6 de junho de 2017

Quando a terra treme

"Senhor Jesus dos Terramotos que se venera na sua Ermida do Campo de Ourique", gravura de Manuel de Sousa Godinho, 2.ª metade do séc. XVII. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Hoje tremeu a terra em Guimarães, facto muito raro entre nós. Por aqui, quando se fala em terramotos, fala-se, quase sempre, de ocorrências em lugares distantes. Nestas terras, a actividade sísmica é muito moderada. Até onde alcança a nossa memória histórica, não encontrámos relatos de um único sismo catastrófico ou que tenha provocado danos mais significativos do que umas rachadelas em paredes menos robustas. Curiosamente, é a partir de Guimarães que a escritora Suzanne Chantal inicia a sua magnífica obra sobre a vida em Portugal no tempo do Marquês de Pombal:

Apesar de ser ainda bastante cedo e de a estação já ir adiantada, fazia tanto calor que o jumento resfolegava e tropeçava nas pedras do caminho em mau estado. O capuchinho transpirava abundantemente sob o hábito de burel. Por que razão havia de ter ouvido a missa na capela privativa da quinta? O seu jovem discípulo queria, porém, nesse dia de Todos-os-Santos, honrar a memória do seu protector e padrinho e decidiu ir rezar no mui sagrado santuário de Nossa Senhora da Oliveira. Também ele cavalgava a montada, silencioso e abatido pelo insólito calor. Não chovera durante todo o Verão; não havia uma sombra no caminho, um rebento verde nos campos pelados. A luz era a tal ponto transparente que se viam os campanários de Guimarães destacando-se no horizonte com uma nitidez de ponta seca.
De repente, um rumor surdo. Dir-se-ia uma tempestade: mas o céu não tinha uma só nuvem. Ou uma carroça carregada: mas o caminho estava deserto.
O capuchinho persignou-se. Não se tratava de uma vertigem devida ao jejum. Viu oscilar, ao longe, o campanário de Santa Eulália. Do ribeiro próximo subiu bruscamente um cheiro tão forte a enxofre e salitre que o frade teve de tapar o nariz.
O cavalo do jovem fidalgo empinou-se. O ar, imóvel e pesado, estava irrespirável. Inquieto, o cavaleiro desmontou e, debaixo da bota, sentiu a terra tremer.
CHANTAL, Suzanne – “A vida quotidiana em Portugal ao tempo do terramoto”. Lisboa: Edições Livros do Brasil, [19--], p. 11-12.

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 sentiu-se em Guimarães, mas sem causar estragos significativos. Sabe-se que o Convento de S. Domingos  ficou com um sino rachado, mas o maior dano terá sido o susto que invadiu as gentes e que cresceu nos dias que se seguiram, à medida que iam chegando notícias das devastações no Sul do País, em especial na capital do Império, que ficou atapetada de cadáveres e de ruínas. Um frade do Convento da Costa escreveu um breve apontamento, que João Lopes de Faria transcreveu nas suas Efemérides Vimaranenses:
Memorável será para todos os séculos o dia de todos os Santos do ano de 1755 pelo terramoto com que o céu atemorizou a todo Portugal, e grande perda de vidas, e fazenda, que houve em Lisboa, e suas vizinhanças. Por todo o ano adiante continuaram, ainda que não com a violência e estrago do primeiro. Em todo o Reino se fizeram procissões de penitência. Em Guimarães saiu o Cabido descalço. Os estudantes saíram também com a imagem de N. Pe. (S. Jerónimo penitente) que nos vieram pedir para isso, que alguns Monges acompanharam e pregaram, em S. Dâmaso, donde saiu a procissão, à porta da Colegiada, no terreiro de Sta. Clara, no do Carmo, no da Misericórdia, no Toural, no das Dominicas, e outra vez no Toural, para a parte de S. Dâmaso, aonde se recolheu a procissão.
Há registo de outras manifestações de actividade sísmica em Guimarães. No dia 31 de Março de 1761 houve susto, com um tremor de terra que trouxe à memória o grande terramoto de 1755. No dia seguinte, a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos fez sair a imagem do Senhor dos Passos, numa procissão de penitência que percorreu as ruas da vila, para que movidos os corações dos pecadores e emenda de suas culpas, fazendo penitência delas, aplaquem a ira de Deus, que por causa delas nos ameaça com estes tão tenebrosos avisos, em acção de graças por não permitir que do dito terremoto resultasse dano considerável a criatura alguma desta vila e suas vizinhanças.
Na década de 1830 o cónego vimaranense Pereira Lopes registou dois terramotos, um na noite de 20 de Agosto de 1837, algum tanto violento, porém de pouca duração, outro na madrugada do primeiro dia de Julho de 1837, rápido, mas violento, que não causou qualquer estrago, a que se seguiram três grandes trovoadas sobres esta vila que apresentaram um aspecto medonho, não visto já há muitos tempos, assustando sobremaneira os habitantes da mesma, caindo nos arrabaldes da vila bastantes raios e faíscas, que não causaram algum dano mais do que a algumas árvores.
No mais, os registos constam apenas de pequenos abalos e de manifestações de solidariedade dos vimaranenses para com as vítimas de terramotos acontecidos noutras paragens, de que serão exemplo as manifestações de apoio às vítimas do grande terramoto da Andaluzia do dia de Natal de 1884 ou do sismo do Ribatejo de 23 de Abril de 1909, o mais devastador do século XX português.
Por aqui, a terra é calma.

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26 de maio de 2017

Das artes de justificar a destruição de património

A muralha em meados do século XX. Ao fundo, ainda se vêem paredes da "Câmara do Mariano", demolidas em meados da década de 1950.

Os que governam a cidade têm especial propensão para deixarem a sua marca para a posteridade, fazendo obras. Não é só deste tempo, nem apenas desta cidade. E os argumentos que, em cada tempo, se usam para justificar obra nova que implique a destruição do que já existia não variam muito: o que se vai fazer é obra muito útil e necessária (mesmo que não tarde a demonstrar-se que não havia nenhuma necessidade dela) e o que vai ser arrasado não presta, nem faz falta, é feio, está degradado, ameaça ruína, coloca em perigo a segurança e o bem-estar dos munícipes (e, mesmo que estivesse em perfeito estado de conservação, ia abaixo na mesma…). Foi assim que Mariano Felgueiras, político vimaranense que muito admiro, por muitas razões, justificou a destruição de um troço de muralha para alargar o terreno onde seria levantado um projecto que acarinhava, o novo edifício dos Paços do Concelho, que ficaria conhecida como “a Câmara do Mariano”, do qual se chegaram a lançar os alicerces e a erguer parte das paredes, mas que não passaria daí. Ora, se se iam destruir 30 metros de muralha (na verdade foram cerca de 50 metros), ainda ficavam 230 metros, que seriam mais do que suficientes “para consolar aqueles que só agora despertam para olhar pelas coisas do passado”. E os que possam dizer o contrário, só o dirão porque servem interesses ocultos e inconfessáveis:as suas intenções, as verdadeiras causas que os impulsionam, os seus verdadeiros fins, desmascaram-se límpidos na minha retina”, disse Mariano, em 1925, numa entrevista ao jornal A Razão, de que reproduzimos a seguir a parte em que se refere ao apeamento de parte da muralha que cercava a vila de Guimarães desde o tempo do rei D. Dinis.

