29 de dezembro de 2009

O pau da cabeleira de António Lobo de Carvalho

Faustino Xavier de Carvalho (1820-1869)

O poeta satírico português Faustino Xavier de Novais (n. Porto, 17 de Fevereiro de 1820), foi um dos colaboradores do Periódico dos Pobres do Porto, onde escrevia com o pseudónimo Saturno. Entre 1852 e 1857 dirigiu a revista "O Bardo, jornal de poesias inéditas", que então se publicava na sua cidade natal. Nos últimos anos da sua vida, deixou o Porto, mudando-se para o Brasil, segundo Camilo Castelo Branco por causa de "um amor baixo, ignóbil até a miséria". Morreu no Rio de Janeiro, em 1869. Na obra "Cartas de um roceiro", publicada no Rio de Janeiro, conta uma história curiosa, envolvendo o poeta vimaranense António Lobo de Carvalho. É a seguinte:



"Ouvindo isto ocorreu-me outra história do vizinho Gaudêncio.

Conta ele que um antigo poeta satírico, chamado António Lobo de Carvalho, era homem de vida irregular, e vingativo por natureza.

Sujeito, ou sujeita, que lhe não satisfizesse todas as vontades, podia contar com um soneto mordacíssimo, e imundo muitas vezes, na linguagem, mas notável sempre pelo aticismo. O poema espalhava-se, e o herói ensurdecia, atordoado pelas gargalhadas com que o povo o saudava na passagem! Já V. vê que isto devia acarretar-lhe um numeroso exército de inimigos.

Avisaram-no um dia de que se tramava contra ele um horrível plano de vingança.

Alguns indivíduos, armados, haviam de introduzir-se em um pátio, sobre o qual olhava uma janela do seu quarto de dormir. Depois bater-lhe-iam à porta, e quando ele deitasse a cabeça fora da janela, para saber quem o procurava, a resposta voaria das bocas das espingardas, em uma furiosa descarga.

O poeta ficou ciente. Às horas do costume tirou a cabeleira, pendurou-a na cabeça de pau que tinha para esse fim, como eu tenho, apagou a luz e deitou-se, com tenção de dormir sossegadamente. Enganava-se. Bateu-se à porta.

Às escuras, como estava, e tendo deixado levantada a vidraça, abriu uma das portas da janela, sem ruído algum, pôs-se em guarda, espetou a forma da cabeleira em uma vara a propósito, estendeu-a para fora da janela, o perguntou: "Quem está aí?".

Uma descarga foi a resposta, e o poeta, com todo o sangue frio, chegou então à janela, e disse para baixo: "Agora, meus amigos, vão…"

Não sei bem onde ele os mandou, nem sei se eles foram; sei apenas que o poeta passou bem o resto da noite, porque só fora ferido no combate o pau da cabeleira."

Faustino Xavier de Novais, Cartas de um roceiro, Rio de Janeiro, 1867, pp. 388-389
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28 de dezembro de 2009

Soneto de António Lobo de Carvalho, poeta vimaranense do séc. XVIII


Ilustração do Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro Para o Ano de 1860.


AOS AVARENTOS.

Maldito seja, seja excomungado,
Aquele horrendo mísero jarreta,
Que cheia de dobrões tendo a gaveta,
Nem somente um real dá emprestado!

Permitia o céu que a moça e o criado
Algum furto lhe façam com tal treta,
Que o misérrimo vil, como escopeta.
Arrebente de estouro, exasperado!

Veja enfim por castigo derradeiro.
Quando estiver já quase moribundo,
A festa que se faz ao seu dinheiro.

E padecendo as penas do profundo,
O diabo lhe conte quanto o herdeiro
Se regala com ele cá no mundo!

António Lobo de Carvalho.

 [in Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro Para o Ano de 1860, Tipografia Franco-Portuguesa, Lisboa, 1859, pág. 344]
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27 de dezembro de 2009

Guimarães em 1867



Ilustração da Revista O Panorama

É muito notável o entusiasmo, com que o autor do Tratado Elementar de Geographia, D. José de Urculu, começa a falar do Guimarães. — Vila linda, diz ele, vila linda e industriosa, no meio duma campina tão agradável como fértil entre os rios Ave e Vizela, cercada duma muralha de 3.685 passos geométricos de circunferência, fortificada com 7 torres...... Guimarães foi a primeira capital da monarquia portuguesa; aqui nasceu D. Afonso Henriques; tem muita nobreza antiga; é pátria igualmente de muitos ilustres varões. —

Cumpre distinguir a Guimarães antiga da Guimarães moderna. — Segundo vemos pela noticiosa Corographia Portugueza do Padre António Carvalho da Costa, o assento da primeira foi entre os dois rios, já indicados, ao pé do monte Latito, dividido depois em dois nomes — o de Santa Maria, e Monte Largo, entre o norte e o nascente. — No cume desse lugar altíssimo mandou a condessa Mumadona edificar um castelo, e dentro dele uma torre, toda fechada, que muito de longe se avista. A entrada dessa torre, à mão esquerda, estavam esculpidas em uma pedra as letras seguintes: Via maris, de que alguns autores tomaram o nome alatinado de Vimaranes, facilmente convertido no de Guimarães. Outros, porém, inclinam-se a crer que algum senhor Godo possuiria a terra, e que tendo o nome de Vimareno, este fosse posto á mesma terra.

Dentro daquele castelo se encontram vestígios dos paços do conde D. Henrique, assim como permanece o paço do primeiro duque de Bragança, D. Afonso, — a majestade arquitectónica do qual paço o Padre António Carvalho encarece com hiperbólicos termos.

Sabido é que o conde D. Henrique estabeleceu em Guimarães a sua corte; bem como é também sabido que nos Paços Reais da velha Guimarães nasceu D. Afonso Henriques, o fundador da monarquia portuguesa.

Guimarães, a povoação nobre, foi sempre honrada pelos soberanos de Portugal. El-rei D. Dinis começou a cercá-la de fortes muros; seu filho, D. Afonso IV completou a fortificação; e D. João I, de boa memória, acrescentou as torres, que melhoraram ainda mais os meios de defesa.

Voltando ao castelo, empregaremos as próprias expressões do mencionado Padre António Carvalho, que apresentara a medição exacta de sua área, e imaginosamente pintam a perspectiva que aquele ponto oferece: — Tem este castelo de terreno, dentro da sua muralha, de nascente a poente sessenta e nove passos, e de norte a sul trinta e seis, e no meio dele lhe está servindo de penacho a torre velha, que se a domina com a sua altura, elas com a valentia, e fortaleza da sua nova muralha a desassustam do risco das baterias, por ser a sua arquitectura mais forte. —

Com uma certa melancolia se nos apresentam à memória as notícias dos tempos que já lá vão. Assim, e debaixo deste aspecto, acolhemos de bom grado estas palavras históricas: — Enquanto este castelo foi assistido de seus primeiros Reis, eles mesmos eram os seus alcaides-mores: ao depois seus sucessores o entregavam por homenagem, e punham nele Alcaides para a sua defensa, que muitos anos o habitaram, fazendo sua morada no Palácio Real, que depois com a sua ausência chegou a ver mui breve sua ruína. -

Falando-se de Guimarães, é dever de justiça recordar as honrosas expressões da Carta de 22
de Junho de 1853, pela qual foi aquela vila elevada à categoria de cidade, com a denominação de Cidade de Guimarães, — e são as seguintes: — Atendendo a haver ela sido o berço da Monarquia, e assento da primeira Corte dos Reis portugueses, onde nasceu e foi baptizado o poderoso D. Afonso Henriques; atendendo a que a mesma vila desfruta a primazia de ser uma das mais populosas da província do Minho, e a mais florescente cm diversos ramos de industria, à qual são devidas a sua opulência e prosperidade, e as suas relações comerciais dentro e fora do país: atendendo a que a famosa vila de Guimarães sempre foi honrada por meus augustos predecessores com especiais privilégios, possuindo condições e elementos necessários para sustentar a dignidade e categoria de cidade; etc.— A rainha, a senhora D. Maria II, de quem é esta Carta, aludia também ao que presenciara em Guimarães, por ocasião da sua visita à província do Norte.



in O Panorama, 2.º ano da 5.ª séria, 1867, pp. 209-210.

