19 de novembro de 2017

O Museu Industrial de Guimarães (1)

Avelino da Silva Guimarães
Em 1881, o Estado português promoveu um inquérito industrial que teve como objectivo fazer o ponto da situação das indústrias portuguesas. Dos resultados do trabalho das comissões designadas para inventariarem o estado das indústrias do país, pode-se dizer que ficaram muito aquém do pretendido, traçando um retrato muito incompleto e irregular do estado das indústrias nacionais. Aliás, não seria de esperar outro resultado, já que os inquiridores apenas tiveram três meses para proceder às inquirições e apresentar as suas conclusões. No que toca ao concelho de Guimarães, a informação que se encontra no relatório é particularmente escassa e pouco sistemática, fazendo um retrato das indústrias vimaranenses que estava muito longe de corresponder à realidade já então existente. Foi para mostrar a verdadeira face do tecido industrial vimaranense que a Sociedade Martins Sarmento promoveu, em 1884, uma grande exposição industrial concelhia que ficaria a marcar um ponto de viragem no panorama económico, social e cultural de Guimarães.
Em de 1884, sob impulso da Sociedade Martins Sarmento, Guimarães começa a transpor, finalmente, os muros que a apartavam da modernidade. A indústria local entra na sua fase mais florescente, com fortíssimos investimentos em novos ramos de actividade e na modernização dos já existentes. É neste contexto que, ainda naquele ano, surge a ideia de criar um museu das indústrias locais, cujo conceito não encaixa bem na ideia que hoje temos dum espaço museológico, enquanto repositório de monumentos de existências extintas ou em vias de extinção. Este museu, em vez de um repositório de ferramentas e de produtos de modos de produção obsoletos, deveria assumir-se como uma exposição industrial permanente, onde se fosse mostrando o que de mais importante e de mais avançado se produzisse em Guimarães, em cada momento.
Encerrada a Exposição Industrial de 1884, diversos industriais que nela exibiram os seus produtos ofereceram à Sociedade Martins Sarmento diversos objectos que tinham estado expostos. No dia 4 de Julho daquele ano, o presidente da direcção daquela instituição, Avelino da Silva Guimarães, propôs que aquelas ofertas fossem conservadas, constituindo-se com elas o núcleo inicial dum futuro museu de indústrias de Guimarães. A proposta ficou registada na acta da reunião em que foi apresentada, e que foi publicada na Revista de Guimarães daquele ano (páginas 204-205), de onde a transcrevemos: 
Vários e mui distintos expositores têm prestado a sua espontânea homenagem à Sociedade Martins Sarmento, oferecendo-lhe alguns dos objectos expostos no palacete de Vila Flor. Decerto que a Sociedade os aceita com vivo reconhecimento, porque, se a homenagem traduz as simpatias dos expositores pela corporação que tem empregado todos os possíveis esforços para o melhoramento da indústria vimaranense, por uma série ininterrupta de medidas, de iniciativas mais ou menos arrojadas, até à abertura da Exposição, que pareceu a mais arrojada de todas, a oferta, reveladora das simpatias e do motivo que as provoca, é o melhor prémio aos esforços colectivos desta corporação.
A jornada da Sociedade não terminou ainda: é longo o caminho a percorrer, que no capítulo de instrução popular a satisfação duma aspiração logo cria outra, um aperfeiçoamento produz novas aspirações. Entre estas, virá a da criação de um museu industrial, onde a exposição permanente seja uma escola de largo ensinamento para as diversas classes de indústria. Sendo assim, e sendo aquelas ofertas a expressão de homenagem, os brindes valiosíssimos dos expositores parece-me que é absolutamente indispensável conservá-los, considerando-os como o primeiro núcleo, o primeiro e valioso pecúlio de futuro museu. Sobre isto, acresce que conservar na casa da Sociedade os objectos oferecidos é conservar o troféu desta última campanha, que condensa tantíssimos esforços, tão assíduos estudos, tantos serviços, trabalhos e despesas, prestados por esta colectividade no curto período da sua existência em prol do melhoramento das classes industriais de Guimarães.
Sendo, pois, não só o mais levantado e digno, como o mais conveniente aos fins legais da Sociedade, a conservação dos objectos oferecidos, tenho a honra de propor que assim se delibere, e se participe, agradecendo, aos mui dignos oferentes.

Os objectos entregues pelos industrias vimaranenses à Sociedade Martins Sarmento em 1884 foram colocados numa das salas da casa da instituição, como informa o relatório da direcção referente ao ano de 1885, onde se lê:
Noutra sala encontrareis também o pequeno pecúlio de produtos e amostras industriais do concelho, ofertas de alguns expositores de Vila Flor, negociantes e industriais deste concelho. Este depósito não constitui nem sequer um começo de museu; constitui apenas um convite a futura criação de museu industrial, revela somente uma aspiração desta Sociedade.
[Continua]
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18 de novembro de 2017

Guimarães na Exposição internacional do Rio de Janeiro de 1922-1923

O Pavilhão das Indústrias Portuguesas na Exposição Internacional do Centenário da Independência, Rio de Janeiro, 1923

A grande Exposição Internacional do Centenário da Independência, Rio de Janeiro, 1922, abriu as suas portas no dia 7 de Setembro de 1922. Naquela data, dos catorze países participantes, apenas cinco tinham os seus pavilhões concluídos. Entre estes estava Portugal, que marcaria presença com dois pavilhões. O principal, o Pavilhão das Indústrias Portuguesas, desenhado pelos arquitectos Guilherme Rebelo de Andrade, Carlos Rebelo de Andrade e Alfredo Assunção Santos, foi implantado no princípio da actual Avenida Churchill, fazendo esquina com a Avenida Presidente António Carlos. Os principais elementos que foram utilizados na sua construção foram preparados em Portugal, sendo transportados de barco até ao Rio de Janeiro. O encerramento da exposição estava inicialmente previsto para o final de Março de 1923, mas foi adiado para Julho, por força do atraso da abertura de boa parte dos pavilhões que estavam previstos. A inauguração do Pavilhão das Indústrias Portuguesas teve lugar no dia 21 de Maio de 1923. seria desmontado em 1929 e voltaria a atravessar o oceano, fazendo a viagem de regresso a Lisboa, onde foi reconstruído para acolher a Grande Exposição industrial Portuguesa de 1932. Em meados da década de 1940, passou a receber espectáculos desportivos, com a designação de Pavilhão dos Desportos. Em 1984 foi rebaptizado com o nome do primeiro atleta português que alcançou uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos. É o Pavilhão Carlos Lopes.
A indústria vimaranense marcou presença a Exposição Internacional do Rio de Janeiro de 1922, com destaque para quatro produções de Guimarães que foram distinguidas com medalhas de ouro: as fotografias artísticas da Foto-Eléctrica-Moderna, de Domingos Alves Machado, da Avenida Cândido dos Reis (actual D. Afonso Henriques), as fábricas de cutelaria Silva 5, de José Francisco da Silva, do Miradouro, e Moura 35, de José Ribeiro Moura, de Creixomil, e os couros e curtumes de José António de Castro, da rua de Couros.
Páginas da Ilustração Portuguesa n.º 905, sobre a inauguração do Pavilhão da Indústria Portuguesa na Exposição do Rio de Janeiro.
Da presença vimaranense na grande Exposição Internacional do Rio de Janeiro   de 1922-1923 encontrámos notícia no jornal vimaranense Gil Vicente, de 21 de Outubro de 1923:

As indústrias vimaranenses na Exposição do Rio de Janeiro — Prémios de honra 
No grandioso certame que foi a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, realizada por ocasião do centenário da Independência e a que concorreram as indústrias da nossa terra foram premiados os seguintes expositores vimaranenses. 
Domingos Alves Machado, proprietário da Foto-Eléctrica-Moderna, classificado fotografia artística, —medalha de ouro.
José Francisco da Silva, cutelaria marca 5, com fábrica no Miradouro, —medalha de ouro.
Joaquim Ribeiro Moura, cutelaria marca 35, — medalha de ouro.
José António de Castro Guimarães, couros e pedes curtidas —medalha de ouro.
Estas justíssimas classificações são o orgulho maior dos nossos Industriais que, na Exposição Industrial e Agrícola Concelhia, mostraram ao país o valor da nossa terra de nobres tradições históricas e de trabalho.
Dove ser um estímulo a prosseguir na obra encetada, para bom nome de Guimarães e para maior expansão das nossas indústrias.
O “Gil Vicente” saúda os industriais premiados.
Gil Vicente, Guimarães, 21 de Outubro de 1923

No seu estudo sobre Guimarães nas Exposições Nacionais e Internacionais ("Curiosidades de Guimarães", XV, Revista de Guimarães, n.º 63, 1953, p. 428), apenas indica os prémios atribuídos aos industriais de cutelarias (registando que a medalha atribuída à firma Silva 5 seria de prata, e não de ouro, o que está conforme com o que se lê no Jornal das Taipas, de 25 de Outubro de 1923), nada dizendo acerca da restante representação vimaranense no certame do Rio de Janeiro de 1922-1923.
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17 de novembro de 2017

As árvores morrem de tristeza?

A fotografia de cima foi tirada no dia 19 de Abril deste ano; a de baixo é de hoje. As diferenças ferem o olhar. Do verde intenso da mancha de arvoredo que cobria o lado esquerdo da paisagem, quase nada se salvou — sobrou (até ver?) um par de árvores que, aparentemente, tiveram a fortuna de crescer fora da área de recreio da lagarta amarela que está a destruir o interior do quarteirão da Caldeiroa. Mas o que mais impressiona é a majestosa palmeira que compete em altura com a torre da Basílica de S. Pedro e espreita o Toural por cima de uma casa que, respeitosamente, se inibiu de crescer para não lhe tapar a vista. Viçosa na Primavera, está doente neste Outono. A morrer. Será que as árvores também morrem de tristeza?

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Cidade Super Bock.

Trecho da Avenida D. Afonso Henriques, Guimarães, às 11 horas da manhã do dia 17 de Novembro de 2017.
Nos últimos tempos, por força das sucessivas notícias de títulos, prémios, medalhas e distinções que a cidade tem recebido, tenho lido e ouvido associações de Guimarães à Super Bock, a cerveja que já não tem gargalo para tantas medalhas. A fotografia que acompanha este texto trouxe-me à memória essa associação, embora aqui ela seja menos simbólica e mais literal. A fotografia tirei-a agora mesmo, mas podia ter sido tirada ontem ou no dia anterior. Retrata um pequeno trecho da avenida Afonso Henriques e o que mostra pode ser visto por qualquer um, incluindo os muitos visitantes e turistas que descem dos hotéis ou da estação do caminho-de-ferro em direcção ao relicário onde se guarda o Centro Histórico, Património Mundial.
Já várias vezes, por diferentes vias, chamei a atenção para a falta de zelo na limpeza de ruas que ficam fora da redoma que protege o Centro Histórico. Outros têm feito o mesmo. Até porque várias dessas chamadas de atenção foram feitas de viva voz a quem tem responsabilidade nesta área, sei que chegaram ao conhecimento de quem as deveria conhecer. Infelizmente, tenho a registar que não produziram qualquer efeito.
Noto que nesta rua, todas as madrugadas, em hora incerta, se fazem escutar os famigerados sopradores, dos quais muito me tenho queixado, tendo mesmo formalizado uma queixa, que ficou registada na Polícia Municipal, da qual, passados dois anos, continuo à espera de resposta. Acordaram-me esta madrugada e nas madrugadas anteriores. A eficácia da limpeza que realizam é a que está patente na fotografia. Tanto barulho para nada.

