30 de junho de 2009

Vimaranenses: Soror Maria Antónia do Rosário

As comodidades que a nobre e rica casa de seus pais lhe oferecia trocou-as Soror Maria Antónia do Rosário pelas virtudes austeras que o convento das Capuchinhas lhe proporcionava.

A vizinhança de religiosas, que pelos vimaranenses eram geralmente consideradas como perfeitíssimos exemplares de todas as virtudes, não podia deixar de acordar no espírito da filha de Gonçalo André de Carvalho Nápoles Matos e Alcáçova e D. Luísa Clara de Vilhena Castroe Menezes, senhores de Numães e da casa do Campo , junto ao convento da Madre de Deus, o desejo de ser companheira daquelas de quem tantos exemplos de perfeição ouvia narrar.

Para esta resolução também muito concorreu a educação verdadeiramente cristã, que lhe ministrava sua piedosa avô D. Mariana de Nápoles Carvalho Matos e Alcáçova.
É admitida a 25 de Março de 1732 entre as observantes Capuchinhas e a 23 de Janeiro de 1739 professa, recebendo-lhe a profissão a primeira Abadessa, irmã de D. Rodrigo de Moura Teles, que por certo foi esta uma das últimas religiosas a quem conferiu o hábito porque dois meses depois, 1 de Abril, faleceu.

Foi extrema a caridade desta religiosa, devotando-se sobretudo à assistência das agonizantes. Durante a sua vida foi constantemente presa de pertinazes doenças, o que faz dizer a uma sua companheira, quo lhe lavrou o termo de óbito, que Soror M. Antónia do Rosário fora muito mimosa de enfermidades.

Era a nossa patrícia insigne cantora, tornando-se sempre poucos os momentos passados na Igreja pelo povo vimaranense, que acudia a escutá-la por ocasião das solenidades.
Finalmente, depois de edificar pela sua austera e exemplar vida, rendeu o espírito ao Criador no dia 15 de Outubro de 1781, tendo de idade 49 anos.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 49, Guimarães, 9 de Outubro de 1884]
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29 de junho de 2009

Porquê 1109 e não 1111?


O modo como Alexandre Herculano chegou a 1111 para ano de nascimento de D. Afonso Henriques está descrito na nota XI do Tomo I da sua História de Portugal, que a seguir se transcreve:

NASCIMENTO DE AFONSO HENRIQUES

"A data verdadeira do nascimento de Afonso I é ainda hoje disputada. A «Chronica Gothorum», contradizendo-se a si própria, assina-lhe duas diversas — a de lllleadelll3. A relação da tomada de Lisboa no cartório de S. Vicente de Fora (hoje no Arquivo Nacional) fá-lo nascido em 1107; mas este documento tem contra si o ser escrito quase um século depois do facto. A relação da tomada de Santarém (Monarquia Lusitana, P. 3, Apêndice), cuja fé para alguém é duvidosa, estabelece-lhe a data de 1110. O Livro das Linhagens, atribuído ao conde D. Pedro, parece concordar nisso mesmo; mas o Livro das Linhagens, como hoje existe, é obra de muitas mãos e de diversos tempos, sem que seja fácil discriminar o que é do conde ou posterior a ele, e, portanto, pouquíssima autoridade histórica pode ter. O Livro da Noa de Santa Cruz de Coimbra coloca o nascimento de Afonso Henriques em 1106, e com ele concorda uma nota posta num antigo manuscrito de Alcobaça. Um breviário do mesmo mosteiro, citado também por Brandão e cuja data ignoramos, põe este sucesso em 1109.

No meio de tanta incerteza preferimos o testemunho da «Chronica Gothorum» por ser a que unicamente reputamos contemporânea. Entretanto, é também necessário remover a contradição que aí se encontra, referindo o sucesso numa parte ao ano de 1113 (era 1151) e em duas ao de 1111. Eis as respectivas passagens: «Era 1151. Natus fuit infans Alfonsus...»; «Era 1163. Infans D. Alfonsus... habens aetatis annos fere quatordecim»; no códice que foi de André de Resende e no de Alcobaça: «Era 1163, Infans D. Alfonsus aetatis anno quatordecim»; «Era 1166... mortuo patre... cum adhuc ipse puer esset duorum vel trium annorum.» Esta última passagem, admitida a nossa opinião sobre o ano da morte do conde em 1114, concorda com a outra em que se afirma ter Afonso catorze anos em 1125. Não só por concordarem, mas até por ser mais fácil introduzir-se um erro nos algarismos à margem do códice do que nas palavras do texto, é que se deve preferir a data de 1111.

Dizemos de 1111, posto que o autor da «Chronica Gothorum» hesite entre este ano e o de 1112 («duorum vel trium annorum»), porque esse ano se aproxima mais das datas das outras memórias e porque, desde os últimos meses de 1110 até os princípios de 1112, o conde Henrique andou por França, Aragão e Castela, quase sempre ausente de sua mulher. Acresce a isto que no Pentecostes de 1125 tinha o infante catorze anos completos, porque o «fere» que se lê no exemplar da «Chronica Gothorum» que pertenceu a André de Resende fala nos de Santa Cruz e Alcobaça, e noutra parte nós exporemos as nossas ideias acerca da preferência que merece a lição destes dois códices à dessoutro, que nos parece adicionado."

Como se viu, Herculano calculou o ano de nascimento de D. Afonso Henriques a partir da referência da Chronica Gothorum que diz que o futuro primeiro rei de Portugal teria dois ou três anos aquando da morte de seu pai, que, em sua opinião, teria ocorrido no ano de 1114. Ora, num documento de doação de D. Teresa de 22 de Maio de 1112, diz-se expressamente que, naquela altura, D. Henrique já havia falecido. Por outro lado, o último documento assinado por D. Henrique tem a data de 12 de Abril de 1112. Logo, D. Henrique terá falecido entre essas duas datas, indicando-se geralmente o dia 24 de Abril (Almeida Fernandes defende que foi a 1 de Maio). Assim sendo, se D. Henrique faleceu, como parece certo, em 1112, para que o seu filho tivesse, nessa data, 2 ou três anos, teria que ter nascido entre Abril/Maio de 1109 e Abril/Maio 1110. Deste modo, fazendo-se fé na Chronica Gothorum, fica descartado o ano de 1111.
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27 de junho de 2009

