26 de abril de 2012

Alfredo Pimenta, por Miguel Salazar

Alfredo Pimenta (1882-1950), da série Vimaranenses Ilustres, de Miguel Salazar
Alfredo Pimenta foi um historiador e político vimaranense que se destacou no país na primeira metade do século XX. Se o seu percurso político foi acidentado e polémico (começou como republicano de tendência anarquista acabando monárquico e simpatizante dos regimes totalitários italiano e alemão), como historiador destacou-se pela seus estudos da Idade Média portuguesa. Miguel Salazar traçou o seu retrato para a série Vimaranenses Ilustres que vem publicando.
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12 de abril de 2012

Fernando Távora, por Miguel Salazar

Arquitecto Fernando Távora (1923-2005), da série Vimaranenses Ilustres, de Miguel Salazar
Nascido no Porto, o arquitecto e professor Fernando Távora está profundamente ligado a Guimarães, em especial pela marca indelével que deixou na arquitectura e no urbanismo da cidade. Aqui fica, em mais um dos retratos de Vimaranenses Ilustres de Miguel Salazar
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10 de abril de 2012

Sobre o "varandim" do Toural


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Ausente de Guimarães por alguns dias, acompanhei de longe a polémica que se reacendeu à volta do Toural, agora a propósito da colocação da obra de arte em forma de varandim dourado. Tendo-o visto hoje, com olhos de ver, suscita-me algumas reflexões.

1. O meu contacto com esta obra foi antecedido pelo visionamento de uma entrevista da autora daquela intervenção, a artista Ana Jotta, ao site Guimarães Digital, com declarações que não me pareceram particularmente felizes. Dizer que o Toural, tal como o conhecemos antes da configuração que agora apresenta, era “uma praça dos anos 50, mais ou menos” é sinal de que o “trabalho de casa” não foi bem feito. O Toural anterior a 2011 foi desenhado exactamente um século antes, na sequência da instauração da República, tendo sido completado no final da década de 1920 com a colocação do mosaico de quartzito e basalto. O único elemento da década de 1950 que lá existia era a fonte-monumento.

Por outro lado, julgo depreender da entrevista em referência alguma confusão na descrição do processo de produção da grade do Toural. Ao contrário do que a artista afirma, a fundição em molde de areia é um processo eminentemente industrial. Artesanal é o trabalho do ferreiro, o mestre da forja, do fole, da bigorna, do martelo e das tenazes, cuja arte tem, em Guimarães, larga tradição e notáveis artistas. Basta espreitar, sem sair do Toural, a loja do Ferreira da Cunha ou conhecer a oficina do artista que, ali para a rua de Donães, dá pelo nome de Gaspar Carreira.

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O mais surpreendente da entrevista é a afirmação de que “as pessoas gostam de vandalizar seja o que for”, a que subjaz a ideia de que o destino daquela obra é ser vandalizada. Ora, se há terra onde tal asserção não faz o mínimo sentido é Guimarães. Aqui, as pessoas não “gostam de vandalizar”. Bem pelo contrário. Em Guimarães, as pessoas estimam e preservam o seu património. E fazem-no com tais cuidados que a cidade ganhou o estatuto de Património Mundial.

2. Não me parece que varandim seja o nome mais adequado para aquele objecto. Um varandim é uma espécie de varanda estreita, colocada num ponto elevado, em geral com vistas privilegiadas sobre a paisagem. O que se encontra no Toural tem o nome de grade ou, para ser mais exacto, gradeamento. Varandim é pseudónimo ou nome artístico.

Gradeamento do Toural (pormenor)
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Grade de varanda do Toural, em ferro forjado (pormenor)
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3. O gradeamento do Toural é, como a artista o assume, uma cópia do que já existia no Toural, como se percebe olhando para a varanda de um dos edifícios que se encostam à basílica de S. Pedro. No entanto, o original, em ferro forjado, ganha em finura e elegância.

4. Desde Dezembro que nos fomos habituando ao Toural com a sua renovada condição se praça ampla e desimpedida. O gradeamento introduz uma barreira na praça e alguns engulhos no argumentário de quem se afeiçoou à nova praça e agora olha para a grade como um corpo estranho.

5. O revestimento a ouro do gradeamento é um barroquismo que se estranha. O dourado não integra a paleta de cores com que se pinta a cidade de Guimarães. Não faz parte da nossa cultura urbana.

6. Na minha opinião, de adepto confesso do projecto de requalificação do Toural, o gradeamento dourado está a mais. Não havia necessidade. Por mais que as busque, não encontro razões de natureza funcional nem de ordem estética que me suscitem simpatia por aquela instalação artística.

 7. No entanto, neste caso, como em tantos outros, o modo como o tempo nos fará olhar para o gradeamento resultará da forma como as pessoas se apropriarem dele. E, em vez do vandalismo anunciado, vejo uma singular manifestação de bem-querer, que replica uma tradição que se vai espalhando pela Europa, a dos “cadeados de amor”, neste caso de amor pela cidade.

Pont des Arts, em Paris, onde os namorados celebram o seu enamoramento  prendendo cadeados no parapeito da ponte, lançando as chaves ao rio.
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Um dos aloquetes "afixados" na grade do Toural.
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2 de abril de 2012

Moreira de Sá, por Miguel Salazar

Bernardo Moreira de Sá, da série Vimaranenses Ilustres, de Miguel Salazar 
Da série Vimaranenses Ilustres, aqui fica o retrato de Bernardo Valentim Moreira de Sá pelo lápis de Miguel Salazar. Bernardo Moreira de Sá, nascido em 1853, foi um exímio violinista e maestro, tendo dado origem a uma notável dinastia de músicos, de que se destacam Helena e Madalena Sá e Costa. Em Guimarães, é mais conhecido como Valentim Moreira de Sá, sendo patrono da Academia que ostenta o seu nome, instituíada pela Sociedade Musical de Guimarães.
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13 de março de 2012

