31 de dezembro de 2011

Guimarães, segundo Craesbeeck (2)



[continuação]

2. Entre dois montes, muralhas naturais para a defesa, termos imóveis para a divisão dos lugares confinantes: o da Falperra e o de Santa Catarina, chamado de Lombeiro, e depois de Pombeiro, nas fraldas deste, duas léguas de outro, jaz Guimarães, edificada em forma oval, como já dissemos, cercada de fortes muralhas e torreado castelo, para a violência do ferro insuportável para o fogo (se se reformar) defensável: com serventia de 8 portas, com outras 8 pontes correspondentes, no fim do terreno; vias Régias para a comunicação externa; compasso a dois caudalosos rios: o rápido Ave e o delicioso Avicela, que servindo aos montes de Covas, serve aos campos de sangue: igualmente recreiam, sustentam o terreno, e em correspondência cercam seu termo 8 grandes povos, a saber: Barcelos, Porto, Pombeiro, Felgueiras, Basto, Monte Longo e Lanhoso: cidades e povoações, em todas as portuguesas histórias memoráveis, das quais nesta obra se verão particularizadas as suas memórias, com multiplicada narração de suas grandezas.


(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda., Barcelos, 1993,p. 83)
[continua]
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29 de dezembro de 2011

Guimarães, segundo Craesbeeck (1)


Em 1726, Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Corregedor da Comarca de Guimarães, escreveu as suas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, manuscrito que foi publicado em 1993, e onde é traçada uma descrição de Guimarães, que aqui iremos reproduzir:

Descrição desta vila

1. Ilustram a fundação de uma república insigne: terreno feliz, fundadores ilustres, antiga fundação, bons ares, águas salutíferas, fertilidade nos mantimentos, riqueza, comércios, esplendor nos edifícios, religião católica, esforço bélico, ciência literária, exercícios fabris industriais, governo dominante, regulado e político, e habitadores nobres: qualidades todas informantes de uma perfeita colónia, unidas para lustre de Guimarães. Todas estas prerrogativas tinha Guimarães com eminência, e todas hoje com melhores multiplica, como epilogara uma breve descrição de sua fertilidade.

(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda., Barcelos, 1993,p. 82)
[continua]
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28 de dezembro de 2011

Guimarães, por Miguel Torga


Miguel Torga
Em 1950, Miguel Torga publicou o seu ensaio Portugal, em que contava uma viagem de norte a sul do país, começando pelo Minho. Começa assim:


O verde come o resto do arco-íris...
Quem quer vir combater
Contra a monotonia?

Era em Caldelas que o meu desespero se exprimia assim. Mas qual o quê! As ninfas, engrinaldadas de limos, riam-se e mergulhavam nas fontes. E um companheiro de Fafe, daltónico como todos os seus com provincianos, só me sabia repetir:
- É sedativo...
- E bovino! - refilava eu.
Pouco depois, a caminho de Guimarães, com antolhos de parra a impedirem o aceno de qualquer horizonte, apetecia mais do que ruminar. Uma indizível melancolia, para além do quadrúpede, mandava especar a raiz num lameiro e vegetar.
Na citânia de Briteiros, a evocação dum passado sobranceiro aos charcos, todo vivido nas alturas agrestes do mundo, deu-me um pouco de calma. Infelizmente, logo a seguir, os aquistas das Taipas lembravam anjos a veranear numa nuvem de clorofila... Parecia uma alucinação. E comecei a parodiar-me:
O vinho é verde, o caldo é verde...
Era uma tolice rematada ir visitar a célula da nacionalidade com tanta folha nos sentidos. A cama da pátria deve espelhar a enxerga dos filhos. E, tanto no temporal como no espiritual, cada português nasceu sempre numa manjedoira de palhas secas. Mas, enfim...
O berço! Não há ninguém que não trema diante desta palavra. Tudo a depender dela, o bom e o mau, e a gente sem poder nada! Um momento social azado, o desvairo duma mãe, a ambição dum príncipe, a fidelidade dum aio, e eis uma nação que surge contra todas as forças que querem fazer da terra um descampado colectivo. A espada triunfadora baliza as conquistas, açaima as próprias razões da natureza, e é mais um país marcado a ferro no mapa, independente, singular, responsável. É mais um povo que pelos séculos dos séculos terá de arrastar um destino próprio, a fazer milagres da pobreza do chão, das vogais da língua, do lirismo da alma. De vez em quando poderá ter um acesso de fúria e tentar fugir de si. Baldada ilusão. Aonde chegar será sempre ele ainda, a morrer de saudades e a sonhar o regresso da aventura com uma pequena reforma. Como bálsamo, restar-lhe-á o narcisismo das façanhas passadas e o somático contentamento de ver crescer e progredir os mundos que descobriu e civilizou.
- Mas quem renega o ninho?
Era o fantasma de Soares dos Reis que fazia a pergunta, barbudo, infeliz, a macerar a mão de artista na cota de malha do Fundador.
- Eu cá, não!
Respondia-lhe de costas voltadas para o mostrengo do Paço dos Duques de Bragança, com os olhos postos na Capelinha de S. Miguel, toda ela a dar aconchego à pia baptismal do rei obstinado. Dizia-me mais ao coração a pureza simbólica daquela pequenez do que a grandeza balofa do casarão recheado de bricabraque.
Em baixo, estendido a nossos pés, o velho burgo mourejava corajosamente, numa actualização febril, esquecido da sua colegiada, da sua gárgula obscena e das suas varandas torneadas onde ainda hoje apetece namorar. A pátria não mastigava só com a dentadura patriótica das ameias do castelo...
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25 de dezembro de 2011

De volta ao pasmatório

Toural, 12:00 de hoje.
(clicar para ampliar)
Dia de Natal. Meio-dia. Os sinos da torre de S. Pedro tocam o hino de Guimarães. Na grande praça, os vimaranenses, teimosos como só eles, reincidem em contrariar os que prenunciavam (e também os que desejavam) que o novo Toural seria um desastre. Deserto, vazio, espaço por onde se passa mas onde não se vive, não-lugar lhe chamaram aqueles que anunciavam que a requalificação tinha tudo para dar errado. Afinal, deu certo. A praça voltou a ser o lugar onde as pessoas se juntam para discutirem as trivialidades do dia-a-dia. Está de volta a nossa sala de receber, o nosso sítio de ver e de mostrar, o nosso pasmatório.
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24 de dezembro de 2011

22 de dezembro de 2011

Subsídios para a história do léxico nicolino


Para a compreensão das Festas Nicolinas e da sua evolução histórica, é preciso compreender o seu léxico. Desde logo, os nomes das festas e dos seus números. Já percebemos que a designação Festas Nicolinas apenas apareceu quando já era entrado o século XX. Antes, eram designadas por festejos escolásticos ou por festas dos estudantes a S. Nicolau. Também os nomes dos números que compõem o programa das festividades tiveram o seu dinamismo no decurso do tempo.

De todos os números, o mais antigo será o das danças. Os documentos mostram que os estudantes de Guimarães já as faziam em meados do século XVII. Também podiam ser chamadas de folias ou comédias. Continuam a chamar-se danças.

As posses são um número que se mantém praticamente desde a origem das festas tais como as conhecemos. O nome deste costume vem da posse da antiga renda de Urgezes, que era devida aos coreiros da Colegiada. Ao longo do século XIX, esta designação estendeu-se à recolha das posses (ofertas) de particulares aos estudantes.