História, tradição e fantasia

Uma das marcas de Guimarães é a presença da História. Não conheço terra como esta, no que se refere à paixão pela História e à sua apropriação pelo comum das suas gentes. E, em Guimarães, o que não faltam são historiadores. Todos os dias surge um. Por aqui, dá-se um pontapé numa pedra e logo saltam dois historiadores de baixo dela. Se para ser ferreiro é preciso saber malhar o ferro, se para ser sapateiro é preciso saber coser sapatos, se para ser médico é preciso conhecer a medicina ou para ser juiz é preciso saber de leis, não falta quem julgue que para ser historiador não será necessário saber história. É por isso que não faltam por aí historiadores habilidosos que, por terem outros ofícios, ou por não terem nenhum, se sentem habilitados para fazerem ganchos no ramo dos estudos históricos, peroram com autoridade e sapiência sobre matérias em que os historiadores profissionais são cautelosos, proclamam certezas inabaláveis sobre matérias onde a historiografia coloca dúvidas, publicam na imprensa e na internet teorias explicativas de factos históricos problemáticos, ignorando por completo as ferramentas de que se serve a ciência histórica. Na ausência de perspectiva diacrónica, transformam em tradição milenar aquilo que apenas ontem começou a acontecer. Mergulham nos confins da Idade Média, um território da nossa História onde são mais a dúvidas do que as certezas, e, colando com cuspo duas ou três ideias que julgam ter aprendido na escola primária, proclamam verdades definitivas. Todavia, provavelmente, nunca puseram a vista em cima de um documento medieval.

O argumento mais recorrente que tem sido utilizado pelos nosso historiadores-biscateiros, na discussão que tem estado na ordem do dia acerca do nascimento de D. Afonso Henriques, para rebaterem a ideia de que o filho de Henrique e Teresa possa ter nascido noutro sítio qualquer, que não em Guimarães, é o de que o nascimento aconteceu em 1111 e não em 1109, como hoje é consensual entre os especialistas. Sustenta-se aquela data com base em duas “provas”: 1. a tradição (“em Guimarães sempre se comemorou o nascimento de D. Afonso Henriques no décimo primeiro ano de cada século”); 2. a inscrição na calçada do Jardim do Toural onde se lê MCXI.

Quanto ao argumento da tradição, diremos que, em Guimarães, o centenário do nascimento de D. Afonso Henriques apenas foi comemorado uma vez no décimo primeiro ano do século, em 1911. À altura, era essa a data mais consensual entre os especialistas, na esteira da opinião de Alexandre Herculano.

Quanto ao “documento” escrito nas pedras do Toural, ele é tão antigo como 1929, ano em que o pavimento do jardim foi revestido a calçada portuguesa.

A verdade é que os historiadores, mesmo os de Guimarães, sempre tiveram dúvidas quanto às circunstâncias do nascimento de D. Afonso Henriques. Indo até às vésperas das comemorações do centenário assinalado em 1911, podemos recordar aqui o que, sobre o assunto, escreveu em 1908 o Abade de Tagilde, o erudito vimaranense que melhor conheceu a documentação medieval referente à história local de Guimarães. Lemos na nota 1 da página 77, dos seus Vimaranis Monumenta Historica:

“É tradição ininterrupta que D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães; não conhecemos porém documento coevo que possamos apresentar no texto para comprovar este facto.

O ano do nascimento não é averiguado; as narrativas históricas publicadas no volume Scriptores dos Port. Mon. Hist. fornecem-nos as seguintes datas: 1094, 1106, 1107, 1109, 1110, 1111, 1113 (Vide Scriptores, pag. 22, 97, 91, 2, 21, 19, 11, 94). Herculano, nota XI no fim do primeiro tomo da Hist. de Port., prefere o ano de 1111.”

Como se vê, em 1908, era persistente a tradição de que Afonso Henriques nasceu em Guimarães. Quanto à data, a tradição nada indicava de preciso, podendo ter ocorrido em sete anos diferentes, entre 1094 e 1113. A suposta “tradição” de 1111 tem origem em meados do séc. XIX, na obra de Herculano.
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Vimaranenses: Soror Antónia do Santíssimo Sacramento

Filha de Manuel da Silva e Francisca Maria, natural desta cidade, educada cristãmente por seus pais, cedo madrugou um Soror Antónia a vocação para o claustro e dá preferência ao convento da Madre de Deus, há pouco fundado, onde a 12 Abril de 1721, a primeira abadessa Soror Luísa Maria da Conceição lhe veste o santo hábito das pupilas.

Em 1726 professa e desde logo se torna rígida observante da regra e embora ocupasse os mais elevados cargos sempre se achava a primeira nas ocupações mais trabalhosas do convento, servindo não de superiora mas de serva de suas súbditas.

Foi sucessivamente mestra de noviças, porteira, vigária e abadessa, desempenhando todos estes cargos com toda a solicitude e caridade tornando-se querida e amada de todas as companheiras, que a choraram como à mãe mui extremosa.

Perfeito exemplar de uma verdadeira religiosa, faleceu, acumulada de merecimentos a 2 de Outubro de 1788, tendo de idade 78 anos.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 49, Guimarães, 9 de Outubro de 1884]
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26 de junho de 2009

História e tradição


No debate sobre a questão do nascimento de D. Afonso Henriques, tenho assistido (de longe) a alguma argumentação, particularmente incisiva, que sustenta que D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães em 1111. A sustentação desta afirmação, segundo aqueles que a usam, remete exclusivamente para a tradição, aparentemente intemporal. A verdade é que a data de 1111 não foi definida por via da tradição, mas sim por mão erudita, uma vez que foi fixada no século XIX por Alexandre Herculano a partir da sua leitura dos documentos medievais, em particular da Chronica Gothorum. A tradição, muitas vezes veiculada na historiografia portuguesa ao longo dos séculos, é a que podemos encontrar, por exemplo, a abrir o capítulo sobre D. Afonso Henriques na História Genealógica da Casa Real Portuguesa, onde se lê:

De El-Rei D. Afonso Henriques.

