31 de dezembro de 2017

A nêspera (3)


No início desta série de textos dedicada a esse fruto quase esquecido, escrevi que a nêspera tem muita história e muita literatura. Agora, vou começar a explicar porquê. A forma, a consistência e o processo de maturação da nêspera prestam-se a metáforas, trocadilhos e eufemismo que remetem, nomeadamente, para jogos sexuais e para a fragilidade da condição humana, que diversos escritores trabalharam nas suas obras.
No Novo Diccionario das Linguas Portugueza e Franceza, de José Marques, publicado em 1764, encontrei um provérbio que remete para o processo de amadurecimento da nêspera, que, tal como os pequenos e grandes empreendimentos humanos, carece de tempo, constância e paciência até que alcance a sua plenitude:
Com o tempo e a palha as nêsperas amadurecem.
Por não encontrar qualquer outra referência a este provérbio em língua portuguesa, suponho tratar-se de uma versão aportuguesada do original italiano con il tempo e con la paglia maturano le nespole.

[A propósito, refira-se que, em Itália, o fruto da nespereira europeia, germânica ou comum, não obstante o decaimento, em tempos recentes, do seu cultivo e do seu consumo, a ponto de já ser classificado como uma espécie esquecida ou menor, continua a alimentar tradições populares significativas. Há mesmo uma pequena povoação do Piemonte, Farigliano, onde, a par de S. Nicolau, a nêspera — aí chamada de puciu — é um dos protagonistas de uma festividade que acontece no início de Dezembro de cada ano. Na Fiera dei Puciu e di San Nicolao (Feira da Nêspera e de S. Nicolau) destaca-se a distribuição comunitária da minestra degli uomini, uma sopa particularmente substancial, preparada pelos homens da terra, que dá sustento e ajuda a enfrentar o frio Inverno.]

A nêspera, com o sentido que lhe é dado no provérbio italiano, enquanto metáfora de amadurecimento tardio, tem sido recurso de alguns dos maiores escritores da língua inglesa. O exemplo mais antigo que encontrei leva-nos até à Idade Média. Está nos Contos de Cantuária (The Canterbury Tales), de Geoffrey Chaucer (c. 1343-1400), nos versos 14 a 28 do prólogo do Conto do Feitor (The Reeve's Tale):
Terminou o tempo o pasto, é a hora da forragem. O meu coração está ressequido como os meus cabelos. Acontece-me como às nêsperas, esse fruto que vai de mal a pior, até que fica podre, no refugo ou na palha. Temo que nós, os velhos, obedecemos a esta lei: não podemos ser maduros, enquanto não estivermos podres. Continuaremos a dançar, enquanto o mundo nos der música. Sempre haverá um prego a atravessar-se no nosso desejo, por termos a cabeça branca e o rabo verde, como o alho-porro. A nossa força pode ter desaparecido, mas não nos abandonaram os desejos lascivos. Quando já não os pudermos concretizar, poderemos falar deles, como que a revolver as cinzas em busca do antigo fogo.
Neste trecho da obra de Geoffrey Chaucer, a nêspera surge como metáfora irónica do destino do homem que, com a idade, alcança a maturidade e a sabedoria que lhe permitem contemplar o objecto do desejo com uma veemência que o corpo já resiste a acompanhar.
******

O excerto dos Contos da Cantuária utilizado nesta publicação é tradução cá da casa, a partir da seguinte versão do texto medieval, em inglês contemporâneo:

Grass time is done, my fodder is rummage,
This white top reveals my old years,
My heart, too, is as mouldy as my hairs,
Unless I be like medlar, all perverse.
That same fruit increasingly grows worse,
Until it's rotten in mullock or straw.
We old men, I fear, obey this law:
Until we're rotten, we cannot be ripe;
We always hop along, while the world will pipe.
Our will is always catching on the nail,
To have, if hoary head, a verdant tail,
As has the leek; for though our strength be gone,
Our wish is yet for folly till life's done.
For when we may not act, then will we speak;
Yet in our ashes is there fire to reek
Geoffrey Chaucer, The Canterbury Tales, “The Reeve's Prologue”, linhas 14-28

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30 de dezembro de 2017

A nêspera (2)

Isto não é um magnório (imitando Magritte).

