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A mostrar mensagens de Junho, 2009

Vimaranenses: Soror Maria Antónia do Rosário

As comodidades que a nobre e rica casa de seus pais lhe oferecia trocou-as Soror Maria Antónia do Rosário pelas virtudes austeras que o convento das Capuchinhas lhe proporcionava.

A vizinhança de religiosas, que pelos vimaranenses eram geralmente consideradas como perfeitíssimos exemplares de todas as virtudes, não podia deixar de acordar no espírito da filha de Gonçalo André de Carvalho Nápoles Matos e Alcáçova e D. Luísa Clara de Vilhena Castroe Menezes, senhores de Numães e da casa do Campo , junto ao convento da Madre de Deus, o desejo de ser companheira daquelas de quem tantos exemplos de perfeição ouvia narrar.

Para esta resolução também muito concorreu a educação verdadeiramente cristã, que lhe ministrava sua piedosa avô D. Mariana de Nápoles Carvalho Matos e Alcáçova.
É admitida a 25 de Março de 1732 entre as observantes Capuchinhas e a 23 de Janeiro de 1739 professa, recebendo-lhe a profissão a primeira Abadessa, irmã de D. Rodrigo de Moura Teles, que por certo foi esta uma d…

Porquê 1109 e não 1111?

O modo como Alexandre Herculano chegou a 1111 para ano de nascimento de D. Afonso Henriques está descrito na nota XI do Tomo I da sua História de Portugal, que a seguir se transcreve:

NASCIMENTO DE AFONSO HENRIQUES

"A data verdadeira do nascimento de Afonso I é ainda hoje disputada. A «Chronica Gothorum», contradizendo-se a si própria, assina-lhe duas diversas — a de lllleadelll3. A relação da tomada de Lisboa no cartório de S. Vicente de Fora (hoje no Arquivo Nacional) fá-lo nascido em 1107; mas este documento tem contra si o ser escrito quase um século depois do facto. A relação da tomada de Santarém (Monarquia Lusitana, P. 3, Apêndice), cuja fé para alguém é duvidosa, estabelece-lhe a data de 1110. O Livro das Linhagens, atribuído ao conde D. Pedro, parece concordar nisso mesmo; mas o Livro das Linhagens, como hoje existe, é obra de muitas mãos e de diversos tempos, sem que seja fácil discriminar o que é do conde ou posterior a ele, e, portanto, pouquíssima autoridade histórica …

História, tradição e fantasia

Uma das marcas de Guimarães é a presença da História. Não conheço terra como esta, no que se refere à paixão pela História e à sua apropriação pelo comum das suas gentes. E, em Guimarães, o que não faltam são historiadores. Todos os dias surge um. Por aqui, dá-se um pontapé numa pedra e logo saltam dois historiadores de baixo dela. Se para ser ferreiro é preciso saber malhar o ferro, se para ser sapateiro é preciso saber coser sapatos, se para ser médico é preciso conhecer a medicina ou para ser juiz é preciso saber de leis, não falta quem julgue que para ser historiador não será necessário saber história. É por isso que não faltam por aí historiadores habilidosos que, por terem outros ofícios, ou por não terem nenhum, se sentem habilitados para fazerem ganchos no ramo dos estudos históricos, peroram com autoridade e sapiência sobre matérias em que os historiadores profissionais são cautelosos, proclamam certezas inabaláveis sobre matérias onde a historiografia coloca dúvidas, publica…

Vimaranenses: Soror Antónia do Santíssimo Sacramento

Filha de Manuel da Silva e Francisca Maria, natural desta cidade, educada cristãmente por seus pais, cedo madrugou um Soror Antónia a vocação para o claustro e dá preferência ao convento da Madre de Deus, há pouco fundado, onde a 12 Abril de 1721, a primeira abadessa Soror Luísa Maria da Conceição lhe veste o santo hábito das pupilas.

Em 1726 professa e desde logo se torna rígida observante da regra e embora ocupasse os mais elevados cargos sempre se achava a primeira nas ocupações mais trabalhosas do convento, servindo não de superiora mas de serva de suas súbditas.

Foi sucessivamente mestra de noviças, porteira, vigária e abadessa, desempenhando todos estes cargos com toda a solicitude e caridade tornando-se querida e amada de todas as companheiras, que a choraram como à mãe mui extremosa.