A destilaria bracarense

Eis um mito urbano vimaranense, duplamente assustador, que circulou em meados do século XIX:

Muito pode a ignorância — Difundiu-se, entre o povo da cidade e subúrbios, um terror pânico de ser destilado depois de morto; o caso é este: espalhou-so o boato de que as pessoas que falecem no hospital da Santa Casa, são remetidas para Braga, a fim de ali servirem na destilação do gás! A graça é galante; porém, o que é mais galante é o povo ignorante acreditar nesta facécia e recusar ir para o hospital, dizendo [que] não quer ser destilado depois de morto. 
A Oliveira, n.º 3, Guimarães, 4 de Maio de 1860
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12 de março de 2012

Sampaio, por Miguel Salazar

Alberto Sampaio, da série Vimaranenses Ilustres, de Miguel Salazar
Prosseguindo com a sua série de Vimaranenses Ilustres, Miguel Salazar retratou Alberto Sampaio. Sampaio é um dos elementos mais destacados entre os responsáveis da "movida"  que aconteceu em Guimarães no último quartel do século XIX, tendo sido um dos entusiastas da Sociedade Martins Sarmento. Esta instituição convidou-o para organizar a Exposição Industrial de Guimarães, que é geralmente apontada como um importante factor de mudança de Guimarães rumo à modernidade. Inspirado no exemplo do seu amigo Martins Sarmento, dedicou-se aos estudos históricos e económicos, tornando-se, pela dimensão da sua obra, numa referência incontornável da historiografia portuguesa.
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Franco, por Miguel Salazar

João Franco Castelo Branco, da série Vimaranenses Ilustres, de Miguel Salazar
João Franco, deputado por Guimarães em legislaturas sucessivas, é a terceira figura retratada por Miguel Salazar na sua série Vimaranenses Ilustres. Quando João Franco foi eleito pela primeira pelo círculo de Guimarães era um perfeito desconhecido nesta cidade. Todavia, ganharia a simpatia e o reconhecimento dos vimaranenses por ter abraçado a sua causa aquando do conflito com Braga, na sequência dos maus-tratos de que foram objecto os três representantes de Guimarães à Junta Geral do Distrito, em 28 de Novembro de 1885. Franco chegaria a apresentar nas Cortes uma proposta de desanexação de Guimarães do distrito de Braga.
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Brandão, por Miguel Salazar

Raul Brandão, da série Vimaranenses Ilustres, de Miguel Salazar
Miguel Salazar retratou o escritor Raul Brandão, o escritor da casa do Alto, em Nespereira. É certo que nasceu no Porto, mas escreveu em Guimarães e esta cidade serviu de pano de fundo à sua  obra-prima, Húmus, e a outras obras relevantes da sua bibliografia, como A Farsa. Está sepultado na Atouguia e o seu espólio literário (biblioteca e manuscritos) encontra-se na Sociedade Martins Sarmento.
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11 de março de 2012

A lenda da Oliveira


A oliveira (à direita), numa gravura de 1861

A tradição hoje mais corrente acerca da oliveira da Praça fala num ramo trazido do olival que, em S. Torcato, dava o azeite com que se alumiava o santo e que, por milagre, um dia ganhou folhas e ramos. Mas, como já vimos antes, há uma outra lenda que associa o milagre da oliveira à entronização de Wamba como rei dos visigodos, no século VII. Aqui fica esta lenda, traduzida de uma publicação inglesa de meados do século XIX:

A árvore milagrosa de Guimarães
Uma lenda de Portugal, pelo padre Manuel.*

O reino gótico de Espanha, fundado pelo ilustre Eurico, que se estendeu por toda a Península, dos Pirenéus até às margens do Lusitânia, já durava há quase dois séculos, quando, com a morte do piedoso Recesvindo, os nobres se viram na necessidade de escolher um sucessor para o trono vago.

Esta era uma questão difícil, por todos os lados para onde viraram seus olhos para encontrar alguém digno de governar (o que não era uma tarefa fácil) entre a nobre raça dos godos; mas parecia provável que eles deveriam rolar os olhos para lá das suas órbitas, até que algum génio brilhante entre eles sugerisse que deveriam buscar ajuda e conselho da cabeça infalível da Igreja, para os tirar do lodaçal da dúvida e da dificuldade em que estavam mergulhados. Assim o fizeram. O sucessor de São Pedro apontou para o Oeste.

“Lá”, disse ele, “ireis encontrar um homem, factus ad wiguem, como diz Horácio, isto é, um homem bom, nobre, mas afável; sábio, mas humilde; piedoso e dócil, mas corajoso e guerreiro; procurai-o, pois ele é bem capaz de governar estes reinos. Wamba é o seu nome. Fazei-o o vosso rei, obedecei a este mandato e o Céu fará prosperar o seu governo.”

Imediatamente, foram despachados oficiais em todas as direcções para procurarem o monarca desejado. Andaram em vão de lugar em lugar, até que chegaram à bela província do Minho, o paraíso da Lusitânia. Aqui receberam a notícia de que, num dos seus vales mais pitorescos e férteis, morava um homem com o nome daquele a quem procuravam. Dirigiram-se imediatamente ao seu solar, mas ele estava longe de casa, e assim se entretiveram, enquanto esperavam, fazendo perguntas sobre ele pro et con. Ele tinha os pros. Descobriram que era um homem de grande erudição e de nascimento nobre, mas tão devotado à labuta pacífica da agricultura, que nenhuma sedução o poderia afastar dela, a ele que já estava muito além do auge da vida, e que era de um carácter muito benigno e suave. Concordaram imediatamente que este deveria ser o homem que o Papa havia indicado.

