilhas:
 

Tiraram os Mendonças co'os Mansilhas,
Este da feitoria, o outro do prado;
Nem o estrondoso herói já tem ao lado
Mais que a pobre mulher, e uma das filhas:
 

A santa imagem de pavor profundo
Três vezes foi borrada, insulto aquele
Que a história nunca deu a ler segundo:
 

Mas eu trocara co'o Marquês a pele,
Pois quanto dinheirinho há neste mundo
Todo jaz no Pombal nas garras dele.
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26 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (5)



[Continua daqui]
 


A tradição que associa a servidão da vassoura, a que estavam obrigados os moradores de Cunha e de Ruilhe, ao comportamento da hoste de Barcelos na tomada de Ceuta, carece de base histórica (até porque, tanto quanto é possível saber-se, na conquista daquela praça marroquina não participou qualquer hoste de Barcelos…). Todavia, esta tradição tem já vários séculos de caminho. Se Alfredo Pimenta a classificou como um história da carochinha, em tempos recentes, no final do século XX, foi-lhe acrescentada uma nota suplementar de fantasia, numa tentativa, algo ingénua, de expurgar a carga pejorativa da tradição das duas caras que anda associada à estátua do Guimarães, que hoje podemos ver a encimar a fachada voltada para a praça da Oliveira dos antigos Paços do Concelho. Segundo essa versão, as duas caras seriam, nem mais nem menos, as duas frentes de batalha que os de Guimarães teriam tido que sustentar na conquista de Ceuta - a que lhes cabia e aquela de que os de Barcelos teriam desertado. É fácil de demonstrar, como já se fez antes, que esta história não tem qualquer sustentabilidade.

Pela parte que me toca, fantasia por fantasia, acho bem mais interessante esta versão da lenda das duas caras.

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Ao Marquês de Pombal, por António Lobo de Carvalho (2)


 
Ao Marquês de Pombal quando destituído dos seus cargos, e mandado para a sua casa do Pombal.

 

Na mesma ocasião [do anterior]


 

Que tirasse o Marquês com mão avara
Do erário d'el-rei o metal louro;
Que ajuntasse um riquíssimo tesouro,
Sem inveja de lhe ter, eu desculpara:
 

A sede insaciável se fartara
No contrato dos vinhos do Alto-Douro,
Se roubasse ao judeu, ao índio, ao mouro,
E ao rico holandês, não criminara:
 

Mas o que não consinto, nem aprovo
É da sua ambição dar-nos assunto,
Assunto nunca visto, assunto novo:
 
Pois não contente do que tinha junto,
Até tirou as lágrimas ao povo
Com que chorar devia o rei defunto!

 

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25 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (4)



[Continua daqui]
 


Uma das referências que costumam ser citadas para dar crédito à tradição da servidão de Barcelos e ao papel que o Duque D. Jaime terá tido para a relevar, é o seguinte excerto do

 
Tratado Histórico, Catálogo dos Priores do Real Mosteiro da Costa (Guimarães)
 
CAP. IV
Vida do Duque D. Jaime
[…]
Aos moradores da sua Vila de Barcelos livrou da injuriosa servidão de virem dois vereadores da mesma Vila em certas festividades do ano varrer a Praça e Açougues da Vila de Guimarães, para o que fez tirar do termo da Vila de Barcelos as freguesias de Cunha e Ruilhe, que se uniram ao termo de Guimarães com o encargo daquela servidão.
[…]

(Obra atribuída a Francisco Xavier Pereira Camelo -1748, in Boletim de Trabalhos Históricos, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Vol. XIX, 1957, p. 160)

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Ao Marquês de Pombal, por António Lobo de Carvalho (1)



António Lobo de Carvalho dedicou vários sonetos satíricos a Sebastião José de Carvalho e Melo. Aqui transcrevemos um:

 


Ao Marquês de Pombal quando destituído dos seus cargos, e mandado para a sua casa do Pombal.



Que desonrem os régios tribunais
Do Pele os sanguinários carniceiros;
Que sejam contadores, tesoureiros
Os que foram nos furtos parciais:
 
Que estraguem os alheios cabedais
Deputados ladrões! Que maus canteiros
Se digam arquitectos que os Monteiros
Grão-sultões edifiquem capitais:
 
Que o Manopla organista, algoz Manique,
Que da cizânia o espalhador Pereira
A agravada justiça não despique:
 
Que o capitão do bando ao erguer da feira
Rindo-se da galhofa em Pombal fique, 
Pode bem suceder; mas não me cheira!

 

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24 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (3)


 D. Afonso, 1.º Duque de Bragança
[Continua daqui]


A tradição do tributo da vassoura a que estavam obrigados os moradores de Cunha e Ruilhe é contada com algumas variantes. Segundo uma delas, seriam nove, e não sete vezes ao ano que os vereadores de Barcelos e, depois, aqueles a quem a obrigação foi transmitida, viriam varrer as ruas de Guimarães. De acordo com outra versão, os vereadores-varredores seriam dois, de cada vez, e não três. Por um lado, terá sido D. Afonso, bastardo do rei D. João I e primeiro Duque de Bragança (1442-1461), o responsável pela transferência da obrigação vexatória dos vereadores de Barcelos para os vizinhos das freguesias de Cunha e Ruilhe que, para o efeito, foram transferidas para o Concelho de Guimarães; por outro, terá sido o quarto duque, D. Jaime (1500-1532).

