27 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (9)

Monumento ao primeiro rei de Portugal D. Afonso Henriques
NA CIDADE DE GUIMARÃES

A cidade de Guimarães, berço da monarquia Lusitana, vai pagar a dívida de honra e gratidão ao valente e invicto guerreiro D. Afonso Henriques. O século XIX, vai descobrir densas trevas do obscurantismo. O sibilar da locomotiva, agente poderoso do progresso e da civilização moderna, em breve se fará ouvir na mesma cidade. A terra legendária do primeiro rei Lusitano, vai ser dotada de um melhoramento de há muito reclamado. Felizmente, entre os habitantes do Antigo Condado, destacam-se entre outros nomes respeitáveis os snrs. Presidente da Câmara Municipal e João Dias de Castro, apóstolos da civilização moderna, que se encarregaram de organizar na mesma cidade a grande comissão par ter levantado o monumento nacional ao primeiro rei português.

Sendo esta estátua a página mais brilhante da história Lusitana, estamos certos que será esta sublime ideia patrocinada por todos os portugueses em geral.

O monumento de D. Afonso Henriques é o símbolo do valor e da coragem do exército português. A estrada de ferro é um grande melhoramento para a cidade de Guimarães, a estátua do primeiro rei de Portugal vai coroar esse progresso do século XIX.

Religião e Pátria, 33.ª série, n.º 1, Guimarães, 16 de Dezembro de 1882
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26 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (8)

Monumento a D. Afonso Henriques

É sobremaneira significativo o modo como geralmente tem sido acolhida a ideia de perpetuar em mármore ou bronze a memória gloriosíssima do imortal fundador da monarquia portuguesa.

Nesta cidade, que se honra de ser o berço natal do famoso herói que com a ponta da sua invencível espada firmou em Ourique a autonomia da nacionalidade portuguesa, a ideia, como já temos dito por mais duma vez, fui abraçada com o mais febril entusiasmo, e a comissão, eleita na grande reunião do dia 25 do passado Novembro para dirigir os trabalhos concernentes à sua realização, tem tido a gratíssima satisfação de não encontrar uma só recusa em todas as pessoas a que se tem dirigido para subscreverem, tendo aliás recebido muitas subscrições espontâneas de cavalheiros que, ainda antes de rogados, têm tomado a honrosa deliberação de se mandarem inscrever no rol dos subscritores, como quem sente, pelo forte estímulo do seu acrisolado amor pátrio, a imperiosa necessidade de afirmar a sua calorosa adesão a pensamento tão nobre e levantado.

No resto do país a imprensa, ao dar notícia do patriótico cometimento, tem aplaudido pelo modo mais lisonjeiro a honrosa iniciativa, e é de crer que em toda a parte esta iniciativa encontre, da dos que se ufanam de ter por pátria este velho mas glorioso retalho ocidental da Europa, numa cálida simpatia o mais favorável acolhimento.

Mas onde esta simpatia e este acolhimento são verdadeiramente extraordinários, é no Brasil.

Ali, não só entre a numerosa colónia portuguesa, mas até entre os próprios e mais importantes filhos daquele florescente império, reina o mais decidido entusiasmo pela ideia de se pagar esta sagrada dívida de gratidão.

Já aqui transcrevemos a listadas consideradas comissões que se organizaram em muitas das mais importantes cidades o povoações daquele país para coadjuvarem a grande comissão central do Rio de Janeiro no granjeio de donativos para se levar à realidade o glorioso cometimento para o qual nos veio de lá o impulso. Outras comissões se estão ainda organizando ali noutras cidades, e a imprensa, tornando-se o eco do geral entusiasmo, insere os dais calorosos artigos de adesão e de incitamento à nobre o generosa ideia.

São da “Nação Portuguesa” os artigos que adiante transcrevemos, e pelos quais se vê que não exageramos no que levamos dito.

“Ha oito séculos que teve o glorioso berço no condado do Guimarães o valoroso Príncipe D. Afonso Henriques. Armando a sua gente de guerra, os seus valorosos companheiros de armas, desde os campos de S. Mamede, foi levando de vencida o poder mauritano até ao campo de Ourique – ali deu ele a formidável batalha e foi aclamado por treze mil guerreiros: – Rei dos Lusitanos.

Ninguém nos tempos passados levou mais alto a fama das vitórias e ninguém mais se esforçou para a felicidade de um povo e crédito de uma nação. A ele tudo devem os portugueses e os descendentes.

O monumento que a câmara do Guimarães projecta levantar, na mesma cidade a esse filho dilecto, é uma sagrada dívida de honra. O monumento deste, ilustre rei é a estátua da própria nacionalidade.

Oito séculos são passados e ainda na ilustre cidade de Guimarães se observam saudosos os monumentos religiosos, e o castelo, teatro glorioso de sua heroicidade, assim como a igreja onde foi baptizado, e o palácio de seu nascimento. É pois, o mais alto dever de honra de uma geração ilustrada, oriunda de uma forte raça de heróis, levantar a estátua de seu primeiro rei e fundador da nacionalidade. Se Deus ainda concede a um povo levantar bem alto o pavilhão nacional com as armas desse benemérito guerreiro é preciso também atestar essas glórias passadas, com a - Estátua tio Rei D. Afonso Henriques. O que se passou por ocasião da sua coroação nas cortes de Lamego, é a mais brilhante página da história de um povo e a prova mais digna e sublime de um rei.

Naquele acro soleníssimo em que se acharam reunidos os três Estados do novo e florescente reino, disse o valoroso rei: “Quanto hei lidado por vossas liberdades, assaz o sabeis vós. Por testemunhas vos tomo e por testemunhas a este meu braço e espada, se alguém consentir em estranho domínio neste Reino, morra com os inimigos da pátria, e a ser filho meu ou neto, não reine.” A estas sublimes palavras, o príncipe rei, segurando em sua formidável espada, sempre vitoriosa, ouviu do todo o solene auditório: “Boa palavra, morram: Rei, que em alheio domínio consentir, não será de nós sofrido uma só hora no trono”.

Ao que el-rei pôs remate dizendo com a espada em cima do livro sagrado - assim se faça.

Ninguém mais do que D. Afonso Henriques merece um monumento que ateste às futuras gerações o valor e a honra de um povo benemérito da humanidade.

É também significativa a estátua para despertar nas futuras gerações o amor, o respeito e a sagração dos seus beneméritos heróis.

Quando este monumento aparecer à multidão e que os hinos marciais, os vivas, os entusiasmos, apoderando-se do povo português, devem também nos arrebatamentos do justo entusiasmo dizer: Honra aos beneméritos portugueses residentes nas terras de Santa Cruz e aos digníssimo cidadãos brasileiros que cooperam para este monumento histórico.


Religião e Pátria, 33.ª série, n.º 1, Guimarães, 16 de Dezembro de 1882

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23 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (7)

Sobre os trabalhos de recolha de fundos para o monumento a Afonso Henriques:

Monumento a D. Afonso Henriques

Abriu-se, com efeito, na segunda-feira, a subscrição pública nesta cidade para o monumento ao glorioso fundador da monarquia portuguesa.

O resultado colhido até hoje é o mais lisonjeiro e prometedor, como era de esperar do brio patriótico dos vimaranenses.

A quantia subscrita monta já a cerca de 1.500$000 réis, devendo notar-se que a subscrição apenas se estendeu a um pequeno n.º de pessoas, e que falta ainda a subscrição da maior parte da cidade e de grande n.° dos seus mais abastados capitalistas.

Isto demonstra que a ideia do monumento é recebida com fervido entusiasmo, e dá a mais prometedora esperança de que a subscrição há-de subir a uma soma honrosa e relativamente grande.