Corria o duodécimo século da Redenção do Mundo, quando deu princípio à Monarquia Portuguesa o grande coração, e incomparável valor de El-Rei D. Afonso Henriques, que nasceu na Vila de Guimarães a 25 de Julho do ano 1109. Em vida da Rainha sua mãe não teve mais título, que o de Infante; por sua morte usou do de Príncipe. Entrou a governar a 24 de Junho do ano de 1128 e no de 1139 foi aclamado Rei a 25 de Julho (dia em que a Igreja celebra a festa do Apostolo Santiago, insigne Patrão de Espanha) na famosa vitória do Campo de Ourique, em que triunfou do formidável poder Mauritano, e em que ficaram vencidos cinco Reis, a que acompanhavam muitos Príncipes poderosos, fabricando naquele memorável dia o Ceptro Português, e segurando a sua perpetuidade na prodigiosa visão de Cristo Senhor Nosso, como o mesmo Rei testemunhou no juramento, que deu na presença da sua Corte, treze anos depois de passada a dita visão.

Sousa, António Caetano de Sousa, História Genealogica da Casa Real Portugueza, Officina de Joseph ANtonio da Silva, Lisboa Occidental, 1735, Tomo I, p. 31.
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24 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (13)


A finalizar, e para uma mais fácil leitura da sequência de textos que aqui se publicaram, em que se analisou a obra Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, de A. de Almeida Fernandes, publica-se agora a sua versão em pdf:

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu?

Ao mesmo tempo, para que se possa confrontar a nossa leitura da tese de Almeida Fernandes com as fontes invocadas, aqui ficam também os documentos utilizados por aquele autor como base de sustentação dos seus argumentos:

Chronica Gothorum
[in Portugaliae Monumenta Historica: a saeculo octavo post christum usque ad quintumdecimum. Diplomata et chartae, org. Alexandre Herculano, - Academia das Ciências, Lisboa: - vol. I fasc. I ao v. I fasc. IV (1869-1873), pág. 12]

Carta de foral concedida a Azurara da Beira (Mangualde)
[in Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, org. Rui Pinto de Azevedo, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1958, n.º 14, pp. 18-19]

Doação do Mosteiro de Lorvão à Sé de Coimbra.
[in Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, org. Rui Pinto de Azevedo, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1958, n.º 15, pp. 19-21]

Confirmação pelo Arcebispo Bernardo de Toledo da doação do Mosteiro de Lorvão à Sé de Coimbra.
[in Livro Preto da Sé de Coimbra, ed. Manuel Augusto Rodrigues, Arquivo da Universidade, 1999, n.º 59 pp. 99-101]
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22 de junho de 2009

20 de junho de 2009

Mito e mistificação

A polémica em curso acerca do nascimento de D. Afonso Henriques não é uma querela científica, dirimida entre historiadores, mas uma construção mediática, carregada de efabulação, de citações e referências a obras que não se leram ou que não existem, de colocação de afirmações na boca de quem não as proferiu, a par de um manifesto aproveitamento político desta questão tese.

Já aqui vimos que José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques, considera admissível a tese do nascimento em Viseu daquele que seria o primeiro rei de Portugal. Mas também diz que, para uma questão como a do nascimento de Afonso Henriques, “não há certeza alguma, apesar da afirmação que Almeida Fernandes pôs nas suas próprias afirmações”. Em presença desta posição, é manifestamente abusivo dizer-se que “a tese de Almeida Fernandes é também defendida pelo historiador José Mattoso”, como se lê na edição online do jornal Expresso.

Na mesma notícia do Expresso leio, aliás, a seguinte informação, demonstrativa da falta de rigor com que estas questões são tratadas, mesmo em órgãos de comunicação social ditos de referência: “Diogo Freitas do Amaral, natural de Guimarães, escreveu um romance histórico sobre D. Afonso Henriques e aponta a cidade minhota como o berço da nacionalidade”. Num curto texto, duas inverdades: Freitas do Amaral não é natural de Guimarães e, que se saiba, nunca escreveu qualquer romance histórico sobre Afonso Henriques.

No espaço mediático vai passando a ideia de que “hoje existe um conjunto de medievalistas reputadíssimos a subscrever a tese”, como se houvesse uma espécie de abaixo-assinado a correr no meio científico, subscrevendo as conclusões a que chegou Almeida Fernandes.

Ora, o que disseram os medievalistas que se pronunciaram sobre a questão, na sequências da injecção de credibildiade que lhe foi introduzida por José Mattoso?

Bernardo Vasconcellos e Sousa disse crer “que a hipótese de Viseu é a mais provável". Maria Alegria Fernandes Marques constatou que, depois de longos anos de silêncio, a “hipótese colheu ecos, favoráveis". João Silva de Sousa afirmou que a obra de Almeida Fernandes está na origem da “hipótese, a mais credível, penso, de D. Afonso Henriques ter nascido em Viseu”. António Matos Reis declarou que aquela “é, de todas as teses sobre a data e o local do nascimento de D. Afonso Henriques, a mais provável”. Marsilio Cassotti escreveu que “é possível o nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu”. Por último, António Borges Coelho disse, na TV um dia destes, que “Viseu é, quase, com muita probabilidade a terra de nascimento de D. Afonso Henriques”.

Nenhum daqueles autores afirma positivamente, como o afirmam os títulos dos jornais, que Afonso Henriques nasceu em Viseu. Todos falam em hipótese, em probabilidade, em possibilidade, mas nunca em certeza.

Pois é: Viseu “é quase” o berço de Afonso Henriques. O problema é que, à tese de Almeida Fernandes, falta um imprescindível quase: o suporte das fontes históricas.

De Afonso Henriques já havia o mito. Agora, há a mistificação.


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D. Afonso Henriques Nasceu em Viseu? (12)

[Ler texto anterior]

Na sua obra, Almeida Fernandes começa com dúvidas – “a investigação (que ainda não foi feita) é que terá que indicar a solução plausível” (p. 15) e acaba com certezas firmes como rochas quanto à sua tese viseense – “tais factos e circunstâncias são em tão grande número e peso, e tão coincidentes, que equivalem a um certificado do que em matéria histórica possa considerar-se indubitável” (p. 208). Porém, a sua tese é uma construção manifestamente frágil e inconsistente, assente em alicerces sem qualquer solidez.

A enunciação de Almeida Fernandes parte, expressamente, de duas premissas basilares: a datação do nascimento do infante no início de Agosto de 1109 e a presença de D. Teresa em Viseu por aqueles dias. Demonstrada a sua inconsistência, fica comprovada a fragilidade da tese viseense, recentemente transformada em matéria mediática, com vertentes de afirmação bairrista e de vanglória autárquica.

