30 de novembro de 2010

Das Nicolinas (7)


[continua daqui]
 
Como se mede um pinheiro?

Antigamente o pinheiro media-se aos palmos (o de 1863 atingiu 96 palmos, o de 1881, cento e tantos e o de 1899, 115) ou aos metros (o de 1895 media "uma porção de metros", o de 1904 atingia 25 metros, enquanto que o de 1911 alcançava 22 metros). Todavia, naqueles tempos, a melhor medida da grandiosidade do pinheiro era o número de juntas de bois que o acompanhavam. No meio século que medeia entre 1880 e 1930, pode-se dizer que os pinheiros "mais pequenos" terão sido os de 1881 (6 ou 7 juntas), 1883 (12), 1906 (6 ou 7) e 1929 (11). Já os que levaram maiores séquitos de juntas de bois foram os pinheiros de 1904 (61), 1911 (80), 1912 (70) e 1927 (71). Nos números são admiráveis: no período indicado, temos a contagem de juntas de bois referentes a 30 anos. Desses, apenas em seis anos o pinheiro foi acompanhado por menos de 20 juntas de bois e somente em dois por menos de 10.

Aquelas entradas no pinheiro em Guimarães eram impressionantes, e eram sempre acompanhadas por três músicas: a dos tambores, a da filarmónica e a da arrepiante chiadeira dos carros.

Hoje, os tempos são diferentes: um pinheiro já não se mede aos palmos, nem pelo número de carros de bois que o acompanham, mas sim pela dimensão da multidão que se incorpora no cortejo, agora incomparavelmente maior do que no passado.

Partilhar:

Das Nicolinas (6)

 O Pinheiro das Festas Nicolinas de 2010
Sobre o significado do Pinheiro

Na procura de um significado para o pinheiro nicolino, por estes dias levantado, têm sido avançadas algumas hipóteses singulares, associando o elemento que se transformou na principal referência das festas dos estudantes de Guimarães a um símbolo da virilidade. Nesta linha interpretativa, a escolha do pinheiro para protagonista da grande noite das festas a S. Nicolau faz todo o sentido, já que o nome científico do nosso pinheiro-bravo, pinus pinaster, não deixa de ser sugestivo, quando conhecemos uma das designações vernáculas mais populares utilizadas em terras de Guimarães para designar o acto sexual: pinar.

Por outro lado, a preocupação de encontrar, em cada ano, o pinheiro mais alto das redondezas, para ser erguido em espaço público na noite de 29 de Novembro, contribui para acentuar a dimensão fálica inerente a esta interpretação do pinheiro. O pinheiro erecto seria, assim, uma representação simbólica da virilidade que andaria associada às festas nicolinas.

Esta associação é particularmente atraente quando sabemos que o nome que antigamente era dado ao mastro mais alto das antigas embarcações, utilizado como posto de observação era... caralho (carajo, em castelhano). Como se tratava de um lugar indesejado, pela sua exposição ao vento, à chuva, ao sol e às oscilações do barco, era para aí que eram enviados os marinheiros que careciam de ser castigados. Daí a expressão "vai para o caralho", com o significado de mandar alguém para aquele sítio tão inóspito, para onde ninguém queria ir. Não se sabe ao certo quando a expressão (que é usada na nossa língua desde, pelo menos, o século XIII) passou a ter o significado mais corrente nos dias de hoje. Mas não é difícil de perceber a associação entre o mastro, o pau e o órgão sexual masculino.


[Aquela expressão tão sugestiva adquiriu, ao longo do tempo, múltiplos significados, como doutrina um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, recentemente tornado público:

"[...] A utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma [...] pois tal resulta da experiência comum, que caralho é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo pró caralho é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas: chove pra caralho..., o Cristiano Ronaldo joga pra caralho... [...] não há nada a que não se possa juntar um caralho, funcionando este como verdadeira muleta oratória."]

Quer pela forma (um grande tronco erecto), quer pela sua designação latina, não faltam argumentos para associar o pinheiro nicolino à representação da virilidade.

Cá por mim, confesso que não estou nada convencido quanto a tal associação: o pinheiro, outrora designado simplesmente como mastro, não será  mais do que o pau da bandeira nicolina (hoje, ao contrário de outros tempos, já só pau, sem a bandeira, a bandeira de Minerva, cujo rasto se terá perdido), que, tal como em tantas outras festividades cíclicas de raiz popular, proclama a festa, enquanto ela dura.
Partilhar:

29 de novembro de 2010

Das Nicolinas (5)

 Caixa usada nas festas Nicolinas, pintada por Leandro Vale
As festas de S. Nicolau em 1864


Em 1864, as festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau tiveram o seguinte programa, em parte prejudicado pela chuva que se fez sentir:

Dia 29 de Novembro: entrada do pinheiro.

Dias 30 de Novembro e 2, 3, 4 e 5: música pelas ruas da cidade.

Dia 5 de Dezembro: Magusto, pela madrugada; Bando (pregão), de tarde.

Dia 6: Festa da Irmandade, na igreja; maçãs (com música), de manhã; dois bailes de máscaras "vestidos a carácter", à tarde: um de estudantes "seniores", outro de estudantes mais moços.

Os jornais que então se publicavam em Guimarães, o religião e Pátria  e o Vimaranense, noticiaram assim as festas daquele ano:


Festejos escolásticos. – Começaram na terça-feira de tarde os festejos escolásticos que a juventude estudiosa desta cidade costuma fazer anualmente por esta ocasião e que vulgarmente são denominados, o S. Nicolau. Naquele dia ao anoitecer chegou à praça do Toural, precedido de grande número de tambores, e, seguido da música desta cidade, o pinheiro que serve para a bandeira que anuncia os festejos.

