28 de outubro de 2007

Imagens: O Terreiro da Misericórdia

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O Terreiro da Misericórdia. Gravura publicada no "Archivo Pittoresco", 6.º ano (1863), pág. 345.


"Está situado este terreiro, presentemente, no coração da cidade, próximo da grande praça do Toural. Outrora era contíguo às muralhas e à porta chamada da Vila, que desapareceu há muito, deixando o nome ao lugar que ocupava, que é a boca de uma das ruas por onde se entra na dita praça do Toural.

Começando-se a edificação da igreja da Misericórdia no ano de 1585, na rua Sapateira, que vai da praça Maior, onde se ergue a antiquíssima igreja da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, até à porta da Vila, resolveram os irmãos daquela santa confraria fazer um largo em frente do templo que andavam construindo. Compraram, pois, várias moradas casas com seus quintais, e obtiveram outras, como esmolas, dos seus proprietários, para tão santo e caridoso instituto. Foi no terreno dessas casas e quintais que se fez o terreiro da Misericórdia.

O templo teve por principal fundador a Pedro de Oliveira, natural de Guimarães; porém a confraria já existia muito anteriormente ao começo desta obra, e congregava-se no claustro da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, na capela de S. Brás, que ficou com o nome de Misericórdia Velha.

Não é notável a igreja por belezas arquitectónicas ou riquezas de ornatos. Exteriormente é um dos muitos edifícios de pesadas formas e desengraçados ornamentos, que a arquitectura clássica, ou do renascimento, levantou em o nosso país. Interiormente o que tem de melhor, artisticamente falando, é a obra de talha doirada que lhe guarnece as suas capelas. Tem junto a si o hospital dos expostos.

Ao sair da igreja dão os olhos de frente no formoso painel que a nossa gravura representa. E um lindo e pitoresco apinhoado de edificações de diferente género, e de variados tipos de arquitectura, coroadas, ou divididas e orladas de arvoredo.

No pavimento do terreiro vê-se, do lado direito, uma fonte e uma capela, ou paço do Senhor Jesus; e no fundo um palácio de bom prospecto, propriedade e morada do sr. Manuel Coelho da Mota Prego. Esta casa, edificada ou reconstruída no século passado, não chegou a concluir-se. Devia crescer sobre o pátio onde tem o portão de entrada, e rematar em uma torre igual à que lhe forma o ângulo oposto.

Na parte mais alta da gravura avultam dois grandes monumentos da antiguidade: o castelo da condessa D. Mumadona, onde tiveram a sua corte o conde D. Henrique de Borgonha, e sua mulher a rainha D. Teresa, e onde nasceu o nosso primeiro rei; e o palácio dos duques de Bragança. Já tratámos destes monumentos em outro lugar. A fachada do palácio, que a estampa representa, é a única das suas quatro frontarias que se conserva toda de pé com telhado. Esta parte do edifício serve de quartel ao Batalhão ou destacamento que costuma estacionar em Guimarães. Para este fim tem tido diversas reparações e reconstruções parciais, em que lhe alteraram alguma coisa as suas feições primitivas."

[I. de Vilhena Barbosa, in Archivo Pittoresco, 6.º ano (1863), págs. 345-346]

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27 de outubro de 2007

Memórias: o Toural no início do séc. XX

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Exercícios dos bombeiros, no Largo do Toural, durante as Festas da cidade de 1908.
Fotografias do Estereoscópio Português, disponibilizadas por Belmiro P. Oliveira.


A publicação de memórias é uma prática, infelizmente, sem grandes tradições em Guimarães, apesar de toda a nossa riqueza historiográfica. Uma excelente excepção que confirma a regra é a obra Guimarães na última quadra do romantismo , 1898-1918, que reúne textos escritos na década de 1950 e inicialmente publcadas no jornal Notícias de Guimarães, nas quais o Coronel António de Quadros Flores nos deixou a descrição do Toural que aqui se transcreve:

"O Largo do Toural daquele tempo pareceria agora mais acanhado; contudo o aspecto era de muito maior amplidão.

Bastava para isso o recinto fechado e gradeado, as árvores de grande porte e sobretudo o trânsito e movimento serem muito mais reduzidos, para que o conjunto sobressaísse como um dos mais amplos recintos da, cidade, o que no entanto não correspondia à verdade.

Havia o Largo de S. Francisco e o do Campo da Feira, que ainda são mais amplos, mas o seu enquadramento é que lhe dava foros de praça principal de Guimarães.

Não falando nas duas características fachadas, que o bom senso tem conseguido conservar, com pequenos abortos pouco visíveis, era de facto uma espécie de sala de, visitas onde se reunia a melhor sociedade de Guimarães.

Ali se concentrava a actividade comercial, e também se via à tarde o que havia de representativo, desde a aristocracia, funcionalismo civil, militar e eclesiástico, até aos representantes da nascente grande indústria vimaranense, tendo como núcleo bem destacado o socalco da Casa Havaneza, do Bernardino dos Tabacos e depois do José Pinheiro, ao lado do Pereira dos “Rascantes”.

Naquele Largo, que já absorvia quase todas as actividades comerciais da cidade, que dantes tinham como eixo a rua da Rainha, havia negócio de tudo e sempre, activo e frequentado, já com aspecto modernizado para o tempo.

Logo na entrada, na esquina de Santo António, o botequim do Fernandes, depois crismado de “Café da Porta da Vila”, e único existente no Largo.

Nele se reuniam certos figurões do foro e profissões adjacentes à Justiça, o professorado do Liceu, representado pelo cónego José Maria, que convivia mais com o público, procuradores como o Jerónimo de Castro e outras pessoas que se entretinham no jogo do dominó.

Na sobreloja parece que de longe a longe se armava uma banca de “monte”, mais frequentada nas Gualterianas, nestas com jogo grosso desde o tostão às duas “c'roas” em pleno, cavalos e cruzes, que era o máximo de parada na roleta, sem ainda terem aparecido as “fichas”, que tudo ali era em metal sonante, vendo-se até as libras de ouro.

Na outra esquina o “Hig-Life” do Gonçalves, que era cunhado do Padre Roriz, com estabelecimento de modas e chapéus, no tempo em que toda a senhora não saía de casa sem chapéu, a seguir o velho Ferra, Pai do Almério, depois o Sousa, Júnior no característico edifício do topo Norte, cujos baixos eram ocupados pela loja de mercearia e armazém, onde tirocinou o Francisco Costa, e fazia esquina para a rua de Paio Galvão a loja dos “Caixeiros”, com retalhos, chitas, cotins, morins e rendas.