Nos dias que correm, continuam certas as palavras que A. de Almeida Fernandes escreveu, no início da obra que dedicou ao nascimento daquele que seria o primeiro rei português:

“Nestas condições, tudo o que a tais respeitos se tem dito e ultimamente se diz há-de ser o mais raso eliminado como meramente devido a efeitos de prestidigitação autoral. Não significa isto eliminar in limine Guimarães e Coimbra: a investigação (que ainda não foi feita) é que terá que indicar a solução plausível – visto que não temos uma certidão de nascimento de D. Afonso Henriques”(p. 15).

Quanto ao estado da arte, no que toca ao local de nascimento de D. Afonso Henriques estamos, depois de Almeida Fernandes, como estávamos antes. Terá sido em Viseu? Nada aponta nesse sentido, nem por via da História, nem pela da tradição. Continuamos a não saber – ninguém o sabe de ciência certa – onde foi. Provavelmente, nunca o saberemos. Assim sendo, onde falha a História, vai prevalecendo a tradição, velha de muitos séculos.

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19 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (11)

[Ler texto anterior]

Publicada em 1990, a tese de Almeida Fernandes sobre o suposto nascimento de Afonso Henriques em Viseu foi acolhida com indiferença no meio científico. Mesmo em Viseu, não teve grandes repercussões. A sua mediatização aconteceu depois da publicação da biografia de Afonso Henriques, de José Mattoso, onde este historiador a considera verosímil, provável e admissível, na seguinte passagem daquela obra (clicar na imagem para ampliar):

Acontece que aqueles que, com base naquela referência da biografia de Afonso Henriques, se apressaram a declarar que a natalidade viseense de Afonso Henriques era uma verdade histórica incontornável, além de não terem lido com olhos de ler o livro de Almeida Fernandes, também desprezaram a seguinte advertência do próprio José Mattoso, por sinal inserida mesma página de onde se retirou a citação anterior:

in Mattoso, José, D. AFonso Henriques, Círculo de Leitores, 2006, pág. 18

[Ler texto seguinte]
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D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (10)

[Ler texto anterior]

Tendo chegado à certeza de que Afonso Henriques nasceu, exactamente, dois anos e nove meses antes da morte de seu pai, tendo concluído ser “facto irrefutável” a presença de D. Teresa em Viseu (ali retida ou impedida devido ao seu estado fisiológico, como o autor afirma repetidamente), nos meados do Verão de 1109, e tendo assente a data do foral de Azurara da Beira, que, de presumível, rapidamente se transforma em verdade segura, Almeida Fernandes afirma, positivamente e sem hesitações, “que foi nessa altura, à roda de 5 de Agosto de 1109, que no paço de Viseu veio à luz o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques” (p. 140). Eis aqui a tese de Almeida Fernandes para o nascimento do filho de Henrique e Teresa: uma construção artificiosa e especulativa, assente em premissas não demonstradas, ou comprovadamente inexactas e arrevesadas, que resulta de um curioso processo de “prestidigitação autoral”, como diria o seu autor.

Almeida Fernandes, que classifica, com razão, a Crónica de Cinco Reis, do século XV, como um texto “em que as fantasias se misturam com as verdades e os erros com acertos”, nota, porém, que “as coisas não partem do nada”, querendo dizer que qualquer fantasia tem um fundo de verdade, não resistiu a transcrever um trecho daquela obra, adaptando-o de modo a servir a sua argumentação:

“Como Dom Egas Moniz soube que a rainha parira cavalgou mais asinha e veio-se a Guimarães (leia-se Viseu) onde o Conde era e pediu-lhe por mercê que lhe desse o filho que lhe nascera para o haver de criar assim como prometido lho havia”. (p. 143).

Ou seja, pode-se inferir que, para Almeida Fernandes, neste trecho, tudo será verdade, excepto ter sido Guimarães o palco do acontecimento.

Porém, se se aceita que “as coisas não partem do nada”, terá que se conceder que a tradição secular que dá Guimarães como pátria de Afonso Henriques pode ter algum fundamento, admitindo como provável o que dizem todas as crónicas que narram a vida e a obra do nosso primeiro rei. O que é discutível é que se reescrevam essas crónicas colocando Viseu em posição em que nunca esteve, como Almeida Fernandes faz no trecho acima citado. Recorrendo ao artifício que o autor usou para o excerto Crónica dos cinco Reis de que se socorreu, poderíamos, certamente que com maior razoabilidade, adaptar um naco da sua própria prosa:

“Carece, pois, de um mínimo de base documental, e muito menos se funda em documentos directamente, a opinião de que D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães (leia-se Viseu)” (p. 14).
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18 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (9)

[Ler texto anterior]

“Se, portanto, conseguimos averiguar onde se encontrava D. Teresa no Verão de 1109 e a acharmos aí em condições tais que não lhe possibilitassem sair de lá, estaremos em face de duas circunstâncias que não têm poder que as impugne” (p. 48).

A verdade é que, ao contrário daquilo que repetidamente afirma, Almeida Fernandes não conseguiu demonstrar onde se encontrava D. Teresa no Verão daquele ano. A única certeza que existe é a de que a Rainha esteve em Coimbra no dia 29 de Julho de 1109, mas isso nada nos informa acerca do local de nascimento de Afonso Henriques, por não sabermos ao certo em que data aconteceu.

Para reforçar a sua teoria acerca do nascimento de Afonso Henriques em Viseu, no início de Agosto de 1109, Almeida Fernandes invoca a carta de Foral de Zurara (actual Mangualde). A data de 1102, que consta no documento, foi questionada pelo paleógrafo Rui Azevedo que, com bons argumentos, a situou algures entre 1109 e 1112. Almeida Fernandes, num curioso exercício de pura especulação, começa por afirmar que o foral foi passado entre Julho e Agosto de 1109 (p. 37), para, mais adiante, depois de ler no documento aquilo que nele não está escrito, o datar, “mui presumivelmente” de 5 de Agosto de 1109 (p. 140), estando ambos os concessores, Henrique e Teresa, em Viseu (p. 37). Ora, se não está demonstrado que aquela seja a data do foral (a que nele consta, apesar de questionável é, sem sombra de dúvidas, 1102), também nada permite sustentar que tenha sido dado em Viseu, fosse em que data fosse.