Perfeito exemplar de uma verdadeira religiosa, faleceu, acumulada de merecimentos a 2 de Outubro de 1788, tendo de idade 78 anos.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 49, Guimarães,…

História e tradição

No debate sobre a questão do nascimento de D. Afonso Henriques, tenho assistido (de longe) a alguma argumentação, particularmente incisiva, que sustenta que D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães em 1111. A sustentação desta afirmação, segundo aqueles que a usam, remete exclusivamente para a tradição, aparentemente intemporal. A verdade é que a data de 1111 não foi definida por via da tradição, mas sim por mão erudita, uma vez que foi fixada no século XIX por Alexandre Herculano a partir da sua leitura dos documentos medievais, em particular da Chronica Gothorum. A tradição, muitas vezes veiculada na historiografia portuguesa ao longo dos séculos, é a que podemos encontrar, por exemplo, a abrir o capítulo sobre D. Afonso Henriques na História Genealógica da Casa Real Portuguesa, onde se lê:

De El-Rei D. Afonso Henriques.

Corria o duodécimo século da Redenção do Mundo, quando deu princípio à Monarquia Portuguesa o grande coração, e incomparável valor de El-Rei D. Afonso Henriques, que …

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (13)

A finalizar, e para uma mais fácil leitura da sequência de textos que aqui se publicaram, em que se analisou a obra Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, de A. de Almeida Fernandes, publica-se agora a sua versão em pdf:

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu?

Ao mesmo tempo, para que se possa confrontar a nossa leitura da tese de Almeida Fernandes com as fontes invocadas, aqui ficam também os documentos utilizados por aquele autor como base de sustentação dos seus argumentos:

Chronica Gothorum
[in Portugaliae Monumenta Historica: a saeculo octavo post christum usque ad quintumdecimum. Diplomata et chartae, org. Alexandre Herculano, - Academia das Ciências, Lisboa: - vol. I fasc. I ao v. I fasc. IV (1869-1873), pág. 12]

Carta de foral concedida a Azurara da Beira (Mangualde)
[in Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, org. Rui Pinto de Azevedo, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1958, n.º 14, pp. 18-19]

Doação do Mosteiro de Lorvão à Sé de Coimbra.
[in Documentos …

Os Rostos de Afonso Henriques

Exposição. Inauguração a 23 de Junho de 2009, pelas 18:00 horas, na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães. Entrada livre.

Mito e mistificação

A polémica em curso acerca do nascimento de D. Afonso Henriques não é uma querela científica, dirimida entre historiadores, mas uma construção mediática, carregada de efabulação, de citações e referências a obras que não se leram ou que não existem, de colocação de afirmações na boca de quem não as proferiu, a par de um manifesto aproveitamento político desta questão tese.

Já aqui vimos que José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques, considera admissível a tese do nascimento em Viseu daquele que seria o primeiro rei de Portugal. Mas também diz que, para uma questão como a do nascimento de Afonso Henriques, “não há certeza alguma, apesar da afirmação que Almeida Fernandes pôs nas suas próprias afirmações”. Em presença desta posição, é manifestamente abusivo dizer-se que “a tese de Almeida Fernandes é também defendida pelo historiador José Mattoso”, como se lê na edição online do jornal Expresso.

Na mesma notícia do Expresso leio, aliás, a seguinte informação, demonstrativa da f…

D. Afonso Henriques Nasceu em Viseu? (12)

[Ler texto anterior]

Na sua obra, Almeida Fernandes começa com dúvidas – “a investigação (que ainda não foi feita) é que terá que indicar a solução plausível” (p. 15) e acaba com certezas firmes como rochas quanto à sua tese viseense – “tais factos e circunstâncias são em tão grande número e peso, e tão coincidentes, que equivalem a um certificado do que em matéria histórica possa considerar-se indubitável” (p. 208). Porém, a sua tese é uma construção manifestamente frágil e inconsistente, assente em alicerces sem qualquer solidez.

