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A mostrar mensagens de 2011

Guimarães, segundo Craesbeeck (2)

[continuação]
2. Entre dois montes, muralhas naturais para a defesa, termos imóveis para a divisão dos lugares confinantes: o da Falperra e o de Santa Catarina, chamado de Lombeiro, e depois de Pombeiro, nas fraldas deste, duas léguas de outro, jaz Guimarães, edificada em forma oval, como já dissemos, cercada de fortes muralhas e torreado castelo, para a violência do ferro insuportável para o fogo (se se reformar) defensável: com serventia de 8 portas, com outras 8 pontes correspondentes, no fim do terreno; vias Régias para a comunicação externa; compasso a dois caudalosos rios: o rápido Ave e o delicioso Avicela, que servindo aos montes de Covas, serve aos campos de sangue: igualmente recreiam, sustentam o terreno, e em correspondência cercam seu termo 8 grandes povos, a saber: Barcelos, Porto, Pombeiro, Felgueiras, Basto, Monte Longo e Lanhoso: cidades e povoações, em todas as portuguesas histórias memoráveis, das quais nesta obra se verão particularizadas as suas memórias, com mult…

Guimarães, segundo Craesbeeck (1)

Em 1726, Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Corregedor da Comarca de Guimarães, escreveu as suas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, manuscrito que foi publicado em 1993, e onde é traçada uma descrição de Guimarães, que aqui iremos reproduzir:
Descrição desta vila
1. Ilustram a fundação de uma república insigne: terreno feliz, fundadores ilustres, antiga fundação, bons ares, águas salutíferas, fertilidade nos mantimentos, riqueza, comércios, esplendor nos edifícios, religião católica, esforço bélico, ciência literária, exercícios fabris industriais, governo dominante, regulado e político, e habitadores nobres: qualidades todas informantes de uma perfeita colónia, unidas para lustre de Guimarães. Todas estas prerrogativas tinha Guimarães com eminência, e todas hoje com melhores multiplica, como epilogara uma breve descrição de sua fertilidade.
(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no a…

Guimarães, por Miguel Torga

Em 1950, Miguel Torga publicou o seu ensaio Portugal, em que contava uma viagem de norte a sul do país, começando pelo Minho. Começa assim:

O verde come o resto do arco-íris... Quem quer vir combater Contra a monotonia?
Era em Caldelas que o meu desespero se exprimia assim. Mas qual o quê! As ninfas, engrinaldadas de limos, riam-se e mergulhavam nas fontes. E um companheiro de Fafe, daltónico como todos os seus com provincianos, só me sabia repetir: - É sedativo... - E bovino! - refilava eu. Pouco depois, a caminho de Guimarães, com antolhos de parra a impedirem o aceno de qualquer horizonte, apetecia mais do que ruminar. Uma indizível melancolia, para além do quadrúpede, mandava especar a raiz num lameiro e vegetar. Na citânia de Briteiros, a evocação dum passado sobranceiro aos charcos, todo vivido nas alturas agrestes do mundo, deu-me um pouco de calma. Infelizmente, logo a seguir, os aquistas das Taipas lembravam anjos a veranear numa nuvem de clorofila... Parecia uma alucinação. E comec…

De volta ao pasmatório

Dia de Natal. Meio-dia. Os sinos da torre de S. Pedro tocam o hino de Guimarães. Na grande praça, os vimaranenses, teimosos como só eles, reincidem em contrariar os que prenunciavam (e também os que desejavam) que o novo Toural seria um desastre. Deserto, vazio, espaço por onde se passa mas onde não se vive, não-lugar lhe chamaram aqueles que anunciavam que a requalificação tinha tudo para dar errado. Afinal, deu certo. A praça voltou a ser o lugar onde as pessoas se juntam para discutirem as trivialidades do dia-a-dia. Está de volta a nossa sala de receber, o nosso sítio de ver e de mostrar, o nosso pasmatório.

O meu voto

Subsídios para a história do léxico nicolino

Para a compreensão das Festas Nicolinas e da sua evolução histórica, é preciso compreender o seu léxico. Desde logo, os nomes das festas e dos seus números. Já percebemos que a designação Festas Nicolinas apenas apareceu quando já era entrado o século XX. Antes, eram designadas por festejos escolásticos ou por festas dos estudantes a S. Nicolau. Também os nomes dos números que compõem o programa das festividades tiveram o seu dinamismo no decurso do tempo.
De todos os números, o mais antigo será o das danças. Os documentos mostram que os estudantes de Guimarães já as faziam em meados do século XVII. Também podiam ser chamadas de folias ou comédias. Continuam a chamar-se danças.
As posses são um número que se mantém praticamente desde a origem das festas tais como as conhecemos. O nome deste costume vem da posse da antiga renda de Urgezes, que era devida aos coreiros da Colegiada. Ao longo do século XIX, esta designação estendeu-se à recolha das posses (ofertas) de particulares aos estud…

