31 de dezembro de 2010

30 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (13)

Prova de resistência do pórtico do balcão do Teatro Jordão (1937/38)
(Toque na imagem, para ampliar)

Esta fotografia é extraordinária, revelando a absoluta confiança dos responsáveis pelo projecto na segurança da sua obra. Em cima da estrutura de betão, em teste, além dos sacos com carga, posaram para a fotografia 48 pessoas, certamente trabalhadores da obra de construção do teatro. Caso a obra desse de si, grande seria o desastre. Mas resistiu.

O arquitecto e engenheiro civil responsável pelo Teatro Jordão chamava-se Júlio José de Brito.
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29 de dezembro de 2010

28 de dezembro de 2010

27 de dezembro de 2010

26 de dezembro de 2010

25 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (8)


Tendo Bernardino Jordão falecido no dia 24 de Maio de 1940, ganhou maior força a insistência de que fosse atribuído o seu nome, conforme era sua vontade, à obra mais emblemática que legara à cidade de Guimarães.

Em Dezembro de 1940, por despacho do Ministro da Educação, foi finalmente consagrada a designação que a sala de espectáculos ostentava na sua fachada desde sempre: TEATRO JORDÃO.

"O Comércio de Guimarães" noticiou a novidade, em 13 de Dezembro:

“TEATRO JORDÃO”
 
Com satisfação, soube-se em Guimarães, que s. ex.a o snr. Ministro da Educação Nacional, tinha assinado uma Portaria que autoriza que o “Teatro Martins Sarmento", volte a usar o seu primitivo nome, isto, é “Teatro Jordão”.

Diversas démarches tinham sido feitos neste sentido, sendo, enfim, satisfeita uma aspiração que vinha sendo alimentada desde o primeiro dia da fundação daquela excelente casa de espectáculos.

Parabéns aos proprietários da Empresa Jordão, por verem satisfeito um justo desejo de seu saudoso e nunca esquecido Pai, e de todos aqueles que pugnavam porque justiça lhe fosse feita.
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24 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (7)


Anúncio publicado no "Notícias de Guimarães", em 20 de Novembro de 1940

 



A Vida Futura (H.G. Wells' Things to Come / The Hundred Years to Come), 1936
Realizador: William Cameron Menzies
Produtor: Alexander Korda
Elenco: Raymond Massey, Edward Chapman, Ralph Richardson

O anúncio ao filme A Vida Futura que saiu em "O Comércio de Guimarães", em 22 de Novembro de 1940, vinha com o elenco errado:




Fui uma aventureira (J'étais une aventurière), 1938
Realizador: Raymond Bernard
Elenco: Edwige Feuillère, Jean Murat, Gaby Andreu

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23 de dezembro de 2010

22 de dezembro de 2010

21 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (4)

Jean Arthur

[continua daqui]

A primeira sessão de cinema no Teatro Jordão, então com a designação de Teatro Martins Sarmento, aconteceu no dia 24 de Novembro de 1938. Título do filme: Vou ser raptada. Segundo "O Comércio de Guimarães", houve "grande e distinta concorrência, filmagem esplêndida e perfeita sonoridade. Casa à cunha."
 
A segunda sessão teve lugar no dia 27, tendo sido passado o filme Uma Pequena Feliz, com a actriz Jean Arthur.

No dia 4 de Dezembro, o programa foi o seguinte: Os pecados de Teodora, Desportos Náuticos, Amor de macaco, A pérola do Atlântico e Jornal Fox.
 
A tabela de preços dos ingressos era, à altura, a seguinte:
 
Frisas e camarotes, 20$00
Balcões, 1.ª e 2.ª fila, 4$00
Balcões, 3$50
Plateia A a V, 3$00
Plateia 1 a 8, 2$00




Os pecados de Teodora (Theodora Goes Wild), 1936
Realizador: Richard Boleslawski
Elenco: Irene Dunne, Melvyn Douglas e Thomas Mitchell 
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20 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (3)


"Teatro Martins Sarmento"

Como era de prever, constituiu um acontecimento citadino a inauguração solene do "Teatro Martins Sarmento", que primitivamente se tinha resolvido denominar Teatro Jordão: assim abre a reportagem de "O Comércio de Guimarães" acerca da inauguração do novo teatro de Guimarães, em 21 de Novembro de 1938.

A mudança de designação tinha acontecido mesmo em cima da inauguração. Raul Rocha, no seu livro "Guimarães no século XX" (páginas 282 e 283), conta a história da mudança de nome, por imposição da Inspecção de Espectáculos, com o argumento de que apenas aceitaria que o teatro tivesse como patrono uma "figura de relevo nacional". A própria direcção da Sociedade Martins Sarmento entendia que, por já haver em Guimarães uma sociedade, um largo e um liceu com o nome de Martins Sarmento, deveria ser outra a designação do novo teatro.

Curiosamente, em todos os documentos preparados para a inauguração aparece a denominação Teatro Jordão. O dístico, composto por grandes letras em granito, TEATRO JORDÃO, foi então coberto por uma faixa onde estava inscrita a nova designação, que ali ficaria enquanto o tempo a não levou.

O Teatro Jordão chamar-se-ia, oficialmente, Teatro Martins Sarmento, durante um pouco mais de dois anos.