Este documento tem para Almeida Fernandes o mérito de consolidar a sua tese de que D. Teresa estaria, por aqueles dias, retida em Viseu, permitindo-lhe fixar a data do nascimento do infante no dia 5 de Agosto e justificar a presença ali de Egas Moniz, que foi um dos três delegados dos conde na outorga do foral a Zurara. Tinha ido, segundo o autor, buscar o filho de Henrique e Teresa, já nascido ou em vias de nascer: “tendo sido designado aio da criança, viera para aí a fim de recebê-la” (p. 144). Esta explicação até poderia ser plausível, se fosse certo que o foral tinha sido passado no dia 5 de Agosto de 1109, em Viseu. Porém, não há sustentação documental que permita situar a outorga do foral naquela data nem naquele local.
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17 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (8)

[Ler texto anterior]

Para estabelecer a data de nascimento de D. Afonso Henriques, utiliza-se como fonte a Chronica Gothorum. Eis o que diz Almeida Fernandes que aquela crónica diz (clicar na imagem para ampliar):

Fernandes, A. de Almeida - Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, pág. 144-145.

E o que diz a Chonica Gothorum:

HERCULANO, Alexandre, 1810-1877, Portugalliae Monumenta Historica : o saeculo octavo post christum usque ad quintumdecimum. - Lisboa : Academia Scientiarum, 1867-. - v. ; 50 cm. - Diplomata et chartae, vol. I fasc. I ao v. I fasc. IV (1869-1873), pág. 12

Vertendo para português, lemos assim o texto destacado: "morto seu pai o Conde D. Henrique, como ele ainda fosse criança de dois ou três anos". Afirmar, com base neste trecho da Chronica Gothorum, que Afonso Henriques teria dois anos e nove meses à morte de seu pai, é pura especulação.
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D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (7)

[Ler texto anterior]

A carta de confirmação, referida por Almeida Fernandes, tem a mesma data da carta de doação e é exactamente igual ao texto original, até às assinaturas de D. Henrique e de D. Teresa, inclusive. Não é, pois, uma confirmação de D. Teresa, até porque, como vimos, esta havia assinado e confirmado o documento original, outorgado na catedral de Coimbra. Uma nova confirmação, por redundante, não faria qualquer sentido.

A propósito, não deixa de ser curioso que Almeida Fernandes transcreva a referência à suposta confirmação de D. Teresa no segundo documento como se segue:

Ego Tarasia, Ildefonsi imperatoris filia, et Henrici comitis uxor, hoc scriptum confirmo, hanc cartam confirmatam in Viseo (p. 28).

Quando o que aparece na assinatura e confirmação do documento é o seguinte:

Ego Henricus Dei gratia comes et totius Portugalis dominus hoc donationis scriptum grato benignoque animo confirmo +. Et ego Tarasia Ildefonsi imperatoris filia et Henrici comitis uxor hoc scriptum similiter confirmo + (p. 81).

Porque será que o autor parece ignorar que nos dois documentos assinam ambos os doadores, um a par do outro? Por desatenção? Por deturpação intencional? Não sabemos responder.

O documento de Viseu, de que não se conhece a data, mas que é, seguramente, posterior ao de Coimbra, é uma cópia do primeiro, não sendo, ao contrário do que afirma Almeida Fernandes, a confirmação de D. Teresa, que já o havia assinado e confirmado sobre o altar da Sé conimbricense, em 29 de Julho, mas sim a ratificação da doação do Mosteiro de Lorvão à Sé de Coimbra pelo legado da Sé Apostólica, o arcebispo Bernardo de Toledo, que o confirma e robora a seguir às confirmações de Henrique e Teresa constantes no documento original:

Ego Bernardis Tholetanus archiepiscopus et Sancte Romane Ecclesie legatus conf.

E com isto se esvai o principal fundamento da tese de Almeida Fernandes, que se servia das duas cópias do documento de doação do convento de Lorvão para demonstrar que, entre Julho e Agosto de 1109, D. Teresa estava retida em Viseu. Não estava, porque, por essa altura, esteve em Coimbra, não havendo qualquer indicação de que também pudesse ter estado em Viseu.
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16 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (6)

[Ler texto anterior]

A propósito da cerimónia de doação do Mosteiro do Lorvão à Sé de Coimbra, em 29 de Julho de 1109, eis o que escreve A. de Almeida Fernandes (clicar na imagem para ampliar):

Fernandes, A. de Almeida - Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, ed. de 1993, pág. 166

E eis o que se lê no documento de doação, na parte da assinatura dos presentes:

Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, org. Rui Pinto de Azevedo, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1958, n.º 15, pp. 19-21

Ou seja, à luz da documentação disponível, D. Teresa esteve presente na cerimónia de Coimbra, tendo assinado o documento de doação ao lado do seu marido, D. Henrique. Não estava, portanto, retida em Viseu. Note-se que este era um argumento fundamental na tese de Almeida Fernandes.
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D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (5)

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Na cerimónia da doação do Convento de Lorvão, estiveram presentes diversos “homines de Uiseo”, que subscreveram o documento. O historiador Rui de Azevedo, tendo estudado o instrumento de doação, não soube explicar as razões da comparência da delegação viseense. Mas Almeida Fernandes, medievalista de muitas certezas em terreno onde são mais férteis as dúvidas, encontrou uma explicação: eram representantes de D. Teresa: “Como se mantivesse o impedimento da sua comparência em pessoa em Coimbra, enviou D. Teresa uma deputação sua à dita cerimónia, constituída pelo prior de Santa Maria de Viseu e por um presbítero da mesma, e por treze personalidades populares de importância em Viseu” (p. 139). Almeida Fernandes repete aqui o argumento de que D. Teresa, por supostamente se encontrar em avançado estado de gravidez, estaria retida em Viseu, a que junta a informação de que as testemunhas viseenses da doação do Convento de Lorvão seriam seus representantes. Nem esta informação, nem aquele argumento, como já vimos, têm qualquer suporte documental. O único dado sustentado por Almeida Fernandes assenta numa confirmação da doação por D. Teresa, que teria sido dada em Viseu, no início de Agosto de 1109. Porém, não há qualquer certeza quanto à data em que esta confirmação terá sido assinada. Aliás, esse documento, como veremos, teve propósito diferente daquele que Almeida Fernandes lhe atribui.

Afirma Almeida Fernandes que a doação do Mosteiro de Lorvão à Sé de Coimbra é “o documento fundamental” no seu estudo, por demonstrar que D. Teresa não esteve presente na catedral de Coimbra no acto da sua outorga, por se encontrar retida em Viseu por força do seu estado fisiológico. Sem o cimento que lhe é dado por este documento e pela leitura que dele faz, toda a sua tese se esboroaria como um castelo de cartas.