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11 de dezembro de 2009

Barcelos, Guimarães e a Conquista de Ceuta




Eis a tradição de Ceuta e do castigo infligido aos de Barcelos a favor dos de Guimarães, num curioso relato de um barcelense, de acordo com um livro de viagens dos primeiros anos do século XX:

Mais tarde, quando regressávamos já ao hotel, admiramos também a casa da Câmara, um grande edifício remoçado, e essa circunstância deu ensejo a que Veríssimo nos narrasse certo castigo infligido as edilidades de Barcelos por D. João I. É uma dessas imaginosas penalidades em que a fantasia antiga, sem peias de códigos, se comprazia tantas vezes.

O Mestre de Avis, tendo acabado de tomar Ceuta, confiou aos homens de armas de Barcelos a defesa de certo ponto da muralha. A ordem não devia parecer assustadora a guerreiros ainda encorajados pelos entusiasmos de uma vitória recente. Não foi porém assim – e em certa ocasião os barcelenses, amedrontados pelos desesperados ataques da moirisma, abandonaram o seu posto de honra e largaram a fugir desordenadamente, como se todo o Islão, com Maomé a frente, tivesse invadido a praça de cimitarra erguida.

Vendo isto, os guerreiros de Guimarães, que defendiam um posto vizinho, atroaram o brônzeo céu da África com os brados da sua indignação; e, dividindo-se em dois grupos, tão bravamente defenderam toda a muralha que nada lucrou Mafoma com a vergonhosa debandada dos barcelenses. D. João I, informado do caso, ordenou que daí em diante fossem os vereadores de Barcelos varrer, todos os anos, as pragas e os açougues de Guimarães...

Durou quase oitenta anos essa ominosa penitência. Nas vésperas das festas camarárias de Guimarães, nove vezes por ano, lá iam os infelizes representantes do município barcelense com um barrete vermelho, banda da mesma cor, um pé calçado e outro descalço, à cinta a espada envergonhada, nas mãos uma ramuda vassoura de giesta, limpar as imundícies da vila de Afonso Henriques. No fim, concluída a tarefa, iam entregar aos vereadores adversos, em sinal de servidão, o barrete e a banda. Alguns destes bodes expiatórios do delito de seus avós eximiam-se ao cumprimento da pena, e pagavam, de cara alegre, a grossa multa em que, pela falta, eram condenados.

Por fim, aquele místico duque D. Jaime de Bragança, que espostejou a mulher e o pajem Alcoforado, não achando já quem quisesse ser vereador na sua boa vila de Barcelos, ofereceu à Câmara de Guimarães as freguesias de Cunha e Ruilhe para desempenharem aquele serviço. A proposta foi aceite – e Barcelos respirou alfim, livre para sempre das vassouras e das sujidades vimaranenses.

Veríssimo condimentou esta narrativa com grande número de pormenores, reconstruindo o diálogo com uma saborosa ênfase arcaica. Também amesquinhou, com desculpável zelo patriótico, a acção heróica dos vimaranenses em Ceuta. Na sua opinião, esses bravos acutiladores da mourisma não passavam de ardilosos tecelões de intrigas...

– Intrigantes... Invejosos... Sempre assim foram!... Quando nós arranjámos o milagre das Cruzes, logo eles arranjaram o da Oliveira... Eu não quero dizer mal de ninguém, mas a verdade é a verdade!

– Mas, na sua opinião, os guerreiros de Barcelos abandonaram a muralha de Ceuta, ou não? – inquirimos, divertidos.

– Não, senhores... Cá na minha, foram os de Guimarães que os enganaram, dizendo-lhes que el-rei os estava a chamar. Eles então foram, está claro! Uma pessoa, quando o rei chama, deve ir logo!

D. João de Castro, Jornadas no Minho – Impressões, aventuras e travessuras de dois excursionistas meridionais, Ferreira & Oliveira, Lda. - Editores, Lisboa, 1906, pp. 335-337.

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5 de dezembro de 2009

A Planta de Guimarães de 1569


A planta de 1569 (clicar na imagem, para ampliar)


Acaba de ser apresentada ao público a edição da Sociedade Martins Sarmento da já célebre planta de Guimarães do século XVI, que actualmente se encontra na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça singular, de cuja origem pouco se sabe. Não conhecemos em que condições terá sido produzida, apenas que pertenceu à biblioteca de Diogo Barbosa Machado, escritor e bibliógrafo do século XVII, autor da primeira obra de referência bibliográfica portuguesa (a Bibliotheca Lusitana, Historia, Critica e Chronologica, na qual se comprehende a noticia dos autores portuguezes, e das obras que compozeram desde o tempo da promulgação da Lei da Graça, até o tempo presente, que começou a ser publicada em 1741). Em 1770, Barbosa Machado doou os livros e os manuscritos da sua notável biblioteca ao rei D. José I, quando se tratava de reconstituir, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, a Biblioteca Régia, que havia sido destruída com o terramoto e o subsequente incêndio que, em 1755, destruiu a Casa do Forte do Paço Real da Ribeira. Na sequência da ida da família real para o Brasil, os 60.000 volumes da Biblioteca Régia também iriam atravessar o Atlântico, a partir de 1810, onde dariam corpo ao acervo inicial da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, instituída por D. João VI. A colecção de Barbosa Machado é um dos frincipais fundos da BNRJ. É lá que se encontra a planta de Guimarães de 1569.

A planta será um importante instrumento para o aprofundamento do conhecimento da evolução do perfil urbano de Guimarães ao longo dos séculos, permitindo confirmar ou desmentir certas ideias feitas sobre alguns aspectos do antigo urbanismo de Guimarães, a começar pela configuração da antiga muralha. Até aqui, tem prevalecido a ideia de que a cerca velha que, envolvendo o Castelo, delimitava a antiga vila velha ou vila do castelo, se fechava, no lado voltado a sul, entre as portas da Freiria (próxima da Capela de Santa Cruz) e de Santa Luzia (nas imediações da embocadura da rua com o mesmo nome), conforme se pode observar no seguinte desenho, de Moura Machado:



Ora, pela planta de 1569, podemos ver que o ponto de separação entre as duas antigas vilas de Guimarães se situava bastante mais próximo do topo do Monte Latito, correndo entre as torres da Garrida e de Santa Cruz (Porta da Freiria) e passando no mesmo sítio onde hoje se encontra a fachada do paço dos Duques voltada a Sul:



Legenda: A - Castelo; B - Paço dos Duques; C - muralha.


Em boa verdade, não é grande novidade, uma vez que, por exemplo, já nas suas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, quando descrevia o cerco de Afonso VII ao castelo, onde se encontrava Afonso Henriques, escrevia:

É de advertir que a cerca, em que o dito Infante foi cercado por el-Rei de Castela, vinha serrar onde hoje estão os Passos, e quando el-Rei D. Dinis mandou fazer a cerca nova, que vai continuando com a cerca velha, devia ficar o lanço do muro, que cercava a cerca velha; e, sendo os Duques de Bragança Donatários da Coroa, tiraram o dito muro, e na parede donde ele estava, fizeram os Paços, que estão na terra de el-Rei, que os ditos Duques, por virtude da doação, que tinham da Coroa, fundaram na terra, que traziam dela; e como foi a dita doação conforme a Lei Mental, falecendo depois o Senhor Duarte sem filhos, ao qual as ditas terras vieram por sucessão, tornaram à Coroa onde estão.

