7 de outubro de 2007

Sobre o projecto para o Toural

Dos cinco projectos para Guimarães que estão em discussão pública, o da intervenção no Toural e na Alameda (mais pelo Toural do que pela Alameda) é o que desperta maior interesse e debate apaixonado. O Toural é o coração da cidade (quando se fala no centro de Guimarães, é no Toural que se pensa) e as cirurgias do coração, pelas suas dimensões orgânica e simbólica, são aquelas que levantam maiores temores e desassossego nas gentes.

Ao que vou vendo na discussão em curso, duas questões têm concentrado maiores atenções:

– A intenção de remover as árvores do jardim.

– A ideia de criação de um parque de estacionamento subterrâneo.

Em relação à primeira, lembrarei que o Toural tem muitos séculos, mas só teve árvores durante pouco mais de cem anos, as quais, à medida que foram crescendo e alargando os seus troncos e copas, ajudaram a diminuir a percepção da grandiosidade daquele espaço. Sou da opinião de que as árvores do Toural estão a mais. Se forem removidas, voltando a tornar desafogada o que já foi amplo, a praça ganhará uma outra grandeza e dignidade. Aliás, os próprios moradores já assim pensavam em 1929, o que os levou a pedirem à Câmara, sem sucesso, que mandasse retirar as árvores.

Por mim, podem levá-las. Para a Alameda, por exemplo.

Já quanto ao parque de estacionamento, terão que aparecer melhores argumentos do que aqueles que já escutei, para me convencerem da sua necessidade.

Em Guimarães, vão persistindo tiques das terras pequenas. Ainda está bem enraizada a ideia de que a cidade é o Toural e de que tudo o que não fica no Toural fica longe da cidade. O curioso é que, quem assim sente, quando vai a outras cidades, se encontra um local para estacionar a 5 ou 10 minutos do local para onde se dirige, sente-se afortunado. Somos assim em qualquer sítio, menos em Guimarães porque, aqui, o carro tem sempre que ser levado até à porta. Para nós, duzentos metros são uma distância excessivamente longa para serem percorridos a pé.

A poucos minutos do Toural e do Centro Histórico, em percurso a pé, temos uma série de parques de estacionamento, que indico a eito, sem a preocupação de ser exaustivo: Mumadona, Hortas, Centro Comercial S. Francisco, Centro Cultural Vila Flor, Caldeiroa, Mercado novo, Rua de Santo António, Triângulo. Representam uma oferta superior à procura, até porque, na mesma área, há um parque, com excelentes condições, que está fechado por falta de utilizadores (o do Estádio). A somar aos já existentes, está previsto um novo parque para o subsolo do Mercado Velho, assim como um outro para o lugar para onde se prevê mudar a feira semanal (espaço que, ele próprio, poderá ser um parque de estacionamento de grande capacidade disponível todos os dias da semana, excepto no dia de feira).

Admito que existam estudos e argumentos que me venham a demonstrar que estou errado. Por enquanto, vou estando convencido de que, mais do que de um parque subterrâneo no Toural, precisámos é de passar a olhar para a dimensão da cidade com outros olhos.

Dito isto, direi que concordo com a ideia do projecto de intervenção à superfície de tornar a praça mais amistosa para os peões. E também concordo com o objectivo, expresso como fundamental, de assegurar “o reforço do carácter simbólico e identitário do Toural, enobrecendo o seu espaço físico”. Permito-me deixar algumas sugestões que podem contribuir para concretizar esse objectivo:

Seguindo um processo já utilizado na zona intramuros, poderá ser feita a marcação no solo de algumas referências à configuração histórica da praça, nomeadamente a indicação do percurso por onde passava a muralha e das respectivas torres (S. Domingos ou Senhora da Piedade e Alfândega), que se acrescentarão às inscrições alusivas às portas (Porta da Vila ou da Senhor da Piedade, Postigo de S. Paio ou Porta Nova), já existentes. Seria também de ponderar a indicação do local de implantação do primitivo convento de S. Domingos.

Poderá igualmente ser equacionada a recolocação do magnífico Chafariz do Toural, que tem todas as características para se tornar num ex-libris da cidade. A ideia deste retorno ao seu lugar de origem não é nova, tendo sido objecto, em Maio de 1939, de uma decisão nesse sentido, nunca concretizada, por proposta da célebre Comissão de Estética Municipal, constituída por A. Vieira Braga, Alfredo Guimarães, António de Azevedo, Luís de Pina e Arq. José António Sequeira Braga. (actualmente escondido entre as árvores do Jardim do Carmo).

Por último, parece-me que a intervenção a desenvolver deverá ponderar a relação entre o Toural e as Nicolinas (também elas estreitamente ligadas ao chafariz, onde tinham lugar os banhos forçados que ram infligidos aos intrusos). Sou de opinião de que as festas dos estudantes deverão regressar ao território que foi (quase) sempre o seu, o espaço nobre do Toural. O mastro que anuncia que a festa começou e que só será retirado quando a festa for terminada era tradicionalmente enterrado no Toural; as Maçãzinhas, além de outros números das festas, aconteciam também no Toural e na rua de Santo António. Quando se pondera a candidatura a Património Cultural da Humanidade, parece-me importante que a cidade aposte em trazer de novo as das Festas dos estudantes para a Praça, ajudando a devolver às Nicolinas alguma da dignidade que entretanto terá perdido, ao mesmo tempo que se contribui para “o reforço do carácter simbólico e identitário do Toural”.

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5 comentários:

Anónimo disse...

A Penha tambem nao tinha árvores até á pouco tempo, imaginem-na sem árvores......I rest my case.

pcc disse...

Não sei em que é que as árvores retiram dignidade ou grandiosidade ao espaço; dão sombra, frescura e vida a um local que, de outro modo, ficaria (como se pode ver no projecto) despido, frio e pouco convidativo. Tiraram as árvores dos Aliados e parece que a maioria não gosta; queriam tirá-las da Av.Liberdade e os lisboetas manifestaram-se. Será que não aprendemos com os erros dos outros?
Será que as árvores da Colina Sagrada também retiram dignidade e grandiosidade ao espaço?
Efectivamente, se as derrubarmos e terraplanarmos o espaço aumenta a percepção de grandeza e dignidade do Castelo e do Paço... como se eles precisassem.
Quanto ao estacionamento, só tenho a dizer duas coisas:
-primeira: já pouca gente mora no Toural e R.S.António, menos gente ainda lá quer morar, e uma das inúmeras razões é precisamente a falta de estacionamento. Em que é que um morador do Toural, da R.S.António ou da R.Rainha é diferente dum morador da Quintã ou da Av.Londres que pode descarregar as suas compras do carro na rua à porta de casa, e depois deixar lá o carro se tiver a sorte de encontrar um lugar? O cartão de morador dá isenção de pagamento do estacionamento das 8 às 10, das 12 às 14 e das 18 às 20 horas; quando recebi o meu, pensei que era dia 1 de Abril.
-segundo: quem lá mora ou trabalha apercebe-se que o pouco e desinteressante comércio da zona perde clientes por estes não poderem estacionar, não digo à porta da loja, mas a "walking-distance" (e os parques existentes ou são insuficientes ou caros ou distantes - não se pense só no caso de um adulto saudável, pense numa família típica que vai ver montras, com crianças pequenas ou carrinhos de bebé, ou pessoas idosas ou com dificuldades de locomoção, ou até clientes com muitos sacos de compras - acabam invariavelmente no Shopping). Transportes públicos de qualidade? Anedota.
Tiques das terras pequenas? Quem vai a Braga, à Avenida Central ou à R.Souto sente-se afortunado por estacionar em Maximinos? Quem vai ao Porto à R.Sta. Catarina ou aos Aliados fica contente se estacionar na Cedofeita ou na Constituição? Quem fôr as compras ao Chiado ou à R.Augusta dá pulos de alegria se deixar o carro no Campo de Santana ou na Almirante Reis? Todas estas distâncias são perto, para um adulto saudável sem grandes pesos a transportar. Mas há parques mais perto, para que as utentes e moradores tenham conforto e qualidade de vida.
Não podemos é querer fazer omoletes sem partir ovos: atrair mais e melhor comércio para a zona, para atrair mais potenciais clientes e depois retirar-lhes os lugares de estacionamento; atrair novos moradores, com o mercado à distância que está, e os supermercados a desaparecerem do centro é uma ilusão.
O Toural não deve, na minha opinião, ser um local onde as pessoas passam para ver as marcações no solo de referências históricas; onde as pessoas vão ver um mastro ser içado uma vez por ano. O Toural deve ser um local onde as pessoas vão e estão, em esplanadas e bancos de qualidade, com sombras e algum abrigo das intempéries, onde possam fazer compras, onde possam viver.
O Toural não deve ser uma sala de visitas daquelas que se usam na Páscoa e no Natal, limpando o pó para receber as visitas. O Toural deve ser uma sala de estar, onde as pessoas possam ter confortáveis locais de convívio, um verdadeiro centro da cidade.
Antes de fazer seja o que fôr, precisamos de saber qual o objectivos que queremos atingir: queremos um museu, com marcações no chão e visitas guiadas, sem vida e sem alma, ou um verdadeiro CENTRO da cidade?

aan disse...