[continua]
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19 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (2)

 
Bernardino Jordão


[continua daqui]

Quando se preparava a inauguração do Teatro Jordão, a Banda dos Bombeiros Voluntários ensaiava o Hino Jordão, composto por Silva Paranhos, professor de música, com letra de Delfim de Guimarães. Destinava-se a ser executado a uma só voz, pelo Orfeão de Guimarães, com acompanhamento da Banda. A letra era a seguinte:

Hino Jordão

Ó Guimarães, ao teu filho adoptivo,
Que dentro d'alma temos como irmão,
Abraça-o ao teu peito forte, altivo,
E dá-lhe, ó nossa mãe, teu coração!
Ó terra, ó nosso mãe, Senhora Pura
Da nossa Santa Pátria e Devoção,
Que seja no teu seio, à tua altura,
O teu filho querido, o teu Jordão!

Coro
Arriba! Arriba! o nosso peito,
Arriba! Arriba! E sempre grato
A quem ergueu soberbo Feito,
Obra imortal - o teu teatro!

Terra que tens, no alto a linda Penha,
Nosso Monte soberbo e sem igual:
Que a tua alma nos mostre e sempre tenha,
Terra de nossas Mães, de Portugal,
No teu ardente sol, esplendoroso,
Toda a alta beleza e gratidão
Do filho teu amado e generoso,
Do nosso sempre grato e nobre irmão!

Coro
Arriba! Arriba! etc.

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18 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (1)

 
Bernardino Jordão

Agora que se prepara uma intervenção profunda no velho Teatro Jordão, devolvendo-o à actividade e à cidade, é tempo de resgatar as suas memórias do esquecimento.

Ao longo da década de 1930, discutiu-se intensamente em Guimarães a necessidade de que a cidade fosse dotada de um teatro condigno, que não envergonhasse a cidade aos olhos de estranhos, como reclamava em 1929 a Sociedade de Propaganda e Defesa de Guimarães. Por essa altura, havia muitos anos que o velho Teatro D. Afonso Henriques estava fechado (tendo sido publicado em 1933 um decreto que autorizava a sua demolição, para a abertura de uma rua de ligação entre a rua de S. Dâmaso e o largo da República do Brasil) e o Teatro Gil Vicente não reunia as condições necessárias, sendo mesmo classificado no Notícias de Guimarães de 5 de Fevereiro de 1933 como indecente, nauseabundo e indigno da nossa terra.

No dia 18 de Fevereiro de 1936, a Câmara Municipal de Guimarães reuniu em sessão extraordinária para decidir acerca da construção de um novo teatro. A ideia seria a reconstrução do D. Afonso Henriques, que continuava de pé, por não se ter rasgado a rua prevista no decreto de 1933. Desta reunião não saiu qualquer solução para o problema, uma vez que logo começaram a circular rumores de que a reconstrução do velho teatro estaria encravada.

Ainda nesse ano, seria notícia a iniciativa do empresário Bernardino Jordão, que estaria a trabalhar no projecto para a construção de um novo teatro. Após alguma controvérsia acerca da sua localização, este começaria a ser erguido no dia 22 de Fevereiro de 1937, na avenida Cândido dos Reis (actual D. Afonso Henriques), perante manifestações de júbilo da população. O responsável pelo projecto e pela direcção da obra seria o arquitecto e engenheiro civil Júlio José de Brito, cuja obra mais conhecida é o Teatro Rivoli, no Porto.




Capa do programa da inauguração do Teatro Jordão

Na brochura que foi distribuída aquando da inauguração do teatro, fazia-se uma descrição impressionante da dimensão da obra:

Para dar uma pequena ideia desta obra apresentam-se os seguintes dados: Gastaram-se entre outros materiais 979 camiões de areia, cascalho e saibro; 684 camiões de perpianho e alvenaria; 62 vagões de cimento, cal, gesso e marmorite; 13 vagões com 127000 quilos de ferro; 31000 ou sejam perto de 30 vagões de tijolos "SIMCO" gastos para os pavimentos. Só os pinheiros utilizados na obra somam um comprimento que chega para fazer uma via dupla desde a Praça do Toural até à Penha. As tábuas e escoras gastas nas cofragens e soalhos chegariam para fazer um tapamento a toda a volta da Praça do Toural com uma altura de 20 metros. Se carregássemos um comboio com todo o material gasto nesta obra, teríamos uma composição de 835 vagões excluindo a máquina e o tender ou seja um comprimento total de 9,2 quilóm., isto é, uma distância igual à que vai da estação de Guimarães até Vizela. Com as 926 lâmpadas num total de 46000 watts aplicadas na iluminação, e distanciadas de 10 m. podíamos iluminar toda esta linha.


Planta da sala de espectáculos do Teatro Jordão

O Teatro Jordão tinha capacidade para mais de 1200 espectadores. O programa da sua inauguração, que aconteceu a 20 de Novembro de 1938, foi composto por um "Serão Vicentino", pelo Teatro Nacional Almeida Garrett, com a representação do Monólogo do Vaqueiro, do Auto Pastoril Português e do Auto Mofina Mendes. Do elenco, faziam parte nomes como Amélia Rey Colaço, Lucília Simões, João Vilaret, Álvaro Benamor ou Raul de Carvalho. O espectáculo contou também com a participação da Orquestra Ibéria. O teatro foi perfumado pela Sociedade de Perfumarias Nally, com o perfume "Noite de Prata".

A inauguração do Teatro ficou na memória da cidade. Só que, por imposição política conhecida quase em cima da abertura da sala, não se pôde então chamar Teatro Jordão, tendo a empresa decidido baptizá-lo como "Teatro Martins Sarmento", designação que vigorará oficialmente até depois da morte do seu iniciador, em 24 de Maio de 1940.
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16 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (9)

O Capitão Luís de Pina (foto cedida pelo neto Silvestre Barreira)


No número seguinte do Echos de Guimarães, o Capitão Luís de Pina encerraria a polémica, com um texto onde emprega o registo argumentativo, incisivo e sem papas na língua, que já utilizara no seu primeiro texto. A polémica ficaria por aqui, até porque o jornal Echos de Guimarães terminaria a sua existência logo a seguir.