A referência mais antiga ao pregão, também conhecido por bando escolástico, aparece no pregão mais antigo que conhecemos. É de 1817 e foi escrito pelo médico e poeta João Evangelista de Morais Sarmento. O pregão de hoje é algo diferente dos mais antigos, mas mantém o nome original.

Já o pinheiro, com esta designação, é mais recente, aparecendo na segunda metade do século XIX. Antes disso, as referências ao acto inaugural das festas a S. Nicolau falavam no levantamento do mastro ou da bandeira das festas, quase sempre sem indicação de que o "pau da bandeira" seria um pinheiro.

As roubalheiras são um número recente das festas, tendo surgido aquando do ressurgimento de 1895. Inicialmente, chamavam-lhe rapto das tabuletas. Só a partir de 1899 é que começámos a encontrar o nome que hoje se lhes dá. Este tem sido o número mais mal-amado das festas, tendo sido frequentemente objecto de condenação na imprensa local. Ao longo do tempo, foi banido diversas vezes do programa.

As maçãzinhas, sendo um dos números mais antigos das festas, em que os estudantes distribuíam pelas moças de Guimarães, sem esquecer as freiras de Santa Clara, boa parte da renda que recebiam em Urgezes, que incluía, além de tudo o mais, dois centos de maçãs. Já nos primeiros pregões apareciam referências à entrega das maçãs rubicundas ou dos pomos do amor às damas de Guimarães, no dia 6 de Dezembro. Aliás, não eram só maçãs que os estudantes levavam às raparigas: em meados do século XIX também ofereciam, cravados na ponta das suas lanças, “açucarados bolos” e “lourejantes castanhas, de mistura com amêndoas, uvas de Alicante, e outras especiarias”. Este número era então chamado de distribuição das maçãs. Só em 1911 é que nos aparece, pela primeira vez, a expressão “distribuição das maçãzinhas”. Lentamente, chegar-se-ia à designação “cortejo das maçãzinhas” ou, simplesmente, “maçãzinhas”, denominação que seria “oficialmente” consagrada no programa das Nicolinas a partir do ano de 1961.

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Sala de receber

O Toural, hoje, pelas 17:00 horas
"O Toural modernizou-se. De suburbano passou a urbano. O Toural aldeão teve carta de cidadania. É hoje o que se vê: sala de receber."
(in A. L. de Carvalho, Antigamente… Guimarães, 1949, pág. 165-166)
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21 de dezembro de 2011

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (aditamento)




Na deambulação sumária pela história das danças de S. Nicolau que aqui trouxemos, ficou dito que o argumento que Bráulio Caldas preparou para as danças dos estudantes aposentados do ano de 1901 foi repetido nos anos de 1912 e de 1945. Assim foi, mas não se disse tudo. Em 1916, num momento de crise das festas, voltaram a exibir-se as danças de Bráulio de 1901. Por último, em 1945, os novos retomaram as mesmas danças, mas desta vez apenas a partitura musical.

Nas danças de 1912, organizadadas pelos estudantes aposentados, ao texto de Bráulio Caldas foi anteposto o seguinte texto, que seria repetido em 1916:


Das velhas Nicolinas arrancadas
A toques de zabumba ao pó do olvido,
Lembrar-se nestas eras avançadas,
É, de velhos, capricho aborrecido.!

Já da Briosa o brilho retumbante
Não chega a dar calor a velharias!
Nem deve o cidadão bom estudante
Desperdiçar o tempo em ninharias…

Mas aos velhos caturras e teimosos
Que da Festa fizeram um altar,
Meteu-se-Ihes nos cascos carunchosos
Qu'inda este ano não tinha d'acabar!

E sem medium, nem mesa, nem sessão,
Num gesto de protesto e de saudade,
Evocaram do Bráulio a inspiração,
Foram buscar o Bráulio à Eternidade.

E levados do Mestre pela mão,
Tal como quando alegre os conduzia,
Sustentam a briosa tradição,
O velho festival da Academia.

E nestas danças, obra do Poeta
Das Nicolinas velho entusiasta,
Esta a síntese da Festa, a mais concreta:
Está um hino de Saudade…

E é quanto basta.

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19 de dezembro de 2011

O Toural e as Nicolinas


O Toural está indissociavelmente ligado às festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau. Foi aí que, durante a maior parte do século XIX, os estudantes ergueram a sua bandeira anunciadora da festa. De todas as que conhecemos, a referência mais antiga a esta prática leva-nos até 1822. Nesse ano, o intendente geral da polícia proibiu as máscaras em dia de S. Nicolau. Os estudantes recorreram desta decisão para o rei, que, numa portaria de 12 de Dezembro, lhes concederia autorização para se mascararem. Para assinalar esta vitória, os estudantes ergueram a sua bandeira no Toural (um pouco fora do tempo, no dia 18) e, entre foguetes e repiques dos sinos, saíram à rua numa “encamisada”, recitando versos e dando vivas a D. João VI. O mastro com a bandeira, que viríamos a conhecer como o pinheiro, foi erguido no Toural até que, no final da década de 1870, se instalou na praça o jardim que se fechava atrás de grades e de portões de ferro. A partir daí, o pinheiro passou a ser conduzido para a praça de D. Afonso Henriques.

No passado, o essencial das festas de S. Nicolau acontecia no Toural, em redor do pinheiro. Assim sucedia com o magusto, que ocorria na madrugada do dia 5 de Dezembro e que os estudantes ofereciam aos músicos da banda que os acompanhava e aos homens que transportaram, em forcados, o mato da posse que recebiam dos oleiros da Cruz de Pedra. A seguir ao magusto, os estudantes partiam do Toural, ao som da banda de música, para recolherem as outras posses.

O Toural era também um dos principais palcos das danças. Depois do ajardinamento da praça, seriam exibidas no coreto ali instalado.

A praça era ainda o território da entrega das maçãs, que se iniciava com a entrada dos estudantes no Toural, passando em frente do pinheiro, em manifestação de homenagem à deusa da ciência, Minerva. As moças a quem eram oferecidas as maçãs postavam-se nas varandas da praça, o que aconteceu quase até ao final do século XX, altura em que este número foi transferido para as praças da Oliveira e de S. Tiago. Por coincidência, esta transferência coincidiu com o acentuar da decadência das Maçãzinhas que, no passado, eram um dos momentos mais altos das Festas Nicolinas.

E o pregão nunca deixava de passava passar pelo Toural, uma das estações onde era recitado.

E era lá que estava o chafariz, cuja vocação nicolina está bem documentada.

O Toural e as Nicolinas sempre andaram ligados. Renovada a praça, faz todo o sentido devolvê-la à sua condição de principal palco das festas dos estudantes de Guimarães. Ganhavam as festas e ganhava a praça.
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18 de dezembro de 2011

Praça, não Largo


Largo s.m, Espaço desimpedido numa povoação, mais amplo que nas ruas que nele desembocam, e menor, geralmente, que uma praça.

Praça s. f. (do gr. plateia, pelo latim platea) Lugar público, grande largo, geralmente rodeado de edifícios, para embelezamento de uma cidade, vila, etc., e como meio higiénico para melhor circulação do ar e plantação de árvores.

(Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado)

Antigamente chamaram-lhe campo, terreiro, campo, rossio ou praça. Em 1943, lembraram-se de lhe chamar largo. Vá-se lá perceber porquê. O Toural não é um largo. É uma praça. É hoje a nossa Praça Maior. Quando é que os nossos responsáveis se decidem a mudar a placa toponímica, ajustando o nome à coisa nomeada?