Começava a outra face, a do lado de S. Pedro, pela loja do Vinagreiro que, depois de ter sido “café”, foi cedida para o Banco Nacional Ultramarino, e a casa do “Louceiro” ficavam no desvão antes da do notário João de Oliveira, que já tinha pertencido, com a do Vargas, ao fidalgo da Toural, num edifício condizente com a arquitectura do Largo e a prosápia do velho fidalgo perdulário, cujos últimos descendentes acabaram na miséria, um aqui corno cartorário da Misericórdia, e outro em Vizela vivendo duma magra pensão do que se lhe pôde salvar do passado fausto.

Já havia a loja do “Leque” do sr. Benjamim de Matos e a do Machado, onde hoje está o meu cunhado Paulino de Magalhães.

Além da Basílica só recordo a da esquina para as Lajes a do sr. Virgem dos Santos, o simpático “Parrameco”, onde, nela ,e em todas as mais lojas de negócio, quando ainda não havia horário de trabalho, se ia pelas oito da noite fazer as compras, hora esta em que havia mais freguesia nas lojas.

Depois era o topo Sul do Largo como está agora com o gradeamento para as Lajes, e só me recordo dos estabelecimentos dos srs. Barreira Freitas, o “Chafarica”, Pai do Pedro de Freitas, herdeiro directo do nome, que está agora na rua de Santo António.

Na esquina a casa e estabelecimento do “Luisinho das Máquinas”, homem alto, louro, tipo inglês, que cedia sempre a casa, a mais alta da cidade, para as demonstrações festivas dos Bombeiros.

Aquilo era um espectáculo muito apreciado e a que concorria quase toda a população, de noite à luz de um farol adquirido pelos Bombeiros, alimentado de petróleo e que lançava uma longa chama avermelhada, e parece-me que ainda estou á ver um bombeiro a dar à bomba de pressão do combustível para manter a iluminação. Os apitos – ti-tá, tá-tá-ti – do Comandante Simão Costa a ordenar o assalto ao alto edifício, os bombeiros a correr com as escadas dobradas, a desdobrá-las, a lançar os ganchos, a cavalgar a varanda a receber novas escadas, até atingirem o alto com a mangueira empunhada.

A “Magirus” a crescer para o alto pelas manivelas manuais, a grande, manga de salvação içada por uma espia o “salvamento” dos garotos que se prestavam a fingir de sinistrados, uns pela: manga, outros suspensos por cordas.

Depois as mangueiras a esguicharem a água das bombas, movidas pelas alavancas enormes a que pegavam dois bombeiros de cada lado, e alimentadas com água transportada em sacos de lona com que os assistentes faziam uma bicha desde o lago do Jardim.

A continência final e as estridentes manifestações da assistência perante a “retirada”, executada por alguns bombeiros com o “salto mortal” lá do último andar.

Nesse tempo não havia automóveis e poucas coisas eram mecanizadas, só os caminhos-de-ferro e os teares das fábricas de tecidos, de modo que os Bombeiros exerciam a sua acção com o esforço directo do seu corpo numa luta arriscada e heróica com que se distinguiram em vários incêndios, como o da rua de Santa Maria, na casa pegada ao palacete do Barão de Pombeiro, e depois no da drogaria da Porta da Vila, em que conquistaram a glória, verdadeira glória de salvar o semelhante, a mais alta condecoração – a da Torre e Espada.

Do seu quartel à rua de Paio Galvão, onde hoje estão os armazéns da Casa Pimenta Machado, saíam aqueles beneméritos e abnegados homens que voluntariamente se dedicaram à salvação pública.

Por isso eram, como o foram sempre e continuam a ser Venerados, estimados e acarinhados por todos os vimaranenses.

Estas eram as três faces do Largo do Toural, que se prolongava como uma alameda até ao fundo do campo de S. Francisco, a Feira do Pão, onde estava solitária e desamparada a estátua de D. Afonso Henriques.

No Jardim a Banda do 20, à uma hora da tarde, no Inverno, começava o seu concerto com a assistência da boa sociedade que tinha saído da missa do meio-dia, em S. Francisco."

[in Coronel António de Quadros Flores, Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XVIII, págs. 56-58]


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Imagens: Colegiada da Oliveira

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A Colegiada. Gravura publicada no "Archivo Pittoresco", 4.º ano (1861), pág. 353.

"Este santuário é sem dúvida o mais célebre do nosso país. Pelo menos nenhum outro reúne tantas condições de celebridade. Origem antiquíssima; uma lenda maravilhosa; uma santa imagem, cujos milagres foram apregoados por muitas gerações; honrada memória do fundador da monarquia; gloriosos padrões de um dos maiores feitos dos nossos antepassados, e de uma das mais notáveis épocas da história de Portugal – tais são essas condições."

[I. de Vilhena Barbosa, in Archivo Pittoresco, 4.º ano (1861), pág. 353]

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25 de outubro de 2007

Imagens de Guimarães: O Toural


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O Toural. Gravura publicada no "Archivo Pittoresco", 7.º ano (1864), pág. 217.