A questão da muralha

Mas que me diz V. dos clamores que a execução deste projecto provocou por implicar a destruição da antiga muralha da cidade?
— Fez bem, lembrando-me esse incidente. A execução do nosso projecto não implica a destruição da muralha da cidade. Pelo contrário, respeita-a e dá-lhe realce. Não é destruir a muralha da cidade deitar abaixo trinta metros da sua extremidade, a qual justamente, em toda a sua extensão, ameaçava iminente ruína. Ninguém ignora e ainda se pode ver que esses 30 metros da muralha, tinham os alicerces completamente fora da terra, estavam desaprumadíssimos, com pedras já rachadas por ter o terreno cedido ou por ter havido fortes deslocações.
Mas ainda que essa parte da muralha estivesse perfeita, havíamos de pôr de parte o nosso projecto, ou desmanchar-lhe, irremediavelmente, a sua estética, para respeitar 30 metros de uma muralha que tem 230 metros de extensão?
Então os 230 metros que ficam não chegam para consolar aqueles que só agora despertam para olhar pelas coisas do passado e têm deixado estragar e destruir tanta coisa de belo e do interessante, sem o mínimo protesto, como ainda há bem pouco tempo aconteceu com duas janelas dos Paços dos Duques de Bragança?
Eu respeito muito as opiniões dos outros, por mais opostas que sejam às minhas, quando nelas reconheço sinceridade. Mas desprezo-as, absolutamente, sempre que lhes vislumbro má fé.
A muralha nada perde, só tem a ganhar com a realização da obra projectada. Apeou-se lhe uma pequena parte que amanhã cairia numa derrocada inevitável. Mas os 230 metros restantes, que aqui eram parede de uma estrada passam a ser a parte lateral, ajardinada e arborizada de uma avenida de 18 metros de largura.
Perde a muralha com isso?
Eu sei, eu vejo fundo na consciência de todos aqueles que até hoje se têm referido ao corte da muralha. As suas intenções, as verdadeiras causas que os impulsionam, os seus verdadeiros fins, desmascaram-se límpidos na minha retina. Dou-lhes o apreço que merecem. Mal de mim se não passasse longe e por alto de tudo isso. Nunca chegaria a fazer coisa alguma de utilidade. Falharia assim à mais querida das minhas aspirações ser útil aos outros.
E por hoje mais nada; isto já vai muito longo e, no entanto, ainda lhe poderia dizer muito mais sobre o que temos feito, sobre o que projectamos fazer.
Estava terminada a entrevista. Retiramo-nos agradecido à amabilidade do nosso entrevistado e absolutamente convencido de que a actual vereação tem feito uma obra de administração que honra Guimarães e a República.
Mário.
A Razão, 11 de Fevereiro de 1925


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25 de maio de 2017

Destruição ou conservação de património?


Entre os projectos que que tenho em mente concretizar “logo que possível”, está o de um ensaio sobre a formação e a consolidação da consciência patrimonial vimaranense, que é muito antiga e consistente. Sempre que se fala em projectos para obra nova que interfira com o património preexistente e com a configuração da cidade, logo se ergue um clamor de vozes contrárias. No que toca ao seu património, os vimaranenses adoptam, por regra, uma atitude irredutivelmente conservadora. Foi essa atitude que impediu a destruição da torre de menagem do castelo, no lavar dos cestos das guerras entre liberais e absolutistas, e que se concretizassem sucessivos projectos de visionários que pretendiam trazer o progresso a Guimarães por via de largas avenidas que se rasgariam derrubando muros e casario e rompendo caminho pelo centro histórico adentro. Geralmente, os defensores do progresso por via do camartelo e, mais tarde, do betão, lançavam esgares de desprezo sobre os inimigos do progresso, que pareciam desejar que Guimarães ficasse parada no tempo. Acontece que, olhando retrospectivamente a partir dos dias de hoje e de valores que agora são (quase) universalmente aceites, verificámos que, por regra, eram os conservadores que tinham razão. O exemplo que aqui deixo agora parece-me suficientemente elucidativo.
No início de 1925, para abrir espaço para a instalação dos novos Paços do Concelho, projectados pelo arquitecto Marques da Silva, por proposta de Mariano Felgueiras, foi derrubado um tramo da muralha que D. Dinis mandara erguer para proteger a vila de Guimarães. Pela mesma altura, abriu-se a rua do Condestável Nuno Álvares Pereira, para dar acesso da Estrada de Fafe ao interior do Centro Histórico, por Santa Clara. Para rematar essa amputação, formou-se um cotovelo,onde se abriu uma porta, nova, mas a-fingir-de-gótica, para dar acesso ao Internato Municipal, que funcionava no edifício do antigo convento de Santa Clara. por aqueles dias, ergueram-se públicos clamores em Guimarães contra a destruição daquele património. Um vimaranense que ama a sua terra escreveu, mandou imprimir e distribuiu profusamente no dia 17 de Janeiro um manifesto, para memória futura, com o título “Guimarães Saqueada!”, contra a destruição daquelas "memoráveis pedras para realizar um melhoramento local que talvez fique, como as obras de Santa Engrácia, sem nunca se concluir!”.
Um texto profético, que aqui se reproduz. 

Guimarães Saqueada!

A esta mesma hora, nestes frios e primeiros dias de ano que começa (e para nós, infelizmente, bem mal!) está-se destruindo ali na vizinha estrada de Fafe parte da histórica muralha de D. Dinis, derradeiro vestígio desse glorioso cinto ameado que outrora rodeava a cidade, como preciosa relíquia dum passado cheio de heroísmo e amor pátrio! Não vimos — é tarde de mais para o fazer! — lentar estorvara sua demolição, porque seria inútil qualquer esforço despendido agora para obstar a consecução daquela obra. Vimos tão somente (e seja-nos isso lícito, ao menos) lastimar comovida e publicamente tal acontecimento, que nos enche a alma de luto e amargura! Vimos, como vimaranense que ama a sua terra e a queria ver estimada, desabafar a dor da nossa consciência ante esse facto vandálico que se está praticando e que merece toda a nossa censura e repulsa! Vimos como que tecer-lhe o tristíssimo necrológio, para que depois de esse acto consumado o nosso coração possa rever as lágrimas que verteu!
É que esse resto de muralha não era só dos vimaranenses, mas sim de todos os portugueses que sabem prezar a sua Pátria e compreendem o alto significado histórico que representava esse padrão, não nos cabendo, portanto, o direito de lhe tocar, porque ele faz parte desse património comum de sagradas ruínas que, aqui e além, assim desmanteladas, representam ainda as nossas glórias passadas! Não nos cabia esse direito porque são brasões nobilíssimos da Raça, que os séculos enegreceram, a hera enramalhetava e o mesmo tempo tem respeitado! E deitam-se abaixo essas memoráveis pedras para realizar um melhoramento local que talvez fique, como as obras de Santa Engrácia, sem nunca se concluir! Mas a obra demolidora corre velozmente para ninguém que tenha olhos de ver possa comentar... Destrói-se porque assim se entendeu e o Estado consente, como tem consentido e promovido tanto acto de feroz destruição. É uma terrível debacle que ameaça tudo quanto possuímos de belo e enternecedor, motivo do nosso orgulho, razão da nossa própria existência! É bolchevismo moderno (entenda-se ignorância e estupidez) calcando as tradições imorredoiras dum povo que, daqui a dois dias, não tem história, não tem monumentos, não tem nada!... Queremos olhar para diante, mas se lançarmos um olhar retrospectivo encontraremos tantos erros nefastos, que o futuro se nos ensombrará com a projecção de nossos irremediáveis delitos cometidos! Andamos cavando o desprezo e a indiferença da gente civilizada, num retrocesso de ideias e realizações! Vergonha das vergonhas. Ontem assistimos à derrubação dos preciosos templos das Capuchinhas e Santa Clara, hoje à mutilação dos Paços dos Duque de Bragança e muralha medieva que o nosso sangue já tingiu!
Deus louvado, o que aí vai! Dir-se-ia que um vento mortal soprou sobre nós!... Quantas calamidades em tão curto prazo de tempo! A nossa terra está sendo alvo das mais ridículas e torpes transfigurações, num desabar ininterrupto das mais autênticas preciosidades, que eram todo o nosso desvanecimento! Abri os olhos, vimaranenses, e acordai, antes que apeteça dizer, como Herculano: “Isto dá vontade de morrer !...