Entretanto, Wamba soube do propósito da sua vinda, e, consequentemente, recusou-se a regressar a casa até que partissem. Eles, no entanto, não eram homens para se deixarem derrotar nas suas intenções e, tendo dito aos vizinhos que haviam sido enviados para fazerem Wamba rei dos godos, todas as pessoas principais se juntaram à sua procura, pois esperavam que, sendo ele elevado a tal dignidade, tomasse naturalmente medidas para aumentar a prosperidade da sua terra natal e proporcionar fortuna no mundo aos seus antigos companheiros.

Alguns cronistas tolos afirmam que Wamba era um mero simplório, pobre e iletrado, e que assim o consideravam até então os camponeses da província, mas este é um grande erro, como a verdadeira história do tempo irá provar.

Os oficiais, que eram todos nobres de elevada condição, esperaram alguns dias em casa de Wamba, na expectativa do seu regresso, até que, finalmente, quando a sua paciência estava quase esgotada, um olheiro trouxe a notícia de que ele estava a caminho de casa com um grande rebanho de gado, que havia comprado numa feira vizinha. Então, começaram imediatamente a procurá-lo. Encontraram-no naquela parte do vale onde hoje está a bela cidade de Guimarães, abaixo de um monte elevado, no qual, vários séculos depois, o renomado Afonso Henrique construiu uma fortaleza, cujas magníficas ruínas existem até hoje.

Naqueles tempos bélicos, todos andavam armados, até mesmo o pastor observava o seu rebanho na encosta da montanha com o seu arco e lança, sempre pronto a proteger o seu dever, tanto contra os salteadores humanos, como contra o lobo que espreita. Assim, Wamba estava armado com uma lança dura e, aguardado por um numeroso bando de apoiantes, chegou na retaguarda de um magnífico rebanho de grandes animais de chifres curtos. Aqui, a tradição está mais uma vez em falta, por se acreditar falsa e erroneamente que ele levava um pau (um aguilhão) na mão, como se um homem tão grandioso tocasse, pessoalmente, o seu gado preguiçoso. Considerando que a história menciona claramente que levava uma lança de ponta brilhante e de tal forma que seria ainda mais desagradável retirá-la de um corpo do que cravá-la nele. Tão logo os nobres o viram e reconheceram pela sua barba branca e longa, estatura elevada e comportamento digno, o homem que procuravam, avançaram rapidamente e, postos de joelhos, ofereceram-lhe o diadema real.

“Façam-me rei, pois!” exclamou, “não eu, acreditem-me. Deixem-me cuidar das minhas preocupações com a agricultura e procurem alguém que seja suficientemente tolo para querer trocar o sossego e a segurança de uma vida pacata pela canseira e o perigo de um trono.”

Tendo-se assim apresentado, com mais honestidade do que civilidade, preparava-se para retomar a sua viagem.

Surpreendidos e irritados, os nobres não sabiam o que fazer, quando um deles, Duque Wifredo de seu nome, se levantou e, agarrando Wamba pela garganta e colocando o seu punhal numa proximidade desagradável, exclamou:

“O quê! Depois de nos dar todo este trabalho, você acha que devemos ser destituídos do nosso rei, que o próprio Papa indicou? Você será o nosso rei, quer goste ou não.”

“Homem tolo!” disse Wamba, atirando ao duque um tal olhar que, embora a sua genealogia diga que media seis pés seis, naquele momento o fez sentir extremamente pequeno, “que eu não vou ser o vosso rei, não vou”, impôs o seu argumento conclusivo, empurrando o exigente duque para uma distância de muitos metros.

Nada intimidados por esta circunstância, os outros nobres e as outras pessoas, reunidos em volta de Wamba, pressionavam-no, pedindo que ele se tornasse seu rei.

“Pela minha palavra, cavaleiros, este é um pedido muito estranho que me fazem. Aqui estou eu, numa fase avançada da vida, nada mais desejando do que paz e tranquilidade, e vocês têm a crueldade inconcebível de desejarem que tome sobre os meus ombros todos os cuidados da realeza. Ide-vos! Ide-vos! Vós falais loucamente. “

Apesar de sua recusa, as pessoas continuaram a pressioná-lo, levantando gritos de “Viva Wamba, rei dos godos! Viva o rei Wamba I” e não o deixavam mover-se do pequeno monte em que estava. O que o afligia ainda mais era que mesmo os seus seguidores mais próximos, que esperava ter do seu lado, ajudando-o a escapar, se juntaram ao resto da multidão nas suas vociferações. Por fim, irritado para além da medida pela insistência deles, gritou, ao mesmo tempo que fincava no chão a sua longa lança:


“Eu vos digo, cavaleiros, que podeis gritar até ao dia do juízo final, se assim vos agrada, mas até que a minha velha e rija lança se torne numa árvore, eu nunca serei o rei dos godos, assim me ajude a Virgem Santíssima e todos os santos na minha extrema necessidade.”

A essas palavras, o silêncio invadiu a multidão e o desespero apoderou-se dos peitos de nobres e camponeses, porque bem sabiam que ele nunca iria quebrar tamanho juramento e a única alternativa seria procurar um rei noutro lugar, o que não poderiam encarar com nada mais do que horror, considerando o desgaste da mente e do corpo a que já haviam sido sujeitos neste assunto; além disso, ficaram curiosos por saber o que poderia ter significado a recomendação do Papa de um homem que aparentemente se tinha, por tão grande juramento, colocado de fora da dignidade que lhe ofereciam. Sua Santidade poderia ter sido tomada por uma espécie de “visão”, e exclamando na capa pontifícia: “Ali está ele, não desejais levá-lo?”. O sentimento era de perplexidade e é impossível dizer até que ponto o seu poder e carácter de infalibilidade poderia ter sido abalado, se não fosse pelo que se seguiu. De crista caída e melancólicos, estavam prestes deixar Wamba prosseguir o seu curso sem o molestar, quando os mais próximos da lança gritaram de repente com sinais de alegria: “Um milagre! Um milagre!”

