11 de dezembro de 2011

O Pinheiro é dos "velhos" ou é dos "novos"?

Cortejo do Pinheiro de 2011 (foto obtida aqui)
Depois de ler o último texto que aqui coloquei sobre a história das danças de S. Nicolau, em que se referia que no ano de 1912, na iminência de não haver festas Nicolinas, os estudantes aposentados (velhos) assumiram a sua realização, o meu amigo André Coelho de Lima recorda-me que

(…) há uma tese assente em factos idênticos aos que aqui relatas, que defende que o Pinheiro não era, originalmente, um número dos velhos, como hoje é. Tese aliás que parece ter elevado grau de probabilidade de certeza, pois não é presumível que o número tenha sido iniciado precisamente pelos velhos, mas apenas pelos novos. No entanto, a certa altura da História, o Pinheiro passou efectivamente a ser um número "dos velhos nicolinos" e apenas desses.

Isto dito, lança-me o desafio para contribuir para descobrir em que altura, e sobretudo por que razão, passou o Pinheiro de um número dos novos, para um número em que só podiam participar os velhos. Vou tentar corresponder ao desafio.

Antes do final do século XIX não havia distinção entre estudantes “no activo” e “aposentados”. Segundo o antigo Estatuto Escolástico, nas festividades a S. Nicolau podiam participar todos quantos frequentassem aulas, públicas ou privadas, bem como os que, sendo de Guimarães, frequentassem, ou tivessem frequentado, a Universidade, além de todos os membros do clero. Perderiam esse direito os que se casassem ou começassem a exercer cargos públicos ou a trabalhar em ofícios mecânicos.

À medida que se caminhava para o final do século XIX, seria visível que as festas a S. Nicolau iam sendo progressivamente assumidas por estudantes no “activo”, ou seja, por aqueles que estavam a frequentar aulas em Guimarães. Os antigos estudantes olhavam de fora para as festas, que para eles se tornaram em momentos de evocação e de saudade do tempo da juventude.

Era assim em 1895, aquando do ressurgimento das festas. Escreveu-se então, em O Comércio de Guimarães, a propósito da entrada do pinheiro daquele ano:

Atrás do “pinheiro”, vinha uma banda de música, tocando o antigo hino escolástico, hino que os velhos ouviam com vivíssima saudade e não poucos com arroubos de se lançarem nos braços da mocidade estudiosa, zombando por alguns momentos da idade que lhes vai apontando diariamente o seu ocaso.

Vai no mesmo sentido o que se escreveu no Vimaranense de 1899, também a propósito do pinheiro:

A alguns “velhos” ouvi de comoção dizerem com lágrimas de enternecimento na voz que a alegria dos rapazes os entusiasmava e electrizava fazendo-os perder a cabeça, e que a custo se continham, para não lançarem mão de uma zabumba e saltarem para o meio deles a fundir a sua “velhice” ao fogo entusiasta da sua alegria e juventude.

Em 1912, como já aqui vimos, todas as festas foram assumidas pelos estudantes aposentados. Tratou-se, todavia, de uma situação isolada, explicada pela politização da discussão à volta das festas dos estudantes, que então estava na ordem do dia. Nos tempos que se seguiram, voltou-se à antiga ordem: as Nicolinas, em especial o número do pinheiro, eram festas dos novos, a que os velhos assistiam com nostalgia e uma mal disfarçada vontade de nelas participarem, como se percebe pelo que se escreveu em 1923, no jornal Gil Vicente:

A entrada esteve boa. Muita zabumbada, muito gado, carro alegórico, etc., etc.

Até os “velhotes” foram lá meter o “bedelho”! Assim é que é. Muita harmonia, muita paz e sossego entre novos e velhos, para que a festa realce como os seus promotores tanto desejam.

Aqueles eram tempos em que a decadência das festas era visível, tendo-se agra no final da década de 1920, com a retirada a Guimarães do 6.º e do 7.º anos do Liceu. Em O Comércio de Guimarães dava-se voz, em Dezembro de 1928, a um caminho possível para a revitalização das festas:

As Festas Nicolina, que estavam na alma do povo, que para as ruas sai em massa, para ver a chegada do “seu pinheiro” desta forma perde o seu cunho de popularidade.

Mesmo é preciso, para que as mesmas não morram, modificar um pouco as diversões a fazer-se.

Se tanto for preciso, que lhes emprestem um pouco do seu entusiasmo, “os velhos”, aqueles que recordam sempre com saudade, os tempos em que as Festas Nicolinas eram tão queridas quão desejadas.

