11 de maio de 2010

Entrevista a Raul Brandão



Na sua edição de 7 de Dezembro de 1930, o jornal republicano vimaranense A Velha Guarda, noticiava a morte Raul Brandão, desaparecido dois dias antes, e publicava uma entrevista do poeta Américo Durão ao escritor, que fala, entre outros assuntos, do seu processo de trabalho. Aqui fica.

 
Uma grande figura literária que desaparece
Morreu o genial escritor Raul Brandão!

Américo Durão que conviveu com Raul Brandão e que foi amigo do genial escritor do "Húmus" e dos "Pobres" quis distinguir a "Velha Guarda" com uma entrevista que há precisamente um ano realizou com o grande democrata.

Melhor do que algumas rápidas palavras, escritas na pressa de enviar o jornal para a tipografia, a publicação dessa entrevista representa a nossa homenagem pelo escritor e pelo homem que, pelo seu casamento e pelas suas longas estadas na sua casa de Nespereira, era quase um filho de Guimarães.

Transcrevemos a entrevista.

 
Raul Brandão, o novelista, Eugénio de Castro, o poeta, tão diferentes e tão distantes, ocupam hoje os dois lugares mais eminentes da literatura portuguesa. A obra de Eugénio de Castro é serena e bela como os mármores de Atenas. A de Raul Brandão mais convulsa e abstracta. As figuras dos romances deste grande escritor são irreais, simbólicas. Ao abrirmos um dos seus livros, dir-se-ia mergulharmos num mundo de fantasmas. Das suas páginas desprende-se uma vida espectral, de sonho. E, no entanto, algumas as suas personagens palpitam de vida interior, todos nós as conhecemos. Acotovelamo-las na rua. Qual de nós não encontrou ainda no seu caminho a Candidinha, de falas mansas e coração cheio do ódio que as humilhações e desprezos, gota a gota lá verteram? E o pobre K. Maurício? E o Gabiru? E o coveiro, cuja crosta de inveterado cinismo se rompe, deixando escapar em cataratas a dor e a revolta, quando a morte na sua ronda cega, insensível, vem bater à sua porta para levar-lhe a filha? E a mulher a dias, mísero farrapo de humildade e sacrifício, que passa na vida sem a noção de que a vida lhe pertence a ela também? E os seus ladrões e prostitutas, que são apenas alma?

Dir-se-ia que Raul Brandão, como Prometeu, roubou aos Deuses o fogo com que havia de acender em estrelas a miséria daquele humano barro envilecido. Devia ser interessante descobrir o processo usado pelo escritor para dar às suas criações aquela forma assim impalpável e viva: ouvi-lo sobre os homens, literatos e artistas do seu tempo. O que pensaria dos novos o Mestre genial do Húmus e dos Pescadores? Que prosadores e poetas mereceriam a honra da sua preferência? E recordamo-nos da admiração reverente com que Aquilino Ribeiro lhe fala. Mestre -diz Aquilino ao dirigir-se ao grande novelista da História de um Palhaço. Assim dita a palavra Mestre enobrece Raul Brandão e o magnífico prosador da Via Sinuosa.

 
Como trabalha o escritor

Pedimos-lhe uma entrevista nesse sentido: mas Raul Brandão interrompe-nos surpreendido e rápido:

– Eu falar-lhe dos novos, de prosadores, de artistas... Você está doido! Sei lá alguma coisa disso…

Aguardámos, sorrindo, que a maré passasse e foi o próprio Raul Brandão que, amavelmente, se nos dirigiu:

– Porque não vem você passar oito dias comigo e minha mulher à nossa casa do Norte? Ali ver-me-á trabalhar e poderá escrever alguma coisa interessante. Não quer vir? Porquê?

– Não... Não posso agora sair de Lisboa.

– Pois é pena. Olhe, então, se quiser, apareça numa destas tardes lá por casa. Sabe onde moro? Ali, a S. Domingos, à Lapa…

Ficou combinado, iríamos a sua casa.

E no último domingo, às onze e meia batíamos-lhe à porta. Foi o próprio escritor quem veio abrir, sorridente:

– Você é implacável, ó Américo Durão. Então o que quer? Diga lá o quer você de mim?

– Já que não deseja referir-se aos outros, fale-nos de si, explique-nos a sua maneira de trabalhar.

– Mas eu tenho lá maneira de trabalhar! Você tem cada pergunta...