Sala de receber

"O Toural modernizou-se. De suburbano passou a urbano. O Toural aldeão teve carta de cidadania. É hoje o que se vê: sala de receber." (in A. L. de Carvalho, Antigamente… Guimarães, 1949, pág. 165-166)

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (aditamento)

Na deambulação sumária pela história das danças de S. Nicolau que aqui trouxemos, ficou dito que o argumento que Bráulio Caldas preparou para as danças dos estudantes aposentados do ano de 1901 foi repetido nos anos de 1912 e de 1945. Assim foi, mas não se disse tudo. Em 1916, num momento de crise das festas, voltaram a exibir-se as danças de Bráulio de 1901. Por último, em 1945, os novos retomaram as mesmas danças, mas desta vez apenas a partitura musical.
Nas danças de 1912, organizadadas pelos estudantes aposentados, ao texto de Bráulio Caldas foi anteposto o seguinte texto, que seria repetido em 1916:

Das velhas Nicolinas arrancadas A toques de zabumba ao pó do olvido, Lembrar-se nestas eras avançadas, É, de velhos, capricho aborrecido.!
Já da Briosa o brilho retumbante Não chega a dar calor a velharias! Nem deve o cidadão bom estudante Desperdiçar o tempo em ninharias…
Mas aos velhos caturras e teimosos Que da Festa fizeram um altar, Meteu-se-Ihes nos cascos carunchosos Qu'i…

O Toural e as Nicolinas

O Toural está indissociavelmente ligado às festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau. Foi aí que, durante a maior parte do século XIX, os estudantes ergueram a sua bandeira anunciadora da festa. De todas as que conhecemos, a referência mais antiga a esta prática leva-nos até 1822. Nesse ano, o intendente geral da polícia proibiu as máscaras em dia de S. Nicolau. Os estudantes recorreram desta decisão para o rei, que, numa portaria de 12 de Dezembro, lhes concederia autorização para se mascararem. Para assinalar esta vitória, os estudantes ergueram a sua bandeira no Toural (um pouco fora do tempo, no dia 18) e, entre foguetes e repiques dos sinos, saíram à rua numa “encamisada”, recitando versos e dando vivas a D. João VI. O mastro com a bandeira, que viríamos a conhecer como o pinheiro, foi erguido no Toural até que, no final da década de 1870, se instalou na praça o jardim que se fechava atrás de grades e de portões de ferro. A partir daí, o pinheiro passou a ser conduzido para…

O Toural visto do céu (bis)

Praça, não Largo

Largo s.m, Espaço desimpedido numa povoação, mais amplo que nas ruas que nele desembocam, e menor, geralmente, que uma praça.
Praça s. f. (do gr. plateia, pelo latim platea) Lugar público, grande largo, geralmente rodeado de edifícios, para embelezamento de uma cidade, vila, etc., e como meio higiénico para melhor circulação do ar e plantação de árvores.
(Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado)
Antigamente chamaram-lhe campo, terreiro, campo, rossio ou praça. Em 1943, lembraram-se de lhe chamar largo. Vá-se lá perceber porquê. O Toural não é um largo. É uma praça. É hoje a nossa Praça Maior. Quando é que os nossos responsáveis se decidem a mudar a placa toponímica, ajustando o nome à coisa nomeada?

O Toural visto do céu

Eis o Toural visto do céu, numa fotografia tirada hoje pela minha maquineta. Eis aqui a praça de que todos falam, em toda a sua grandeza, sob a sombra da basílica imperfeita.

De volta ao Toural

Domingo, dia luminoso. O Toural, como já há muito o não víamos. Por toda a praça, grupos de pessoas conversam, apanhando o sol deste final de Outono.
O Toural volta a ser aquilo que foi e já não era há muito tempo: a sala de visitas de Guimarães.
Esta fotografia é dedicada a todo os que se têm preocupado com o vazio que teria transformado a nossa praça maior num sítio de passagem e atravessamento.