Ou seja: o muro da cerca velha foi demolido pelos duques de Bragança para construírem o seu paço em Guimarães, o que vem demonstrar que a vila do castelo tinha uma área bem menor do que aquela que lhe tem sido atribuída.


Espaço delimitado pela cerca velha, de acordo com o mapa de 1569.
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1 de dezembro de 2009

Como eram diferentes, as Nicolinas, antigamente




No ano de 1857, foram como as descreveu o jornalista da Tesoura de Guimarães. Como se segue:


S. Nicolau. – Este festejo escolástico não foi tão pomposo e agradável como se esperava e estava premeditado; isto não só por ocorrências inesperadas, mas também por melindres e caprichos, na nossa opinião, mal entendidos. Se não pertencêssemos a esta ilustre classe, talvez não pugnássemos tanto pelo seu crédito; e, se notamos defeitos, é só com o fim de os vermos remediados. O público está acima de tudo, e o público não tem culpa nas ofensas ou caprichos dos particulares.

O pregão anunciador do festejo ia vistoso e magnífico. A figura de Camões seguida daquelas que representavam as faculdades da Universidade de Coimbra, mostravam o apreço que as ciências e a literatura dão ao nosso primeiro poeta. – Se haviam de alterar o programa, deviam também mudar a hora da saída, porque em muitas partes deixou ele de ser ouvido, e quando mesmo o Pregoeiro tivesse peito de bronze, e não se achasse tão incomodado, com se achou, só altas horas da noite poderia terminar, satisfazendo aos desejos de todos.

O dia do festejo só se conheceu às duas horas da tarde, tempo em que entrou na praça do Toural o Corpo Escolástico representando a entrada de Vasco da Gama em Lisboa na sua volta da descoberta da Índia. – O préstito do nosso herói era composto dos seus companheiros de armas todos vestidos no trajo da época 1500, e de quatro melindianos, representando estes o bom acolhimento que Vasco da Gama teve em Melinde, e a amizade começada entre o Rei daquele país e o Rei de Portugal. – Seguiram-se duas danças; uma de damas, figurando o prazer de muitas belas pelo regresso dos heróis que lhes estavam destinados, outra de portugueses e melindianos, significando o prazer dos dois povos por sua mútua amizade.

À noite, no teatro, que estava cheio, foi Vasco da Gama coroado de louros na presença de Minerva; seguindo-se a representação de duas comédias que foram bem desempenhadas, e os intervalos foram cheios com danças, e poesias, terminando assim o festejo escolástico do S. Nicolau.

A comissão promotora dos festejos teve a delicadeza de pedir às damas desculpa de suas faltas.


A Tesoura de Guimarães, n.º 129, Guimarães, 11 de Dezembro de 1857

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29 de novembro de 2009

Nicolinas


João de Meira, por Abel Cardoso. Colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Anda no ar, nos dias que correm, alguma polémica acerca da designação Nicolinas, atribuída às festas dos estudantes de Guimarães. Estas festas nem sempre foram chamadas assim, usando-se antigamente a expressão "Festejos a S. Nicolau". Tanto quanto conhecemos da documentação conhecida, a palavra nicolinas apareceu no início do século XX. Ao que sabemos, o documento mais antigo em que essa expressão foi usada terá sido o pregão de 1904, escrito por João de Meira, que terminava assim:



Rapazes! Nossa música divina
Capaz de estremunhar até Morfeu!
A Música da festa Nicolina
Que a terra abala e desconjunta o Céu!
Mais força, se é possível, mais ferina,
Que inda não é bastante este escarcéu!
Façamos tal restolho, tal chinfrim
Que o inferno pareça aqui assim!...



Voltamos a encontrar a expressão Festas Nicolinas numa notícia sobre a célebre posse do Padre Monteiro do ano de 1904, publicada no jornal Independente, em 11 de Dezembro daquele ano. João de Meira era um dos principais colaboradores daquele jornal. Aqui fica a sua transcrição:



Festejos a S. Nicolau

A POSSE DO PADRE MONTEIRO

Com grande entusiasmo, realizou-se este ano, na noite de 4 do corrente, a costumada posse em casa do nosso prezado amigo snr. padre António Augusto Monteiro.

Eram quase 9 horas quando tomou a presidência o rev. Francisco António Peixoto de Lima, presidente vitalício e grande entusiasta das festas nicolinas, secretariado pelos snrs. dr. António Amaral e Jerónimo Sampaio.

Lida a acta da última sessão, passou-se à ordem da noite que consistiu em fazer passar ao estômago maçãs, uvas, nozes, pinhões, castanhas, figos de ceira, doce sortido, pastéis e vinho verde, de Lamego, de Murça, cognac e aguardente de bagaço.

Aos brindes, pediram o chapéu os snrs: padre Francisco Lima, que fez uma saúde a todos os seus consócios naquela posse, especializando o seu velho o querido amigo padre António Monteiro.

O snr. dr. António Amaral brindou ao dono da casa e fez votos para que sua exa. abundasse sempre nas mesmas ideias.

O snr. João Amaral bebeu à saúde de todos os assistentes e pediu para que se exarasse na acta um voto de profundo pesar pelo falecimento do entusiasta rev.º Eugénio de Araújo Mota.

O snr. Manuel Luís do Pina disse que, se um dia os estudantes, por qualquer motivo, deixassem da fazer a festa que se fizesse todo o possível para readquirir o quadro de Minerva, a fim de ser colocado na sala do padre Monteiro visto ser ali que todos os anos se reuniam os verdadeiros entusiastas das festas do S. Nicolau.

O snr. Jerónimo Sampaio, depois de agradecer as amáveis referências do seu amigo padre Lima saudou os três militares ali presentes: major Flores, capitão Martins e tenente Novais Teixeira e fez os mais sinceros votos para que nunca deixasse de se reunir ali em alegre convívio, aquele grupo de entusiastas das festas escolásticas

O snr. Fernando Amaral bebeu à saúde do padre Monteiro, rei-imperador daquela festa tão simpática.

O snr. João Barbosa brindou ao seu amigo padre António Carvalho, o qual agradeceu, saudando todos os assistentes.

O snr. major Flores, em seu nome e no do filho do Vae-Boden da Transilvânia ,pedia desculpa de não ter comparecido à posse no ano anterior e bebeu à saúde dos novos e velhos entusiastas.

O sur. padre Monteiro, agradecendo as amáveis referências que lhe foram dirigidas, declarou que todos os anos receberia naquela noite, com o maior prazer os seus amigos e entusiastas dos tradicionais folguedos.

A dança do Rei David foi magistralmente executada, bem como o hino escolástico, que foi deliciosamente cantado sob a hábil regência do entusiasta Domingos Leite Mendes. Seis vezes foi bisado e seis vezes foi extraordinariamente aplaudido.

Na sala compareceu, por mero acaso, um distinto fotógrafo amador que de bom grado se prestou a fotografar sua majestade o rei-imperador António Monteiro e sua alteza realíssima o príncipe Francisco Lima, cujo grupo será distribuído para o ano, se o cliché não estiver inutilizado, o que é mais provável, em virtude da muita luz que estava na sala.

Já quase ao terminar aquela alegre festa, apareceu na rua a briosa academia e em frente da habitação do snr. padre Monteiro saudou com bravos e palmas os velhos entusiastas das festas. À janela apareceram todos os convidados do padre Monteiro que, por sua vez, levantaram vivas aos académicos e principalmente à comissão de 1904.