A enunciação de Almeida Fernandes parte, expressamente, de duas premissas basilares: a datação do nascimento do infante no início de Agosto de 1109 e a presença de D. Teresa em Viseu por aqueles dias. Demonstrada a sua inconsistência, fica comprovada a fragilidade da tese viseense, recentemente transformada em matéria mediática, com vertentes de afirmação bairrista e de vanglória autárquica.

Nos dias que correm, continuam certas as palavras que A. de Almeida F…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (11)

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Publicada em 1990, a tese de Almeida Fernandes sobre o suposto nascimento de Afonso Henriques em Viseu foi acolhida com indiferença no meio científico. Mesmo em Viseu, não teve grandes repercussões. A sua mediatização aconteceu depois da publicação da biografia de Afonso Henriques, de José Mattoso, onde este historiador a considera verosímil, provável e admissível, na seguinte passagem daquela obra (clicar na imagem para ampliar):

Acontece que aqueles que, com base naquela referência da biografia de Afonso Henriques, se apressaram a declarar que a natalidade viseense de Afonso Henriques era uma verdade histórica incontornável, além de não terem lido com olhos de ler o livro de Almeida Fernandes, também desprezaram a seguinte advertência do próprio José Mattoso, por sinal inserida mesma página de onde se retirou a citação anterior:

in Mattoso, José, D. AFonso Henriques, Círculo de Leitores, 2006, pág. 18

[Ler texto seguinte]

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (10)

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Tendo chegado à certeza de que Afonso Henriques nasceu, exactamente, dois anos e nove meses antes da morte de seu pai, tendo concluído ser “facto irrefutável” a presença de D. Teresa em Viseu (ali retida ou impedida devido ao seu estado fisiológico, como o autor afirma repetidamente), nos meados do Verão de 1109, e tendo assente a data do foral de Azurara da Beira, que, de presumível, rapidamente se transforma em verdade segura, Almeida Fernandes afirma, positivamente e sem hesitações, “que foi nessa altura, à roda de 5 de Agosto de 1109, que no paço de Viseu veio à luz o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques” (p. 140). Eis aqui a tese de Almeida Fernandes para o nascimento do filho de Henrique e Teresa: uma construção artificiosa e especulativa, assente em premissas não demonstradas, ou comprovadamente inexactas e arrevesadas, que resulta de um curioso processo de “prestidigitação autoral”, como diria o seu autor.

Almeida Fernandes, que classifica, com razão, a C…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (9)

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“Se, portanto, conseguimos averiguar onde se encontrava D. Teresa no Verão de 1109 e a acharmos aí em condições tais que não lhe possibilitassem sair de lá, estaremos em face de duas circunstâncias que não têm poder que as impugne” (p. 48).

A verdade é que, ao contrário daquilo que repetidamente afirma, Almeida Fernandes não conseguiu demonstrar onde se encontrava D. Teresa no Verão daquele ano. A única certeza que existe é a de que a Rainha esteve em Coimbra no dia 29 de Julho de 1109, mas isso nada nos informa acerca do local de nascimento de Afonso Henriques, por não sabermos ao certo em que data aconteceu.

Para reforçar a sua teoria acerca do nascimento de Afonso Henriques em Viseu, no início de Agosto de 1109, Almeida Fernandes invoca a carta de Foral de Zurara (actual Mangualde). A data de 1102, que consta no documento, foi questionada pelo paleógrafo Rui Azevedo que, com bons argumentos, a situou algures entre 1109 e 1112. Almeida Fernandes, num curioso exercí…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (8)

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Para estabelecer a data de nascimento de D. Afonso Henriques, utiliza-se como fonte a Chronica Gothorum. Eis o que diz Almeida Fernandes que aquela crónica diz (clicar na imagem para ampliar):

Fernandes, A. de Almeida - Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, pág. 144-145.