Tomemos então o documento de doação, publicado por Rui Pinto de Azevedo, na colecção dos Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, Tomo I. É o documento n.º 15 (pp. 19-21). No final, estão inscritas as seguintes assinaturas confirmatórias:

Ego Henricus Dei gratia comes et totjus Portugalensie dominus hoc donatjonis scriptum grato benignoque animo conf. +. Et ego Tarasia Ildefonsi imperatoris filia et Henrico comitis uxor hoc scriptum similiter confirmo +

Ou seja: salta aos olhos que o documento foi subscrito por ambos os doadores, D. Henrique e D. Teresa, cujas assinaturas foram apostas no altar da catedral de Coimbra. Assim se demonstra que, ao contrário do que sustenta Almeida Fernandes, D. Teresa esteve presente, a 29 de Julho de 1109, na cerimónia da catedral de Coimbra. Assim sendo, cai pela base o principal argumento usado para sustentar a sua tese acerca do nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu em meados do Verão daquele ano: por aquela altura, D. Teresa não estava retida naquela cidade. Ao mesmo tempo, deixa de fazer sentido a justificação de que os “homines de Uiseo” presentes na cerimónia de Coimbra, aos quais Almeida Fernandes dedica grande parte do seu livro, ali estivessem em representação de D. Teresa. Porque haveriam de estar, se a própria lá se encontrava?
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15 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (4)

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A 29 de Junho de 1109, morreu Afonso VI, rei de Leão, pai de D. Teresa e sogro de D. Henrique. Aquando do óbito e das exéquias que se lhe seguiram, não estiveram presentes D. Henrique, que tinha ido responder a uma insurreição muçulmana no limites a Sul dos seus domínios, com particular incidência em Sintra, nem D. Teresa, que, segundo Almeida Fernandes, “não possuía já as condições fisiológicas de poder assistir aos últimos momentos do pai e, menos ainda, às suas exéquias” (p. 57). Em que se baseou Almeida Fernandes para avançar com a justificação da ausência de D. Teresa em Toledo à hora da morte de seu pai? Em nada, rigorosamente nada, uma vez que não existe, na documentação medieval, qualquer referência aos motivos de tal ausência. Em nada, a não ser na sua convicção de que a rainha terá dado à luz no início de Agosto daquele ano, pelo que, em finais de Junho, estaria com a gravidez quase a termo e, em consequência, impedida de se aventurar em grandes viagens.

D. Henrique estaria em Toledo perto da data da morte do sogro, até que terá recebido notícia do levantamento islâmico então em curso nos limites meridionais dos seus domínios. Regressado ao seu território, para organizar a resposta, dirigiu-se para Sintra. Segundo Almeida Fernandes, terá então passado “por Viseu, onde a esposa assistia, aí tendo prometido o foral à vizinha Zurara (Mangualde)”. Onde foi Almeida Fernandes buscar as referências à passagem do Conde por Viseu e à promessa de foral a Mangualde? A lado nenhum, a não ser às suas próprias convicções, já que não existem, na documentação da época conhecida, quaisquer alusões a tal passagem por Viseu, nem à presença de Teresa naquela cidade por aqueles dias, nem à suposta promessa de foral.

A 25 de Julho de 1109, o Conde D. Henrique, regressado da campanha militar na região de Sintra, presidiu na Catedral de Coimbra à outorga da doação do Mosteiro de Lorvão à Sé conimbricense. Afirma Almeida Fernandes que D. Teresa não esteve presente no acto. E explica porquê: “D. Teresa, de Junho para Agosto de 1109, já não podia sair de Viseu”. Em que se baseia para chegar a tal conclusão? Mais uma vez, não sabemos.
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12 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (3)

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No texto com que abre a obra que dedicou ao local de nascimento de Afonso Henriques, A. de Almeida Fernandes reconhece que ainda não está encontrada a “solução plausível” para o enigma do local de nascimento de Afonso Henriques. Porém, à medida que se avança na sua leitura, assiste-se à transfiguração da dúvida inicial em certeza “indubitável”: o filho de Henrique e Teresa nasceu em Viseu “à roda de 5 de Agosto de 1109”. A argumentação copiosa que Almeida Fernandes desenvolve na obra Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques apenas sustenta-se em breves passagens de três documentos, a saber:

a) Da Chronica Gothorum (ou Anais de D. Afonso Henriques, Rei dos Portugueses): “…siquidem mortuo patre suo comite domine Henrico cum adhuc ipse esset duorum aut trium annorum”.

b) De um documento de confirmação da doação do Mosteiro do Lorvão à Sé de Coimbra, incluído no livro Preto de Santa Cruz de Coimbra, onde Almeida Fernandes leu: “Ego Tarasia, Ildefonsi imperatoris filia, et Henrici comitis uxor; hoc scriptum confirmo, hanc cartam confirmatam in Viseo”.

c) Da carta de foral de Zurara (actual Mangualde), dada por D. Henrique e D. Teresa, com intervenção de Egas Moniz, na parte em que se escreveu: “Et ego Henrico et uxor mea Tarasia fecimus illam iurare ade ille Egas Moniz et domnus Rabaldus et Gunsalvus Petri in nostra vice”.

Propomo-nos aqui analisar os argumentos de Almeida Fernandes à luz dos documentos que os sustentam, avaliando a sua relevância para a demonstração ou negação da tese que coloca D. Afonso Henriques a nascer em Viseu no mês de Agosto de 1109.

É geralmente aceite como verosímil a indicação da Crónica dos Godos segundo a qual Afonso Henriques teria de dois para três anos (“duorum aut trium annorum “) aquando da morte de seu pai, o Conde D. Henrique, que ocorreu em Astorga, no dia 1 de Maio de 1112. Partindo desta indicação, Almeida Fernandes assevera, num primeiro momento, que o filho de Henrique e Teresa estaria então mais próximo dos três do que dos dois anos (ou seja, “com mais de dois anos e meio”), concluindo que “nasceu nos meados do Verão de 1109”, para acabar a afirmar, numa nota de rodapé (p. 48, n. 88), sem quaisquer reservas, que a Crónica dos Godos “postula uns dois anos e nove meses” (ou seja, que Afonso Henriques teria nascido dois anos e nove meses antes da morte de seu pai). Páginas volvidas, afirmará que Afonso Henriques nasceu entre Julho e Agosto de 1109, fixando o nascimento no início de Agosto e acabando a escrever que D. Afonso Henriques nasceu “à roda de 5 de Agosto de 1109”. Porém, durante esta evolução percurso argumentativa, não aduz novos elementos de prova: a única menção documental de que se socorre será, até ao fim, a referida transcrição da Crónica dos Godos que diz que o infante teria de dois para três anos no final de Abril de 1112.

