18 de dezembro de 2010

Para a história do Teatro Jordão (1)

 
Bernardino Jordão

Agora que se prepara uma intervenção profunda no velho Teatro Jordão, devolvendo-o à actividade e à cidade, é tempo de resgatar as suas memórias do esquecimento.

Ao longo da década de 1930, discutiu-se intensamente em Guimarães a necessidade de que a cidade fosse dotada de um teatro condigno, que não envergonhasse a cidade aos olhos de estranhos, como reclamava em 1929 a Sociedade de Propaganda e Defesa de Guimarães. Por essa altura, havia muitos anos que o velho Teatro D. Afonso Henriques estava fechado (tendo sido publicado em 1933 um decreto que autorizava a sua demolição, para a abertura de uma rua de ligação entre a rua de S. Dâmaso e o largo da República do Brasil) e o Teatro Gil Vicente não reunia as condições necessárias, sendo mesmo classificado no Notícias de Guimarães de 5 de Fevereiro de 1933 como indecente, nauseabundo e indigno da nossa terra.

No dia 18 de Fevereiro de 1936, a Câmara Municipal de Guimarães reuniu em sessão extraordinária para decidir acerca da construção de um novo teatro. A ideia seria a reconstrução do D. Afonso Henriques, que continuava de pé, por não se ter rasgado a rua prevista no decreto de 1933. Desta reunião não saiu qualquer solução para o problema, uma vez que logo começaram a circular rumores de que a reconstrução do velho teatro estaria encravada.

Ainda nesse ano, seria notícia a iniciativa do empresário Bernardino Jordão, que estaria a trabalhar no projecto para a construção de um novo teatro. Após alguma controvérsia acerca da sua localização, este começaria a ser erguido no dia 22 de Fevereiro de 1937, na avenida Cândido dos Reis (actual D. Afonso Henriques), perante manifestações de júbilo da população. O responsável pelo projecto e pela direcção da obra seria o arquitecto e engenheiro civil Júlio José de Brito, cuja obra mais conhecida é o Teatro Rivoli, no Porto.




Capa do programa da inauguração do Teatro Jordão

Na brochura que foi distribuída aquando da inauguração do teatro, fazia-se uma descrição impressionante da dimensão da obra:

Para dar uma pequena ideia desta obra apresentam-se os seguintes dados: Gastaram-se entre outros materiais 979 camiões de areia, cascalho e saibro; 684 camiões de perpianho e alvenaria; 62 vagões de cimento, cal, gesso e marmorite; 13 vagões com 127000 quilos de ferro; 31000 ou sejam perto de 30 vagões de tijolos "SIMCO" gastos para os pavimentos. Só os pinheiros utilizados na obra somam um comprimento que chega para fazer uma via dupla desde a Praça do Toural até à Penha. As tábuas e escoras gastas nas cofragens e soalhos chegariam para fazer um tapamento a toda a volta da Praça do Toural com uma altura de 20 metros. Se carregássemos um comboio com todo o material gasto nesta obra, teríamos uma composição de 835 vagões excluindo a máquina e o tender ou seja um comprimento total de 9,2 quilóm., isto é, uma distância igual à que vai da estação de Guimarães até Vizela. Com as 926 lâmpadas num total de 46000 watts aplicadas na iluminação, e distanciadas de 10 m. podíamos iluminar toda esta linha.


Planta da sala de espectáculos do Teatro Jordão

O Teatro Jordão tinha capacidade para mais de 1200 espectadores. O programa da sua inauguração, que aconteceu a 20 de Novembro de 1938, foi composto por um "Serão Vicentino", pelo Teatro Nacional Almeida Garrett, com a representação do Monólogo do Vaqueiro, do Auto Pastoril Português e do Auto Mofina Mendes. Do elenco, faziam parte nomes como Amélia Rey Colaço, Lucília Simões, João Vilaret, Álvaro Benamor ou Raul de Carvalho. O espectáculo contou também com a participação da Orquestra Ibéria. O teatro foi perfumado pela Sociedade de Perfumarias Nally, com o perfume "Noite de Prata".

A inauguração do Teatro ficou na memória da cidade. Só que, por imposição política conhecida quase em cima da abertura da sala, não se pôde então chamar Teatro Jordão, tendo a empresa decidido baptizá-lo como "Teatro Martins Sarmento", designação que vigorará oficialmente até depois da morte do seu iniciador, em 24 de Maio de 1940.
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