Mosaicos do Toural

A comédia que se exibiu na ribalta da imprensa, levada à cena pelo impagável autor da "Confissão Auricular" e quejandas baboseiras, e, ainda agora, dum desastrado título em que o reprovam, no plural, briga com o quem, no singular, foi duma execução e efeitos magistrais na parte final.

Ao fundo, via-se uma deliciosa perspectiva do Coliseu de Roma, onde eram lançados os cristãos às feras, para passatempo e gáudio dos vários a. l. l.. Ao centro, o comparsa e autor da peça, ostentando a sua juba branca, espavorido ainda pelo fiasco de S. Mamede, se a ele não corressem os bombeiros a salvá-lo, pela sua expulsão de sócio da A. dos E. de C. e pelo crime, no dizer do sábio arquitecto Marques da Silva, da demolição duma jóia arquitectónica da velha Guimarães, que ali para Donães fazia sombra a um prédio seu, esse imitava o seu colega Policarpo a recitar o "Melro", metendo a costumada "sapatilha", e ia apresentando os artistas, que, uns após outros, seguiam a declinar as suas incumbências.

Abria o circuito um bem caracterizado e leal patriarca, empunhando as tábuas da Lei, cujos cinco mandamentos — fazendo fé pelo "Comércio de Guimarães", de 21 de Junho de 1927, numa referência ao candelabro monumental da sua autoria, que diz ser deselegante, pesado e excessivamente baixo* — devem encerrar num só mandamento: "Olha para o que eu digo e não para o que eu faço".

Desusava depois, bamboleante e arguto, o mais imparcial, quanto ao gosto individual e sensibilidade religiosa de cada um, no direito, portanto, que eu tinha, de aplicar aquilo que apliquei, inclusive no que diz respeito ao escudo afonsino, historicamente garantido. Mas, ao sair pela porta da esquerda, quedara-se a monologar o que no "Janeiro" de 1 de Setembro último escrevera por tabela ao dos caixilhinhos, aquando do projectado corte das árvores do Toural: "aquilo que ali ao presente vemos é simplesmente pavoroso, sob o ponto de vista ornamental, sem proporções, no volume e arranjo". E, batendo com a mão na testa, foi-se a pensar no que logo a seguir escrevera: "Porque estando a realizar-se, pela amplidão do pavimento do mesmo largo, uma decoração artística de evidente utilidade, se não dê intrínseco merecimento, etc."

Seguiam-se depois, a fechar o circuito desta fantástica encenação de exuberância de conhecimentos, dois temperamentos de artistas despeitados por não estarem no meu lugar, que não solicitei, donde foram despedidos, e que são exímios em monumentos funerários.

Os espectadores pasmaram, riram, riram... e até a lágrima celeste, ingénua e luminosa, tremeu, tremeu, tremeu e caiu silenciosa.
 
O pano desceu igualmente silencioso, e no écran, como auréola a iluminar as trevas dos que não querem ver, surgiram então, com maior pasmo ainda, os mosaicos da Avenida em Lisboa, onde os nomes consagrados da nossa História, as cruzes e os escudos se patenteiam triunfalmente a rir-se das regras impostas às múltiplas manifestações da Arte.

E para terminar, porque tenho mais que fazer, transcrevo aqui, a talho de foice, o seguinte conceito de Frey Amador Addaiz, que cita, num magistral artigo seu, publicado no "Comércio do Porto", de 18, o escritor vimaranense Alfredo Pimenta: "Letras em mau sujeito são peste e pernicioso veneno".

Capitão Luís de Pina.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 541 22 de Dezembro de 1928]

 

* Referência a uma nota publicada em O Comércio de Guimarães de 21 de Junho de 1927, referente a melhoramentos em Guimarães, onde se lê:

"Uma obra de que não gostamos, e em que se gastaram contos de réis inutilmente, é o pedestal que sustém as lâmpadas eléctricas no campo de D. Afonso Henriques.
É deselegante, pesado excessivamente baixo.
Não tem beleza, arte, nem estética."


O autor da obra é Abel Cardoso.

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15 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (8)


Uma das páginas da edição de 15 de Dezembro de 1928, do jornal monárquico "Echos de Guimarães" onde foram publicados os resultados do inquérito de A. L. de Carvalho

A. L. de Carvalho dá por concluído o seu "plebiscito de restritas proporções" acerca do mosaico do Toural, com o seguinte comentário:

Finalmente:

O autor do desenho do mosaico no Toural foi reprovado estrondosamente — só porque não soube suportar em silêncio um leve e justo reparo à sua obra de amador. 

Esquecido de que qualquer munícipe, no uso pleno dos seus direitos, pode apreciar os serviços e os funcionários municipais, provocou imprudentemente a sua própria exautoração de "artista amador"; por modo que, não há já agora outro remédio senão chamar a atenção da Câmara para que mande, ao menos, corrigir a parte do desenho de mais flagrante disparate. 

... E, dito isto, venha daí o leitor apreciar a "engenharia" das novas avenidas.


A. L. de Carvalho.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 540, 15 de Dezembro de 1928]
[continua]
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14 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (7)


O Toural, antes da instalação do mosaico.