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O Toural visto do céu

O Toural, em vista aérea, no dia de hoje
(clicar para ampliar)
Eis o Toural visto do céu, numa fotografia tirada hoje pela minha maquineta. Eis aqui a praça de que todos falam, em toda a sua grandeza, sob a sombra da basílica imperfeita.
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De volta ao Toural

O Toural, hoje
(clicar para ampliar) 
Domingo, dia luminoso. O Toural, como já há muito o não víamos. Por toda a praça, grupos de pessoas conversam, apanhando o sol deste final de Outono.

O Toural volta a ser aquilo que foi e já não era há muito tempo: a sala de visitas de Guimarães.

Esta fotografia é dedicada a todo os que se têm preocupado com o vazio que teria transformado a nossa praça maior num sítio de passagem e atravessamento.


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17 de dezembro de 2011

Ressurgimento

O Toural numa fotografia de 1864
(clicar par ampliar)

O Toural, numa fotografia de hoje
(clicar para ampliar)
É algo que tenho dito repetidas vezes: em Guimarães, somos visceralmente conservadores no que toca a propostas de mudança e de reconfiguração do espaço construído. Não raro, mais do que conservadores, somos reaccionários. Aceitámos mal a mudança naquilo que fomos habituados a ver à nossa volta. E este conservadorismo não é necessariamente um defeito. Quando era moda “alindar” os centros históricos, com trejeitos de “modernidade”, em Guimarães sempre acabava por prevalecer uma atitude que privilegiava a manutenção da cidade intramuros tal como sempre foi (ou, para ser mais exacto, tal como se entendia que sempre foi). E não me custa reconhecer que, em larga medida, foi à sombra dessa atitude de resistência à mudança que amadureceram as condições que permitiram, um dia, que o centro histórico de Guimarães obtivesse o reconhecimento como Património Mundial. É dentro deste discurso que percebo algumas reacções que fui ouvindo, enquanto as obras duraram, a propósito da intervenção no Toural e áreas adjacentes. De repente, desaparecia-nos da vista o Toural que nos habituámos, desde sempre, a ver. No entanto, o Toural que existiu até aqui foi configurado na década de 1950, tendo recebido pequenas alterações no início da década de 1980. Das várias faces que o Toural tem tido ao longo do tempo, a mais antiga que lhe conhecemos é a que nos é dada pela fotografia da década de 1860 que vai aí acima. Como facilmente se percebe pela imagem actual da praça, o projecto de requalificação recentemente inaugurado aproximou o Toural do seu delineamento novecentista de praça  ampla e aberta. Não tardaremos muito a perceber que a requalificação do Toural  criou as condições para o seu ressurgimento enquanto principal centro cívico de Guimarães.
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14 de dezembro de 2011

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (conclusão)


As danças de S. Nicolau são, de todos os números das Festas Nicolinas, aquele que está mais marcadamente ligado às origens destas festividades. Já no século XVII os estudantes de Guimarães exibiam as suas danças, comédias e folias, nomeadamente para financiarem a construção da Capela de S. Nicolau.

Ao longo do tempo, estas manifestações foram evoluindo. No início eram exibições de teatro de rua, de cariz jocoso e burlesco, cujos intérpretes declamavam, cantavam e dançavam nas ruas, ao som do de tambores e pandeiros. Estas demonstrações tinham um cariz eminentemente carnavalesco, em que os estudantes apareciam mascarados, tradição que nas primeiras décadas do século XIX já era classificada como muito antiga (em 1827, o cónego Pereira Lopes escreveu no seu diário que nos dias 5 e 6 de Dezembro daquele ano, saíram mascarados os estudantes como nos tempos remotos costumavam andar). Por aquele tempo, as autoridades, com a pretexto da manutenção da ordem, proibiam, recorrentemente, os estudantes de saírem à rua com máscaras. Eram, então, frequentes os conflitos entre os estudantes e aqueles que, não gozando do foro escolástico, se introduziam nos seus festejos, com as identidades ocultadas por máscaras.

Como vimos, Feliciano de Castilho referia-se às festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau como uma máscara histórica, onde tinha lugar uma dança dos mascarados. Em 1865, o Vimaranense classifica estas festas como a clássica mascarada dos estudantes desta cidade, como festejo ao seu padroeiro S. Nicolau.

As danças dos estudantes aconteciam sempre no dia 6 de Dezembro (as excepções, aliás raras, resultaram de adiamentos forçados pelas condições climatéricas). Eram exibições de rua em que eram apresentados quadros humorísticos protagonizados por estudantes. Também eram executadas a algumas casas particulares, onde se dava de comer e de beber aos jovens artistas, como se lê no programa das festas de 1901:

Depois a dança da China,
Grande pagode chinês.
Há vinhinho e gelatina
Como não há muita vez
Em casa de gente fina.

Ao longo de décadas, as danças vão evoluindo no sentido de serem subtraídas à rua. Em 1856, terminaram, à noite, no Teatro D. Afonso Henriques (esse 6 de Dezembro foi chuvoso, pelo que, durante o dia, foram poucas as exibições dos mascarados). Esta terá sido a primeira vez em que as danças aconteceram num teatro. O relato que então fez o jornal Tesoura de Guimarães afigura-se surpreendentemente actual:

O Teatro D. Afonso Henriques estava tão cheio, que muita gente não pode entrar por falta de lugar, e outras se retiraram por incomodadas. Foi uma noite cheia, em que a juventude escolástica nada poupou para tornar-se agradável ao sexo encantador. Terminou o festejo era uma e meia hora.

Nos anos que se seguiram, as danças terminavam as suas exibições debaixo do tecto do Teatro. A partir de finais do século XIX, as folias estudantis de 6 de Dezembro iniciavam no Teatro D. Afonso Henriques o seu périplo pelas ruas da cidade.

Em 1906, segundo o Imparcial, muitas famílias presenciaram no teatro as danças, sendo os estudantes muito aplaudidos. Em 1912, as danças exibiram-se primeiro no teatro e depois nas ruas, modelo que se repetiu nos anos seguintes. Progressivamente,  iam passando para o interior do Teatro, mas sem que deixassem de ser exibidas nas ruas. Anos houve em que se fizeram duas exibições no Teatro, para corresponder ao interesse do público. Com o andar do tempo, a tendência seria para as danças abandonarem definitivamente as exibições nas ruas, passando a representar-se no espaço fechado das casas de espectáculos, com manifesto prejuízo para a sua dimensão de manifestação popular.

A partir de meados do século XX, num contexto de divisão, nem sempre pacífica, entre novos e velhos nicolinos, as danças de S. Nicolau vão sendo, paulatinamente, assumidas pelos antigos estudantes.

Nos tempos que correm, persistem, fazendo gala da sua eterna jovialidade, tendo sabido adaptar-se aos tempos. Hoje, as antigas folias de rua apenas perduram como memória remota e com alguns resquícios no cortejo da entrega das maçãs. As danças propriamente ditas, são hoje coisa dos velhos e mantêm a condição de comédias, saudavelmente desbragadas e incontinentes, agora seguindo um modelo próximo do das revistas. Acontecem em sala de espectáculos (antes passaram pelo D. Afonso Henriques, pelo Gil Vicente, pelo Jordão, pelo Auditório da Universidade; agora, vêm à cena no CCVF e não me admiraria que, mais ano, menos ano, passassem para o Multiusos, tantos são os que se queixam de não poderem assistir ao espectáculo, por escassez de lugares disponíveis).