Em 1936, assinalou-se o centenário do Estatuto Escolástico. Nesse ano, não faltou no pinheiro o entusiasmo dos “novos” e o auxílio e o calor dos “velhos”.

Em 1945, a propósito das bodas de ouro do ressurgimento das Festas Nicolinas, foi dado mais um passo no sentido da apropriação do pinheiro pelos velhos. Foi constituída uma comissão de estudantes velhos, encabeçada por José de Pina, que se propôs auxiliar a Academia para dar maior brilho às festas daquele ano. E lá estarão, os velhos, no cortejo do pinheiro de 1945, massacrando as zabumbas em romagem de saudade pela juventude que já ia longe.

1953 terá sido um tempo em que este processo se acelerou. Nesse ano, os principais números das festas foram “cedidos” aos estudantes velhos. Iniciava-se uma tradição que ainda persiste. No final de um jantar de velhos no Restaurante Jordão, conta O Comércio de Guimarães, por proposta do snr. António Faria Martins, foi cantado o hino Nicolino, após o que rufaram os tambores, e todos se dirigiram para o Cano, onde fizeram a espera ao gigante “pinheiro”, que deu entrada na Cidade às 24 horas. Nesse ano, os velhos encabeçaram o cortejo do pinheiro, fazendo ecoar pelas ruas da cidade uma ensurdecedora música de Zés Pereiras.

Nos anos que se seguiram, os velhos foram reforçando o seu papel nas festas Nicolinas, em especial na entrada do pinheiro. Ao longo da década de 1960, prosseguiu a apropriação do pinheiro pelos velhos, num processo que envolveu o progressivo afastamento dos novos.

Quando, em 1972, o autor destas notas entrou para o Liceu de Guimarães, o pinheiro já era território sagrado dos velhos. Só eles podiam tocar durante o cortejo, até que o mastro estivesse erguido. A partir desse momento, caixas e bombos eram passados aos novos. Só então começaria a festa dos estudantes no activo. Esta prática era então apresentada como uma velha tradição, que alguns interpretavam como sendo inspirada em antiquíssimos ritos de passagem.

Há quem dê uma explicação de natureza política para a passagem do pinheiro para a alçada dos velhos, segundo a qual, numa manifestação de resistência a uma suposta proibição, em tempo de ditadura, os antigos estudantes teriam desafiado as autoridades, saindo à rua com o propósito de assegurar a continuidade da tradição das festas Nicolinas. Todavia, estou certo de que a passagem de certos números das festas (o pinheiro e, mais tarde, as danças) para as mãos dos velhos não terá um fundo de romantismo, antes ficando a dever-se à consciência das dificuldades dos jovens estudantes no activo em manterem viva, com todo o seu antigo fulgor, a velha chama das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau.

E eis como se percebe melhor a notável plasticidade das tradições que, para se manterem, têm que se adaptar aos fluir dos tempos.

Aqui chegados, seria interessante lançar-se a discussão acerca da hipótese de, à imagem do que acontecia na primeira metade do século XIX, eliminar a distinção entre novos e velhos nicolinos.

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6 comentários:

Anónimo disse...

A tradição é por definição evolutiva. O tradicionalismo é que é avesso às mudaças...
Estas reflexões provam como as Nicolinas sempre evoluiram. Eu, quando entrei no liceu em 1977 tive de esperar pelo enterro do Pinheiro para poder tocar. E assim sempre foi até ir para a Universidade. Os ultimos anos demonstram que a noite do Pinheiro evoluiu no sentido de antes: velhos e novos indistintos, apenas e só Nicolinos...
Abraço
Emídio Guerreiro

Anónimo disse...

É de todos os que, de uma maneira ou de outra, se sentem ligados a esta terra; velhos, novos, de corpo, cabeça ou espírito; do Liceu, da Chico, da Veiga, do Egas ou de Sezim. Muitos há, que como eu, se sentem intrinsecamente ligados a este "canto" do Mundo; pois independentemente de aonde estejam, sentem este chamamento telúrico da nossa Pátria, nunca se sentindo arraigados de cá. Sendo parecido com o que Pessoa disse- "A minha Pátria é a língua portuguesa", eu sinto que a minha Pátria é Guimarães.

Um abraço, Prof. Amaro.

Silvestre Barreira disse...

Contava a minha mãe que o meu tio avô José de Pina com outros velhos nicolinos, esperava no Toural a passagem do cortejo do Pinheiro e nessa altura os novos emprestavam bombos e caixas que os velhosn tocavam até o erguer do Pinheiro no nCXampo da Feira. Um abraço

Anónimo disse...