A comissão vai quotidianamente continuar a percorrer a cidade com a lista da subscrição para que todos possam concorrer com o seu óbolo para uma obra tão gloriosa.

Religião e Pátria, 32.ª série, n.º 50, Guimarães, 13 de Dezembro de 1882

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21 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (6)

Avelino Guimarães

Continuando os trabalhos para a erecção em Guimarães de um monumento a D. Afonso Henriques, discutiu-se a ideia de que ele tomasse a forma de "uma instituição viva de ensino ou auxílio às letras e às indústrias", de acordo com sugestão de Avelino Guimarães, da Sociedade Martins Sarmento.

Monumento a D. Afonso Henriques

Na reunião que na passada quinta-feira teve a comissão central dos trabalhos para a erecção deste monumento, foi apresentada uma mensagem da Associação Martins Sarmento em que na forma da proposta do seu digno vice-presidente dr. Avelino Guimarães, que já aqui publicamos em um dos passados números, se chamava a atenção da comissão para a conveniência de que o projectado monumento seja antes uma instituição viva de ensino ou auxílio às letras e às indústrias, do que uma obra fria de mármore ou bronze. A mensagem; que é extensa e muito bem escrita, foi, como não podia deixar de ser, tomada em consideração pela comissão, para oportunamente se resolver a seu respeito.

A propósito convém dizer que a resolução a respeito de qual deva ser a espécie de monumento a erigir ao imortal fundador da monarquia portuguesa, depende de muitas e variadíssimas circunstâncias, entre as quais a primeira e principal é a vontade dos subscritores, especialmente dos do Brasil de onde veio o incitamento e onde, pelo que se vê dos jornais, a ideia predominante padece ser a de estátua, suposto que também a par desta apareça a de uma qualquer instituição ou estabelecimento literário.

Nada pois está ainda resolvido a tal respeito, como parece que já por aí se afirmava, e quer-nos parecer que ainda é cedo para se resolver. Foi nesse sentido que a comissão tomou em consideração a mensagem aludida, que, se representa, e muito louvavelmente, mais uma valiosa afirmação de quanto a benemérita Sociedade Martins Sarmento se esforça por promover nesta cidade o desenvolvimento da instrução, não é todavia uma resolução feita, é apenas o voto de uma respeitabilíssima corporação estranha à comissão.

E, continuando agora na notícia da reunião da referida comissão, devemos acrescentar que se resolveu abrir na próxima segunda-feira a subscrição em Guimarães, indo a comissão incorporada solicitá-la pessoalmente de cada um dos nossos briosos compatrícios.

Religião e Pátria, 32.ª série, n.º 49, Guimarães, 9 de Dezembro de 1882

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20 de fevereiro de 2009

Do nascimento de Afonso Henriques

Há quase vinte anos, quando em Guimarães andou acesa a polémica acerca da hipótese do nascimento de D. Afonso Henriques em Coimbra, publicámos um texto sobre o assunto, que então provocou reacções curiosas algumas delas desbragadas. A sua releitura agora, quando voltou a andar no ar discussão acerca do nascimento do Rei Fundador, à volta de uma hipótese, a de Viseu, quase tão antiga como o nosso texto, pode ter algum interesse. Aqui fica.

AFONSO, REI DE PORTUGAL NASCIDO EM PARTE INCERTA

Há trinta anos que em Guimarães se luta para que nem sejamos chamados bárbaros, por ignorarmos a nossa história, nem sejamos objecto de mofa, por apresentá-la entretecida de lendas inaceitáveis.”

JOÃO DE MEIRA, 1913

Nos últimos tempos, andou a cidade de Guimarães envolvida em alguma agitação, a propósito do nascimento do primeiro rei português. O alvoroço citadino teve como origem o facto de alguém ter lido, num prospecto promocional de um dicionário, o verbete referente a D. Afonso Henriques, que o dava como tendo nascido em Coimbra, em 1109, e logo começou a bradar aos céus, lançando o dedo acusador em direcção a José Hermano Saraiva, sem que se vislumbre porquê, certamente por ser o único historiador em que alguma vez ouviu falar. E logo se disse que D. Afonso tinha nascido em 1111, na casa da residência dos reis de Leão, em Guimarães e que essa era a versão ensinada nas (escolas em quais?), publicada nos livros da especialidade, dicionários ilustrados, enciclopédias. Disse se que aquilo que se lia era espantoso: espantoso é um tal espanto. Afirmou-se que nunca em livro algum se tinha lido tal coisa. E como poderia ter sido de outro modo, se se dão tais mostras de nunca se ter lido um livro?

Iniciou-se então uma das campanhas mais burlescas e extravagantes a que Guimarães assistiu de há muitos anos a esta parte. Os seus mentores, quais cavaleiros de triste figura, bramiam contra os deturpadores da verdade histórica, proferiam catilinárias inflamadas, exigiam a cabeça de quem teve a ousadia de tais coisas afirmar. E, como convém nesta era de modernidade, foi uma autêntica campanha multimédia de inspiração grosseiramente inquisitorial: foram os escritos nos jornais, da terra e do Porto, as entrevistas em TV pirata, os programas exaltados na rádio, o pasquim lúgubre que, lançado por mão anónima (como é de bom tom nos pasquins), reclamava, em nome de um punhado de conterrâneos de Afonso Henriques, ao pretenso responsável por tal afirmação que a provasse, avisando o prof. Saraiva que em Guimarães as tradições são muito sensíveis e ameaçando publicar infundadamente que o seu (do professor) pai era outro. É que o prof. Saraiva, por coincidência, por essa altura, vinha Sociedade Martins Sarmento proferir uma conferência.

Não havia memória de tal delírio em Guimarães. Aos olhos dos vimaranenses, esta conferência apresentava-se como um autêntico torneio medieval. De um lado, ao grito que clamava “Aqui del-Rei, que nos roubam o Rei!”, arrebanharam-se as hostes dos briosos defensores das tradições locais, para forcejarem o prof. Saraiva a retractar-se das heresias que proferira. Do outro, eram os homens do professor, que acharam que mais valia prevenir que remediar: Saraiva subiria a escadaria da S. M. S. escoltado por grande contingente de polícias à paisana, que tomaram posições estratégicas na sala e nos corredores da Sociedade, cujas vetustas paredes não guardavam memória de semelhante aparato. O ambiente era de Verão, evidentemente quente. O punhado de vimaranenses aguardava o seu momento para iniciar as hostilidades.

Na sua oração de sapiência o professor Saraiva começou por esclarecer que jamais escrevera que D. Afonso Henriques nasceu em Coimbra e que desconhece quem o tivesse feito. E depois, no seu tom de demagogo eloquente, foi dizendo, com o rigor que todos lhe reconhecem, que, para ele, se a tradição diz que Afonso nasceu em Guimarães, é porque é verdade. E acabou com a questão, apelidando de gente sem escrúpulos o punhado de vimaranenses autor da campanha que naqueles dias se desenvolvera. E estes, dando de barato o ditado que fala da falta de bondade dos pais daqueles que se não sentem, não deram sinais de si. Bravos guerreiros! A montanha parira um rato bem mesquinho.

O ARGUMENTO DA TRADIÇÃO

É curiosa a argumentação do prof. Saraiva, dando à tradição o valor de prova documental. Porque, se assim é, o pobre Afonso, além de ter nascido com os joelhos colados, e de, apesar do rol dos seus filhos bastardos, ter sido um virtuoso milagreiro, ainda foi bafejado por um estranho dom da ubiquidade: nasceu em três sítios (pelo menos...): em Guimarães, como diz a tradição, em Coimbra, como diz a tradição e sustentam alguns dos mais insuspeitos medievalistas portugueses(1), e... na Síria, conforme reza igualmente a tradição de que nos dá conta Duarte Nunes de Leão, na sua Chronica do Conde Dom Henrique.

A problemática do nascimento do nosso primeiro rei é antiga, e tem atingido, em alguns momentos da História de Guimarães, foros de alguma polémica. Isto porque, para se estabelecer com precisão a naturalidade de Afonso Henriques, falta tudo o que é essencial: referências documentadas e fiáveis que indiquem tanto a data em que nasceu, que se ignora, mas que é possível estabelecer com relativa aproximação, como o local onde veio ao mundo, que do mesmo modo se não conhece, e que se revela bem mais difícil de fixar.

AS TESES DE JOÃO DE MEIRA

Uma das figuras mais ilustres de Guimarães do início do nosso século, João de Meira, escreveu, a convite da Sociedade Martins Sarmento uma notável conferência sobre a História da cidade, intitulada Guimarães 950/1580, que deveria ser proferida no 9 de Março de 1913. Tal conferência jamais teve lugar, posto que o seu autor cairia por esses dias no leito, atingido pela enfermidade que o levaria morte, poucos meses depois, em plena juventude e com muitas promessas por concretizar. Viria a ser publicada em 1921, na Revista de Guimarães, inserida na homenagem póstuma que a S. M. S. lhe dedicou. Aí se lê:

Nenhum documento coevo diz que D. Afonso Henriques nascesse em Guimarães. Os primeiros livros que referem o nascimento em Guimarães datam do século XVII e não alegam autoridade mais antiga. Como consequência: é incerta a naturalidade de D. Afonso Henriques.”

Não era esta a primeira vez que João de Meira colocava nestes termos a questão do local de nascimento de Afonso Henriques. Já em 19O6, igualmente na Revista de Guimarães(2), ele afirmava que “comunmente não se põe em dúvida que D. Afonso Henriques nascesse em Guimarães. Assim o afirma a maioria das histórias de Portugal, sem que possam abonar-se com um único testemunho comprovativo.” E cita, de seguida, o facto bem elucidativo de Alexandre Herculano, apesar de todas as pormenorizadas referências documentais de que se socorre para datar o nascimento de Afonso em 1111, nem ao de leve se referir ao local de nascimento. Aduz, ademais, que o Conde D. Henrique não tinha residência permanente, repartindo-se por Guimarães, Coimbra, Viseu, a Terra Santa, a França, a corte do sogro. E conclui: “Deste modo, colocar em Guimarães o nascimento de D. Afonso Henriques, é arriscar uma afirmativa que, conquanto bem possível, carece absolutamente de provas em que se escude.

ALFREDO PIMENTA

Não se conhece que, na época em que Meira escrevia estes textos, se produzissem em Guimarães grandes manifestações contra este insigne vimaranense, nem há notícia de que o tivessem tentado forçar, como agora se vê, a retractar-se de tais ideias. O que se conhece é a resposta que lhe daria Alfredo Pimenta. No seu artigo sobre Afonso Henriques, publicado no livro Guimarães – O Labor da Grei, editado aquando da Exposição Industrial e Agrícola de 1923, critica João de Meira, dizendo o “muito influenciado, em seus critérios e suas atitudes, pelo processo de Herculano”, afirma que a sua tese quanto à incerta naturalidade do rei Afonso é “um erro de João de Meira que cumpre rectificar”. Para tanto, socorre-se da Cronica delRey D. Affonso Henriques, de Duarte Galvão, publicada pela primeira vez em 15O5, portanto anteriormente ao século XVII mas, convirá notar, cerca de quatrocentos anos após o nascimento de Afonso Henriques, onde se pode ler:

Depois que o Conde D. Henrique assim foi casado com a Rainha D. Teresa, filha del-Rei de Castela como dito é, vindo ela a emprenhar, D. Egas Moniz, mui esforçado e nobre fidalgo, grande seu privado que com ele viera de sua terra, e a que tinha muita mercê, chegou ao Conde, pedindo-lhe que qualquer filho ou filha que a rainha parisse, lho quisesse dar para ele o criar: e o Conde lho outorgou. Veio a Rainha a parir um filho grande e formoso, que não podia mais ser uma criatura, salvo que nasceu com as pernas tão encolheito, que a parecer de mestres e de todos julgavam que nunca poderia ser são delas. O seu nascimento foi no ano de Nosso Senhor de mil e noventa e quatro. Tanto que D. Egas soube que a Rainha parira, cavalgou à pressa, a veio-se a Guimarães, onde o Conde D. Henrique estava, e pediu-lhe por mercê, que lhe desse o filho que nascera para o haver de criar, como lhe tinha prometido.”

Da leitura da crónica de Duarte Galvão, Alfredo Pimenta conclui “que o Conde D. Henrique estava nesse ano de 1094 em Guimarães, com sua mulher, e que aí nasceu o seu primogénito. A coisa é contada de tal maneira, que não havendo factos que a contradigam, temos que havê-la por certa”. Ora, tal conclusão não se pode, de modo algum, tomar como minimamente plausível à luz da documentação conhecida e que Pimenta não poderia ignorar.

ANACRONISMOS

Em primeiro lugar, a data do nascimento avançada não tem qualquer fundamento. Era impossível que o príncipe tivesse nascido em 1094: nessa data, provavelmente o seu pai ainda não estava na Península Ibérica, seguramente ainda não estava casado com a infanta Teresa, filha bastarda do imperador Afonso VI, nem esta estava biologicamente apta a aceder à maternidade, um vez que era ainda uma criança de muito tenra idade. E, mesmo ignorando este anacronismo, parece forçado concluir-se que Duarte Galvão tivesse escrito que Afonso Henriques nasceu em Guimarães. Ele não o diz em momento algum. E, do trecho citado, apenas se pode concluir que o Conde D. Henrique estava em Guimarães quando Egas Moniz soube que a Rainha parira. Não diz onde o local do parto. Ficamos na mesma: os mais antigos documentos que referem o nascimento em Guimarães datam do século XVII. E a falta de argumentos com que Pimenta se depara para defender a sua tese patenteia-se na necessidade que teve de basear a sua argumentação em Duarte Galvão, provavelmente um dos cronistas mais interessantes da nossa literatura, mas seguramente um dos menos fiáveis, uma vez que veicula como factos acontecidos uma série de lendas e historietas que circulavam no tempo em que escrevia.

Por outro lado, sustenta Pimenta que a data indicada por Galvão para o nascimento do infante 1094, lhe dá uma “idade magnífica para ser o batalhador dos campos de S. Mamede, para ouvir os conselhos do pai moribundo, e para ser baptizado por S. Geraldo.” Eis o conselhos que o Conde D. Henrique terá dirigido a seu filho, na versão abreviada por Duarte Nunes de Leão na Chronica do Conde Dom Henrique, quando, estando em Astorga, ali o teria chamado, por sentir aproximar-se a hora da sua morte:

E vendo, que o fim se lhe chegava, mandou chamar a Dom Afonso Henriques, que estava na vila de Guimarães. Ao qual depois de dar muitos conselhos de Príncipe prudente e pio, lhe encarregou o bom tratamento de seus vassalos, e que administrasse sempre justiça igualmente aos grandes e aos pequenos, sem aceitação e respeito de pessoa. E que guardasse sempre verdade, e não faltasse de sua palavra. Porque se nos homens baixos e plebeus parecia mal a mentira, muito mais era nos Príncipes, que na terra estavam em lugar de Deus, o qual é suma verdade. Acabado de lhe dar sua benção, lhe rogou que o mandasse enterrar na sé de Braga. E que se temesse, que enquanto o acompanhava, se levantassem os de Astorga, não fosse com ele, mas o mandasse pelos seus. Daí a pouco expirou, correndo o ano de MCXII.”