Ps: Recorda-me o meu amigo Ricardo Gonçalves que as danças dos velhos também se exibiram, nos anos de 1994 (com textos de Ricardo Gonçalves, Casimiro Silva, Fernando Capela Miguel e Rolando Sampaio) e 1995 (com roteiro e letras de A. Meireles Graça), no Cinema S. Mamede.
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13 de dezembro de 2011

Os tempos do Toural

Em meados do século XVII, o Toural tinha uma imagem muito próxima desta (e, em tempos anteriores, não seria muito diferente). Do lado nascente, a muralha. Ao fundo, a Torre de S. Domingos (Porta da Vila). Nas frentes norte e poente, casas alpendradads. Em primeiro plano, o chafariz quinhentista. Do lado oposto, o "Cruzeiro do Fiado".
Ilustração de Alexandre Reis para as Danças de S. Nicolau de 2011.

A partir do início do século XIX, o Toural tinha esta imagem. Continuava a ser um campo aberto, sem árvores, nem jardim. À esquerda, parte da fachada pombalina. Ao fundo, a igreja de S. Sebastião, demolida em finais daquele século e o chafariz, no seu lugar original.

Em finais do século XIX, o Toural ganhou um jardim, cercado com grades. Tinha um coreto (o mesmo que hoje está na Alameda) e fechava à noite.

Em 1911, foram retiradas as grades do jardim. A estátua de D. Afonso Henriques passou a ocupar o centro da placa ajardinada.

Em 1940, a estátua de D. Afonso Henriques foi deslocada para juntodo Castelo. Discutia-se o que colocar no Toural. Uma das hipóteses avançaadas foi a de fazer regressar do Carmo o velho chafariz.

A solução encontrada para ocupar o espaço deixado vago pelo monumento de D. Afonso Henriques seria a de colocar na praça uma nova fonte-monumento. A praça adquiria em 1953 uma configuração muito próxima da que perdurou até à requalificão agora concluída.
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Dia de festa


Passam hoje 10 anos sobre a atribuição pela UNESCO do título de Património Mundial ao Centro Histórico de Guimarães. Neste mesmo dia, abre ao público a requalificação do Toural, que, aliás, envolve bem mais do que o Toural. Estendendo-se pela rua de Santo António, Toural, largo 25 de Abril, Largo Bernardo Valentim Moreira de Sá, Alameda de S. Dâmaso. Terreiro de S. Francisco e Campo da Feira. Este processo de obras é a intervenção mais extensa que aconteceu em Guimarães desde que D. Dinis completou a cerca nova (muralha) de Guimarães.

Em terra que nunca foi afecta a grandes mudanças e que ostenta galões dourados no que toca à qualidade da sua acção no campo da conservação e da valorização do seu património, qualquer intervenção no Toural que não fosse meramente cosmética arriscava-se a enfrentar a polémica. Assim aconteceu. Não faltaram as críticas, quase sempre centradas em detalhes. A mais recorrente tem sido a da retirada das árvores que rodeavam a placa central da praça. Do meu ponto de vista, esse não é um defeito, mas uma das principais virtudes do projecto de requalificação que agora se conclui. As árvores, tal como estavam distribuídas, confinavam a praça. A opção tomada devolveu a Guimarães a sua antiga sala de visitas, em toda a sua grandeza, valorizando, nomeadamente a vista da bela fachada do lado nascente, dita pombalina. E nem sequer é verdade que tenham desaparecido as árvores, já que foram plantadas mais do que as que foram retiradas. Com o pormenor adicional: agora, os bancos do Toural aproveitam a sombra das árvores, o que antes não acontecia.

A requalificação que agora se conclui devolveu ao Toural o seu chafariz quinhentista, agora recolocado no seu lugar original, de onde nunca devia ter saído. Com esta localização, o chafariz recupera a sua monumentalidade e a cidade ganha um novo ex-libris.

Mas tendemos a esquecer que obra é mais do que o Toural. É muito mais. É um magnífico contributo para tornar a cidade ainda mais amigável para os que nela vivem e para os que a visitam. O tempo fará justiça à visão de quem projectou e de quem decidiu fazer uma obra que é, em simultâneo, tão ambiciosa e tão contida.
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Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (10)


De 1932 a 1941, as Nicolinas não incluíram aquele que, por muitos, era considerado o seu número principal, as danças.

Em Dezembro de 1938, Maria Eduarda escrevia no seu Bilhete Postal, coluna que manteve durante largos anos no Comércio de Guimarães:

As festas Nicolinas viveram a sua época, — pertencem ao Passado.

Os seus melhores números, aqueles que iluminaram os nossos salões e foram o encanto da mocidade, não podem reviver, não! Levou-as a alma Académica. São flores murchas, crachás decorativos, que não encontrariam na nossa época o ambiente necessário.

Em 1942, as Nicolinas homenagearam José de Pina. Houve danças, que repetiram (pela terceira vez) as letras escritas por Bráulio Caldas para a edição de 1901 das danças dos velhos. Terão sido exibidas no Liceu, no Internato Municipal, possivelmente no Teatro Jordão e em algumas casas particulares.

Em 1943, houve festas incompletas, porque lhes voltaram a faltar as danças.

Em 1944, regressaram as danças, com letra de Delfim Guimarães. Segundo a imprensa, terão agradado.

No ano seguinte, uma comissão de velhos tratou de não deixar passar em branco o cinquentenário do ressurgimento das festas. O programa encerraria no dia 6 de Dezembro, com um Sarau de Gala no Teatro Jordão. Segundo os jornais, o teatro registou uma enchente como não havia memória, tendo-se realizado uma segunda representação, na segunda-feira seguinte. Subiu ao palco a revista Guimarães... Monumental, escrita por Filipe e Leão Martins. Neste ano houve danças dos estudantes novos, com texto de Delfim Guimarães.

As danças continuavam a realizar-se intermitentemente. Houve-as nas Nicolinas de 1947. Em 1951, as festas incluíram as danças, número que há muito não se fazia.

As festas de 1953 fizeram-se com danças, exibidas no Teatro Jordão, na sede do Grémio do Comércio, em algumas casas particulares, no Toural, para que o povo as pudesse admirar, e mesmo, mais tarde, em Pevidém.

Depois deste ano, voltamos a ter notícias de danças nicolinas no ano de 1960, as quais que foram escritas por Francisco Costa, e em 1964, com texto de João Xavier de Carvalho. Regressariam em 1972, com texto de A. Meireles Graça.

Nos 41 anos que durou o Estado Novo (1933-1948) apenas houve danças em oito edições das Festas Nicolinas. Os tempos não iam de feição para a livre expressão que sempre caracterizou esta manifestação dos estudantes de Guimarães.

Depois de onze anos de interregno, as danças regressariam em 1983, sob a batuta de Óscar Machado e com argumento de A. Meireles Graça.

Regressariam em 1986, para ficar. O autor das danças, definitivamente assumidas pelos velhos, seria, durante vários anos, A. Meireles Graças, que contou com várias colaborações.

Em 1992 seria a vez de uma equipa composta por Novais de Sousa, Fernando Capela Miguel e Rolando Sampaio.

A partir de 1996, entrou-se num novo ciclo, dirigido por Miguel Bastos, que assume direcção artística e a escrita do roteiro, a quem se foram associando outros autores de textos (no início, Rolando Sampaio e Ricardo Gonçalves).

