10 de fevereiro de 2009

Terra Afonsina

Em tempos recentes, tem sido reavivado o debate em torno da naturalidade de D. Afonso Henriques. O lugar onde D. Teresa terá dado à luz o filho do Conde D. Henrique não tem relevância histórica, porque dele nada de procedeu historicamente relevante. Até porque o acto de nascer não constitui feito assinalável nem resulta da vontade daquele que nasce que, em tais circunstâncias, como o homem nascido da fala de António Gedeão, nem sequer é ouvido. Descobrir se o primeiro Afonso nasceu em Guimarães, em Coimbra, em Viseu ou noutro qualquer lugar será um desafio interessante para académicos e bairristas inflamados. Porém, não se vê o que possa acrescentar ao conhecimento da nossa história primordial.

Não sabemos, ninguém sabe e, provavelmente, nunca ninguém saberá o exacto local onde nasceu D. Afonso Henriques. Não o sabendo, sabemos que Afonso Henriques é de Guimarães. Por aquilo que fez em Guimarães mas, acima de tudo, porque os de Guimarães o fizeram seu. Afonso Henriques pode ser, ou não ser, vimaranense por seu nascimento; mas Guimarães é, inegavelmente, terra afonsina.

A presença de Afonso Henriques é inseparável da identidade vimaranense. Por aqui, a sua memória é omnipresente: ela está no Castelo, na toponímia, nas escolas, nos símbolos, no espírito das gentes e até mesmo no futebol, do emblema até ao estádio do clube da terra.

Em Guimarães, Afonso Henriques foi sempre lembrado, mesmo quando outros o esqueciam. E, não raras vezes, essa lembrança resultou de actos de participação cívica, com uma forte componente popular e certa dose de espontaneidade. Foi assim em 1885, quando os vimaranenses assinalaram os 700 anos da morte do primeiro rei, mesmo contra a vontade e os interesses do poder instalado localmente, foi assim com o movimento para a erecção da estátua que hoje se encontra na colina do Castelo (e de que há uma cópia, oferecida pelas gentes de Guimarães, no Castelo de S. Jorge, em Lisboa), foi assim em 1911, quando se assinalaram os 800 anos do seu nascimento, foi assim em 1928, quando se celebrou o oitavo centenário de S. Mamede. Em Guimarães, a memória de Afonso Henriques nunca deixou de ser assinalada, mesmo quando o que se assinalava pedia celebrações nacionais, como de Guimarães se pediam, e elas não aconteceram.

Assim será em 2009.
Partilhar:

0 comentários: