20 de fevereiro de 2009

Do nascimento de Afonso Henriques

Há quase vinte anos, quando em Guimarães andou acesa a polémica acerca da hipótese do nascimento de D. Afonso Henriques em Coimbra, publicámos um texto sobre o assunto, que então provocou reacções curiosas algumas delas desbragadas. A sua releitura agora, quando voltou a andar no ar discussão acerca do nascimento do Rei Fundador, à volta de uma hipótese, a de Viseu, quase tão antiga como o nosso texto, pode ter algum interesse. Aqui fica.

AFONSO, REI DE PORTUGAL NASCIDO EM PARTE INCERTA

Há trinta anos que em Guimarães se luta para que nem sejamos chamados bárbaros, por ignorarmos a nossa história, nem sejamos objecto de mofa, por apresentá-la entretecida de lendas inaceitáveis.”

JOÃO DE MEIRA, 1913

Nos últimos tempos, andou a cidade de Guimarães envolvida em alguma agitação, a propósito do nascimento do primeiro rei português. O alvoroço citadino teve como origem o facto de alguém ter lido, num prospecto promocional de um dicionário, o verbete referente a D. Afonso Henriques, que o dava como tendo nascido em Coimbra, em 1109, e logo começou a bradar aos céus, lançando o dedo acusador em direcção a José Hermano Saraiva, sem que se vislumbre porquê, certamente por ser o único historiador em que alguma vez ouviu falar. E logo se disse que D. Afonso tinha nascido em 1111, na casa da residência dos reis de Leão, em Guimarães e que essa era a versão ensinada nas (escolas em quais?), publicada nos livros da especialidade, dicionários ilustrados, enciclopédias. Disse se que aquilo que se lia era espantoso: espantoso é um tal espanto. Afirmou-se que nunca em livro algum se tinha lido tal coisa. E como poderia ter sido de outro modo, se se dão tais mostras de nunca se ter lido um livro?

Iniciou-se então uma das campanhas mais burlescas e extravagantes a que Guimarães assistiu de há muitos anos a esta parte. Os seus mentores, quais cavaleiros de triste figura, bramiam contra os deturpadores da verdade histórica, proferiam catilinárias inflamadas, exigiam a cabeça de quem teve a ousadia de tais coisas afirmar. E, como convém nesta era de modernidade, foi uma autêntica campanha multimédia de inspiração grosseiramente inquisitorial: foram os escritos nos jornais, da terra e do Porto, as entrevistas em TV pirata, os programas exaltados na rádio, o pasquim lúgubre que, lançado por mão anónima (como é de bom tom nos pasquins), reclamava, em nome de um punhado de conterrâneos de Afonso Henriques, ao pretenso responsável por tal afirmação que a provasse, avisando o prof. Saraiva que em Guimarães as tradições são muito sensíveis e ameaçando publicar infundadamente que o seu (do professor) pai era outro. É que o prof. Saraiva, por coincidência, por essa altura, vinha Sociedade Martins Sarmento proferir uma conferência.

Não havia memória de tal delírio em Guimarães. Aos olhos dos vimaranenses, esta conferência apresentava-se como um autêntico torneio medieval. De um lado, ao grito que clamava “Aqui del-Rei, que nos roubam o Rei!”, arrebanharam-se as hostes dos briosos defensores das tradições locais, para forcejarem o prof. Saraiva a retractar-se das heresias que proferira. Do outro, eram os homens do professor, que acharam que mais valia prevenir que remediar: Saraiva subiria a escadaria da S. M. S. escoltado por grande contingente de polícias à paisana, que tomaram posições estratégicas na sala e nos corredores da Sociedade, cujas vetustas paredes não guardavam memória de semelhante aparato. O ambiente era de Verão, evidentemente quente. O punhado de vimaranenses aguardava o seu momento para iniciar as hostilidades.

