28 de novembro de 2010

Das Nicolinas (4)


[continua daqui]
 

Para a interpretação das Nicolinas

Já há muito que o linguista russo Mikhaïl Bakhtine, ao analisar a obra de François Rabelais, avançou como uma teoria acerca da cultura popular centrada nos conceitos de carnaval e carnavalização, lançando a ideia de que o Carnaval não se reduziria ao ciclo que antecede a quarta-feira de cinzas, manifestando-se em outras épocas festivas posicionadas em diferentes momentos do calendário. A obra de Bakhtine é, ainda hoje, uma obra de referência nos estudos de história da cultura popular, dando-nos uma interessante grelha de análise para as festas nicolinas que são, do meu ponto de vista, um conjunto de manifestações de carácter eminentemente carnavalesco. Nas Nicolinas encontramos diversos elementos do mundo às avessas que caracteriza o Carnaval, entre eles o riso e a máscara.
 
O riso sempre esteve presente nas festas a S. Nicolau, especialmente naquele que era o momento mais alto, as danças que os estudantes oferecem ao povo de Guimarães, que, tendo outrora a rua como palco, acabariam por se confinar ao espaço fechado de uma sala de espectáculos. Já a máscara era uma das principais marcas das festas, estando na origem de diversas proibições e conflitos dos estudantes com as autoridades, nomeadamente nos tempos mais conturbados da instauração do liberalismo em Portugal (décadas de 1820 e 1830).
 
Antigamente, as Nicolinas eram, constantemente referenciadas como uma festa de máscaras ou mesmo como uma mascarada, como podemos ver nas seguintes notícias:
 
Na Revista Universal Lisbonense, publicação que tinha António Feliciano de Castilho como redactor, publicou-se, em 1843, a seguinte nota:
 
"Máscara Histórica – A festa de S. Nicolau em Guimarães é popular e antiga na terra. Este ano foi ainda mais luzida do que nos precedentes. A dança dos mascarados, principalmente, esteve muito para ver: entre outras figuras apareceu nela uma representando um egresso a pedir esmola aos ricaços, que herdaram todos os seus bens, estando ele ainda vivo! O pensamento foi aplaudido geralmente."
 

No jornal O Vimaranense, de 12 de Dezembro de 1865, encontrámos a seguinte notícia, referente à "clássica mascarada dos estudantes" de Guimarães:
 
"Máscaras escolásticas. – Teve lugar terça e quarta-feira da semana passada a clássica mascarada dos estudantes desta cidade, como festejo ao seu padroeiro S. Nicolau.
 
O tempo chuvoso não deixou que a mocidade estudiosa desse maior espantação aos seus divertimentos, saindo o bando na véspera, como é de costume, e percorrendo as ruas na manhã do dia 6 uma cavalgata, acompanhada de música, entregando às damas o mimoso foro das maçãs.
 
Na tarde deste dia saíram algumas exibições e duas danças a carácter, que entretiveram o público.
 
Todos os festejos correram pacíficos."

A máscara, que permite a ocultação das identidades pessoais e sociais, tornando-se num símbolo da desarrumação temporária da ordem estabelecida, é um dos elementos mais marcantes do Carnaval (entendido em sentido lato, não se restringindo ao curto período entre o Domingo Gordo e o início da Quaresma). Com o riso, ela está presente nas Nicolinas. Não temos grandes dúvidas: as festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau enquadram-se no conjunto das festividades cíclicas de carácter carnavalesco que já aconteciam durante a Idade Média e o Renascimento, em associação com celebrações de carácter sagrado que tinham lugar em diferentes alturas do ano. A leitura da obra Bakhtine, erudito marxista da longínqua Rússia, é fundamental para a compreensão das tão vimaranenses Nicolinas.

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