Na madrugada do dia seguinte os estudantes percorreram as ruas da cidade com a música que, entre outras peças, tocou alternadamente o hino escolástico.

Na madrugada de hoje houve música outra vez; e na madrugada de segunda-feira 5 do corrente terá lugar um magusto na praça do Toural.

Na tarde deste dia sairá o bando, e na terça-feira 6 farão os estudantes a costumada distribuição da renda, e haverá bailes de máscaras.

Religião e Pátria, n.º 17, 4.ª série, Guimarães, 3 de Dezembro de 1864



S. Nicolau. – Terminaram com o dia deste santo os festejos e folguedos que a classe escolástica costuma pôr em prática por esta ocasião.

Ao que já narrámos a tal respeito e à menção dos folguedos, que também já demos, pouco temos que acrescentar, porque o tempo chuvoso que fez neste dia parece que deixou em embrião algumas exibições que estavam planeadas.

Apenas apareceram dois bailes de máscaras, um composto de estudantes maiores e em gosto mais epigramático, outro de estudantes de mais tenra idade, vestidos a carácter com extrema elegância e que mais prendeu a atenção do público.

Parece que à demasiada restrição dos direitos a haver entrada nesta festa se deve parte da sua decadência.

O Vimaranense, n.º 246, 5.º ano, Guimarães, 9 de Dezembro de 1864


Festividade. – Celebrou-se no dia 6 do corrente, na igreja da Insigne e Real Colegiada desta cidade, a festa de S. Nicolau. Houve missa solene com exposição do Santíssimo Sacramento e sermão, sendo orador o ver.º padre José Leite de Faria Sampaio.

Festejos escolásticos – Terminaram na terça-feira passada os festejos escolásticos que fazem os estudantes desta cidade. Em todo o tempo que eles duraram reinou a maior ordem e sossego.

Noticiamos agora o mais que se fez além do que dissemos no número passado.

Nas madrugadas de domingo e segunda-feira houve música, e nesta última teve lugar na praça do Toural o costumado magusto. Na tarde deste dia saiu o bando, e na terça fez-se de manhã a distribuição da renda, entrando os estudantes na cidade precedidos de uma banda de música; e de tarde saíram dois vistosos bandos de máscaras, vestidos a carácter.

Religião e Pátria, n.º 18, 4.ª série, Guimarães, 10 de Dezembro de 1864

Partilhar:

28 de novembro de 2010

Das origens do futebol em Guimarães (1)

Quando, já lá vão quinze anos, Santos Simões publicou o opúsculo "Futebol Vimaranense: das origens aos estádios", revelou que a referência mais antiga a um jogo de futebol em Guimarães que encontrou nos nossos jornais apareceu no Alvorada, órgão republicano dirigido por A. L. de Carvalho. Há dias, ao trabalhar sobre a implantação da República em Guimarães, deparei-me com essa referência, escondida no meio de anúncios:




O anúncio era, nada mais nada menos, do que uma convocatória, assinada pelo capitão da segunda equipa do "Foot-Balle Grupo Vimaranense", dirigida aos respectivos jogadores, para comparecerem num jogo a disputar contra a primeira equipa da mesma agremiação, que teria lugar às 8 horas da manhã do dia 16 de Março de 1913, domingo.
Partilhar:

Das Nicolinas (4)


[continua daqui]
 

Para a interpretação das Nicolinas

Já há muito que o linguista russo Mikhaïl Bakhtine, ao analisar a obra de François Rabelais, avançou como uma teoria acerca da cultura popular centrada nos conceitos de carnaval e carnavalização, lançando a ideia de que o Carnaval não se reduziria ao ciclo que antecede a quarta-feira de cinzas, manifestando-se em outras épocas festivas posicionadas em diferentes momentos do calendário. A obra de Bakhtine é, ainda hoje, uma obra de referência nos estudos de história da cultura popular, dando-nos uma interessante grelha de análise para as festas nicolinas que são, do meu ponto de vista, um conjunto de manifestações de carácter eminentemente carnavalesco. Nas Nicolinas encontramos diversos elementos do mundo às avessas que caracteriza o Carnaval, entre eles o riso e a máscara.
 
O riso sempre esteve presente nas festas a S. Nicolau, especialmente naquele que era o momento mais alto, as danças que os estudantes oferecem ao povo de Guimarães, que, tendo outrora a rua como palco, acabariam por se confinar ao espaço fechado de uma sala de espectáculos. Já a máscara era uma das principais marcas das festas, estando na origem de diversas proibições e conflitos dos estudantes com as autoridades, nomeadamente nos tempos mais conturbados da instauração do liberalismo em Portugal (décadas de 1820 e 1830).
 
Antigamente, as Nicolinas eram, constantemente referenciadas como uma festa de máscaras ou mesmo como uma mascarada, como podemos ver nas seguintes notícias:
 
Na Revista Universal Lisbonense, publicação que tinha António Feliciano de Castilho como redactor, publicou-se, em 1843, a seguinte nota:
 
"Máscara Histórica – A festa de S. Nicolau em Guimarães é popular e antiga na terra. Este ano foi ainda mais luzida do que nos precedentes. A dança dos mascarados, principalmente, esteve muito para ver: entre outras figuras apareceu nela uma representando um egresso a pedir esmola aos ricaços, que herdaram todos os seus bens, estando ele ainda vivo! O pensamento foi aplaudido geralmente."
 

No jornal O Vimaranense, de 12 de Dezembro de 1865, encontrámos a seguinte notícia, referente à "clássica mascarada dos estudantes" de Guimarães:
 
"Máscaras escolásticas. – Teve lugar terça e quarta-feira da semana passada a clássica mascarada dos estudantes desta cidade, como festejo ao seu padroeiro S. Nicolau.
 