Uma outra variante indica que a transferência não terá sido efectuada directamente da vila de Barcelos para aquelas duas freguesias, tendo sido a servidão transmitida, em primeiro lugar, à freguesia barcelense de Santa Eugénia do Rio Covo, sendo depois transferida para Cunha e Ruilhe. Uma passagem da Corografia Portugueza do Padre Carvalho da Costa diz algo diferente, quando trata da freguesia de Santa Eugénia:
 
"Dizem foi antigamente couto de Guimarães e por castigo, e privilégio que tinham eram os moradores obrigados a ir-lhe varrer as ruas; mas sendo mui prejudicial a Barcelos haver aqui este couto tão seu vizinho, em que acolhiam seus criminosos, donde saíam a roubá-los, lhes deram em troca as duas freguesias de Cunha e Ruilhe com a mesma obrigação".
Esta citação da obra de Carvalho da Costa contribuirá, como veremos, para a compreensão desta tradição.
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23 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (2)


Ceuta, numa gravura do séc. XVI

[Continua daqui]


A propósito da origem da servidão dos moradores de Cunha e de Ruilhe, corre em Guimarães, há vários séculos (já corria no início do século XVIII), uma tradição que o insuspeito historiador Alfredo Pimenta classificou como história da carochinha. Aqui fica, como o Padre António José Ferreira Caldas a descreveu em finais do século XIX:

"Uma das mais notáveis e curiosas honrarias concedidas a esta vila foi, sem dúvida, a que lhe dera D. João I, depois da tomada de Ceuta.

Para a defesa desta praça em África, dividiu el-rei as estâncias da muralha, pelos moradores das cidades e vilas, que o acompanharam nesta empresa: acontecendo ficar a gente de Guimarães e Barcelos em estâncias seguidas, onde o combate com os mouros foi mais cruel e renhido.

Atemorizados os barcelenses pelo furor mauritano, desamparam o seu posto e fogem; mas logo os filhos de Guimarães, com o peito abrasado no amor da pátria, se dividem em dois terços, ocupando com um deles a estância abandonada, e defendendo-a até à vitória com inexcedível coragem.

Para castigar a fragilidade de uns, premiando ao mesmo tempo a heroicidade dos outros, mandou D. João I, que de então para sempre dois vereadores de Barcelos, com um barrete vermelho na cabeça, banda ao ombro da mesma cor, espada à cinta, vassoura de giesta em punho, e com um pé calçado e outro descalço, viessem em todas as vésperas das festas da câmara varrer as praças e os açougues de Guimarães; entregando depois o barrete e a banda aos nossos vereadores, dando-lhes assim satisfação de tão tributo, que pagaram a esta vila por muitos anos.

Não havendo já em Barcelos quem se prestasse a servir de câmara, fez o duque de Bragança D. Jaime com a câmara e povo de Guimarães, um contrato solene, pelo qual ficou obrigado a dar do termo da vila de Barcelos, de que era senhor, as freguesias de Cunha e Ruilhe, para que estas - anexadas ao termo de Guimarães - dessem todos os anos dois homens, que viessem aqui satisfazer tão pesado encargo."

António José Ferreira Caldas, Guimarães (Apontamentos para a sua história), (1.ª edição: Porto, 1881), 2.ª edição, Sociedade Martins Sarmento / Câmara Municipal de Guimarães, de 1996, pp. 212-213.

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22 de maio de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (1)


Há uma velha tradição vimaranense, que envolve as freguesias de S. Miguel de Cunha e S. Paio de Ruilhe, actualmente pertencentes ao concelho de Braga, que tem gerado alguma discussão, por se situar algures entre a história e o mito. As dúvidas que persistem em relação a esta tradição não dizem respeito à sua existência, que está demonstrada, mas quanto à sua origem, que carece de ser esclarecida.

A tradição, que se cumpriu até ao ano de 1743, conta-se assim:

Durante séculos, três moradores daquelas freguesias (dois de Cunha e um de Ruilhe) vinham, sete vezes no ano, varrer a praça, o terreiro e o açougue de Guimarães. Esta era uma servidão a que todos os homens daquelas freguesias estavam obrigados, enquanto lá residissem, sendo cumprida rotativamente entre eles. Acontecia nas vésperas das sete festas do ano: Páscoa, Espírito Santo, Corpo de Deus, São João, Santa Isabel, Domingo do Advento e Nossa Senhora de Agosto. Aqueles a quem calhava em sorte o cumprimento desta servidão dirigiam-se à Câmara, onde eram forçados a envergar o trajo próprio da função: ali lhes davam uma opa vermelha ou barrete da mesma cor, de que caía uma ponta até ao talabarte, e a espada levavam e a metiam em um cinto armado à esquerda e os faziam descalçar um pé ficando com o outro calçado pondo-lhe ao cinto o sapato e meia que tinham descalçado. Como ferramenta, cada um levava sua vassoura de giestas. As ruas eram varridas sob a vigilância permanente de um guarda nomeado para o efeito, no meio da algazarra de grupos de rapazes que escarneciam dos varredores forçados. Cumprida a humilhação pública, os três penitentes devolviam à Câmara o barrete e restantes adereços que foram forçados a utilizar, dando-se por cumprido o tributo.

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19 de maio de 2010

17 de maio de 2010

O Entre-Douro-e-Minho, por Duarte Nunes de Leão



A terra de Entre-Douro-e-Minho, como já temos dito atrás, é aquela região que jaz entre aqueles rios, r que fomente tem de longura dezoito léguas e de largura muitas menos apartes. O que desta terra se pode dizer, é coisa que com muitos pode perder o crédito: por a multidão da gente que produz, e por os muitos frutos que dá. Porque nela há o Arcebispado de Braga muito rico que tem o primado de Espanha, sobre que pende uma antiga demanda entre o Arcebispo desta cidade, e o de Toledo: no qual há oitocentas pias de baptizar: e o Bispado da cidade do Porto que tem seiscentas, e mais cinco igrejas colegiadas convém a saber Guimarães, Cedofeita, Vila de Conde, Barcelos e Viana.