Na sua oração de sapiência o professor Saraiva começou por esclarecer que jamais escrevera que D. Afonso Henriques nasceu em Coimbra e que desconhece quem o tivesse feito. E depois, no seu tom de demagogo eloquente, foi dizendo, com o rigor que todos lhe reconhecem, que, para ele, se a tradição diz que Afonso nasceu em Guimarães, é porque é verdade. E acabou com a questão, apelidando de gente sem escrúpulos o punhado de vimaranenses autor da campanha que naqueles dias se desenvolvera. E estes, dando de barato o ditado que fala da falta de bondade dos pais daqueles que se não sentem, não deram sinais de si. Bravos guerreiros! A montanha parira um rato bem mesquinho.

O ARGUMENTO DA TRADIÇÃO

É curiosa a argumentação do prof. Saraiva, dando à tradição o valor de prova documental. Porque, se assim é, o pobre Afonso, além de ter nascido com os joelhos colados, e de, apesar do rol dos seus filhos bastardos, ter sido um virtuoso milagreiro, ainda foi bafejado por um estranho dom da ubiquidade: nasceu em três sítios (pelo menos...): em Guimarães, como diz a tradição, em Coimbra, como diz a tradição e sustentam alguns dos mais insuspeitos medievalistas portugueses(1), e... na Síria, conforme reza igualmente a tradição de que nos dá conta Duarte Nunes de Leão, na sua Chronica do Conde Dom Henrique.

A problemática do nascimento do nosso primeiro rei é antiga, e tem atingido, em alguns momentos da História de Guimarães, foros de alguma polémica. Isto porque, para se estabelecer com precisão a naturalidade de Afonso Henriques, falta tudo o que é essencial: referências documentadas e fiáveis que indiquem tanto a data em que nasceu, que se ignora, mas que é possível estabelecer com relativa aproximação, como o local onde veio ao mundo, que do mesmo modo se não conhece, e que se revela bem mais difícil de fixar.

AS TESES DE JOÃO DE MEIRA

Uma das figuras mais ilustres de Guimarães do início do nosso século, João de Meira, escreveu, a convite da Sociedade Martins Sarmento uma notável conferência sobre a História da cidade, intitulada Guimarães 950/1580, que deveria ser proferida no 9 de Março de 1913. Tal conferência jamais teve lugar, posto que o seu autor cairia por esses dias no leito, atingido pela enfermidade que o levaria morte, poucos meses depois, em plena juventude e com muitas promessas por concretizar. Viria a ser publicada em 1921, na Revista de Guimarães, inserida na homenagem póstuma que a S. M. S. lhe dedicou. Aí se lê:

Nenhum documento coevo diz que D. Afonso Henriques nascesse em Guimarães. Os primeiros livros que referem o nascimento em Guimarães datam do século XVII e não alegam autoridade mais antiga. Como consequência: é incerta a naturalidade de D. Afonso Henriques.”

Não era esta a primeira vez que João de Meira colocava nestes termos a questão do local de nascimento de Afonso Henriques. Já em 19O6, igualmente na Revista de Guimarães(2), ele afirmava que “comunmente não se põe em dúvida que D. Afonso Henriques nascesse em Guimarães. Assim o afirma a maioria das histórias de Portugal, sem que possam abonar-se com um único testemunho comprovativo.” E cita, de seguida, o facto bem elucidativo de Alexandre Herculano, apesar de todas as pormenorizadas referências documentais de que se socorre para datar o nascimento de Afonso em 1111, nem ao de leve se referir ao local de nascimento. Aduz, ademais, que o Conde D. Henrique não tinha residência permanente, repartindo-se por Guimarães, Coimbra, Viseu, a Terra Santa, a França, a corte do sogro. E conclui: “Deste modo, colocar em Guimarães o nascimento de D. Afonso Henriques, é arriscar uma afirmativa que, conquanto bem possível, carece absolutamente de provas em que se escude.

