26 de fevereiro de 2009

A Estátua de D. Afonso Henriques (8)

Monumento a D. Afonso Henriques

É sobremaneira significativo o modo como geralmente tem sido acolhida a ideia de perpetuar em mármore ou bronze a memória gloriosíssima do imortal fundador da monarquia portuguesa.

Nesta cidade, que se honra de ser o berço natal do famoso herói que com a ponta da sua invencível espada firmou em Ourique a autonomia da nacionalidade portuguesa, a ideia, como já temos dito por mais duma vez, fui abraçada com o mais febril entusiasmo, e a comissão, eleita na grande reunião do dia 25 do passado Novembro para dirigir os trabalhos concernentes à sua realização, tem tido a gratíssima satisfação de não encontrar uma só recusa em todas as pessoas a que se tem dirigido para subscreverem, tendo aliás recebido muitas subscrições espontâneas de cavalheiros que, ainda antes de rogados, têm tomado a honrosa deliberação de se mandarem inscrever no rol dos subscritores, como quem sente, pelo forte estímulo do seu acrisolado amor pátrio, a imperiosa necessidade de afirmar a sua calorosa adesão a pensamento tão nobre e levantado.

No resto do país a imprensa, ao dar notícia do patriótico cometimento, tem aplaudido pelo modo mais lisonjeiro a honrosa iniciativa, e é de crer que em toda a parte esta iniciativa encontre, da dos que se ufanam de ter por pátria este velho mas glorioso retalho ocidental da Europa, numa cálida simpatia o mais favorável acolhimento.

Mas onde esta simpatia e este acolhimento são verdadeiramente extraordinários, é no Brasil.

Ali, não só entre a numerosa colónia portuguesa, mas até entre os próprios e mais importantes filhos daquele florescente império, reina o mais decidido entusiasmo pela ideia de se pagar esta sagrada dívida de gratidão.

Já aqui transcrevemos a listadas consideradas comissões que se organizaram em muitas das mais importantes cidades o povoações daquele país para coadjuvarem a grande comissão central do Rio de Janeiro no granjeio de donativos para se levar à realidade o glorioso cometimento para o qual nos veio de lá o impulso. Outras comissões se estão ainda organizando ali noutras cidades, e a imprensa, tornando-se o eco do geral entusiasmo, insere os dais calorosos artigos de adesão e de incitamento à nobre o generosa ideia.

São da “Nação Portuguesa” os artigos que adiante transcrevemos, e pelos quais se vê que não exageramos no que levamos dito.

“Ha oito séculos que teve o glorioso berço no condado do Guimarães o valoroso Príncipe D. Afonso Henriques. Armando a sua gente de guerra, os seus valorosos companheiros de armas, desde os campos de S. Mamede, foi levando de vencida o poder mauritano até ao campo de Ourique – ali deu ele a formidável batalha e foi aclamado por treze mil guerreiros: – Rei dos Lusitanos.

Ninguém nos tempos passados levou mais alto a fama das vitórias e ninguém mais se esforçou para a felicidade de um povo e crédito de uma nação. A ele tudo devem os portugueses e os descendentes.

O monumento que a câmara do Guimarães projecta levantar, na mesma cidade a esse filho dilecto, é uma sagrada dívida de honra. O monumento deste, ilustre rei é a estátua da própria nacionalidade.

Oito séculos são passados e ainda na ilustre cidade de Guimarães se observam saudosos os monumentos religiosos, e o castelo, teatro glorioso de sua heroicidade, assim como a igreja onde foi baptizado, e o palácio de seu nascimento. É pois, o mais alto dever de honra de uma geração ilustrada, oriunda de uma forte raça de heróis, levantar a estátua de seu primeiro rei e fundador da nacionalidade. Se Deus ainda concede a um povo levantar bem alto o pavilhão nacional com as armas desse benemérito guerreiro é preciso também atestar essas glórias passadas, com a - Estátua tio Rei D. Afonso Henriques. O que se passou por ocasião da sua coroação nas cortes de Lamego, é a mais brilhante página da história de um povo e a prova mais digna e sublime de um rei.

Naquele acro soleníssimo em que se acharam reunidos os três Estados do novo e florescente reino, disse o valoroso rei: “Quanto hei lidado por vossas liberdades, assaz o sabeis vós. Por testemunhas vos tomo e por testemunhas a este meu braço e espada, se alguém consentir em estranho domínio neste Reino, morra com os inimigos da pátria, e a ser filho meu ou neto, não reine.” A estas sublimes palavras, o príncipe rei, segurando em sua formidável espada, sempre vitoriosa, ouviu do todo o solene auditório: “Boa palavra, morram: Rei, que em alheio domínio consentir, não será de nós sofrido uma só hora no trono”.

Ao que el-rei pôs remate dizendo com a espada em cima do livro sagrado - assim se faça.

Ninguém mais do que D. Afonso Henriques merece um monumento que ateste às futuras gerações o valor e a honra de um povo benemérito da humanidade.

É também significativa a estátua para despertar nas futuras gerações o amor, o respeito e a sagração dos seus beneméritos heróis.

Quando este monumento aparecer à multidão e que os hinos marciais, os vivas, os entusiasmos, apoderando-se do povo português, devem também nos arrebatamentos do justo entusiasmo dizer: Honra aos beneméritos portugueses residentes nas terras de Santa Cruz e aos digníssimo cidadãos brasileiros que cooperam para este monumento histórico.


Religião e Pátria, 33.ª série, n.º 1, Guimarães, 16 de Dezembro de 1882

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