Durante largos séculos, em Portugal, o vocábulo nêspera designava, exclusivamente, o fruto castanho, globuloso, acídulo e mole, que, depois de colhido, era acondicionado sobre palha durante algumas semanas, para concluir o seu processo de maturação. No território que hoje é Guimarães, já havia uma “villa nesperaria” no ano 973, a Nespereira de Raul Brandão. Tal designação provinha, necessariamente da nespereira comum ou europeia, com o nome científico de mespilus germanica, já que a outra árvore, a que dá frutos dourados, doces e com grandes caroços castanhos e brilhantes, a mespilus japonica, é originária do Oriente e só foi introduzida na Europa em finais do século XVIII.
Uma pesquisa nos mais antigos dicionários da língua portuguesa permite-nos perceber que, pelo menos até ao início do século XX, quando se invocava a nêspera ninguém pensava no fruto a que por estas terras se chama, correctamente, de magnório, mas sim no fruto a que se refere o poeta vimaranense Manuel Tomás, no poema épico Insulana, publicado em 1635, no verso “E a nêspera, que palhas vem pedindo”.
Eis o que encontrámos, numa busca não exaustiva:
No Vocabulário Português e Latino, de Rafael Bluteau (Volume 5, Collegio das Artes da Companhia de Jesu, 1716):
NÊSPERA. Fruto conhecido, que tem cinco, e às vezes só quatro caroços; não madurece na sua planta, mas sobre palha. É muito adstringente, principalmente antes de madura. É boa para fluxos do ventre, hemorragias, e vómitos. Os caroços são aperitivos para urinar, atenuam a pedra nos rins, e na bexiga, e tomados em pó a expelem. As nêsperas da Grécia não devem de ter mais que três caroços, porque os Gregos lhe chamam Triciccon. Matthiolo faz menção de umas nêsperas que têm cinco caroços; as folhas da planta que as dá são compridas e arremedam às do loureiro, e não são retalhadas nas bordas. Tão grande simpatia tem a Nespereira com o pilriteiro, que enxertada uma na outra, admiravelmente medram. A nêspera madura é gostosa e sadia, particularmente comida sobre carne. Mespilum, i. Neut. Plin.
E a nêspera, que palhas vem pedindo.
Insul. de Man. Thom. Livro 10. Oit.101.
NESPEREIRA. Planta que dá nêsperas. Tem o tronco quase sempre torto, os ramos são duros, e difíceis de quebrar. Parecem-se as folhas com as de loureiro na figura, mas são lanuginosas, e brancas por dentro. Deita umas flores a modo de rolas, brancas ou vermelhas; o cálice em que se encerram é mui recortado; passada a flor, faz-se a modo de maçãzinha quase redonda, carnosa, e tirante a vermelha, quando madura, as pontas superiores do cálice lhe formam uma espécie de coroa. Mespilus, i. Fem. Plin.
No Novo diccionario das linguas portugueza,e franceza, com os termos latinos ..., de Joseph Marques (Tomo Segundo, Volume 2, Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno, 1764):
Nêspera, fruto conhecido , que tem cinco , e às vezes só quatro caroços: não amadurece na sua planta , mas sobre palha ; as nêsperas são adstringentes. Dizem que os caroços das nêsperas pulverizados, e bebidos em vinho são bons para o achaque da pedra. Com o tempo, e a palha as nêsperas amadurecem, provérbio que quer dizer, que é preciso esperar com constância, e paciência o sucesso de um negócio.
Nespereira, árvore de mediana altura guarnecida de espinhos, que não picam muito: tem as folhas recortadas como as do perrexil ; dá um fruto chamado nêspera , que encerra cinco caroços: é de cor tirante a vermelha, e de forma quase redonda.
No Diccionario na Lingua Portugueza, de António de Morais Silva (Volume 2, Na Impressão Regia, 1831):
NÊSPERAS, s f. pl. Fruto, que se põe a amadurecer em palhas. (mespilum).
No Novo diccionario critico e etymologico da lingua portugueza, de Francisco Solano Constâncio (Ed. Casimir, Paris, 1833):
NÊSPERA, s f. Fruto (Fr. Nefle, e ant. mesple ou mesfle, do Lat. Mesilum, Gr. méspilé) fruto pequeno, globuloso, acídulo, mole, que tem cinco caroços ou pevides.
No Novo diccionario da lingua portugueza ...: Seguido de um diccionario de synonimos, recopilado... de Eduardo Augusto de Faria (vol. III, Typographia lisbonense, 1849):
NÊSPERAS, s f. Fruto (bot.) fruto pequeno, globuloso, acídulo, mole, que tem cinco caroços ou pevides.
No Diccionario encyclopedico ou novo diccionario da lingua portugueza para uso dos portuguezes e brazileiros, de José Maria Almeida e Araújo de Portugal Correia de Lacerda (Volume 2, F.A. da Silva, 1874):
NÊSPERA, s f. Fruto (Fr. Néfle, e ant. mesple ou mesfle, do Lat. Mespilum, Gr. mêspilé) fruto pequeno, globuloso, acídulo, mole, que tem cinco caroços ou pevides.
No Thesouro da lingua portugueza, do Dr. Fr. Domingos Vieira (vol. IV, Ernesto Chadron e Bartolomeu H. de Moraes, Porto, 1876):
NÊSPERA, s. f. (Do latim mespilum). Fruto pequeno e globuloso, doce quando maduro, produzido pela nespereira. — “As Ervas Estomáquicas frias são: Raízes de tanchagem, e de azedas. Paus, sândalos citrinos e rubros. Folhas de tanchagem e murta. Sementes de tanchagem, e de marmelos. Flores rosas vermelhas, e baláustias. Frutos marmelos, pêras, nêsperas, e murtinhos. Sucos dr acácia, que é a árvore da almecega, e de pútegas.” Braz Luiz d'Abreu, Portugal Médico, pag. 356, ¶ 241.
No Novo dicionário da língua portuguesa, Cândido de Figueiredo (1913):
Nêspera, f. Fruto de nespereira, um tanto ácido, e com vários caroços. (Do lat. mespilum)
Nespereira, f. Árvore frutífera, da fam. das rosáceas, (mespilus germanica, Lin.). (De nêspera)

