11 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (4)



Prosseguindo a polémica sobre o mosaico do Toural, iniciado com um texto de A. L. de Carvalho no jornal Echos de Guimarães, a que se seguiu, a réplica do autor do projecto, Capitão Luís de Pina, o mesmo jornal publica no número seguinte, a 15 de Dezembro de 1928, quatro pareceres de "especialistas" na matéria em discussão. Estes depoimentos foram recolhidos por A. L. de Carvalho e a escolha dos seus autores não foi, como veremos pela resposta que o Capitão Pina dará, obra do acaso. Como se verá, estes pareceres, todos negativos em relação à obra, poderão não ter sido ditados por razões de estética e de arte.

O MOSAICO DO TOURAL
Reprovam os seus desenhos, quem tem autoridade para o fazer!
Os depoimentos de Abel Cardoso, Alfredo Guimarães, José Luís Ferreira e José Ribeiro de Freitas.

As duas colunas de carrancuda prosa que sob o título — O Mosaico do Toural —, aqui foram publicadas no último número como "troco" ao meu despretensioso artigo sobre o mesmo assunto teriam justificação se seu autor se limitasse à defesa da sua linda obra. Como porém este se excedesse até ao ponto de... perder a cabeça, dizendo coisas destinadas a um bilioso propósito pessoal de enxovalho e insulto, patenteou-se assim a sem razão daquela suja prosa, de passo que se revelou, mais uma vez, a meu incivilidade duma criatura com quem é pouco proveitoso manter relações.

Não cometendo, por minha vez, a feia acção de me desonrar e, simultaneamente, desprestigiar o jornal que acolhe esta minha lavada prosa, renuncio por isso ao prazer vulgar da desforra — sacrifício que ofereço em homenagem aos filhos e irmãos do desvairado funcionário municipal.

E, dito isto, cinjamos-nos ao assunto que interessa o nosso público: — O mosaico do Toural.

Uma esplêndida "lição" pelo professor Abel Cardoso que fortalece a razão do meu reparo:

"Meu Amigo: - se não colide a liberdade do meu parecer de Artista e Professor com algum sentimento de amizade pessoal com o autor do desenho do mosaico do Toural, peço-lhe a fineza de responder a estas duas perguntas, autorizando-me a reproduzi-las:

- O chão que se destina a ser pisado pelo público é ou não lugar próprio para nele se reproduzir uma cruz, embora numa pretensa combinação heráldica?

-Quer ter a bondade de exteriorizar o seu pensamento relativamente ao desenho desse mosaico no Toural?
De V. Adm.or – A. L. de Carvalho

Guimarães, 11 de Dezembro 1928

Amigo A. L. de Carvalho:

Desde que V. invoca a minha qualidade de professor, não poderia eu, senão atraiçoando essa qualidade, recusar-me a dar-lhe o meu parecer, muito lealmente, acerca do desenho do mosaico do Toural, com a franqueza e simplicidade com que o faria aos meus humildes alunos do curso ornamental.

De resto, não me parece que a opinião dum professor, que no presente caso se limitará a reproduzir algumas regras gerais da composição decorativa, podendo, em face delas, analisar-se conscientemente o desenho em questão, não me parece, dizia eu, que essa opinião vá magoar o meu velho e estimado amigo Capitão Luís de Pina, porquanto em coisa alguma ela desmerece as suas superiores qualidades de Artista de real merecimento, continuando, consequentemente, credor de minha admiração.

Posto isto, vamos ao caso. Dizem os Mestres decoradores que: 

1.º O Artista deve operar uma selecção inteligente na escolha dos motivos decorativos. E reprovam os casos em que, por exemplo, a Renascença mistura cenas mitológicas e bacanais com assuntos bíblicos e religiosos.

2.º Cada motivo decorativo tem o seu lugar próprio. E assim, deve o Artista distinguir os motivos adequados à ornamentação de paredes ou tectos, dos que se podem aplicar aos pavimentos; e ainda, os que ocupam os lugares de honra, dos que ornamentam os lugares secundários. Para essa distinção tem o Artista a Natureza por guia e a razão por conselheira.

3.º — A simplicidade, rigorosamente compreendida, constitui a maior beleza da Arte.

4.º — A ornamentação deve ler-se ao primeiro golpe de vista, sem esforço ou dificuldade. Nada de complicações, de sobreposições, de transições bruscas de formas onduladas para formas secas e angulosas que transtornam a harmonia do conjunto.

5.º Deve ter-se em muita atenção, a bem da harmonia do mesmo conjunto, a escala entre os motivos decorativos.

E basta.

Pergunta-se: Obedece o desenho do mosaico do Toural a estes conselhos dos Mestres e que os livros da especialidade registam como valiosíssimos preceitos a observar e preciosas regras de arte a seguir?

Não obedece.

Os espaços destinados, exclusivamente, ao piso público, não são lugares próprios para receberam ornamentações que representem determinados emblemas ou símbolos religiosos, como a Cruz, o Cálix, a Hóstia, etc, ou cívicos como a Bandeira Nacional, Brasões Ilustres, etc. Igualmente, e pelos mesmos princípios de respeito mútuo que nos devemos, não ornamentaríamos os referidos espaços com nomes de cidadãos consagrados. Ainda bem que ali não há tais nomes.

É claro que a figura geométrica que resulta de duas rectas, que se cortam perpendicularmente, pode chamar se uma cruz.

Há porém que distinguir: com aquela figura geométrica, não como emblema religioso, (e todos nós, sem excepção, sabemos bem quando ela representa um símbolo religioso, uma ornamentação profana, um sinal aritmético, uma assinatura, etc., poderemos tirar belíssimos partidos decorativos em qualquer lugar.

* * *

Quanto ao conjunto do largo, também não me parece que o meu ilustre amigo Capitão Pina observasse os preceitos expostos:

A multiplicidade de elementos empregados, não direi a esmo, mas não obedecendo a uma finalidade bem definida, transtorna e compromete a harmonia do conjunto e do próprio estilo românico que ali quis adoptar.

Os quatro dísticos às entradas do largo, os quais, pela posição em que se encontram, mais podem considerar-se às saídas do mesmo largo, estão fora da escala, tornando-se a sua leitura extremamente difícil, o que, segundo os referidos preceitos que eu perfilho e cuja doutrina acato em absoluto, por criteriosa, constitui igualmente um erro.

Mas - amigo Carvalho, quem não erra neste mundo?

Se aqueles que sempre se dedicaram à carreira artística, consagrando-lhe o melhor de todos os momentos em aturados estudos, praticam às vezes, erros imperdoáveis, como não havemos de desculpar o meu amigo Capitão Luís de Pina que evidentemente, e quem sabe se com grande pesar seu, não pôde, em virtude, talvez, da árdua carreira das armas que abraçou com tanto brilho, canalizar e consolidar em bases seguras, por meio de uma cultura apropriada e especial, o seu indiscutível temperamento artístico?

O Capitão Pina é razoável e estou certo de que, agora, com mais calma, vai modificar, com vantagem para todos nós e para ele, pelo menos o malfadado motivo que originou o seu justo reparo.

E não sofrerá grandemente o cofre municipal com a modificação.

E... não me pergunte mais nada sabre o assunto em debate, que já estou cansado para prelengas desta natureza, fora da minha Escola.

Amigo velho

Abel Cardoso.
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