E assim se vão fazendo as Danças que os estudantes de Guimarães, novos ou velhos, dedicam a S. Nicolau há mais de trezentos anos.
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12 de dezembro de 2011

Sobre o Pinheiro - testemunho de Hélder Rocha

Hélder Rocha, nas vésperas das Nicolinas de 2003

A propósito do texto que aqui publiquei, com o título O Pinheiro é dos "velhos" ou é dos "novos"?, em boa hora o meu amigo Miguel Bastos me recordou uma entrevista de Hélder Rocha ao Povo de Guimarães, conduzida por A. Rocha e Costa e Rui de Lemos, onde desfiava algumas das suas memórias sobre as festas Nicolinas, desde finais da década de 1920, e que merece ser lida, na íntegra, na página da AAELG - Velhos Nicolinos. Hélder Rocha entrou para o Liceu de Guimarães em 1927-1928. Desde então, esteve sempre ligado ao fenómeno Nicolino, tendo sido aclamado Nicolino-mor em 1988, pela sua dedicação à causa da festa dos estudantes de Guimarães. O que se segue são os excertos da entrevista em que se refere ao pinheiro, que nos permitem perceber melhor que as festas Nicolinas não são uma tradição que o tempo cristalizou, mas uma realidade dinâmica que sobrevive porque tem sabido adaptar-se à mudança:

O número principal não era de modo nenhum "O Pinheiro", como hoje acontece. O número principal nessa altura era, sem dúvida, as maçãzinhas.
O Pinheiro constituía tão só o anúncio à população do início das festas. A imagem do que acontece com as festividades populares da aldeia que são anunciadas através da colocação de um mastro colocado no adro da igreja ou no lugar central da freguesia. Ainda hoje essa prática ocorre em algumas localidades. O pinheiro representava esse mastro, o seu significado vai beber essa prática ou costume popular.
Cortejo sempre houve, mas naquele tempo só integravam o cortejo os estudantes novos. Os velhos só acompanhavam o pinheiro a partir do Toural. E, por tradição, só no campo da feira é que deveriam tocar.
O grande espectáculo eram as juntas de bois. Antigamente o transporte era feito com 50 ou 60 juntas de bois, era uma quantidade usada simbolicamente para o transporte. No meu primeiro ano foi assim. Agora, imagine a "chiadeira" que não era. Mas, o transporte do pinheiro era precedido de uma cavalgada. Um conjunto de indivíduos a cavalo envoltos em lençóis brancos e com um turbante, do género árabe. A rapaziada que não tocava caixa ou bombo acompanhava o cortejo mascarado geralmente de lavrador e com outras fantasias.
No meu regresso da Universidade, em 1951 deparo com as Festas Nicolinas "de rastos". Como a participação começava a escassear, porque naquele tempo não era fácil os pais deixarem os filhos de 15 e 16 anos virem para a rua até tarde ou então acabada a festa vinham recolhê-los, por outro lado dado o baixo índice de frequência de alunos no Liceu, os velhos começam a tocar e a integrar-se no percurso. A população já começava a vir às Nicolinas por hábito e não por gosto, por entusiasmo. As festas haviam-se, em consequência disso, deteriorado negativamente. A rapaziada sente então dificuldade de mobilização para as festas, até porque a população era pouca e não havia ainda, recorde-se, transportes públicos. Nessa altura apenas dois carros traziam cartazes ou legendas: era o carro da Minerva e outro destinado à sátira ou piada.
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Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (9)


Segundo o jornal Ecos de Guimarães anunciava, as danças de 1926 seriam escritas pelo Padre Gaspar Roriz e exibidas nos largos principais, para assim obedecer a uma velha praxe e satisfazer a curiosidade do povo que pela linda festa académica teve sempre a mais enternecida simpatia. Todavia, não chegaram a realizar-se, por falta de música.

Voltariam em 1927, de novo pela pena do Padre Roriz. Foram noticiadas assim no Comércio de Guimarães:

As danças, cuja letra pertencia ao velho entusiasta das festas o rev. Gaspar Roriz, mereceram como sempre, simpatia e aplausos.

Os rapazes andaram regularmente, apresentando-se bem postos, principalmente as “galantes” demoiselles, de saias pelo joelho e braços nus...

No teatro, aonde se exibiram a 1.ª vez, pela aglomeração de povo, estiveram iminentes alguns conflitos, que se não teriam dado se a força pública tivesse presidido desde a abertura da porta.

Em 1928, a Academia tinha sido seriamente afectada pela retirada de Guimarães do 6.º e do 7.º anos. Não obstante, realizaram-se as festas Nicolinas. As danças, com o título Os braços da Vénus do Milo, foram escritas por Jerónimo de Almeida. Segundo o Comércio de Guimarães, não foram tão vistas como nos anos findos, porque quase limitaram o seu raio de acção aos teatros. A novidade de as danças apenas terem sido executadas em recinto fechado resultou da necessidade de obtenção de receitas, por a subscrição para as festas não ter rendido o suficiente.

Em 1929, as festas estiveram fracas, apesar do reforço de uma delegação de estudantes que haviam feito os estudos preparatórios no liceu de Guimarães e que então frequentavam a Universidade do Porto. Não houve danças.

Em 1930, houve festas completas. As danças agradaram, embora fosse notório que necessitariam de mais ensaios.

As danças de 1931, com o título O Minuete, foram montadas por Jerónimo de Almeida, com a colaboração musical de António Guise. Neste ano, as festas não tiveram o brilho de outras eras. A retirada do 6.° e 7.° ano de Guimarães deu um golpe formidável nestas festas, escrevia-se no Comércio de Guimarães, segundo qual, no entanto, as danças fecharam com chave de ouro estes alegres festejos:

Por duas vezes se encheu literalmente o teatro Gil Vicente, na ânsia de presenciar o melhor número das festas Nicolinas.

A letra destas, bem como do bando escolástico, pertencia, como já dissemos, ao nosso amigo o snr. Jerónimo Almeida, que firmou o justo conceito em que era tido. Muito finas e mimosas e do mais belo efeito.

Os estudantes estavam bem ensaiados e optimamente vestidos.

Nas danças, alguns pares salientaram-se pela maneira donairosa e elegante como executavam alguns passos, merecendo aplausos.

No final, e após prolongados aplausos, foram chamados ao palco, aonde receberam justas ovações, pelos seus trabalhos, o snr. Jerónimo Almeida, o ponto, e o snr. António Guise.

Há ainda a salientar a distinta colaboração do novel professor de música o snr. Manuel Marques Ferreira, que acompanhado do snr. António Guise, foi incansável para o bom êxito das danças.

[continua]
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11 de dezembro de 2011

O Pinheiro é dos "velhos" ou é dos "novos"?

Cortejo do Pinheiro de 2011 (foto obtida aqui)
Depois de ler o último texto que aqui coloquei sobre a história das danças de S. Nicolau, em que se referia que no ano de 1912, na iminência de não haver festas Nicolinas, os estudantes aposentados (velhos) assumiram a sua realização, o meu amigo André Coelho de Lima recorda-me que

(…) há uma tese assente em factos idênticos aos que aqui relatas, que defende que o Pinheiro não era, originalmente, um número dos velhos, como hoje é. Tese aliás que parece ter elevado grau de probabilidade de certeza, pois não é presumível que o número tenha sido iniciado precisamente pelos velhos, mas apenas pelos novos. No entanto, a certa altura da História, o Pinheiro passou efectivamente a ser um número "dos velhos nicolinos" e apenas desses.

Isto dito, lança-me o desafio para contribuir para descobrir em que altura, e sobretudo por que razão, passou o Pinheiro de um número dos novos, para um número em que só podiam participar os velhos. Vou tentar corresponder ao desafio.