Um vimaranense que ama a sua terra.

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24 de maio de 2017

A Casa da Câmara, por Jerónimo de Almeida

A Casa da Câmara de Guimarães no início do século XX.

O último texto das Breves considerações arqueológicas que Jerónimo de Almeida publicou no jornal republicano Alvorada é dedicado à antiga Casa da Câmara, que se ergue na praça da Oliveira sobre os arcos que dão passagem para a praça de S. Tiago. Ao que se percebe ao ler este texto, por aqueles dias havia em Guimarães quem alimentasse a ideia de a mandar demolir “para aformosear a cidade”.

Breves considerações arqueológicas — VI

Câmara

A velha casa dos Paços do Concelho, situada na praça de Nossa Senhora da Oliveira, é dos antigos edifícios de Guimarães um dos que menor preço arquitectónico apresenta, tornando-se apenas um pouco característico pela larga arcada sobre que assenta a sua fachada e que dá comunicação entre esta praça e a de S. Tiago.
Embora modificada por sucessivas reformas que mencionarei, crê-se datar a sua obra do século XVI, tendo sido seu fundador o rei D. Manuel I, o que se depreende das esferas armilares que guarnecem com os brasões as suas janelas. Estes brasões e esferas, que primitivamente estavam cravados debaixo das ameias, foram mudadas, coroando as janelas na reforma que o edifício sofreu no século XVIII, sendo nesta mesma ocasião alterada a forma antiga delas, que devia obedecer ao estilo manuelino. Contudo parece que já em 1674 se fizera a primeira reparação, mas todas essas reconstruções foram ligeiras.
Existiu ao centro da linha das ameias um relógio de sol em pedra e uma pequena sineira, porém em 1877 foram substituídos pela estátua de Guimarães, que até essa data encimava a antiga alfandega, ao Toural. De novo as esferas e brasões foram mudadas.
Lê-se uma inscrição lapidar no cunhal que dá para a travessa dos Enjeitados, e é do teor seguinte:
Æternit. sacr. immaculatissimae conceptioni Mariæ Joan. IV. Portugal. Rex. Una cum General comitiis se et regna sua sub annuo censu tributaria, publice vovit. atque Deiparam in imperii tutelarem su electam a labe originali præservatã. perpetuo defensurũ. juramento firmavit. viveret ut pietas lusitan hoc vivo lapide memoriale perenne exarari jussit ann Christi MDCXLVI imperii sui vi.
Ano 1654.
Na sala das sessões vê-se um humilde altar, com um retábulo a óleo, de medíocre merecimento.
E nada mais tem este edifício digno de referência, porque é realmente uma obra modesta. Não quero significar, apesar disso, que se deva demolir para aformosear a cidade (como parece alguém pretender), pois não é destruindo a actual casa da Câmara que se tornará a cidade bela, antes conservando essas interessantes edificações de antigos bairros, e fazendo que do contraste da velha e nova povoação resulte um conjunto variegado e típico.
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 8 de Abril de 1911


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23 de maio de 2017

Notas à margem duma "sessão informativa"


A “sessão informativa sobre o projecto de execução do parque de estacionamento adjacente às ruas da Caldeiroa, Liberdade e Camões”, ontem promovida pela Câmara Municipal de Guimarães na Sociedade Martins Sarmento, se foi pouco informativa, foi muito esclarecedora, ao permitir consolidar a ideia de que não há argumentos técnicos, económicos, urbanísticos ou sociais que justifiquem o esbanjamento de dinheiros públicos numa obra que tem tudo para vir a ser um elefante branco de dimensão quase faraónica.

Ainda não consegui perceber a intenção que presidiu à opção pelo modelo adoptado na sessão. Era sabido que havia um pedido de um debate público, que a Câmara teria recusado, para depois avançar com aquela “sessão informativa” que, se não foi um debate público, não se percebe bem o que terá sido.

Quem chegava ao magnífico Salão Nobre da Sociedade, era capaz de pensar que a Câmara terá preferido a posição que lhe seria mais confortável, evitando partilhar a mesa com quem defendesse opiniões contraditórias com as suas. Afinal, essa ilação estava errada. Logo no arranque da sessão se percebeu que na mesa havia quem tivesse opinião contrária ao projecto, tendo-a exprimido com toda a clareza da sua voz. E aquela não era uma voz qualquer: era a voz que nos habituámos a reconhecer, ao longo de várias décadas, como a que falava pelo processo de requalificação que levou o Centro Histórico de Guimarães à classificação como Património Mundial. “Nós, os técnicos, damos pareceres; o executivo decide” — foi uma expressão que me ficou a retinir nos ouvidos. Claro como a água: a decisão de avançar com obra tão desmesurada, quanto desnecessária, não é técnica, é política.

Tenho a dificuldade em perceber o argumento de autoridade repetido e sublinhado, um tanto fora de tom, pelo presidente da Câmara (algo como: quem decide sou eu, porque posso, quero e mando). Por outro lado, não me parece líquida a afirmação de que o projecto em discussão estava legitimado em eleições, uma vez que fazia parte do programa eleitoral com que se submeteu a votos.

Vejamos o que dizia o tal programa, a este propósito:

Construção do parque de estacionamento da rua de Camões potenciador da qualificação urbanística de um interior de um grande quarteirão localizado no centro da cidade, de apoio aos moradores e à actividade diária da cidade, nomeadamente comércio e serviços;
Este ponto do programa da candidatura socialista às autárquicas de 2013 replica o que vinha sendo dito, desde 2009, pela equipa que projectou a requalificação do Toural e da Alameda, com base no respectivo Plano de Mobilidade Viária e Transportes Públicos, elaborado pelo Eng. António Babo. Efectivamente, aí se previa a possibilidade de criação de um parque de estacionamento entre a Caldeiroa e Camões, para apoio aos moradores e às actividades de comércio e de serviços da cidade, que serviria de mote para a requalificação do interior degradado daquele quarteirão. Mas, o que então se previa, era um parque de superfície, com capacidade para 120 lugares, como em boa hora recordou o Arq. Ivo Oliveira, professor da Escola de Arquitectura da Universidade do Minho. Algo completamente diferente da solução agora em discussão.

Do que assisti da sessão de ontem, ficam as perguntas por responder. Onde estão os estudos prévios de mobilidade urbana que fundamentam a necessidade e a adequação deste projecto? Onde estão os números que demonstram a taxa de ocupação dos parques já existentes?

E não basta responder, como se respondeu, que “há muitos estudos”. Se os há, porque não se mostram?