ALFREDO PIMENTA

Não se conhece que, na época em que Meira escrevia estes textos, se produzissem em Guimarães grandes manifestações contra este insigne vimaranense, nem há notícia de que o tivessem tentado forçar, como agora se vê, a retractar-se de tais ideias. O que se conhece é a resposta que lhe daria Alfredo Pimenta. No seu artigo sobre Afonso Henriques, publicado no livro Guimarães – O Labor da Grei, editado aquando da Exposição Industrial e Agrícola de 1923, critica João de Meira, dizendo o “muito influenciado, em seus critérios e suas atitudes, pelo processo de Herculano”, afirma que a sua tese quanto à incerta naturalidade do rei Afonso é “um erro de João de Meira que cumpre rectificar”. Para tanto, socorre-se da Cronica delRey D. Affonso Henriques, de Duarte Galvão, publicada pela primeira vez em 15O5, portanto anteriormente ao século XVII mas, convirá notar, cerca de quatrocentos anos após o nascimento de Afonso Henriques, onde se pode ler:

Depois que o Conde D. Henrique assim foi casado com a Rainha D. Teresa, filha del-Rei de Castela como dito é, vindo ela a emprenhar, D. Egas Moniz, mui esforçado e nobre fidalgo, grande seu privado que com ele viera de sua terra, e a que tinha muita mercê, chegou ao Conde, pedindo-lhe que qualquer filho ou filha que a rainha parisse, lho quisesse dar para ele o criar: e o Conde lho outorgou. Veio a Rainha a parir um filho grande e formoso, que não podia mais ser uma criatura, salvo que nasceu com as pernas tão encolheito, que a parecer de mestres e de todos julgavam que nunca poderia ser são delas. O seu nascimento foi no ano de Nosso Senhor de mil e noventa e quatro. Tanto que D. Egas soube que a Rainha parira, cavalgou à pressa, a veio-se a Guimarães, onde o Conde D. Henrique estava, e pediu-lhe por mercê, que lhe desse o filho que nascera para o haver de criar, como lhe tinha prometido.”

Da leitura da crónica de Duarte Galvão, Alfredo Pimenta conclui “que o Conde D. Henrique estava nesse ano de 1094 em Guimarães, com sua mulher, e que aí nasceu o seu primogénito. A coisa é contada de tal maneira, que não havendo factos que a contradigam, temos que havê-la por certa”. Ora, tal conclusão não se pode, de modo algum, tomar como minimamente plausível à luz da documentação conhecida e que Pimenta não poderia ignorar.

ANACRONISMOS

Em primeiro lugar, a data do nascimento avançada não tem qualquer fundamento. Era impossível que o príncipe tivesse nascido em 1094: nessa data, provavelmente o seu pai ainda não estava na Península Ibérica, seguramente ainda não estava casado com a infanta Teresa, filha bastarda do imperador Afonso VI, nem esta estava biologicamente apta a aceder à maternidade, um vez que era ainda uma criança de muito tenra idade. E, mesmo ignorando este anacronismo, parece forçado concluir-se que Duarte Galvão tivesse escrito que Afonso Henriques nasceu em Guimarães. Ele não o diz em momento algum. E, do trecho citado, apenas se pode concluir que o Conde D. Henrique estava em Guimarães quando Egas Moniz soube que a Rainha parira. Não diz onde o local do parto. Ficamos na mesma: os mais antigos documentos que referem o nascimento em Guimarães datam do século XVII. E a falta de argumentos com que Pimenta se depara para defender a sua tese patenteia-se na necessidade que teve de basear a sua argumentação em Duarte Galvão, provavelmente um dos cronistas mais interessantes da nossa literatura, mas seguramente um dos menos fiáveis, uma vez que veicula como factos acontecidos uma série de lendas e historietas que circulavam no tempo em que escrevia.

