16 de dezembro de 2010

O Mosaico do Toural (9)

O Capitão Luís de Pina (foto cedida pelo neto Silvestre Barreira)


No número seguinte do Echos de Guimarães, o Capitão Luís de Pina encerraria a polémica, com um texto onde emprega o registo argumentativo, incisivo e sem papas na língua, que já utilizara no seu primeiro texto. A polémica ficaria por aqui, até porque o jornal Echos de Guimarães terminaria a sua existência logo a seguir.


Mosaicos do Toural

A comédia que se exibiu na ribalta da imprensa, levada à cena pelo impagável autor da "Confissão Auricular" e quejandas baboseiras, e, ainda agora, dum desastrado título em que o reprovam, no plural, briga com o quem, no singular, foi duma execução e efeitos magistrais na parte final.

Ao fundo, via-se uma deliciosa perspectiva do Coliseu de Roma, onde eram lançados os cristãos às feras, para passatempo e gáudio dos vários a. l. l.. Ao centro, o comparsa e autor da peça, ostentando a sua juba branca, espavorido ainda pelo fiasco de S. Mamede, se a ele não corressem os bombeiros a salvá-lo, pela sua expulsão de sócio da A. dos E. de C. e pelo crime, no dizer do sábio arquitecto Marques da Silva, da demolição duma jóia arquitectónica da velha Guimarães, que ali para Donães fazia sombra a um prédio seu, esse imitava o seu colega Policarpo a recitar o "Melro", metendo a costumada "sapatilha", e ia apresentando os artistas, que, uns após outros, seguiam a declinar as suas incumbências.

Abria o circuito um bem caracterizado e leal patriarca, empunhando as tábuas da Lei, cujos cinco mandamentos — fazendo fé pelo "Comércio de Guimarães", de 21 de Junho de 1927, numa referência ao candelabro monumental da sua autoria, que diz ser deselegante, pesado e excessivamente baixo* — devem encerrar num só mandamento: "Olha para o que eu digo e não para o que eu faço".

Desusava depois, bamboleante e arguto, o mais imparcial, quanto ao gosto individual e sensibilidade religiosa de cada um, no direito, portanto, que eu tinha, de aplicar aquilo que apliquei, inclusive no que diz respeito ao escudo afonsino, historicamente garantido. Mas, ao sair pela porta da esquerda, quedara-se a monologar o que no "Janeiro" de 1 de Setembro último escrevera por tabela ao dos caixilhinhos, aquando do projectado corte das árvores do Toural: "aquilo que ali ao presente vemos é simplesmente pavoroso, sob o ponto de vista ornamental, sem proporções, no volume e arranjo". E, batendo com a mão na testa, foi-se a pensar no que logo a seguir escrevera: "Porque estando a realizar-se, pela amplidão do pavimento do mesmo largo, uma decoração artística de evidente utilidade, se não dê intrínseco merecimento, etc."

Seguiam-se depois, a fechar o circuito desta fantástica encenação de exuberância de conhecimentos, dois temperamentos de artistas despeitados por não estarem no meu lugar, que não solicitei, donde foram despedidos, e que são exímios em monumentos funerários.

Os espectadores pasmaram, riram, riram... e até a lágrima celeste, ingénua e luminosa, tremeu, tremeu, tremeu e caiu silenciosa.
 
O pano desceu igualmente silencioso, e no écran, como auréola a iluminar as trevas dos que não querem ver, surgiram então, com maior pasmo ainda, os mosaicos da Avenida em Lisboa, onde os nomes consagrados da nossa História, as cruzes e os escudos se patenteiam triunfalmente a rir-se das regras impostas às múltiplas manifestações da Arte.

E para terminar, porque tenho mais que fazer, transcrevo aqui, a talho de foice, o seguinte conceito de Frey Amador Addaiz, que cita, num magistral artigo seu, publicado no "Comércio do Porto", de 18, o escritor vimaranense Alfredo Pimenta: "Letras em mau sujeito são peste e pernicioso veneno".

Capitão Luís de Pina.

[Echos de Guimarães, ano XIV, n.º 541 22 de Dezembro de 1928]

 

* Referência a uma nota publicada em O Comércio de Guimarães de 21 de Junho de 1927, referente a melhoramentos em Guimarães, onde se lê:

"Uma obra de que não gostamos, e em que se gastaram contos de réis inutilmente, é o pedestal que sustém as lâmpadas eléctricas no campo de D. Afonso Henriques.
É deselegante, pesado excessivamente baixo.
Não tem beleza, arte, nem estética."


O autor da obra é Abel Cardoso.

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