Todos os olhos se voltaram ansiosamente para Wamba quando, para sua surpresa, viram a velha lança dura e sem seiva, que Wamba tinha enterrado no chão, brotando folhas e lançando ramos. A reputação do Papa subiu de imediato: o processo de vivificação avançou e, em poucos minutos, havia no topo do monte uma árvore bonita e fértil. Wamba ficou tão perplexo como os restantes e, já não tendo qualquer desculpa para recusar a dignidade que, aliás, a mão do Céu tinha tão miraculosamente apontado como seu direito e seu dever, concordou em tornar-se o rei dos godos. Por muitos anos governou, feliz e prosperamente, o seu povo,  que nunca se arrependeu da escolha que fez e, desde então, em casos de dúvida e dificuldade, sempre se escutou o conselho de Sua Santidade.

A árvore permanece, até hoje, no centro da cidade de Guimarães e é uma prova irrefutável, se alguém dela necessitar, da verdade do milagre. Os habitantes piedosos, sensíveis aos benefícios inestimáveis que resultam da presença de tão milagrosa uma árvore, tratam-na com a maior veneração e cercaram-na com um gradeamento de ferro para a preservar de danos. Um pomenor da maravilha é que ela não aumentou muito de tamanho nem mudou de aparência desde que Wamba a plantou, tanto assim que os cépticos afirmam que a árvore original morreu há muito tempo e que a planta actual é uma plantinha renovada ocasionalmente à noite pelos padres da catedral vizinha, mas essa ideia é apenas digna dos infiéis e dos hereges e deve ser questionada por todo o católico verdadeiro e piedoso.

A igreja e o mosteiro foram imediatamente construídos por Wamba perto daquele local, à volta do qual, com o decorrer do tempo, surgiu a bonita e próspera cidade Guimarães.

*Deverá ser concedida alguma indulgência a algumas das expressões deste conto, se se recordar que foi escrito por um frade católico romano de outros tempos. – Ed.

William H.G. Kingston, Tales for all ages, Londres, 1863, pp. 200-204
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Martins Sarmento, coração e carácter


Fotografia de Francisco Martins Sarmento.

O sábio, e o arqueólogo sobretudo, sempre me apareceram sob este aspecto singular: homens que, à força de conviverem com a ciência hirta e as secas pedras, tinham endurecido o coração; homens de método e experiência, desavindos de tudo o que na vida e na natureza é simples e emotivo: árvores, amores, sol, o quinhão dos poetas enfim. Depois, porém, que conheci Martins Sarmento comecei a duvidar: estava diante dum sábio a valer, e ao mesmo tempo — o que é mais raro e mais apreciável — dum grande homem de coração e carácter.
Raul Brandão, 1900

Nascido no seio de uma família abastada de Guimarães, Francisco Martins Sarmento, mais do que de bens de fortuna pessoal, era dotado de um espírito inquieto que o empurrava para a cultura e o conhecimento. Era, no sentido original da palavra, um filósofo.

Leitor compulsivo, vivia rodeado de livros. Os seus estudos encaminharam-no para a História. Em 1868, começou a cultivar a arte da fotografia. Em meados da década de 1870, começou a estudar metodicamente a Citânia de Briteiros. Os avanços dos seus estudos foram registados sistematicamente nos seus apontamentos e nas suas fotografias.

Dotado de um notável espírito de observação e de um raciocínio penetrante, a sua experiência de caçador de perdizes e coelhos armava-o com resistência suficiente para aguentar longas caminhadas exploratórias. De novo caçador, mas agora de velharias, Sarmento esquadrinhou, ao longo de duas décadas, todo o território do Noroeste português, perscrutando nas pedras e na tradição oral a memória do passado que o tempo não tinha apagado. As notas dessas excursões e as notícias que a sua rede de informadores lhe fazia chegar foram vertidas para cadernos de apontamentos, cujas páginas revelam um homem talentoso e sagaz que, movido por uma imensa curiosidade intelectual, é o sujeito da construção do seu próprio conhecimento. Naquelas páginas observámos o percurso de alguém que, de simples curioso pelas velharias de outros tempos, sustentado por um espírito de pesquisador amador e por uma paixão de antiquário, se transforma num arqueólogo de renome internacional.

Há 130 anos, quando os seus conterrâneos quiseram demonstrar-lhe o seu reconhecimento, Sarmento recusou o monumento que lhe pretendiam erguer. Acabaria por aceitar a homenagem, com a condição de que assumisse a forma de um organismo vivo que contribuísse para a elevação cultural das gentes da sua terra. Assim nasceu a Sociedade Martins Sarmento, promotora da instrução popular. Porque, como escreveu Raul Brandão, Sarmento, “além dum sábio e dum grande coração, foi um homem que olhou para o futuro”.

(Texto escrito para o caderno de divulgação da exposição O Fotógrafo Martins Sarmento e do documentário Martins Sarmento, o tempo passado é já tempo futuro, editado pela Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura) 
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6 de março de 2012

Martins Sarmento, o fotógrafo

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Inauguração na próxima quinta-feira, dia 9 de Março, às 19h00 na Sociedade Martins Sarmento. Exposição comissariada por Eduardo Brito, do projecto Reimaginar Guimarães e da Área de Cinema e Audiovisual  para Guimarães -  Capital Europeia da Cultura 2012.
 
A ver com atenção.
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4 de março de 2012

Da inconstância do tempo



A propósito da falta de chuva neste Inverno, amenizada nos últimos dias, muito temos ouvido falar de mudanças climáticas. Com frequência, ouvimos dizer, porventura com alguma ligeireza, que “nunca se viu nada assim”. Tanto quanto sei, as inconstâncias meteorológicas são uma realidade de todos os tempos, como julgo que se pode concluir pela leitura do texto que vai abaixo, que escrevi em 2007 para uma publicação da Vimágua:


A água do Céu

Tendemos a acreditar que, no passado, a meteorologia teria, na sucessão das estações do ano, uma regularidade aproximada da constância do tempo cronológico. Ao Verão quente e seco, sucedia o Outono, mais fresco e chuvoso, que acabava no Inverno, que era frio e molhado, a que se seguia a Primavera, de tempo mais ameno, se bem que húmido. O ritmo da vida dos homens seguiria a marcha do tempo cronológico e meteorológico e o calendário agrário ajustava-se a essa regularidade. Esta visão idealizada do clima de outrora está longe de corresponder à realidade vivida pelos nossos antepassados.