"Até ao período do século XVIII […] as casas desta praça eram quase todas de alpendrada sobre colunas de pedra, ao uso antigo. Nos fins, porém, desse mesmo século, e no começo do seguinte, que é a época de maior prosperidade de Guimarães, pelo grande desenvolvimento da sua indústria fabril e do seu comércio de exportação para o Brasil, procedeu-se à construção de prédios, que deram à praça do Toural um novo e mais grandioso aspecto.
Foi demolido até aos alicerces todo o lanço de muros da cerca de D. Dinis e em seu lugar se edificaram dois quarteirões, compostos de diferentes propriedades, mas sob um risco uniforme, e de arquitectura regular, relativa a cada quarteirão, com lojas, sobrelojas, e mais dois andares no quarteirão maior, e três no mais pequeno, correndo-lhes pela frente um largo passeio lajeado.
Onde estava a torre de S. Domingos, ao norte, construiu-se outro prédio, parecido com estes, e nesse mesmo lado se edificaram outros ao diante. A porta da Vila e a porta Nova, também denominada postigo de Sampaio, desapareceram, deixando franca passagem a duas ruas que entram na praça. A primeira daquelas ruas, que conduz ao terreiro da Misericórdia, e à rua Sapateira, e praça de Nossa Senhora da Oliveira, conserva o nome de porta da Vila.
Os outros lados da praça não apresentam regularidade de construções; todavia foram-se reformando as velhas casas de alpendrada, e contam alguns edifícios de boa aparência.
A praça do Toural é bastantemente vasta. Não sabemos a medida da sua extensão, mas parece-nos, se não nos falha a memória, que não será muito inferior á da nossa praça de D. Pedro, sendo também pouco menos larga do que esta.
Levanta-se o cruzeiro quase na extremidade do norte. Assenta a cruz sobre uma esbelta e alta coluna de ordem coríntia, se bem nos lembramos, cuja base está colocada em um patim, de onde descem para a praça cinco degraus. No pedestal em que repousa a haste da cruz lê-se a seguinte inscrição: Esta obra mandou fazer o juiz e irmandade de Nossa Senhora do Rosário no ano de 1650.
Corresponde ao cruzeiro, no lado oposto da praça, o chafariz, que é de forma tão elegante e delicada, que podia servir de adorno no meio de qualquer jardim. Cai a água de duas taças para um tanque cercado de assentos. As taças, e as mui delgadas colunas que as sustentam e separam, são cobertas de lavores, que, apesar de esculpidos no granito, produzem belo efeito. Sobre a taça superior serve de remate ao chafariz uma esfera de bronze dourado, coroando dois escudos igualmente de bronze, colocados um contra o outro, nos quais se vêem pintadas as armas reais em um deles, e uma águia coroada no outro.
A nossa gravura, copiada de uma fotografia, representa esta parte da praça, em que avulta o chafariz.
À esquerda vêem-se os dois quarteirões de que acima falámos. A estampa mostra dois prédios do maior, e parte do mais pequeno. As lojas nestes quarteirões são ocupadas quase todas por mercadores de panos de lã e de sedas. É aqui, nas lojas, e no passeio de lajedo que corre junto delas, que se reúnem diariamente os tafuis e passeantes, para matarem as horas de ócio, conversando e inquirindo novidades. É o Chiado de Guimarães.
Outrora, quando o comércio dos linhos, das cutelarias e dos curtumes de coiros espalhava profusamente entre o povo de Guimarães riqueza e alegria, faziam-se a miúdo pomposas festas na praça do Toural. Aproveitavam-se todas as solenidades e quaisquer pretextos de regozijo público para se fazerem danças populares com esquisitas invenções de vestuário, cavalhadas, fogo de vistas, e outras diversões, cujo aparato era realçado pela grandeza da praça, pela multidão dos espectadores."
[I. de Vilhena Barbosa, in Archivo Pittoresco, 7.º ano (1864), pág. 217-218]

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24 de outubro de 2007

23 de outubro de 2007

Imagens: Igreja dos Santos Passos

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Igreja da Nossa Senhora da Consolação (Santos Passos de Guimarães). Gravura publicada no "Archivo Pittoresco", 7.º ano (1864), pág. 93. Note-se que a igreja ainda não tinha as duas torres. Outro pormenor interessante prende-se com a ponte que, em frente à igreja, permitia atravessar sobre a Ribeira de Santa Catarina (daí para a frente, passava a chamar-se Rio de Couros).
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20 de outubro de 2007

Sobre o Chafariz do Toural

Chafariz do Toural (detalhe) | Fotografia de Eduardo Brito

Francisco Craesbeeck, nas suas Memórias, deixou-nos uma curiosa notícia sobre o processo de construção do Chafariz do Toural (actualmente no jardim do largo Martins Sarmento) , cuja taça central veio de Gonça, puxada por trinta juntas de bois:

Nesta freguesia [S. Sebastião] fica o grande campo de Toural, que, pela parte do Nascente, é todo guarnecido do muro da vila, e do poente, de casas nobres; nele se fazem todos os festejos que na vila há, assim pela sua grandeza, como pelo sítio para tudo acomodado. No princípio dele, da parte do Norte, está um grande cruzeiro, muito levantado, muito bem pintado, e fronteiro a ele, para a parte do Sul, a fim do dito campo, um grande chafariz, com muitas bicas e vários assentos à roda, onde a Nobreza vai recrear-se no Verão, todas as tardes; foi feito o dito chafariz no ano de 1588 e fê-lo Gonçalo Lopes, imaginário, que morava na rua da Caldeira, e veio a taça do meio da Gonça, trouxeram-na 30 juntas de bois, veio pelo Miradouro, que rodeou de Gonça ao Miradouro, por ser o caminho mais chão; e vinham cortando matos e derrubando casas, para a dita taça vir a seu gosto do imaginário; e à custa de el-Rei se tornaram a levantar as ditas casas, porque para este chafariz deu el-Rei quarenta mil réis na imposição, cada ano, até se fazer. Eram Vereadores neste ano: Bento de Azevedo e Valentim de Macedo; e Procurador do Concelho, Gaspar Moreira, da rua de Gatos. E assim o deixou em lembrança, nas suas memórias, feitas no ano de 1605, António de Figueiredo Lagarto. Em mesmo ano, se mudou o pelourinho da Praça, aonde estava, para perto desta fonte, defronte da alfândega, onde agora está; e se pintaram as armas de sobre o cano da praça e se fez a Senhora que está sobre o dito cano. Fizemos memória do sobredito, para ficar perpétua e se não perderem as notícias das cousas antigas, que para isso só há o meio da escritura, que é memorial de lembrança.

(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726)

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18 de outubro de 2007

Da "cerca velha" de Guimarães


Um dos enigmas da história urbana de Guimarães prende-se com a localização do limite Sul da antiga cerca de Guimarães, que rodeava o antigo burgo do Castelo, que tem sido colocado, conjecturalmente, no sopé do Monte Latito. O historiador Alfredo Guimarães terá concluído que este muro atravessava desde a Porta da Freiria, do lado nascente, até à Porta da Senhora da Graça, ou de Santa Luzia, a Poente. Porém, parece cada vez mais certo que a cerca velha teria como limite, a sul, uma linha de muralha situada entre a Porta da Freiria e a Porta de Santo António ou da Garrida, que se situava sensivelmente em frente ao Paço dos Duques, para Poente. Nas Memórias de Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, podemos ler que era na Porta da Garrida “onde o muro novo se vem juntar com o velho”. Na mesma obra, quando dá notícia do cerco que Afonso VII montou a Afonso Henriques, que esteve na origem da tradição que tornou famoso Egas Moniz, Craesbeeck refere que uma parede do Paço dos Duques foi erguida por cima do “lanço do muro, que cercava a cerca velha”, o que parece ir de encontro à ideia de que o velho burgo do Castelo teria uma área bem menor do que aquela que geralmente se lhe tem atribuído e que o seu limite passaria no local onde hoje está a parede do palácio voltada a Sul:

É de advertir que a cerca, em que o dito Infante foi cercado por el-Rei de Castela, vinha serrar onde hoje estão os Passos, e quando el-Rei D. Dinis mandou fazer a cerca nova, que vai continuando com a cerca velha, devia ficar o lanço do muro, que cercava a cerca velha; e, sendo os Duques de Bragança Donatários da Coroa, tiraram o dito muro, e na parede donde ele estava, fizeram os Paços, que estão na terra de el-Rei, que os ditos Duques, por virtude da doação, que tinham da Coroa, fundaram na terra, que traziam dela; e como foi a dita doação conforme a Lei Mental, falecendo depois o Senhor Duarte sem filhos, ao qual as ditas terras vieram por sucessão, tornaram à Coroa onde estão.
(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726)
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Tombo de 1612: a Praça de S. Tiago