Sou solidário com os moradores da rua de Camões que se queixam da degradação e dos ratos que têm o seu habitat no espaço para onde está projectado o parque de estacionamento. Mas não me parece que se justifique gastar tanto dinheiro para exterminar uns quantos ratos ou tratar dos terrenos deixados ao abandono pelos seus proprietários. Para quem ainda não percebeu a dimensão do que ali se vai enterrar, 8 milhões de euros!, recorda-se que é muito mais do que o que se investiu em todo o processo de requalificação do Toural, da Alameda, do Campo da Feira e da rua de Santo António (6 milhões de euros). Uma barbaridade, especialmente incompreensível num concelho com tantas carências.

Esta é, manifestamente, uma obra que não serve os interesses de Guimarães, nem dos vimaranenses. Se prevalecesse o bom senso, este era o momento em que se parava para estudar melhor e verificar se esta é a solução que melhor serve a cidade. Houve tempos em que era assim que se procedia por cá. Mas, depois do que ouvi ontem, já não tenho a certeza de que ainda haja o bom senso que dantes havia.

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22 de maio de 2017

Dos parques de estacionamento e da sua necessidade


Há tempos, foi solicitada por um grupo de cidadãos a realização de um debate sobre o parque de estacionamento previsto para o miolo do quarteirão das ruas de Camões, da Liberdade e da Caldeiroa e da travessa que liga as duas últimas. Anuncia-se para hoje uma “sessão informativa sobre o projecto de execução do parque de estacionamento adjacente às ruas da Caldeiroa, Liberdade e Camões”, promovida pela Câmara Municipal. Não estou seguro de que essa sessão seja resposta àquela solicitação de cidadãos. ‘Sessão informativa’ afigura-se-me como algo diferente de ‘debate público’, parecendo revelar uma menor predisposição para uma discussão aberta e franca. Pode ser que esteja enganado. A ver vamos.
Em boa verdade, continuando a tomar pelas aparências, parece que esta iniciativa se configura para ser mais uma sessão de divulgação e propaganda do que debate esclarecedor e capaz de dissipar as muitas dúvidas que andam no ar. Como não estou certo de que os cidadãos tenham a possibilidade de colocar todas as questões que entendam dever ser esclarecidas, aqui deixo algumas.
Antes de mais, notarei que a disponibilidade para apresentar publicamente este projecto (divulgação que deveria ser assumida como obrigação da autarquia, sempre que estivessem em causa projectos susceptíveis interferirem com a vida dos cidadãos — e antes que estes produzam efeitos dificilmente reversíveis) chega tarde. Demasiado tarde para não ser confundida com uma iniciativa no âmbito de uma campanha eleitoral que já vai no adro. Ninguém pode ignorar que a maior força da oposição já apresentou uma proposta eleitoral que conflitua com este projecto e que teve significativa ressonância pública e mediática. Assumo que esta inquietação pode ser injusta, mas parece-me que não serei o único a alimentá-la. Se se trata de uma acção de resposta à proposta da oposição, e não ao pedido de um grupo de cidadãos, que lhe é anterior, é natural que se questione a mobilização de recursos da autarquia para essa iniciativa.
Estou seguro de que a apresentação do projecto, quanto à natureza do que se pretende construir, será competente e esclarecedora. Assim o garantem os nomes anunciados para a sessão que são pessoas cuja competência técnica ninguém de boa-fé colocará em causa. No entanto, confesso que, antes de quaisquer esclarecimentos sobre o projecto em causa, há questões que carecem de esclarecimento prévio que afaste todas as dúvidas.
A primeira será, obviamente, a da necessidade de mais parques de estacionamento pagos na cidade de Guimarães.
Julgo que esta questão será a mais fácil de responder. Basta para isso que se divulguem os estudos técnicos que sustentem tal necessidade, assim como as informações acerca das taxas de utilização dos parques já existentes.
Uma tão assertiva convicção, como a que por aí vai, de que há falta de oferta de estacionamento em Guimarães estará, necessariamente, fundamentada em estudos e dados quantificáveis. Não se percebe porque é que esses dados não são públicos.
Os únicos números que conheço, referentes à utilização da oferta de estacionamento disponível foram divulgados pelo jornal Mais Guimarães, cingindo-se, exclusivamente, ao estacionamento de rua, regulado por parcómetros. Esses dados, à falta de outros, autorizam que se conclua que a oferta de estacionamento disponível supera substancialmente a procura efectiva.
Desconhece-se qualquer informação quanto ao grau de utilização do estacionamento nos parques cobertos. Assim sendo, a única conhecimento de que dispomos é o que resulta do que os nossos olhos vêem. É certo que não será o mais objectivo, mas não temos outro. E o que nos mostra, com a força da evidência, é que, também aqui, a oferta supera largamente a procura. Note-se que estamos a falar de parques que ficam, no máximo, a uma confortável meia dúzia de minutos, a pé, do Toural ou do Centro Histórico.
Um dos argumentos que têm sido esgrimidos para justificar a necessidade de mais estacionamento no centro urbano de Guimarães prende-se com as tão propaladas fragilidades do comércio local, cuja solução seria mais, e mais próximo, estacionamento. Esta ideia de fragilidade resulta de simples observação empírica ou já foram feitos estudos que demonstrem a relação de causa-efeito entre a suposta falta de estacionamento e a tão afirmada debilidade do comércio local?
É que, mais uma vez, não obstante velhas ideias feitas, o que vemos não nos dá assim tantas certezas quanto à natureza da moléstia e à eficácia da panaceia receitada. Olhemos para o que aí está. Se há locais onde o comércio exibe sinais de decadência são os centros comerciais Santo António, Palmeiras e Triângulo. Porém, nos três casos, o que não falta por lá é onde estacionar. Todos têm parques de estacionamento próprios. Maior proximidade deve ser difícil conseguir em qualquer outro local da cidade. E, no entanto…
Outra questão que era importante ser esclarecida é a que resulta de um anúncio recente. Num tempo em que o parque da Caldeiroa já era dado como irreversível, foi anunciado que a Câmara tinha encomendado um estudo de viabilidade da construção de novo(s) parque(s) de estacionamento na Alameda e no Campo da Feira. Tal anúncio gerou perplexidade, instalando uma dúvida: será que se equaciona construir mais estacionamentos, para além do parque da Caldeiroa, ou será que o estudo encomendado visa tentar encontrar uma melhor alternativa para ele?
Há muito que esclarecer, portanto. A começar pelas prioridades de investimento no nosso concelho. Provavelmente, já vai sendo tempo de começar a pensar, de um modo mais consistente e articulado, Guimarães como um todo.
Vivemos um concelho onde há jovens que têm que recusar estágios profissionais por falta de transportes que lhes permitam chegar em tempo útil aos locais onde essa oferta existe. Um concelho onde, pela mesma razão, há pessoas que se vêem obrigadas a recusar ofertas de emprego. Salta aos olhos que Guimarães tem um sério problema de mobilidade em transportes públicos. Não obstante, dispõe-se a investir, na construção de parques de estacionamento, dinheiro público afecto a programas de mobilidade. Ora, salvo melhor opinião, estamos perante um contra-senso gritante. Mobilidade não é sinónimo de estacionamento. É o contrário.
Até que me demonstrem algo diverso, continuarei a defender que Guimarães não carece de investir em mais estacionamento no centro da cidade. Em Guimarães urge pensar o concelho como um todo e a definir políticas e projectos que favoreçam a sua coesão territorial.