Para que não restem dúvidas, porque uma nêspera é uma nêspera.

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29 de dezembro de 2017

A nêspera (1)

Isto é um magnório (imitando Magritte).

Tem pele amarela e caroços castanhos e brilhantes. Chamam-lhe nêspera, mas ‘a’ nêspera é um fruto bem diferente.
A nêspera tem uma longa história na Europa. Precisa de Verões quentes e de Invernos frios. É colhida no final do Outono e tem a pele castanha, com aspecto terroso, e cinco caroços irregulares. Antes de amadurecer, é rija, de polpa esbranquiçada e adstringente. Absolutamente intragável. Não amadurece na árvore. Tradicionalmente, é colhida antes de atingir a fase de maturação, sendo deixada em repouso sobre palha, durante algumas semanas. Durante esse tempo, fica a sorvar, passando por um processo de amolecimento e ligeira fermentação, em que a sua polpa fica castanha e cremosa, adquirindo a textura e o sabor que lhe são característicos. Há quem diga que sabe a manteiga de maçã (compota de maçã com especiarias), que tem um toque avinhado, reminiscências de sidra ou uma suavidade picante difícil de descrever. Não sei como descrever aquilo a que sabe, mas sei que é uma fruta única, que se adora ou se detesta, mas também de que se aprende a gostar. Gregos e romanos tinham-na em boa conta e foi muito popular na Idade Média europeia. Com ela fazem-se geleias e compotas, que os ingleses servem com caça ou carne assada. Há quem diga que é o melhor fruto para acompanhar vinho e que vai muito bem com o do Porto.  Tempos houve em que era considerada, por excelência, uma sobremesa de Natal. Mal amada em tempos recentes, tem vindo a ser redescoberta pelos apreciadores de frutas raras e por cozinheiros inovadores.
A nêspera é um fruto muito antigo, com muita história e, pela sua carnalidade lasciva, com muita literatura, como logo veremos.
***
Nos próximos dias, falaremos deste fruto que é muito nosso. Como introdução ao que aí vem, sugiro a (re)leitura deste texto já antigo:

Do que se fala quando se invoca a nêspera...