(E não me venham dizer que não há outra maneira de limpar esta rua, 
onde há muito tempo que não passa a vassoura que, agora mesmo, varria a rua da Liberdade.)
Na campanha eleitoral, o presidente-candidato, agora reeleito, fez demonstrações solenes do seu comprometimento com as questões ambientais e apelou ao envolvimento dos cidadãos na construção de um futuro mais verde. Disse:
Desejo muito que cada vimaranense seja em Ecocidadão. Cidadãos de pleno direito, participativos, interventivos, críticos e com uma forte sensibilidade ambiental. Um defensor do ambiente é um defensor da sua terra, da sua identidade e da sua história.

Já vai sendo tempo de demonstrar que esse comprometimento é consequente e não apenas uma expressão da vã retórica tão frequente em tempo de caçar votos.

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16 de novembro de 2017

Cabelo aos calvos.


O bálsamo Mootcy prometia um verdadeiro milagre e andou nos jornais nas décadas de 1900 e 1910. Com um a única porção fazia “nascer cabelo aos calvos e barba aos sem ela em 20 a 24 dias”. Quem o vendia, comprometia-se a devolver ao comprador o dinheiro que gastou na sua aquisição (e, “se isto não for verdade”, prometia indemnizar o comprador com uma importância que multiplicava por 120 o dinheiro que ele havia gasto). Era enviado de um estabelecimento com morada em Munster Square, Londres (“o maior e o mais importante estabelecimento da especialidade na Europa”), embora noutras versões do anúncio a venda seja feita a partir de uma morada na Ditmar Koelster, em Hamburgo (também “o maior e o mais importante estabelecimento da especialidade na Europa”), ou de um outro em Holmens Kanal, Copenhaga, que seria representada pela Firma Ferreira & Ferreira, Succ., da Rua da Prata, em Lisboa. Infelizmente, perdeu-se o rasto a tão prodigioso produto, cuja receita faria, nos tempos que agora correm, a fortuna de quem a possuísse.
O anúncio que aqui se reproduz foi recortado das páginas da edição de O Comércio de Guimarães de 13 de Junho de 1905.


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15 de novembro de 2017

Do ser e do(s) parecer(es) ou o estranho caso do parque da Caldeiroa.


A destruição do miolo do quarteirão da Caldeiroa-Camões segue imparável. Assim também seguem as interrogações e as perplexidade de quem, por mais que tente, não consegue perceber a razão de ser desta destruição.
Proponho agora uma (re)leitura dos documentos que a Câmara Municipal de Guimarães, muito a contra vontade, divulgou no final de Outubro. Pode ser enfadonha, mas será muito instrutiva, acreditem. O processo é sinuoso e labiríntico, podendo ser comparado a uma espécie de puzzle onde faltam peças e onde há peças que, manifestamente, não encaixam. Este é um manifesto de falta de transparência e de um modo de fazer política que não engrandece a democracia. 
A autorização para a abertura do procedimento para a encomenda do projecto foi concedida pela vereação em Setembro de 2011. O projecto tem a data de 2013. As sondagens arqueológicas iniciaram-se em meados de Novembro de 2014. Pela leitura do seu relatório preliminar, datado de 19 de Dezembro do mesmo ano, percebe-se que não tiveram como objecto a área do complexo industrial da Fábrica de Curtumes da Caldeiroa, no seu todo, limitando-se à prospecção dos “antigos tanques de curtumes e as estruturas de apoio à curtimenta da fábrica da Caldeiroa”, tendo-se procedido a “4 sondagens de diagnóstico distribuídas na área correspondente ao local de implantação do conjunto de tanques de curtumes”, que verificaram “a conservação, ainda que não integral, do conjunto de tanques representados na planta de 1949, assim como das estruturas de apoio à curtimenta (fulões)”. O relatório propõe que sejam adoptadas, “caso seja construído o futuro parque de estacionamento de Camões”, medidas de minimização que previnam o “risco de afectação dos tanques” decorrente da demolição da “estrutura existente”, ou seja, da Fábrica de Curtumes da Caldeiroa.
Este relatório foi analisado pelos serviços da Direcção Regional da Cultura do Norte (DRCN), aquando da apreciação do projecto do parque de estacionamento, em meados de 2015. Lê-se no parecer do técnico superior daqueles serviços que analisou o processo, com data de Maio de 2015:
Quanto a nós o valor patrimonial das estruturas em causa é muito relativo e não devem sobretudo ser encaradas como peças autónomas, mas sim parte de um conjunto que é a fábrica em si mesmo. Preservar os tanques de per si não é, quanto a nós, de grande pertinência patrimonial. A fábrica da Caldeiroa tem origem nos anos trinta do século passado e laborou até a década de setenta. O significado patrimonial da unidade é pois limitado.
De maior pertinência patrimonial e particularmente do ponto de vista arqueológico, são os logradouros das áreas habitacionais a serem afectadas pelo projecto, onde poderão ser identificados vestígios arqueológicos, à semelhança de outras situações Idênticas ocorridas em Guimarães.
Mais tarde, em 18 de Maio de 2016, a DRCN autorizou condicionalmente a construção do parque de estacionamento. As condições a cumprir eram as que constavam em parecer técnico, onde se lê:
Sobre a pretensão já nos pronunciámos anteriormente considerando que “do ponto de vista arqueológico já foram efectuadas sondagens de avaliação prévia mas que se referiram exclusivamente à existência de uma antiga unidade industrial (Fábrica da Caldeiroa)”, sendo que o interesse patrimonial do local e especificamente no que se refere ao potencial da componente arqueológica, este não se limita à unidade industrial de curtumes. De resto, e conforme então mencionado, “a área total abrangida pelo projecto extravasa em muito a área já sondada, sendo que subsistem muitas incertezas quanto à possível existência de outros vestígios arqueológicos”.
Mantemos pois a posição manifestada anteriormente, considerando que “seja previsto um competente programa de sondagens arqueológicas para a área de intervenção do projecto, bem como um acompanhamento arqueológico geral da obra.”
A viabilidade do projecto de construção do parque de estacionamento depende, na nossa perspectiva, de uma avaliação arqueológica prévia do local, a qual possibilite a identificação atempada de eventuais realidades associadas à ocupação antiga de Guimarães e sobre estas serem tomadas decisões conducentes ao seu cabal estudo, salvaguarda e/ou integração no projecto de arquitectura.
Planta da Fábrica de Curtumes da Caldeiroa, de 1949