À posse compareceram os seguintes snrs: Padre António Monteiro, padre António Mendes Leite, padre António de Carvalho, António Amaral, Fernando Amaral, Alves Mendes, Jerónimo Sampaio, João Andrade, Domingos Leite Mendes, padre Francisco Lima, padre Manuel Ramos, Major Fores, José de Freitas, João Lopes de Faria, capitão Martins, tenente Teixeira, João Barbosa e Rodrigo José Leite Dias.

Foi lido um ofício em nome do snr. Agostinho Dias de Castro, pedindo desculpa de não comparecer na posse por se encontrar actualmente no Seminário de Braga.

Independente, 4.º ano, n.º 159, Guimarães, 11 de Dezembro de 1904

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14 de novembro de 2009

Os limites da cidade de Guimarães em 1853


Vista de Guimarães, em meados do século XIX.

Em 1916, o jornal o Republicano, de Guimarães, publicou uma nota em que se descreviam os limites de Guimarães, em meados do século XIX, no momento em que de vila passou a cidade:

Velharias

A vila de Guimarães, elevada à categoria de cidade por decreto de 22 de Junho de 1853, como os leitores sabem, tinha os seguintes limites:

1.º Arco dos Capuchos.

2.º Embocadura da Rua de Santa Cruz, junto às casas do Padre Martinho.

3.º Carrapatosa, ou Casa das Hortas.

4.º Portal de ferro do Conde de Vila Pouca, do lado das Capuchas.

5.º A casa de Vila Verde, além do rio da Rua de Couros.

6.º A cancela do fim da Rua de Relho.

7.º O portal do Sabacho, acima do Estrepão.

8.º O ortatório da rua de Cruz de Pedra, ou o largo desta Rua.

9.º O portal de ferro da quinta dos Pombais.

10.º A porta do carro, que dá entrada para a cerca do extinto convento de S. Domingos.

12.º As casas do portelo ao Norte da Margaride.

[O Republicano, n.º 2, ano 1, Guimarães, 1 de Abril de 1916.]

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10 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (6)


[Ler texto anterior]
 
Do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, provavelmente o primeiro proprietário da edição de 1572 de Os Lusíadas da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, eis a biografia conhecida, traçada pelo Abade de Tagilde no n.º 1 da Revista de Guimarães:

Torquato Peixoto de Azevedo

Filho do sargento-mor João Rebelo Leite e de sua mulher D. Isabel Peixoto de Azevedo, irmão do célebre João Rebelo Leite, cujos serviços à pátria na guerra da Aclamação lhe granjearam a graduação de Mestre de campo ad honorem por carta régia de 15 de Janeiro de 1664 e a quem bem cabe a antonomásia de Lidador Vimaranense, que lhe dá o P.e Caldas, nasceu o nosso terceiro monografo — e não primeiro, como erradamente se afirma no Dicionário Popular dirigido pelo exc.mo Pinheiro Chagas — a 2 de Maio de 1622.

Desde criança madrugou nele a inclinação para as letras, especialmente para a história, predilecção que sempre conservou até aos últimos dias de sua vida, empregando todas as horas, que lhe restavam das suas obrigações sacerdotais, no estudo para que, como ele mesmo diz, a ociosidade, mãe de vícios por inimiga da virtude, não fosse ocasião de estragar-se-lhe a honra.

Trabalho tão assíduo não podia deixar de produzir fruto, e assim a sua pena se (levem além de três cadernos de importantes notícias, trinta e cinco volumes; vinte e dons dos quais no tempo de Barbosa Machado se achavam em poder de Manuel Peixoto dos Guimarães Freitas e Miranda, senhor da quinta de Lamelas na freguesia de Santo Adrião de Vizela então do termo de Guimarães e hoje do concelho de Felgueiras, filho de D. Mafalda Luísa Leite de Azevedo, filha de António Leite Ferreira, irmão do nosso monógrafo.

Segundo o testemunho de Barbosa Machado e de D. António Caetano de Sousa, dez destes volumes ocupavam-se das vidas de diversos reis de Portugal e Castela, duques de Bragança e de Lorena e descendência das casas reais de Castela e Áustria e as doze restantes tratavam de genealogias de famílias portuguesas, provavelmente minhotas, examinadas com judiciosa crítica.

Uma outra obra se deve ao estudo incansável do P.e Torquato Peixoto de Azevedo e é ela que nos leva a ocuparmo-nos agora deste nosso patrício. São as Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, impressas em 1845 no Porto — tipografia da Revista.

Esta obra, escrita pelo seu autor para fornecer a seus leitores exemplos não só "para conservação da vida humana como para o conhecimento do perigo de que nos devemos desviar para não chegar a perder a eterna" compreende "as primeiras polícias da nossa antiga Araduca, a fundação da nova Guimarães e de sua igreja real; sua grandeza, moradores, freguesia, concelhos, coutos e honras de seu termo; edifícios, mosteiros, capelas, rios, pontes e fontes suas vizinhas; morgados e privilegias, isenções e liberdades com que foram honrados de seus réis; casos e sucessos que na sua defesa e do reino lhe sucederam", Assim o promete a autor na prefação. Satisfaria?

Tem a Antiga Guimarães 142 capítulos, que nem todos se ocupam de Guimarães, pois os primeiros 44 tratam, ainda que resumidamente, da divisão da terra pelas filhos de Noé, descrição da Europa, povoação da Espanha e diferentes divisões que no correr dos tempos sofreu, formação de Portugal, povoação e sucessos de Entre-Douro-e-Minho, tanto no tempo dos Gregos, Celtas — se estes aqui vieram —. Como no dos Romanos, Gados e Árabes. Os restantes 98 capítulos, que abrangem 355 páginas, ocupam-se do que mais directamente diz respeito a Guimarães situada "no meio de tão excelente província de Entre-Douro-e-Minho, como pedra preciosa desta jóia, esmaltada de excelências".

No curto espaço duma biografia e escrita corrente calamo não nos é possível, embora possuíssemos a competência que nos mingua, desenvolver apreciações criticas relativas aos capítulos, que tratam das causas de Guimarães, e mesmo porque a confrontação da Antiga Guimarães com a obra ultimamente publicada Guimarães, apontamentos etc., põe em relevo as faltas e merecimentos do P.e Torquato.

Suposto que este título da Antiga Guimarães não seja muito próprio para cativar e prender a atenção do leitor e apesar de em tanta variedade de factos depararmos algumas inexactidões e mesmo contradições e por vezes nos enfadar tanta difusão, talvez desnecessária e nem sempre uma rigorosa crítica lhes servir de norte, as Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães hão de sempre ser consultadas por quem deseje conhecer as transformações por que a velha pátria do rei conquistador ia passando.

O P.e Torquato coloca-nos à mão muitos dados, cujo conhecimento só alcançaríamos manuseando grossas volumes e dá-nos conta de outros, que não adquiriríamos sem o seu auxílio. Deixa-nos alguns pontos que desejaríamos mais lucidamente desenvolvidos e de boamente prescindiríamos de algumas minuciosidades, que nos narra. Mas onde a formosura sem senão?

É necessário também ter em vista a época em que escreveu o nosso patrício; sua obra não podia deixar de ressentir-se da influência do seu tempo e neste quase todas as produções literárias, como diz o Dicionário Popular, são difusas, prolixas, obscuras.

Eis o nosso desautorizado parecer acerca da P.e Torquato Peixoto de Azevedo, esse indefesso vimaranense, que terminou sua longa carreira na idade de 83 anos aos 23 de Junho de 1705.