 
E cento e trinta mosteiros e Abadias de mui grossas rendas, afora ermidas e oratórios, e muitas comendas das ordens de Cristo, Santiago, Avis, e de São João do Hospital de grossas rendas. A causa disto é, que por a pureza e salubridade dos ares e pela excelência das águas se multiplicam ali muito os homens, e vivem muito: porque ninguém adoece ali senão por excesso de comer e beber, e outras tais culpas, pela abundância que de tudo tem. As mulheres parem até cinquenta anos: e os filhos se lhes logram por a mesma razão do bom terreno, boas águas e do bom céu de que gozam. Pelo que pela maior parte em cada casal se acham xx.xxvi filhos: de que vem haver tanta gente, que da plebeia (segundo ouvi aos oficiais do regimento da vila de Barcelos que é do Duque de Bragança, no tempo que se faziam as ordenanças da gente militar) só daquela vela e seu termo em trinta e duas bandeiras que havia, saíram dezassete mil homens com suas armas. E assim é toda a terra tão povoada, que não podem dar um brado em qualquer parte que sejam que não acuda gente. Enfim como a gente plebeia é tanta, que cada dia sai como exames de abelhas para todas partes do reino, não há lugar onde se não achem muitos homens de Entre-Douro-e-Minho para lavor e cultura da terra, em ceifas, em marinhas, em adúbio de vinhas e outros serviços, no mar e na terra, assim em Lisboa como em Alentejo e reino do Algarve, e nas partes de África onde de cavouqueiros e servidores e homens de armas há grande número: principalmente dos Arcos de Valdevez donde saem valentes soldados. Da gente nobre desta província tivemos sempre assim no exercício das armas como nas letras homens excelentes que foram grande ornamento deste reino, e são hoje no conselho de Portugal e no de Castela. E se recorrermos aos tempos antigos, da mesma terra procederam as mais casas nobres que hoje há no reino de Portugal e de Castela de que há as antigas de seus solares e apelidos que em seu lugar nomearemos. Os mantimentos de que esta tanta gente se mantém, são muito trigo que em algumas partes desta região de Entre-Douro-e-Minho se colhe e o muito centeio e milho e infinidade de todas frutas, carnes e pescados dos melhores e mais saborosos de Espanha, muito vinho do que chamam enforcado de que agente plebeia se sustenta: que para os nobres se valem dos vinhos riquíssimos de Ribadavia e de outros de Galiza sua vizinha e de Lamego e Monção de que tem grande provisão. A terra é tão frutífera de tudo o que é necessário à vida, que se pode chamar um paraíso terreal em o qual todo o ano há flores como na primavera.

 
Nesta mesma terra há muita caça e muito aparelho para a tomar, de cães e aves de toda sorte que na mesma terra se dão. Esta grande abundância de mantimentos se causa das muitas águas, fontes e rios por o que dizia Estrabão que a Lusitânia era terra feliz. Basta saber-se que há só entre os dois rios Douro e Minho vinte cinco mil fontes, e duzentas pontes de pedra lavrada.

 
In: Descripção do Reino de Portugal / per Duarte Nunez do Leão, desembargador da casa da supplicação: dirigido ao... Sñor Dom Diogo da Sylva, Duque de Francavilla.... - Em Lisboa: impresso com licença, por Iorge Rodriguez, 1610, pp. 65-66
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16 de maio de 2010

A muralha de Guimarães no início do séc. XIX


Em 1957, o Mário Cardozo publicou, na Revista de Guimarães, um artigo em que mostrava dois desenhos do início do século XIX, representando a actual avenida Alberto Sampaio. De encosto à muralha, ainda lá estavam a Torre dos cães e um renque de oliveiras. Arrancando junto da capela da Senhora da Guia, estendia-se, rua acima, um passeio que acabava junto de uma fonte onde as gentes se iam abastecer de água, a Fonte da Barrela. O terreno que, ao longo do passeio, se encostava à muralha, estava então aforado a um tal Cristóvão Francisco Barroso, que foi Procurador do Concelho, para aí erguer a sua nova residência. Ao fundo da rua, à entrada do Campo da Feira, erguia-se um cruzeiro.


[Toque na imagem para ampliar]
Transcrição da legenda:

 
Esta rua tem de comprimento até à quina da Capela 117 varas. Contando da torre até à dita capela, tem de largura 20 na sua entrada. Tem o muro de altura 8 varas, e em partes mais.

Para melhor mostrarmos os sítios Conheceremos pelos números.


N. 1 Passeio que vai até às oliveiras.


N. 2 Fonte chamada da Barrela.


N. 3 Entrada da calçada que vai para Santa Cruz / por outro modo / à Torre dos Cães.


N. 4 Caminho para o Lugar da Pupa.


N. 5 Caminho que vai para o lugar das Hortas.


N. 6 Entrada para o Campo da Feira.


N. 7 Capela da Senhora da Guia.


N. 8 Lugar, e sítio que a Câmara desta Vila aforou a Cristóvão Francisco Barroso para a edificação das suas novas Casas, cujo terreno se mostra pela linha oculta que vai apontada de vermelho, cuja terra fica pela parte de trás da Capela.


[Toque na imagem para ampliar]

Legenda: 1 - Capela da Senhora da Guia; 2 - Passeio; 3 - Fonte da Barrela; 4 - Oliveiras; 5 - Torre dos Cães
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15 de maio de 2010

Isto não vai com cometas…


O Padre António Vieira

Em 1910, João de Meira publicou, em dois números do jornal Independente, um texto com o título O padre António Vieira e os Cometas, que partiu da sua leitura do texto Voz de Deus ao mundo, a Portugal e à Baía – Juízo do Cometa que nela foi visto em 27 de Outubro de 1695 e continua até hoje 9 de Novembro do mesmo ano, no qual, segundo Meira, intenta Vieira demonstrar nele com grande cópia de citações, que "depois que os Profetas cessaram começou Deus a falar pelos Cometas que é a linguagem universal de maior majestade, e horror de que usa extraordinariamente a seus tempos e em casos graves".

O texto de João de Meira, com 100 anos concluídos hoje, conclui assim:

"Vieira, na sua ingénua velhice, pregou, ao escrever a Voz de Deus, a reforma e a morigeração dos costumes por via dos cometas:

Acabem-se os ódios, reconcilie-se as inimizades, perdoem-se as injúrias, componham-se as demandas, restitua-se a fazenda mal adquirida, e a fama. Paguem os poderosos o suor que estão devendo aos pequenos; cessem as opressões dos pobres, e cesse o luxo e a vaidade, que se sustenta do seu sangue.