O tempo chuvoso não deixou que a mocidade estudiosa desse maior espantação aos seus divertimentos, saindo o bando na véspera, como é de costume, e percorrendo as ruas na manhã do dia 6 uma cavalgata, acompanhada de música, entregando às damas o mimoso foro das maçãs.
 
Na tarde deste dia saíram algumas exibições e duas danças a carácter, que entretiveram o público.
 
Todos os festejos correram pacíficos."

A máscara, que permite a ocultação das identidades pessoais e sociais, tornando-se num símbolo da desarrumação temporária da ordem estabelecida, é um dos elementos mais marcantes do Carnaval (entendido em sentido lato, não se restringindo ao curto período entre o Domingo Gordo e o início da Quaresma). Com o riso, ela está presente nas Nicolinas. Não temos grandes dúvidas: as festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau enquadram-se no conjunto das festividades cíclicas de carácter carnavalesco que já aconteciam durante a Idade Média e o Renascimento, em associação com celebrações de carácter sagrado que tinham lugar em diferentes alturas do ano. A leitura da obra Bakhtine, erudito marxista da longínqua Rússia, é fundamental para a compreensão das tão vimaranenses Nicolinas.

Partilhar:

22 de novembro de 2010

Das Nicolinas (3)

Caixa usada nas festas Nicolinas por Leandro Vale. Foto obtida aqui.


[continua daqui]


A antiguidade do Pinheiro
 
A referência mais antiga, das que até hoje encontrei, ao pinheiro como o mastro onde era erguida a bandeira dos estudantes remete-nos para o ano de 1842 e aparece no diário do cónego Pereira Lopes, de que conhecemos as transcrições anotadas por João Lopes de Faria nas suas Efemérides Vimaranenses. Naquele ano, aconteceu um dos acidentes mortais resultantes da queda do pinheiro de que há notícia. Debaixo do mastro, que estava a ser erguido "conforme o costume", ficaria, sem vida, uma criança de Trás-o-Muro (actual Alameda de S. Dâmaso). Este não seria o único incidente das festas daquele ano, como se percebe pelos apontamentos de Pereira Lopes:


29 de Novembro de 1842: "Pelas 8 horas da noite, indo os Estudantes desta vila a içar a Bandeira na Praça do Toural (era um pinheiro muito grande) conforme o costume, por haverem de principiar no dia seguinte as Novenas de N. Sra. da Conceição, caiu o Pinheiro e matou logo um rapaz, enteado de um pedreiro Gago de Trás-o-Muro, o qual tinha 10 anos, pouco mais, ou menos, e o qual estava vendo levantar a Bandeira. Logo que houve este infeliz acontecimento, retiraram-se todos os Estudantes e mais circunstâncias, levando consigo a dor e a consternação, e cessando desde então todos os sinais de regozijo que costuma haver em tais ocasiões, ficando na Praça só o cadáver da infeliz vítima para ser levantado pela Justiça no dia seguinte". P. L. NB o rapaz era aprendiz de alfaiate, chamava-se António da Silva Guimarães, o seu padrasto era o Leite, pedreiro e gago, e era irmão do José Leite da Cruz, que foi alfaiate no Pita e criado no Lixa da Porta da Vila.


30 de Novembro de 1842: "Depois de ter sido levantado pela justiça o cadáver do infeliz rapaz, que tinha sido vítima na Praça do Toural na noite antecedente, foi conduzido para S. Domingos para aí ser vestido e para ser dado à sepultura na tarde deste mesmo dia como os Estudantes haviam destinado, sendo pelas 3 horas da tarde acompanhado pela Irmandade de S. Nicolau e muitos padres, indo a pegar ao caixão 4 irmãos de S. Nicolau. O seu cadáver foi conduzido para a igreja dos Capuchos aonde foi depositado e sepultado, tendo um responso de música. O acompanhamento foi grande, e o povo que concorreu este acto foi imenso, e ainda seria maior senão fosse a muita chuva. Toda a despesa foi feita à custa dos Estudantes." P. L.


6 de Dezembro de 1842: "Saíram mascarados o Maneta (era Manuel de Matos Costa), da rua de Coiros, e o Abade, filho do Joaquim Peixoto, não sendo considerados já como Estudantes, por cujo motivo, foram uns poucos de Estudantes, dos mais taludos que andavam em uma exibição, em procura deles, e encontrando-se na Praça da Senhora da Oliveira, a querendo-lhe tirar as mascaras, puxou por um punhal o Maneta para eles, de que lhe resultou o darem uma tosa, tirando-lhe a mascara, e sendo informado o administrador do concelho deste acontecimento, mandou prender por duas escoltas de infantaria nº 14 os Máscaras Estudantes, que tinham maltratado o tal Maneta, as quais escoltas tendo chegado a Santa Clara onde estavam os Estudantes, o Povo entrou a dizer = fora a tropa = e vendo os soldados que não tinham partido contra o Povo deixaram fugir os Estudantes. Por causa desta desordem andaram a rondar escoltas do 14, e polícia, e o administrador e todos os seus empregados. À noite saíram os Estudantes com cavalhadas, recitando quadras, sendo este ano o primeiro que saíram com este divertimento" P.L.

Partilhar:

21 de novembro de 2010

Contributo para a compreensão do espírito do lugar



Estando a preparar uma comunicação para um colóquio sobre a implantação da República em Guimarães, deparei-me no jornal O Comércio de Guimarães com um texto de 1911 em que, a propósito das comemorações do VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, se dá uma expressiva contribuição para a compreensão do modo generoso como os vimaranenses, esquecendo as suas diferenças, se envolvem nas grandes causas colectivas que dizem respeito à sua cidade. Um texto que pode contribuir para uma reflexão urgente que se impõe no contexto da preparação da Capital Europeia da Cultura. Aqui fica:




O Centenário de D. Afonso Henriques


Consola ver este movimento duma cidade inteira que se prepara para prestar uma homenagem condigna ao seu filho mais ilustre!