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23 de dezembro de 2017

Em 1908, Guimarães defende o seu Castelo (4)

Perspectiva do Castelo de Guimarães antes do restauro da década de 1930.

Prosseguindo a publicação da série de artigos que saíram em 1908 no O Comércio de Guimarães a propósito do estado em que se encontravam as ruínas do Castelo de Guimarães e da urgência de o ver sujeito a uma intervenção de restauro, reproduzimos agora o que foi publicado no dia 24 de Julho, em que o articulista incita o presidente da Câmara, João Gomes de Oliveira Guimarães, o Abade de Tagilde, a usar da sua influência política para conseguir que o Governo mandasse proceder às reparações que se impunham.
~*~
O Castelo de Guimarães
IV
O ilustre presidente da Câmara, um verdadeiro patriota e distinto arqueológo, o meu filho dilecto como lhe chamava o sábio dr. Martins Sarmento, tem de intervir com a sua influência perante o seu amigo e parente o snr. dr. Oliveira Guimarães, que tem assento na Câmara dos Deputados, para que o governo mande reparar convenientemente o castelo de Guimarães, um monumento histórico de muito valor.
Reparar, note-se, mas sábia e convenientemente.
O nosso modesto jornal faz a s. exa. hoje este pedido, e confiado está em que será atendido.
Conhecemos quão custoso é o alcançar-se do poder central qualquer melhoramento, hoje sobretudo em que se lança o descrédito a todos os pedidos desta natureza, supondo-se lá no alto não haver a conveniência pública, mas a particular.
Com a reparação do castelo de Guimarães ninguém terá a ousadia de supor que há nisso o interesse particular, e, portanto, pode s. exa. muitíssimo bem, não só como homem de ciência, mas como presidente do município de Guimarães, pedir, impor mesmo até certo ponto, essa reparação.
O presidente da Câmara é o mais nosso legítimo representante.
Confiemos-lhe, sem restrições, a nossa procuração, para vencer causa tão justa.
O Comércio de Guimarães, 24 de Julho de 1908


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22 de dezembro de 2017

Em 1908, Guimarães defende o seu Castelo (3)

O Castelo de Guimarães numa fotografia do início do século XX, onde é visível parte do casario que seria demolido.

No terceiro artigo publicado em 1908 no O Comércio de Guimarães, defendendo o restauro do Castelo de Guimarães, defende-se que não bastava instalar uma "escada de ferro que dê subida à torre de menagem e mandar retirar mesmo dali o depósito da pólvora". Era preciso mais, no entender do articulista, que avança com uma proposta que, infelizmente, veio a ser concretizada anos mais tarde: a demolição do casario que envolvia, e dava vida, ao espaço envolvente do Castelo e do Paço dos Duques de Bragança, para desafogar a vista dos monumentos. 
~*~
O Castelo de Guimarães
III
Insistamos todos, quanto possamos, para que em breve tempo vejamos reparada e restaurada essa veneranda relíquia — o castelo de Guimarães, de forma que, sem vergonha, a possamos indicar aos que nos visitam.
Não basta pôr-lhe uma escada de ferro que dê subida à torre de menagem e mandar retirar mesmo dali o depósito da pólvora; é preciso mais alguma coisa, como colocar donde caíram as pedras das suas ameias, fazendo-se-lhe uma grande limpeza aos excrementos que o enchem, etc.
Essa obra, que se nos afigura de insignificante preço, será, todavia, de importantíssimo valor, e mais tarde, quando os recursos pecuniários da Câmara o permitam, fazer-se um novo quartel para o nosso regimento, tirando ao que está o que representa obra nova, de forma que este outro monumento nacional fique também venerado como deve ser.
A demolição dos casebres, que cercam o castelo de Guimarães e o paço onde está o regimento, impõe-se também como preciso, alargando-se os espaços que lhes ficam fronteiros.
Se bem nos recorda pensou nisto o nosso bom amigo, e não menos bom patriota, o snr. dr. Joaquim José de Meira, quando foi presidente da câmara.
Com certeza, se s. exa. não levou a termo esta grandiosa ideia, foi porque viu ser impossível realizá-la nessa época.
Mas o tempo tudo pode fazer.