Se um cometa fosse capaz de produzir quanto o bom padre dele esperava há muito que o nosso mundo tinha atingido a perfeição pela multidão do cometas que o têm visitado.

Mas decididamente isto não vai com cometas."

Guimarães, 15-5-10,
J. de M. [João de Meira]
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1910: O Cometa Halley (não) visto de Guimarães


O cometa Halley fotografado no céu de Nova Iorque (1910)
 
O Cometa de Halley

Conforme o Independente já noticiou, desde Janeiro passado que o cometa de Halley, com o auxílio de um pequeno telescópio principiou a descortinar-se na região do zodíaco onde então brilhavam Marte e Saturno, prosseguindo então no seu movimento aparente na abóbada celeste de Oriente para o Ocidente, ao encontro do Sol.

Nos princípios de Março, o cometa de Halley, já mais brilhante, mas ainda invisível a olho nu, podia observar-se após o anoitecer do lado do poente, não muito acima do horizonte, e assim foi ao acercando do Sol, desapareceu de todo afogado na sua luz, até que a 28 de Março teve lugar a sua conjunção superior, isto é achou-se na mesma direcção que o Sol em relação à terra, para o lado de lá do Sol.

Assim foi prosseguindo o seu movimento para o Ocidente, afastando-se na aparência do Sol, caminhando mais tarde para o Oriente, ao encontro do astro do dia, até que na noite de 18 para 19 do corrente teve lugar a sua conjunção inferior, isto é, encontrou-se na mesma direcção que o Sol em relação à terra, mas para cá do Sol.

Não há dúvida que nessa noite, pelas 2 horas da manhã, o núcleo do cometa ou melhor a sua projecção, atravessou o disco solar de Ocidente para o Oriente, mas ninguém em Guimarães deu pelo fenómeno, o que não admira, pois que ele só podia ser observado pelos habitantes das regiões opostas do globo.

Mas se de antemão já sabíamos que não nos era dado ver a passagem do núcleo sobre a Terra, contávamos ver a cauda luminosa do cometa atravessar a Terra. Para esse fim subimos a um dos pontos mais altos da cidade para melhor observarmos o fenómeno e lá permanecemos desde as 2 horas até depois das 3 horas da madrugada.

Durante todo esse tempo a atmosfera esteve sempre empanada e sombria, de forma que não foi possível descortinar se o feixe luminoso que, caminhando de Oriente para Ocidente, devia ter envolvido a terra àquela hora.

Mas nem ao menos se notaram no horizonte os reflexos aurorais que decerto iluminariam a atmosfera se conseguissem penetrar através da densidade.

[Independente, n.º 441, ano 9.º, Guimarães, 21 de Maio de 1910]
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14 de maio de 2010

1910: o Cometa Halley visto de Guimarães


"O cometa de Halley no firmamento de Lisboa" (1910)


O Cometa de Halley

 

A convite dos snrs. Augusto Cunha & C.ª, desta cidade, assistimos na quarta-feira de madrugada, na montanha da Penha, a diversas observações com as lunetas astronómicas que se acham em exposição na Casa Comércio e Indústria, á Rua Nova de Santo António, e que aqueles acreditados negociantes adquiriram directamente no estrangeiro.

 

O cometa do Halley, com todo o seu brilho, a cauda voltada pura cima, viu-se nascer com o auxílio daquele poderoso instrumento às 2 horas e 40 minutos da manhã, isto é, 2 horas e 13 minutos antes de nascer o Sol, pois é sabido que o Sol nasceu nesse dia às 4 horas o 53 minutos da manhã.

Mesmo a olho nu observou-se distintamente o cometa, sem que a luz da aurora conseguisse ofuscar o seu brilho, mas a olho armado viu-se indubitavelmente em melhores condições de visibilidade — mais nitidamente e em toda a sua grandeza.
 
Vimo-lo nascer acima do horizonte, à esquerda de Vénus, um pouco ao sul do ponto onde nasce o Sol logo depois e perto da última estrela do grande quadrilátero do Pégaso, prosseguindo o seu movimento aparente do céu de Oriente para Ocidente.
 
Na noite de 18 para 19 do corrente, como já se disse no Independente, o núcleo do cometa atravessa o disco solar de Ocidente para Oriente.
 
O fenómeno verifica-se pelas 2 horas da manhã, sendo porém invisível mesmo a olho armado; mas se é invisível a passagem do núcleo do cometa sobre o Sol, talvez se possa ver a sua cauda luminosa atravessar a terra.
 
Um feixe luminoso caminhando de Oriente para Ocidente envolverá a terra sendo de crer que no horizonte se possam descortinar reflexos aurorais iluminando a atmosfera.

[Independente, n.º 440, ano 9.º, Guimarães, 14 de Maio de 1910]



***

Lunetas Astronómicas

A firma comercial desta praça Augusto Cunha & C.ª, de que fazem parte os nossos simpáticos amigos snrs. Augusto Mondes da Cunha e Castro e Rodrigo Pimenta, teve a amabilidade de convidar-nos a subir à formosa serra de Santa Catarina, no dia 11 do corrente, para apreciarmos o cometa Halley pelas lunetas astronómicas que, para esse e outros fins, acaba de adquirir.

Motivos imprevistos inibiram-nos de comparecer, mas aqui deixamos consignados os nossos sinceros agradecimentos pela deferência que teve para connosco.

[O Comércio de Guimarães, n.º 2456, ano XXVII, Guimarães, 17 de Maio de 1910]
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13 de maio de 2010

Há 100 anos: Vem aí o Halley


O Cometa Halley numa fotografia de 1910

Há exactamente 100 anos, nas vésperas da implantação da República,o cometa Halley fazia a sua aparição no Céu. O mundo esperou-o com curiosidade, mas também com medo. Temia-se o choque do cometa com a terra, acreditava-se que a sua cauda era composta por gases venenosos que poderiam contaminar a atmosfera terrestre. Em Guimarães, o cometa também foi tema de muitas discussões, nas quais informação científica e crendice se cruzavam. No dia 30 de Abril de 1910, o jornal vimaranense Independente publicava um extenso artigo em que explicava o fenómeno. 