A Igreja de S. Tiago, desenho de Carlos Van Zeller (1835)

No inventário de 1612, o adro antigo da igreja de S. Tiago passou a integrar o inventário dos bens municipais, assumindo a função de rossio da vila, para servir à praça do peixe. O rossio (que era chão da Igreja de S. Tiago, que tinha o Mestre-Escola da Colegiada de Guimarães como abade) incluiria as boticas do peixe, que pagavam foro à Igreja, e a própria Igreja, com o seu alpendre. Passando para o “uso do povo”, não poderia ser fechado, nem nele se poderiam continuar a “enterrar defuntos como dantes se fazia para que assim fique mais livre”.

Segundo a medição que então foi feita, a praça, com a configuração de um polígono irregular com quatro lados, ocuparia um espaço menor do que o actual: do lado Sul, de Nascente a Poente, media 22 metros e, do lado Norte, tinha uma frente mais extensa, com mais de 37 metros; da banda do Poente tinha um comprimento de quase 19 metros, enquanto que a frente voltada a nascente atingia os 33 metros. A igreja de S. Tiago ficava no interior destes limites.

O rossio era, na sua maior parte, ocupado pela praça do peixe. Na praça havia várias bancas para venda de peixe, ficando uma delas “defronte da porta travessa da igreja de S. Tiago junto ao pilar dos arcos dos açougues".

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17 de outubro de 2007

Se quem te deu te vira, não te dera.

Nas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, de Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, que exerceu o ofício de Corregedor em Guimarães, transcreve o que escrevera André Afonso Peixoto sobre a visita que o Infante D. Luís, filho de D. Manuel I, fez a Guimarães, em Agosto de 1548:

Entre as memórias antigas, que achámos, pertencentes a esta freguesia, escritas por André Afonso Peixoto, é que o Infante D. Luís, filho de el-Rei D. Manuel, viera a esta vila, de volta de Santiago de Galiza, a uma terça-feira, véspera de N. Senhora de Agosto, do ano de 1548, sendo nela Juízes: Manuel Rebelo, genro de Lopo Rodrigues, e Pedro Peixoto; e Vereadores: Rui Vieira, Lançarote Rodrigues das Maranhas, Francisco de Freitas e Gonçalo da Rocha; e Procurador do Concelho, Cristóvão Fernandes; e que a vila lhe fizera muita festa, e o fora esperar ao Miradouro, com uma mourisca de 300 meninos e João de Évora, seu Mestre, com eles por Rei; e a S. Lázaro lhe saíra uma dança de moças muito bem parecidas e concertadas, que dançavam muito bem, de que ele muito gostou; e estas lhe cantavam que o seguinte:


Meninas de Alfama,

não vades ao chafariz;

bem sabeis as tretas

do Infante D. Luís.


E, com muitas folias e festas, foi levado a N. Senhora da Oliveira, entre as oito e as nove da manhã; e se apeou à porta da igreja, aonde o Prior e Cabido o estavam esperando com um pálio, que os mesmos capitulares levavam; e assim foi até à capela-mor, aonde lhe disseram missa, que todos lhe beijaram a mão e deram as boas vindas; e daí foi levado à casa, que estava prestes para se agasalhar, que era de António de Mesquita, do Córrego, que fora de João Figueiroa, na rua de Santa Maria, com as mesmas festas. Ao outro dia, lhe correram touros na praça, que foi a de N. Senhora, que ele foi ver da Câmara só da janela do meio (que esta nunca se abria, senão quando a ela ia algum Rei ou Príncipe, Infante, ou Senhor tão grande como estes; e este costume se guardou até que el-Rei Filipe I entrou em Portugal, que em seu tempo se começou de profanar, e abrir a todos; e assim foi derrubada, no ano de 1600, sendo vereadores Manuel de Moura Coutinho, João de Sousa Alcoforado e André Afonso Peixoto e Procurador Sebastião Borges, do Toural); e porque um touro matou um homem, ele não quis, que mais se corressem; e teve disso grande desgosto, e mandou vir cavalos em que montou com os seus e os mais da vila, e foi ver o mosteiro da Costa, donde logo voltou para os Paços do Duque, aonde estavam afamados lutadores no terreiro esperando para o festejarem com muitas folias e danças, o que ele gostou de ver, e muito particularmente a luta, que o fizeram com toda a bizarria; e fez muitas mercês aos lutadores. Ficou na sala grande dos Paços, aonde ceou, e nela tinha jantado, aquele mesmo dia, aonde todos os homens fidalgos e honrados da vila lhe mandaram seus presentes, que muito agradeceu; e depois de cear, se pôs em uma janela e olhando para a vila (que então era do Infante D. Duarte, seu irmão, que lhe dera em dote o Duque D. Teodósio, que dela era Senhor com a Infanta D. Isabel, sua irmã), disse o dito Infante para todos as seguintes palavras:

- Se quem te deu te vira, não te dera.

(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726)

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Ainda as árvores do Toural

Na discussão que tem vindo a lume acerca do projecto de renovação do Toural, o debate tem-se centrado num detalhe (as árvores), em vez de dissecar a substância (o parque de estacionamento e o atravessamento subterrâneos). Qualquer decisão de retirar as árvores terá sempre volta, se se acabar por constatar que foi um erro. Bastará plantar outras, tal como já antes se fez, em diferentes ocasiões, como facilmente se verifica observando as fotografias que aqui temos publicado. Já quanto ao esventramento da praça, o retorno à situação anterior não será assim tão simples.

Na edição de hoje do Jornal de Notícias, fala-se desta controvérsia, citando nomeadamente o que aqui já foi escrito, onde há uma passagem cuja rectificação se impõe: ao contrário do que dissemos, o abaixo-assinado que os moradores dirigiram à Câmara Municipal em 27 de Fevereiro de 1929, pedindo que as árvores do Toural fossem removidas (por razões estéticas) produziu o resultado esperado e as árvores foram mesmo ceifadas. Em meados de Abril desse ano, já só sobravam duas palmeiras, cujo derrube foi pedido numa nota publicada no Comércio de Guimarães, que aqui se transcreve:


As palmeiras do Toural

Andando a proceder-se ao aformoseamento da Praça D. Afonso Henriques, seria bom que a Câmara mandasse dali retirar as duas palmeiras que, tendo escapado à ceifa que ali se fez ainda há pouco tempo, não ficam, ali, a nosso ver, nada bem.