[continua daqui]

 

Tendo já sido ouvidos um pintor, um crítico de arte, um arquitecto, ao leque de "peritos" em regras para o bom desenho de um mosaico para o Toural, faltava um especialista em decoração. Mas esta área de conhecimento não foi esquecida por A. L. de Carvalho no seu inquérito sobre a obra do Capitão Luís de Pina, tendo sido ouvido o decorador José Luís de Freitas, nada mais do que o responsável pela concepção dos canteiros do jardim do Toural, rasgados em 1911.



Última palmatoada, por um decorador profissional.

Meu amigo sr. José Ribeiro de Freitas:

O senhor que fez com distinção um curso de desenho e pode ser considerado um temperamento artístico, de gosto e vista cultivados — qualidades já suficientemente comprovadas na execução de tantas obras municipais por si orientadas, nomeadamente a transformação do Largo do Toural, o traçado do Jardim Público, etc. além de lhe estarem confiadas importantes obras particulares que, exigindo senso artístico e executivo, eu sei terem merecido a
plena aprovação de arquitectos como Raul Lino — não se furtará portanto, a responder-me a esta mera pergunta de questionário:


— O desenho do mosaico no Toural, nomeadamente aquele que reproduz a Cruz, satisfaz as regras da Arte?

Autorize-me a dar publicidade à sua resposta, pois dela careço.
Mt.º Grato,
A. L. de Carvalho.

Meu prezado amigo:

Há já uns anos que prestei os meus serviços na Câmara.

São da minha autoria os melhoramentos da rua de S. Dâmaso Trás do Muro e do Largo do Trovador, bem como o respectivo ajardinamento.

De minha autoria é também a transformação e ajardinamento do Largo do Toural; mas o projecto do jardim público é do horticultor sr. Jacinto de Matos.

Deixo porém este assunto, que não interessa, e vem apenas para não aceitar, com o silêncio, uma honra que me não pertence, e passo a tratar do assunto em questão:

À ornamentação do mosaico do Toural presidiu a intenção de continuar com o estilo que adoptei no ajardinamento, estilo românico; mas a meu ver, houve infelicidade em empregar ornatos tão variados, alguns muito complicados e em excesso desenvolvidos, a ponto de a vista não os abranger. Deste facto, ao certo, resulta a falta de ligação da ornamentação do centro com a cercadura.

É de muito mau efeito o zig-zag do centro cortado na ligação lateral com os passeios; e, quanto a mim, são simplesmente insuportáveis os entrelaços da entrada inspirados segundo creio, na capa de certa publicação, mas que ali dão a ideia duma série de círculos concêntricos, produzidos por pedra que cai num líquido, ou então a de uma série dr pneus de diferentes tamanhos, ali amontoa-dos, muito em desarmonia com a leveza do letreiro sobre que parece apoiarem.

A alguns detalhes faltam as características do estilo: na cercadura dos passeios há curvas com toda a tendência para a arte nova e no primeiro lóbulo das folhas há anomalia, do que resultou a folhagem ficar com excesso de volume e daí a necessidade de lhe meter nervuras de mau aspecto.

O volume do maciço da estátua parece-me prejudicado pelo excesso de aterramento, a meu ver desnecessário, pois só serve para agravar o desnivelamento da parte de baixo; a não ser que, com a massagem, o mosaico rebaixe ao ponto do primitivo pavimento, o que me parece impossível.

Quanto ao emblema ali colocada, cruz e espada, parecido com o emblema do Senhor dos Santos Passos, se não era possível dar-lhe outra forma, melhor seria tê-lo evitado; o que em qualquer dos casos era sempre preferível, visto tratar-se de um símbolo impróprio para estar no chão e em posição horizontal.

Seu muito amigo
José Ribeiro de Freitas.


[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 540, 15 de Dezembro de 1928]


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13 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (6)



Segue-se o parecer de um arquitecto, José Luís Ferreira, cuja opinião em relação ao desenho do mosaico do Toural vem na linha dos anteriores:

Parecer do Arquitecto Vimaranense, sr. José Luís Ferreira.

Não podia deixar de consultar neste plebiscito de restritas proporções o sr. José Luís Ferreira, que tem não só um diploma de arquitecto, conquistado nas escolas técnicas, como exuberantemente tem patenteado a sua competência em assuntos de arte.

Da sua resposta à minha carta se extrai o suficiente para condenação formal dos desenhos do mosaico do Toural.

Segue a carta.

Sr. A. L de Carvalho:
Acusando a carta de V., respondo:

Primeiro: O desenho ou composição decorativa em mosaico no pavimento do Toural e que parece tinha principiado sofrivelmente, está-se-nos apresentando de uma imbecilidade de decoração no seu conjunto, que me abstenho de julgar por várias razões.

Segundo: — O desenho que reproduz a cruz e a que V. se refere, é de uma mesquinhês muito ridícula; e não sei a que propósito obedece a sua colocação naquele sítio, não só como elemento decorativo, em desproporção com os que o cercam mas também como elemento simbólico.

Pode fazer uso destas minhas afirmações.
De V. At.º V.or Obg.°

José Luís Ferreira.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 540, 15 de Dezembro de 1928]

 
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12 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (5)


[continua daqui]
 
Alfredo Guimarães, cujo percurso político ao longo da Primeira República teve claras afinidades com o de A. L. de Carvalho, foi um dos especialistas que este convidou para se pronunciarem sobre o desenho do mosaico do Toural. A pergunta que lhe foi dirigida, manifestamente anacrónica, num tempo em que a arte havia rompido com todas as regras, era se aquele projecto satisfazia "as regras da arte". A resposta foi negativa.