Por outro lado, sustenta Pimenta que a data indicada por Galvão para o nascimento do infante 1094, lhe dá uma “idade magnífica para ser o batalhador dos campos de S. Mamede, para ouvir os conselhos do pai moribundo, e para ser baptizado por S. Geraldo.” Eis o conselhos que o Conde D. Henrique terá dirigido a seu filho, na versão abreviada por Duarte Nunes de Leão na Chronica do Conde Dom Henrique, quando, estando em Astorga, ali o teria chamado, por sentir aproximar-se a hora da sua morte:

E vendo, que o fim se lhe chegava, mandou chamar a Dom Afonso Henriques, que estava na vila de Guimarães. Ao qual depois de dar muitos conselhos de Príncipe prudente e pio, lhe encarregou o bom tratamento de seus vassalos, e que administrasse sempre justiça igualmente aos grandes e aos pequenos, sem aceitação e respeito de pessoa. E que guardasse sempre verdade, e não faltasse de sua palavra. Porque se nos homens baixos e plebeus parecia mal a mentira, muito mais era nos Príncipes, que na terra estavam em lugar de Deus, o qual é suma verdade. Acabado de lhe dar sua benção, lhe rogou que o mandasse enterrar na sé de Braga. E que se temesse, que enquanto o acompanhava, se levantassem os de Astorga, não fosse com ele, mas o mandasse pelos seus. Daí a pouco expirou, correndo o ano de MCXII.”

A simples leitura deste excerto, no fundamental comum às crónicas de Galvão e de Duarte Nunes de Leão, é suficientemente esclarecedora quanto à falibilidade da aceitação acrítica do seu conteúdo, conferindo-lhe foros de verdade histórica. Se, como já se afirmou, a data de 1094 não tem qualquer fundo de verdade, o mesmo não sucede em relação ao lugar e ao momento da morte de D. Henrique: foi em Astorga, em 24 de Abril de 1112. Sabe-se, através de documento coevo aceite como verídico(3), que o filho não tinha mais de três anos aquando do passamento do pai o que aponta para 1109 a data mais provável do seu nascimento, facto que lança por terra qualquer possibilidade de ele ter sido chamado a Astorga pelo pai a fim de lhe tratar das exéquias e prover à defesa da cidade, e atira para o campo da mais pura ficção todo o discurso do Conde. Deste modo, toda a argumentação expendida por Alfredo Pimenta para contestar João de Meira se revela esteada em fundamentos bem pouco consistentes.

Desdramatizemos: a questão do lugar de nascimento de Afonso Henriques é, no contexto da História nacional, um problema de lana caprina, dos que não tiram o sono a qualquer historiador. E o facto de se não conseguir provar documentalmente o seu nascimento em Guimarães, em nada diminui a História de que Guimarães tem boa razão para se orgulhar, nem é impeditivo de que se possa considerar o nosso primeiro rei como um vimaranense. Afonso Henriques, Guimarães e o advento da nacionalidade estão ligados estreitamente. E, se toda esta história teve alguma coisa de pouco dignificante para esta cidade, que alguns pretendem de cultura, foi o modo alarve e nada edificante como pretenderam defender as suas tradições históricas.

Notas:

(1) Por exemplo: Torquato de Sousa Soares, in Dic. Hist. Port., dir. por Joel Serrão.

(2) V. artigo: Os Claustros da Colegiada de Guimarães.

(3) Port. Mon. Hist., Scriptores, págs. 11 e 12, col. I. a.

[Texto originalmente publicada no jornal O Povo de Guimarães, no dia 23 de Março de 1990]

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2 comentários:

C. Freitas disse...

Caro Dr. Amaro das Neves,

Reli com gosto este texto, passados tantos anos. Ainda me lembro da discussão que ele gerou na altura. Se bem me lembro, no Comércio de Guimarães de então, saiu uma resposta que lhe dava umas bordoadas, salvo erro da autoria daquele que, à época, era director do CG. É engraçado como, passado todo este tempo, parece que as coisas quase não mudaram (v, p ex., o texto que o então director do CG publicou, esta semana, no Notícias de Guimarães).

Cumprimentos.

aan disse...

É verdade. Parece que história se vai repetindo. As tais "bordoadas" não deixaram mossa. O assunto foi esclarecido com o director do CG de então (na verdade, quem então me respondeu foi outro colaborador daquele jornal, não o director que, na altura, tratou o da matéria com elevação digna de registo).

Saudações.