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Os padrões de Guimarães, por Jerónimo de Almeida

Padrão da Vitória, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858)

Aos monumentos por onde já passaram as suas Breves considerações arqueológicas (Castelo, Muralha, Paço dos Duques e Igreja da Oliveira), Jerónimo de Almeida ainda acrescentou dois “de somenos importância arqueológica”, na sua opinião: os padrões (Senhora da Vitória e D. João I) e a antiga Casa da Câmara. Reproduzimos agora o primeiro artigo, publicado no jornal Alvorada de 1 de Abril de 1911, dedicado aos padrões. Aí trata do Padrão de D. João I (também conhecido por Padrão de S. Lázaro e Padrão dos Pombais) e do Padrão de Nossa Senhora da Vitória, que celebra a vitória em Aljubarrota, ao qual, apesar dos esforços do historiador de Guimarães Fernando Teixeira, se persistem, erradamente, em chamar de Padrão do Salado. Jerónimo de Almeida não incorre nesse erro, que no tempo dele ainda não tinha sido perpetrado.

Breves considerações arqueológicas — V

Padrões

Dois padrões se admiram em Guimarães e que são igualmente considerados monumentos nacionais, — o de Nossa Senhora da Vitória e o de D. João I.
O de Nossa Senhora da Vitória, situado junto do adro da igreja de Nossa Senhora da Oliveira, fora mandado ali erigir no reinado de D. Afonso IV. É composto de quatro arcos ogivais pousados em colunas com capitéis de folhas e figuras grotescamente esculpidas, encostadas a grossos pilares de cantaria que, em cada ângulo, suportam a abóboda do padrão, tendo no vértice de cada arco o brasão de armas usado por aquele rei. Posteriormente à sua construção colocou-se no arco do fundo, a partir dos capitéis, um altar de estuque, envidraçado, consagrado à imagem da Senhora da Vitória e que comemora também, como a gótica restauração do templo, a famosa vitória de Aljubarrota. Dentro do padrão ergue-se um elegante cruzeiro, para ali transferido no ano de i38o, como se lê numa inscrição gravada na sua haste (M.CC.LXXX), (pois que até então estava fora, junto da antiga oliveira), com o Crucificado e várias estátuas de santos: na frente, de Nossa Senhora, de S. João Evangelista, de S. Dâmaso e S. Torcato; no verso, de Nossa Senhora do Rosário, de S. Filipe Apóstolo e S. Gualter. Tem ainda este cruzeiro na base um escudo de armas portuguesas. Aos lados do altar vêem-se dois baixos-relevos alusivos um à visita de D. João I a este padrão, outro a um milagre atribuído à Virgem e que naquele lugar se dera.
Padrão de D. João I, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858).
O de D. João I acha-se ao fim da rua deste nome, em frente à capela de S. Lázaro, evocando uma das piedosas romagens que, segundo a tradição, este devoto monarca fizera a Nossa Senhora da Oliveira. É formado de quatro pilares quadrados, sem lavores arquitectónicos, em que assenta a abóbada de pedra também e dentro levanta-se o cruzeiro de alvo mármore, com a cruz rendilhada. Este padrão, depois de ter já sido restaurado, foi mudado da pequena distância de alguns metros para o local que actualmente ocupa, em 1863, com o fim de melhorar o alinhamento da rua.
São estes dois históricos padrões, incomparavelmente mais valiosos que quaisquer outros que por aí se ergam, merecedores da nossa desvelada conservação, não pelo significado religioso que representam, mas porque são outros tantos documentos históricos de que honrosamente falam os velhos arquivos desta terra. A luz bruxuleante e mortiça que de noite os alumia parece querer ressuscitar os tempos místicos e românticos da meia-idade, prenhes de crenças, de superstições e tiranias!
Jerónimo de Almeida.

Alvorada, 1 de Abril de 1911
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21 de maio de 2017

A Igreja da Oliveira, por Jerónimo de Almeida (conclusão)

Fachada da igreja da Oliveira (pormenor), numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858).

Na conclusão das Breves considerações arqueológicas que dedicou à Igreja da Colegiada, Jerónimo de Almeida trata, essencialmente, do pórtico e do janelão que o encima, onde, segundo sustenta, faltaria uma “rosácea central de coloridos vitrais, que foi despedaçada e substituída por uma parede de cantaria com quatro óculos de tamanho desigual”. Sobre tal rosácea e os seus vitrais, já muito se escreveu. Ramalho Ortigão, por exemplo, que, tal como Herculano, desancou o restauro da década de 1830, fala numa “flamante janela gótica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia explodir em apoteose a policromia do espelho, emoldurado na sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em fantasiosos ressaltos de mísulas, sob rendilhados baldaquinos”. Ora, até hoje, ainda não tenho nenhuma evidência de que essa “flamante janela gótica”, com “coloridos vitrais”, tenha algum dia existido.

Breves considerações arqueológicas — IV (Conclusão)

Nossa Senhora da Oliveira

Existe num dos lados da porta lateral da esquerda um túmulo antigo assente em dois leões de pedra, com uma inscrição na caixa, como também um outro se oculta atrás do órgão, servindo de base à janela sobre a porta principal, e que representa uma figura deitada sobre almofadas (parecendo esculpido em pedra Ançã) com vestígios muito apagados de incrustações de tinta e ouro, e uma inscrição.
Abandonando, consequentemente, o interior do corpo da igreja, sob cujas guarnições e relevos correctamente dourados não imaginaríamos sequer, se o não soubéssemos de antemão, que se ocultam tantos primorosos lavores arquitectónicos, apenas nos resta analisar a fachada da mesma igreja, que nem essa! escapou à vandálica reforma.
Num relance de vista geral notar-se-á logo a deformação do cunhal do lado sul, que fora rematado com uma pilastra jónica, modificando assim exteriormente a estrutura primitiva dessa fachada.
O pórtico é composto de esbeltas colunas fechadas em arcos ogivais, coroado por uma grande e delicadíssima janela toda rendilhada, com esculturas, mísulas e baldaquinos, servindo de caixilho à rosácea central de coloridos vitrais, que foi despedaçada e substituída por uma parede de cantaria com quatro óculos de tamanho desigual. Eis um dos maiores crimes praticados naquele monumento, sendo o primeiro que resulta aos olhos de quem , e um dos que cava mais fundo desgosto. Dessas janelas, que são um dos primores ornamentais da arte gótica, tínhamos ali um raro exemplar que se poderia equiparar aos dos templos portugueses, nesse estilo (como alguns que nomeei), ou ainda às formosíssimas rosáceas de Notre Dame, de Amiens, de Chartres e de Reims (França), de Estrasburgo, de Colónia (Alemanha), e outras mais. Interiormente foi atrancada com o pesado órgão.
As portas laterais são encimadas por janelas de sacada, que igualmente não são da restauração de D. João I, sendo as do sul as mais modernas.
Adulterada completamente a antiga construção na harmonia subtil das suas linhas de conjunto, ficou unicamente para a... decepção de vindouros a desastrosa e nunca assaz deplorada reconstrução do século XVIII [aliás, século XIX - AAN].
Resta, somente, falar da torre que se ergue a noroeste da igreja e que fora mandada edificar por Pedro Esteves Cogominho e sua mulher (1513), não sendo a do tempo de D. João, pois que essa caíra em ruínas. É nos baixos dela que sob uma abóboda de pedra se encontram os túmulos de seus fundadores, lavrados em pedra de Ançã, com duas características estátuas jacentes, em trajes de gala, no costume da época, tendo à cabeceira um altar. Hoje acha-se escorada a abobada desta capela, que já se desmoronou em grande parte, destruindo os preciosos mausoléus!
Ao ilustre cabido da Colegiada, a quem certamente cabe velar pela conservação destas relíquias antigas, aproveito o ensejo de dirigir aqui as minhas palavras de magoado protesto pelo irreparável desleixo cometido, causa de que dentro em pouco não reste mais dessa capela do que um montão de entulho! É necessário que nem todos os olhos sejam cegos diante deste solene desprezo por obras de arte de valor histórico, chegadas ao mais adiantado estado de ruina.
Não é a minha erudição, sem dúvida, (seria desvanecimento), que vem lamentar este enorme desastre, mas a minha veneração por essas interessantes jóias do passado.
E para terminar este sucinto e ligeiro trabalho de tão minguado préstimo, exclusivamente inspirado no amor à minha terra, devo repetir e de novo esclarecer que não foi meu intento mais que despertar o sentimento de apreço e dedicação por estas relíquias antigas, como são as de que vim tratando, e que um crime e condená-las ao esquecimento e abandono de que resulta a ruína.
O meu desejo seria poder antever, ainda que num futuro distante, o ressurgimento artístico de Nossa Senhora da Oliveira; mas em vez de palavras de entusiasmo eu não encontro senão palavras de descrença e desilusão, e amarguradamente penso que isso — era uma verdadeira utopia...
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 18 de Março de 1911