O Comércio de Guimarães, 21 de Julho de 1808
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21 de dezembro de 2017

Em 1908, Guimarães defende o seu Castelo (2)

O Castelo de Guimarães, numa fotografia do início do século XX.

Em 1908, quando o Castelo de Guimarães estava votado ao abandono, servindo de depósito de pólvora e dormitório de corujas, eram cada vez mais audíveis as vozes que exigiam a regeneração da velha fortaleza que assistiu aos primeiros alvores da nacionalidade portuguesa. A impressa local deu voz a uma campanha em defesa do monumento, em que sobressaiu uma longa série de artigos publicados no O Comércio de Guimarães. Aqui fica o segundo texto da série, publicado no dia 17 de Julho.

~*~
O Castelo de Guimarães
II
Voltemos ao assunto, que não interessa só a esta cidade, mas a toda a nação — a reparação do castelo de Guimarães, um monumento nacional de grande valor estimativo.
Ele aí está, no mais condenável abandono, servindo de depósito de pólvora e dormitório de corujas!
Esse velho monumento, que tantas vezes abrigou o primeiro rei de Portugal, valente como as armas, patriota ao ponto de fazer uma nacionalidade, esfacela-se de ano para ano, por falta de um pequeno gasto do tesouro!
Se vem um visitante ilustre a esta terra, e pergunta por essa relíquia veneranda, mal se lhe pode indicar, porque visitando-a, faria de todos em geral, e em especial dos vimaranenses, a mais triste ideia, como assim já sucedeu uma vez.
Pois é preciso que se diga, que nós o vimos percorrer de extremo a extremo das suas ameias desmoronadas, com os olhos rasos de lágrimas, recordando-se do muito que ele contribuiu para a grandeza da nossa querida Pátria.
“Velhinho, e tão abandonado, tu que foste em novo, valente e destemido.”
“É a ingratidão das ingratidões, nos disse ele.”
 Respondemos-lhe: está da posse do Estado, que se fosse da Câmara, não estaria assim, por certo.
O Comércio de Guimarães, 17 de Julho de 1908


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18 de dezembro de 2017

Em 1908, Guimarães defende o seu Castelo (1)

Adarve do Castelo de Guimarães, numa fotografia de Eleutério Cerdeira, do princípio do século XX. Em primeiro, o telhado do paiol militar. Do lado esquerdo, são visíveis os arames da ramada que lá dava uvas.

E meados de 1908, o Castelo de Guimarães, que pertencia ao Ministério da Guerra, estava votado ao abandono, desfazendo-se” se de ano para ano a olhos vistos”. A continuação do paiol das tropas no seu recinto colocava o monumento (e a própria cidade) em risco. Guimarães mobilizou-se em defesa do mais emblemático monumento nacional. A imprensa local deu voz a essa exigência, com destaque para o jornal O Comércio de Guimarães, que publicou uma longa série de artigos tendo o Castelo como tema. O primeiro, que aqui se reproduz a seguir, foi publicado no dia 10 de Julho de 1908.