A opinião de um crítico de arte que tem os diplomas da Associação dos Arqueólogos e da Sociedade dos Escritores Portugueses

Meu caro Alfredo:

Tu que, por amor às Belas-Artes, te fizeste aluno dos Mestres, ouvindo-lhe as prelecções; tu que, desde longe, tens dado ao teu espírito uma cultura artística apaixonada, criando-te uma sensibilidade estética apreciável, estás, portanto, no caso de, com autoridade, dizeres algo sobre a seguinte pergunta que, neste mesmo momento, estou fazendo a outras individualidades da nossa terra, com o propósito de reproduzir:

- O desenho do mosaico do Toural, nomeadamente aquele que reproduz a cruz, satisfaz as regras da Arte?

Aguardo com interesse a tua resposta que acompanharás com a devida autorização para tornar pública.

Teu velho amigo
A. L. de Carvalho.

Meu querido Amigo:

Respondo, como desejas, à pergunta da tua carta.

O trabalho decorativo, em mosaico, da parte central da praça dr D. Afonso Henriques, pode e deve dividir se em três partes - a placa que envolve a base do monumento, de um espírito orientalista mais ou menos puro; o ornato médio, sem caracterização artística determinável; e, finalmente, a aplicação do escudo afonsino, historicamente garantida, embora talvez discutível sob o ponto de vista da sensibilidade religiosa de cada um. E disse que deve dividir se em três partes por virtude de o próprio trabalho, na sua clara ausência de homogenia, assim o ter determinado.

A placa que envolve a base do monumento produz indiscutível efeito; e tanto ou tão pouco que, se não tivesse havido, como houve, ao realizar os passeios circundantes, a preocupação de recorrer [a] motivos decorativos do trabalho do insigne Soares dos Reis - preocupação aliás digna de ser continuada e que inexplicavelmente se interrompeu aquela porção de obra resultaria, no conjunto, perfeita sugestão a quem a observasse. Podia o seu autor ter utilizado ali o ornato românico da primeira moldura do pedestal, dando assim, como já indiquei, maior unidade ao seu trabalho? Podia, e com certeza com resultados eficientes. Isso, porém, é, mais do que outra coisa, uma questão de gosto individual, não querendo, portanto, dizer que o seu autor não estivesse no direito de aplicar aquilo que aplicou.

Sobre a segunda parte, a do ornato que te reveste a quase totalidade do pavimento referido, e que deveria, por espírito de unidade, de derivar do motivo anteriormente realizado, sobre essa parte é que não estou, ou não posso e não devo estar em natureza alguma de concordância com o autor. Tudo ali contraria os mais sólidos princípios da obra ornamental em semelhante género. A aplicação do mosaico, repito, exige a reunião de formas decorativas tão familiares como proporcionadas. Ora é isso, justamente o que ali falta, pois a ausência de relação de carácter, medida e movimento, são neste passo da obra tão claras como lamentáveis.

Aqui viria grandemente a propósito a transcrição de umas páginas de Lutien Magne sobre a decoração do mosaico (L. M. — "Décor du Verre"), se elas não obrigassem a uma leitura demasiado longa e não fossem de certo modo incompletas sobre o conhecimento do texto anterior. Mas fica indicada a obra.
Pelo que se relaciona com a aplicação do escudo afonsino, somente tenho a lamentar que não tivesse sido procurada uma outra dimensão para semelhante assunto, obstando assim, pela correspondência proporcional das imagens entre si, ao desenho e resultado caricaturais da espada que lá vemos.

Sem mais, sou o teu velho amigo,
Alfredo Guimarães.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 540, 15 de Dezembro de 1928]

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11 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (4)



Prosseguindo a polémica sobre o mosaico do Toural, iniciado com um texto de A. L. de Carvalho no jornal Echos de Guimarães, a que se seguiu, a réplica do autor do projecto, Capitão Luís de Pina, o mesmo jornal publica no número seguinte, a 15 de Dezembro de 1928, quatro pareceres de "especialistas" na matéria em discussão. Estes depoimentos foram recolhidos por A. L. de Carvalho e a escolha dos seus autores não foi, como veremos pela resposta que o Capitão Pina dará, obra do acaso. Como se verá, estes pareceres, todos negativos em relação à obra, poderão não ter sido ditados por razões de estética e de arte.

O MOSAICO DO TOURAL
Reprovam os seus desenhos, quem tem autoridade para o fazer!
Os depoimentos de Abel Cardoso, Alfredo Guimarães, José Luís Ferreira e José Ribeiro de Freitas.

As duas colunas de carrancuda prosa que sob o título — O Mosaico do Toural —, aqui foram publicadas no último número como "troco" ao meu despretensioso artigo sobre o mesmo assunto teriam justificação se seu autor se limitasse à defesa da sua linda obra. Como porém este se excedesse até ao ponto de... perder a cabeça, dizendo coisas destinadas a um bilioso propósito pessoal de enxovalho e insulto, patenteou-se assim a sem razão daquela suja prosa, de passo que se revelou, mais uma vez, a meu incivilidade duma criatura com quem é pouco proveitoso manter relações.

Não cometendo, por minha vez, a feia acção de me desonrar e, simultaneamente, desprestigiar o jornal que acolhe esta minha lavada prosa, renuncio por isso ao prazer vulgar da desforra — sacrifício que ofereço em homenagem aos filhos e irmãos do desvairado funcionário municipal.

E, dito isto, cinjamos-nos ao assunto que interessa o nosso público: — O mosaico do Toural.