E o que diz a Chonica Gothorum:

HERCULANO, Alexandre, 1810-1877, Portugalliae Monumenta Historica : o saeculo octavo post christum usque ad quintumdecimum. - Lisboa : Academia Scientiarum, 1867-. - v. ; 50 cm. - Diplomata et chartae, vol. I fasc. I ao v. I fasc. IV (1869-1873), pág. 12

Vertendo para português, lemos assim o texto destacado: "morto seu pai o Conde D. Henrique, como ele ainda fosse criança de dois ou três anos". Afirmar, com base neste trecho da Chronica Gothorum, que Afonso Henriques teria dois anos e nove meses à morte de seu pai, é pura especulação.
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D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (7)

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A carta de confirmação, referida por Almeida Fernandes, tem a mesma data da carta de doação e é exactamente igual ao texto original, até às assinaturas de D. Henrique e de D. Teresa, inclusive. Não é, pois, uma confirmação de D. Teresa, até porque, como vimos, esta havia assinado e confirmado o documento original, outorgado na catedral de Coimbra. Uma nova confirmação, por redundante, não faria qualquer sentido.

A propósito, não deixa de ser curioso que Almeida Fernandes transcreva a referência à suposta confirmação de D. Teresa no segundo documento como se segue:

Ego Tarasia, Ildefonsi imperatoris filia, et Henrici comitis uxor, hoc scriptum confirmo, hanc cartam confirmatam in Viseo (p. 28).

Quando o que aparece na assinatura e confirmação do documento é o seguinte:

Ego Henricus Dei gratia comes et totius Portugalis dominus hoc donationis scriptum grato benignoque animo confirmo +. Et ego Tarasia Ildefonsi imperatoris filia et Henrici comitis uxor hoc scriptum simil…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (6)

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A propósito da cerimónia de doação do Mosteiro do Lorvão à Sé de Coimbra, em 29 de Julho de 1109, eis o que escreve A. de Almeida Fernandes (clicar na imagem para ampliar):

Fernandes, A. de Almeida - Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques, ed. de 1993, pág. 166

E eis o que se lê no documento de doação, na parte da assinatura dos presentes:

Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, org. Rui Pinto de Azevedo, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1958, n.º 15, pp. 19-21

Ou seja, à luz da documentação disponível, D. Teresa esteve presente na cerimónia de Coimbra, tendo assinado o documento de doação ao lado do seu marido, D. Henrique. Não estava, portanto, retida em Viseu. Note-se que este era um argumento fundamental na tese de Almeida Fernandes.
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D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (5)

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Na cerimónia da doação do Convento de Lorvão, estiveram presentes diversos “homines de Uiseo”, que subscreveram o documento. O historiador Rui de Azevedo, tendo estudado o instrumento de doação, não soube explicar as razões da comparência da delegação viseense. Mas Almeida Fernandes, medievalista de muitas certezas em terreno onde são mais férteis as dúvidas, encontrou uma explicação: eram representantes de D. Teresa: “Como se mantivesse o impedimento da sua comparência em pessoa em Coimbra, enviou D. Teresa uma deputação sua à dita cerimónia, constituída pelo prior de Santa Maria de Viseu e por um presbítero da mesma, e por treze personalidades populares de importância em Viseu” (p. 139). Almeida Fernandes repete aqui o argumento de que D. Teresa, por supostamente se encontrar em avançado estado de gravidez, estaria retida em Viseu, a que junta a informação de que as testemunhas viseenses da doação do Convento de Lorvão seriam seus representantes. Nem esta informa…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (4)

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A 29 de Junho de 1109, morreu Afonso VI, rei de Leão, pai de D. Teresa e sogro de D. Henrique. Aquando do óbito e das exéquias que se lhe seguiram, não estiveram presentes D. Henrique, que tinha ido responder a uma insurreição muçulmana no limites a Sul dos seus domínios, com particular incidência em Sintra, nem D. Teresa, que, segundo Almeida Fernandes, “não possuía já as condições fisiológicas de poder assistir aos últimos momentos do pai e, menos ainda, às suas exéquias” (p. 57). Em que se baseou Almeida Fernandes para avançar com a justificação da ausência de D. Teresa em Toledo à hora da morte de seu pai? Em nada, rigorosamente nada, uma vez que não existe, na documentação medieval, qualquer referência aos motivos de tal ausência. Em nada, a não ser na sua convicção de que a rainha terá dado à luz no início de Agosto daquele ano, pelo que, em finais de Junho, estaria com a gravidez quase a termo e, em consequência, impedida de se aventurar em grandes viagens.