Desde a primeira corporação administrativa, que e, como se sabe, a câmara municipal, até ao mais humilde dos cidadãos, ninguém se recusa a colaborar nas festas grandiosas com que vamos solenizar o VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques.


Nem podia deixar de ser assim.


Os filhos de Guimarães tiveram sempre por timbre honrar as glórias da sua terra.


Podem separar-nos as convicções políticas ou as crenças religiosas; podem isolar-nos as dissensões pessoais; mas, quando se trata do progresso da terra querida em que nascemos, quando se procura glorificar os heróis que dão brilho à nossa história, não há liberais nem reaccionários, não há cristãos nem judeus, não há amigos nem inimigos — há vimaranenses: todos por um e um por todos.


É por isso que as festas em honra de Sarmento revestiram o brilhantismo que as tornou notáveis; é por isso que as festas gualterianas se tornaram famosas a ponto de serem julgadas as primeiras do país; é por isso que o centenário do nascimento de D. Afonso Henriques há-de ser digno do Herói que se comemora e da cidade que o realiza.


Uma terra que assim se manifesta, zelosa das suas glórias, briosa nos seus empreendimentos, fidalga no rigoroso cumprimento do programa das suas festas, há-de progredir e impor-se ao respeito e consideração de todos.


Feliz a terra em que todos os seus filhos colaboram em tudo o que possa engrandecê-la!


X.



(O Comércio de Guimarães, de 28 de Julho de 1911)


As festas em honra de Sarmento que aqui são referidas são as da homenagem  da cidade a Francisco Martins Sarmento realizada em 1900, no ano seguinte à morte do descobridor da Citânia de Briteiros. As comemoração do VIII centenário viriam a constituir também uma notável manifestação cívica.
Partilhar:

Das Nicolinas (2)



  
Do mastro ao Pinheiro


As fontes até agora conhecidas são omissas quanto à origem de alguns dos actuais números das festas dos estudantes de Guimarães, nomeadamente quanto àquele que nos tempos que correm mobiliza mais participantes, tendo adquirido uma dimensão que, para muitos, quase o torna sinónimo de Nicolinas: o Pinheiro.

A primeira menção ao acto com que se abrem as festas a S. Nicolau que encontrámos, data de 1822. No dia 28 desse ano, foi publicada uma ordem do intendente-geral da polícia, apregoada publicamente através de um bando, através da qual se interditavam as máscaras no dia de S. Nicolau. Não obstante, houve alguns estudantes que infringiram aquela disposição policial, saindo mascarados à rua no dia 6 de Dezembro.


Os estudantes recorreram para o rei da ordem do intendente, através de uma representação (petição), que o rei acolheria, através de uma portaria de 12 de Dezembro, em que autorizava os estudantes a mascararem-se. A notícia desta decisão foi celebrada em Guimarães no dia 18, tendo os estudantes erguido a sua bandeira no Toural, com acompanhamento de foguetes e repiques de sinos. A vila iluminou-se, como costumava acontecer nos dias festivos e recitaram-se versos. Nessa noite, organizou-se uma encamisada (folia de mascarados) de estudantes, com grande acompanhamento de povo, onde não faltaram os vivas a D. João VI.


Ou seja: na mais antiga referência ao pinheiro (mastro ou bandeira) dos estudantes, que até agora conseguimos encontrar, o seu levantamento aconteceu, não no dia 29 de Novembro, mas a 18 de Dezembro.


Partilhar:

20 de novembro de 2010

Das Nicolinas (1)


Quem era estudante?

Todos os anos é assim: com o aproximar das Nicolinas, ressurge a discussão sobre as festas. Nos últimos anos, a conversa tem sido alimentada, também, pela discussão à volta da candidatura à integração das festas dos estudantes de Guimarães na lista do património imaterial da UNESCO. Por vezes, pelo discurso que corre, perpassa a ideia de que as Nicolinas devem ser classificadas porque são uma tradição que persiste, quase imutável, desde tempos imemoriais, quando a verdade é que, se as Nicolinas se têm mantido vivas, é exactamente porque souberam mudar, adaptando-se aos tempos que vão correndo. Para percebermos esse processo dialéctico de transformação que fez das festas aquilo que elas são hoje, basta olhar um pouco para o passado, nomeadamente para um tempo em que ainda nem sequer tinha sido inventada a designação Nicolinas (que só surgiria no início do século XX, pela pena de João de Meira).

Recuemos, por exemplo, até ao longínquo 23 de Novembro de 1837, data em que 39 estudantes de Guimarães aprovaram os estatutos da "Associação Escolástica Vimaranense", onde estavam contidas as regalias de que gozava o estudante.

 
Note-se que esta Associação tinha como fim "promover a continuação, aumento e luzimento dos festejos do dia 6 de Dezembro, e pugnar por todos os foros e regalias que os Estudantes desta Vila desfrutam, desde tempo imemorial". Como se depreende facilmente, por essa altura as festas a S. Nicolau resumiam-se a um único dia, o dia do santo, não comportando um programa com um elenco mais ou menos alargados de "números" espalhados ao longo de vários dias.

Nos estatutos indicava-se quem podia ter a condição de estudante e gozar do foro escolástico e também quais as situações que implicam a perda de tal condição:

Art. 2.° – São estudantes:
§ 1.° – Os que frequentam qualquer aula pública de latim, filosofia, retórica, ou qualquer outra ciência.
§ 2.° – Os que frequentam as mesmas faculdades com Mestres particulares, fazendo certa a sua frequência por atestado do mesmo Mestre.