Uma esplêndida "lição" pelo professor Abel Cardoso que fortalece a razão do meu reparo:

"Meu Amigo: - se não colide a liberdade do meu parecer de Artista e Professor com algum sentimento de amizade pessoal com o autor do desenho do mosaico do Toural, peço-lhe a fineza de responder a estas duas perguntas, autorizando-me a reproduzi-las:

- O chão que se destina a ser pisado pelo público é ou não lugar próprio para nele se reproduzir uma cruz, embora numa pretensa combinação heráldica?

-Quer ter a bondade de exteriorizar o seu pensamento relativamente ao desenho desse mosaico no Toural?
De V. Adm.or – A. L. de Carvalho

Guimarães, 11 de Dezembro 1928

Amigo A. L. de Carvalho:

Desde que V. invoca a minha qualidade de professor, não poderia eu, senão atraiçoando essa qualidade, recusar-me a dar-lhe o meu parecer, muito lealmente, acerca do desenho do mosaico do Toural, com a franqueza e simplicidade com que o faria aos meus humildes alunos do curso ornamental.

De resto, não me parece que a opinião dum professor, que no presente caso se limitará a reproduzir algumas regras gerais da composição decorativa, podendo, em face delas, analisar-se conscientemente o desenho em questão, não me parece, dizia eu, que essa opinião vá magoar o meu velho e estimado amigo Capitão Luís de Pina, porquanto em coisa alguma ela desmerece as suas superiores qualidades de Artista de real merecimento, continuando, consequentemente, credor de minha admiração.

Posto isto, vamos ao caso. Dizem os Mestres decoradores que: 

1.º O Artista deve operar uma selecção inteligente na escolha dos motivos decorativos. E reprovam os casos em que, por exemplo, a Renascença mistura cenas mitológicas e bacanais com assuntos bíblicos e religiosos.

2.º Cada motivo decorativo tem o seu lugar próprio. E assim, deve o Artista distinguir os motivos adequados à ornamentação de paredes ou tectos, dos que se podem aplicar aos pavimentos; e ainda, os que ocupam os lugares de honra, dos que ornamentam os lugares secundários. Para essa distinção tem o Artista a Natureza por guia e a razão por conselheira.

3.º — A simplicidade, rigorosamente compreendida, constitui a maior beleza da Arte.

4.º — A ornamentação deve ler-se ao primeiro golpe de vista, sem esforço ou dificuldade. Nada de complicações, de sobreposições, de transições bruscas de formas onduladas para formas secas e angulosas que transtornam a harmonia do conjunto.

5.º Deve ter-se em muita atenção, a bem da harmonia do mesmo conjunto, a escala entre os motivos decorativos.

E basta.

Pergunta-se: Obedece o desenho do mosaico do Toural a estes conselhos dos Mestres e que os livros da especialidade registam como valiosíssimos preceitos a observar e preciosas regras de arte a seguir?

Não obedece.

Os espaços destinados, exclusivamente, ao piso público, não são lugares próprios para receberam ornamentações que representem determinados emblemas ou símbolos religiosos, como a Cruz, o Cálix, a Hóstia, etc, ou cívicos como a Bandeira Nacional, Brasões Ilustres, etc. Igualmente, e pelos mesmos princípios de respeito mútuo que nos devemos, não ornamentaríamos os referidos espaços com nomes de cidadãos consagrados. Ainda bem que ali não há tais nomes.

É claro que a figura geométrica que resulta de duas rectas, que se cortam perpendicularmente, pode chamar se uma cruz.

Há porém que distinguir: com aquela figura geométrica, não como emblema religioso, (e todos nós, sem excepção, sabemos bem quando ela representa um símbolo religioso, uma ornamentação profana, um sinal aritmético, uma assinatura, etc., poderemos tirar belíssimos partidos decorativos em qualquer lugar.

* * *

Quanto ao conjunto do largo, também não me parece que o meu ilustre amigo Capitão Pina observasse os preceitos expostos:

A multiplicidade de elementos empregados, não direi a esmo, mas não obedecendo a uma finalidade bem definida, transtorna e compromete a harmonia do conjunto e do próprio estilo românico que ali quis adoptar.

Os quatro dísticos às entradas do largo, os quais, pela posição em que se encontram, mais podem considerar-se às saídas do mesmo largo, estão fora da escala, tornando-se a sua leitura extremamente difícil, o que, segundo os referidos preceitos que eu perfilho e cuja doutrina acato em absoluto, por criteriosa, constitui igualmente um erro.

Mas - amigo Carvalho, quem não erra neste mundo?

Se aqueles que sempre se dedicaram à carreira artística, consagrando-lhe o melhor de todos os momentos em aturados estudos, praticam às vezes, erros imperdoáveis, como não havemos de desculpar o meu amigo Capitão Luís de Pina que evidentemente, e quem sabe se com grande pesar seu, não pôde, em virtude, talvez, da árdua carreira das armas que abraçou com tanto brilho, canalizar e consolidar em bases seguras, por meio de uma cultura apropriada e especial, o seu indiscutível temperamento artístico?

O Capitão Pina é razoável e estou certo de que, agora, com mais calma, vai modificar, com vantagem para todos nós e para ele, pelo menos o malfadado motivo que originou o seu justo reparo.

E não sofrerá grandemente o cofre municipal com a modificação.

E... não me pergunte mais nada sabre o assunto em debate, que já estou cansado para prelengas desta natureza, fora da minha Escola.