Em 25 de Julho de 2016, a Câmara Municipal de Guimarães contratualizou com a empresa Archeo’estudos-Investigação Arqueológica, Lda para a prestação de serviços de “sondagens arqueológicas no perímetro destinado ao parque de estacionamento de Camões”, pelo preço contratual de €50.700,00, com um prazo de execução de 60 dias. No dossier que a autarquia disponibilizou, nada se informa acerca dos resultados daqueles trabalhos arqueológicos. Entretanto, ainda antes do início destes trabalhos, já a Câmara tinha deliberado dar início ao procedimento para a empreitada de construção do parque de estacionamento. O último dia para a apresentação de propostas seria 1 de Março de 2017.
Foi já depois daquela data, a 20 de Março, que a Câmara enviou à presidente da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional dos Monumentos e dos Sítios (ICOMOS-Portugal) um pedido de assistência técnica para “preparar os estudos de suporte científicos do alargamento da área classificada pela UNESCO”, com a proposta de inclusão da Zona de Couros. No pedido não há qualquer referência ao projecto do parque de estacionamento, apenas se fazendo menção a “uma avaliação de novos procedimentos e actuações bem como a sua compatibilidade com os critérios necessários para a Zona de Couros”. Na sequência deste pedido, realizaram-se em Guimarães duas reuniões de trabalho em que participaram responsáveis do ICOMOS Portugal e do Gabinete de Couros:Sítios Patrimoniais. Na primeira, realizada a 18 de Abril, estiveram presentes dois vice-presidentes do ICOMOS-Portugal (Ana Paula Amendoeira e José Aguiar). Na segunda, que aconteceu a 31 de Julho, em que aquele organismo fez-se representar pela sua presidente, Maria Magalhães Ramalho, foi dada particular atenção à “documentação associada a uma proposta de parque de estacionamento a implantar num quarteirão inserido na referida Zona de Couros”, nomeadamente ao relatório das sondagens arqueológicas. Na mesma altura, foi visitada a “zona afectada directa, ou indirectamente, pelo projecto”.
Entretanto, a 11 de Maio, enquanto decorria esta avaliação, a Câmara deliberou adjudicar a empreitada de construção do parque de estacionamento à firma HCI — Construções, SA.
Destas visitas dos responsáveis do ICOMOS-Portugal, resultou um parecer formal, subscrito pela respectiva presidente, cuja conclusão vale a pena ler com atenção:
A salvaguarda de Couros obrigou a uma delimitação precisa tanto da área do bem proposto como da sua zona de protecção, integrando, desde Maio do corrente ano, a Lista Indicativa de Portugal ao Património Mundial.
Consideramos que a ampliação da classificação de Guimarães para abranger o conjunto de Couros é desejável e faz todo o sentido pois a cidade mais formal de Guimarães desde sempre se relacionou com a cidade produtiva de Couros, ambas crescendo e transformando-se em conjunto, pelo que é inteiramente coerente promover uma ampliação da área inscrita na Lista do Património Mundial de modo a incorporar Couros.
O essencial de Couros ainda persiste, apesar de algumas zonas deste complexo terem sido afectadas ou comprometidas por demolições ou intervenções descaracterizadoras, como sucedeu na zona onde recentemente foi construído o Pingo Doce, existindo o perigo de as áreas periféricas poderem ser afectadas por novos projectos de excessiva edificação. Tal é certamente o caso do novo projecto de parqueamento automóvel de grande dimensão que irá implicar, tal como foi analisado, fortes alterações no interior de todo um quarteirão situado em plena Zona Especial de Protecção do Centro Histórico-Património Mundial. Estas alterações irão ocorrer tanto no subsolo, como no edificado e mancha verde existente, verificando-se, pela análise do projecto e reconhecimento do local, que este poderá provocar a descontextualização, senão mesmo a destruição de elementos com valor cultural e arqueológico. Refira-se que um dos problemas essenciais deste tipo de intervenções é que as alterações que provocam são irreversíveis, ocasionando o desaparecimento de relevantes elementos ou contextos históricos visíveis no presente.
Importa referir que, contrariamente ao que a proposta de parque de estacionamento propõe, têm vindo ao longo dos anos a ser desenvolvida uma estratégia de reabilitação urbana para o mesmo território que se destaca pela concretização de projectos que demonstram uma especial preocupação em compatibilizar novos usos com o património existente, adequando escalas e tipo de intervenções, como por exemplo o caso da antiga fábrica Âncora reconvertida em Centro Ciência-Viva.
A louvável intenção da Câmara de Guimarães de incluir na lista do património mundial da UNESCO o complexo de Couros, pressupõe que seja possível garantir a sua salvaguarda futura, incluindo nela a gestão complexa de uma vasta Zona Especial de Protecção. O principal problema que hoje verificamos é o eventual impacte que novos projectos possam vir a ter no Bem classificado e respectiva ZEP, bem como a necessidade de assegurar a capacidade de integração e/ou de reversibilidade destes mesmos projectos, sempre que incidam sobre as áreas protegidas. No caso do parque de estacionamento da Caldeiroa, não só ele atinge directa e irreversivelmente a ZEP do Bem actualmente classificado, como se apresenta incompatível com a proposta de extensão do mesmo para a Zona de Couros, nomeadamente por se incluir exactamente no perímetro da extensão que se está a propor classificar.
Assim sendo o ICOMOS-Portugal afirma a sua total disponibilidade para continuar a contribuir para que a Zona de Couros possa vir a ser integrada na classificação que já hoje a cidade de Guimarães tão merecidamente possuiu, mas, pelo que ficou exposto, não pode concordar com um projecto que sem dúvida irá afectar irreversivelmente esse mesmo Bem.
Sobre estas conclusões — que, podendo ser discutíveis, são criteriosas e fundamentadas —, a (à altura) responsável pelo Gabinete de Couros lavrou um parecer inusitado, em que afirma que o documento “contém tantas contradições e erros que sobre isso nem me dou ao trabalho de contraditar”.
O parecer do ICOMOS-Portugal tem a data de 28 de Agosto de 2017, mas só foi divulgado, por pressão pública, a 27 de Outubro, depois das eleições autárquicas, em cuja campanha o projecto do parque serviu de bandeira bandeira à candidatura que saiu vencedora (com direito a um vídeo em realidade virtual, que seria interessante saber com que recursos é que foi produzido).
Entretanto, em 10 de Agosto de 2017 tinha sido entregue à DRCN um perdido de autorização para trabalhos arqueológicos, “relativo à avaliação por sondagens da área destinada ao Parque de Estacionamento de Camões”. A notificação de que este pedido tinha recebido parecer favorável do Subdirector Geral do Património Cultural está datada do dia 13 de Setembro. No dossier da Câmara consta que as sondagens se iniciaram “na semana de 18 a 24 de Setembro”. Não sabemos mais deste processo, apenas que dava resposta a uma das condições colocadas pela DRCN no despacho de aprovação condicionada de Fevereiro de 2016.
Em Agosto de 2017 estavam a ser feitas sondagens arqueológicas no interior do quarteirão, como o mostra a fotografia que vai acima, retirada do blogue Não à morte da Caldeiroa, datada do dia 8 daquele mês. Resta saber quem as fez e quem as autorizou.
De onde se conclui que há neste processo muito de inovador e outro tanto de esquisito. A começar pela estranha e incompreensível sequência cronológica dos factos conhecidos. Vai a cambalear, ao ritmo dos tropeções. Primeiro decide-se avançar com uma obra de grandes dimensões num espaço Zona Especial de Protecção do Centro Histórico-Património Mundial, ele próprio em processo de candidatura à classificação como Património Mundial. Depois, mandam-se fazer estudos arqueológicos, em espaço cirurgicamente confinado, para avaliação de impactos patrimoniais. Avança-se com o procedimento para a adjudicação da empreitada para, a seguir, solicitar ao ICOMOS-Portugal uma avaliação da “sua compatibilidade com os critérios necessários para a Zona de Couros”. A avaliação técnica foi feita, o parecer dela resultante é taxativo na afirmação de que a obra é “incompatível com a proposta de extensão do mesmo [bem actualmente classificado] para a Zona de Couros”. Mas não produziu qualquer efeito.
Enquanto a caravana passa, a obra continua, tal como o inicialmente previsto.
Afinal, quem disse que “nós, técnicos, damos pareceres, o executivo decide”, é capaz de ter razão.