Caro Amaro,

Antes do mais agradecer-te a prontidão, e habitual rigor, com que correspondeste ao desafio que te lancei e "pegaste" em mais este tema.

Para esclarecer, a minha dúvida prendia-se com o momento em que teria essa "tradição" começado, ou o facto que a teria despoletado.

Penso que todos estaremos de acordo com duas circunstâncias: por um lado de que a atual partilha do Pinheiro por novos e velhos é uma evolução em sentido positivo, a festa ganhou dimensão, e ganhou sobretudo o estatuto de "festa da cidade" e já não apenas dos nicolinos. Por outro lado, em que é praticamente impossível que o Pinheiro se tenha iniciado como sendo um número de velhos nicolinos.
Esse foi o fator que despoletou a minha curiosidade: o que teria levado a que tal tivesse sucedido? Na medida em que sou conhecedor de diversas teses em torno desse facto, na minha perspetiva nenhuma delas convincente.

Isto porque, como se recordam os que cursaram no Liceu nos anos 60, 70 e até finais dos ano 80 (o meu caso), sabíamos que os novos só podiam tocar uma vez erguido o Pinheiro. Até aí, a festa era dos velhos.
Este é um facto. O que o despoletou é que desconhecia.
Percebo agora, do que leio da tua posição, que foi o movimento criador da Associação dos Antigos Estudantes do Liceu (liderado por António Faria Martins) e a sua progressiva organização e aglomeração, associada a uma menor adesão e organização dos novos, que conduziu a que o número tivesse sido apropriado pelos "velhos" sem haver propriamente um facto ou uma circunstância que o tivesse motivado.

Ficamos assim todos mais esclarecidos, e informados, que muitas vezes as supostas "tradições" não são mais do que pequenas alterações num período de 2/3 anos, que são suficientes para condicionar as coisas daí em diante.
E mais confortados que o evoluir da tradição face ao que o número hoje é, não é um evoluir mas antes um regressar à sua origem, à sua essência, como já presumia.

Com o meu muito obrigado, deixo um abraço,

André Coelho Lima

aan disse...

Emídio,
Apesar de nos "venderem" a tradição como se tratasse de um tabu, onde ninguém pode tocar, salta aos olhos que a tradição nicolina é feita de mudança. E tem sido essa mudança que tem mantido as festas (cada vez mais)vivas.

Silvestre,
Assim foi, a partir de certa altura e por algum tempo. Eram os "velhos" a meterem o "bedelho", como alguém escreveu, nas festa dos novos.

André,
Na verdade, como se percebe pelo que escreves, não me parece que possamos marcar um momento em que o Pinheiro (como as Nicolinas, em geral) deixaram de ser o que eram para passarem a ser algo diferente. As mudanças foram paulatinas e contínuas. A "apropriação" do Pinheiro pelos velhos foi um processo lento, que se iniciou com a decadência das festas visível desde os primeiros anos da década de 1930. A sua "recuperação" pelos novos, transformando-a numa festa de todos, também não foi imediata e foi acontecendo, não sem fricções, ao longo das últimas três décadas.

Associado a este processo, existe um outro, que gerou muito mais controvérsia, que tem a ver com a incorporação de raparigas no Pinheiro. Recordo que um dos argumentos mais fortes para contestar a presença da ala feminina no cortejo era sustentado pela ideia de que o Pinheiro era uma manifestação de virilidade masculina, ideia que era reforçada por vários elementos (o pinheiro e a baqueta, elementos eminentemente fálicos; a costumeira de sangrar e rebentar a pele do bombo, numa alusão à perda da virgindade nas mulheres), que são, do meu ponto de vista, tão interessantes quanto fantasiosos, como bem mostra o saudoso Eng.º Hélder Rocha na entrevista que o Miguel Bastos me recordou e de que publiquei alguns excertos (o pinheiro era, simplesmente, o mastro onde se erguia a bandeira das festas, que devia estar erguida enquanto as festas durassem; a prática, um pouco tonta, de espatifar as mãos e rebentar as peles dos bombos é recente e muito adequada a quem não sabe tocar...). Com base em argumentos como este, ainda há por aí muito quem não aceite que as cachopas entrem na festa, fenómeno que é, na minha opinião, irreversível.

Abraços

Amaro

Tiago Cunha disse...

É com Orgulho que sou Antigo Nicolino e Bisneto de António Faria Martins