Art. 3.° – Gozam do foro escolástico:
§ 1.º – Todos os eclesiásticos desta Vila.
§ 2.° – Todos os indivíduos nela residentes, que tendo frequentado as aulas da Universidade, não estão compreendidos nas excepções do art. 4.°.
§ 3.° – Todos aqueles que, suposto actualmente não frequentam, contudo igualmente não estão no caso das exclusões do art. 4.°.

Art. 4.° – Perde o foro escolástico:
§ 1.° – O que contrai matrimónio.
§ 2.° – Os que assentarem praça nos corpos da 1.ª linha.
§ 3.° – Os que abraçarem a profissão do comércio.
§ 4.° – Os que servirem qualquer profissão mecânica.
§ 5.° – Os que servirem qualquer cargo público, civil ou militar.
§ 6.° – Os que deixarem os estudos, sem que tenham seis meses de frequência.

Ou seja, o foro escolástico não era privilégio apenas dos estudantes no activo, mas sim de todos os homens solteiros que algum dia estudaram e que não estavam abrangidos pelas situações que implicavam a perda dessa condição, enunciadas no art.º 4.º do dos estatutos. A realidade de hoje é bem diferente.


Partilhar:

19 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (7)



Em 1935, o campeonato distrital foi ganho pelo Sporting de Braga, o qual, no dia 10 de Novembro, derrotou o Vitória, no campo dos Peões, por concludente 5-0.

Na sua edição de 9 de Dezembro, o Notícias de Guimarães dava a notícia do termo da competição (contra as previsões, na última jornada o Vitória empatara com o Sporting de Fafe, entregando o título ao Braga, evitando-se a realização de um jogo de desempate):

Final do campeonato distrital

Com o desafio ontem realizado, terminou o campeonato de futebol do distrito. O Sporting de Braga conquistou, mais uma vez, o título máximo e o Vitória o segundo lugar. Felicitamos os dois grupos pelos lugares alcançados.

Contra toda a expectativa não foi necessário novo jogo entre o Vitória e o Sporting, pelo empate conseguido em Fafe pelo grupo vimaranense. Perdeu-se assim uma oportunidade excelente, para ajuizar do valor competente das duas equipes, que em campo neutro, fora dos ambientes normais de cada meio, longe de gramofones, foguetões, piadas, insultos, etc., dariam todo o rendimento possível, dentro do valor e classe de cada um. Foi pena!

Sobre o empate de Fafe, grossa celeuma se levantou no meio desportivo da cidade. A alguns jogadores foi assacada a causa do resultado. Do inquérito feito, foi severamente admoestado um jogador, que esquecido das circunstâncias que a situação de profissional acarreta, se desobrigou do cumprimento dos seus deveres, como assalariado, pois não levara uma vida que salvaguardasse conveniente o seu organismo — elemento natural do seu ofício — não dando assim convenientemente cabal rendimento.
Como o profissionalismo é estúpido!...
 
Mas os adeptos do Braga não perderiam a oportunidade para um gesto de sarcasmo para com os vencidos, inaugurando uma tradição de "cerimónia do adeus", recorrente no deve e haver da história da rivalidade. Segundo João Lopes de Faria, no dia 10 daquele Dezembro, "os de Braga mandaram ao grupo de cá um caixão de defunto com um mono dentro".

Partilhar:

18 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (6)


Numa efeméride de João Lopes de Faria referente ao dia 26 de Novembro de 1934 encontrámos um registo curto e esclarecedor. Diz, simplesmente: "tapona dada em Braga aos de Guimarães".

No Comércio de Guimarães do dia 27 daquele mês, encontrámos a notícia do que terá sucedido:

Lamentável!...

Tendo ido a Braga, ontem, os estimados jogadores do Vitória sns. António Gonçalves (Laureta), e Lameiras, acompanhados do director do Club vimaranense o snr. António Ferreira de Castro, com o fim de formalizarem um protesto pendente, foram ali enxovalhados e fortemente vaiados, tendo de refugiar-se e pedir o auxílio da força pública, para poderem regressar a Guimarães.

O "chaufeur" que os tinha ali conduzido, também não escapou à sanha dos agressores, regressando muito mal tratado e com o carro muito avariado.

O adiantado da hora não permite que nos alonguemos em considerações.

No entanto, protestamos contra a correspondência de Braga inserta hoje no "Primeiro de Janeiro".

Em Guimarães, que nós o saibamos, nada houve do que ali vem narrado.

Se desmandos houve, o que condenamos com veemência, não foi na cidade.

Aqui, alguns adeptos do futebol, manifestavam com calor e correcção o seu entusiasmo, e outra parte da povoação entregava-se à sua vida normal, nem mesmo se apercebendo do que se passava. A população de Guimarães, não!

Haja bairrismo, mas haja coerência e diga-se a verdade!

[continua]
Partilhar:

17 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (5)



A descrição mais completa do jogo entre o Vitória e o Braga, realizado no campo dos Peões, na cidade dos arcebispos, em Junho de 1932, foi publicada pelo jornal Notícias de Guimarães, na sua edição de 26 daquele mês.