Exalta-se novamente, o seu olhar de um azul nevoento acende-se, purifica-se, torna-se límpido e luminoso. Dá duas voltas rápidas na casa, ri como uma criança. Mas é evidente que tem um grande desejo de atender o nosso pedido. Depressa se acalma, e explica-nos:
– Oiça. Se me ocorre o esboço duma figura, uma observação, um detalhe, tomo um apontamento, uma nota... Depois, aguardo o momento oportuno, e quando ele chega, minha mulher senta-se aí a essa secretária e escreve o que eu, a passear dum lado para o outro, vou compondo e lhe dito. Aqui tem... Agora o meu processo de trabalho... Eu sei lá! Essas coisas vêm-me à cabeça e às vezes sucede não ficarem mal...

Diz isto numa grande simplicidade, como que envergonhado de falar de si, nervosamente, com os olhos acesos e um riso, alto, infantil, que contrasta singularmente com a sua elevada estatura e com os seus cabelos brancos.

Abre uma gaveta da secretária e mostra-nos um grande rolo desordenado de folhas de papel, cobertos de uma caligrafia fina e veloz:

– Vê… É o manuscrito das minhas Memórias, o 3.° volume. Foi minha mulher quem escreveu tudo isto.

O que haverá ali, naquele rolo de papéis à volta dos quais, conhecida a sinceridade e a irreverência do escritor, se agitam já tantas curiosidades e receios?

Hesitamos em perguntar-lho e não nos atrevendo a fazê-lo, damos um novo rumo à entrevista:

– Que idade tinha o senhor Raul Brandão quando começou a escrever?

– A dizer-lhe a verdade, já me não lembro. E depois, que interesse pode isso ter para os seus leitores? Foi na Revista de Hoje, onde colaboraram António Nobre, Alberto de Oliveira e Junqueiro, que saíram as minhas primeiras coisas... Eu acompanhava, então, muito, com Alberto de Oliveira e Nobre... 

Raul Brandão não está dando; uma entrevista. Conversa connosco, animado, passeando, dum lado para o outro, como se estives se ditando a sua mulher.

 
O primeiro livro

– O meu primeiro livro Impressões e Paisagens publiquei-o no Porto... Eu lhe digo, espere... Foi em 1890. Seguiu-se-lhe a História dum Palhaço, em 1896, editado pela Parceria António Maria Pereira.

Estive quase a dizer-lhe que ainda há uma dúzia de anos comprei naquela livraria um exemplar novo da primeira edição da História dum Palhaço, por meia dúzia de tostões. Mas considerando a tempo, calei-me. Raul Brandão voltara a falar-nos de António Nobre. Dos passeios que davam juntos pela Foz, por Leça, até à Boa Nova. Pelo milagre da sua palavra evocadora eu sentia entre nós a presença do poeta.

Subitamente, o cronista do El-rei Junot sorriu a uma lembrança e, surpreendendo uma interrogação no nosso olhar, prosseguiu em voz alta:

– Estou a lembrar-me dum artigo que publiquei sobre Camilo e Eça. Terminava por dizer que se Camilo se suicidara com um tiro, Eça, em igualdade de circunstâncias, se envenenaria. Eça de Queiroz leu o meu artigo e, achando graça, pediu a um amigo para lhe indicar quem eu era, quando passassem por mim. Efectivamente, uma tarde, embora eu simulasse não dar por isso, senti o olhar de Eça seguir-me com curiosidade e interesse.

– O Mestre trabalhou nos jornais durante algum tempo, não é verdade?

– Sim, durante muitos anos. Foi na República Portuguesa, de João Chagas, que eu iniciei a minha vida jornalística. Vencido o movimento revolucionário de 31 de Janeiro, João Chagas foi deportado e o jornal terminou. Depois, em Lisboa, antes de me aceitarem num jornal foi uma tragédia. Imagina lá... Não acreditavam que eu servisse para jornalista. De tal modo que a princípio tive de trabalhar de graça: mas, por fim, já era solicitado e me pagavam bem.

– Em que jornais trabalhou o senhor Raul Brandão?

– Aqui, em Lisboa, estive no Correio da Manhã, de Manuel Pinheiro Chagas, e no Dia. Mais tarde, fui dono do Imparcial, que António José de Almeida me comprou para fazer A República, onde também colaborei. E agora, ainda, às vezes, escrevo na Seara Nova, que já dirigi.

– Que escritores impressionaram mais profundamente o seu espírito?

– Dos portugueses, Camilo.

– Fale duma maneira geral...

– Os russos interessaram-me muito, destacando entre estes Dostoiewsky. Mas os que sempre mais atraíram o meu interesse e a minha curiosidade foram os escritores de memórias. Principalmente Saint Simon, Casanova, Benevenuto Cellini, e, acima de todos, o Cardeal de Metz. Mas quem deixou um traço mais profundo na minha existência e na minha alma, não foram os escritores: tem sido minha mulher, e foi minha mãe e uma velha criada, a Maria Emília...