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20 de maio de 2017

A Igreja da Oliveira, por Jerónimo de Almeida

A igreja da Senhora da Oliveira de Guimarães no início do séc. XX. Na parede da torre, ainda são visíveis as marcas do antigo fontanário, desmontado em 1904.

Prosseguindo com as suas Breves considerações arqueológicas, Jerónimo Sampaio dedicou dois textos à igreja de Nossa Senhora da Oliveira, a Colegiada. No primeiro, que agora reproduzimos, publicado no jornal Alvorada de 11 de Março de 1911, aborda a história do monumento e das reconstruções e restauros de que foi objecto ao longo dos séculos, dando especial ênfase ao seu desamor pela “vandálica reforma” a que o Cabido mandara proceder na década de 1830, e que Alexandre Herculano disse ser obra da “torrente de barbária que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer”, que tinha emparedado a identidade gótica da igreja, recobrindo-a com mármores fingidos e dourados, de que se livrou no restauro do início da década de 1970.

Breves considerações arqueológicas — IV

Nossa Senhora da Oliveira

O vetustíssimo templo erguido pela condessa Mumadona no ano de 919, proximamente, anterior, portanto, à fundação da nacionalidade portuguesa, foi sucessivamente reconstruído e beneficiado elo conde D. Henrique e seu filho D. Afonso, apesar das vicissitudes por que passou com os assaltos guerreiros de sarracenos e muçulmanos que, por duas vezes, o despojaram de preciosas relíquias, até ao reinado de D. Joao I, o qual, em comemoração da celebrada batalha de Aljubarrota, o mandou restaurar com sumptuosidade não inferior à do mosteiro da Batalha, em 1387. Assinala esta grandiosa restauração do monarca uma inscrição em pedra mármore, com caracteres góticos, no frontal da igreja, ao lado da porta principal e que está traduzida em caracteres latinos numa outra pedra sobreposta, ambas coroadas pelo escudo desse rei, sustentado por dois anjos.
Este templo que primitivamente era conhecido por Santa Maria de Guimarães foi lhe alterado o nome para Santa Maria da Oliveira, no ano de 1031, sendo tradição que a derivação deste título proveio de que nos começos do século XIV fora trazida de S. Torcato uma oliveira que se plantara junto da igreja e que secando a princípio, subitamente reverdecera, copando se de novas folhas, o que foi tido como um milagre, ligando-se assim o nome da árvore ao do Senhora a quem era consagrado o templo.
Conquanto a obra ordenada por D. João não atingisse o esplendor artístico da Batalha, antes fosse muito inferior, o certo é que a igreja por ele restaurada gozou dum grande prestígio entre as demais do país, constituindo mais uma bela manifestação desse primoroso estilo gótico, que na Idade Média levou ao apogeu a arquitectura ocidental.
Antes de entrar no estudo e apreciação da obra desse glorioso fundador, convém elucidar da vandálica reforma a que nos anos de 1830 mandou proceder o cabido, alegando que a fábrica da igreja ameaçava ruína.
Estava no espírito da época destruir o gracioso e rico estilo gótico — considerado bárbaro desde o período da renascença, até princípios do século passado, como o significa o próprio Rafael ao Papa Leão X — substituindo-o pelo clássico Luís XVI. Só posteriormente se reconheceu o merecimento artístico desse formoso estilo, que também se denominou ogival, pela forma lanceolada de seus arcos árabes, mas quando já enormes desastres, como este, se haviam cometido.
Vista parcial da nave central da igreja da Oliveira. À esquerda, como ficou depois do restauro da década de 1830. À direita, após o restauro de 1970-71, que devolveu o monumento à sua traça original. 

Procurando, pois, com o olhar torturado, destrinçar a obra arquitectónica do século XIV, da desastrosa restauração dos fins do século XVIII [aliás, década de 1830 - AAN], ir-se-ão pouco a pouco desvendando os irremediáveis e profundos golpes que o templo sofreu externamente, porque internamente não nos é dado sequer entrever as mutilações selvagens que lhe infligiram com o camartelo, para o cobrirem de madeira e cal!
Começando, assim, pela análise do claustro românico que corre ao lado da igreja, de nascente a sul, e que data do século XIII. anterior ainda à reedificação do Mestre de Avis, notar-se-á que se compõe de elegantes, embora pequenas, colunas, de curiosos e variadíssimos capitéis, com estilizações de folhas, espigas e carrancas. No grosso das paredes são abertos vários túmulos, entre os quais um maior tendo uma estátua jacente, com o hábito talar em que costumavam ser esculpidas. Existem ali duas capelas, uma de S. Brás, com o tecto abobadado e dois mausoléus também com estátuas de pedra (estando um deles tapado pelo altar!); e a de S. Pedro com porta e janelas de cada lado, formadas em arco, sendo estas de graciosos colunelos geminados.
A ligeira reparação que há poucos anos realizaram nesses claustros foi não só incompleta mas imperfeita, — pois que deixaram toda a cal que cobre as paredes, como também um friso de madeira imitando pedra que as guarnecem; um retábulo de madeira num dos túmulos que servira de altar; e cimentaram, enfim, o pavimento que devia ser lajeado!
Passando daqui ao interior da igreja, vê-se que é formada de três espaçosas naves divididas por altas colunas que deveriam ser lindos espécimes góticos, na folhagem de seus capitéis e elegância de suas ogivas, o que tudo foi mascarado e mutilado, sem dúvida, pela infeliz restauração no estilo da época, que, aliás, obedeceu a uma correcta factura. São-nos vedados, portanto, todos esses primores de arte, de que pelo país existem alguns exemplares como o mosteiro da Batalha e de Alcobaça, a Sé de Évora, etc., entre os quais estava incluída a nossa Colegiada. Também devem ter desaparecido os azulejos, representando milagres da Virgem, que revestiam as paredes porque, enfim, a obra de reconstrução foi completa, transformando o precioso templo medieval na igreja modernizada e dourada, que é a amargurada decepção dc todos aqueles que admiram e veneram as coisas de arte.
Jerónimo de Almeida

Alvorada, 11 de Março de 1911
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19 de maio de 2017

O Paço dos Duques, por Jerónimo de Almeida

Fachada  do lado do Poente do Paço dos Duques (à direita), no início do século XX


O terceiro capítulo das Breves considerações arqueológicas de Jerónimo de Almeida trata do Paço dos Duques de Bragança, tal com o ele o conhecia no início da segunda década de 1920: as ruínas de um palácio que nunca acabou de ser construído e que ia servindo de aquartelamento militar, cujo corpo voltado para o lado do nascente, com os seus magníficos janelões góticos, permanecia como a memória do que aquele edifício poderia ter sido, mas que nunca chegou a ser. As fotografias que escolhemos para ilustrar esta incursão arqueológico ajudam a perceber a realidade que Jerónimo de Almeida descreve.