Amigo velho

Abel Cardoso.
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10 de dezembro de 2010

O mosaico do Toural (3)

A. L. de Carvalho

Na violenta desanda que o Capitão Luís de Pina deu em A. L. de Carvalho na discussão sobre o mosaico do Toural, em que o acusa de pretender agradar aos católicos e monárquicos, com quem se quer reconciliar e andar de boas graças, há referências que importa tentar perceber, para se compreender a discussão. Uma delas prende-se com a menção do Capitão Pina à "confissão auricular", em que é posta em causa a coerência do crítico da cruz desenhada no chão do Toural. Trata-se de uma alfinetada que traz à memória uma conferência proferida por A. L. de Carvalho em Março de 1914, no Centro Republicano de Guimarães, que seria dada à estampa num opúsculo intitulado "A Confissão Auricular".

Quase no final da sua conferência, disse Carvalho:


 
Eis-me chegado ao fim do meu trabalho. Incompleto? Talvez. É todavia uma síntese clara, batendo todas as facetas do delicado problema. Sobre ele, não espero que incidam as discussões sérias dos antagonistas. Em compensação, os moscardos da estupidez, da ignorância e do fanatismo, lançar-me-ão o anátema de excomunhão maior, de mistura com os seus salpicos de sandices e parvoeiradas.

Deixemos-los!

É que eu, meus senhores — a quem agradeço a bondade que tiveram em ouvir-me — quero, acima de tudo, contribuir, quero ajudar, com um pouco do meu esforço moral e do meu espírito combativo, a espancar essa tenebrosa e sombria noite dantesca em que a Roma clerical pretende envolver e dominar o espírito humano, impondo à consciência e ao cérebro, como código fundamental e único, o Silabus, — cujas proposições são, em resumo, a negação da Liberdade, do Progresso e da Ciência.

Que deixemos por isso de ser religiosos? Não. O espírito ou sentimento religioso é um atributo das almas bem formadas, como o espírito de reacção católica, apostólica, romana é um sintoma de consciências empedernidas. Combato, apenas, aquela antipática, repugnante e criminosa chantage.

[A. L. de Carvalho, A Confissão Auricular, Guimarães, 1915, pp. 40-41].


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O mosaico do Toural (2)


À crítica de A. L. de Carvalho sobre o desenho dos mosaicos do Toural, em que visava especialmente a cruz desenhada no chão, responde o autor da obra, o Capitão Luís de Pina. O texto que se segue, assim como o que o antecedente e os que se seguirão, têm que ser lidos à luz das profundas inimizades que, desde os primeiros passos da República em Guimarães, em 1910, até depois do seu fim, em 1926, marcaram as relações entre duas facções de republicanos vimaranenses: uma encabeçada por Mariano Felgueiras e outra encabeçada por A. L. de Carvalho. Quando o mosaico do Toural começou a ser colocado, já se estava em plena ditadura e A. L. de Carvalho ensaiava a sua aproximação ao novo poder. Esta discussão tem que ser lida nesse contexto. O Capitão Luís de Pina posicionava-se do outro lado da barricada dos republicanos de Guimarães. A resposta que deu à crítica de A. L. de Carvalho não poupa nas palavras, nem no tom polémico.

Mosaicos do Toural

Recebemos a carta que segue com o pedido de publicação:

É um acto de cobardia, para não dizer do absoluta falta do carácter, um indivíduo criticar, seja de que maneira for, a obra doutro com quem está de relações cortadas e, o que é pior, de quem é inimigo declarado; em segundo lugar, a cobardia acentua-ser porquanto se escuda com a opinião dum terceiro, talvez da mesma força, de quem nem o nome diz; fala, portanto, de orelha, como é de seu uso...; em terceiro lugar, vê-se no artigo um desejo do articulista, ordinário por isso mesmo, de agradar aos católicos e monárquicos, com quem se quer reconciliar e andar de boas graças!

Esta é a nota mais nojenta do assunto; mas outra nota há suja e de mau carácter: querer ele incutir no pensamento de toda a gente um crime de lesa-religião, de lesa-Deus, pois o sujeito sabe com que terra lida e como o seu povo recebe aquela abjecta insinuação! E, no resto, que autoridade científica e artística tem o crítico de água chilra, para dizer, enfaticamente: "Reputo, pois, erro de arte e erro de senso semelhante desenho"?

Explique o cavalheiro, se é capaz, o que vem a ser um erro de senso, se é que conhece a fisiologia do cérebro! O cavalheiro é mestre ou julga-se como tal, lançando as suas opiniões como se toda a gente lhas admitisse e abraçasse como se fossem de um alto valor, ele, o pobre desgraçado, analfabeto e lorpa! Por absoluta falta de autoridade para falar assim, merecia tão simplesmente o desprezo; mas há, infelizmente, muita gente, muitíssima gente, na nossa terra, que aproveita o mal, venha de quem vier! São os pequenos espíritos que todos se dão bem!

Refutando a opinião parva do cavalheiro, direi apenas que o que está desenhado no mosaico é um motivo ornamental como os restantes do pavimento, condizendo tudo com a época de Afonso Henriques. Não se quis ali representar o símbolo Cruz, mas o símbolo escudo do rei, escudo português. E, porque este a encerra, naturalmente ela teria de ser representada. Culpa não há, porque a cruz no escudo representa a mais antiga forma do escudo heráldico português, primitivo brasão de D. Afonso Henriques. Prova-o o magnífico estudo do professor da Faculdade de Letras de Coimbra, Dr. António de Vasconcelos, que foi publicado na Revista "Luzitânia", dirigida pela grande professora D. Carolina Michaëllis, já falecida; encontra-se no seu fascículo III, Junho de 1924, pág. 327!