Ressurgimento

É algo que tenho dito repetidas vezes: em Guimarães, somos visceralmente conservadores no que toca a propostas de mudança e de reconfiguração do espaço construído. Não raro, mais do que conservadores, somos reaccionários. Aceitámos mal a mudança naquilo que fomos habituados a ver à nossa volta. E este conservadorismo não é necessariamente um defeito. Quando era moda “alindar” os centros históricos, com trejeitos de “modernidade”, em Guimarães sempre acabava por prevalecer uma atitude que privilegiava a manutenção da cidade intramuros tal como sempre foi (ou, para ser mais exacto, tal como se entendia que sempre foi). E não me custa reconhecer que, em larga medida, foi à sombra dessa atitude de resistência à mudança que amadureceram as condições que permitiram, um dia, que o centro histórico de Guimarães obtivesse o reconhecimento como Património Mundial. É dentro deste discurso que percebo algumas reacções que fui ouvindo, enquanto as obras duraram, a propósito da intervenção no Toura…

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (conclusão)

As danças de S. Nicolau são, de todos os números das Festas Nicolinas, aquele que está mais marcadamente ligado às origens destas festividades. Já no século XVII os estudantes de Guimarães exibiam as suas danças, comédias e folias, nomeadamente para financiarem a construção da Capela de S. Nicolau.
Ao longo do tempo, estas manifestações foram evoluindo. No início eram exibições de teatro de rua, de cariz jocoso e burlesco, cujos intérpretes declamavam, cantavam e dançavam nas ruas, ao som do de tambores e pandeiros. Estas demonstrações tinham um cariz eminentemente carnavalesco, em que os estudantes apareciam mascarados, tradição que nas primeiras décadas do século XIX já era classificada como muito antiga (em 1827, o cónego Pereira Lopes escreveu no seu diário que nos dias 5 e 6 de Dezembro daquele ano, saíram mascarados os estudantes como nos tempos remotos costumavam andar). Por aquele tempo, as autoridades, com a pretexto da manutenção da ordem, proibiam, recorrentemente, os estuda…

Os tempos do Toural

 

Dia de festa

Passam hoje 10 anos sobre a atribuição pela UNESCO do título de Património Mundial ao Centro Histórico de Guimarães. Neste mesmo dia, abre ao público a requalificação do Toural, que, aliás, envolve bem mais do que o Toural. Estendendo-se pela rua de Santo António, Toural, largo 25 de Abril, Largo Bernardo Valentim Moreira de Sá, Alameda de S. Dâmaso. Terreiro de S. Francisco e Campo da Feira. Este processo de obras é a intervenção mais extensa que aconteceu em Guimarães desde que D. Dinis completou a cerca nova (muralha) de Guimarães.
Em terra que nunca foi afecta a grandes mudanças e que ostenta galões dourados no que toca à qualidade da sua acção no campo da conservação e da valorização do seu património, qualquer intervenção no Toural que não fosse meramente cosmética arriscava-se a enfrentar a polémica. Assim aconteceu. Não faltaram as críticas, quase sempre centradas em detalhes. A mais recorrente tem sido a da retirada das árvores que rodeavam a placa central da praça. Do meu pon…

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (10)

De 1932 a 1941, as Nicolinas não incluíram aquele que, por muitos, era considerado o seu número principal, as danças.

Em Dezembro de 1938, Maria Eduarda escrevia no seu Bilhete Postal, coluna que manteve durante largos anos no Comércio de Guimarães:

As festas Nicolinas viveram a sua época, — pertencem ao Passado.

Os seus melhores números, aqueles que iluminaram os nossos salões e foram o encanto da mocidade, não podem reviver, não! Levou-as a alma Académica. São flores murchas, crachás decorativos, que não encontrariam na nossa época o ambiente necessário.

Em 1942, as Nicolinas homenagearam José de Pina. Houve danças, que repetiram (pela terceira vez) as letras escritas por Bráulio Caldas para a edição de 1901 das danças dos velhos. Terão sido exibidas no Liceu, no Internato Municipal, possivelmente no Teatro Jordão e em algumas casas particulares.

Em 1943, houve festas incompletas, porque lhes voltaram a faltar as danças.

Em 1944, regressaram as danças, com letra de Delfim Guimarães. S…

Sobre o Pinheiro - testemunho de Hélder Rocha

A propósito do texto que aqui publiquei, com o título O Pinheiro é dos "velhos" ou é dos "novos"?, em boa hora o meu amigo Miguel Bastos me recordou uma entrevista de Hélder Rocha ao Povo de Guimarães, conduzida por A. Rocha e Costa e Rui de Lemos, onde desfiava algumas das suas memórias sobre as festas Nicolinas, desde finais da década de 1920, e que merece ser lida, na íntegra, na página da AAELG - Velhos Nicolinos. Hélder Rocha entrou para o Liceu de Guimarães em 1927-1928. Desde então, esteve sempre ligado ao fenómeno Nicolino, tendo sido aclamado Nicolino-mor em 1988, pela sua dedicação à causa da festa dos estudantes de Guimarães. O que se segue são os excertos da entrevista em que se refere ao pinheiro, que nos permitem perceber melhor que as festas Nicolinas não são uma tradição que o tempo cristalizou, mas uma realidade dinâmica que sobrevive porque tem sabido adaptar-se à mudança:
O número principal não era de modo nenhum "O Pinheiro", como hoje …