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E a matemática?

Reprodução do frontispício do exemplar da Biblioteca nacional da edição de 1590 do Tratado de Arismética de Gaspar Nicolas

Está em curso a publicação, pelo Círculo de Leitores, de uma colecção de “Obra Pioneiras da Cultura Portuguesa”, produzida, sob a égide da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta, por uma vasta equipa dirigida pelos professores Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco. Apresenta-se como “a maior operação científica interdisciplinar da cultura portuguesa” e tem, no seu plano editorial, a publicação de obras de autores portugueses precursoras em diferentes áreas do saber, nomeadamente “a história, a medicina, a gastronomia, o teatro, a geografia, o direito, a arquitectura, a física, a educação moral, a gramática, a química, a música, a dignidade humana, a engenharia, a botânica, a pintura, a poesia, a pedagogia, os relatos de viagens, a arte de navegar”. Até ao momento já foram distribuídos quatro volumes (Primeiros Textos em Português, Primeiro Tratado de Física, Primeiro Tratado de Engenharia e Primeiro Livro de Cozinha), que confirmam a importância e a abrangência deste projecto.
Apenas me fica alguma estranheza por perceber que, entre os 30 títulos anunciados, cobrindo áreas do saber tão diversos como a história, a engenharia, a arquitectura, a pintura, a química, a física, a marinharia ou a cabala, não tenha havido lugar para a matemática. Até porque, no ano de 2019, se cumprem quinhentos anos sobre a publicação daquele que tem sido considerado o primeiro livro de matemática impresso em Portugal, o Tratado da Prática d´Arismética, de Gaspar Nicolas, que Diogo Barbosa Machado diz ser natural de Guimarães.
Para saber mais sobre este autor e a sua obra pioneira:

  
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12 de novembro de 2017

O Café Oriental, por A. L. de Carvalho

Café Oriental, Toural, Guimarães. Painel do faraó Seti I.

Anunciado, nas páginas do jornal Ecos de Guimarães, como “um grande melhoramento para a cidade e uma maravilha do engenho e da arte do grande artista sr. Capitão Luís de Pina, nosso ilustre patrício”, o Café Oriental foi inaugurado no dia 20 de Dezembro de 1925. Era um empreendimento de José e Francisco da Costa Magalhães, Eugénio Leite Basto e José Fernandes da Costa Abreu, que vinha preencher uma lacuna na cidade de Guimarães, onde, à altura,  não havia um café digno desse nome. A sua decoração, com motivos inspirados no antigo Egipto, foi assim descrita no jornal republicano A Razão do dia 24 daquele mês:
Cenas da vida e da mitologia egípcia guarnecem o interior da sala, que cremos representar a entrada de um templo do velho Egipto.
Ao fundo um belo quadro onde se vêem as pirâmides e a “esfinge”; dos lados divindades faraós, tudo isto com uma verdade tão flagrante que julgávamos estar vendo fotografias dos famosos baixos-relevos das cidades mortas dos súbditos de Osíris. É, enfim, unia linda sala, com bom gosto e comodidades de que Guimarães se pode orgulhar com justiça. Folgamos em poder dizê-lo e é com o máximo prazer que felicitamos os proprietários pelo seu amor à Terra e o Exmo. Snr. Capitão Pina pela sábia direcção que soube imprimir aos trabalhos.
Um outro jornal vimaranense, A Ortiga, relatou, no dia 25 de Dezembro, a cerimónia da inauguração do novo estabelecimento, que foi muito concorrida.
No acto, foram levantados alguns brindes de louvor à simpática e bairrista iniciativa, e de regozijo pelas prosperidades futuras daquele modelar estabelecimento que, todo elaborado, ainda nos mais pequenos detalhes, em raro e formoso estilo, através do qual perpassam alguns milhares de séculos de história egípcia, fica sendo o primeiro, no género, e um dos melhores, pelo seu conforto e elegância, existentes em Portugal.
Um pouco mais tarde, num dos seus primeiros números de 1926, o Ecos de Guimarães deu à estampa um texto jocoso de A. L. de Carvalho sobre a reabilitação de Guimarães no conceito citadino porque, enfim, já tem um Café!
Aqui fica.
Café Oriental, Toural, Guimarães. Painel da Esfinge
Um café que se inaugura
É uma situação humilhante que acaba!