A simples leitura deste excerto, no fundamental comum às crónicas de Galvão e de Duarte Nunes de Leão, é suficientemente esclarecedora quanto à falibilidade da aceitação acrítica do seu conteúdo, conferindo-lhe foros de verdade histórica. Se, como já se afirmou, a data de 1094 não tem qualquer fundo de verdade, o mesmo não sucede em relação ao lugar e ao momento da morte de D. Henrique: foi em Astorga, em 24 de Abril de 1112. Sabe-se, através de documento coevo aceite como verídico(3), que o filho não tinha mais de três anos aquando do passamento do pai o que aponta para 1109 a data mais provável do seu nascimento, facto que lança por terra qualquer possibilidade de ele ter sido chamado a Astorga pelo pai a fim de lhe tratar das exéquias e prover à defesa da cidade, e atira para o campo da mais pura ficção todo o discurso do Conde. Deste modo, toda a argumentação expendida por Alfredo Pimenta para contestar João de Meira se revela esteada em fundamentos bem pouco consistentes.

Desdramatizemos: a questão do lugar de nascimento de Afonso Henriques é, no contexto da História nacional, um problema de lana caprina, dos que não tiram o sono a qualquer historiador. E o facto de se não conseguir provar documentalmente o seu nascimento em Guimarães, em nada diminui a História de que Guimarães tem boa razão para se orgulhar, nem é impeditivo de que se possa considerar o nosso primeiro rei como um vimaranense. Afonso Henriques, Guimarães e o advento da nacionalidade estão ligados estreitamente. E, se toda esta história teve alguma coisa de pouco dignificante para esta cidade, que alguns pretendem de cultura, foi o modo alarve e nada edificante como pretenderam defender as suas tradições históricas.

Notas:

(1) Por exemplo: Torquato de Sousa Soares, in Dic. Hist. Port., dir. por Joel Serrão.

(2) V. artigo: Os Claustros da Colegiada de Guimarães.

(3) Port. Mon. Hist., Scriptores, págs. 11 e 12, col. I. a.

[Texto originalmente publicada no jornal O Povo de Guimarães, no dia 23 de Março de 1990]

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19 de fevereiro de 2009

Entre Viriato e Afonso Henriques, por Martins Sarmento

Francisco Martins Sarmento

Na grande luta de Viriato contra os Romanos, parte das povoações da Lusitânia dividia-se em dois partidos, o dos patriotas e o dos egoístas, que viam no protectorado estrangeiro o começo duma época, em que podiam explorar sossegadamente o veio dos seus interesses particulares.

O partido dos egoístas achou quem lhe apressasse a vitória com um feito, digno de tais sequazes. O famoso caudilho, que havia sido o terror das águias romanas, foi degolado, quando dormia, pelos camaradas em quem mais confiava e que levaram a sua cabeça ao inimigo, contando que lhes fosse paga por bom preço.

O “finis Lusitaniae” foi escrito com o sangue daquele mártir e por mais de 13 séculos tornámo-nos um povo de escravos, passando dum senhor a outro.

Com Afonso Henriques, recuperámos os foros de nação livre; mas hoje que festejamos o nascimento do herói, que nos abriu esta era nova, não falta quem pense que, do mesmo modo que na solenização de outros centenários, ao que se mira é a dissipar as apreensões que desperta a aproximação de um segundo “finis Lusitaniae”, porque o nosso egoísmo é enorme e insistente, o patriotismo pouco e intermitente. E, desta vez, a morte seria ignominiosa, por ficar demonstrado que tal é a nossa inferioridade moral e intelectual, que não nos permite ser um povo livre.

Francisco Martins Sarmento, in "A Aphoteose", jornal comemorativo do septi-centenário e inauguração da estátua de D. Afonso henriques, Guimarães, 1887
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17 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (5)

No Brasil, o movimento para a construção do monumento ao Rei Fundador ia ganhando aderentes. A 6 de Dezembro de 1882, o Religião e Pátria dava conta dessa movimento.


Monumento a D. Afonso Henriques

Alastra-se, como uma torrente fertilizadora, o movimento patriótico para se levantar um monumento à gloriosa e respeitabilíssima memória do fundidor da monarquia portuguesa.

Levam a dianteira neste movimento os nossos briosos irmãos do Brasil, onde por toda a parte se estão organizando comissões, auxiliadoras da grande comissão central do Rio de Janeiro.

Veio-nos de lá o incitamento para metermos ombros a esta obra; vem-nos também de lá o exemplo de como, à volta da bandeira onde está escrito o lema – amor da pátria – pagamento de uma dívida nacional – correm a agrupar-se todos, sem distinção de classe, num o santo e fervido entusiasmo dos que antepõem a tudo o nome e a glória da terra que lhes foi berço comum, e o culto respeitoso dos heróis que deram a essa terra tal nome e tal glória.

Transcrevemos em seguida do nosso estimável colega do “Cruzeiro” a relação das comissões que já estão formadas em diversas terras do grande império. Imitemos-lhes nós cá também o nobre exemplo, e será paga em breve a grande dívida da gratidão nacional.


Monumento a D. Afonso Henriques,

1.º rei e fundador da nacionalidade portuguesa

A ESTÁTUA DEVERÁ SER LEVANTADA NA CIDADE DE GUIMARÃES EM PORTUGAL

Comissões em diferentes localidades para auxiliarem a comissão central do Rio de Janeiro, a saber:


BARRA DO PIRAHY

Barão do Rio Bonito.

João Baptista Vieira de Carvalho e Vasconcelos.

Joaquim de Sousa Andrade.

Jacob Ferreira Viana.


CIDADE DA BARRA MANSA

Barão de Guapy.

Comendador Joaquim Leite Ribeiro de Almeida.

Major José Gonçalves Costa.

Dr. Adofo Pereira Borges Ponce de Leon.

José Joaquim Peres.

Joaquim Adelino da Cruz.

Alfredo Coelho da Rocha.


CIDADE DE REZENDE

Comendador Francisco Pereira da Silva.

Manuel Conrado Teixeira.

António Domingues Soares Grunville.

Manuel Joaquim Teixeira Caboré.

Francisco Marinho Bastos.

Domingos da Silva Fortes.


CACHOEIRA (S. PAULO)

Dr. António Francisco de Sequeira.

Manuel Marques Pinto.

Turiano Soares Lousada.


LORENA (S. PAULO)

Manuel da Costa Neves.

Francisco Marques de Oliveira.

Joaquim Moreira de Castro Lima.


CIDADE DO PIRAHY

Duarte Joaquim de Oliveira.

Francisco José de Sousa Guimarães.

Revd. vigário Manuel José Correia.

Albino Alexandre de Sousa Lima.

António José Tavares.


CIDADE DE VASSOURAS

Barão de Cananés.

Capitão José Faustino da Fonseca Silva.

Comendador António José de Abreu César.

Major Raimundo do Espírito Santo Fontenelle.

Luís José do Rego Lima.


JUIZ DE FORA E MATIAS BARBOSA

Conde de Cedofeita.

Comendador Daniel Joaquim Vaz Ferreira.

Francisco Gonçalves da Cruz.

José Duarte dos Reis.


CIDADE DA PARAÍBA DO SUL

Barão de Ribeiro de Sá.

Barão de Santo António.

Dr. Martinho César da Silveira Garcez.

Joaquim Pereira de Lima.

Fernando de Sousa Brandão.

Felisberto Carlos Duarte.