Crónica Desportiva

O "Vitória", desta cidade, vence o "Sporting" de Braga por 1 bola contra 0 — Poucos escrúpulos em jornalismo. (…)
A ida do grupo local "Vitória Sport Club" a Braga despertara a curiosidade dos desportistas das duas cidades. Um grande interesse nascera, e de esperar era que o encontro fosse tecnicamente perfeito, desportivamente cortês e humanamente amigável.
Preparadas as linhas, marcado o encontro para o dia 12, lá fomos de abalada à capital do Distrito, desejosos e antegozando já um bom desafio de Foot-ball, cheios de serenidade e de esperança.
Às 17 h. e 4 m. demos entrada no campo dos Peões, justamente quando o "Vitória" fazia a sua quando o "Vitória" fazia a sua aparição, logo seguido pelo «Sporting» de Braga. A arbitragem é confiada ao snr. Hilário Fernandes, da Associação de Braga. Escolhidos os campos, coube a saída ao "Vitória" de Guimarães que desde logo revelou a sua superioridade, em jogo rápido e preciso, com avançadas admiráveis e passes sóbrios e conscienciosos. Duas defesas do guarda-redes vimaranense e outros tantos esboços de cargas.
As defesas e meia-defesas bracarenses trabalham incessantemente, sob a ameaça constante da linha avançada do "Vitória".
Rui, avançado-centro do "Sporting", tenta duas fugidas que resultam infrutíferas. Aos 8 minutos, os vimaranenses desenham uma avançada e por um passe de Chico, Constantino Lameiras fura as redes do "Sporting" com uma bola inaparável. Grande ovação da assistência vimaranense e bola ao centro. Sai Braga que imediatamente perde a bola, e o domínio do team vimaranense faz-se ressentir, obrigando os adversários a colocar-se na defesa e no seu próprio terreno. Há uma leve reacção, a meia-ponta bracarense avança, intervém o Paredes do "Vitória" e uma pedrada jogada da assistência o fere na cabeça, não sem que o snr, Hilário Fernandes tivesse fechado os olhos a dois penaltys descarada e parcialissimamente. Grande confusão, manifestações da parte da assistência vimaranense, o "Vitória» abandona o campo e chovem bengaladas e ameaças sobre os jogadores vimaranenses. Intervém a força pública, e aos 17 minutos de jogo foi dado por findo o desafio. Feridos: o half-esquerdo Mário e o defesa Paredes.
Não podemos culpar a cidade de Braga pelo desacato feito aos jogadores vimaranenses.

A verdade, porém, manda que protestemos energicamente contra esta atitude nada desportiva e que apontemos o pouco escrúpulo de certos jornalistas que se deixam arrastar por partidarismos, usando e abusando da mentira dum modo deveras insolente.

Referimo-nos ao cronista do "Diário do Minho". E lamentamos profundamente que aquele diário da vizinha cidade dê crédito a informações nada verdadeiras e que consinta dentro das suas portas uma nulidade desportiva a comentar desporto.
Pobre jornalista! Ridículo mentiroso! Completo farsante!
Onde se viu o insulto da assistência vimaranense aos jogadores do "Sporting" uma vez que estes entraram em campo?
Como provar que a pedra arremessada contra Paredes era dirigida a um jogador bracarense?
(Notícias de Guimarães, n.º 25, de 26 de Junho de 1932)

Nas suas extraordinárias "Efemérides Vimaranenses", João Lopes de Faria registou, para o dia 12 de Junho de 1932, o seguinte apontamento:

"O Club Futebolista "O Vitória" foi jogar, em desafio, a Braga, com o "Sporting", e ganhou. Ao cair da tarde regressaram a Guimarães, vinham vários feridos que recolheram ao hospital. A assistência bracarense vendo a superioridade do grupo Vitória, agrediu-os. Os jogadores também foram vítimas de um desastre de automóvel, e que feriu alguns com certa gravidade. Houve manifestações à chegada. Braga passou neste dia um bem triste atestado do seu civismo e educação. Quando os nossos rapazes, nos 20 minutos de jogo, marcaram o seu 2º goal, anulado pelo árbitro, principiou uma desordenada gritaria, arremessando-se pedras sobre os jogadores, no manifesto intuito de os inutilizar, conseguindo molestar fortemente alguns, após o que o árbitro deu por findo o encontro com vitória para Guimarães. Foi simplesmente vergonhoso o que se passou no campo de jogos em Braga."
 

Como se vê, a secular animosidade entre Braga e Guimarães desde cedo contaminou o fenómeno desportivo. As acesas discussões dos últimos dias apenas acrescentam um novo episódio a uma história muito velha.
Partilhar:

16 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (4)

No bissemanário O Comércio de Guimarães de dia 17 de Junho de 1932, volta-se a falar dos incidentes o jogo Vitória-Braga do dia 12 desse mês, a propósito de notícias saídas na imprensa de Braga, onde se dizia que as agressões a que foram sujeitos os jogadores vimaranenses resultariam de actos de auto-flagelação…

Ainda o "Vitória" em Braga

Nos meios desportistas vimaranenses têm continuado os comentários acres à maneira insólita como no domingo transacto foram tratados em Braga os nossos futebolistas.

Revoltaram-nos os comentários feitor par alguma imprensa bracarense, que chegou a insinuar que as pedradas foram atiradas pelos próprios vimaranenses!... Tenho assistido a alguns desaires sofridos pelo grupo local, e nunca vi que fossem incorrectos nem malcriados. Muito menos o seriam, na ocasião em que estavam senhores do campo e vencedores.

Que procurem atenuar o mau efeito produzido, tolera-se; mas que se ofenda, deturpando, não e não!

Como já dissemos, não assistimos ao desafio, mas por informações que reputamos fidedignas, e por conhecermos a correcção dos nossos jogadores, não duvidamos em afirmar que eles, ganhando ou perdendo, saberão sempre ocupar, com dignidade e brio, o seu lugar!

(Texto de Francisco Formiga, na secção "Guimarães Desportivo", em O Comércio de Guimarães, n.º 4577, de 17 de Junho de 1932).

[continua]
Partilhar:

15 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (3)



Na terça-feira a seguir ao amistoso de 12 de Junho de 1932, disputado entre o Vitória e o Braga, o Comércio de Guimarães, na sua secção Guimarães Desportivo, fazia, pela pena de Francisco Formiga, o relato do jogo e dos acontecimentos que despoletou. Aquele derby minhoto não durou mais do que 20 minutos.