Outra vista da fachada  do lado do Poente do Paço dos Duques, no início do século XX


Breves considerações arqueológicas — III

Paço dos duques de Bragança

Data do século XIV este agigantado e sólido edifício que fora mandado construir pelo primeiro duque de Bragança D. Afonso, filho do rei D. João I, e que em diversas gerações foi a nobre residência desses legítimos fidalgos.
Tendo servido de aquartelamento a vários corpos militares desde o ano de 1807, deu este facto origem a sucessivas e, por vezes, profundas reformas no vasto edifício, lesando assim quase totalmente a primitiva construção, restando, todavia, intacta e em estado de ruínas a mais bela parte dele.
A geral crueza de linhas e o aspecto desataviado de arquitectura que reveste as suas paredes não traduz, certamente, o luxo interno de que se deviam cercar esses grandes senhores da meia-idade.
Este palácio formado em quatro corpos, tendo ao centro um largo pátio, apresenta no frontal interior do corpo que olha para nascente um lindo pórtico composto de oito colunatas de mármore branco, sob graciosos capitéis em que assentam os respectivos arcos de ogiva, e ligava outrora com outras dependências que foram destruídas e ocupavam esse pátio. Dentro e logo defronte deparam-se os formosos janelões que, como o pórtico, representam uma delicada manifestação de estilo gótico.
Era ali a casa nobre desses paços, onde se davam brilhantes recepções a soberanos portugueses. Não é de estranhar, portanto, que fosse ordenado no artífice estilizar a frieza do granito em contornos floridos e esbeltos naquelas janelas, através de cujos vidros se coariam ondas claras e aniladas de luz que banhariam esses ricos aposentos.
A fachada exterior desta parte do edifício é constituída de três corpos salientes e dois reentrantes, rematando os das extremidades grandes cachorros que sustentavam largas varandas. Coroam estas paredes quatro chaminés de tijolos bem conservadas ainda e dispostas simetricamente.
Fachada do lado do Nascente do Paço dos Duques, no início do século XX. Em primeiro plano, casas da antiga rua de Santa Cruz.
Por dentro da parede que defronta com o pátio sobem estreitas escadas que davam acesso aos diversos andares (cujos pavimentos deixaram escritos vestígios nessas paredes) estando hoje, em parte, obstruídas. Na fachada para nordeste restam também algumas janelas que deviam ser o modelo das restantes de todo o edifício e que foram alteradas.
Porque esta é, realmente, a parte mais interessante e artística do velho palácio, para ela dirigi de preferência a minha atenção e aqui manifesto o meu desejo, por amor da arqueologia desta terra, — de que se poupe às reformas utilitárias e de lesa-arte, porque é um documento raro, entre nós, do florescente estilo gótico.
Essas contínuas e sensíveis modificações que sofreu este edifício, como já referi, não nos permitem actualmente fazer uma nítida ideia do que fosse primitivamente, na sua completa estrutura, apenas nos deixam entrever que ele era de proporções mais grandiosas do que se encontra. As esguias escadas em espiral do corpo de sudoeste são mais um curioso motivo de interesse. Pouco resta de original dentro deste; as necessidades da vida de caserna transmudaram inteiramente todo aquele enorme interior, aproveitando lhe unicamente as paredes de robusta espessura.
Contudo, a sobriedade, que era o característico deste palácio, patenteia-se perfeitamente e não será fácil mesmo apear pedra a pedra tão sólida construção!
Jerónimo de Almeida.

Alvorada, 4 de Março de 1911
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18 de maio de 2017

A muralha, por Jerónimo de Almeida

A muralha de Guimarães no início do século XX.

No segundo texto das suas Leves considerações arqueológicas, publicadas no jornal Alvorada, no início de 1911, quando a República portuguesa ainda estava a dar os seus primeiros passos, Jerónimo de Almeida debruça-se sobre o que ainda sobrava da muralha dionísia, que se ergueu para cercar e proteger o burgo medieval vimaranense. Um texto que é um precioso testemunho da consciência da importância da preservação do património histórico, que já naquele tempo prevalecia em Guimarães, e que não dava grandes concessões ao advento da mentalidade supostamente modernizadora que, noutras paragens, ia dando uso ao camartelo para derrubar tudo que era velho e inútil.

Breves considerações arqueológicas — II

Os muros da cidade

Desse antigo cinto de muralhas erguidas pelo rei D. Dinis e que outrora apertavam o casario do burgo de Guimarães, raros vestígios existem hoje de pé que nos possam descrever a linha que seguiam. O único trecho visível delas ainda, ladeia a estrada de Fafe desde o campo da Feira à ura de Santa Cruz, e é digna de notar-se a sua bela conservação. A porta que há tempos lhe abriram foi um sinal de alarme para a velha construção, estimulando novos vandalismos! Poupe-nos o município de Guimarães, lembrando-se que do passado é um nobre dever conservar memórias; compreendo que esses muros não têm utilidade prática, mas utilidade histórica, e em nada prejudicam o moderno aformoseamento da cidade, antes são um contraste pitoresco. Arrasem aqui o que de antigo e curioso perdura e veremos a cidade reduzida a meia dúzia de casas sem arquitectura nem elegância, numa esquadria monótona. De moderno só possuímos, que se recomende e de subido valor — o edifício da Sociedade Martins sarmento. Nada mais.
E esta forte razão vem secundar ainda a primordial — que é a razão arqueológica de se proceder a uma desvelada conservação e restauração da arte antiga nos monumentos ou qualquer padrão menos valioso, mas igualmente testemunho duma época histórica. Cumpre, portanto, como sagrada devoção de patriotismo, não derrubar esse curto trecho de muralha que aí ressurge [de] lutas heróicas e sangrentas.
Idêntica reconstrução àquela que aconselhei falando do castelo, devia efectuar-se nestes muros, desnudando as suas ameias da caliça e pedra que encobrem muitas delas, e assim melhor ressalte a sua beleza, quando à distância essas ameias de granito semelham o gume dentado duma serra.
Para fazer se uma vaga ideia do que outrora fosse, completamente intacta, essa arrogante defesa da vila, basta lembrar a área que percorria o pano dos seus muros, partindo do lado sul do castelo pela rua de Santa Cruz abaixo, estrada de Fafe, Trás-o-Muro até ao Toural (onde no alto dos quais o povo desfrutava as corridas de toiros que fora se exibiam, então), rua de Santo António, estrada dos Palheiros acima até se ligarem de novo pelo lado do poente com o castelo. Tinham umas nove portas e vários torrilhões e de dentro deles se fazia a defesa da vila, como tão heroicamente o provaram esses portugueses coevos do princípio da nacionalidade, na Idade Média.
E para que se ateste sempre ufanosamente — berço da pátria portuguesa, esta linda terra — é necessário e indispensável que esses raros documentos ancestrais ainda hoje vigentes, embora em estado de ruína, se conservem e se venerem, porque Guimarães, mesmo com verdejantes jardins e airosas ruas, terá sempre que considerar-se, pelo seu carácter predominante, não uma cidade moderna geometricamente delineada, — mas uma cidade caracteristicamente medieval, do tempo dos grandes senhores do feudalismo, descendentes directos dos cruzados, com o seu alcácer, o seu templo gótico, as suas casas brasonadas e os seus alpendres...
E não se depreenda que eu sou um amante de velharias, um ingénuo bricabraquista armazenador de alfarrábios com capa de pergaminho, loiça barata da Índia e jóias falsas de filigrana... Pretendo unicamente que se respeite a arqueologia da minha terra, no culto da Arte, como este povo amava e ama ainda os seus ídolos e os seus santos...
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 18 de Fevereiro de 1911