João Jacinto do Couto.


CIDADE DE S. JOÃO NEPOMUCENO (MINAS)

João de Almeida Albuquerque Costa.

Abílio Soares Murce.


ESTAÇÃO DAS TÁBUAS

José Pereira Maldonado.

Joaquim Avelino Pereira da Silva.

José Duarte Rodrigues.


SANTOS

Visconde de Vergueiros.

Manuel Pereira da Rocha Soares.

Comendador António Nicolau de Sá.

António de Freitas Guimarães.

Simão da Silva Meira.


MACAÉ

Visconde de Araújo.

Barão da Póvoa de Varzim.

Nicolau Alves Viana.

António Pereira Martins.


SANTA MARIA MADALENA

Comendador José Teixeira Portugal Freixo.

Coronel José Teixeira Portugal.

Dr. Firmino de Sousa Lima.


ESTAÇÃO DO COMÉRCIO

Revd. padre Guedes.

Bernardino Correia de Matos.

Eugénio Alves do Paço.


DORES DO PIRAHY

Visconde da Piedade.

Comendador Tomás Ferreira Coelho.

António Bento Gouveia.

João Gonçalves dos Reis.


NOVA FRIBURGO

Manuel João Simões.

Capitão João José Zamith.

Dr. Ernesto Brasil de Araújo.


NITERÓI

Comendador Clemente José de Góis Vianna.

Manuel Caetano Jardim.

Comendador Henrique Soares de Freitas.

José Pereira de Sousa.

Manuel Joaquim da Silva Leça.


CAMPINAS

José Pereira de Andradê.

Alexandre António Peres.

César Augusto Tiago.


JOÃO GOMES (MINAS)

José Alves da Cunha.

João Teixeira da Cunha.


PARAHYBUNA

António Ferreira da Costa.

António José Fernandes de Pádua.

Bento José Fernandes.


S. JOÃO D'EL-REI

Comendador José da Costa Rodrigues.

Comendador António José Dias Bastos.

José Lopes Baía.

José António de Almeida.

Comendador coronel Custódio de Almeida Magalhães.


BAÍA

Conde de Pereira Marinho.

Conde de Pedroso de Albuquerque.

Barão de Vila Viçosa.

Barão de Guaby.

Visconde de S. Clemente de Bastos.

Comendador Ismael Américo de Andrade;

Dr. Daniel da Silva Ribeiro.

Comendador José Lopes da Silva Lima;

Comendador Arnaldo Lopes da Silva Lima.

Comendador Manuel da Costa Rodrigues Viana.

Comendador Manuel Francisco Gonçalves.


BARBACENA

João Rodrigues de Sousa.

Capitão José Joaquim de Castro.

José Máximo de Magalhães.


S. DOMINGOS (NITERÓI)

Jerónimo de Sampaio Pereira e Costa.

Comendador José Joaquim Teixeira.

Dr. Manuel Pereira da Silva Continentino Júnior.

José Machado Mendes.

Toda a correspondência e remessa de donativos, com endereço ao 2.° secretário da grande Comissão Francisco Augusto Ferreira de Melo, à rua do Hospício n.° 92. Rio de Janeiro, estabelecimento Águia de Ouro.

Religião e Pátria, 32.ª série, n.º 48, Guimarães, 6 de Dezembro de 1882

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15 de fevereiro de 2009

Guimarães, por Francisco Martins Sarmento

Francisco Martins Sarmento (em pé, primeiro à esquerda) em jovem, com um grupo de amigos (de pé: Visconde de Pindela e Conde de Margaride; sentado: Domingos Martins da Costa (Aldão).

Na juventude, Francisco Martins Sarmento, como a maioria dos jovens do seu tempo, foi poeta, chegando a publicar um livro com o título de "Poesias", no ano de 1855, onde se incluía, a abrir, o poema em que falava da sua terra afonsina. Aqui fica. As notas são da edição original.


GUIMARÃES

Eu sou o berço vetusto
Do primo Rei Português;
Eu sou o velho guerreiro
De feitos, que ninguém fez.
Ao furor de mil batalhas
O meu peito de muralhas
Opus com frio desdém;
Bati o cão muçulmano,
E, ao meu torvo olhar, o Hispano
Os montes dobrou d'além.

Fui valente entre os mais fortes,
Dos belos o mais gentil;
Não achei rivais na terra,
Ao menos um entre mil;
Dos crentes fui o, mais puro;
Dos guerreiros o mais duro;
Na paz o mais folgazão;
Hoje... sem c'roa, nem ceptro,
Não sou mais que feio espectro
Das minhas glórias d'então.

Em torno a mim vi surgirem
Novas cidades do pó;
Vi enfeirarem-se as velhas,
Que loucas! metiam dó.
Eu... velho, de velha usança,
Não quero mais que a lembrança
Do que fui, do que vali;
Português d'antiga raça,
Não me avilto na desgraça,
Mandei, sim, nunca pedi.

Bajulai os pés do trono,
Cobardes, fracas e vis;
Mendigai brasões; no lodo
Manchar que importa a cerviz?...
Zombai, escravas vaidosas,
Das minhas glórias famosas,
Dos meus famosos heróis;
Que nos meus andrajos pobres,
Mesquinhas cidades nobres,
A par de mim – oh! que sois?...

Tu mesma, Lisboa, cora.
Terra sem par na altivez;
Lembra-te que outrora, escrava,
Grilhões rojaste a meus pés;
Sim, tu, descrida agarena,
Que dos combates na arena
Dum golpe só eu venci;
E hoje... hoje... rainha!... seja;
Mas na agonia não veja
Finar-me, esquecido, aqui.

Sim, eu morro, e vai comigo
A minha mãe infeliz;
Falta-lhe o braço d'Afonso,
A fé, que teve um Moniz;
E eu, velho, já desarmado.
Tenho só meu triste brado,
Da agonia a extrema voz;
E, donde as raças se escondem,
Com maldições me respondem
As cinzas dos meus avós.

Eu bem vos disse, monarcas,
Nas eras que longe vão,
Que no caminho do oceano[1]
Acháveis a perdição.
A vaga rolou-vos oiro;
Mas o negro e triste agoiro
Não foi mentido, não foi.
Chorai... e eu, quebrada a lança,
Hei-de também, qual criança,
Chorar só, um velho herói!...

Não... sim, que a minha armadura
Sumiu-se em cinzas no chão;
Contra mim alçou o século
Cruel, sacrílega mão;
E um só brado dum só peito[2]
Soou, perdeu-se desfeito,
E a mão feriu com furor.
Caí da minha grandeza;
Pouco hoje atesta a rudeza
Do fero pelejador.

De sete fortes castelos,
Que tive de meu — eu só —
Resta-me um, que os outros todos .
Não são hoje mais que pó.
Eram vivas sentinelas,
Ferozes, altivas, belas,
Do meu domínio real;
Cada massa de granito,
Era mais que um livro escrito,
Ira um brasão colossal.

Aqui e ali espalhados,
De provada solidez,
Podeis ver, inda soberbos,
Pedaços do meu arnês:
— De mil ameias dentadas,
Rijas muralhas, crestadas
Pelo bafo secular.
Mais grato o tempo, à passagem,
Por lauréis verde ramagem
Quis nas fendas pendurar.

Se alguém das raças vindouras
Se lembrar do velho rei,
Esses muros, se existirem,
Lhe dirão se eu governei.
Dir-lho-á, alçando a fronte,
Recortada no horizonte,
Essa torre onde eu nasci,
Gigante das velhas guerras,
Que vê por cima das serras
Sumir-se as raças, e ri.