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (9)

Segundo o jornal Ecos de Guimarães anunciava, as danças de 1926 seriam escritas pelo Padre Gaspar Roriz e exibidas nos largos principais, para assim obedecer a uma velha praxe e satisfazer a curiosidade do povo que pela linda festa académica teve sempre a mais enternecida simpatia. Todavia, não chegaram a realizar-se, por falta de música.
Voltariam em 1927, de novo pela pena do Padre Roriz. Foram noticiadas assim no Comércio de Guimarães:
As danças, cuja letra pertencia ao velho entusiasta das festas o rev. Gaspar Roriz, mereceram como sempre, simpatia e aplausos.
Os rapazes andaram regularmente, apresentando-se bem postos, principalmente as “galantes” demoiselles, de saias pelo joelho e braços nus...
No teatro, aonde se exibiram a 1.ª vez, pela aglomeração de povo, estiveram iminentes alguns conflitos, que se não teriam dado se a força pública tivesse presidido desde a abertura da porta.
Em 1928, a Academia tinha sido seriamente afectada pela retirada de Guimarães do 6.º e do 7.º anos. Nã…

O Pinheiro é dos "velhos" ou é dos "novos"?

Depois de ler o último texto que aqui coloquei sobre a história das danças de S. Nicolau, em que se referia que no ano de 1912, na iminência de não haver festas Nicolinas, os estudantes aposentados (velhos) assumiram a sua realização, o meu amigo André Coelho de Lima recorda-me que
(…) há uma tese assente em factos idênticos aos que aqui relatas, que defende que o Pinheiro não era, originalmente, um número dos velhos, como hoje é. Tese aliás que parece ter elevado grau de probabilidade de certeza, pois não é presumível que o número tenha sido iniciado precisamente pelos velhos, mas apenas pelos novos. No entanto, a certa altura da História, o Pinheiro passou efectivamente a ser um número "dos velhos nicolinos" e apenas desses.
Isto dito, lança-me o desafio para contribuir para descobrir em que altura, e sobretudo por que razão, passou o Pinheiro de um número dos novos, para um número em que só podiam participar os velhos. Vou tentar corresponder ao desafio.
Antes do final do sé…

Apontamentos para a história das Danças Nicolinas (8)

Em 1911, as danças foram escritas por Sousa Macário, com o sugestivo título No país da orgia. Tiveram lugar na noite do dia 6 de Dezembro. Segundo o Imparcial, não obstante a luz eléctrica se portar malcriadamente para com os graciosos mancebos, centenares de pessoas corriam à compita às casas beneficiadas a implorar licença de entrar, para de um cantinho contemplarem e ouvirem as brejeirices dos simpáticos moços e moças os últimos arrancos das suas festas.
1912 foi ano em que as festas estiveram para não acontecer. A Academia Vimaranense, reunida em assembleia, decidiu, por maioria, não fazer as festas e apenas realizar um espectáculo de gala para assinalar o 1.º de Dezembro, com receita a reverter para a Caixa Filantrópica dos estudantes. Mas houve mesmo festas, pois acabaram por ser organizadas pelos estudantes “aposentados”. O texto das danças repetiu o de 1901, da autoria de Bráulio Caldas. A dissensão entre velhos e novos, que já tinha tido episódios anteriores, tendia a agudiz…

O chafariz do Toural e os banhos forçados das Nicolinas

Foi mandado fazer em 1587. Era, segundo o descreveu o Padre Carvalho da Costa, em meados do século XVIII, um chafariz do povo de vistosa grandeza, cercado de assentos para recreação do povo. Foi desmontado em 1873 e colocado no Largo do Carmo em 1891. Passados 138 anos desde a sua remoção, o velho tanque-chafariz do Toural acaba de regressar ao lugar de origem. Em boa hora.
O chafariz do Toural está estreitamente ligado às festas que os estudantes de Guimarães dedicam, há séculos, a S. Nicolau. Era nas suas águas que eram punidos aqueles que, sem gozarem do foro escolástico (isto é, sem reunirem os requisitos necessários para poderem ser considerados estudantes). Os banhos forçados na água do chafariz do Toural eram a pena para todo o casquilho, taful, caixeirinho ou ginja que, com a identidade oculta atrás de máscara, ousasse meter-se no meio dos festejos dos filhos da ciência, os estudantes. A designação de futricas, utilizada para referir, com desprezo, os não estudantes, é de impor…