4 de março de 2012

Da inconstância do tempo



A propósito da falta de chuva neste Inverno, amenizada nos últimos dias, muito temos ouvido falar de mudanças climáticas. Com frequência, ouvimos dizer, porventura com alguma ligeireza, que “nunca se viu nada assim”. Tanto quanto sei, as inconstâncias meteorológicas são uma realidade de todos os tempos, como julgo que se pode concluir pela leitura do texto que vai abaixo, que escrevi em 2007 para uma publicação da Vimágua:


A água do Céu

Tendemos a acreditar que, no passado, a meteorologia teria, na sucessão das estações do ano, uma regularidade aproximada da constância do tempo cronológico. Ao Verão quente e seco, sucedia o Outono, mais fresco e chuvoso, que acabava no Inverno, que era frio e molhado, a que se seguia a Primavera, de tempo mais ameno, se bem que húmido. O ritmo da vida dos homens seguiria a marcha do tempo cronológico e meteorológico e o calendário agrário ajustava-se a essa regularidade. Esta visão idealizada do clima de outrora está longe de corresponder à realidade vivida pelos nossos antepassados.

A verdade é que as inconstâncias meteorológicas não são, longe disso, apenas uma realidade dos nossos dias. Aliás, no passado, os seus efeitos eram bem mais nefastos do que nos nossos dias. Olhando para os registos de que dispomos do passado, facilmente se conclui que a tal irregularidade dos elementos que compõem o clima era, afinal, bastante normal.

No passado, o maior problema que afectava a população da região de Guimarães, como a de qualquer outro lugar, no que respeita aos elementos meteorológicos, prendia-se com a água, ou seja, com a pluviosidade: muitas vezes, a chuva faltava, secando a terra e impedindo que frutificasse; outras caía em excesso, inundando os campos, destruindo sementeiras e dificultando a recolha dos frutos.

Para o passado remoto, não possuímos registos meteorológicos quantitativos precisos. Não obstante, dispomos de outros elementos que nos permitem perceber até que ponto as variações climáticas afectavam a vida das gentes. É possível compilar, por exemplo, nos registos existentes nos nossos arquivos, informação acerca das procissões de preces e das penitências a que as populações recorriam para intercederem para que chovesse ou para que fizesse sol. Partindo destes registos, podemos construir um exemplo esclarecedor: um homem que tivesse nascido em Guimarães em 1821 e que tivesse gozado uma longevidade excepcional, para o tempo, sobrevivendo até ao último dia do século em que nasceu, dos oitenta anos que teria durado a sua existência, em trinta e dois registaram-se crises meteorológicas. Ao longo da sua vida, teria sido testemunha, porventura participante, de inúmeras manifestações em que as gentes se apegavam ao seu último recurso, a fé, para implorarem chuva, em tempo de seca, ou rogarem por sol, em tempo em que a chuva não parava de cair. Algumas dessas crises, pelas suas consequências, deveriam ter ficado profundamente gravadas na sua memória.

Assim teria sucedido, muito provavelmente, com as inclemências meteorológicas do ano de 1838. O Inverno iniciado em 1837 foi marcado por muitas chuvas, que começaram a cair com particular inclemência no início de Dezembro. No final de Fevereiro, um grande temporal provocaria cheias nos rios da região, havendo então notícia de um acidente com um caixeiro que foi arrastado pelas águas, quando atravessava o rio Ave, no pontilhão das Taipas. O homem salvou-se, a custo, mas perdeu-se o macho em que viajava. Pelos dias que se seguiram, continuou a chuva, acompanhada por trovoadas e quedas de granizo. No dia 16 de Maio, como consequência da chuva e da água que se acumulava no solo, aluiu parte da ponte de Santa Luzia. No final desse mês, o cónego José Pereira Lopes, que deixou um precioso registo da vida em Guimarães ao longo de várias décadas do século XIX, anotaria no seu diário:

Até ao fim deste mês, houve grandes e copiosas chuvas, de maneira que as chuvas que houve desde a Primavera até este tempo, juntas com as que houve antes da Primavera, fizeram que este ano fosse um ano de tanta chuva, como não havia exemplo há muitos anos.