Aqui fica.

 
O COMETA DE HALLEY

A reaparição do cometa de Halley após uma ausência de 75 anos, tem sido tão anunciada que decerto os nossos leitores hão-de estimar que falemos dele.

Vamos primeiro aos factos, isto é, aos dados sobre o movimento real do Halley e sobre o seu movimento aparente na abóbada celeste. Depois, trataremos das teorias a respeito da origem e da natureza dos cometas.

***

O cometa de Halley faz parte integrante do sistema solar.

A sua órbita é uma eclipse muito alongada com o Sol num dos focos e tendo o outro para além de Neptuno, isto é, a uma distância do Sol cerca de 30 vezes maior que a da Terra. E tão excêntrica é essa elipse que não obstante o enorme comprimento do seu eixo maior, o cometa, no periélio, passa cento e tantas vezes mais perto do Sol que a Terra.

O plano da órbita de Halley é pouco inclinado, cerca de 17o, sobre a elíptica, isto é, sobre o plano da órbita terrestre. Daí a probabilidade do encontro da terra com a cauda do cometa.

O Halley percorre esta imensa órbita em 75 anos, animado de uma velocidade variável com a distância ao Sol. No periélio, a velocidade é superior a 50 quilómetros por segundo, quase o dobro da velocidade da Terra na sua translação à roda do Sul.

No afélio é de cerca de 1 quilómetro por segundo, pouco mais do que a velocidade máxima duma bala de artilharia.

O Halley é invisível em quase todo o seu trajecto, mesmo o a olho armado. Só nas proximidades do Sol, e mercê da sua acção, é que os cometas adquirem luz própria e luz reflectida visível.

Na actual reaparição foi Wolf, de Heidelberg, quem, graças à fotografia, primeiro o surpreendeu, em Setembro passado, sob a forma de uma estrela de ínfima grandeza. Vinha ainda bem longe do Sol. Na sua derrota para o foco atravessou a órbita da Terra em Março ultimo e chegou ao periélio a 20 de Abril corrente. Começou nesse dia a afastar-se do Sol, devendo lá para Julho perder-se para a nossa observação na imensidade do espaço.

O movimento aparente do cometa no céu é relativamente complicado. Basta considerar que nós vemos esse astro de um ponto de vista em movimento, com a circunstância agravante dos dois movimentos, o da Terra e o do Halley, serem de sentidos contrários. E assim se compreende que o cometa, que neste momento já se está afastando do Sol, se aproxima da Terra até 18 de Maio.

Se o leitor quiser seguir as particularidades que vamos citar, do movimento aparente, figure numa folha de papel uma circunferência representando a órbita da Terra e uma elipse representando a órbita do cometa. E considere a Terra percorrendo a sua órbita no sentido contrário aos ponteiros dum relógio e simultaneamente girando em volta do seu eixo no mesmo sentido, e o cometa percorrendo a sua órbita no sentido contrário.

Isto posto, sigamo-lo desde Janeiro, época em que, com o auxílio dum pequeno telescópio, se podia descortinar na região do zodíaco onde então brilhavam Marte e Saturno. A sua marcha aparente no céu, tem sido desde então de Oriente para o Ocidente, ao encontro do Sol.

Na primeira metade de Março, já mais brilhante, mas ainda invisível a olho nu, podia procurar-se após o anoitecer do lado do poente, não muito acima do horizonte.
Foi-se acercando do Sol, desapareceu de todo afogado na sua luz, até que a 28 de Março teve lugar a sua conjunção superior, isto é, achou-se na mesma direcção que o Sol em relação à Terra, para o lado de lá do Sol.

Prosseguiu o seu movimento, para o Ocidente, afastando-se na aparência do Sol, e tornando-se visível, cada vez mais, como astro da manhã, particularmente na segunda metade de Abril. Hoje atinge o seu maior afastamento do Sol (quadratura ocidental), e as suas condições de visibilidade como astro da manhã são agora das melhores.

Nestes dias, especialmente com auxílio dum simples binóculo para melhor definição das estrelas, pode ver-se nascer cerca de duas horas antes do nascer do Sol, sem que a luz da aurora ofusque o seu brilho. Nasce um pouco ao sul do ponto onde nasce o Sol, logo depois e perto da última estrela do grande quadrilátero do Pégaso. É fácil dar com esta constelação: da estrela da Ursa-Maior que liga a carreta à lança dirige-se uma recta para a polar; nessa direcção, do outro lado da polar, a uma distância dupla, encontra-se o Pégaso.
O cometa, dia a dia com mais brilho, a cauda voltada para cima, vai nascendo cada vez maia tarde e mais de noite, caminhando agora para o Oriente, ao encontro do Sol.

Lá para o dia 15 de Maio, afogado na luz solar, já dificilmente se verá. Até que na noite de 18 para 19 tem lugar a sua conjunção inferior, isto é, encontra-se na mesma direcção que o Sol em relação à Terra, mas para cá do Sol.

Nessa noite o núcleo do cometa ou melhor a sua projecção, atravessa o disco solar de Ocidente para Oriente.

Mas como o fenómeno tem lugar pelas 2 h. da manhã, só os habitantes das regiões opostas do globo o poderão observar, se for observável, o que é duvidoso.

Na verdade está calculado que, pura que uma massa sólida escura possa ser denunciada ao atravessar o disco solar nas condições do cometa, é necessário que tenha mais de 100 quilómetros de diâmetro. E é muito pouco verosímil que massas dessa ordem e grandeza existam no cometa, considerado, ao que se crê, segundo veremos, como um enxame de meteorólitos ou pedras do céu da natureza das que se encontram nos museus; porquanto, em Dezembro passado, um astrónomo alemão assistiu à passagem duma estrela de duodécima grandeza por detrás do núcleo do cometa não só sem ocultação, mas sem mudança na cor ou enfraquecimento no brilho.