João Gomes de Oliveira Guimarães, "Monógrafos vimaranenses", Revista de Guimarães, n.º 1 (4) Out.-Dez. 1884, p. 190-195

Se as Memórias ressuscitadas do Padre Torquato se ressentem, quanto à objectividade histórica, da influência do seu tempo, da sua leitura parece resultar claro tratar-se de um excelente prosador.

Tem a antiguidade muitas sombras, porque são nela tantas as escuridades como os anos, e o que se soube bem esconder nunca se pode bem conhecer, pelo que acham os tempos testemunhas falsas nas histórias, se os anais não são verdadeiros, e é temeridade querer pôs à luz o seu principio, quando o descuido dos que viveram naqueles primeiros séculos não deixaram notícias de suas memórias…

Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memorias ressuscitadas da antiga Guimarães, 1692 (edição de 1845, cap. I, p. 9).

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9 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (5)


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Apurado tudo quanto haveria para apurar em relação ao último proprietário do volume do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, antes da sua entrada para o acervo da SMS, passou-se a explorar a pista "Azevedo", manuscrita no frontispício da obra. Como Azevedo se trata de um sobrenome relativamente comum, tentou-se encontrar algum nexo entre os Lusíadas, Guimarães e alguém assim chamado. Colocaram-se diversas hipóteses, das quais ressaltou uma especialmente plausível: um dos primeiros monógrafos de Guimarães, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705), autor das Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, que conhecia bem a obra de Camões, a quem cita, dizendo que o insigne Camões a quem nada ficou por dizer tocou a luz (pp. 155-156 do manuscrito de 1692 e 202-203 da edição impressa de 1845, que contém graves erros de transcrição, como por exemplo o de, na citação da estrofe 7.ª do Canto I, trocar o Ocidente, que aparece no manuscrito, pelo Oriente).



Procedeu-se, em seguida, à comparação do 'Azevedo' do frontispício dos Lusíadas com o da assinatura do Padre Torcato no manuscrito das suas Memórias ressuscitadas… e, apesar da diferença óbvia no desenho da letra z, que resulta do facto de, nos Lusíadas, a palavra ter sido quebrada em duas linhas (Azeve/do), apresenta semelhanças muito convincentes: os dois Azevedos parecem ser um só. Em seguida, procuraram-se outros manuscritos do Padre Torcato e encontrou-se um grosso volume contendo um Nobiliário, da sua autoria, onde se traçam as genealogias de diversas famílias da nobreza portuguesa. Cotejando este manuscrito com a rubrica que aparece nos Lusíadas, desvaneceram-se as dúvidas, mesmo em relação ao z dissonante. O 'Azevedo' da marca de posse dos Lusíadas é o ilustre Padre Torcato Peixoto de Azevedo.
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8 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (4)



No livro de actas da direcção da SMS está registado que, na sessão de 1 de Novembro de 1886, foi decidido comprar por duzentos mil réis as livrarias dos dois irmãos Cardoso (o cónego dedicava-se à escrita, sendo autor de diversas peças teatrais; o seu espólio literário foi doado por uma irmã à SMS). No "Boletim" referente ao último trimestre de 1996, publicado na página 48 do n.º 4 da Revista de Guimarães (1887), faz-se menção à aquisição destas importantes livrarias, obtidas pela diminuta quantia de 200$000 réis. Quanto ao espólio adquirido, diz-se que é composto na sua máxima parte de obras de reconhecido merecimento e necessidade incontestável. Nada se refere quanto aos Lusíadas. A notícia de que esta obra fazia parte do acervo bibliográfico adquirido pela SMS aparece no jornal O Comercio de Guimarães, em 10 de Janeiro de 1887:

A primeira edição dos «Lusíadas»

Entre as obras valiosas e raras, que faziam parte da importante livraria do falecido jurisconsulto, snr. Dr. Bento António de Oliveira Cardoso, adquirida, como noticiámos, pela benemérita Sociedade Martins Sarmento, encontra-se a primeira edição dos «Lusíadas» impressa em 1572, sendo ainda vivo o grande poeta.

O exemplar dessa edição, que, como se sabe, é raríssima e dum alto valor, está no mais perfeito estado de conservação, e cobre-a uma encadernação magnífica e sólida.

Estabelecido o modo como o volume chegou à posse da Sociedade Martins Sarmento, falta traçar-lhe o percurso até entrar na posse de Bento Cardoso. Num dos anúncios para a venda da biblioteca de Bento Cardoso publicados no Comércio de Guimarães, encontrámos a referência a um catálogo que poderia ser consultado por eventuais interessados que com a compra dos livros também deveria ter passado para a posse da SMS. Efectivamente, no ficheiro dos manuscritos da Biblioteca da Sociedade há um documento com o título Catálogo dos livros do Dr. Bento António de Oliveira Cardoso. Trata-se de um grosso volume, com excelente encadernação. Infelizmente, todas as suas páginas ficaram em branco.

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7 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (3)



Como os livros que eram oferecidos à Sociedade Martins Sarmento eram registados nas actas da Direcção e nada havendo a respeito do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, presumiu-se que a obra teria chegado á biblioteca por outra via. Seguindo uma indicação da investigadora Maria José Meireles, que já se tinha deparado com uma referência à chegada dos Lusíadas na década de 1880, foi possível apurar que, afinal, o exemplar da SMS não tinha sido doado, mas que havia sido comprado num leilão, após a morte do seu anterior proprietário o Dr. Bento Cardoso, um conhecido bibliófilo, reputado advogado de Guimarães, (Camilo Castelo Branco refere-o na Brasileira de Prazins). Nas páginas 166 e 167 da 2.ª edição, de 1996, da obra Guimarães – Apontamentos para a sua História, do Padre António José Ferreira Caldas (1.ª edição: 1881), encontra-se a seguinte nota:

"— Bento António de Oliveira Cardoso, cavaleiro da Ordem de S. Tiago da Espada, bacharel em cânones pela universidade de Coimbra, sócio correspondente da Associação dos advogados de Lisboa, etc. Nasceu a 25 de Janeiro de 1806. Escreveu magistralmente sobre vários assuntos jurídicos, que se acham publicados na Gazeta dos Tribunais e no Portugal, assim como vários artigos sobre medicina legal. A respeito da sua ALEGAÇÃO JURÍDICA, QUESTÃO DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS, etc., diz o snr. António Gil que é uma das mais ricas alegações que se podem imaginar, rica na forma e na matéria, e notável principalmente na parte em que trata dos vedores, e da vedoria, por ser este assunto, se não completamente ignorado, ao menos bastante estranho a quase todos que cursam o foro na capital. As ALEGAÇÕES JURÍDICAS do nosso egrégio patrício, das quais faz comemoração honrosa o snr. Inocêncio no seu DICIONÁRIO, são de tal alcance e valimento, que não posso roubar-me ao desejo de citar aqui algumas das mais importantes, e que por isso mereceram levantados encómios dos mais abalizados jurisconsultos do nosso país. Seja a primeira REFLEXÕES JURÍDICAS A FAVOR DA MISERICÓRDIA DE GUIMARÃES, com o seguinte enunciado: «Devem as misericórdias pagar emolumentos aos párocos pelo baptismo dos expostos, e será justo e louvável ou racionável tal costume quando exista? - Não, porque tudo quanto se der ao pároco por tal título é à custa dos miseráveis expostos ou de suas pobres mães que na dita misericórdia vão procurar um asilo em tal transe». - Vem publicada na Gazeta dos Tribunais, tom. XIV, nº 1981, e é ali tratada a questão com tal proficiência, que a redacção a aprecia deste modo: «Esta alegação jurídica acha-se tão bem deduzida, e é tão rica de argumentos tirados do direito canónico e do direito civil, que nada deixa a desejar, podendo servir de modelo no seu género». É igualmente digna de menção a sua ACÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA que se lê no tom. XXV da mesma Gazeta, nº 3713. Tratam-se aqui com uma profundidade e erudição jurídica e médico-legal, pouco vulgar, duas das mais importantes e duvidosas questões que se debatem e tem debatido no nosso foro tanto antigo como moderno. Finalmente no tom. XXVIII da mesma Gazeta, e ainda em outras muitas, o nosso prodigioso patrício apresenta-se nas variadíssimas e intrincadas questões jurídicas como um dos mais distintos, mais vigorosos e invencíveis polemistas. O nosso imortal jurisconsulto possui ainda muito notável erudição em todos os ramos de literatura, e é senhor duma das mais selectas e preciosas livrarias da província do Minho."