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17 de maio de 2017

O Castelo, por Jerónimo de Almeida

O Castelo de Guimarães no início do século XX
 No início de 1911, Jerónimo de Almeida publicou no jornal republicano vimaranense Alvorada, uma série de textos com o título genérico Breves Considerações Arqueológicas, em que descreveu diversos monumentos de Guimarães, dando diversas sugestões para os procedimentos a aplicar para a sua preservação. Estas estas prosas do poeta das Estrelas que se apagaram são muito interessantes. No entanto, se outro interesse não tivessem, são bons retratos do estado em que se encontravam no início do século XX os documentos de que trata.
O primeiro monumento sobre o qual Jerónimo de Almeida se debruçou foi, naturalmente, o castelo de Guimarães. Aqui fica.

Breves considerações arqueológicas — I

Castelo

O vetusto castelo de Mumadona, que sendo depois propriedade do Conde D. Henrique o herdara o nosso 1.º rei, no estado actual em que se encontra assim tem atravessado longos anos de vigorosa existência, sob as agrestes inclemências atmosféricas.
A sua ruína, portanto, é relativamente pequena visando a sua antiguidade.
Contudo, encontrá-lo-íamos mais conservado e completo se (como diz o Padre Caldas no Guimarães) grande porção de pedra que fazia parte do paço não fosse aplicada na construção do convento dos Capuchos, nos anos de 166..., por vandalismo dos seus frades. Este facto profundamente deplorável ainda nos deixou, para memória, a parede exterior que liga com as muralhas e onde existem as simples janelas romanas, com uma coluna ao centro e assentos de pedra interiores.
O estado do mais, conforme se encontra, não parece ameaçar derrocada, tão extraordinariamente sólida era aquela monumental construção de pesado granito! A sua original beleza perdura e perdurará através de muitas gerações, se o nosso desvelo e amor pelas preciosas relíquias do passado nos não abandonar. Elias encarnam um feixe de tradições e são um símbolo de glórias, e à face delas conseguimos desvendar os mistérios que obscurecem, por vezes, o heroísmo de nossos antepassados. Conservá-las, por isso, é, além dum dever patriótico, uma revelação de apreço à arte e à história, ou, sintetizando — à arqueologia.
Mas não devemos apenas contentar-nos em contemplar a graciosa silhueta das suas torres esbatidas nos cambiantes de fogo dum crepúsculo outonal, e sim devemos visitar temporariamente esse castelo roqueiro, como quem se interessa pela saúde duma pessoa idosa. Amemo-lo como berço do fundador da nossa querida Pátria e como a mais rara preciosidade da nossa terra, porque é o maior titulo de orgulho que nós indicamos aos visitantes, o melhor brasão de nobreza da heráldica de Guimarães.
E eu não pretendo mais que atear na alma de todos os meus patrícios esse afecto e esse carinho pelo que nos legou o passado épico. Não basta conhecer a História, é necessário amá-la; como? — cuidando dos padrões que ela imortalizou. Se deixássemos desmoronar-se esse velho alcácer num montão de escombros silenciosos, todo esse período longínquo se ofuscaria na nossa memória e em breve duvidaríamos das afirmações históricas que lhe dizem respeito. Até a letra da mesma história apenas narraria, aos nossos olhos, uma vaga lenda de inacreditáveis proezas guerreiras, e o próprio D. Afonso passaria talvez a ser uma espécie de D. Quixote, mais corajoso e menos fantasista...
Evocar, nessas ruínas pitorescas, uma época remota, é receber uma lição emocionante dos tempos medievais, dando-nos a conhecer, cronologicamente, esta intensa e constante evolução social — material e moral.
Eu simplesmente quero frisar, de passagem, (tão pouco permite-o bem a minha erudição) quais as reparações ou reconstruções que há a realizar naqueles muros que, pelo andar dos tempos, vários arquitectos têm adulterado. Basta-me, para isso, uma fácil percepção que indica o seguinte:
— Tirar dos vãos das ameias, sobre as muralhas, a argamassa que as encobrem em parte, desvanecendo-lhes a graça; destruir uma pequena casa contigua ao paço e edificada sobre o adarve, que a alguém pode suscitar dúvidas na sua origem, pois que tentaram imprimir-lhe o carácter da antiga construção, nas portas em arco; mudar o paiol da pólvora dali para fora, alagando igualmente a casa que a guardava; limpar, finalmente, tudo o que esteja mascarando o antigo monumento na sua primitiva forma.


O paiol do antigo Regimento de Infantaria 20, no Castelo.
Seria ingenuidade desejar uma nova vida ao que o tempo enrugou; isto equivaleria a querer infiltrar o vigor dos 20 anos a um velho de 80. Restitua-se-lhe unicamente a sua originalidade, sem profanar o mais, e esta é uma obra bem singela.
A escada interior da torre de menagem foi renovada completamente, podendo-se, portanto, subir ao alto dela e desfrutar o soberbo panorama.
Conquanto isto se não prenda com estas leves considerações, não me posso esquivar à tentação de repetir uma vez mais, o que por outros tem sido proclamado, de que um belo melhoramento da Câmara seria arrasar esses míseros casebres que circundam o castelo, fazendo assim com que ele ressaltasse em toda a sua esplêndida nudez, sobre as rochas que lhe servem de poderosos alicerces. Esta obra exterior viria completar a interior que eu venho aconselhando, impondo-se desde logo. Não desespero, contudo. Mas quando este melhoramento se realize, inste a nossa Câmara junto do Ministério da Guerra para que este outro, dentro do monumento, se efectue a par e, assim, a obra seja completa. É questão de um pouco mais de amor à terra. E porque esses monumentos são a documentação viva da história e a factura artística dum povo, esta demonstração de acrisolado culto será apenas uma justa prova de patriotismo, num novo aspecto.
Como esses cacos e inscrições lapidares que sábios, escavando no solo, descobrem e que vêm aclarar os espíritos nas investigações das eras romanas, quando esses povos atravessavam a península espalhando as sementes duma civilização que brilhara na Guerra, na Conquista e no Direito, — assim em tempos posteriores, que as cruzadas à Terra-santa precederam, essas ruinas, ainda tão expressivas, nos vêm renascer o século XII do princípio da nossa nacionalidade, com o seu aspecto denegrido, como bronze, e a sua hera ramalhetando-o.
Têm aparecido nos terrenos adjacentes ao castelo, no sítio dos fossos, várias moedas que eu tive ocasião de ver, e nalgumas das quais se distingue o escudo das quinas, uma cruz, e numa delas apenas os algarismos 80, de que se pode deduzir o ano 1080. Devia-se, por este motivo, proceder a uma cuidadosa escavação nesses fossos hoje soterrados, e as moedas ou utensílios descobertos entregá-los à Sociedade Martins Sarmento.
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 11 de Fevereiro de 1911
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