(in Comércio de Guimarães, n.º 4259, 19.04.1929, pág. 4)

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15 de outubro de 2007

Das ruas e praças de Guimarães

Do nome e número das ruas que tem a Vila de Guimarães.

Para dar princípio às ruas de que é composta esta Vila de Guimarães dentro de seus muros, e ao nome de cada uma delas, farei da Praça Maior um tronco donde todas procedam, dando a cada uma seu nome, e às casas ilustres de seus habitadores.

É a primeira a Rua de Santa Maria que, saindo desta praça para Norte, prende seu curso na rua da Infesta, a qual, tomando-lhe a dianteira, vai parar na Vila Velha Araduca, e liberalmente oferece por ali passagem aos passageiros pela Porta de Santa Bárbara; também desta rua da Infesta sai outra a que chamam do Sabugal, e tem sua serventia pela porta que antigamente chamaram da Freiria, e hoje se chama de Santa Cruz, a qual corresponde ao Nascente.

A Rua dos Açoutados, que tem seu nome de estes por ali passarem, sai da Praça Maior para Norte, e a breve espaço perde o nome, e se chama dos Pasteleiros, de que é habitada. Caminha para Poente, e faz seu descanso na Praça do Peixe, em que está a igreja de S. Tiago. É esta Praça muito habitada de gente, especialmente dos peixeiros, que ali de tempos antigos manejam seu tráfego. É cercada de casas ministeriais de pão e vinho, sendo primeira entre estas lojas a que antigamente foi casa de contos e hoje serve de castigo de malfeitores. Está contígua às casas da Câmara e Audiências, e a comunicação para a Praça Maior.

Desta Praça do Peixe sabem três ruas, a primeira a Rua dos Fornos, porque nela os haviam algum dia públicos, dos quais não só se aproveitavam os padeiros, mas toda a gente da vila. Para a parte de entre Norte a Nascente se encontra esta Rua dos Fornos com a Rua do Gado, e esta com a do Paço e, sendo todas místicas, se vão encontrar com a Rua da Infesta no distrito da Vila Araduca, fazendo saída pela porta da Garrida, hoje de Santo António, por ter sua imagem, e defronte o seu Mosteiro.

A segunda rua que sai da Praça do Peixe é a do Espírito Santo, que antigamente foi da Judiaria, aonde esteve o Gueto, e fazendo sua guarida para Poente, pára no terreiro da Misericórdia.

A terceira rua que sai da Praça do Peixe, é a rua Escura, por ter serventia para o Sul, e ali divide a Rua dos Mercadores da Sapateira.

Para continuar com as mais ruas, devo tornar à Praça Maior de donde sai a Rua dos Mercadores, de quem é habitada, e, caminhando entre Sul e Poente, no fim se encontra com a Rua Escura que a detém, tomando-lhe a dianteira a Sapateira, que sai pela Porta de S. Domingos.

Nesta Rua Sapateira se formou um terreiro chamado da Misericórdia, feito das casas, e quintais que os moradores deram de esmola, e outras que comprou esta irmandade, para que sua Igreja e hospital manifestem melhor sua grandeza. É o terreiro cercado todo de casas, e as que o formam da parte de Nascente lhe chamam Rua do Ferreiro. Da parte do sul é fechada pela igreja da santa irmandade, casa de despacho e hospital e, da parte do Poente é fechado com casas da rua das Flores e pela parte do norte pelas nobres casas que levantou o doutor Gaspar de Carvalho, moço fidalgo e chanceler-mor do Reino, casamenteiro, e testamenteiro de El-Rei D. João III, a quem o dito senhor deu a madeira de ébano com que são forradas.

Neste terreiro da Misericórdia está, para a parte do Norte, a cadeia da correição, e junto dela desemboca a rua do Espírito Santo, e dele sai, entre Norte e Poente, a rua de Val de Donas, que sai pelo lugar de Nossa Senhora da Graça, ou Santa Luzia, e tem para a parte de Nascente um rossio a que chamam do Mestre-Escola, todo povoado de casas, e comunica com a Rua dos Fornos.

A Rua do Postigo tem seu princípio na Praça Maior, pela parte da porta da Senhora da Graça tem a saída pelo Campo da Feira. Desta rua sai para o vendaval a Rua da Murta, e encontrando-se com a rua de Alcobaça fazem ambas saída pela porta da Torre Velha. No meio desta rua, para Norte, corre a Rua das Donas até desembocar na dos Mercadores. Também dá serventia esta rua para um rossio a que chamam do Forno, por nele estar o forno da Vila, ou público, em que são os padeiros obrigados a cozer o pão, e este todo cercado de casas e dá serventia para outro a que chamam da Tulha.

Há de muros adentro desta Vila outro terreiro a que chamam de São Paio, aonde está a Igreja paroquial deste santo, é bem povoado de casas e dele procedem quatro ruas. A primeira é para a parte de Nascente a que chamam a Ferraria, que desemboca no rossio da Tulha, que também é todo cercado de casas, aonde despede também a Rua dos Mercadores, e este rossio serve de passagem de uma para a outra. Na Rua da Ferraria procede outra a que chamam de Alcobaça que, atravessando para Sul, se junta com a Rua Nova do Muro, e saem ambas pela porta da Torre Velha para o vendaval e, na parte onde as ditas ruas se juntam, dá princípio para a parte do vendaval a muralha e, pela parte de dentro desta, vai a Rua do Anjo, que caminha até ao terreiro de São Paio, que a divide da que tem o nome dos Açougues, e tem serventia pela Porta Nova, que também se chama porta de São Paio.

Para entre Norte e Poente sai deste terreiro de São Paio a Rua da Arrochela, que recebeu o nome de Nicolau de Arrochela, francês que nela viveu, e desemboca no terreiro da Misericórdia e rua Sapateira.

No dito terreiro de São Paio, para Norte, corre a Rua Trás São Paio e de Trás Misericórdia, por parar nas suas paredes, as quais lhe dão saída para o seu terreiro por um passadiço debaixo de suas casas, o qual tem portas que se fecham de noite.

São estas as ruas que ficam dentro dos muros da vila, resta agora darmos notícia das de seus arrabaldes.

(in Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, cap. 87.)

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14 de outubro de 2007

Da Praça da Oliveira



Do lugar em que está plantada a milagrosa Oliveira de que a Senhora toma o título.

Ordinariamente, toda a povoação tem um lugar de recreio, e festejos de seus habitadores, a que vulgarmente chamam Praça. Muitas tem a vila de Guimarães, sendo a mais principal a que está defronte da porta principal da Igreja de Nossa Senhora, aonde está situado o Padrão da Senhora da Vitória, e defronte dele, no meio da dita praça, para o Poente, está plantada a milagrosa oliveira de que tomou o título a Mãe de Deus, a qual tem o tronco guardado por um pilar de pedra lavrado, para mostrar no resguardo e asseio a devoção dos moradores. Está o pilar cercado de assentos, aonde os cavaleiros da vila de contínuo se juntam e sentam para a conversação, e sucede algumas vezes que, neste fresco e agradável agasalho, esperam alguns os graciosos borrifos da madrugada, achando-o mais próprio a seu sono do que o calor de suas habitações. 

Da compostura da Praça da Oliveira.

A Praça do Padrão da Vitória em que está plantada a oliveira, é toda ladrilhada de pedra. e por ser o sítio em que se fundou o novo Burgo, como dissemos, lhe chamaram Praça Maior, que com igual grandeza fazem majestosa a Povoação. É esta Praça vistosa pela assistência do Padrão da Senhora, e agradável pelo sussurro das três bicas de água que correm no seu tanque, pela nobre torre dos sinos da Igreja Colegiada e pela ocorrência de gente que a ela vem. É fechada pelo nascente pela Igreja Colegiada, e dali a Poente pelas casas de seus vizinhos, todas com alpendradas sobre colunas de pedra. De Poente a Norte se adorna com a Casa da Câmara e Audiências que, estando sobre arcos de pedra, dão passagem para que desta praça possam passar à outra do peixe, aonde está situada a Igreja de S. Tiago, que foi antigamente Templo de Ceres, no qual o sagrado Apóstolo, derrubando os ídolos, colocou a imagem de Nossa Senhora, cuja imagem depois foi trasladada para o Mosteiro de Mumadona, que hoje é a Real Colegiada da Oliveira.
As Casa da Câmara e das Audiências estão místicas, e ambas fazem frente para a Praça Maior, com uma galeria de janelas com grades de ferro de encosto pintadas e douradas. São ambas coroadas de ameias, e no alto de suas paredes têm o escudo das Armas de Portugal iluminado. Seria a Praça mais majestosa se fossem mais liberais em lhe dar maior terreno.
(in Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, caps. 85 e 86.) 




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13 de outubro de 2007

Tombo de 1612: a Casa da Câmara


Pentescostes: quadro de António Vaz que pertenceu à capela da Casa da Câmara de Guimarães.
Em finais de 1611, o rei mandou a Câmara fazer o inventário dos bens que lhe pertenciam, que andariam “alheados e divididos”. Encarregou-se da tarefa o Licenciado João Nogueira. O resultado desse inventário é o Tombo de 1612, um documento particularmente interessante, como iremos ver aqui nos próximos tempos.
Começaremos por observar as descrições as instalações do governo municipal, que se repartiam por dois edifícios situados no ângulo norte/poente da Praça Maior: a Casa da Câmara e o Paço do Concelho.
A Casa da Câmara era a sede das reuniões da vereação. Estava virada para Sul, confrontando com a Oliveira. Do lado nascente fazia frente com a rua dos Açoutados e do poente com os Paços do Concelho. Do lado voltado a norte, tinha como limite umas casas pertencentes a uma peixeira, Maria Pereira. Era um edifício em cantaria, assente sobre “dois ou três” arcos de pedra. Tinha três janelas voltadas para a praça, uma delas grande, rasgada ao centro, com peitoril, sendo encimada pelas armas reais, uma janela para poente e outra para nascente. Tinha duas portas: uma para poente, certamente situada ao nível do piso superior, por onde se acedia à casa do Paço do Concelho, e outra voltada para a Praça Maior, “com o seu recebimento coberto com seus peitoris e uma escada larga”. A Casa da Câmara tinha, do lado do nascente, uma capela com duas portas, onde se dizia missas “da festa do Espírito Santo” nos dias da vereação (quartas-feiras e sábados). O edifício era de dimensões bastante reduzidas, ocupando uma área que não chegaria a cinquenta metros quadrados), com uma frente voltada à Oliveira com uma fachada de cerca de oito metros, com uma profundidade de quase seis metros.
Por baixo da Casa da Câmara havia um coberto em que vendiam “couves e hortaliça e outras coisas”. Para o lado do norte, eram também propriedade municipal duas boticas (lojas) e um par de bancos.
A casa do Paço do Concelho era o local onde se faziam as audiências públicas. As suas dimensões eram um pouco maiores: cerca de dez metros de largura na fachada voltada para a Oliveira e quase nove de profundidade no sentido norte-sul (com uma área de aproximadamente 90 metros quadrados). Tinha duas janelas voltadas para a Praça da Oliveira e duas outras, pequenas, “a modo de frestas”, voltadas para Norte, onde confinava com “a praça do peixe e rossio da Igreja de Santiago”. Do lado do poente, estava encostada à casa Leonor de Maçoulas, viúva do Licenciado Gaspar Lopes. Tinha uma única divisão, uma sala dividida a meio por umas grades. Do lado virado a norte, achava-se uma “mesa em alto em que se sentam os julgadores a fazer audiência”. Ao centro, uma mesa onde se sentavam os oficiais de justiça. Os que iam assistir às audiências ficavam do outro lado das grades, na metade da sala voltada para a Praça da Oliveira. Deveriam ser para eles os “assentos de pau com seus encostos lavrados” que estavam dispostos ao redor das paredes. Como não há indicação de portas, parece seguro que o acesso se faria através da Casa da Câmara e da respectiva escadaria.
Sob a casa das audiências, ocupando uma área de quase noventa metros quadrados, tinha o alcaide-mor “alguns bancos”, que traria concessionados.
Por baixo da casa de Leonor de Maçoulas, já referida, ficava a casa dos açougues públicos de Guimarães, e nela se encontravam “alguns talhos em que se corta a carne e tem suas grades de pau para a banda do norte”. No seu interior, estavam duas cadeiras de estado (de espaldares elevados, também conhecidas por estadelas), em madeira, nas quais se sentavam os almotacés (oficiais municipais encarregados da vigilância dos pesos e medidas e dos preços a que eram vendidos os géneros), para repartirem a carne. As pessoas que iam por carne, ficavam da parte de fora das grades, do lado do norte, recolhidas em cobertos aí existentes. Esta casa, dentro e fora das grades, ocupava uma área de cerca de oitenta metros quadrados, dando, a norte, com o rossio da Igreja de São Tiago, a sul com a casa de Leonor de Maçoulas e a poente com casas pertencentes a um tal Francisco Gomes. Do seu lado nascente encontravam-se os cobertos da praça do pão.
As casas situadas na Praça da Oliveira entre as ruas dos Açoutados e de Santa Maria a Câmara possuía uns alpendres, dos quais, na altura do inventário, “existia somente o chão por arderem com as casas que se chamavam Alfândegas”. Estes cobertos tinham uma frente voltada para a praça com cerca de quinze metros de comprimento e um pouco mais de três metros de profundidade.
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Sobre a "Maria da Fonte"

Maqueta da Fonte-Monumento do Toural

No vídeo onde se mostra o projecto de intervenção para o Toural e a Alameda, a certa altura descreve-se o monumento que se encontra no centro da praça do Toural como uma “fonte que comemora o primeiro milenário da cidade de Guimarães e de que fazem parte um obelisco e uma estátua de Maria da Fonte”.

Pensando um pouco, deve resultar difícil de perceber o que fará uma estátua da figura que personificou a Revolução do Minho de 1846 num monumento onde se celebra o milenário da existência histórica de Guimarães e o centenário da sua elevação a cidade.

Eis como nasce um mito: o autor do monumento, o arquitecto vimaranense Sequeira Braga, quis introduzir na obra “uma nota amável”, uma estátua em bronze que simbolizasse “a vitória ou independência”. O trabalho foi encomendado ao escultor Eduardo Tavares e a figura da vitória ou independência saiu, naturalmente, sob a forma de uma mulher que se ergue para enfrentar o vento, bem distante da figura de camponesa com que geralmente se representa a revoltosa de Fonte Arcada.

Simplesmente, uma figura feminina numa fonte.

Algum dia, alguém lhe terá chamado, por graça, de Maria da Fonte.

Porém, quando se ouve, num registo sério, dizer que na fonte do Toural há “uma estátua de Maria da Fonte”, a graça deixa de ser graça, ganhando a consistência de verdade inquestionável.

Ver: Memória descritiva da fonte-monumento do Toural.

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12 de outubro de 2007

11 de outubro de 2007

A “marquise” do Toural

“Está pronto o esboço projecto de uma galeria na fachada nascente do Toural, destinada a conservar ao respectivo largo, pela supressão do jardim, a sua feição de ponto central da cidade, a dar realce à soberba frontaria que o embeleza, oferecendo assim aos vimaranenses um lugar de estacionamento apropriado e aos estranhos um aformoseamento impressionante, valorizando o local.

É seu autor o ilustre oficial e nosso amigo snr. Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães, que põe em relevo, no seu notável trabalho, a sua lucidíssima inteligência e os vastos recursos de que dispõe trabalhando com o seu hábil e primoroso lápis.

A marquise assenta em 16 colunas, e o efeito que produz no desenho, é realmente excelente, constituindo a sua realização uma bela obra para Guimarães, pelo que não devem descansar os entusiastas desse empreendimento, trabalhando desde já, para que não pereça esta iniciativa de tão bom gosto.

O autor do projecto orça essa obra em dois contos a dois contos e quinhentos mil réis, que achámos baratíssimo, e portanto de pequeníssimo dispêndio para os proprietários dos prédios.

Eis as bases principais da marquise:

Colunas de 3,8 m de altura, 0,34 m de diâmetro na base octogonais;

  • Altura máxima da cobertura, desde o peitoril das janelas, 2,11 m;
  • Largura da cobertura, 4,3 m;
  • Vão dos arcos, 6m;
  • Largura do passeio, 3,54 m;
  • Colunas e guarnições de ferro fundido;
  • Cobertura de vidro, pintada a azul celeste;
  • Passeio a mosaico ou a argamassa.

O snr. Capitão Pina mostra ainda no projecto a conveniência que havia em obedecer a uma só cor, a pintura dos prédios de todo o corrente, o que torna mais estético aquele grandioso prédio que é todo o nascente do Toural.

Está exposto num estabelecimento o projecto para que o público de Guimarães o aprecie.”

(in jornal A Alvorada, n.º 5, 1.º ano, 13 de Maio de 1911, pág. 3)

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À sombra do Toural

Uma das questões que têm sido colocadas, a propósito da proposta de arranjo do Toural, tal como está apresentada, prende-se com a previsível aridez da praça, de onde, com a retirada das árvores, desaparece boa parte dos abrigos à sombra. Esta é, inegavelmente, uma das questões centrais no debate em curso. E a discussão não é nova.

Tempo houve (pelo menos até meados do século XVIII) em que, não havendo ali árvores, a sombra era assegurada pelas alpendradas que circundavam a praça dos lados poente e norte. Em 1911, quando foi desmantelado o jardim fechado com grades que conhecemos das fotografias antigas, foram projectadas duas medidas para melhoramento da praça: a transferência da estátua de D. Afonso Henriques de S. Francisco para o Toural, que se concretizaria logo em seguida, e a construção de uma marquise ao longo da frente pombalina do lado voltado a nascente.

No dia 2 de Maio de 1911, o Comércio de Guimarães noticiou que estava concluído um “esboço-projecto de uma galeria fechada do nascente do Toural, destinado a conservar ao respectivo largo, pela supressão do jardim, a sua feição de ponto central da cidade, e a dar realce à soberba frontaria que o embeleza, oferecendo aos vimaranenses um lugar de estacionamento apropriado e aos estranhos um aformoseamento impressionante, valorizando o local". O projecto que era obra do Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães, teve como principal mentor Domingos José Pires, proprietário do Grande Hotel do Toural, e deveria ser custeado pelos proprietários dos prédios.

Esta ideia nunca chegou a ser concretizada. Mas, se calhar, faria sentido retomá-la nesta discussão, introduzindo a possibilidade de se criarem zonas de sombra, de passeio e de convívio que fizessem as vezes dos velhos alpendres.

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10 de outubro de 2007

Sobre as árvores do Toural


O Toural em 1923
No final de Fevereiro de 1929, trinta e quatro moradores do Toural, dirigiram um abaixo-assinado à Câmara Municipal de Guimarães em que solicitavam o corte ou remoção das árvores da Praça, por prejudicarem "a estética e natural beleza da praça". Aqui fica a transcrição do documento:
Ex.mo Snr.
Presidente da Comissão Administrativa
da Câmara Municipal de Guimarães
Os abaixo assinados, moradores na Praça D. Afonso Henriques, desta cidade, vêm solicitar da digníssima Comissão Administrativa, a que V. Exa. mui dignamente preside, a remoção ou corte das árvores que circundam a mesma Praça, visto que da péssima educação e irregularidade delas resulta uma má impressão e prejudica a estética e natural beleza da praça, que é digna de ser amplamente vista e admirada por todos, designadamente por quem visita esta cidade.
Ponderadas estas razões, esperam os signatários o deferimento.
Saúde e fraternidade.
Guimarães, 27 de Fevereiro de 1929
  • Gaspar Ribeiro da Silva Castro
  • Francisco Joaquim de Freitas
  • Francisco Pereira da Silva Quintas
  • Guilhermino Augusto Barreira
  • Damião Sousa Pinto
  • João Baptista de Sousa
  • J. Cardoso Guimarães
  • Benjamim Constante da Costa Matos
  • Armando Humberto Gonçalves
  • José Borges Teixeira de Barros
  • FranciscoMatos Chaves
  • Camilo Larangeiro dos Reis
  • João Garcia de Almeida Guimarães
  • Aureliano Jacinto de Sousa
  • José Fernandes Martins
  • Joaquim Larangeiro dos Reis
  • Eugénio Leite Bastos
  • José Pinheiro
  • Eduardo Pereira dos Santos
  • António Carvalho Bastos
  • Manuel Fernandes Braga
  • António Virgem dos Santos
  • Manuel Simões Sobral
  • Augusto Fernandes
  • Paulino de Magalhães
  • Alberto Gomes Alves
  • António de Almeida Cabral
  • António Ferra
  • Francisco José de Freitas
  • Pedro da Silva Freitas
  • António Lage Jordão
  • Antão Lencastre
  • João Baptista Leite de Sousa
  • Manuel José de Carvalho
O Toural em 1932
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7 de outubro de 2007

Sobre o projecto para o Toural

Dos cinco projectos para Guimarães que estão em discussão pública, o da intervenção no Toural e na Alameda (mais pelo Toural do que pela Alameda) é o que desperta maior interesse e debate apaixonado. O Toural é o coração da cidade (quando se fala no centro de Guimarães, é no Toural que se pensa) e as cirurgias do coração, pelas suas dimensões orgânica e simbólica, são aquelas que levantam maiores temores e desassossego nas gentes.

Ao que vou vendo na discussão em curso, duas questões têm concentrado maiores atenções:

– A intenção de remover as árvores do jardim.

– A ideia de criação de um parque de estacionamento subterrâneo.

Em relação à primeira, lembrarei que o Toural tem muitos séculos, mas só teve árvores durante pouco mais de cem anos, as quais, à medida que foram crescendo e alargando os seus troncos e copas, ajudaram a diminuir a percepção da grandiosidade daquele espaço. Sou da opinião de que as árvores do Toural estão a mais. Se forem removidas, voltando a tornar desafogada o que já foi amplo, a praça ganhará uma outra grandeza e dignidade. Aliás, os próprios moradores já assim pensavam em 1929, o que os levou a pedirem à Câmara, sem sucesso, que mandasse retirar as árvores.

Por mim, podem levá-las. Para a Alameda, por exemplo.

Já quanto ao parque de estacionamento, terão que aparecer melhores argumentos do que aqueles que já escutei, para me convencerem da sua necessidade.

Em Guimarães, vão persistindo tiques das terras pequenas. Ainda está bem enraizada a ideia de que a cidade é o Toural e de que tudo o que não fica no Toural fica longe da cidade. O curioso é que, quem assim sente, quando vai a outras cidades, se encontra um local para estacionar a 5 ou 10 minutos do local para onde se dirige, sente-se afortunado. Somos assim em qualquer sítio, menos em Guimarães porque, aqui, o carro tem sempre que ser levado até à porta. Para nós, duzentos metros são uma distância excessivamente longa para serem percorridos a pé.

A poucos minutos do Toural e do Centro Histórico, em percurso a pé, temos uma série de parques de estacionamento, que indico a eito, sem a preocupação de ser exaustivo: Mumadona, Hortas, Centro Comercial S. Francisco, Centro Cultural Vila Flor, Caldeiroa, Mercado novo, Rua de Santo António, Triângulo. Representam uma oferta superior à procura, até porque, na mesma área, há um parque, com excelentes condições, que está fechado por falta de utilizadores (o do Estádio). A somar aos já existentes, está previsto um novo parque para o subsolo do Mercado Velho, assim como um outro para o lugar para onde se prevê mudar a feira semanal (espaço que, ele próprio, poderá ser um parque de estacionamento de grande capacidade disponível todos os dias da semana, excepto no dia de feira).

Admito que existam estudos e argumentos que me venham a demonstrar que estou errado. Por enquanto, vou estando convencido de que, mais do que de um parque subterrâneo no Toural, precisámos é de passar a olhar para a dimensão da cidade com outros olhos.

Dito isto, direi que concordo com a ideia do projecto de intervenção à superfície de tornar a praça mais amistosa para os peões. E também concordo com o objectivo, expresso como fundamental, de assegurar “o reforço do carácter simbólico e identitário do Toural, enobrecendo o seu espaço físico”. Permito-me deixar algumas sugestões que podem contribuir para concretizar esse objectivo:

Seguindo um processo já utilizado na zona intramuros, poderá ser feita a marcação no solo de algumas referências à configuração histórica da praça, nomeadamente a indicação do percurso por onde passava a muralha e das respectivas torres (S. Domingos ou Senhora da Piedade e Alfândega), que se acrescentarão às inscrições alusivas às portas (Porta da Vila ou da Senhor da Piedade, Postigo de S. Paio ou Porta Nova), já existentes. Seria também de ponderar a indicação do local de implantação do primitivo convento de S. Domingos.

Poderá igualmente ser equacionada a recolocação do magnífico Chafariz do Toural, que tem todas as características para se tornar num ex-libris da cidade. A ideia deste retorno ao seu lugar de origem não é nova, tendo sido objecto, em Maio de 1939, de uma decisão nesse sentido, nunca concretizada, por proposta da célebre Comissão de Estética Municipal, constituída por A. Vieira Braga, Alfredo Guimarães, António de Azevedo, Luís de Pina e Arq. José António Sequeira Braga. (actualmente escondido entre as árvores do Jardim do Carmo).

Por último, parece-me que a intervenção a desenvolver deverá ponderar a relação entre o Toural e as Nicolinas (também elas estreitamente ligadas ao chafariz, onde tinham lugar os banhos forçados que ram infligidos aos intrusos). Sou de opinião de que as festas dos estudantes deverão regressar ao território que foi (quase) sempre o seu, o espaço nobre do Toural. O mastro que anuncia que a festa começou e que só será retirado quando a festa for terminada era tradicionalmente enterrado no Toural; as Maçãzinhas, além de outros números das festas, aconteciam também no Toural e na rua de Santo António. Quando se pondera a candidatura a Património Cultural da Humanidade, parece-me importante que a cidade aposte em trazer de novo as das Festas dos estudantes para a Praça, ajudando a devolver às Nicolinas alguma da dignidade que entretanto terá perdido, ao mesmo tempo que se contribui para “o reforço do carácter simbólico e identitário do Toural”.

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