Antes do final do século XIX não havia distinção entre estudantes “no activo” e “aposentados”. Segundo o antigo Estatuto Escolástico, nas festividades a S. Nicolau podiam participar todos quantos frequentassem aulas, públicas ou privadas, bem como os que, sendo de Guimarães, frequentassem, ou tivessem frequentado, a Universidade, além de todos os membros do clero. Perderiam esse direito os que se casassem ou começassem a exercer cargos públicos ou a trabalhar em ofícios mecânicos.

À medida que se caminhava para o final do século XIX, seria visível que as festas a S. Nicolau iam sendo progressivamente assumidas por estudantes no “activo”, ou seja, por aqueles que estavam a frequentar aulas em Guimarães. Os antigos estudantes olhavam de fora para as festas, que para eles se tornaram em momentos de evocação e de saudade do tempo da juventude.

Era assim em 1895, aquando do ressurgimento das festas. Escreveu-se então, em O Comércio de Guimarães, a propósito da entrada do pinheiro daquele ano:

Atrás do “pinheiro”, vinha uma banda de música, tocando o antigo hino escolástico, hino que os velhos ouviam com vivíssima saudade e não poucos com arroubos de se lançarem nos braços da mocidade estudiosa, zombando por alguns momentos da idade que lhes vai apontando diariamente o seu ocaso.

Vai no mesmo sentido o que se escreveu no Vimaranense de 1899, também a propósito do pinheiro:

A alguns “velhos” ouvi de comoção dizerem com lágrimas de enternecimento na voz que a alegria dos rapazes os entusiasmava e electrizava fazendo-os perder a cabeça, e que a custo se continham, para não lançarem mão de uma zabumba e saltarem para o meio deles a fundir a sua “velhice” ao fogo entusiasta da sua alegria e juventude.

Em 1912, como já aqui vimos, todas as festas foram assumidas pelos estudantes aposentados. Tratou-se, todavia, de uma situação isolada, explicada pela politização da discussão à volta das festas dos estudantes, que então estava na ordem do dia. Nos tempos que se seguiram, voltou-se à antiga ordem: as Nicolinas, em especial o número do pinheiro, eram festas dos novos, a que os velhos assistiam com nostalgia e uma mal disfarçada vontade de nelas participarem, como se percebe pelo que se escreveu em 1923, no jornal Gil Vicente:

A entrada esteve boa. Muita zabumbada, muito gado, carro alegórico, etc., etc.

Até os “velhotes” foram lá meter o “bedelho”! Assim é que é. Muita harmonia, muita paz e sossego entre novos e velhos, para que a festa realce como os seus promotores tanto desejam.

Aqueles eram tempos em que a decadência das festas era visível, tendo-se agra no final da década de 1920, com a retirada a Guimarães do 6.º e do 7.º anos do Liceu. Em O Comércio de Guimarães dava-se voz, em Dezembro de 1928, a um caminho possível para a revitalização das festas:

As Festas Nicolina, que estavam na alma do povo, que para as ruas sai em massa, para ver a chegada do “seu pinheiro” desta forma perde o seu cunho de popularidade.

Mesmo é preciso, para que as mesmas não morram, modificar um pouco as diversões a fazer-se.

Se tanto for preciso, que lhes emprestem um pouco do seu entusiasmo, “os velhos”, aqueles que recordam sempre com saudade, os tempos em que as Festas Nicolinas eram tão queridas quão desejadas.

Em 1936, assinalou-se o centenário do Estatuto Escolástico. Nesse ano, não faltou no pinheiro o entusiasmo dos “novos” e o auxílio e o calor dos “velhos”.

Em 1945, a propósito das bodas de ouro do ressurgimento das Festas Nicolinas, foi dado mais um passo no sentido da apropriação do pinheiro pelos velhos. Foi constituída uma comissão de estudantes velhos, encabeçada por José de Pina, que se propôs auxiliar a Academia para dar maior brilho às festas daquele ano. E lá estarão, os velhos, no cortejo do pinheiro de 1945, massacrando as zabumbas em romagem de saudade pela juventude que já ia longe.

1953 terá sido um tempo em que este processo se acelerou. Nesse ano, os principais números das festas foram “cedidos” aos estudantes velhos. Iniciava-se uma tradição que ainda persiste. No final de um jantar de velhos no Restaurante Jordão, conta O Comércio de Guimarães, por proposta do snr. António Faria Martins, foi cantado o hino Nicolino, após o que rufaram os tambores, e todos se dirigiram para o Cano, onde fizeram a espera ao gigante “pinheiro”, que deu entrada na Cidade às 24 horas. Nesse ano, os velhos encabeçaram o cortejo do pinheiro, fazendo ecoar pelas ruas da cidade uma ensurdecedora música de Zés Pereiras.

Nos anos que se seguiram, os velhos foram reforçando o seu papel nas festas Nicolinas, em especial na entrada do pinheiro. Ao longo da década de 1960, prosseguiu a apropriação do pinheiro pelos velhos, num processo que envolveu o progressivo afastamento dos novos.

Quando, em 1972, o autor destas notas entrou para o Liceu de Guimarães, o pinheiro já era território sagrado dos velhos. Só eles podiam tocar durante o cortejo, até que o mastro estivesse erguido. A partir desse momento, caixas e bombos eram passados aos novos. Só então começaria a festa dos estudantes no activo. Esta prática era então apresentada como uma velha tradição, que alguns interpretavam como sendo inspirada em antiquíssimos ritos de passagem.

Há quem dê uma explicação de natureza política para a passagem do pinheiro para a alçada dos velhos, segundo a qual, numa manifestação de resistência a uma suposta proibição, em tempo de ditadura, os antigos estudantes teriam desafiado as autoridades, saindo à rua com o propósito de assegurar a continuidade da tradição das festas Nicolinas. Todavia, estou certo de que a passagem de certos números das festas (o pinheiro e, mais tarde, as danças) para as mãos dos velhos não terá um fundo de romantismo, antes ficando a dever-se à consciência das dificuldades dos jovens estudantes no activo em manterem viva, com todo o seu antigo fulgor, a velha chama das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau.

E eis como se percebe melhor a notável plasticidade das tradições que, para se manterem, têm que se adaptar aos fluir dos tempos.

Aqui chegados, seria interessante lançar-se a discussão acerca da hipótese de, à imagem do que acontecia na primeira metade do século XIX, eliminar a distinção entre novos e velhos nicolinos.

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Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (8)


Em 1911, as danças foram escritas por Sousa Macário, com o sugestivo título No país da orgia. Tiveram lugar na noite do dia 6 de Dezembro. Segundo o Imparcial, não obstante a luz eléctrica se portar malcriadamente para com os graciosos mancebos, centenares de pessoas corriam à compita às casas beneficiadas a implorar licença de entrar, para de um cantinho contemplarem e ouvirem as brejeirices dos simpáticos moços e moças os últimos arrancos das suas festas.