O cioso mirone, que julgou ver naquilo um símbolo do Calvário, equivocou-se. E demais, que culpa há, nisso, que culpa há de que o povo seja tão ignorante, o povo e os que já se não julgam povo?!

O povo também chama Guimarães à estátua da Câmara, também lê o v da palavra indvstrias da Sociedade M. Sarmento, também chama pedras de raio aos machados da idade da pedra, também julga que Portugal e o Mundo é só a terra onde nasceu, também julga que o demo se mete no corpo da gente, etc.

E, no entanto, ninguém se atreveu ainda a acabar com o diabo, com a Terra, com o macaco da Câmara, com a Sociedade M. Sarmento, e até, já agora, com aquele símbolo que se vê no ângulo NO da torre do templo da Oliveira!

Pobre crítico, agora tão zeloso do Cristianismo, esquecido já da forma como tratou Mumadona, os cónegos, a confissão auricular, a religião, enfim, na sua pretensiosa, prosa sem gramática e sem senso; criatura vaidosa, que nunca poderá com tal prosa sujeitar a feição do resto da gente de juízo e inteligência, o seu cérebro atrasado e microscópico, tão cheio, no entanto, de megalomania; porque não se atira—e isso é que eu queria ver — ao uso da cruz nos ouros ao pescoço das mulheres de todo o mundo, a cruz que dorme com elas, que anda entre os seus seios — frutos do pecado — que é arredada, pelos homens nos lupanares...............; O uso da cruz nos jugos dos bois, que após o trabalho, vão pousar no esterco dos currais; o uso da cruz nas nossas antigas moedas que entravam em todos os Lugares, puros ou impuros; o uso da cruz nos panos de ajaezamento .dos nossos antigos cavalos de guerra; a uso da cruz nas sepulturas, que, abandonadas, são pisadas por toda a gente; o uso da cruz nas portas das casas, desenhadas pelos estrumeiros, a significar que o esterco já está comprado; o uso da cruz pelos analfabetos nos contratos e quejandos documentos comerciais; o uso da cruz aos nossos tão portugueses tapetes; o uso da cruz em gravuras e objectos de adorno, que, vão para o cesto dos papéis; o próprio chão que pisamos nos templos que têm a forma de cruz; e, o que é principal, o uso da cruz nos convites de enterro dos jornais, na página de anúncios, que depois de lida, é rasgada em pedaços que vão servir nas sentinas ara a gente se servir deles pela forma mais irreverente?!

Porque, se não insurge o puritano barato contra isto tudo? Que negue estas heresias, se é disso capaz!!! Mas ele tem lá cérebro para pensar nestas coisas! Só escreve o que lhe apitam ou que copia, o grande intelectual do péssimo "Roteiro de Guimarães", das célebres crónicas para um jornal de Braga a dizer mal da sua terra.

Onde não há intenção não há crime. Logo não há crime nos meus desenhos do Toural, cuja crítica, embora livre, só pode admitir-se quando escrita ou feita por altos valores e não por qualquer pretensioso audaz, que tudo se mete a criticar, mesmo as coisas em que é fundamentalmente ignorante.

Capitão Luís de Pina.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 539, 8 de Dezembro de 1928]
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9 de dezembro de 2010

O mosaico do Toural (1)


Agora que o Toural está a passar pela intervenção mais profunda da sua história, vem a propósito recordar que nunca houve mudança na praça que não desse lugar a grande discussão. Nos próximos dias iremos recordar aqui uma das polémicas mais acesas que se travaram aquando de mudanças no Toural, mais precisamente da discussão que acompanhou a colocação do magnífico mosaico que agora vai ser levantado, desenhado pelo Capitão Luís de Pina.



Mosaicos do Toural - Desenhos que atentam contra as regras da estética e do simbolismo cristão.

 
Chamaram a nossa atenção para os desenhos do mosaico na Praça de D. Afonso Henriques, que há meses ali se vem colocando.

Não se conforma o meu autorizado informador com a liberdade adoptada pelo autor do referido desenho, fazendo reproduzir no chão duma praça pública símbolos respeitáveis, como sejam — Cruz.

Não é o prurido católico que beliscou o meu informador Tratando-se de um escudete com a Cruz e a Espada, o reparo do crítico deriva dum condicionalismo de arte, que diz, e muito bem, não autoriza a aplicação de certos símbolos em lugares que são calcados aos pés, sujeitos ao lixo, ao escarro, e, portanto, ao desrespeito!

Fui ver a... profanação. E a obra, já de si mal executada — se não mal desenhada! — não chega sequer a ter inspiração, dado o contraste entre a espessura da Cruz com a magreza da Espada; o que levou um mirone que junto de nós estava, a supor tratar-se de um simbolismo do calvário.

Descontando o exagero desta interpretação, não deixa de ser pitoresco o comentário; e nós preferíamos que não houvesse motivo para estas críticas, reflectindo-se na responsabilidade destas obras públicas.

A posição da Cruz, que é em qualquer hipótese de fé religiosa um símbolo de redenção humana, pede, segundo as mais severas regras da arte, posição diversa, daquela que tem no mosaico da Praça de D. Afonso Henriques, excepção daqueles lugares sagrados em que esse símbolo é tampa de caixão ou jazida mortuária,

Em tais casos, não pisamos esse motivo ornamental, que é dum simbolismo exalçado e reverente; custando-nos a conceber que agora o venha a fazer a população da nossa terra, tão piedosa e apregoadamente católica!

Repito, pois, erro de arte e erro de senso semelhante desenho.

A. L. de Carvalho.


[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 538, 1 de Dezembro de 1928]
[continua]
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