1 de fevereiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (10)

O 7.° centenário de D. Afonso Henriques

A simpatia que em todos os séculos de gente portuguesa mostrou pela memória do filho do conde D. Henrique torna-se respeitável, porque tem as raízes num afecto dos quais mais raros são de encontrar nos povos, a gratidão daqueles a quem muito deveram. Este afecto nacional chegou a atribuir a Afonso Henriques a auréola dos santos e a pretender que Roma desse ao fero conquistador a coroa que pertence à resignação do mártir. Se uma crença do paz e humildade não consente que Roma lhe conceda essa coroa outra religião também veneranda, a da pátria, nos ensina que, ao passarmos pelo pálido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas daquele homem, sem o qual não existiria hoje a nação portuguesa e, por ventura, nem sequer o nome de Portugal.

(Alexandre Herculano – História de Portugal, tomo I)

No dia 6 de Dezembro próximo completam-se exactamente 700 anos depois do falecimento de D. Afonso Henriques, o fundador da nação portuguesa.

A cidade de Guimarães prepara-se para comemorar solenemente este centenário e seria para sentir que a cidade de Coimbra o deixasse passar em silêncio.

Se Guimarães tem a glória de ser a pátria de D. Afonso Henriques, Coimbra ufana-se de ser a depositária das suas cinzas venerandas, desde que faleceu o grande monarca nesta cidade em 6 de Dezembro de 1185.

Na verdade seria deplorável que nesta cidade houvesse plena indiferença no 7.° centenário de D. Afonso Henriques, não se fazendo qualquer demonstração, por muito modesta que fosse.

Podem felizmente entrar nessa demonstração todos os partidos, quer da monarquia absoluta, quer da monarquia constitucional, quer do sistema republicano. Basta ter amor nacional.

Uma nação que é indiferente à memória dos seus grandes homens, é uma nação morta. E Coimbra sem dúvida não quererá passar pelo desaire de que se diga que lhe são indiferentes as cinzas do guerreiro ilustre, sem o qual (no dizer do grande historiador Alexandre Herculano) não existiria hoje a nação portuguesa e, por ventura, nem sequer o nome de Portugal.

Quando Junot, mandou fazer a redução do exército português, para a pouco e pouco o aniquilar de todo, chegaram do Porto a esta cidade de Coimbra os regimentos de cavalaria 6 e 9, os quais receberam aqui ordem para se desarmarem.

Foi geral o sentimento ao verem-se os bravos militares forçados a tão cruel sacrifício. Mais do que todos o sentiu o capitão de cavalaria 9, Luís Paulino de Oliveira Pinto da França.

Para lavrar um solene protesto contra a tirania dos invasores, entra Luís Paulino no templo de Santa Cruz, conduzindo pela mão um filho de menor idade, que tinha praça de cadete, e em presença do túmulo do D. Afonso Henriques quebra a sua espada e recita este memorável soneto:

“A teus pés, fundador da monarquia,

Vai ser a Lusa gente desarmada!

Hoje cede à traição a forte espada,

Que jamais se rendeu à valentia!


Ò rei, se a minha dor, minha agonia,

Penetrar pod’em sepulcral morada,

Arromba a campa e com a mão mirrada

Corre a vingar afronta deste dia!


Eu fiel, qual te foi Moniz, teu pajem,

Fiel sempre serei; grata esperança

Me sopra o fogo de imortal coragem


E as lágrimas que a dor aos olhos lança,

Aceita-as, grande rei por vassalagem,

Recebe-as em protestos de vingança!

Ora se as cinzas de D. Afonso Henriques inspiram ideias tão patrióticas, não queiramos nós os conimbricenses, que possuímos os restos mortais do fundador da nação portuguesa, deixar passar com deplorável indiferença o 7.° centenário do seu falecimento.

Aí fica a nossa lembrança. Oxalá que ela seja bem recebida.

Joaquim Martins de Carvalho

***

Diz o nosso prosado colega de Coimbra, o Conimbricense, que a cidade de Guimarães se prepara para comemorar solenemente o 7.° centenário de D. Afonso Henriques.

A cidade de Guimarães vai preparar-se modestamente para o centenário de D. Afonso Henriques, apesar da CÂMARA MUNICIPAL DE GUIMARÃES que odeia os centenários.

O nosso protesto será no último dia!

Agora diremos como Luís Paulino:

Ò rei, se a minha dor, minha agonia,

Penetrar pod’em sepulcral morada,

Arromba a campa e com a mão mirrada

Corre a vingar afronta deste dia!



O Comércio de Guimarães, n.º 141, 2.º ano, 26 de Novembro de 1885
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