FOOT BALL

A vitória alcançada em Braga pelo Vitória desta cidade, sobre o valoroso grupo Sporting C. de Braga Campeão distrital, foi a vitória que mais entusiasmo causou por parte dos desportistas locais, em virtude dos bracarenses se encontrarem reforçados com valiosos elementos, especialmente com o lisboeta Rui Araújo, bem conhecido e apreciado desportista.

Infelizmente por falta de lugar, não pudemos acompanhar o Club local a Braga, motivo porque não podemos minuciosamente noticiar todas as fases do jogo.

Podemos no entanto dizer, pelos informes que colhemos, que as violências feitas sobre os nossos jogadores, para encobrir a derrota que esperava o grupo adversário, foram o melhor cartão e o melhor reclame que os bracarenses lhes podiam passar!

O "Vitória", com uma formação acertada (aquela que nós aqui já há muito tínhamos apontado,) conseguiu, dentro em 20 minutos, a vitória, com uma esplêndida exibição, que, segundo nos disseram, se o encontro fosse até final, o score a favor de Guimarães seria muito elevado!

Braga, a capital do Minho, passou no domingo um bem triste atestado do seu civismo e educação.

Quando os nossos rapazes, nos 20 minutos de jogo, marcaram o seu 2.° goal, anulado pelo árbitro, principiou uma desordenada gritaria, arremessando-se pedras sobre os jogadores, no manifesto intuito de os inutilizar, conseguindo molestar fortemente alguns, após o que o arbitro deu por findo o encontro com vitória para Guimarães.

Foi simplesmente vergonhoso o que se passou no domingo, no campo de jogos em Braga.

Lembramos à Comissão Administrativa do Vitória, para que de futuro, quando da deslocação do grupo a qualquer cidade ou vila, forneça passagem na camionete aos representantes da imprensa, para que estes possam, com precisão, informar os seus leitores.

Em todas as terras a imprensa tem lugar marcado junto aos jogadores.

Só assim poderemos, com justiça, bem informar.
  
(Texto de Francisco Formiga, na secção "Guimarães Desportivo", em O Comércio de Guimarães, n.º 4576, de 14 de Junho de 1932)

Partilhar:

14 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (2)




O jogo, supostamente amigável, entre o Vitória de Guimarães e o Sporting de Braga, realizado em Braga no dia 12 de Junho de 1932 seria marcado por diversos incidentes. As primeiras notícias seriam dadas no dia seguinte, pelo jornal Notícias de Guimarães, que começara a publicar-se no início daquele ano. Aí, o jornalista trazia à memória os acontecimentos de 28 de Novembro de 1884, que se resultaram em enxovalhos e agressões aos procuradores de Guimarães à Junta Distrital de Braga:

Foot-Ball

No Campo dos Peões, em Braga, com uma assistência numerosíssima, realizou-se ontem um sensacional encontro entre o "Vitória Sport Club", desta cidade e o "Sporting", daquela.

A hora tardia a que o mesmo acabou não nos permite fazer uma notícia larga.

Diremos todavia que o grupo vimaranense foi forçado a abandonar o campo antes do final do desafio, em virtude da pouca correcção dos bracarenses, que chegaram a agredir, em pleno campo, os nossos jogadores. Se bem que o facto nos não causasse admiração atendendo a que já na mesma cidade os nossos ilustres e saudosos conterrâneos snrs: Conde de Margaride, José Martins Minotes e Dr. Joaquim Meira, foram também vítimas dum ódio mesquinho, lamentamo-lo sinceramente.

(Notícias de Guimarães, n.º 23, de 13 de Junho de 1932)

Partilhar:

13 de novembro de 2010

Futebol e vizinhança – a rivalidade Guimarães-Braga dentro e fora de campo (1)


Perde-se no tempo a origem da rivalidade entre Guimarães e Braga. Já existia antes de haver futebol, mas ganhou novas cores assim que este desporto começou a arrastar multidões. Desde sempre, os confrontos de pontapé na bola entre o Vitória de Guimarães e o Sporting de Braga envolveram incidentes, mais ou menos graves, onde não faltam actos de violência física. Aquele que se ia realizar no dia 12 de Junho de 1932, pela sua natureza amigável, parecia escapar a esta lógica de confrontação. No jornal O Comércio de Guimarães, fez-se a antevisão:

O Vitória vai Jogar a Braga

No próximo domingo o grupo de honra do Vitória S. C. desloca-se à cidade de Braga, a fim de jogar com o "team" de honra do Sporting de Braga, em desafio amigável.
 
Segundo nos consta, os dois grupos vão jogar na sua máxima força. Os bracarenses parece que alinham sem o internacional Rui Araújo. Nós, como amigos íntimos do grupo local, acompanhá-lo-emos à cidade dos arcebispos, para informar os nossos leitores do que se passar no campo bracarense.
 
Segundo nos consta, o grupo local alinhará: Ricóca, Manecas e Martinho; Paredes, Mário e Cunha; Rita, Neca Machado, Constantino, Chico e Labita.

A linha é regular, embora a linha de médios fracassasse um pouco com a saída de Constantino; contudo este elemento na linha dianteira dará bom resultado, pois tem dois interiores rápidos e bem conhecedores do lugar.
Nos médios, a falta de Secandido é manifesta; se este elemento pudesse alinhar, Paredes passaria para o outro lado e ficaria uma linha mais completa.
 
Esperemos no entanto pela decisão dos selecionadores do grupo, pois é provável que a linha sofra novas modificações.
 
Como amigos íntimos do grupo, fazemos votos que as suas cores regressem a Guimarães, com a alegria de uma vitória, justa e merecida.

(Texto de Francisco Formiga, na secção "Guimarães Desportivo", em O Comércio de Guimarães, n.º 4575, de 10 de Junho de 1932).