A verdade é que as inconstâncias meteorológicas não são, longe disso, apenas uma realidade dos nossos dias. Aliás, no passado, os seus efeitos eram bem mais nefastos do que nos nossos dias. Olhando para os registos de que dispomos do passado, facilmente se conclui que a tal irregularidade dos elementos que compõem o clima era, afinal, bastante normal.

No passado, o maior problema que afectava a população da região de Guimarães, como a de qualquer outro lugar, no que respeita aos elementos meteorológicos, prendia-se com a água, ou seja, com a pluviosidade: muitas vezes, a chuva faltava, secando a terra e impedindo que frutificasse; outras caía em excesso, inundando os campos, destruindo sementeiras e dificultando a recolha dos frutos.

Para o passado remoto, não possuímos registos meteorológicos quantitativos precisos. Não obstante, dispomos de outros elementos que nos permitem perceber até que ponto as variações climáticas afectavam a vida das gentes. É possível compilar, por exemplo, nos registos existentes nos nossos arquivos, informação acerca das procissões de preces e das penitências a que as populações recorriam para intercederem para que chovesse ou para que fizesse sol. Partindo destes registos, podemos construir um exemplo esclarecedor: um homem que tivesse nascido em Guimarães em 1821 e que tivesse gozado uma longevidade excepcional, para o tempo, sobrevivendo até ao último dia do século em que nasceu, dos oitenta anos que teria durado a sua existência, em trinta e dois registaram-se crises meteorológicas. Ao longo da sua vida, teria sido testemunha, porventura participante, de inúmeras manifestações em que as gentes se apegavam ao seu último recurso, a fé, para implorarem chuva, em tempo de seca, ou rogarem por sol, em tempo em que a chuva não parava de cair. Algumas dessas crises, pelas suas consequências, deveriam ter ficado profundamente gravadas na sua memória.

Assim teria sucedido, muito provavelmente, com as inclemências meteorológicas do ano de 1838. O Inverno iniciado em 1837 foi marcado por muitas chuvas, que começaram a cair com particular inclemência no início de Dezembro. No final de Fevereiro, um grande temporal provocaria cheias nos rios da região, havendo então notícia de um acidente com um caixeiro que foi arrastado pelas águas, quando atravessava o rio Ave, no pontilhão das Taipas. O homem salvou-se, a custo, mas perdeu-se o macho em que viajava. Pelos dias que se seguiram, continuou a chuva, acompanhada por trovoadas e quedas de granizo. No dia 16 de Maio, como consequência da chuva e da água que se acumulava no solo, aluiu parte da ponte de Santa Luzia. No final desse mês, o cónego José Pereira Lopes, que deixou um precioso registo da vida em Guimarães ao longo de várias décadas do século XIX, anotaria no seu diário:

Até ao fim deste mês, houve grandes e copiosas chuvas, de maneira que as chuvas que houve desde a Primavera até este tempo, juntas com as que houve antes da Primavera, fizeram que este ano fosse um ano de tanta chuva, como não havia exemplo há muitos anos.

O mau tempo continuaria, até que, no dia 3 de Julho, Pereira Lopes registou no seu diário: foi o primeiro dia em que não esteve tanto frio. Os estragos da longa invernia tinham sido enormes. Mas aquele terá sido sol de pouca dura, já que, em meados de Novembro, se realizaram preces na Colegiada e em outras igrejas da vila, pedindo sol, para se poder fazer as colheitas, que estavam uma grande parte por fazer, por causa das muitas e continuadas chuvas que tinham havido em todo o Outono, não se tendo recolhido uma terça parte do pão.

Esta crise iria prolongar-se até ao pino do Verão de 1839. No dia 1 de Agosto, Pereira Lopes escreveu no seu diário que aquele foi o primeiro dia de calor que houve neste ano (apenas tinha havido um ou outro dia mais quente) tendo havido na primavera e parte do estio chuvas e bastante frio.

O ano de 1847 foi igualmente terrível, mas, desta vez, por causa da falta de chuva. Por essa altura, ainda o cónego Pereira Lopes escrevia o seu diário. No mês de Julho, sucederam-se na vila as preces ad petendam pluviam, implorando-se por chuva, pois a seca e o calor tinham impedido que nascessem os restivos, não havendo esperanças de que as terras secas dessem fruto algum.

No dia 3 de Agosto, uma procissão correu as ruas, com algumas irmandades e bastante povo, pedindo que Deus Nosso Senhor desse chuva. Todos os dias havia orações nas igrejas, porque a seca era grande, a ponto de se recear uma grande falta de pão. Novas procissões percorreram as ruas da cidade no dia 5 e no dia 11. No dia 12, ao princípio da tarde, entrou em Guimarães a imagem do Senhor de Ínfias, acompanhada de muitas irmandades da aldeia e imenso povo, até das Caldas de Vizela e outras povoações, ao quais se lhes reuniu muita gente da vila. No dia 20, voltou a chover em Guimarães. No dia 25, a milagrosa imagem do Senhor de Ínfias, que tinha estado recolhida na igreja das Dominicas, regressaria à sua ermida, pelo mesmo caminho que percorrera quando viera para Guimarães, indo acompanhada por imenso povo, tanto da vila, como da aldeia, assim como com as mesmas Irmandades que a tinham acompanhado para a vila. Mas a inclemência do tempo ainda não tinha terminado: só no início de Outubro é que voltaria a chover em Guimarães, pondo termo a uma seca como já há muito tempo não lembrava.