Vede-o. Seus dentes agudos
Parece cravar no céu!
Foi o berço que me deram,
Há-de ser meu mausoléu.
Forte, em pé, jamais se abala;
É em vão que o raio estala,
Leve mossa apenas fez.[3]
Só tu, co'essa catadura,
Podes ser a sepultura
Do mais velho português.

Cerrem-se aí as memórias
Do vetusto Guimarães;
Seja esse o meu livro eterno,
— Portugal! pouco mais tens!
— Fulminai com dura guerra
Quem ousar lançar por terra
Esse brasão imortal;
Esse berço, onde dormira,
Do infiel sorrindo à ira,
A infância de Portugal.[4]


NOTAS:

[1] … se fundou uma torre... tem a sua porta... e ao entrar dela à mão esquerda... em uma pedra as letras seguintes =Via maris. = Carvalho — Corografia.
[2] Se nos não enganamos, foi o Snr. Gomes de Abreu quem censurou (com toda a razão) a C. de Guimarães, que mandou derrocar a penúltima torre.
[3] Um raio derribou-lhe uma das ameias.
[4] Pouco tempo depois da publicação desta poesia no Portugal, Guimarães chamava-se Cidade. Já se vê pois, que as jactâncias do velho eram, como as de muita gente, pouco sinceras.

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14 de fevereiro de 2009

12 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (4)

No dia 30 de Novembro de 1882, realizou-se a primeira reunião da Comissão Central que, em Guimarães, iria dirigir o movimento para a criação do monumento a D. Afonso Henriques.

Monumento a D. Afonso Henriques

Quinta-feira de tarde houve reunião da comissão central directora dos trabalhos para a erecção deste monumento, sob a presidência do sr. Presidente da Câmara, Dr. Mota Prego.

Resolveu-se dirigir às diversas Câmaras Municipais do país um convite para tomarem nos seus respectivos municípios a iniciativa de promoverem donativos para esta obra, que é verdadeiramente nacional, visto ser o pagamento duma sagrada dívida de gratidão à memória do que pela energia da sua vontade e pelo esforço do seu braço conseguiu dar corpo e foros de nacionalidade ao povo português.

Resolveu-se também agregar à Comissão o ill.mo sr. António José da Silva Basto, digníssimo secretário da Câmara Municipal.

A Comissão está animada da melhor vontade de dar cabal e completa satisfação ao encargo patriótico de que se incumbiu, e não deixará de empregar para isso todos os esforços e meios que estiverem ao seu alcance.

Religião e Pátria, 32.ª série, n.º 47, Guimarães, 2 de Dezembro de 1882
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10 de fevereiro de 2009

Terra Afonsina

Em tempos recentes, tem sido reavivado o debate em torno da naturalidade de D. Afonso Henriques. O lugar onde D. Teresa terá dado à luz o filho do Conde D. Henrique não tem relevância histórica, porque dele nada de procedeu historicamente relevante. Até porque o acto de nascer não constitui feito assinalável nem resulta da vontade daquele que nasce que, em tais circunstâncias, como o homem nascido da fala de António Gedeão, nem sequer é ouvido. Descobrir se o primeiro Afonso nasceu em Guimarães, em Coimbra, em Viseu ou noutro qualquer lugar será um desafio interessante para académicos e bairristas inflamados. Porém, não se vê o que possa acrescentar ao conhecimento da nossa história primordial.

Não sabemos, ninguém sabe e, provavelmente, nunca ninguém saberá o exacto local onde nasceu D. Afonso Henriques. Não o sabendo, sabemos que Afonso Henriques é de Guimarães. Por aquilo que fez em Guimarães mas, acima de tudo, porque os de Guimarães o fizeram seu. Afonso Henriques pode ser, ou não ser, vimaranense por seu nascimento; mas Guimarães é, inegavelmente, terra afonsina.

A presença de Afonso Henriques é inseparável da identidade vimaranense. Por aqui, a sua memória é omnipresente: ela está no Castelo, na toponímia, nas escolas, nos símbolos, no espírito das gentes e até mesmo no futebol, do emblema até ao estádio do clube da terra.

Em Guimarães, Afonso Henriques foi sempre lembrado, mesmo quando outros o esqueciam. E, não raras vezes, essa lembrança resultou de actos de participação cívica, com uma forte componente popular e certa dose de espontaneidade. Foi assim em 1885, quando os vimaranenses assinalaram os 700 anos da morte do primeiro rei, mesmo contra a vontade e os interesses do poder instalado localmente, foi assim com o movimento para a erecção da estátua que hoje se encontra na colina do Castelo (e de que há uma cópia, oferecida pelas gentes de Guimarães, no Castelo de S. Jorge, em Lisboa), foi assim em 1911, quando se assinalaram os 800 anos do seu nascimento, foi assim em 1928, quando se celebrou o oitavo centenário de S. Mamede. Em Guimarães, a memória de Afonso Henriques nunca deixou de ser assinalada, mesmo quando o que se assinalava pedia celebrações nacionais, como de Guimarães se pediam, e elas não aconteceram.

Assim será em 2009.
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9 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (3)

No dia 25 de Novembro de 1882, constituiu-se em Guimarães a comissão central que irá dirigir os trabalhos para a erecção do monumento a Afonso Henriques, sendo formada por algumas das figuras mais destacadas da cidade.

Monumento a D. Afonso Henriques

Reuniu-se no sábado, nos Paços do Concelho, a fim de se constituir e instalar, a comissão nomeada na reunião que houvera no dia 23. Ficou assim constituída:

Presidente – Dr. António Coelho da Mota Prego.

Vice-presidentes – Conde de Margaride e Barão de Pombeiro.

Secretários – Dr. Francisco Martins Sarmento, e Francisco Ribeiro Martins da Costa.

Tesoureiro – Manuel Ribeiro de Faria.

Vogais – Manuel do Castro Sampaio, administrador do concelho, Visconde de Lindoso, Dr. José da Cunha Sampaio, padre Francisco Xavier de Sousa Carneiro, Comendador Francisco José da Costa Guimarães, Domingos Leite de Castro. João Dias de Castro, João Pereira da Silva Guimarães, e João Pinto de Queirós.

A comissão resolveu agregar a si os snrs. António Ribeiro da Costa Salgado, e Serafim José Antunes Guimarães, cavalheiros naturais do Brasil.

Também resolveu ter reuniões ordinárias todas as quintas-feiras, e as extraordinárias que forem precisas para se dar desenvolvimento aos trabalhais de que está encarregada.

Religião e Pátria, 32.ª série, n.º 45, Guimarães, 29 de Novembro de 1882
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8 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (2)

O desafio, vindo do Brasil, para que se erguesse em Guimarães um monumento a D. Afonso Henriques, encontrou resposta de ambos os lados do Atlântico, dando origem a uma bola de neve que, em finais de 1882, parecia imparável.

Monumento a D. Afonso Henriques


Houve no dia 29 de Outubro uma importante reunião no Rio de Janeiro, para se acordar nos meios de levar; a efeito a grandiosa ideia de erigir, nesta cidade, uma estátua ao imortal fundador da monarquia portuguesa, D. Afonso Henriques.

A reunião foi muito concorrida, tomando parte nela os mais importantes membros da colónia portuguesa daquela cidade, além de bastantes cidadãos brasileiros de muita representação.

A notícia, que desta reunião dá o nosso estimável colega do “Cruzeiro”, vai transcrita noutro lugar desta folha, e por ela se vê com que fervido entusiasmo foi abraçada a grandiosa ideia.

Pareço que também se vão formar comissões para o mesmo fim nas outras cidades importantes do grande império, e tudo indica que sertã farta ali a colheita de meios para que o monumento ao nosso primeiro monarca seja em tudo digno e grandioso.