Bento Cardoso faleceu em 12 de Abril de 1886. Consultados os jornais da época, encontrou-se a notícia da sua morte, redigida em termos muito curiosos para um obituário, no Religião e Pátria de 14 daquele mês:

"— Falecimento – Até que enfim, já não é deste mundo o exmo. snr. dr. Bento António de Oliveira Cardoso, o abalizado jurisconsulto, honra e glória desta terra e ornamento distintíssimo do foro português. Vitimou-o anteontem a penosíssima enfermidade que há muito tempo o atormentava, e o seu cadáver teve hoje os respectivos ofícios fúnebres na igreja de S. Francisco, sendo depois conduzido, em luzido cortejo, ao cemitério municipal, onde foi sepultado."

No Comércio de Guimarães de 18 de Novembro seguinte aparece um anúncio intitulado "Venda de Livraria, onde se lê que até ao dia 31 de Dezembro do corrente ano, está patente o catalogo da livraria que foi do falecido Dr. Bento António de Oliveira Cardoso, na casa do mesmo falecido, rua de Camões, n. 101". A residência na rua de Camões parecia ser um bom augúrio… No Religião e Pátria de 4 de Dezembro, já se noticiava que a Sociedade Martins Sarmento "adquiriu por compra, para a sua biblioteca as livrarias do afamado jurisconsulto dr. Bento António de Oliveira Cardoso e do seu irmão cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso". Por esses dias, não se encontra qualquer referência ao poema de Camões.

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"... Porque tanto amamos a nossa Guimarães?"


"… Porque tanto amamos a nossa Guimarães? Fora uma junqueira brava, com um passado de cabana, amortecida na atonia das horas indiferentes e paradas! Mas ela tem, neste formoso quadro minhoto, a mais enternecida paisagem de suavidade e maravilha. As suas casinhas arruam-se em estâncias saudosas. Tressua a pedra dos seus muros o sangue forte dos gloriosos fundadores da nossa nacionalidade. E nem uma só hora, uma só, viveu a inquietação da alma pátria em que ela não estivesse identificada com toda a sua alma. Era terrível e vitoriosa a sua espada, porque ela mesma lhe forjara a têmpera. Longamente se entregou a um sonho de misticismo fervoroso — e é ainda essa luz tão meiga e profunda, admirável, que ilumina os olhos das suas moças. Fez o bragal do linho da terra, o doce — do fruto das suas árvores. Pintou, agricultando, o quadro esverdecido e doirado das suas encostas e das suas várzeas. Cantou e sofreu. Foi S. Mamede e verteu, regou com seu sangue Aljubarrota, Ceuta e índia. Não temeu o Império dos Filipes e defrontou-se com Napoleão. E trabalhou sempre. A enxada, o escopro, o cinzel, a forja. Apegou-se à terra, entocou-se nas oficinas, sulcou os mares, estremeceu na ânsia da arte. Com insistência tão devotada e tão amorosa, ao comprido de tantos séculos, que, neste recanto afastado, ao mesmo tempo que amassava em glória um passado brilhante e limpo, fortalecia uma grande e bela tradição de trabalho, essa de que descende e criou a laboriosa e honrada Guimarães de nossos dias."

Setembro de 1925
Eduardo de Almeida
[in Guimarães - O Labor da Grei, Guimarães, 1926]
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6 de novembro de 2009

"O tempo que se perde, não se torna mais a achar"


"O período que permeia entre a data actual de apresentação da candidatura à atribuição do título de Capital Europeia da Cultura e o ano de celebração desse título, em 2012, será o TEMPO adequado para impulsionar novas forças de actividade cultural na cidade e no concelho, no sentido, nomeadamente, de criar condições para a sustentabilidade do projecto da Capital."
Do documento de Candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura.

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Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (2)




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Não existindo documento de registo da entrada na Sociedade Martins Sarmento do exemplar da edição de 1572 de Os Lusíadas, à partida apenas se sabia, com certeza, que a obra já se encontrava na Biblioteca da SMS em 1887, aquando da edição do seu primeiro catálogo impresso (onde já consta, mas sem qualquer indicação de proveniência), e que ostenta, além do carimbo da SMS, uma outra marca de posse, manuscrita na base do frontispício ('Azevedo').

No "Dicionário Bibliográfico Português", de Inocêncio Francisco da Silva, publicado num tempo em que a versão Ee… era tida como a 2.ª) aparece uma listagem dos exemplares desta edição de que Inocêncio teria notícia (p. 251, tomo 14.º), a saber:

1.º o da Biblioteca Nacional de Lisboa: 2.° o que existia no convento de Jesus, pertencente hoje á Academia, dado aos religiosos do dito convento pelo falecido dr. Lima Leitão, como consta de uma declaração autógrafa nele exarada: 3.° o que foi do falecido Visconde de Almeida Garrett, pertencente hoje ao sr. José Maria da Fonseca: 4.° o da colecção Norton: 5.° o da colecção Adamson (vendido por 11 £): 6.° o que foi do dr. Abranches, e depois de Joaquim Pereira da Costa: 7.° o que pertenceu ao extinto mosteiro de S. Bento de Lisboa, daqui levado pelo ex-beneditino Fr. João de S. Boaventura em 1834 (vej. no Dicionário, tomo III, pág. 330) existente agora na Biblioteca Pública do Rio de Janeiro: 8.° o do Gabinete Português de Leitura da mesma cidade, comprado por 154:000 réis (moeda do Brasil): 9.° o da Biblioteca Imperial de Paris, etc., etc.

Quanto ao exemplar da Biblioteca da SMS, nada em Inocêncio. O seu continuador, Brito Aranha, na página 32 do Tomo 5.º, insere uma outra listagem dos exemplares da versão Ee…:

Desta segunda edição, são conhecidos os seguintes exemplares em Lisboa: da academia das ciências, da biblioteca nacional (dois, um em melhor estado de conservação, que o outro); dos srs. Fernando Palha, conselheiro Gama Barros (que pertenceu ao falecido José Maria da Fonseca); bacharel António Augusto de Carvalho Monteiro (que o adquiriu no leilão dos livros do conselheiro Minhava), e João Henrique Ulrich; no Porto: o sr. dr. José Carlos Lopes, no Brasil: sua majestade o imperador, o gabinete português de leitura do Rio de Janeiro, e a biblioteca nacional da mesma cidade; e em Paris: a biblioteca nacional. O exemplar da segunda edição, que possui a biblioteca nacional do Rio de Janeiro, foi comprado em 1880 ao livreiro editor, sr. B. L. Garnier por 405$000 réis (moeda fraca). Pertencera a D. Diogo de Rocaberti y de Pau, cuja assinatura autografa vem na folha do rosto. Está em perfeito estado de conservação.

Também aqui, nenhuma referência ao exemplar da SMS.