Guimarães, o velho burgo, reabilita-se. Reabilita-se Guimarães no conceito citadino porque, enfim, já tem um Café!
Que lhe faltasse um hotel, era grave: mas não ter sequer um Café — era o cúmulo!
Haviam, é certo, por aí, algumas cavernas de caco, espécie de bocetas de maus encontros. Mas um Café moderno, arejado, limpo, isso é que não havia. Não havia um Café decente e fazia falta. Tanta falta fazia um Café abordável que já os créditos da terra sofriam desconceitos amarfalhantes. Já de nós se dizia: que eramos tão improgressivos, que nem um Café tínhamos para receber. De tal sorte que, viajante que por aqui passasse, só por descuido parava.
Parar, para quê?! Para ver a relíquia dos nossos monumentos? O espólio venerando dos nossos museus? A fisionomia embiocada das nossas ruelas? Observar o fulcro industrial deste povo? Sim, tudo isso seria admirável; mas acompanhado com o aperitivo duma xícara de chá, chávena de café ou copo de cerveja — para refazer o ânimo e amainar as poeiras.
Porque, a verdade é esta: não há hoje terrinha de província, que se preze, aonde não se tope um Café, espécie de apeadeiro para os turistas e de galeria para os indígenas.
E porque sucede assim? Compreende-se : para satisfazer a uma ideia geral e elementar de urbanismo e de sociabilidade. Em síntese, pois, conclui-se: que o Café representa nas modernas sociedades uma função social. Tem, um Café, foros de instituição; e é, afinal, pelo seu mise-en-scène, que se aquilata da civilização dos aglomerados citadinos.
Veja-se agora, depois disto, a linda figura que estávamos fazendo porque não tínhamos um Café!
É claro que não autorizámos a crítica estranha a reputar-nos um povo bárbaro, só porque não tínhamos uma casa de Café. Para tal se poder concluir seria mister provar-se: que não só não tínhamos essa casa de Café, como até não o tomávamos... em casa. E isso é que não consta, louvado Deus! Porque embora Mantegazza, médico e publicista italiano, fulminasse a aromática bebida (como o chá, o tabaco e o álcool) por excessivamente enervante, a verdade, a verdadinha é que o rico cafezinho sempre andou na nossa intimidade.
Dest’arte se comprova que não éramos bárbaros, porque eramos apenas, pela aparência, semibárbaros. Não tínhamos até há dias um Café, o que era razão bastante para os nossos incomparáveis bairristas velarem o rosto, compungidos de tristeza e corridos de vergonha.
Sobretudo, que saudade! Que saudade dos idos tempos do botequim do Vagomestre — esse venerável cenáculo que ali, no Toural, há trinta, há quarenta anos, foi ponto de reunião da nossa gente de algo, do escol, da fina flor da nossa terra!
Enfim, os tempos que mudam e a sorte que é vária, tanto correram dos fados a fortuna que nos repuseram no bom caminho, reabilitando-nos perante a tradição, a história e o conceito dos estranhos.
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Já temos um Café! Pef!!!
Já temos um Café para “toda a sorte e condições de gente vária”. Que, hoje em dia, um Café representa, em grosso estilo, uma das mais caras conquistas da democracia. Se na hora augusta em que foi arrasada a Bastilha uma voz do povo gritou, em desforra, “aqui dança-se!”, parafraseando-a podemos em farófia gritar: “aqui cafezeia-se!”
Digam embora os catões da temperança — que um Café não é o local indicado e requerido para ajudar à morigeração dos costumes; acusem mesmo o seu ambiente de nocivo e contrário à atracção do lar; considerem-no, se quiser, obra do diabo, destilando cafeína, nicotina, cocaína, e mais venenos que acabam em ina: nem por isso um Café bem montado deixa de ser um factor apreciável de progresso nas relações do indivíduo com a sociedade.
É que ali, sisudos puritanos, não se toma apenas esse tónico estimulante, essa bebida escura e perfumada que se tornou favorita, no século XVIII, dos racionalistas e livres-pensadores; porquanto um Café, acima de tudo, é um centro de parola. Recordemo-nos, em curvada admiração, que foi emborcando, gole a gole, chávenas de café, que os celebrados Enciclopedistas devassando as nebulosas do Direito, da Razão e da Justiça (tudo com maiúsculas), espancaram o velho preconceito senhorial, outorgando aos povos escravizados essa famigerada carta de alforria que se chama enfaticamente os Direitos do Homem.
Duvidam? Basta entrar a gente num Café, digno deste nome, para logo se nos deparar uma multidão atacada dum fluxo labial admirável, discutindo, discreteando ou simplesmente palrando, e este fenómeno verborreico é devido, sabem a quê? ao café— essa bebida ideal que pelos alcalinóides que encerra é um antídoto contra a letargia, a modorrice, a estupidez.
Ai, quantos triunfos não deve a inteligência à pequenina chávena de café e ao seu companheiro predilecto o “cigarro palreiro”! E que esplêndidos sonhos não fazem pairar sobre o espirito difuso de quem escreve ou fala os bem conjugados vapores que sobem duma chávena de café e dum cigarro — como que a induzir-nos a atravessar a vida sonhando, única maneira de tornarmos a vida suportável!
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Para melhor, o Café que se inaugurou, por felicidade nossa, chama-se bizarramente Café Oriental. Não que o nosso lindo e bem proporcionado Toural possa ter confrontos com as estepes, com o deserto, nem tampouco que para lá ir se torne mister escarranchar-nos na corcunda dum camelo... desses que para aí há.
Em verdade, o título foi bem achado, é de palpite, se nos lembrarmos que a primeira casa de Café parece ter tido origem em Meca, no século IX, e se depois desse pormenor histórico nos lembrarmos igualmente que uma espécie de boémia do espírito nos atira a toda a hora para o extravagante, tendência conhecida em arte e em literatura por — futurismo.
Ora pois, para que não sejamos filiados na categoria zoológica dos morcegos domésticos, vamos até lá, ao Café Oriental: não para matar o tempo ou tesourar má-língua, mas, como o político, para ganhar popularidade; como o comerciante para conhecer a balança dos negócios; como o jornalista para colher uma entrevista; como o celibatário para epistolar à sua Dulcineia; como, finalmente, o Jerónimo Sampaio para segurar um seguro.
Toma, pois, este braço, caro leitor; deixa o teu hábito de bicho do buraco; dá-te uns ares mundanos, meio graves e meio irónicos, e vamos lá, ao Oriental, se queres ser do bom tom; da boa roda; andar nas vozes; ter fumos de importância; gozar, numa palavra, fama de “persona” culta, inteligente e estares na berlinda dos candidatos.
Sacode, duma vez para sempre, esses modos retraídos, beatíficos, que te comprometem, e, resolutamente, — entremos!
É entrar, senhores! é entrar! na certeza de consciência de que uma casa de Café, como o Café Oriental, não é um lugar de perdição, mas de resgate, pois não só restitui os créditos à nossa boa terra, como até nos dá, a todos, esse verniz de civilização de que tanto andávamos precisados.
Vamos, pois: coragem, caro leitor! É deixar a bisonhice. A Dona Opinião Pública tomará assento ao nosso lado. Lembremo-nos de que já Bocage frequentou o Nicola, Ramalho o Martinho e Camilo o Águia d'Oiro, o que prova que a atmosfera dum Café, embora carregada de fantasmas microbicidas, constitui um meio admirável para caldear a inteligência e forjar opiniões, bastando, a quem duvide, pôr os olhos na Brasileira do Rocio, — esse café singular que faz e desfaz ministérios, conspira e vence revoluções, com a mesma facilidade com que um Marat de via reduzida bate as palmas e, sobranceiramente, grita para o criado solicito à gorjeta:
Ó tu, um café!
Venha pois, por analogia, um café, e bem quentinho, ó tu! para que ao seu calor e ao seu aroma discutamos, façamos blagues sobre política, religiões, literatura, arte e mais enigmas do Universo e tudo com ruído, com prolixidade, com entusiasmo loquaz, como é próprio dum Café — esse Café Oriental que dando honra à terra dará proveito aos seus donos, a quem apresentámos por isso mesmo o nosso modesto cartão de parabéns.
A. L. de Carvalho.