- Também nesta cidade, a convite da Câmara Municipal, há-de haver amanhã uma grande reunião, para se continuar a tratar deste importante assunto, em cuja realização estão empenhados o brio e a honra nacional, por ser o pagamento de uma dívida sagrada.

Ao nosso amigo, o snr. João Dias de Castro, feliz iniciador deste grande movimento, damos os parabéns por ver coroados de tão prometedores auspícios os seus esforços e trabalhos.

Religião e Pátria, 32.ª série, n.º 44, Guimarães, 22 de Novembro de 1882
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7 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (1)

A estátua que representa D. Afonso Henriques, que hoje se encontra na colina do Castelo de Guimarães, a que o povo noutros tempos chamava "Rei Preto", resultou de uma iniciativa cívica, lançada em 1882 a partir do Brasil pelo vimaranense João Alves Pereira Guimarães, então residente naquele país, numa carta que dirigiu à Câmara Municipal, que aqui fica:

“Ex.mo Snr. Presidente e mais membros da Il.ma Câmara Municipal da Cidade de Guimarães, Reino de Portugal.

Rio de Janeiro 17 de Julho de 1882 (Brasil).

Guimarães, o berço da Monarquia Portuguesa, deve dívida sagrada de gratidão, de reconhecimento e patriotismo, ao primeiro Rei e fundador da Monarquia Lusitana D. Afonso Henriques.

As nações cultas da Europa, tem pago as dívidas de honra aos seus excelsos Monarcas e grandes cidadãos, e os portugueses, especialmente os filhos da histórica cidade de Guimarães, ainda não projectaram ao menos, o mais evidente e mais santo e sagrado penhor de patriotismo português, dando impulso e realce aos projectos de grandioso monumento do glorioso guerreiro, que é a mais brilhante página da nossa história pátria e do cristianismo, como guerreiro Cristão. Sendo a Câmara Municipal o governo do Concelho, dirijo-me a V. Exa. e seus ilustres colegas da vereação a fim de tomarem a iniciativa para darem princípio aos trabalhos da grande subscrição, para ser levado a efeito o monumento – que deve ser inaugurado na praça do Toural ou em qualquer outra própria, para o mesmo fim. Se a estrada de ferro, vai dar importância à cidade de Guimarães, minha terra natal, a estátua de seu dilecto D. Afonso Henriques, moralmente vai dar-lhe honrarias e progresso civilizador. Avante! pois, dai mais uma prova de patriotismo pela pátria e por suas gloriosas tradições históricas.

Tome V. Exa. e seus ilustres colegas, a iniciativa de tão honroso cometimento, tenho fé que o levarão avante. Seja a Câmara Municipal de Guimarães, a comissão central em Portugal, e nomeie comissões parciais – no Reino – África e Brasil –. Só do Brasil pode obter-se a importância em donativos para a compra do Monumento em bronze fundido. Tomando V. Exa. e seus ilustres companheiros da Câmara Municipal cm consideração esta patriótica ideia, o abaixo assinado filho da cidade de Guimarães, promete levantar por meio da imprensa desta Capital do Império do Brasil, o espírito patriótico dos portugueses, com artigos publicados nos jornais da capital e províncias. Forneço a V. Exa. todos os dados, assim como, os nomes dos Portugueses e Brasileiros distintos – creio, aceitarão de bom grado as comissões, para agenciar donativos na Corte do Rio de Janeiro, e províncias do Império Brasileiro. Formada a Comissão geral em Guimarães, mandam V. Exa. imprimir circulares, que exponham as sublimes ideias patrióticas e pedindo o auxílio de todos para tão notável e patriótico fim.

Comissão geral no Rio de Janeiro. Conde de S. Salvador de Matosinhos, Português, Barão de Wildich, Consul Geral de Portugal no Rio de Janeiro, Conde de Cedofeita, português, Barão de S. Francisco Filho, Brasileiro amigo dos portugueses, Barão do Rio Bonito, idem, Visconde de Sistelo – Português, Barão de Misquita, idem, Visconde de St." Cruz, Brasileiro idem, Visconde de Silva, idem, Visconde de S. Tiago de Riba d'Ul, Português, Conselheiro Leonardo Caetano de Araújo, Português, Visconde de Arcozelo, Português, Barão de Faria, Português, Visconde de S. Cristóvão, Português, Visconde de S. Bernardo, Português, (morador em Petrópolis, Rio de Janeiro), Barão de Ribeiro de Sá, Português, Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, Conselheiro Senador do Império e amigo dos Portugueses, Conselheiro Jerónimo José Teixeira Júnior, Senador Conselheiro Manuel Francisco Correia, senador do Império, Deputados dr. Duque Estrada Teixeira, dr. Fernandes de Oliveira, Deputados Gerais. São todos amigos dos portugueses: seguem-se Comendador João Tomé da Silva, Comendador Joaquim Bernardino Pinto Machado, Comendador Joaquim José Rodrigues Guimarães, Comendador Manuel Salgado Zenha, Ernesto Cibrão, Elísio Mendes, redactor da “Gazeta de Notícias”, Dr. Castro, redactor do “Jornal do Comércio”, Comendador Gomes Brandão, redactor do “Cruzeiro”, João Alves Pereira Guimarães, redactor da “A Nação Portuguesa”, Comendador Agostinho Maria Correia de Sá. Comendador António Tomaz Pereira Júnior, Comendador António José Ricós, Jezué Senador Correia de Melo, Brasileiro, Barão de Guararema, idem, Comendador António Tomaz Quartins, Comendador Simão de S. Paio Leite, José Leite de Figueiredo, Comendador João José Martins de Pinho, Comendador Dr. João Baptista dos Santos (B), Comendador Heleodoro Avilino de Sousa Monteiro, Comendador António Maria de Paula Ramos, Comendador José Marcelino de Sá, Comendador Domingos Moutinho, Luís de Resende, Vítor Ressi, Henrique Ressi, Comendador Dr. António Alves Ferreira, Joaquim José Rodrigues Machado, Comendador António Alves Pereira Curuja Júnior (B), Dr. João António de Oliveira Magioli (B), Augusto Ferreira de Sousa, João Alves da Silva, Dr. Custódio Américo dos Santos, etc.”

in Manuel Alves de Oliveira, "O centenário de uma estátua e a sua história", Boletim de Trabalhos Históricos, Vol. XXXVIII, 1987, p. 1-23, Arquivo Municipal Alfredo pimenta, Guimarães, 1987.
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5 de fevereiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (14)

Centenário de D. Afonso Henriques

Não passou desapercebido em Guimarães o 7.° centenário do glorioso fundador da monarquia. A comissão de empregados do comércio, que meteu ombros às festas da celebração, saiu-se briosamente do seu intento. Se não foi uma festa soberanamente pomposa, como seria para desejar, foi modesta, mas digna.

Bandas de música percorreram as ruas tocando os hinos nacionais. O campo do Toural, o jardim, e a rua da Rainha, acharam-se adornados com elegância.

À uma hora da tarde celebrou-se, na igreja da Colegiada um soleme “Te Deum”, a que assistiram a Câmara Municipal, todas as autoridades, todas as associações, o ilustre deputado por este círculo, e numerosíssimos cavalheiros.

À noite iluminaram-se o jardim e a rua da Rainha; mas o tempo chuvoso não deixou infelizmente que estas iluminações tivessem todo o seu brilhantismo.

No jardim tocava uma banda de música, e na rua da Rainha outra.

Apesar da chuva a multidão nas ruas era grande.