Ora, em rigor, o que nos diz aquele documento é que, quando ficou órfão de pai, Afonso Henriques já teria dois anos completos, indo a caminho dos três, situando-se o seu nascimento no intervalo de tempo que decorre entre o início de Maio de 1109 e o final de Abril de 1110. Dentro desse período, pode ter nascido em qualquer dia. Em rigor, nada permite inferir que tenha sido no Verão ou, ainda menos, precisar que foi nos primeiros dias do mês de Agosto. Com base nas fontes disponíveis, qualquer fixação de data, mesmo aproximada, será sempre hipotética e impossível de confirmar.
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11 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (2)

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Da distracção da maioria se faz a profundeza de alguns.
(Vergílio Ferreira, Conta Corrente IV)

A propósito da tese de Almeida Fernandes, segundo a qual D. Afonso Henriques terá nascido em Viseu, lançada, sem grande impacto, em 1990, têm sido produzidas diversas apreciações em tempos recentes, desde que José Mattoso lhe deu alguma visibilidade, quando, na sua biografia de Afonso Henriques considerou aquela hipótese admissível (embora negando-lhe a indubitabilidade pretendida por Almeida Fernandes). Eis algumas opiniões, pescadas aqui:

“A demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente par se admitir como possível, ou mesmo a mais provável. É de facto admissível, com base nos documentos por ele invocados, que D. Afonso Henriques tivesse nascido em Viseu por meados do mês de Agosto de 1109”.
Professor Doutor José Mattoso, Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa in “D. Afonso Henriques”, Círculo de Leitores, 2006.

“Com base em informações indirectas, sobre o paradeiro dos pais do monarca, creio que a hipótese de Viseu é a mais provável”.
Professor Doutor Bernardo Vasconcellos e Sousa, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa in Público, Ano XVII, nº 6184, 5 de Março de 2007.

“A doutrina encontrou silêncios, mais sintomáticos em quem pedira o estudo; mas não suscitou polémica à altura, muito menos capaz de a infirmar, por um argumento que fosse. Passado o tempo, verifica-se que, ao contrário, a hipótese colheu ecos, favoráveis”.
Professora Doutora Maria Alegria Fernandes Marques, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra in Prefácio, “Viseu, Agosto de 1109, nasce D. Afonso Henriques”, Fundação Mariana Seixas, Abril de 2007.

“Em 1993, segundo tese de Armando de Almeida Fernandes, no seu livro Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques, deu-se início à hipótese, a mais credível, penso, de D. Afonso Henriques ter nascido em Viseu (05 de Agosto de 1109), contrariando princípios há muito tidos como assentes, pela tradição nacional”.
Professor Doutor João Silva de Sousa, Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa.

“É de aceitar a tese de Almeida Fernandes. É de todas as teses sobre a data e o local do nascimento de D. Afonso Henriques a mais provável ”.
Doutor António Matos Reis, Investigador em História Medieval Portuguesa.

“Os documentos que falam de Viseu têm muita veracidade e é possível o nascimento de D. Afonso Henriques em Viseu, […].”
Professor Doutor Marsilio Cassotti, Historiador, autor da biografia de D. Teresa (mãe de D. Afonso Henriques), “D. Teresa - A Primeira Rainha de Portugal”, Esfera dos Livros, 2008. in entrevista Lusa, 3 de Julho de 2008.

“Viseu é, quase, com muita probabilidade, a terra de nascimento de D. Afonso Henriques […]”
Professor Doutor António Borges Coelho, Professor Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, in entrevista RTP, 30 de Março de 2009.

Perante tais opiniões, produzidas por pessoas prestigiadas no nosso meio científico, será mesmo que se confirma que Afonso Henriques veio ao mundo em Viseu? Ou será que tão ilustres eruditos têm andado distraídos e se esqueceram de ler, com a atenção necessária, a obra sobre a qual emitem tais juízos? É a estas perguntas que vamos tentar responder a seguir.
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10 de junho de 2009

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (1)

Nos últimos tempos, muito se tem falado acerca do local de nascimento de D. Afonso Henriques, a propósito da tese de A. de Almeida Fernandes, autor de um livro que ostenta o título “Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques” (obra de 1993, inicialmente publicada na revista Beira Alta, em 1990, recentemente reeditada). Como o assunto vai voltar a estar, por algum tempo, na ordem do dia, iremos aqui, nos próximos dias, analisar a tese viseense de Almeida Fernandes. Começamos pelos seus argumentos, assim resumidos pelo próprio autor:


Como termo de longa doença, a vida de Afonso VI de Leão caminhava para o seu fim nos últimos dias de Junho de 1109. Contestando uma constada sucessão do Reino em sua filha Urraca, seu genro Henrique, o conde de Portugal, prevalecendo-se de sua mulher, Teresa, outra filha do monarca, apresentou-se em Toledo numa verdadeira perseguição ao moribundo, no sentido de obter dele a melhor sucessão possível – visivelmente até com o fito na própria coroa.

Teresa não está presente, embora ela a principal interessada e tão ciosa daquela sucessão como o marido: não assistiu à morte do pai – como não, também, às suas exéquias. Um impedimento bastante ao facto a retinha em Viseu – onde fora estabelecida a sede ou capital dos seus domínios, depois de ampliados estes para o sul dos concedidos a ela como dote nupcial por seu pai, preferindo-a a Coimbra pela maior segurança contra Árabes e Moçárabes e por outras razões.

Igualmente não assistiu à morte do sogro nem às suas exéquias o conde Henrique, que dele se afastara num assomo memorando de ira. Compelira-o a afastar-se dele, no momento decisivo para os seus interesses na sucessão, a notícia da revolta arábica contra o seu domínio começada em Sintra e que poderia incendiar Coimbra.

Passando por Viseu, onde a esposa assistia, aí tendo prometido o foral à vizinha Zurara (Mangualde), e por Coimbra, onde prometeu à catedral a dádiva do mosteiro de Lorvão, organizada a sua expedição a Sintra o melhor e mais rapidamente possível, sobretudo com milícias de próceres de entre Douro e Minho e de infanções de Santa Maria, marchou para o Tejo e submeteu os revoltosos, salvando Coimbra do contágio.