D…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (3)

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No texto com que abre a obra que dedicou ao local de nascimento de Afonso Henriques, A. de Almeida Fernandes reconhece que ainda não está encontrada a “solução plausível” para o enigma do local de nascimento de Afonso Henriques. Porém, à medida que se avança na sua leitura, assiste-se à transfiguração da dúvida inicial em certeza “indubitável”: o filho de Henrique e Teresa nasceu em Viseu “à roda de 5 de Agosto de 1109”. A argumentação copiosa que Almeida Fernandes desenvolve na obra Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques apenas sustenta-se em breves passagens de três documentos, a saber:

a) Da Chronica Gothorum (ou Anais de D. Afonso Henriques, Rei dos Portugueses): “…siquidem mortuo patre suo comite domine Henrico cum adhuc ipse esset duorum aut trium annorum”.

b) De um documento de confirmação da doação do Mosteiro do Lorvão à Sé de Coimbra, incluído no livro Preto de Santa Cruz de Coimbra, onde Almeida Fernandes leu: “Ego Tarasia, Ildefonsi imperatoris…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (2)

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Da distracção da maioria se faz a profundeza de alguns.
(Vergílio Ferreira, Conta Corrente IV)

A propósito da tese de Almeida Fernandes, segundo a qual D. Afonso Henriques terá nascido em Viseu, lançada, sem grande impacto, em 1990, têm sido produzidas diversas apreciações em tempos recentes, desde que José Mattoso lhe deu alguma visibilidade, quando, na sua biografia de Afonso Henriques considerou aquela hipótese admissível (embora negando-lhe a indubitabilidade pretendida por Almeida Fernandes). Eis algumas opiniões, pescadas aqui:

“A demonstração feita por Almeida Fernandes alcança verosimilhança suficiente par se admitir como possível, ou mesmo a mais provável. É de facto admissível, com base nos documentos por ele invocados, que D. Afonso Henriques tivesse nascido em Viseu por meados do mês de Agosto de 1109”.
Professor Doutor José Mattoso, Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa in “D. Afonso Henriques”,…

D. Afonso Henriques nasceu em Viseu? (1)

Nos últimos tempos, muito se tem falado acerca do local de nascimento de D. Afonso Henriques, a propósito da tese de A. de Almeida Fernandes, autor de um livro que ostenta o título “Viseu, Agosto de 1109 – Nasce D. Afonso Henriques” (obra de 1993, inicialmente publicada na revista Beira Alta, em 1990, recentemente reeditada). Como o assunto vai voltar a estar, por algum tempo, na ordem do dia, iremos aqui, nos próximos dias, analisar a tese viseense de Almeida Fernandes. Começamos pelos seus argumentos, assim resumidos pelo próprio autor:


Como termo de longa doença, a vida de Afonso VI de Leão caminhava para o seu fim nos últimos dias de Junho de 1109. Contestando uma constada sucessão do Reino em sua filha Urraca, seu genro Henrique, o conde de Portugal, prevalecendo-se de sua mulher, Teresa, outra filha do monarca, apresentou-se em Toledo numa verdadeira perseguição ao moribundo, no sentido de obter dele a melhor sucessão possível – visivelmente até com o fito na própria coroa.

Teresa…

Afonso Henriques - 1109?

D. Afonso I Rey de Portugal
Naceo a 25 de Julho de 1109. Morreo a 6 de Dez. de 1185.
Gravura de Gabriel Rousseu, água-forte e buril, aguarelada, c. 1734. [Biblioteca Nacional]

Os oitocentos anos do nascimento de D. Afonso Henriques foram assinalados em Guimarães em 1911, uma vez que, à altura, se tinha o ano de 1111 como a hipótese mais provável para o nascimento do futuro Rei Fundador. Tratava-se de uma mera probabilidade, uma vez que nada se conhecia então (como não se conhece hoje) que tenha comprovação pela ciência histórica, acerca das circunstâncias (incluindo tempo e lugar) do nascimento do herdeiro do Conde D. Henrique. Mesmo em Guimarães, encontram-se referências a diferentes datas, que vão desde 1106 (como, ainda em 1987, defendia Manuel Alves de Oliveira) a 1111 (data fixada por Alexandre Herculano, com base na sua leitura da Crónica dos Godos). A disputa acerca da data de nascimento é mais antiga do que a querela sobre o lugar onde Afonso Henriques terá nascido (durante sécu…