Pois é: isso dos derrubes e das terraplanagens na zona do Castelo e do Paço dos Duques já foi feito, com o resultado que se viu: plantaram-se árvores e expulsaram-se de lá as pessoas. O que contribuiu para o aspecto inóspito que a maior parte daquele espaço tem, a maior parte do tempo, nos dias de hoje. Apesar das árvore frondosas que lá colocaram.

Se o parque de estacionamento no Toural contribuísse para trazer mais gente para viver no Toural, na rua de Santo António ou na de Paio Galvão, eu diria que aí estava um bom argumento para me convencer a mudar de ideias. Só que suspeito que o problema da desertificação desses espaços (em termos de ocupação residencial) tem muito pouco a ver com falta de sítio para estacionar.

Notarei que, na minha opinião, há dois níveis de problemas a solucionar: um o problema do estacionamento, em geral; outro, o do estacionamento e do acesso dos moradores, que tem que ter, obviamente, um tratamento diferente.

Não sei quem foi que disse que o Toural deve ser "um local onde as pessoas passam para ver as marcações no solo de referências históricas; onde as pessoas vão ver um mastro ser içado uma vez por ano". Eu não fui, seguramente. O Toural deve ser o centro da cidade, mais confortável e amigável para os peões, onde não sejam esquecidas as suas referências, históricas e identitárias: eis o que eu julgava que tinha escrito aqui.


Quanto aos exemplos que dá acerca do estacionamento em outras cidades, não percebo o que têm a ver com o que eu disse. Ou acha que Maximinos fica à mesma distância da rua do Souto (ou o Chiado do Campo de Santana) que o Centro Cultural de Vila Flor ou a Mumadona ficam do Toural ou do miolo do Centro Histórico de Guimarães?

Concluirei dizendo que, parecendo o contrário, a verdade é que eu concordo com quase tudo o que o meu amigo escreveu em relação ao que deve ser o Toural (embora ache discutível o seu processo argumentativo). Tem razão: o Toural não deve ser um Museu, como o Centro Histórico o não é. O que não obriga a que se perca a memória.

pcc disse...

Acha porventura que as árvores do Castelo tiveram um efeito mágico que fez com as pessoas se fossem afastando? Ou era o comboio de casas que lá existia que atraía as pessoas? Ou será a grande dinâmica de rotatividade de exposições e iniciativas do paço dos duques ou do castelo que atrai os visitantes?
Nas grandes cidades do mundo plantam-se árvores e criam-se jardins para atrair visitantes e propõe-se em Guimarães precisamente o contrário? É isso que quer dizer quando diz que "precisamos de olhar para a dimensão da cidade com outros olhos"? Quer-se o Toural com um aspecto grandioso ou convidativo? São as frondosas copas das árvores que fazem com que perca a grandiosidade? Ou, como me disse uma amiga minha ali da Arrochela àcerca deste assunto: "Não é rapando a pentelheira que a pila parece maior!"
Não, na minha opinião é a maquete do projecto que foi apresentada, que cria um espaço impessoal, incaracterístico, indigno.

Quanto ao estacionamento, suponho que nunca teve que trazer dois garrafões de 5L de água ou um carrinho de bebé (com o respectivo lá dentro) das Hortas ou de Vila-Flor até ao Toural.
Quanto às distâncias, só lhe digo o seguinte: o trajecto Hortas/ R.S.António, Vila-Flor/ Praça de S.Tiago, Maximinos/R.Souto e Campo de Santana/R.Augusta são trajectos que ao longo de toda a minha vida já tive que fazer inúmeras vezes, pelo que para os poder comparar sugiro-lhe que os faça também, ou então que consulte o Google Earth ou o Via Michelin, ou um simples mapa e percebe porque as comparei. Por outro lado, pode reler a parte em que eu falo de comforto e qualidade de vida, ou quando refiro a existência de outros parques ou meios de transporte...

Há ainda algo que eu não percebo: dia 7 de Outubro diz que a petição não teve sucesso, e dia 11 já diz que afinal as árvores sempre foram cortadas, como se pode ver na foto...

Não podemos resumir esta discussão ao abate ou não das árvores, ou ao parque de estacionamento. Novamente lhe digo: queremos um local de passagem ou um local de fruição? Porque insiste em chamar aos passeadores do Toural peões? Deveríamos atrair pessoas que quisessem lá morar, montar um negócio, passar a tarde com os amigos, e não só tomar um café e seguir para o Porto ou para Braga passear...
Não é só o Toural que está deserto de moradores; todos os anos todo o Centro Histórico perde moradores, e ninguém na CMG parece minimamente preocupado com isso. Parece haver agora mais prédios degradados no centro histórico do que aquando da elevação a património da humanidade! A maioria dos prédios que foram recuperados desde então foram projectos municipais e não de particulares; basta passar no Toural, na R.S.António ou na R.Rainha para constatar isso. Isso revela o quão desinteressante essa zona está a ficar... Felizmente penso que concordamos com essa parte, e devo acrescentar que, que eu me lembre, esta é a primeira vez que algum grande projecto é submetido à apreciação dos munícipes; será agora apenas uma montra de loja, em que vamos todos lá ver uma maquete, ou será que desta vez, finalmente, temos algum voto na matéria? Já há dias que tento entrar no site da CMG para deixar o meu contributo e não consigo; devem ter o servidor entupido de tantas sugestões... Porque não fazer uma sondagem de opinião, mas uma coisa a sério e oficial, tipo a que foi feita para a mudança do mercado...

Quanto à memória, porque não relembrar os tempos dos touros e fazer uma cow-parade? Quanto à memória, e a sua deve ser bem melhor do que a minha, espero que nunca tenha havido um pelourinho no Toural, ou que nunca lá tenham feito um auto-de-fé, caso contrário imagino VExa a sugerir espalhar por lá um pouco de tinta vermelha para que não se perca a memória...

aan disse...

Tentarei responder, apesar de convencido da absoluta inutilidade da minha resposta. É que, por um lado, me confesso incapaz de alcançar onde o senhor quer chegar e, por outro, me sinto esmagado por essa sua capacidade de ler no que eu escrevo coisas que eu jamais cogitei.

§ 1. Quando escrevi o que escrevi, não me estava a referir unicamente à rua de Santa Cruz, mas isso é um pormenor irrelevante. O que eu queria demonstrar é que o exemplo da Colina Sagrada não deve ser o mais feliz nesta discussão, uma vez que, numa das intervenções mais desastrosas da história do urbanismo de Guimarães, se expulsaram as pessoas e não foi por terem colocado lá árvores que aquele espaço conseguiu atrair mais pessoas. Sucedeu o contrário, mas ninguém me ouvirá dizer que a culpa foi das árvores.

§ 2. e 3. Se é essa a sua opinião, não tenho mais do que respeitá-la, embora esta minha posição não o obrigue à recíproca.

§ 4. Olhe que vou tendo, muitas vezes, a experiência de percorrer essas distâncias com pesos semelhantes, porque também vivo a menos de 100 metros do Toural. Mas parece-me que já terei dito (ou será que não disse e sonhei?) que o problema do estacionamento para os moradores tinha que ter um tratamento diferente do estacionamento em geral. Acredito que não se justifica construir um parque subterrâneo no Toural com o propósito de servir as duas senhoras que me dizem que ainda moram no Toural e os pouquíssimos moradoress que ainda resistem nas ruas de Santo António ou Paio Galvão.

§ 5. Não preciso de consultar nenhum mapa para saber que a distância de Maximinos à Rua do Souto (que calculo entre 2 a 3 quilómetros) é várias vezes maior do que a que vai das Hortas à Rua de Santo António e que, indo-se do Campo de Santana à Rua Augusta, se anda três ou quatro vezes a distância que vai de Vila Flor à Praça de S. Tiago.

§ 6. Eu explico-lhe: no dia 7 estava convencido de que o corte não tinha sido feito, porque assim me dizia fonte que utilizei, onde consta que o corte se deu em Abril de 1939. Olhando com atenção para as fotografias, verifiquei que havia alguma coisa que não batia certo e fui verificar a uma fonte primária, onde pude verificar que estava enganado e que as árvores terão sido cortadas em Abril de 1929. Não tem mistério: o que escrevi no dia 7 foi, simplesmente, fruto da ignorância.

§ 7. Não fui eu que resumi a questão ao abate das árvores e ao parque de estacionamento. Julgo que falei de muito mais do que isso no meu texto inicial. Não falo em passeadores (palavra pela qual confesso que não nutro grande simpatia), porque não me refiro apenas aos que passeiam pelo Toural, mas a todos quantos lá andam a pé, em trabalho, em passeio ou simplesmente em trânsito.

§ 8. Sugiro que vá insistindo. Eu já coloquei lá algumas ideias, depois de várias tentativas. É aí que as suas opiniões sobre este assunto fazem falta, até porque, continuando a ignorar as suas propostas sobre a matéria, me parece que já resolveu o grande problema que se tem levantado: construir o parque subterrâneo no Toural, mantendo as árvores que lá estão. Aqui, temo que isto que vamos escrevendo não seja mais do que conversa deitada fora.

§ 9. Interpreto o remate do seu comentário como um atestado de imbecilidade que o senhor se sente no direito de me passar. Por uma questão de educação, apenas o tomo na conta devida. Lamento desiludi-lo, mas não responderei no mesmo registo.