As consequências tinham sido terríveis. Durante o mês de Agosto, tinha morrido, segundo Pereira Lopes, uma imensidade de crianças de bexigas e diarreias, havendo dias que morriam oito e dez. No dia 3 de Setembro, foram sepultadas três crianças, das muitas que tinham sido vítimas das moléstias da quadra, bexigas e diarreia. O cronista daqueles dias de desastre acrescentava que pessoas adultas tinham morrido algumas, mas não foram muitas, mas crianças não havia um só dia que não morressem muitas. As crianças eram, de facto, as mais vulneráveis às afecções de carácter infeccioso que facilmente se propagavam nos períodos de calor e de seca, em que as águas escasseavam e em que se recorria, muitas vezes, ao abastecimento com águas impróprias para consumo humano.

As contingências meteorológicas, especialmente as secas cíclicas que devastaram esta região em finais do século XIX, contribuíram significativamente para que se procurassem novas soluções de captação, condução, tratamento e distribuição de água susceptíveis de assegurarem o abastecimento público sem descontinuidades, minimizando os efeitos de crises que, no futuro, poderiam ter efeitos catastróficos.

in Mãe-d’Água – Centenário do abastecimento público de Guimarães, ed. Vimágua, Guimarães, 2007, pp. 74-76
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Descobrir Martins Sarmento

Francisco Martins Sarmento (auto-retrato)

Francisco Martins Sarmento é uma figura que marca o século XIX vimaranense, tendo construído uma obra que projectou muito para além do seu tempo. Nascido nos tempos turbulentos da Guerra Civil entre os liberais de D. Pedro e os absolutistas de D. Miguel, seria, até ao fim, um espírito inquieto. Os dias que aí vêm, em que se completam 169 anos sobre o seu nascimento, são dias de evocação da sua figura, revelando algumas dimensões menos conhecidas da sua personalidade complexa.
Francisco Martins Sarmento é uma figura que se destacou na cultura portuguesa e europeia do seu tempo, em resultado da sua acção pioneira no conhecimento da arqueologia do Noroeste peninsular. Na sua cidade, Sarmento foi muito mais do que o arqueólogo. Vivia recolhido entre os livros da sua biblioteca e o campo das suas prospecções arqueológicas e etnográficas, de onde saía sempre que Guimarães o chamava para se envolver nas suas causas. Era uma espécie de patriarca vimaranense, cuja voz era respeitada e escutada. Foi assim, por exemplo, no conflito com o Seco, um juiz que afrontou a cidade, ou na contenda entre Guimarães e Braga que, em 1886, traria a autonomia para o concelho.
Sarmento foi, ao longo da maior parte da sua vida, um artista em busca da sua arte. Começou por estudar Direito da Universidade de Coimbra, mas os seus interesses estavam muito para além da aridez e da frieza dos textos jurídicos. Desde muito cedo que se lhe reconhecia a fama de leitor a tempo inteiro, devorando literatura em regime de permanência. Estudou os clássicos, sem se desligar da compreensão da realidade fervilhante da cultura dos tempos em que viveu. Escreveu poesia, tendo chegado a publicar um livro de poemas, mas cedo se desiludiu e compreendeu que o seu ofício não seria a arte poética. Fascinado com as novidades da ciência e da técnica, iria dedicar-se à decifração dos mistérios, feitos de luz e de sombra, da arte fotográfica. Nessa altura, já dobrara metade dos anos que iria viver.
A aprendizagem da técnica fotográfica por Martins Sarmento, pormenorizadamente descrita nos apontamentos que nos deixou, é um exemplo da persistência que se obstina contra a adversidade até que alcança o seu objectivo. Sarmento fez-se fotógrafo, mas a fotografia desempenharia, no seu trajecto, um papel que ultrapassaria o seu propósito inicial de fazer retratos artísticos. Se a fotografia ainda não era a arte maior de Sarmento, seria uma ferramenta essencial para o trabalho a que se devotou no último terço da sua vida e que tornaria o seu nome conhecido em toda a parte, a arqueologia. A fotografia foi um instrumento fundamental para o registo e para a divulgação das suas descobertas arqueológicas. Sem a fotografia, Sarmento dificilmente seria o arqueólogo cuja obra os seus conterrâneos celebraram através da criação da Sociedade Martins Sarmento, há 130 anos.
Os dias que aí vêm são dias de celebrar Sarmento, mostrando alguns aspectos, porventura até agora menos conhecidos, da obra do erudito vimaranense. No dia 8 de Março, será estreado no S. Mamede CAE o documentário Francisco Martins Sarmento – Entre a Memória do Passado e o Horizonte do Futuro, realizado por Jorge Campos, em resposta a uma encomenda da Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. No dia seguinte, abrirá ao público a exposição O Fotógrafo Martins Sarmento, comissariada por Eduardo Brito e integrada no ciclo Reimaginar Guimarães, e será lançado um livro-catálogo com fotografias e os diários fotográficos de Sarmento. À noite, em sessão solene na Sociedade Martins Sarmento, o arqueólogo Francisco Sande Lemos, profundo conhecedor das diferentes dimensões da obra do descobridor da Citânia de Briteiros, fará uma conferência sobre A fotografia de Sarmento: artefactos gravados no vidro.
Francisco Martins Sarmento é uma dessas raras figuras que, por vezes, acontecem na história de uma cidade e que constroem obras que se elevam muito acima da sua dimensão humana. Os próximos dias serão tempo para desvendar alguns segredos desta personagem extraordinária.
[Texto publicado em O Povo de Guimarães, edição de 2 de Março de 2012]
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3 de março de 2012