Mas se não nos é dado ver a passagem do núcleo sobre o Sol, talvez possamos ver a cauda luminosa do cometa atravessar a Terra, mercê do pouco luar que deve haver a essa hora da noite (a lua cheia é a 24 de Maio). Um feixe luminoso caminhando de Oriente para Ocidente envolverá a Terra, sendo de crer que, ao menos no horizonte se possam notar reflexos aurorais iluminando a atmosfera.

Gravura representando a aparição do Halley em 1835

Mas será assim? Eis o que se não pode afirmar com absoluta segurança, por isso que é apenas provável e não é certo que a cauda chegue à Terra. Será preciso para isso que ela tenha o comprimento colossal de 22 milhões de quilómetros; e se a aparição de 1835 permite facilmente acreditá-lo não devemos esquecer que os cometas sofrem grande decadência nas passagens periélias.

Mas quer a cauda envolva ou não a Terra, os efeitos materiais do fenómeno podem dizer-se nulos.

Sabe-se, de uma maneira certa, que a massa total do cometa de Halley é muito mais pequena que a da Lua. Ora sendo muito provável, como veremos, que as caudas cometárias não passem de simples emanações de gases emitidos pelo núcleo na vizinhança do Sol e sob a sua acção, pode afirmar-se que a massa da cauda é uma fracção pequeníssima da massa total do cometa. Mas suponhamos mesmo que não era assim, e que a massa total estaria espalhada uniformemente; a extensão da cauda é tal que a densidade de uma massa como a Lua uniformemente disseminada por ela será inferior à do ar na mais perfeita bomba pneumática. Pode supor-se que na cauda dos cometas a matéria é tão rarefeita como nos tubos de Crookes onde se geram os raios X e onde a pressão se avalia por milionésimas partes duma atmosfera; os fenómenos luminosos de que os tubos podem em diferentes circunstâncias ser a sede, tornam muito verosímil a aproximação.

Por conseguinte, ainda que esse meio extremamente rarefeito da cauda fosse formado unicamente de um gás tão venenoso como o cianogénio (cuja presença, na verdade, tem sido denunciada nos cometas por meio do espectroscópio), mesmo em tal caso, que mal nos poderia fazer? Muito menos com certeza que o da atmosfera viciada duma cidade industrial.

De mais se isto precisasse de confirmação, poderia citar-se o que se passou com o cometa de 1861, e porventura com outros, cujas caudas atravessam a Terra sem se dar por isso.

Mas o cometa não pára. Realizada a conjunção na noite de 18 para 19, ali continua o seu movimento para Oriente, afastando-se do Sol e tornando-se então um astro da tarde que de dia para dia, cada vez será visível, durante mais tempo.

Mas como se vai afastando da Terra (e do Sol), o seu brilho vai diminuindo, até que em Julho deve desaparecer, como dissemos.

Porém na última semana de Maio e na primeira de Junho, deve ser esplêndido o espectáculo do cometa, muito luminoso, com a sua cauda imensa elevando-se no céu do lado do poente! Quem não há-de enlevar-se perante tal espectáculo, decerto superior ao do magnífico cometa que nos foi dado contemplar na segunda metade de Janeiro.


[Independente, n.º 438, ano 9.º, Guimarães, 30 de Abril de 1910]
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12 de maio de 2010

Bolo-Republicano

Anúncio publicado no jornal Independente, de Guimarães, na quadra natalícia de 1910.

O primeiro Natal após a implantação da República foi comemorado em Guimarães com uma nova iguaria festiva: em muitas mesas, o bolo-republicano tomou o lugar do bolo-rei. O anúncio que encontrámos nos jornais não revela qual era a receita do bolo revolucionário.
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11 de maio de 2010

Entrevista a Raul Brandão



Na sua edição de 7 de Dezembro de 1930, o jornal republicano vimaranense A Velha Guarda, noticiava a morte Raul Brandão, desaparecido dois dias antes, e publicava uma entrevista do poeta Américo Durão ao escritor, que fala, entre outros assuntos, do seu processo de trabalho. Aqui fica.

 
Uma grande figura literária que desaparece
Morreu o genial escritor Raul Brandão!

Américo Durão que conviveu com Raul Brandão e que foi amigo do genial escritor do "Húmus" e dos "Pobres" quis distinguir a "Velha Guarda" com uma entrevista que há precisamente um ano realizou com o grande democrata.

Melhor do que algumas rápidas palavras, escritas na pressa de enviar o jornal para a tipografia, a publicação dessa entrevista representa a nossa homenagem pelo escritor e pelo homem que, pelo seu casamento e pelas suas longas estadas na sua casa de Nespereira, era quase um filho de Guimarães.

Transcrevemos a entrevista.

 
Raul Brandão, o novelista, Eugénio de Castro, o poeta, tão diferentes e tão distantes, ocupam hoje os dois lugares mais eminentes da literatura portuguesa. A obra de Eugénio de Castro é serena e bela como os mármores de Atenas. A de Raul Brandão mais convulsa e abstracta. As figuras dos romances deste grande escritor são irreais, simbólicas. Ao abrirmos um dos seus livros, dir-se-ia mergulharmos num mundo de fantasmas. Das suas páginas desprende-se uma vida espectral, de sonho. E, no entanto, algumas as suas personagens palpitam de vida interior, todos nós as conhecemos. Acotovelamo-las na rua. Qual de nós não encontrou ainda no seu caminho a Candidinha, de falas mansas e coração cheio do ódio que as humilhações e desprezos, gota a gota lá verteram? E o pobre K. Maurício? E o Gabiru? E o coveiro, cuja crosta de inveterado cinismo se rompe, deixando escapar em cataratas a dor e a revolta, quando a morte na sua ronda cega, insensível, vem bater à sua porta para levar-lhe a filha? E a mulher a dias, mísero farrapo de humildade e sacrifício, que passa na vida sem a noção de que a vida lhe pertence a ela também? E os seus ladrões e prostitutas, que são apenas alma?