Porém, ao contrário do que era suposto, este jogo seria tudo, menos amigável...
Partilhar:

6 de novembro de 2010

Sinais



Ao lermos comentários como o que vai aí abaixo, temos que nos perguntar: não haverá, entre os responsáveis políticos, quem saiba interpretar os sinais que andam no ar e perceber que é a imagem de Guimarães que está a ser posta em crise?


Questões de capital

Depois da polémica dos cartazes promocionais, que faziam passar a ideia - apelativa, mas pateta - de que o sucesso do evento dependia de roubar turistas ao Algarve, a Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura (CEC) voltou às bocas do mundo, por más razões. A revelação de que os vencimentos dos salários dos três administradores executivos da Fundação Cidade de Guimarães (FCG), criada para organizar o evento, variam entre os 14.300 e os 12.500 euros mensais, e de que os membros do conselho geral da instituição recebem entre 500 e 300 euros por reunião, provocou um coro de críticas. Um coro no qual foi bem perceptível a participação do Ministério da Cultura, que, pela voz da própria Gabriela Canavilhas, considerou aqueles salários "inaceitáveis". Juntou-se a notícia de que a Câmara de Guimarães pagou 30 mil euros - num ajuste directo que o bom senso desaconselharia - pela elaboração de uns estatutos para a FCG que são criticados no conselho geral, por preverem que a fundação se eternize, sobrevivendo ao evento que lhe deu a razão de ser, e por darem estreita margem de intervenção (e responsabilização) à câmara e ao Ministério da Cultura. Por último, ouvimos esta semana o presidente da Câmara de Guimarães acusar a ministra da Cultura de ver o projecto da CEC como um "enteado".

Dir-se-ia que é um preâmbulo pouco auspicioso para a Guimarães 2012, que deve ser um momento de afirmação e promoção da cultura nacional, que deixe sementes. Mas ainda há tempo para corrigir boa parte dos erros cometidos. Aos responsáveis autárquicos e governamentais exige-se responsabilidade e que superem divergências. Da reunião já pedida pela câmara à comissão de vencimentos da FCG, espera-se que saia uma redução corajosa das despesas com pessoal. 1,3 milhões de euros anuais em salários, que diabo, é de facto chocante, atendendo a que não estamos propriamente a falar de uma Autoeuropa. É dar argumentos àqueles que, por ignorância, demagogia ou por ambas, acreditam e fazem passar a ideia de que a Cultura é uma gamela. E vencimentos superiores a dez mil euros, pagos pelo erário público, ofendem o comum dos cidadãos. Nem é tanto por estarmos em crise, é por se perceber que também foi assim que chegamos a ela. O presidente da Câmara de Guimarães já disse que os salários na FCG são semelhantes aos praticados noutros organismos do género. Nós acreditamos, mas isso é que assusta.

Comentário de Álvaro Vieira, no Público de hoje

Assobiar para o lado não é remédio, quando o que está em causa é o prestígio de Guimarães e a sua imagem, francamente positiva, projectada ao longo de muitas décadas. Esse património colectivo tem que ser acautelado. É urgente resolver o que houver a resolver. Corrigir o que houver a corrigir, minimizando os danos. E depois, que o processo retome o seu curso natural, como aquilo que sempre foi, antes de tudo o mais: um grande desígnio de Guimarães e dos vimaranenses.

Partilhar:

5 de novembro de 2010

Não há só nuvens

Guimarães é terra com uma história muito rica, no que toca à cultura. Não será uma nuvem passageira que irá destruir um património colectivo construído ao longo de muitas décadas pelos cidadãos e pelas instituições de Guimarães. Havia vida antes da CEC, haverá vida depois da CEC. Não faltará vida durante a CEC.

E, mesmo nestes dias estranhos que correm, também há boas notícias. Como esta:


Toque na imagem e veja o vídeo da Guimarães TV para perceber como vai ficar o Toural depois das obras.
Partilhar:

4 de novembro de 2010

Guimarães, ponte sem rio…


O etnógrafo e historiador Alberto Vieira Braga fornece-nos a interpretação para um dos mais conhecidos ditados, e respectivas variantes, relativos a Guimarães:

1. Em Guimarães - Ponte sem rio. Sé sem Bispo, Palácio sem Rei e Roma sem Papa.1

Há quem acrescente a este dizer, mas não tão usualmente: e gente sem lei. 2
Ou também:

2. Em Guimarães - Sé sem Bispo, Ponte sem rio, Palácio sem Rei e Relação sem Desembargadores. 3

1 Ponte sem rio — a ponte de Santa Luzia; Sé sem bispo — a Colegiada da Oliveira, a que o povo, dantes, chamava Sé; Palácio sem rei — em alusão aos Paços dos Duques de Bragança; Roma sem papa – lugar assim chamado, que fica para os lados da estrada de Fafe.

2 Gente sem lei – talvez pelos muitos privilégios e liberdades concedidos a Guimarães, sendo uma terra que muitíssimas garantias usufruiu.

3 Portugal Antigo e Moderno, de Pinho Leal, vol. 3.0, pág. 355. Relação sem desembargadores - será porque dantes, aos baixos da Câmara, lhes chamassem relação?

……………………………………..
- Deixei pois a estalagem,
Por não haver pilhagem:
Vim a Guimarães logo
Para dar à minha ânsia desafogo;
Chego à ponte sem rio,
E indo-me estou agora por um fio.
(Guimaraens Agradecido, tomo II, pág. 373)

(Alberto Vieira Braga, "Guimarães no costado dos seus títulos de honra, na graça dos poetas e nas ditangas do povo". Ethnos, vol. VIII, Lisboa, 1948, pp. 100 e 105-106)
Partilhar: