13 de outubro de 2007

Tombo de 1612: a Casa da Câmara


Pentescostes: quadro de António Vaz que pertenceu à capela da Casa da Câmara de Guimarães.
Em finais de 1611, o rei mandou a Câmara fazer o inventário dos bens que lhe pertenciam, que andariam “alheados e divididos”. Encarregou-se da tarefa o Licenciado João Nogueira. O resultado desse inventário é o Tombo de 1612, um documento particularmente interessante, como iremos ver aqui nos próximos tempos.
Começaremos por observar as descrições as instalações do governo municipal, que se repartiam por dois edifícios situados no ângulo norte/poente da Praça Maior: a Casa da Câmara e o Paço do Concelho.
A Casa da Câmara era a sede das reuniões da vereação. Estava virada para Sul, confrontando com a Oliveira. Do lado nascente fazia frente com a rua dos Açoutados e do poente com os Paços do Concelho. Do lado voltado a norte, tinha como limite umas casas pertencentes a uma peixeira, Maria Pereira. Era um edifício em cantaria, assente sobre “dois ou três” arcos de pedra. Tinha três janelas voltadas para a praça, uma delas grande, rasgada ao centro, com peitoril, sendo encimada pelas armas reais, uma janela para poente e outra para nascente. Tinha duas portas: uma para poente, certamente situada ao nível do piso superior, por onde se acedia à casa do Paço do Concelho, e outra voltada para a Praça Maior, “com o seu recebimento coberto com seus peitoris e uma escada larga”. A Casa da Câmara tinha, do lado do nascente, uma capela com duas portas, onde se dizia missas “da festa do Espírito Santo” nos dias da vereação (quartas-feiras e sábados). O edifício era de dimensões bastante reduzidas, ocupando uma área que não chegaria a cinquenta metros quadrados), com uma frente voltada à Oliveira com uma fachada de cerca de oito metros, com uma profundidade de quase seis metros.
Por baixo da Casa da Câmara havia um coberto em que vendiam “couves e hortaliça e outras coisas”. Para o lado do norte, eram também propriedade municipal duas boticas (lojas) e um par de bancos.
A casa do Paço do Concelho era o local onde se faziam as audiências públicas. As suas dimensões eram um pouco maiores: cerca de dez metros de largura na fachada voltada para a Oliveira e quase nove de profundidade no sentido norte-sul (com uma área de aproximadamente 90 metros quadrados). Tinha duas janelas voltadas para a Praça da Oliveira e duas outras, pequenas, “a modo de frestas”, voltadas para Norte, onde confinava com “a praça do peixe e rossio da Igreja de Santiago”. Do lado do poente, estava encostada à casa Leonor de Maçoulas, viúva do Licenciado Gaspar Lopes. Tinha uma única divisão, uma sala dividida a meio por umas grades. Do lado virado a norte, achava-se uma “mesa em alto em que se sentam os julgadores a fazer audiência”. Ao centro, uma mesa onde se sentavam os oficiais de justiça. Os que iam assistir às audiências ficavam do outro lado das grades, na metade da sala voltada para a Praça da Oliveira. Deveriam ser para eles os “assentos de pau com seus encostos lavrados” que estavam dispostos ao redor das paredes. Como não há indicação de portas, parece seguro que o acesso se faria através da Casa da Câmara e da respectiva escadaria.
Sob a casa das audiências, ocupando uma área de quase noventa metros quadrados, tinha o alcaide-mor “alguns bancos”, que traria concessionados.
Por baixo da casa de Leonor de Maçoulas, já referida, ficava a casa dos açougues públicos de Guimarães, e nela se encontravam “alguns talhos em que se corta a carne e tem suas grades de pau para a banda do norte”. No seu interior, estavam duas cadeiras de estado (de espaldares elevados, também conhecidas por estadelas), em madeira, nas quais se sentavam os almotacés (oficiais municipais encarregados da vigilância dos pesos e medidas e dos preços a que eram vendidos os géneros), para repartirem a carne. As pessoas que iam por carne, ficavam da parte de fora das grades, do lado do norte, recolhidas em cobertos aí existentes. Esta casa, dentro e fora das grades, ocupava uma área de cerca de oitenta metros quadrados, dando, a norte, com o rossio da Igreja de São Tiago, a sul com a casa de Leonor de Maçoulas e a poente com casas pertencentes a um tal Francisco Gomes. Do seu lado nascente encontravam-se os cobertos da praça do pão.
As casas situadas na Praça da Oliveira entre as ruas dos Açoutados e de Santa Maria a Câmara possuía uns alpendres, dos quais, na altura do inventário, “existia somente o chão por arderem com as casas que se chamavam Alfândegas”. Estes cobertos tinham uma frente voltada para a praça com cerca de quinze metros de comprimento e um pouco mais de três metros de profundidade.
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