3 de novembro de 2009

Martins Sarmento, por Raul Brandão

Francisco Martins Sarmento, retrato a carvão de Abel Cardoso. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.


O sábio, e o arqueólogo sobretudo, sempre me apareceram sob este aspecto singular: homens que, à força de conviverem com a ciência hirta e as secas pedras, tinham endurecido o coração; homens de método e experiência, desavindos de tudo o que na vida e na natureza é simples e emotivo: árvores, amores, sol, o quinhão dos poetas enfim. Depois, porém, que conheci Martins Sarmento comecei a duvidar: estava diante dum sábio a valer, e ao mesmo tempo — o que é mais raro e mais apreciável — dum grande homem de coração e carácter.

Guimarães deve-lhe muito: escolas, instrução, e essa admirável biblioteca Martins Sarmento, que tem, ao contrário de quantas outras eu conheço, a extraordinária opinião de que os livros se fizeram para se ler e assim os empresta a quem os queira, sócio ou não.

E este foi o pensamento dominante de toda a sua vida — instruir. Por isso Martins Sarmento tem um valor mais alto, mais nobre: além dum sábio e dum grande coração, foi um homem que olhou para o futuro. Fundando escolas, dedicando a sua vida inteira à instrução, trabalhou para os homens de amanhã.

E eles decerto não o esquecerão.

Raul Brandão, in Revista de Guimarães, Volume especial, 1900, p. 73
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