12 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (5)


[continua daqui]
 
Alfredo Guimarães, cujo percurso político ao longo da Primeira República teve claras afinidades com o de A. L. de Carvalho, foi um dos especialistas que este convidou para se pronunciarem sobre o desenho do mosaico do Toural. A pergunta que lhe foi dirigida, manifestamente anacrónica, num tempo em que a arte havia rompido com todas as regras, era se aquele projecto satisfazia "as regras da arte". A resposta foi negativa.



A opinião de um crítico de arte que tem os diplomas da Associação dos Arqueólogos e da Sociedade dos Escritores Portugueses

Meu caro Alfredo:

Tu que, por amor às Belas-Artes, te fizeste aluno dos Mestres, ouvindo-lhe as prelecções; tu que, desde longe, tens dado ao teu espírito uma cultura artística apaixonada, criando-te uma sensibilidade estética apreciável, estás, portanto, no caso de, com autoridade, dizeres algo sobre a seguinte pergunta que, neste mesmo momento, estou fazendo a outras individualidades da nossa terra, com o propósito de reproduzir:

- O desenho do mosaico do Toural, nomeadamente aquele que reproduz a cruz, satisfaz as regras da Arte?

Aguardo com interesse a tua resposta que acompanharás com a devida autorização para tornar pública.

Teu velho amigo
A. L. de Carvalho.

Meu querido Amigo:

Respondo, como desejas, à pergunta da tua carta.

O trabalho decorativo, em mosaico, da parte central da praça dr D. Afonso Henriques, pode e deve dividir se em três partes - a placa que envolve a base do monumento, de um espírito orientalista mais ou menos puro; o ornato médio, sem caracterização artística determinável; e, finalmente, a aplicação do escudo afonsino, historicamente garantida, embora talvez discutível sob o ponto de vista da sensibilidade religiosa de cada um. E disse que deve dividir se em três partes por virtude de o próprio trabalho, na sua clara ausência de homogenia, assim o ter determinado.

A placa que envolve a base do monumento produz indiscutível efeito; e tanto ou tão pouco que, se não tivesse havido, como houve, ao realizar os passeios circundantes, a preocupação de recorrer [a] motivos decorativos do trabalho do insigne Soares dos Reis - preocupação aliás digna de ser continuada e que inexplicavelmente se interrompeu aquela porção de obra resultaria, no conjunto, perfeita sugestão a quem a observasse. Podia o seu autor ter utilizado ali o ornato românico da primeira moldura do pedestal, dando assim, como já indiquei, maior unidade ao seu trabalho? Podia, e com certeza com resultados eficientes. Isso, porém, é, mais do que outra coisa, uma questão de gosto individual, não querendo, portanto, dizer que o seu autor não estivesse no direito de aplicar aquilo que aplicou.

Sobre a segunda parte, a do ornato que te reveste a quase totalidade do pavimento referido, e que deveria, por espírito de unidade, de derivar do motivo anteriormente realizado, sobre essa parte é que não estou, ou não posso e não devo estar em natureza alguma de concordância com o autor. Tudo ali contraria os mais sólidos princípios da obra ornamental em semelhante género. A aplicação do mosaico, repito, exige a reunião de formas decorativas tão familiares como proporcionadas. Ora é isso, justamente o que ali falta, pois a ausência de relação de carácter, medida e movimento, são neste passo da obra tão claras como lamentáveis.

Aqui viria grandemente a propósito a transcrição de umas páginas de Lutien Magne sobre a decoração do mosaico (L. M. — "Décor du Verre"), se elas não obrigassem a uma leitura demasiado longa e não fossem de certo modo incompletas sobre o conhecimento do texto anterior. Mas fica indicada a obra.
Pelo que se relaciona com a aplicação do escudo afonsino, somente tenho a lamentar que não tivesse sido procurada uma outra dimensão para semelhante assunto, obstando assim, pela correspondência proporcional das imagens entre si, ao desenho e resultado caricaturais da espada que lá vemos.

Sem mais, sou o teu velho amigo,
Alfredo Guimarães.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 540, 15 de Dezembro de 1928]

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