Sentimentos contraditórios

Foto de montra da Agência Funerária S. Sebastião
(clicar para ampliar)
Antigamente, a morte era uma figura familiar, e os moralistas deviam torná-la horrenda para amedrontar. Hoje, basta apenas enunciá-la para provocar uma tensão emocional incompatível com a regularidade da vida quotidiana.
Philippe Ariès, História da morte no Ocidente, Livraria Francisco Alves Editor, Rio de Janeiro, 1977, p. 142

Na sociedade contemporânea, a morte tornou-se em coisa inominável, quase tabu. Deixou de se exibir em público. É por isso que imagens como a que vai aí acima, em que a celebração do presente se mistura com a memória dos mortos, suscitam reacções contraditórias.
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29 de fevereiro de 2012

22 de fevereiro de 2012

José Ferreira Guimarães, fotógrafo imperial


Retrato de Francisco Inácio de Carvalho Rezende (1867-8), por José Ferreira Guimarães

José Ferreira Guimarães foi um dos mais destacados fotógrafos do Brasil oitocentista. Era português, nascido em Guimarães em 1841, de onde terá emigrado aos 11 anos. No Rio de Janeiro, aprendeu a arte fotográfica e tornou-se num dos mais afamados retratistas do Brasil, tendo alcançado o título, a poucos concedido, de Fotógrafo da Casa Imperial. Em 1867, apresentou numa exposição a maior ampliação fotográfica até aí produzida no Brasil. A casa fotográfica que havia criado um ano antes foi a maior do Brasil do seu tempo, com instalações sumptuosoas (um verdadeiro palácio de quatro andares, dedicado à fotografia). Tornou-se, rapidamente, num dos retratistas favoritos da elite brasileira, tendo adquirido vasta fortuna com o seu trabalho. Amigo de D. Pedro II, encerrou o seu ateliê após a instauração da República e, tal como o Imperador, mudou-se para Paris. Foi aí que apresentou, na Exposição Universal de 1889, o “Relâmpago Guimarães”, uma espécie de flash que permitia tirar fotografias em ambientes obscurecidos (as suas experiências foram anteriores à apresnetação do pó relâmpago, inventado pelos alemães Johannes Gaedicke e Adolf Mietke. Faleceu em Paris em 1924. Enquanto viveu no Brasil, viajou várias vezes pela Europea, para aperfeiçoar a sua arte e adquirir equipamento fotográfico. Há registo do seu regresso à Guimarães natal na Primavera de 1873.
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21 de fevereiro de 2012

Da linguagem popular (4)


Mais algumas palavras e expressões populares recolhidas por Alberto Vieira Braga. Da leta C.

Cabido — Pagar foro ao cabido — ter areia na bola, macacos no sótão; atolado; zoeira.

Cachaleira — Alto das costas. Levar de cachaieira — ao carrachucho: — a cavalo no cachaço, sobre os ombros.

Cachapina — Aguardente.

Cagadeira — Cagatório, casinha, sentina.

Calhorda — Mulher mal ajeitada e feia.

Canhão — (calão) Coirão, bucho, meretriz.

Canhenho — Que é vagaroso, acanhado; canhoto, esquerdo.

Carrachucho — Levar ao carrachucho — de escacha pernas sobre os ombros.

Cerimónia — Restos de comida que ficam nos pratos.

Cheira-a-testo — Que anda sempre a meter o nariz em tudo . (Inf. de Salvador Dantas).

Cheira-cus — Cheirão; que mete o nariz em tudo, mesmo onde não é chamado.

Chibas — (pop.) Barbas.

Chincalhão — Chinquilho — jogo do fito. Vem no N. D. C. F. em sentido diverso.

Chuchapitos — Insecto verde parecido com a vaca-loira. Chumbadouro — Parte do gonzo de uma porta que fica presa à parede.

Côdea — Pouca coisa — "Comprei um fato por uma côdea; por tuta e meia, etc.

Conas, Conatas, Conêtas — Forreta, unhas-de-fome, agarradinho; maricas.

Contas-de-enfiar-vinho — Azeitonas.

Corisca — Beata, pirisca — ponta de cigarro.

Cortiço — (calão) Ir como um cortiço — como um nabo, como um anjinho; enjegrado, carregado, azul, etc. (Inf. de S. Dantas).

Cozinha-de-ferro — Carro mortuário, pintado de negro e completamente fechado.

Crôco — Que tem pouca habilidade; estúpido. O N. D. C. F. regista o t. em sentido diferente.

Cróio — (calão) Rebo, samelo, calhau. Também o mesmo que cróia — mulher desavergonhada; rameira. (Inf. de S. Dantas).

Culatrão — Mulher muito gorda; meretriz reles.

Cúnfia — (calão) Confiança; apreço, etc. "Não lhe dou cúnfia." (Inf. de S. Dantas).
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O Entrudo: máscaras e folias, mesmo em tempo de guerra


Hoje é dia de máscaras.

Entre nós, nos tempos que correm, dias como este quase que só acontecem no Carnaval. Não era assim no passado, em que eram frequentes, ao longo do ano, os momentos festivos em que as gentes disfarçavam as suas identidades atrás de máscaras. Esse costume acontecia, por exemplo, nas vésperas das festividades religiosas, mesmo nas mais solenes, como o Corpo de Deus (em meados de Junho de 1729, D. Prior da Colegiada de Guimarães, D. João de Sousa fez publicar um em que condenava e proibia “o abuso de na véspera do Corpo de Deus e de outras festas, haver máscaras, representações, danças e bailes”). Havia máscaras para assinalar factos políticos (no dia 19 Julho de 1728, segundo o cónego Pereira Lopes, citado por João Lopes de Faria, “houve touros no terreiro de Santa Clara com máscaras e um baile. Tudo isto foi continuação das festas que se fizeram pelo aniversário do juramento que Sua Majestade o sr. D. Miguel I, deu de manter as Leis Fundamentais da Monarquia Portuguesa”; estas manifestações com mascarados tinham começado no dia 7 do mesmo mês). No século XIX eram bem conhecidas as mascaradas dos estudantes de Guimarães, em especial por ocasião das festas a S. Nicolau, que tinham a natureza de uma “festa de máscaras”. Podendo acontecer em qualquer época do ano e por qualquer motivo, os bailes de mascarados, em especial os realizados nos teatros, eram a principal manifestação com que em Guimarães se assinalava o Carnaval. Começavam várias semanas antes e terminavam em plena Terça-feira Gorda.