O mau tempo continuaria, até que, no dia 3 de Julho, Pereira Lopes registou no seu diário: foi o primeiro dia em que não esteve tanto frio. Os estragos da longa invernia tinham sido enormes. Mas aquele terá sido sol de pouca dura, já que, em meados de Novembro, se realizaram preces na Colegiada e em outras igrejas da vila, pedindo sol, para se poder fazer as colheitas, que estavam uma grande parte por fazer, por causa das muitas e continuadas chuvas que tinham havido em todo o Outono, não se tendo recolhido uma terça parte do pão.

Esta crise iria prolongar-se até ao pino do Verão de 1839. No dia 1 de Agosto, Pereira Lopes escreveu no seu diário que aquele foi o primeiro dia de calor que houve neste ano (apenas tinha havido um ou outro dia mais quente) tendo havido na primavera e parte do estio chuvas e bastante frio.

O ano de 1847 foi igualmente terrível, mas, desta vez, por causa da falta de chuva. Por essa altura, ainda o cónego Pereira Lopes escrevia o seu diário. No mês de Julho, sucederam-se na vila as preces ad petendam pluviam, implorando-se por chuva, pois a seca e o calor tinham impedido que nascessem os restivos, não havendo esperanças de que as terras secas dessem fruto algum.

No dia 3 de Agosto, uma procissão correu as ruas, com algumas irmandades e bastante povo, pedindo que Deus Nosso Senhor desse chuva. Todos os dias havia orações nas igrejas, porque a seca era grande, a ponto de se recear uma grande falta de pão. Novas procissões percorreram as ruas da cidade no dia 5 e no dia 11. No dia 12, ao princípio da tarde, entrou em Guimarães a imagem do Senhor de Ínfias, acompanhada de muitas irmandades da aldeia e imenso povo, até das Caldas de Vizela e outras povoações, ao quais se lhes reuniu muita gente da vila. No dia 20, voltou a chover em Guimarães. No dia 25, a milagrosa imagem do Senhor de Ínfias, que tinha estado recolhida na igreja das Dominicas, regressaria à sua ermida, pelo mesmo caminho que percorrera quando viera para Guimarães, indo acompanhada por imenso povo, tanto da vila, como da aldeia, assim como com as mesmas Irmandades que a tinham acompanhado para a vila. Mas a inclemência do tempo ainda não tinha terminado: só no início de Outubro é que voltaria a chover em Guimarães, pondo termo a uma seca como já há muito tempo não lembrava.

As consequências tinham sido terríveis. Durante o mês de Agosto, tinha morrido, segundo Pereira Lopes, uma imensidade de crianças de bexigas e diarreias, havendo dias que morriam oito e dez. No dia 3 de Setembro, foram sepultadas três crianças, das muitas que tinham sido vítimas das moléstias da quadra, bexigas e diarreia. O cronista daqueles dias de desastre acrescentava que pessoas adultas tinham morrido algumas, mas não foram muitas, mas crianças não havia um só dia que não morressem muitas. As crianças eram, de facto, as mais vulneráveis às afecções de carácter infeccioso que facilmente se propagavam nos períodos de calor e de seca, em que as águas escasseavam e em que se recorria, muitas vezes, ao abastecimento com águas impróprias para consumo humano.

As contingências meteorológicas, especialmente as secas cíclicas que devastaram esta região em finais do século XIX, contribuíram significativamente para que se procurassem novas soluções de captação, condução, tratamento e distribuição de água susceptíveis de assegurarem o abastecimento público sem descontinuidades, minimizando os efeitos de crises que, no futuro, poderiam ter efeitos catastróficos.

in Mãe-d’Água – Centenário do abastecimento público de Guimarães, ed. Vimágua, Guimarães, 2007, pp. 74-76
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