Ecos de Guimarães, 9 de Janeiro de 1926
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11 de novembro de 2017

Os pioneiros do automóvel em Guimarães

Darracq  Gladiator de 10 cavalos e 2 cilindros, de 1903.

Leio num artigo já antigo que um amigo partilhou no Facebook, e originalmente publicado naquela rede social, na página “Memória e história de Fafe e dos fafenses”:
O primeiro automóvel que chegou a Guimarães em 1904 era pertença do industrial fafense Bernardino Jordão.
Não sou capaz de dizer, por falta de informação disponível, se o primeiro automóvel que chegou a Guimarães pertenceu a Bernardino Jordão, empresário que se destacou pelo seu pioneirismo em diferentes áreas, não me admirando que também o fosse no campo da viação automóvel local. No entanto, a ter acontecido o que se lê no texto que citei acima, aconteceu antes de 1904, uma vez que já havia automóveis em Guimarães, pelo menos, desde 1903.
Na edição de 11 de Setembro de 1903 de O Comércio de Guimarães dava-se voz  a queixas que já então se escutavam na cidade, contra as “corridas vertiginosas” dos automóveis que a atravessavam, colocando em risco as vidas dos transeuntes. A breve nota do jornal concluía assim:
Ora, que sejam maltratados os que vêm dentro, não é caso para grande lamúria, porque lá trazem o governo nas próprias mãos, mas que se cause dano a quem passa, e que não tem culpa dos disparates alheios, é o que se torna necessário remediar, se isso tem remédio, como nós supomos.
Há muito que ouço dizer que foram os irmãos Simão e Álvaro Costa que introduziram o primeiro automóvel em Guimarães. Esparsamente, vou encontrando nos jornais da época notícias que parecem confirmar esta afirmação. A mais antiga retirei-a do jornal O Comércio de Guimarães e tem a data de 6 de Outubro de 1903:
AUTOMÓVEL — No domingo passado, pelas 11 horas da manhã, chegou o automóvel que os snrs. Simão e Álvaro Costa tinham encomendado em Paris.
É muito bem construído e muito elegante. Tem dois cilindros e a força de 10 a 12 cavalos.
O snr. Álvaro Costa já o tem dirigido em vários passeios e parece-nos estar satisfeito com a máquina.
Os nossos parabéns.
O primeiro automóvel dos irmãos Costa era um Darracq. A ele se refere o Coronel António de Quadros Flores, nas suas memórias da viragem do século que, na década de 1950, partilhou com os leitores do Notícias de Guimarães e que, mais tarde, foram publicadas num livro que merece ser lido, por muitas razões. Assim começa o seu capítulo XXI:

Os automóveis fizeram a sua aparição em Guimarães já não sei em que altura, se neste século, se no fim do passado, mas é possível que fosse neste e a única reminiscência é a do automóvel do sr. Álvaro Costa, um carro ligeiro, tão ligeiro que lhe chamavam — aranha.
O nome técnico era de voiturette, que é como quem diz — um carrinho — ou presentemente “Joaninha”, mas muito mais alto e descoberto, para quatro pessoas e, como todos os outros automóveis, com dispositivos que dariam uma barrigada de riso aos automobilistas destes “espadas” de agora; mas naquele tempo faziam um figurão e eram invejados por toda a gente.
Lá das coisas técnicas é que nada sei, apenas me recordo de que, para o pôr em andamento, tinha o condutor de descer do seu lugar para dar à manivela que permanentemente trazia à dependura na frente do motor, mas o seu funcionamento interior é que foi para mim sempre mistério.
O guiador, ou volante, era do lado direito e assim se conservou durante dezenas de anos, tendo ao lado, e fora da carroçaria, as alavancas do travão de mão e das velocidades; tinha os mesmos três pedais de agora e com o mesmo fim, mas não havia mostrador de qualquer espécie indicando o nível do óleo, da gasolina, da bateria, nem da velocidade de corrida, aquilo tudo era a olho e dependia dos cuidados do condutor.
A iluminação era de acetilene em lanternas que se carregavam na ocasião e davam luz suficiente para o trânsito de então, sem encandear os parceiros que vinham em sentido contrário.
Quanto a sinais acústicos eram buzinas pneumáticas que partiam do guiador num longo tubo de borracha até ao bocal à frente do radiador.
Isto conseguia-se com uma bola de borracha adaptada ao tubo e que se comprimia, como uma seringa, para dar o som característico de pó-pó, com que ainda agora, e por atavismo, se designam aos meninos os automóveis.
Este pó-pó serviu de tema a cançonetas e cantigas populares como esta:

Pó-pó-pó

Não s’esteja a escamar

Quanto mais você sescama

Mais pó-pó lhe hei-de chamar

E depois quem mais sorte dava eram os velhotes que usavam “carqueja”.
Ora o automóvel era um meio de transporte de tal categoria que só o facto de ter feito uma viagem nele dava tanto prestígio ao passageiro, que todos o olhavam com admiração e inveja, e por isso se pode calcular o do seu dono, e principalmente de quem o guiava.
Coronel António de Quadros Flores, Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XVIII, pp.127-128


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