Do Entrudo de 1847 não temos notícia de bailes de mascarados. O povo não tinha grande motivo para festejos, já que se estava em plena Guerra da Patuleia. Nesse ano, o Carnaval aconteceu a 16 de Fevereiro, dia em que Pereira Lopes registou no seu diário:

"Decerto não haveria nesta vila grandes brinquedos de Carnaval (pelo desgosto e miséria em que estava todo o reino e principalmente esta província) se não foram os oficiais e soldados de infantaria nº 7, que então aqui se achava, jogando quase todos o Entrudo com grande gosto (este regimento era da corte) não se embaraçando com isso o seu coronel, andando até a ver, e rindo-se muito com as suas brincadeiras".

A pândega dos soldados foi um breve interregno nas movimentações das tropas. No dia seguinte, Quarta-feira de Cinzas, o batalhão dos foliões, que estava estacionado em Guimarães desde o dia 14, marcharia rumo ao Porto, para onde se aproximava o Duque de Saldanha. Com a tropa cartista fora de portas, logo se começaram a sentir as movimentações dos miguelistas nas imediações de Guimarães. No dia 18, a vila seria tomada pelos miguelistas. Um grupo de milícias, conhecido como o “batalhão de Fafe”, entrava em Guimarães ao som do hino da Maria da Fonte. Segundo Pereira Lopes, “à noite andou esta música a tocar pela vila acompanhada por muitos patuleias, dando vivas à Junta do Porto e morras aos Cabrais”.

A folia carnavalesca de 1847 não foi mais do que um breve interregno nas movimentações das tropas numa guerra fratricida.

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20 de fevereiro de 2012

Érico Veríssimo: um almoço em Guimarães em 1959 (3)


Érico Veríssimo

O almoço prosseguia. As conversas animavam-se. A Festada de Guimarães brilhava. Terminado o almoço — ouvidos e pronunciados vários discursos — fui cumprimentar os membros do conjunto e agradecer-lhes pelo espectáculo. Depois manifestei aos nossos anfitriões o desejo de andar a pé pelas ruas da tradicional cidade. Queríamos ver suas antigas muralhas, seus solares, arcadas e escalinatas. Não sei por que nos levaram a um museu arqueológico. Nada mais indigesto do que um museu desse tipo depois dum farto brodio. Deixamo-nos levar, que remédio! Gastamos nessa visita mais tempo do que devíamos, olhando sem genuíno interesse objectos de pedra de passadas civilizações, enfim, coisas que só podem ser interessantes para os estudiosos do assunto, e assim mesmo com tempo, muito tempo. E percorrendo as salas desse museu Mafalda e eu, desatentos e contrariados, víamos através das janelas que a tarde aos poucos envelhecia, o sol caía e o que queríamos era ir para a rua ver o que restava da Guimarães medieval, meter-nos pelos seus becos crepusculares, olhar as faces de seus habitantes. Terminou finalmente a penosa visita ao museu. Percebemos que o sol ainda não se sumira de todo. Renasceu-nos a esperança de poder ver alguma coisa da cidade. Mas qual! No momento seguinte arrastaram-nos para a sede dum clube de futebol juvenil, o Desportivo Francisco de Holanda, onde seus rapazes nos mostraram as taças de ouro e prata ganhas pela sua equipe em vários campeonatos, como também me pediram para deixar uma "mensagem" escrita no Livro de Ouro do Desportivo. Alinhavei meia dúzia de frases desenxabidas sob as quais assinei meu nome. E que Deus me perdoasse! 

Saímos para o ar livre. Restam no poente alguns tons de vermelho, roxo e rosa. Acendem-se as luzes de Guimarães. Sou informado de que vamos ser levados a ver numa visita-relâmpago um dos mais antigos castelos de Portugal. Seja! Um dos próceres de Guimarães é o nosso guia e aqui está sentado a meu lado, num automóvel em movimento. Em breve avisto o dramático perfil do castelo, com suas torres quadradas e suas ameias. Compreendo que vamos subir uma de suas escadas. Coragem! Noto que os degraus são muito altos. Os portugueses de antigamente deviam ser uns homenzarrões de longas pernas... Meu guia sobe depressa à minha frente, falando sempre, sem revelar a menor canseira na voz ou no ritmo dos passos. (No entanto deve ser uns dez anos mais velho que eu.) Começo a sentir uma ardência na garganta, uma opressão no peito... Numa das salas do castelo por onde ainda deve vaguear em ermas noites o fantasma de D. Afonso Henriques, faz um frio penetrante e húmido. Meu cicerone continua a contar de como D. Afonso rompeu relações com a própria mãe, cujos exércitos o seu próprio derrotou. Graças a essa vitória nascera a nacionalidade portuguesa! Não tenho ânimo nem para dizer: Viva! 

Por fim, descemos. Mafalda teve a sabedoria de não nos acompanhar na escalada. Despedimo-nos dos amigos, entramos no B.M.W. e deixamos Guimarães sem tê-la visto como desejávamos e ela merecia. E agora rodamos na direcção de Vila Real. Sei que daqui para diante os caminhos serão mais íngremes e perigosos, pois estamos começando a subir a Serra do Marão.
(…)

"Queres comer alguma coisa?" Espalmo as mãos sobre o estômago. "Sinto ainda aqui o memorável almoço de Guimarães. Como diria nosso Eça, 'comi como um abade'."

(Érico Veríssimo, Solo de Clarineta, Editora Globo, Porto Alegre, 1975)
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