Para a edição em fac-simile dos Lusíadas (ed. de 1921), a Biblioteca Nacional fez o levantamento dos exemplares existentes, cujo resultado aparece na pág. XXXIV da obra. É o seguinte:

EXEMPLARES DE Ee

A Biblioteca Nacional de Lisboa possui quatro, marcados na Camoneana com os n.os 2, 3 (foi este o reproduzido), 4 e 11 (preto). O frontispício, licenças, privilégio (4 pág.) e as ff. 177 e segg. do texto de Ee 11 pertencem à ed. de 1597, sendo por isso colocado ao pé dos exemplares desta ed. Foi posto o n.º 1 ao exemplar de E.

Ha também um exemplar de Ee na Biblioteca da Academia das Sciências. Vai reproduzida uma est. deste ex. no § 1 da Introd.

Responderam à circular da Direcção da B. N. de Lisboa, informando que possuíam um exemplar de Ee, as seguintes entidades

Portugal, Lisboa: Os Srs. Henrique da Gama Barros, D. Francisco de Almeida e Conde de Avilez. Porto: Ateneu Comercial (1). Guimarães: Sociedade Martins Sarmento (2).

Brasil, Rio de Janeiro: Gabinete Português de Leitura (3).

França, Paris: Biblioteca Nacional (4).

Inglaterra, Londres: Museu Britânico (5). Oxford: A Bodleiana (6). Comunica também a Direcção do Museu Britânico que existem ali dois exemplares de E, num dos quais as 2 primeiras folhas são de Ee.

Itália, Nápoles: Biblioteca Nacional. Ex. que pertenceu à casa Farnese (7).

Os números entre parêntesis remetem para pormenores de cada exemplar que foram objecto do inquérito da BN, que aqui se omitem.

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5 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (1)





Entre os incontáveis tesouros que se guardam na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, conta-se um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas. Por facilidade, reproduzo aqui a descrição que preparei há alguns anos para a página na internet da Casa de Sarmento:

Os Lvsiadas / de Luis de Camões .- Impressos em Lisboa : em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572, 186 f.; 4ª (25 cm).

Edição conhecida por edição "Ee".

A primeira edição, de 1572, produzida em casa do impressor António Gonçalves, de Lisboa tem sido objecto de uma velha controvérsia, iniciada no século XVII com a publicação de "Os Lusíadas Comentados" de Manuel de Faria e Sousa, que descobriu que o pelicano que figura no frontispício da edição de 1572 aparece voltado para o lado esquerdo, nuns exemplares, e para o direito, em outros. A partir dos comentários deste autor, passou a aceitar-se a existência de duas edições da obra no ano de 1572, geralmente identificadas por A (pelicano voltado para a esquerda) e B (pelicano voltado para a direita) ou Ee e E, conforme no penúltimo verso da primeira estância apareça, sem a conjunção E entre gente remota edificarão ou apenas Entre…

A Sociedade Martins Sarmento possui um exemplar da edição conhecida por A ou Ee, hoje admitida como edição princeps, que apresenta o colo do pelicano voltado para a esquerda, e cuja impressão se pensa ter sido acompanhada pelo próprio poeta.

A primeira edição do poema camoniano deu origem a uma polémica, iniciada por Manuel de Faria e Sousa, na sua edição de 1639 de Os Lusíadas Comentados, quando constatou que o pelicano que figura no frontispício da obra aparecia voltado ora para a esquerda ora para a direita, em diferentes exemplares dessa edição, concluindo que terão saído do prelo, no ano de 1572, duas edições da obra.

Há alguns anos, Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, que consultou e comparou diferentes exemplares de 1572 de Os Lusíadas, foi de encontro a uma conclusão já avançada em 1846 por Rodrigo da Fonseca Magalhães, segundo a qual as diferenças detectadas em diversos exemplares da obra seriam o resultado de correcções efectuadas por Luís de Camões durante o processo de impressão. Não haveria, portanto, mais do que uma edição de 1572.

Quando a Universidade do Minho decidiu assinalar o seu trigésimo aniversário com a edição de um fac símile do exemplar de Os Lusíadas da SMS, com prefácio de Vítor Aguiar e Silva, tentei descobrir o rasto daquele volume até à sua entrada na Biblioteca de Guimarães. Aquilo que encontrei tem as suas curiosidades, que irei descrever aqui por estes dias.
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3 de novembro de 2009

Martins Sarmento, por Raul Brandão

Francisco Martins Sarmento, retrato a carvão de Abel Cardoso. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.


O sábio, e o arqueólogo sobretudo, sempre me apareceram sob este aspecto singular: homens que, à força de conviverem com a ciência hirta e as secas pedras, tinham endurecido o coração; homens de método e experiência, desavindos de tudo o que na vida e na natureza é simples e emotivo: árvores, amores, sol, o quinhão dos poetas enfim. Depois, porém, que conheci Martins Sarmento comecei a duvidar: estava diante dum sábio a valer, e ao mesmo tempo — o que é mais raro e mais apreciável — dum grande homem de coração e carácter.

Guimarães deve-lhe muito: escolas, instrução, e essa admirável biblioteca Martins Sarmento, que tem, ao contrário de quantas outras eu conheço, a extraordinária opinião de que os livros se fizeram para se ler e assim os empresta a quem os queira, sócio ou não.

E este foi o pensamento dominante de toda a sua vida — instruir. Por isso Martins Sarmento tem um valor mais alto, mais nobre: além dum sábio e dum grande coração, foi um homem que olhou para o futuro. Fundando escolas, dedicando a sua vida inteira à instrução, trabalhou para os homens de amanhã.

E eles decerto não o esquecerão.

Raul Brandão, in Revista de Guimarães, Volume especial, 1900, p. 73
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1 de novembro de 2009

Como António Lobo de Carvalho ganhou uma casaca nova



De António Lobo de Carvalho tem-se destacado a sua verve desabrida e obscena. Mas os sonetos de António Lobo, onde o tom jocoso estava quase sempre presente, também adoptavam outros registos, e, por vezes, não escondiam propósitos comezinhos, como ser convidado para um jantar ou... obter uma casaca. Aqui fica um exemplo, num soneto dirigido ao Conde da Calheta, em que anunciava que a condessa sua esposa iria dar à luz um filho varão:

Eu tenho, excelso conde, um livro antigo,
Nunca das mãos me sai ou da algibeira,
Que um cigano deixou a uma parteira,
A qual em vida quis casar comigo!

Contém de adivinhações um longo artigo
Sinais de parto pela vez primeira;
E trata esta questão em lauda inteira, 
La Dama encinta si trae hombre, ó hijo;

Com que eu cá me entendo: isto suposto,
Quereis vós apostar um tanto ou quanto,
Pois mais que o ganho, a perda vai de gosto?

Se for varão, que venha a lume santo,
Perdeis uma casaca, e eu sempre aposto.
Sendo fêmea, atrás dela andar de manto.


Fosse pelas virtudes do livro do cigano, fosse por mera sorte, o poeta acertou no seu prognóstico. A Condessa da Calheta pariu um rapaz, em dia de Santa Rita de Cássia. António Lobo livrou-se de ter andar de manto, atrás de uma condessinha, e não tardou a reivindicar a casaca que ganhou na aposta:


Santa Rita a impossíveis consagrada,
Todo o mundo a respeita com fé pia
Cássia o diga, que incrível romaria
Não cobre o seu altar, e a sua entrada!

Mas co'a ilustre condessa atribulada
Na acção do parto, cuja dor sentia,
Que fez a Santa? Emprestar-lhe o seu dia,
Mas, além disso, não lhe fez mais nada.

Mais fiz eu, que observando o meu planeta,
Bem que sou de futuros língua fraca,
Vaticinei um conde em linha recta.

Morda-se a inveja agora ímpia e velhaca,
E em tanto acendereis a este profeta
Três velas de calção, véstia e casaca!


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30 de outubro de 2009

Do nascimento de António Lobo de Carvalho



 O Largo da Misericórdia, numa fotografia de 1890. A Rua das Flores, onde nasceu António Lobo de Carvalho, corria pelo lado esquerdo da fotografia. Foto da Casa de Sarmento.


Do notável “poeta fescenino” António Lobo de Carvalho não conhecemos o retrato. Da sua biografia, também não sabemos muito. Os que se debruçaram sobre a história da sua vida, como Natália Correia, dizem que “nasceu em Guimarães, provavelmente em 1730”. O Padre António Caldas registou que António Lobo “nasceu em Guimarães pelos anos de 1730, tendo por pais Diogo Ferreira da Silva e Jerónima Lobo, e viveu por muitos anos e falta de meios na Rua de Santa Rosa de Lima”.

Camilo Castelo Branco, que o chamou de “ave rara”, escreveu que “o poeta satírico António Lobo de Carvalho, falecido em Lisboa aos 26 de Outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era filho ilegítimo de fidalgo, e tinha em Vila Real parentes maternos que o educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lhas”.

Fomos à procura do registo de nascimento do nosso poeta, e encontrámo-lo a nascer em Guimarães, na paróquia de Nossa Senhora da Oliveira, no dia 2 de Abril de 1733. Ao contrário da informação de Camilo, era filho legítimo. Teve, pelo menos, quatro irmãos, um dos quais, José António Lobo, dois anos mais novo, se finaria em Lisboa em meados de 1756. Quanto à residência na Rua de Santa Rosa do Lima, ainda não encontrámos qualquer referência na documentação do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. É certo que o seu nascimento ocorreu na antiga Rua das Flores, que corria pelo lado voltado a Poente do Largo da Misericórdia (na sua configuração actual), em direcção a Valdonas. Temos notícia da residência da sua família nessa rua durante vários anos. Em 1756, já se havia mudado para a Rua do Gado. Quando o seu pai faleceu, no final de 1760, a família era moradora na Rua de Santa Maria.

Aqui fica a transcrição do registo de nascimento de António Lobo de Carvalho, não sendo ainda claro onde foi buscar o último apelido que utilizou ao longo da vida (Carvalho):

António. Aos dois dias do mês de Abril de mil setecentos e trinta e dois digo e trinta e três anos nasceu António filho legítimo de Diogo Ferreira da Silva e de sua mulher Jerónima Lobo Machado moradores na Rua das Flores desta freguesia e foi baptizado aos dez do presente mês e ano e lhe não pus os santos óleos pelos não haver ainda nesta igreja. Foram padrinhos o Capitão Gonçalo Lopes Pereira morador a Santa Cruz desta freguesia e Teresa Maria Borges mulher de Joaquim da Costa, moradores a Santa Luzia, freguesia de São Paio. Foram testemunhas o mesmo padrinho e o marido da madrinha, os quais assinam, e por verdade fiz este assento era ut supra.

O Cónego Cura, Luís Álvares Pereira
Gonçalo Lopes Pereira
Joaquim da Costa Silva

(à margem: Recebeu os santos óleos.)

[Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães. Livro de nascimentos n.º 6 da paróquia de Santa Maria da Oliveira.]
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29 de outubro de 2009

Desde que nasce o sol até que é posto

Desde que nasce o sol até que é posto
Governa o lavrador o curvo arado,
E de anos o soldado carregado
Peleja, quer por força, quer por gosto:

Cristalino suor alaga o rosto
Do barqueiro, do remo calejado;
Do cascavel ao dente envenenado
Anda o rude algodista sempre exposto:

Trabalha o pobre desde a tenra idade;
O destro pescador lanços sacode
Para escapar da fome à atrocidade;

Todos trabalham, pois que ninguém pode
Comer sem trabalhar; somente o frade
Come, bebe, descansa e depois fode.

António Lobo de Carvalho, poeta português do séc. XVIII. Nasceu em Guimarães.

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27 de outubro de 2009

25 de outubro de 2009

Guimarães: mãe ou madrasta?



Se acaso em Guimarães um rio houvera

com ninfas pelas margens em cabelo

e espuma donde brota a de Citera

 
Eu cantaria o Rei e o seu Castelo,

a velha Igreja, Mumadona austera,

Pedralva – o Velho, e até qualquer camelo,

 
Se acaso em Guimarães tal coisa houvera.

[M. Branco de Matos, Este Chão, Esta Cidade (Guimarães – um roteiro poético), Guimarães, 2008, p.7]



Gostar de Guimarães não se constrói, nasce connosco.

Costuma dizer-se que Guimarães é "má mãe e boa madrasta".




Um dos traços que mais me fascina em Guimarães está no modo aberto como esta cidade encanta e se deixa amar por aqueles que a descobrem. Ao longo dos tempos, muitos têm sido os que, vindos de outras paragens, entre tantas escolhas possíveis, elegeram Guimarães para viver. É que, se ninguém escolhe a terra onde nasce, está ao alcance de qualquer um escolher a terra onde quer viver e fazê-la sua. Guimarães é uma terra generosa, acolhedora e franca. Boa mãe, para os seus filhos e para todos os que a adoptam como mãe. Sempre foi assim.

Poderia deixar aqui um longo rol de nomes de vimaranenses que vieram ao Mundo em outros lugares e que em Guimarães deixaram a marca das boas obras.

(Assim como poderia indicar uns quantos que, nascendo dentro dos muros do velho burgo, se foram daqui e não mais deram sinais de afeição pela terra que lhes escutou o primeiro choro.)

É por isso que me causa uma certa pele-de-galinha a conversa de que Guimarães é má mãe e boa madrasta, especialmente quando aparece na boca de pessoas lúcidas, mas que, porventura, não serão imunes às manifestações um tanto primárias de um certo fundamentalismo bairrista.

Num dos últimos dias do último ano, foi lançado um livro de poesia muito bonito, que é uma das mais belas manifestações de amor a Guimarães escritas em  verso que eu conheço. A sessão foi um acto de amor inteligente a esta cidade. Ainda me lembro como, a certa altura, reparei que, ao meu lado, na mesa onde eu fazia o papel de anfitrião, estavam o autor do livro, a pessoa a quem coube a sua apresentação e o primeiro responsável autárquico de Guimarães. Todos eles são vimaranenses com obra feita em Guimarães. Sei que cada um deles, à sua maneira, aprendeu a amar esta cidade. No entanto, nenhum nasceu em Guimarães.

Certo dia, na altura em que, há alguns anos, a roda do destino me atirou para algo que não fazia parte do meu projecto de vida, colocando-me à frente da Sociedade Martins Sarmento, um grupo de pessoas veio ter comigo, com a intenção de me dar os parabéns, porque, "finalmente, havia um vimaranense à frente de uma instituição de Guimarães". Confesso que o propósito daquela embaixada, sei que bem intencionada, me tocou como um murro no estômago. Com aquele gesto, estava-se a negar a cidadania vimaranense à pessoa a quem substituí, num momento em que as suas cinzas ainda nem sequer tinham arrefecido. De seu nome Joaquim António dos Santos Simões, foi, de todas as pessoas com quem até hoje trabalhei, aquela que mais generosa e persistentemente dedicou a sua vida a Guimarães (e a quem esta cidade tanto deve). Na cabeça pequenina daquela gente, não era um vimaranense. Enganavam-se duplamente: porque poucos terão sido vimaranenses como Santos Simões (e eu não conheço nenhum que demonstrasse um afecto mais genuíno por esta cidade) e porque eu, por acaso, embora haja por aí muita gente que pensa o contrário, também não nasci em Guimarães.


Confesso, a quem julgar que isso possa ser um defeito, que o meu modo de gostar de Guimarães não me veio do nascimento: é uma construção, tecida com  razão e afeição, de que me orgulho.

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