"No prefácio do 2.° volume das Memórias já eu disse o grande lugar que minha mulher ocupa na minha vida. De minha mãe... e, Raul Brandão, acedendo a um pedido nosso, ditou-nos esta linda página de ternura, do seu volume inédito de Memórias:

Uma evocação

– "Algumas sombras têm acompanhado a minha vida e estão aqui, a meu lado.

Minha mãe, só nervos e paixão, viu cair por terra todos os seus sonhos e teimou em sonhar, atrevendo-se contra todo o universo. A realidade afastou-a sempre de si. Venceu-a. Alimentou-se do mesmo sonho que a devorou até final, sem medo da morte, como se a morte fosse a continuação natural da vida.

Dela herdei a sensibilidade e também o sonho.

Bastava que a bica do quintal deitasse menos para minha mãe adoecer. Ficava horas a olhar extasiada o pouco de musgo humedecido, donde escorria, vindo da escuridão, o fio azul infatigável que caía em baixo, desfeito em milhares de gotas líquidas, que logo subiam a superfície reluzindo iluminadas.

Às vezes íamos vê-la brotar no fundo da mina e assistíamos, ansiosos, ao nascer da água borbulhando na madre e escorrendo pela caleira de pedra. Quando, mais tarde, minei o monte fi-lo com a mesma ansiedade.

De Verão, ao levantar-se muito cedo, o primeiro olhar de minha mãe era para a fonte, que se ia reduzindo desde o jorro de Inverno que transborda, ao fio de Setembro, deitado com aflição.

– Se secasse!...

De noite punha o ouvido à escuta, como acontece ainda hoje a mim. No silêncio profundo aquela voz extraordinária de pureza. Nenhuma outra me fala da mesma maneira, nem a das folhas, nem a do vento – nenhuma outra me fala tão baixinho e com tanto encanto. Às vezes muda de tom, às vezes, e, por momentos, emudece.

– Secou! – E lá torna a correr.

Plantou árvores até aos últimos dias como eu as planto. E já prostrada, mantinha de pé a ilusão e teimava em sonhar, como eu sonho, até final.

Às vezes, tendo corrido o quintal numa exaltação, corria para ela e desatava aos soluços com a cabeça no seu colo. Minha mãe não me dizia palavra, nem sequer me estranhava porque via em mim reproduzida a sua sensibilidade exagerada – só me pousava a mão na cabeça, e àquele contacto ia serenando e chorando cada vez mais baixinho. A lua aparecia atrás dos montes sobre a mais bela paisagem do mundo, porque a paisagem mais bela é aquela em que fomos criados e que faz parte da nossa substância.

O meu sonho está preso por um fio ténue indestrutível ao fundo do seu sepulcro. Talvez porque o amor nunca mais se apaga, talvez porque a luz seja a única realidade do mundo, o que é certo é que eu e ela olhamos ainda hoje um para o outro com a mesma ansiedade. Porque será que todas as outras sombras vejo distintamente e minha mãe não? Minha mãe é um fantasma de saudade, lá está todas as noites, ao pé da bica. Não a separo daquele fio que a lua toca por momentos com o dedo molhado em branco, e que nasce para apagar a sede de todos com indiferença, mas que só fala com encanto àqueles que a sabem amar."

Depois, enternecidamente, ergueu diante de nós a figura da velha criada. São ainda para o mesmo livro os seguintes períodos, que nos ditou:

– "A Maria Emília foi até morrer nossa criada. Estou a vê-la, de bigode branco e olhos espertos, dum azul já desbotado pela velhice, mas teimando em exprimirem ternura até à morte. Vejo-lhe a boca desdentada, a sorrir, e sinto nas minhas mãos o calor das suas mãos e o dedo grosso e enorme a que me apegava quando ia para a mestra. Doente duma perna, sempre a conheci a mancar, atravessando a vida a mancar e a sorrir. Porque essa é a expressão mais íntima e mais bela da sua alma – a alegria na desgraça."

Os sessenta anos para o talento para a alma de Raul Brandão são a plena mocidade. Perguntamos-lhe:

Além do 3.º volume das Memórias, que outras obras prepara ainda o Mestre?

– Tenho no prelo um livro para crianças, feito de colaboração com minha mulher – Portugal Pequenino, de Raul Brandão e Maria Angelina… E na próxima Primavera conto publicar uma novela – Pobre de Pedir.

Alegremo-nos. A nossa literatura, actualmente tão dessorada e anémica, vai enriquecer-se com um livro de valor.

E quantas obras belas e audazes não podemos ainda esperar dos seus cabelos brancos e da sua mocidade.
Américo Durão


NOTA: Os excertos do 3.º volume das Memórias de Raul Brandão transcritos nesta entrevista não reproduzem exactamente o texto que foi publicado em livro.
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