14 de maio de 2010

1910: o Cometa Halley visto de Guimarães


"O cometa de Halley no firmamento de Lisboa" (1910)


O Cometa de Halley

 

A convite dos snrs. Augusto Cunha & C.ª, desta cidade, assistimos na quarta-feira de madrugada, na montanha da Penha, a diversas observações com as lunetas astronómicas que se acham em exposição na Casa Comércio e Indústria, á Rua Nova de Santo António, e que aqueles acreditados negociantes adquiriram directamente no estrangeiro.

 

O cometa do Halley, com todo o seu brilho, a cauda voltada pura cima, viu-se nascer com o auxílio daquele poderoso instrumento às 2 horas e 40 minutos da manhã, isto é, 2 horas e 13 minutos antes de nascer o Sol, pois é sabido que o Sol nasceu nesse dia às 4 horas o 53 minutos da manhã.

Mesmo a olho nu observou-se distintamente o cometa, sem que a luz da aurora conseguisse ofuscar o seu brilho, mas a olho armado viu-se indubitavelmente em melhores condições de visibilidade — mais nitidamente e em toda a sua grandeza.
 
Vimo-lo nascer acima do horizonte, à esquerda de Vénus, um pouco ao sul do ponto onde nasce o Sol logo depois e perto da última estrela do grande quadrilátero do Pégaso, prosseguindo o seu movimento aparente do céu de Oriente para Ocidente.
 
Na noite de 18 para 19 do corrente, como já se disse no Independente, o núcleo do cometa atravessa o disco solar de Ocidente para Oriente.
 
O fenómeno verifica-se pelas 2 horas da manhã, sendo porém invisível mesmo a olho armado; mas se é invisível a passagem do núcleo do cometa sobre o Sol, talvez se possa ver a sua cauda luminosa atravessar a terra.
 
Um feixe luminoso caminhando de Oriente para Ocidente envolverá a terra sendo de crer que no horizonte se possam descortinar reflexos aurorais iluminando a atmosfera.

[Independente, n.º 440, ano 9.º, Guimarães, 14 de Maio de 1910]



***

Lunetas Astronómicas

A firma comercial desta praça Augusto Cunha & C.ª, de que fazem parte os nossos simpáticos amigos snrs. Augusto Mondes da Cunha e Castro e Rodrigo Pimenta, teve a amabilidade de convidar-nos a subir à formosa serra de Santa Catarina, no dia 11 do corrente, para apreciarmos o cometa Halley pelas lunetas astronómicas que, para esse e outros fins, acaba de adquirir.

Motivos imprevistos inibiram-nos de comparecer, mas aqui deixamos consignados os nossos sinceros agradecimentos pela deferência que teve para connosco.

[O Comércio de Guimarães, n.º 2456, ano XXVII, Guimarães, 17 de Maio de 1910]
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