5 de dezembro de 2009

A Planta de Guimarães de 1569


A planta de 1569 (clicar na imagem, para ampliar)


Acaba de ser apresentada ao público a edição da Sociedade Martins Sarmento da já célebre planta de Guimarães do século XVI, que actualmente se encontra na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça singular, de cuja origem pouco se sabe. Não conhecemos em que condições terá sido produzida, apenas que pertenceu à biblioteca de Diogo Barbosa Machado, escritor e bibliógrafo do século XVII, autor da primeira obra de referência bibliográfica portuguesa (a Bibliotheca Lusitana, Historia, Critica e Chronologica, na qual se comprehende a noticia dos autores portuguezes, e das obras que compozeram desde o tempo da promulgação da Lei da Graça, até o tempo presente, que começou a ser publicada em 1741). Em 1770, Barbosa Machado doou os livros e os manuscritos da sua notável biblioteca ao rei D. José I, quando se tratava de reconstituir, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, a Biblioteca Régia, que havia sido destruída com o terramoto e o subsequente incêndio que, em 1755, destruiu a Casa do Forte do Paço Real da Ribeira. Na sequência da ida da família real para o Brasil, os 60.000 volumes da Biblioteca Régia também iriam atravessar o Atlântico, a partir de 1810, onde dariam corpo ao acervo inicial da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, instituída por D. João VI. A colecção de Barbosa Machado é um dos frincipais fundos da BNRJ. É lá que se encontra a planta de Guimarães de 1569.

A planta será um importante instrumento para o aprofundamento do conhecimento da evolução do perfil urbano de Guimarães ao longo dos séculos, permitindo confirmar ou desmentir certas ideias feitas sobre alguns aspectos do antigo urbanismo de Guimarães, a começar pela configuração da antiga muralha. Até aqui, tem prevalecido a ideia de que a cerca velha que, envolvendo o Castelo, delimitava a antiga vila velha ou vila do castelo, se fechava, no lado voltado a sul, entre as portas da Freiria (próxima da Capela de Santa Cruz) e de Santa Luzia (nas imediações da embocadura da rua com o mesmo nome), conforme se pode observar no seguinte desenho, de Moura Machado:



Ora, pela planta de 1569, podemos ver que o ponto de separação entre as duas antigas vilas de Guimarães se situava bastante mais próximo do topo do Monte Latito, correndo entre as torres da Garrida e de Santa Cruz (Porta da Freiria) e passando no mesmo sítio onde hoje se encontra a fachada do paço dos Duques voltada a Sul:



Legenda: A - Castelo; B - Paço dos Duques; C - muralha.


Em boa verdade, não é grande novidade, uma vez que, por exemplo, já nas suas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, quando descrevia o cerco de Afonso VII ao castelo, onde se encontrava Afonso Henriques, escrevia:

É de advertir que a cerca, em que o dito Infante foi cercado por el-Rei de Castela, vinha serrar onde hoje estão os Passos, e quando el-Rei D. Dinis mandou fazer a cerca nova, que vai continuando com a cerca velha, devia ficar o lanço do muro, que cercava a cerca velha; e, sendo os Duques de Bragança Donatários da Coroa, tiraram o dito muro, e na parede donde ele estava, fizeram os Paços, que estão na terra de el-Rei, que os ditos Duques, por virtude da doação, que tinham da Coroa, fundaram na terra, que traziam dela; e como foi a dita doação conforme a Lei Mental, falecendo depois o Senhor Duarte sem filhos, ao qual as ditas terras vieram por sucessão, tornaram à Coroa onde estão.

Ou seja: o muro da cerca velha foi demolido pelos duques de Bragança para construírem o seu paço em Guimarães, o que vem demonstrar que a vila do castelo tinha uma área bem menor do que aquela que lhe tem sido atribuída.


Espaço delimitado pela cerca velha, de acordo com o mapa de 1569.
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