Dir-se-ia que Raul Brandão, como Prometeu, roubou aos Deuses o fogo com que havia de acender em estrelas a miséria daquele humano barro envilecido. Devia ser interessante descobrir o processo usado pelo escritor para dar às suas criações aquela forma assim impalpável e viva: ouvi-lo sobre os homens, literatos e artistas do seu tempo. O que pensaria dos novos o Mestre genial do Húmus e dos Pescadores? Que prosadores e poetas mereceriam a honra da sua preferência? E recordamo-nos da admiração reverente com que Aquilino Ribeiro lhe fala. Mestre -diz Aquilino ao dirigir-se ao grande novelista da História de um Palhaço. Assim dita a palavra Mestre enobrece Raul Brandão e o magnífico prosador da Via Sinuosa.

 
Como trabalha o escritor

Pedimos-lhe uma entrevista nesse sentido: mas Raul Brandão interrompe-nos surpreendido e rápido:

– Eu falar-lhe dos novos, de prosadores, de artistas... Você está doido! Sei lá alguma coisa disso…

Aguardámos, sorrindo, que a maré passasse e foi o próprio Raul Brandão que, amavelmente, se nos dirigiu:

– Porque não vem você passar oito dias comigo e minha mulher à nossa casa do Norte? Ali ver-me-á trabalhar e poderá escrever alguma coisa interessante. Não quer vir? Porquê?

– Não... Não posso agora sair de Lisboa.

– Pois é pena. Olhe, então, se quiser, apareça numa destas tardes lá por casa. Sabe onde moro? Ali, a S. Domingos, à Lapa…

Ficou combinado, iríamos a sua casa.

E no último domingo, às onze e meia batíamos-lhe à porta. Foi o próprio escritor quem veio abrir, sorridente:

– Você é implacável, ó Américo Durão. Então o que quer? Diga lá o quer você de mim?

– Já que não deseja referir-se aos outros, fale-nos de si, explique-nos a sua maneira de trabalhar.

– Mas eu tenho lá maneira de trabalhar! Você tem cada pergunta...

Exalta-se novamente, o seu olhar de um azul nevoento acende-se, purifica-se, torna-se límpido e luminoso. Dá duas voltas rápidas na casa, ri como uma criança. Mas é evidente que tem um grande desejo de atender o nosso pedido. Depressa se acalma, e explica-nos:
– Oiça. Se me ocorre o esboço duma figura, uma observação, um detalhe, tomo um apontamento, uma nota... Depois, aguardo o momento oportuno, e quando ele chega, minha mulher senta-se aí a essa secretária e escreve o que eu, a passear dum lado para o outro, vou compondo e lhe dito. Aqui tem... Agora o meu processo de trabalho... Eu sei lá! Essas coisas vêm-me à cabeça e às vezes sucede não ficarem mal...

Diz isto numa grande simplicidade, como que envergonhado de falar de si, nervosamente, com os olhos acesos e um riso, alto, infantil, que contrasta singularmente com a sua elevada estatura e com os seus cabelos brancos.

Abre uma gaveta da secretária e mostra-nos um grande rolo desordenado de folhas de papel, cobertos de uma caligrafia fina e veloz:

– Vê… É o manuscrito das minhas Memórias, o 3.° volume. Foi minha mulher quem escreveu tudo isto.

O que haverá ali, naquele rolo de papéis à volta dos quais, conhecida a sinceridade e a irreverência do escritor, se agitam já tantas curiosidades e receios?

Hesitamos em perguntar-lho e não nos atrevendo a fazê-lo, damos um novo rumo à entrevista:

– Que idade tinha o senhor Raul Brandão quando começou a escrever?

– A dizer-lhe a verdade, já me não lembro. E depois, que interesse pode isso ter para os seus leitores? Foi na Revista de Hoje, onde colaboraram António Nobre, Alberto de Oliveira e Junqueiro, que saíram as minhas primeiras coisas... Eu acompanhava, então, muito, com Alberto de Oliveira e Nobre... 

Raul Brandão não está dando; uma entrevista. Conversa connosco, animado, passeando, dum lado para o outro, como se estives se ditando a sua mulher.

 
O primeiro livro

– O meu primeiro livro Impressões e Paisagens publiquei-o no Porto... Eu lhe digo, espere... Foi em 1890. Seguiu-se-lhe a História dum Palhaço, em 1896, editado pela Parceria António Maria Pereira.

Estive quase a dizer-lhe que ainda há uma dúzia de anos comprei naquela livraria um exemplar novo da primeira edição da História dum Palhaço, por meia dúzia de tostões. Mas considerando a tempo, calei-me. Raul Brandão voltara a falar-nos de António Nobre. Dos passeios que davam juntos pela Foz, por Leça, até à Boa Nova. Pelo milagre da sua palavra evocadora eu sentia entre nós a presença do poeta.

Subitamente, o cronista do El-rei Junot sorriu a uma lembrança e, surpreendendo uma interrogação no nosso olhar, prosseguiu em voz alta:

– Estou a lembrar-me dum artigo que publiquei sobre Camilo e Eça. Terminava por dizer que se Camilo se suicidara com um tiro, Eça, em igualdade de circunstâncias, se envenenaria. Eça de Queiroz leu o meu artigo e, achando graça, pediu a um amigo para lhe indicar quem eu era, quando passassem por mim. Efectivamente, uma tarde, embora eu simulasse não dar por isso, senti o olhar de Eça seguir-me com curiosidade e interesse.

– O Mestre trabalhou nos jornais durante algum tempo, não é verdade?

– Sim, durante muitos anos. Foi na República Portuguesa, de João Chagas, que eu iniciei a minha vida jornalística. Vencido o movimento revolucionário de 31 de Janeiro, João Chagas foi deportado e o jornal terminou. Depois, em Lisboa, antes de me aceitarem num jornal foi uma tragédia. Imagina lá... Não acreditavam que eu servisse para jornalista. De tal modo que a princípio tive de trabalhar de graça: mas, por fim, já era solicitado e me pagavam bem.

– Em que jornais trabalhou o senhor Raul Brandão?

– Aqui, em Lisboa, estive no Correio da Manhã, de Manuel Pinheiro Chagas, e no Dia. Mais tarde, fui dono do Imparcial, que António José de Almeida me comprou para fazer A República, onde também colaborei. E agora, ainda, às vezes, escrevo na Seara Nova, que já dirigi.

– Que escritores impressionaram mais profundamente o seu espírito?

– Dos portugueses, Camilo.

– Fale duma maneira geral...

– Os russos interessaram-me muito, destacando entre estes Dostoiewsky. Mas os que sempre mais atraíram o meu interesse e a minha curiosidade foram os escritores de memórias. Principalmente Saint Simon, Casanova, Benevenuto Cellini, e, acima de todos, o Cardeal de Metz. Mas quem deixou um traço mais profundo na minha existência e na minha alma, não foram os escritores: tem sido minha mulher, e foi minha mãe e uma velha criada, a Maria Emília...

"No prefácio do 2.° volume das Memórias já eu disse o grande lugar que minha mulher ocupa na minha vida. De minha mãe... e, Raul Brandão, acedendo a um pedido nosso, ditou-nos esta linda página de ternura, do seu volume inédito de Memórias:

Uma evocação

– "Algumas sombras têm acompanhado a minha vida e estão aqui, a meu lado.

Minha mãe, só nervos e paixão, viu cair por terra todos os seus sonhos e teimou em sonhar, atrevendo-se contra todo o universo. A realidade afastou-a sempre de si. Venceu-a. Alimentou-se do mesmo sonho que a devorou até final, sem medo da morte, como se a morte fosse a continuação natural da vida.

Dela herdei a sensibilidade e também o sonho.

Bastava que a bica do quintal deitasse menos para minha mãe adoecer. Ficava horas a olhar extasiada o pouco de musgo humedecido, donde escorria, vindo da escuridão, o fio azul infatigável que caía em baixo, desfeito em milhares de gotas líquidas, que logo subiam a superfície reluzindo iluminadas.

Às vezes íamos vê-la brotar no fundo da mina e assistíamos, ansiosos, ao nascer da água borbulhando na madre e escorrendo pela caleira de pedra. Quando, mais tarde, minei o monte fi-lo com a mesma ansiedade.

De Verão, ao levantar-se muito cedo, o primeiro olhar de minha mãe era para a fonte, que se ia reduzindo desde o jorro de Inverno que transborda, ao fio de Setembro, deitado com aflição.

– Se secasse!...

De noite punha o ouvido à escuta, como acontece ainda hoje a mim. No silêncio profundo aquela voz extraordinária de pureza. Nenhuma outra me fala da mesma maneira, nem a das folhas, nem a do vento – nenhuma outra me fala tão baixinho e com tanto encanto. Às vezes muda de tom, às vezes, e, por momentos, emudece.

– Secou! – E lá torna a correr.

Plantou árvores até aos últimos dias como eu as planto. E já prostrada, mantinha de pé a ilusão e teimava em sonhar, como eu sonho, até final.

Às vezes, tendo corrido o quintal numa exaltação, corria para ela e desatava aos soluços com a cabeça no seu colo. Minha mãe não me dizia palavra, nem sequer me estranhava porque via em mim reproduzida a sua sensibilidade exagerada – só me pousava a mão na cabeça, e àquele contacto ia serenando e chorando cada vez mais baixinho. A lua aparecia atrás dos montes sobre a mais bela paisagem do mundo, porque a paisagem mais bela é aquela em que fomos criados e que faz parte da nossa substância.

O meu sonho está preso por um fio ténue indestrutível ao fundo do seu sepulcro. Talvez porque o amor nunca mais se apaga, talvez porque a luz seja a única realidade do mundo, o que é certo é que eu e ela olhamos ainda hoje um para o outro com a mesma ansiedade. Porque será que todas as outras sombras vejo distintamente e minha mãe não? Minha mãe é um fantasma de saudade, lá está todas as noites, ao pé da bica. Não a separo daquele fio que a lua toca por momentos com o dedo molhado em branco, e que nasce para apagar a sede de todos com indiferença, mas que só fala com encanto àqueles que a sabem amar."

Depois, enternecidamente, ergueu diante de nós a figura da velha criada. São ainda para o mesmo livro os seguintes períodos, que nos ditou:

– "A Maria Emília foi até morrer nossa criada. Estou a vê-la, de bigode branco e olhos espertos, dum azul já desbotado pela velhice, mas teimando em exprimirem ternura até à morte. Vejo-lhe a boca desdentada, a sorrir, e sinto nas minhas mãos o calor das suas mãos e o dedo grosso e enorme a que me apegava quando ia para a mestra. Doente duma perna, sempre a conheci a mancar, atravessando a vida a mancar e a sorrir. Porque essa é a expressão mais íntima e mais bela da sua alma – a alegria na desgraça."

Os sessenta anos para o talento para a alma de Raul Brandão são a plena mocidade. Perguntamos-lhe:

Além do 3.º volume das Memórias, que outras obras prepara ainda o Mestre?

– Tenho no prelo um livro para crianças, feito de colaboração com minha mulher – Portugal Pequenino, de Raul Brandão e Maria Angelina… E na próxima Primavera conto publicar uma novela – Pobre de Pedir.

Alegremo-nos. A nossa literatura, actualmente tão dessorada e anémica, vai enriquecer-se com um livro de valor.

E quantas obras belas e audazes não podemos ainda esperar dos seus cabelos brancos e da sua mocidade.
Américo Durão


NOTA: Os excertos do 3.º volume das Memórias de Raul Brandão transcritos nesta entrevista não reproduzem exactamente o texto que foi publicado em livro.
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