1912 foi ano em que as festas estiveram para não acontecer. A Academia Vimaranense, reunida em assembleia, decidiu, por maioria, não fazer as festas e apenas realizar um espectáculo de gala para assinalar o 1.º de Dezembro, com receita a reverter para a Caixa Filantrópica dos estudantes. Mas houve mesmo festas, pois acabaram por ser organizadas pelos estudantes “aposentados”. O texto das danças repetiu o de 1901, da autoria de Bráulio Caldas. A dissensão entre velhos e novos, que já tinha tido episódios anteriores, tendia a agudizar-se.
Já em 1913, não há notícia nem das festas, nem das danças. Ressurgiriam em 1914, mas com as danças excluídas do programa. Em 1915 não terá sido diferente. Em 1916 houve festas, mas os sinais de decadência eram demasiado evidentes. Houve velhos que apresentaram um arremedo de danças, mas, segundo as notícias, sem suscitarem grande entusiasmo. Não há notícias de danças no ano de 1917.
Em 1918. Anunciava-se (mais uma vez...):
Morreu S. Nicolau.
Vitimou-o a pneumónica!
Naquele ano, não houve festa, nem danças.

As festas Nicolinas seriam retomadas em 1919. As danças (com o título A noiva rejeitada) foram novamente escritas por A. L. de Carvalho. Exibiram-se, antes de saírem para as ruas, no Teatro D. Afonso Henriques.
Em 1920, os velhos assinalaram as bodas de prata do ressurgimento das festas em 1895. No dia 8 de Dezembro, realizaram uma récita de gala no D. Afonso Henriques. Houve festas e danças, muito adequadamente dedicadas à Liga das Nações.
Em 1921, as danças aconteceram no Teatro D. Afonso Henriques. Tinham por título Matinas de amor. Em 1923, voltaram a percorrer as ruas, depois de duas exibições no Teatro. A exibição foi sobre a Grande Exposição Nacional das Fábricas de Ciências, letras e tretas na pátria dos... lusios. Escreveu-se então, a seu propósito, no jornal A Razão:

Após o cortejo das maçãs, realizaram-se as tradicionais Danças Nicolinas, que, como nos primeiros anos das festas, percorreram as ruas da cidade. No Teatro foram exibidas duas vezes, sendo muito ovacionados o seu autor, Padre Gaspar Roriz, o ensaiador Jerónimo Sampaio e José de Pina, a quem Jerónimo Sampaio teceu elogios merecidos, lembrando a sua mocidade, o sou culto pelos estudantes-velhos e o seu talento.

Em 1924, as Nicolinas estiveram para não acontecer, em manifestação de luto pela morte de Sacadura Cabral. Acabaram por se realizar. As danças tiveram letra do inspirado poeta Tenente Heitor de Almeida, e música do regente da Banda do 20, Tenente Dantas.
No ano seguinte, as danças voltaram a ter a autoria de Heitor de Almeida. Segundo a imprensa, terão sido de grande efeito e delineadas pelo molde antigo.
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10 de dezembro de 2011

O chafariz do Toural e os banhos forçados das Nicolinas

O lado sul do Toural, numa fotografia de meados do séc. XIX. à direita, o chafariz, no lugar onde agora foi recolocado.
(clicar para ampliar)

Foi mandado fazer em 1587. Era, segundo o descreveu o Padre Carvalho da Costa, em meados do século XVIII, um chafariz do povo de vistosa grandeza, cercado de assentos para recreação do povo. Foi desmontado em 1873 e colocado no Largo do Carmo em 1891. Passados 138 anos desde a sua remoção, o velho tanque-chafariz do Toural acaba de regressar ao lugar de origem. Em boa hora.

O chafariz do Toural está estreitamente ligado às festas que os estudantes de Guimarães dedicam, há séculos, a S. Nicolau. Era nas suas águas que eram punidos aqueles que, sem gozarem do foro escolástico (isto é, sem reunirem os requisitos necessários para poderem ser considerados estudantes). Os banhos forçados na água do chafariz do Toural eram a pena para todo o casquilho, taful, caixeirinho ou ginja que, com a identidade oculta atrás de máscara, ousasse meter-se no meio dos festejos dos filhos da ciência, os estudantes. A designação de futricas, utilizada para referir, com desprezo, os não estudantes, é de importação tardia de Coimbra (aparece, pela primeira vez, em 1852).

No século XIX, eram recorrentes no texto do Pregão as referências ao chafariz do Toural como lugar de suplício da vil caixeirada. Aqui se recordam essas referências:

1819
Temos fino cuteau, tão cortadoiro,
Que, apenas apontado, estira um toiro.
Temos lança Aquileia, Hercúlea clava,
Catapulta feroz, Balista brava.
Há largo Chafariz para o mergulho,
Há sobejos torrões para o entulho.
Escolástico murro o queixo escacha,
Um pontapé ao meio as costas racha.
De altas vinganças o momento é este.
Tremei, Casquilhos... se esta Tropa investe...

1829
Como politicavas, caixeirinho,
Outrora, e de tal cor o teu colarinho,
Quererás também aqui dar colherada
Por dizer: três vezes seis dezoito nada?
Se não tomas juízo, ò meu brutesco,
No célebre Toural tens banho fresco.


1831
Se algum Milord de descarado papo,
Deixando da semana o velho trapo,
Desses que estrelas vêem ao meio-dia,
Só para no dia santo ter folia,
Em paga de meter de taralhão
Na malha cair, na nossa mão,
No tanque do Toural tem fresco banho
Para lhe refrescar calor tamanho.


1838
Este dia de Minerva é só p’ros filhos!
Respeito amanhã, olá casquilhos;
Mudos espectadores e mais nada,
Aliás toda a chorina é agarrada;
Malhais logo no tanque de mergulho
Em pena de altivez, de tanto orgulho.
Sem contemplação; lei, só lei valha,
Para punir o furor de tal canalha.


1840
A máscara em tal dia é um privilégio,
E quem o arroga sem lhe ser devido
Há de cara pagar sua ousadia;
Banho de gelo em chafariz espaçoso
As carnes arrepia em fria quadra;
Pois tal é a sorte, que o audaz espera,
Que empreender tresloucado um tal arrojo.


1842
Já neste dia de imortal memória
Ousaram mil e mil tão alta glória
E ao tanque do Toural no lodo imundo
Foram de rojo baquear ao fundo;
Que insultem outra vez a lei sagrada,
Que outra vez volverão ao lodo, ao nada

1843
Casquilhos, alto lá! vão escutando:
Respeite-se amanhã o nosso mando.
Algum de vestezinha estrangeirada,
Usurária, perjura caixeirada,
Qualquer outro, que seja delinquente,
Mergulhado no tanque é de repente.

1844
Se alguém se entremeter neste brinquedo,
Bem mal se sairá do seu folguedo;
Açoutes, pontapés e chicotadas,
De sobejo terá entre apupadas;
O tanque do Toural, bem cheio d’ água,
Seus brincos tornará em triste mágoa.

1844
E mal dos vis que no bestunto a mente
Lhes der para infringir a lei potente;
Ao Toural entre apupos arrastados,
Serão no largo tanque mergulhados;
E se alçarem também ousados braços,
Logo feitos serão em mil pedaços.

1845
Julgarás ter direito ao folguedo,
Que só de tarde lida é prémio ledo?
Um conselho te dou: mete-te em casa,
E para tempo passar assa na brasa
Castanhas, que não é tão mau recreio,
Bebendo-lhe também a rego cheio;
Quando não, entre apupos e alarido
No tanque do Toural vais ser metido.


1846
Foge, foge, ò corja proterva,
Não ouses, não, aos filhos de Minerva,
De mil fadiga, de mil lucubrações,
Roubar os mais devidos galardões;
Foge infame, aliás do lodo imundo
Ao tanque baixarás já moribundo;
E, se a vida Minerva carinhosa
Nesta te poupar crise perigosa,
Nem de eterno baldão, de opróbrio eterno,
É o ferrete marcar-te o tetro Averno.

