10 de dezembro de 2010

O mosaico do Toural (2)


À crítica de A. L. de Carvalho sobre o desenho dos mosaicos do Toural, em que visava especialmente a cruz desenhada no chão, responde o autor da obra, o Capitão Luís de Pina. O texto que se segue, assim como o que o antecedente e os que se seguirão, têm que ser lidos à luz das profundas inimizades que, desde os primeiros passos da República em Guimarães, em 1910, até depois do seu fim, em 1926, marcaram as relações entre duas facções de republicanos vimaranenses: uma encabeçada por Mariano Felgueiras e outra encabeçada por A. L. de Carvalho. Quando o mosaico do Toural começou a ser colocado, já se estava em plena ditadura e A. L. de Carvalho ensaiava a sua aproximação ao novo poder. Esta discussão tem que ser lida nesse contexto. O Capitão Luís de Pina posicionava-se do outro lado da barricada dos republicanos de Guimarães. A resposta que deu à crítica de A. L. de Carvalho não poupa nas palavras, nem no tom polémico.

Mosaicos do Toural

Recebemos a carta que segue com o pedido de publicação:

É um acto de cobardia, para não dizer do absoluta falta do carácter, um indivíduo criticar, seja de que maneira for, a obra doutro com quem está de relações cortadas e, o que é pior, de quem é inimigo declarado; em segundo lugar, a cobardia acentua-ser porquanto se escuda com a opinião dum terceiro, talvez da mesma força, de quem nem o nome diz; fala, portanto, de orelha, como é de seu uso...; em terceiro lugar, vê-se no artigo um desejo do articulista, ordinário por isso mesmo, de agradar aos católicos e monárquicos, com quem se quer reconciliar e andar de boas graças!

Esta é a nota mais nojenta do assunto; mas outra nota há suja e de mau carácter: querer ele incutir no pensamento de toda a gente um crime de lesa-religião, de lesa-Deus, pois o sujeito sabe com que terra lida e como o seu povo recebe aquela abjecta insinuação! E, no resto, que autoridade científica e artística tem o crítico de água chilra, para dizer, enfaticamente: "Reputo, pois, erro de arte e erro de senso semelhante desenho"?

Explique o cavalheiro, se é capaz, o que vem a ser um erro de senso, se é que conhece a fisiologia do cérebro! O cavalheiro é mestre ou julga-se como tal, lançando as suas opiniões como se toda a gente lhas admitisse e abraçasse como se fossem de um alto valor, ele, o pobre desgraçado, analfabeto e lorpa! Por absoluta falta de autoridade para falar assim, merecia tão simplesmente o desprezo; mas há, infelizmente, muita gente, muitíssima gente, na nossa terra, que aproveita o mal, venha de quem vier! São os pequenos espíritos que todos se dão bem!

Refutando a opinião parva do cavalheiro, direi apenas que o que está desenhado no mosaico é um motivo ornamental como os restantes do pavimento, condizendo tudo com a época de Afonso Henriques. Não se quis ali representar o símbolo Cruz, mas o símbolo escudo do rei, escudo português. E, porque este a encerra, naturalmente ela teria de ser representada. Culpa não há, porque a cruz no escudo representa a mais antiga forma do escudo heráldico português, primitivo brasão de D. Afonso Henriques. Prova-o o magnífico estudo do professor da Faculdade de Letras de Coimbra, Dr. António de Vasconcelos, que foi publicado na Revista "Luzitânia", dirigida pela grande professora D. Carolina Michaëllis, já falecida; encontra-se no seu fascículo III, Junho de 1924, pág. 327!

O cioso mirone, que julgou ver naquilo um símbolo do Calvário, equivocou-se. E demais, que culpa há, nisso, que culpa há de que o povo seja tão ignorante, o povo e os que já se não julgam povo?!

O povo também chama Guimarães à estátua da Câmara, também lê o v da palavra indvstrias da Sociedade M. Sarmento, também chama pedras de raio aos machados da idade da pedra, também julga que Portugal e o Mundo é só a terra onde nasceu, também julga que o demo se mete no corpo da gente, etc.

E, no entanto, ninguém se atreveu ainda a acabar com o diabo, com a Terra, com o macaco da Câmara, com a Sociedade M. Sarmento, e até, já agora, com aquele símbolo que se vê no ângulo NO da torre do templo da Oliveira!

Pobre crítico, agora tão zeloso do Cristianismo, esquecido já da forma como tratou Mumadona, os cónegos, a confissão auricular, a religião, enfim, na sua pretensiosa, prosa sem gramática e sem senso; criatura vaidosa, que nunca poderá com tal prosa sujeitar a feição do resto da gente de juízo e inteligência, o seu cérebro atrasado e microscópico, tão cheio, no entanto, de megalomania; porque não se atira—e isso é que eu queria ver — ao uso da cruz nos ouros ao pescoço das mulheres de todo o mundo, a cruz que dorme com elas, que anda entre os seus seios — frutos do pecado — que é arredada, pelos homens nos lupanares...............; O uso da cruz nos jugos dos bois, que após o trabalho, vão pousar no esterco dos currais; o uso da cruz nas nossas antigas moedas que entravam em todos os Lugares, puros ou impuros; o uso da cruz nos panos de ajaezamento .dos nossos antigos cavalos de guerra; a uso da cruz nas sepulturas, que, abandonadas, são pisadas por toda a gente; o uso da cruz nas portas das casas, desenhadas pelos estrumeiros, a significar que o esterco já está comprado; o uso da cruz pelos analfabetos nos contratos e quejandos documentos comerciais; o uso da cruz aos nossos tão portugueses tapetes; o uso da cruz em gravuras e objectos de adorno, que, vão para o cesto dos papéis; o próprio chão que pisamos nos templos que têm a forma de cruz; e, o que é principal, o uso da cruz nos convites de enterro dos jornais, na página de anúncios, que depois de lida, é rasgada em pedaços que vão servir nas sentinas ara a gente se servir deles pela forma mais irreverente?!

Porque, se não insurge o puritano barato contra isto tudo? Que negue estas heresias, se é disso capaz!!! Mas ele tem lá cérebro para pensar nestas coisas! Só escreve o que lhe apitam ou que copia, o grande intelectual do péssimo "Roteiro de Guimarães", das célebres crónicas para um jornal de Braga a dizer mal da sua terra.

Onde não há intenção não há crime. Logo não há crime nos meus desenhos do Toural, cuja crítica, embora livre, só pode admitir-se quando escrita ou feita por altos valores e não por qualquer pretensioso audaz, que tudo se mete a criticar, mesmo as coisas em que é fundamentalmente ignorante.

Capitão Luís de Pina.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 539, 8 de Dezembro de 1928]
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2 comentários:

Paulo Oliveira disse...

Falou e disse !!!!

Visi disse...

Quem fala assim não é gago...