5 de maio de 2016

A espada de Afonso Henriques

Espada de D. Afonso Henriques, gravura publicada no Arquivo Pitoresco, col. IV, Lisboa, 1861, pp. 255.
(Clicar na imagem para ampliar)

A espada de Afonso Henriques, que hoje se guarda no Museu Militar do Porto, tem uma dimensão simbólica que ultrapassa largamente a sua dimensão física que, aliás, é surpreendentemente maneirinha, à luz das descrições daquele que a empunhava, que seria homem para medir nada menos do que 10 palmos, ou seja, muito mais do que dois metros. Sendo certo que aquela era a espada que estava dentro no túmulo do primeiro rei de Portugal, na igreja de Santa Cruz de Coimbra, de onde foi retirada após a extinção das ordens religiosas, em 1834, a sua pertença a Afonso Henriques tem suscitado muitas dúvidas. Pelas suas características, alguns especialistas têm-na datado de última fase adiantada do século XV e que, a ser espada de rei, como parece ser, seria de um outro Afonso, o quinto. Segundo a lenda, esta espada, juntamente com o escudo de Afonso Henriques, teria sido levada, como amuleto protector, por D. Sebastião para a desastrosa incursão de Alcácer Quibir, mas teria ficado esquecida no barco que transportar o rei ao lugar que lhe serviria de sepultura.

A revista Arquivo Pitoresco publicou, em 1861, a gravura que encima esta nota, acompanhada por um texto onde se conta a história da misteriosa espada de Afonso Henriques. Aqui fica.


Espada de El-Rei D. Afonso Henriques

Foi esta a espada que libertou Portugal da dependência de Castela; que conquistou aos moiros Lisboa, Santarém, Palmela, Leiria e outras terras; a que fundou em Ourique a monarquia portuguesa.

Até à extinção das ordens religiosas, a espada de D. Afonso Henriques conservou-se junta ao seu túmulo na capela-mor de Santa Cruz de Coimbra; depois foi transferida para o museu do Porto; onde se acha, e ali foi tirado o desenho que hoje apresentámos.

É sabido que el-rei D. Sebastião, quando partiu para a desastrosa jornada de África, levou a espada e o escudo de D. Afonso Henriques. Não tendo porém desembarcado estas armas, quando a armada regressou ao reino foram estes dois monumentos restituídos ao convento de Santa Cruz. É isto o que afirmam os nossos antigos cronistas.

Modernamente o douto padre Manuel da Cruz Pereira Coutinho, redactor do Antiquário Conimbricense*, publicando o fac-símile da carta original que D. Sebastião escrevera ao prior de Santa Cruz, pedindo que lhe emprestasse a espada e o escudo de D. Afonso Henriques, diz que o secretário geral do distrito de Coimbra tinha ordenado um escrupuloso exame nos papeis do arquivo pertencentes ao cartório de Santa Cruz, com o intento de descobrir alguns documentos por onde se possa evidenciar se aquelas armas foram efectivamente restituídas ao mosteiro ou não.

Ignorámos porém qual foi o resultado desta investigação.

Do modo por que estas armas saíram de Santa Cruz, é que há documento e testemunhos autênticos. Eis o que diz D. Nicolau de Santa Maria na Crónica dos Cónegos Regrantes:

“Depois de ter assistido no dia 20 de Outubro de 1570** a um doutoramento na universidade, passou D. Sebastião a visitar as sepulturas de D. Afonso Henriques e D. Sancho. O prior-mor lhe mostrou a espada de D. Afonso Henriques, a qual tomou D. Sebastião, e com grande veneração a beijou, dizendo aos fidalgos da sua comitiva: “Bom tempo em que se pelejam com espadas tão curtas! Esta é a espada que libertou todo o Portugal do cruel jugo dos mouros, sempre vencedora, e por isso digna de se guardar com toda a veneração.” E entregando-a ao prior geral de quem a recebera, lhe disse: — “Guardai, Padre, esta espada, porque ainda me hei-de valer dela contra os moiros de África.”

“Passados oito anos, lembrado el-rei destas palavras, a mandou pedir ao geral de Santa Cruz, D. Pedro de Assunção, para com ela derrotar na expedição de África os sequazes de Mafoma, de cujos fulminantes golpes tinham sido sanguinolentas vítimas; porém como estava determinada a última ruína desta coroa, não permitiu a Providência que fosse vencida uma espada sempre vitoriosa, ficando por esquecimento na armada em que el-rei navegou para a África.”

A carta de el-rei para o prior de Santa Cruz tinha-se extraviado quando se fez a mudança do cartório do convento; mas o sr. Santa Rita, então secretário do governo civil, conseguiu a restituição, e depois de permitir que dela se tirasse o fac-simile que saiu no primeiro número do Antiquário, remeteu-a para a torre do Tombo.

Desse fac-simile é que é o traslado que vamos apresentar, com a seguinte nota que lhe pôs o mesmo sr. Pereira Coutinho:

“Duas razões nos persuadiram à publicação desta carta. Primeira, porque as obras impressas em que ela se acha não estão ao alcance de todos. Segunda, porque a cópia que vem na Crón. dos Cónegos de Santo Agostinho, onde Barbosa foi beber, além de omissa em partes, está quase toda viciada, talvez por imperícia ou negligência de quem a trasladou.”

“Padre geral e convento do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Eu el-rei vos envio muito saudar. Eu me tenho publicado em haver de fazer por mim com ajuda de Nosso Senhor uma empresa em África, por muitas e mui grandes razões, mui importantes ao bem de meus reinos, e de toda Espanha, de que também resulta benefício à cristandade, o que me pareceu escrever-vos assim para encomendardes ao Nosso Senhor o bom sucesso desta empresa, que por seu serviço faço, como para vos dizer que desejo levar nela a espada e escudo daquele grande e valoroso primeiro rei deste reino D. Afonso Henriques, cuja sepultura está nesse mosteiro, porque espero em Nosso Senhor que com estas armas me dê as vitórias que el-rei D. Afonso com elas teve. Pelo que vos encomendo muito que logo mas mandeis por dois religiosos desse convento que para isso elegereis. E como eu embora tornar, as tornarei a enviar a esse mosteiro, para as terdes na veneração e guarda que é devido a cujas foram, e por tudo. E por aqui entendereis que as não quero senão emprestadas para o efeito a que vou, e de quão grande contentamento isto é para mim. Escrita em Lisboa a 14 de Março de 1578. — Rei.”

“Para o padre geral e convento do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.”

Acrescenta mais o cronista de Santa Cruz:

“Recebida esta carta, mandou logo o padre prior limpar a espada do glorioso rei D. Afonso, e fazer-lhe uma bainha de veludo, com sua ponteira de prata doirada, e uma caixa preta em que fosse metida com sua chave, e fechadura doirada; e outra caixa preta em que fosse o escudo do mesmo santo rei, para irem estas armas com mais resguardo e veneração, e as mandou pelo vigário do mesmo mosteiro de Santa Cruz, D. Jerónimo, varão de grande autoridade e de boa presença, que as entregou a el-rei, o qual as recebeu com grande gosto e contentamento, dizendo, que se Deus lhe dava a vitória que esperava, prometia de fazer canonizar o glorioso rei D. Afonso, como já o intentara fazer el-rei João III seu senhor e avô.”

Muitos julgam que a espada de D. Afonso Henriques é um montante enorme como o de ferrabrás; pois enganam-se, porque é curta e estreita a que se guarda como coisa dele. Pode ser que tivesse outra; mas esta deve ser a mesma que viu el-rei D. Sebastião em Santa Cruz de Coimbra, porque à vista dela exclamou: Bom tempo em que se pelejava com espadas tão curtas! '
Enquanto não vimos a espada, supusemos sempre que estas palavras eram irónicas; mas depois reconhecemos que D. Sebastião se admirara com fundamento.


* Deste importante periódico apenas saíram 9 números em 1844.
** Data corrigida (no texto do Arquivo Pitoresco aparece 1750, gralha mais do que evidente). AAN.

                                                                                 in Arquivo Pitoresco, vol. IV, Lisboa, 1861, pp. 255-256.                                                               
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