1847
E tu, casquilho vão, embonecado,
Que Palas tens por Vénus desprezado
Podes ver, se quiseres, nossos festejos
Cabisbaixo, modesto, e sem motejos.
Bem sabes do Estudante antiga usança...
Não queiras provocar sua vingança…
Bem sabes qu’inda existe no Toural
P’ra tua punição tanque fatal…


1848
E se algum temerário pretender
Leis violar de Nicolau Potente,
Antes que um murro as bentas lhe arrebente,
Ao tanque do Toural irá primeiro.
Ginja, Taful, Casquilho, ou vil Caixeiro
Vai para casa vai, não sejas tolo,
As castanhas comer, comer com bolo,
Ou antes co’a Josefa, ou co’a Francisca
Vai na venda jogar rançosa bisca.


1849
Taful, mete-te em casa: neste dia
Não podes partilhar nossa alegria:
É p’ra quem de Minerva as leis adora,
Não p’ra quem só passeia anda, e namora,
Não te venhas meter a taralhão,
Que te pode ficar cara a lição...
E ai pobre de ti, se ousado intentas
Para te disfarçar cobrir as ventas,
Que entre canelões vais em charola
Ao Tanque do Toural molhar a bola.


1850
E tu, ò meu janota espartilhado,
Julgas que por trazer chapéu ao lado,
Colarinhos sem fim, vara na mão,
Mantinha à Joinville, alto tacão,
Podias amanhã, todo flamante
Entrar nestes folguedos de Estudante?
Ah! nem penses em tal que num segundo
Ao tanque do Toural vais ver o fundo.
Não te vale o ser mesmo um figurino
P’ra que deixes de ter um tal destino;
Que o estudo cultivar de altas ciências
Não é um toucador, não são essências.


1851
Mas não penses (oh! não) que o nosso dia
É p’ra todos geral na gran’ folia.
Valete namorante, ou chinfrim oco,
Que leva a cada canto o amante soco,
– Patrulha noite e dia sempre certa,
Que faz andar o pai de olhinho alerta –
Não meta cá nariz (bem alto o digo)
Que o tanque do Toural tem p’ra castigo.

1852
Vós não chuchais, que no crisol do estudo
Polir não ides o toutiço rudo,
E mal fareis se para ao crime ousardes,
Com máscara os focinhos ocultardes;
No tanque do Toural mergulhos cento
Em pena sofrereis do louco intento,
E a cada mergulho uma apupada
A cachola vos deixa atordoada.


1856
Pois todo o que não for das ciências filho
À função dar não pode esmalte e brilho,
E coitado do que se ousasse a tanto!
Que no dia sem par do nosso Santo
Viesse, a taralhão, meter nariz!...
Que lá tem o Toural um chafariz
P’ra justa punição, terror de ousados…
P’ra tornar nossos foros respeitados.

1857
Não penses!... E ai de ti!... se ousado intentas
Por brincadeira, só, cobrir as ventas!...
De ser valente vai perdendo a fé,
Que levas muito soco e pontapé,
Até que no tanque do Toural, molhado
Vás ser, qual duro bacalhau, salgado;

1858
Que ginja da ciência aos campeões
Queira usurpar os foros e isenções!?
Atrevendo-se mesmo sem vergonha
Com máscara cobrir a carantonha!
Jamais de Nicolau na festa ingente
Foi dado figurar estranha gente:
Mal do que praticar um tal delito, =
Ai dele!!... em vão exclamará contrito.
Ninguém o livrará de ser molhado
No tanque do Toural, e apregoado,
Qual levando canastras, de sardinha
= Exclama = a regateira: “eh! la fresquinha!”


1862
Se amanhã co’o estudante encaretado
Vier por graça todo empavonado
Figurar na escolástica função: –
Quer seja de faceto ou de pimpão.
Será loucura…cuide no que digo;
Pois tomará decerto por castigo
No tanque do Toural um banho fresco,
Que em Dezembro será não mau refresco.
Não pense em resistir, em vão se empenha;
Então a coisa é séria; – temos lenha!!!

1864
Ai! daquele que ousar tamanha ofensa!
Se cair no poder da turba imensa,
Do seu delito a pena não evita,
Que em tais casos é na lei prescrita.
– Vai levado, em triunfo, de charola
Em largo tanque refrescar a tola;
E se de água tomar um grande trago,
Paciência, considere como o pago
Do projecto, tão asnático, empreendido,
Que formou no toutiço escandecido.


1865
E não pense por aí casquilho insulso
Vir extremos de amor render avulso;
Não se arroje a meter o seu nariz...
No Toural ainda existe o chafariz,
Onde se aplica com rigor a pena,
Que na lei escolástica se ordena
Aos transgressores de qualquer artigo
Dum código sublime e mui antigo:
E se o progresso resolver a glória
Daquele chafariz passar à história,
Tomar-se-á o transversal caminho
Em direcção à poça do Toucinho.


1868
– Também se faz saber hoje aos futricas,
Que escusam de vir lá co’as suas nicas;
Que não se atreva algum cheirando a breu
Vir cá fazer figura de judeu;
Porque se em tal se metem por seu mal,
Irão nadar ao tanque do Toural;
Isto, só é p’ra os filhos da ciência,
Meus amiguinhos, tenham paciência.


1869
Talvez, talvez por aí algum janota
Já não queira cevar-se na bolota,
E disfarçado assim pretenda astuto
Neste dia provar mimoso fruto!
Ou fidalgo, ou peão, não há diferença,
De rojo ireis ao tanque sem detença,
E nem loucos penseis no vosso orgulhe
Que o denodo vos salva do mergulho;
Qualquer de nós é Hércules possante,
Que derruba c’um sopro audaz gigante.


1870 (a)
Apesar de pequenos, são estudantes,
Têm forças e braços de gigantes
Para dar cachafundos ao nariz
Do palerma!.. do Toural no chafariz.
É esta a pena que a história atesta
Privilégio adido a esta festa:
Excepto se a santa liberdade
Quiser roubar tal gozos à mocidade.

1870 (b)
Pois não foste!... Eu, que vi o pergaminho
Suportar muito murro no focinho,
E depois ir de cara, como um rato,
De mergulho no tanque como um pato?
Suspensas desde já são garantias.
Se usurparem as nossas regalias.
Não exista a menor condescendência,
P’ra com os enjeitados da ciência.
Se cá pilhado for algum lapuz,
Fazei-lhe das goelas alcatruz.
Mas se algum escapou por malha larga.
Pode vir, meu senhor, ninguém o embarga...
Porém sempre lhe digo, que se tenta.
Ver-se-á entre a cruz e água-benta.


1872
Agora a lei: – Se algum boçal tunante,
Com ar altivo de servil pedante,
Vier tomar parte na festa nossa,
Lhe será feita desbragada troça;
Afinal, exposto à nossa irrisão,
Levará murro até doer a mão.
Se nos folguedos vem meter nariz,
Vai do Toural ao tanque ou chafariz,
Do clarim ao som, do tambor ao toque
Ali tomar então o fresco choque.


1896
Este ano há novas leis; pois fica revogado
O antigo chafariz por ter sido mudado.
Tiraram-no do Toural, apanhando o ensejo
De ninguém contestar a acção do seu despejo
Se alguém nos maltratar chamamos pelo amo
Que o file como a um cão para lhe pôr açamo,
Se, preso, ainda assim nos arremete e ladra
É entregue à polícia, e preso para a esquadra.

(a) e (b): Em 1870, devido a dissensões entre os estudantes, disseram-se três (!) pregões diferentes.
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