Religião e Pátria, n.º 47, 38.ª série, 9 de Dezembro de 1885
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4 de fevereiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (13)

7.º Centenário de D. Afonso Henriques
6 de Dezembro de 1185 – 6 de Dezembro de 1885

Duas datas memoráveis nos fastos da história portuguesa: em 6 de Dezembro de 1185 nasce em Guimarães D. Afonso Henriques, o denodada fundador da monarquia, o ínclito lutador dos mouros; em 1885 a actual geração vimaranense, ainda que humildemente, comemora o 7.º centenário do seu filho mais ilustre. E, coisa notável! no dia em que a actual geração vimaranense comemora o 7.º centenário de seu filho mais ilustre, inspirada nas cinzas do grande guerreiro, levanta-se em massa e proclama em um grande comício popular com o seu deputado o sr. dr. Franco Castelo Branco a sua emancipação da tutela de Braga!

Duas datas memoráveis nos fastos da história portuguesa!

O 7.º centenário da D. Afonso Henriques não passou desapercebido em Guimarães, como se dizia; dois briosos mancebos livraram-nos dessa vergonha. Apontemo-los: Albano Ribeiro Belino, Albano Pires da Sousa. Não fui uma festa brilhante, como era para desejar, mas foi significativa,
À alvorada duas bandas de música percorreram as ruas da cidade anunciando as primeiras festas. A rua da Rainha e Campo do Toural estavam embandeiradas com muito gosto e arte. À 1 hora da tarde houve Te Deum na insigne e Real Colegiada, com a assistência das pessoas mais gradas da cidade, entre as quais se achava o nosso ilustre deputado

As iluminações deveram ser brilhantes, mas o tempo, o cruel tempo, não as deixou brilhar.

Ainda assim, conservaram-se nos lugares mais abrigados até à meia-noite. Uma das bandas locou até altas horas no coreto do jardim e a outra estacionou na rua da Rainha. Nas ruas andava muito povo.

O Comércio de Guimarães, n.º 144, 2.º ano, 7 de Dezembro de 1885
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3 de fevereiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (12)

O Centenário

É amanhã o 7.° centenário de D. Afonso Henriques. Nesta cidade uma comissão de empregados comerciais prepara alguns, posto que modestos, festejos, que constarão de iluminações, música e “Te Deum” na igreja da Colegiada.

A excitação dos espíritos por causa do conflito com Braga, prende agora todas as atenções, não deixando por isso dar a estes festejos maior brilhantismo.

O nosso colega do “Comércio de Guimarães”, que se propunha publicar amanhã uma folha única comemorativa do centenário, anunciou também que, pelo mesmo motivo, resolvia não a publicar.

Religião e Pátria, n.º 46, 38.ª série, 5 de Dezembro de 1885
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2 de fevereiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (11)

Centenário de D. Afonso Henriques

Apesar de nada se fazer oficialmente para a celebração do sétimo centenário do fundador da monarquia, alguns mancebos entusiastas andam promovendo uma subscrição para fazerem alguns festejos nesse dia.

Parece que projectam iluminar o campo de S. Francisco, o passeio público e a rua da Rainha.

Religião e Pátria, n.º 44, 38.ª série, 28 de Novembro de 1885
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1 de fevereiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (10)

O 7.° centenário de D. Afonso Henriques

A simpatia que em todos os séculos de gente portuguesa mostrou pela memória do filho do conde D. Henrique torna-se respeitável, porque tem as raízes num afecto dos quais mais raros são de encontrar nos povos, a gratidão daqueles a quem muito deveram. Este afecto nacional chegou a atribuir a Afonso Henriques a auréola dos santos e a pretender que Roma desse ao fero conquistador a coroa que pertence à resignação do mártir. Se uma crença do paz e humildade não consente que Roma lhe conceda essa coroa outra religião também veneranda, a da pátria, nos ensina que, ao passarmos pelo pálido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas daquele homem, sem o qual não existiria hoje a nação portuguesa e, por ventura, nem sequer o nome de Portugal.

(Alexandre Herculano – História de Portugal, tomo I)

No dia 6 de Dezembro próximo completam-se exactamente 700 anos depois do falecimento de D. Afonso Henriques, o fundador da nação portuguesa.

A cidade de Guimarães prepara-se para comemorar solenemente este centenário e seria para sentir que a cidade de Coimbra o deixasse passar em silêncio.

Se Guimarães tem a glória de ser a pátria de D. Afonso Henriques, Coimbra ufana-se de ser a depositária das suas cinzas venerandas, desde que faleceu o grande monarca nesta cidade em 6 de Dezembro de 1185.

Na verdade seria deplorável que nesta cidade houvesse plena indiferença no 7.° centenário de D. Afonso Henriques, não se fazendo qualquer demonstração, por muito modesta que fosse.

Podem felizmente entrar nessa demonstração todos os partidos, quer da monarquia absoluta, quer da monarquia constitucional, quer do sistema republicano. Basta ter amor nacional.

Uma nação que é indiferente à memória dos seus grandes homens, é uma nação morta. E Coimbra sem dúvida não quererá passar pelo desaire de que se diga que lhe são indiferentes as cinzas do guerreiro ilustre, sem o qual (no dizer do grande historiador Alexandre Herculano) não existiria hoje a nação portuguesa e, por ventura, nem sequer o nome de Portugal.

Quando Junot, mandou fazer a redução do exército português, para a pouco e pouco o aniquilar de todo, chegaram do Porto a esta cidade de Coimbra os regimentos de cavalaria 6 e 9, os quais receberam aqui ordem para se desarmarem.

Foi geral o sentimento ao verem-se os bravos militares forçados a tão cruel sacrifício. Mais do que todos o sentiu o capitão de cavalaria 9, Luís Paulino de Oliveira Pinto da França.

Para lavrar um solene protesto contra a tirania dos invasores, entra Luís Paulino no templo de Santa Cruz, conduzindo pela mão um filho de menor idade, que tinha praça de cadete, e em presença do túmulo do D. Afonso Henriques quebra a sua espada e recita este memorável soneto:

“A teus pés, fundador da monarquia,

Vai ser a Lusa gente desarmada!

Hoje cede à traição a forte espada,

Que jamais se rendeu à valentia!


Ò rei, se a minha dor, minha agonia,

Penetrar pod’em sepulcral morada,

Arromba a campa e com a mão mirrada

Corre a vingar afronta deste dia!


Eu fiel, qual te foi Moniz, teu pajem,

Fiel sempre serei; grata esperança

Me sopra o fogo de imortal coragem


E as lágrimas que a dor aos olhos lança,

Aceita-as, grande rei por vassalagem,

Recebe-as em protestos de vingança!

Ora se as cinzas de D. Afonso Henriques inspiram ideias tão patrióticas, não queiramos nós os conimbricenses, que possuímos os restos mortais do fundador da nação portuguesa, deixar passar com deplorável indiferença o 7.° centenário do seu falecimento.

Aí fica a nossa lembrança. Oxalá que ela seja bem recebida.

Joaquim Martins de Carvalho

***

Diz o nosso prosado colega de Coimbra, o Conimbricense, que a cidade de Guimarães se prepara para comemorar solenemente o 7.° centenário de D. Afonso Henriques.

A cidade de Guimarães vai preparar-se modestamente para o centenário de D. Afonso Henriques, apesar da CÂMARA MUNICIPAL DE GUIMARÃES que odeia os centenários.

O nosso protesto será no último dia!

Agora diremos como Luís Paulino:

Ò rei, se a minha dor, minha agonia,

Penetrar pod’em sepulcral morada,

Arromba a campa e com a mão mirrada

Corre a vingar afronta deste dia!



O Comércio de Guimarães, n.º 141, 2.º ano, 26 de Novembro de 1885
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