De regresso a Coimbra, confirmou a doação sobredita, em traditio super altare na catedral, presentes os próceres e infanções sobreditos, mas ausente D. Teresa. Esta continuava impedida em Viseu – onde, pois, no seu paço, teria de realizar-se uma segunda cerimónia, para a sua robora na sobredita doação. Estava também presente em Coimbra o conde Pedro Froilaz (de Trava), aio do pequeno infante Afonso Raimundes, o qual Conde, após as exéquias de Afonso VI, se apressou a dirigir-se de Toledo a Portugal, a fim de aqui proceder às necessárias conversações sobre a eventual aclamação do dito Infante seu pupilo como rei da Galiza – em que Portugal se incluía de direito, o que a Henrique e Teresa era profundamente molesto.

Entretanto, compareceria em Viseu, junto a D. Teresa, o primaz Bernardo, legado papal e pretendido metropolita das dioceses "portuguesas" ao sul do Douro. Animava-o finalidade idêntica à da presença do conde de Trava, prevendo uma acesa luta de sucessão, ou até uma separação política em que seria preciso garantir contra Braga o direito pretendido. E isto igualmente seria molestíssimo a Henrique e Teresa – que se viam obrigados a submeter-se aos desígnios tanto do conde de Trava como do arcebispo de Toledo, por mais provisória e reservadamente que tivessem de fazê-lo. Sabida a presença do metropolita toledano em Viseu, passaram de Coimbra para aqui o bispo eleito (Gonçalo) e o prior e mestre da sua catedral, ficando a representá-los em Coimbra, na primeira cerimónia (traditio), o principal arcediago.

Como se mantivesse o impedimento da sua comparência em pessoa em Coimbra, enviou D. Teresa uma deputação sua à dita cerimónia, constituída pelo prior de Santa Maria de Viseu e por um presbítero da mesma, e por treze personalidades populares de importância em Viseu, cujo povo era da maior dedicação a D. Teresa e objecto retribuído da maior predilecção dela. Entretanto, Egas Moniz, indigitado aio da criança cujo nascimento se aguardava, passava de Viseu a Mangualde para, com dois delegados, conferir o foral, na vez de D. Henrique e de D. Teresa expressamente, acompanhando-os o bispo eleito de Coimbra (que o metropolita Bernardo sobredito viera consagrar – o que ainda não sucedera, aguardada em Viseu a presença de D. Henrique).

Foi nesta altura, à roda de 5 de Agosto de 1109, que no paço de Viseu veio à luz o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.

A presença da mãe ali é, então, um facto irrefutável – forçada, pelo seu estado fisiológico, a não assistir nem à morte do pai e suas exéquias, nem a pugnar pessoalmente pelos seus direitos de sucessão, e a não assistir à cerimónia conimbricense da traditio em 29 de Julho (um mês exacto após a morte do Rei), cerimónia essa que teria o seu complemento noutra em Viseu, dias depois e para sua confirmação. A ocasião concorda da maneira mais perfeitamente ajustada com a idade que as fontes da época indicam para D. Afonso Henriques, quando morreu seu pai (1 de Maio de 1112), isto é, cerca de três anos: dois anos e, mais ou menos, nove meses.

A. de Almeida Fernandes, Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, Viseu, 1993, pp. 173 e 174.
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6 de junho de 2009

Afonso Henriques - 1109?

D. Afonso I Rey de Portugal
Naceo a 25 de Julho de 1109. Morreo a 6 de Dez. de 1185.
Gravura de Gabriel Rousseu, água-forte e buril, aguarelada, c. 1734. [Biblioteca Nacional]

Os oitocentos anos do nascimento de D. Afonso Henriques foram assinalados em Guimarães em 1911, uma vez que, à altura, se tinha o ano de 1111 como a hipótese mais provável para o nascimento do futuro Rei Fundador. Tratava-se de uma mera probabilidade, uma vez que nada se conhecia então (como não se conhece hoje) que tenha comprovação pela ciência histórica, acerca das circunstâncias (incluindo tempo e lugar) do nascimento do herdeiro do Conde D. Henrique. Mesmo em Guimarães, encontram-se referências a diferentes datas, que vão desde 1106 (como, ainda em 1987, defendia Manuel Alves de Oliveira) a 1111 (data fixada por Alexandre Herculano, com base na sua leitura da Crónica dos Godos). A disputa acerca da data de nascimento é mais antiga do que a querela sobre o lugar onde Afonso Henriques terá nascido (durante séculos, até meados do séc. XX, nunca se colocou em causa a tradição que situava em Guimarães o berço afonsino). Cauto foi o Padre António José Ferreira Caldas, que situou o nascimento de Afonso Henriques em Guimarães, “no alvorecer do século XII”. Nos dias que correm, é pacífica, entre os medievalistas, a aceitação do ano de 1109 como aquele em que Afonso Henriques veio ao mundo.

A partir do momento em que aqui se chamou a atenção para a necessidade de se comemorar, em 2009, os 900 anos do nascimento de Afonso Henriques, surgiram algumas vozes que criticaram as comemorações que se programavam, porque D. Afonso Henriques teria nascido em 1111. Um dos argumentos mais curiosos que têm sido esgrimidos para contestar a celebração, este ano, dos 900 anos do nascimento de Afonso Henriques parte do facto de em Guimarães estar “escrita na pedra” (mais exactamente, escrito com pedras) a data de 1111, tomando com referência uma inscrição na calçada do largo do Toural (aí colocada em 1929). Pode haver quem acredite que essa inscrição teria valor de documento histórico, mas não tem (pelo menos, quanto à matéria em questão). Poder-se-ia perguntar, também, porque é que não se assinalou a data em 2006, respeitando o que se pode ler numa outra inscrição vimaranense (a que D. Diogo Lobo da Silveira mandou pôr na pia baptismal de S. Miguel do Castelo, em 1664, quando a deslocou para Igreja da Oliveira, dizendo: “Nesta pia foi baptizado El-Rei D. Afonso Henriques pelo Arcebispo S. Geraldo no ano de 1106”).

1109 não é uma possibilidade de hoje, nem de ontem. Já no início do século XVIII se encontram referências a esse ano, precisando-se mesmo o dia do nascimento de Afonso Henriques: 25 de Julho de 1109 (e não Agosto, como defende Almeida Fernandes, autor da hipótese viseense). A gravura que encima esta nota, não sendo o único, é um exemplo do que se afirma.
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