O Castelo de Guimarães
I
Já há muito que o nosso jornal, depois de ouvir os queixumes dum visitante ilustre e conhecedor da grandiosidade da nossa história pátria, condenou o indiferentismo a que estava lançado o vetusto castelo de Guimarães, o palácio do homem, que fez esta grande nação, e se bem nos recorda, apelou ele para o patriotismo da benemérita Associação Comercial, que não se demorou em representar ao governo pedindo os reparos necessários.
A petição da Associação Comercial foi atendida, mas nada se fez, como, em regra, sempre sucede em Portugal, para o que é de conveniência pública.
O castelo de Guimarães é um monumento nacional e, todavia, ele desfaz-se de ano para ano a olhos vistos, não tem o asseio nem a limpeza devida, possuindo uma escada de madeira podre que dá subida à torre de menagem, e para cúmulo, serve essa veneranda relíquia de paiol, o que equivale a dizer, tem em si o necessário para um dia, com qualquer descarga eléctrica, voar pelos ares!
Bem sabemos que nele há, como prevenção, um pára-raios; mas também sabemos que isso, suposto seja muito conveniente, não pode obstar de todo ao perigo, em que ele está, e até toda a cidade.
Os nossos ilustres colegas locais vêm iniciando uma campanha no sentido de chamarem para este importante assunto a atenção do governo.
Cá estamos também com as nossas humildes forças, e bom será que todos se unam em coluna cerrada contra o desmazelo, quase criminal, dos poderes públicos.
O castelo de Guimarães deve ser reparado convenientemente, primeiro que tudo, dando-se-lhe ao mesmo tempo limpeza e asseio condigno do primeiro monumento nacional, e nem tão grande será essa despesa.
É digno do maior elogio o procedimento do sr. Tenente-coronel Flores, quase um filho desta terra, patriota devotado, como sempre o tem mostrado, expondo ao ministério da guerra o estado de ruína em que o mesmo castelo se achava.
Secundemos nós todos os seus louváveis esforços.
O Comércio de Guimarães, 10 de Julho de 1908


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17 de dezembro de 2017

A Capela de S. João do Castelo.


Planta do Castelo de Guimarães, levantada pelo Capitão Luís Augusto de Pina (1928). A cor, o local de implantação da antiga capela de S. João Baptista.

A comissão de cidadãos que, a crer no que se escreveu nos jornais da época, quase transformou o Castelo de Guimarães num “mirante chinês”, propunha-se reparar a Capela de S. João. Na década de 1930, no decurso da intervenção que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) dirigiu no Castelo de Guimarães, procedeu-se à “demolição de uma capela e seu anexo, que obstruíam a praça do Castelo — demolição de que resultou ficar descoberto o lanço da muralha a que aquelas construções se arrimavam". Que capela era aquela?
Geralmente é apresentada como um acrescento sem qualquer interesse. O autor do texto do volume do Boletim da DGEMN, que assina D. João da Câmara, escreve que
Dentro, na praça de armas — onde, em redor da Torre de Menagem, viçavam largos hortejos e se alastrava uma alta parreira de ferro e arame — avultava, com os seus muros de pedra e cal arrimados à muralha, um barracão e ainda uma pequena capela sem nenhum valor tradicional ou artístico.

Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 8, O Castelo de Guimarães, 1937, p. 22.
Luís de Pina, na página 62 do seu estudo O Castelo de Guimarães, de 1933, classifica a capela dedicada a S. João Baptista como um casinhoto que “serviu de capela (por vezes paiol!)”.
Já o Padre António Ferreira Caldas, na sua monografia sobre Guimarães, publicada em 1881, descrevia assim o pequeno templo do Castelo:
Entre a torre de menagem e o lanço da muralha do lado sul está uma pequena capela, noutro tempo dedicada a S. João Baptista, e hoje profanada e convertida por vezes em paiol de pólvora dos corpos aqui estacionados.
António José Ferreira Caldas, Guimarães, Apontamentos para a sua História, 2.ª Edição, 1991, p. 409
Quando, em 1908, o Castelo foi elevado à condição de Monumento Nacional, parte das suas dependências continuaram na posse do Ministério da Guerra. Entre elas figurava o paiol que, ao que se percebe, ocupava o pequeno edifício da capela de S. João Baptista e a construção que lhe estava colada. Por essa altura, já não faltava quem defendesse que aqueles “casinhotos” deveriam ser demolidos. Em 1911, num artigo que publicou no jornal republicano Alvorada, em que defendia que o Castelo deveria ser objecto de um processo de reparações ou reconstruções que restaurasse “a sua originalidade, sem profanar o mais”, Jerónimo de Almeida defendeu que se deveria, “mudar o paiol da pólvora dali para fora, alagando igualmente a casa que a guardava”.
O restauro do Castelo de Guimarães empreendido na década de 1930 tem que ser entendido à luz do tempo em que foi feito e dos valores ideológicos então vigentes, associados à valorização dos momentos gloriosos da História nacional, de que os monumentos nacionais eram assumidos como “documentos vivos”, pelo que deveriam ser devolvidos, tanto quanto possível, às suas configurações originais. Compreendo que, como se enuncia no Boletim da DGEMN sobre o restauro do Castelo de Guimarães, com aquela obra, se curasse de “apagar antigas injúrias, de cicatrizar as chagas mais dolorosas”. E sei que, se fosse hoje, a orientação dada ao restauro seria bem diferente. No entanto, tenho dificuldade em aceitar que, como se diz no mesmo texto, a capela que então foi removida fosse de “nenhum valor tradicional ou artístico”.
Note-se que a Capela de S. João Baptista do Castelo não era de implantação recente. Embora as referências documentais que lhe conhecemos sejam escassas, é certo que já lá estava havia séculos. Numa efeméride anotada por João Lopes de Faria, está registado que, no dia 7 de Junho de 1770, D. Domingos de Portugal e Gama, Prior da Colegiada de Guimarães, numa visitação à igreja de S. Miguel do Castelo, mandou que fossem tomadas providências em relação à capela de S. João do Castelo, “que estava servindo para usos profanos”. Já antes, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, Torcato Peixoto de Azevedo situa, dentro da muralha do Castelo, “uma capela de S. João Baptista, aonde se diz missa”. O Padre Torcato, que nasceu em 1622, no que escreveu nada diz acerca de quem terá mandado erigir a capela. Provavelmente, não o sabia. Acredito que sempre a terá conhecido naquele lugar, pelo que lhe será anterior.
Da capela apenas conhecemos as fotografias que mostram a sua frente e o seu telhado. Pela sua singeleza, aceita-se que não tivesse valor artístico. O mesmo já não direi do seu valor tradicional. Uma capela dedicada a S. João Baptista erigida no Castelo de Guimarães, também conhecido por Castelo de S. Mamede, tem manifesto valor tradicional, simbólico e histórico. Não há como não a ligar à primeira tarde portuguesa, título feliz do mural em que o pintor Acácio Lino representou a Batalha de S. Mamede, que aconteceu a 24 de Junho de 1128. Em dia de S. João Baptista.
A antiga capela de S. João do Castelo (à direita). À esquerda, o paiol das tropas de Guimarães
Em primeiro plano, pormenor do telhado da antiga capela do Castelo.

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16 de dezembro de 2017

Os "amigos" do Castelo (2)

O Castelo de Guimarães, fotografado por Frederik W. Flower em 1845
A Comissão que que foi criada em 1850 para “reparar, reedificar e embelezar” o castelo de Guimarães tinha um programa de intervenção ambicioso. Iria proceder à reparação dos muros do Castelo, em parte em ruínas, dotar o alcácer de condições que permitissem percorrer o seu interior em condições de “segurança e suavidade”, fazendo portas, escadas, parapeitos e grades e ligar as suas diferentes torres (a que chamavam “castelos”) à torre de menagem (o “castelo central”), que seria repartida por vários pisos, com um terraço no seu topo que, pela altura a que se erguia, permitia “o melhor golpe de vista”. Sabemos pouco da intervenção de que o Castelo de Guimarães por obra desta comissão de melhoramentos. Mas sabemos o suficiente para nos  parecer perfeitamente ajustado o nome pelo qual não tardou a ficar conhecida: Comissão do Mirante.
As notícias que temos sobre do andamento das obras e as reacções que provocavam foram guardadas pelo inestimável João Lopes de Faria, que as copiou para as notas que compilou no volume Velharias Vimaranenses. A primeira é uma nota que saiu no jornal Ecco Popular, que se publicava no Porto, que João Lopes encontrou republicada a 5 de Setembro de 1850 num outro periódico, A Nação,
Há dias demos a notícia da nomeação de uma comissão (pela Câmara) encarregada dos meios de conservar o Castelo desta vila. Em vez de o conservarem têm-no metamorfoseado em mirante chinês: as seteiras foram convertidas em amplas janelas rasgadas; a rampa é uma escadaria moderna e o pano da muralha que unia o palácio ao Castelo sumiu-se. Os pintadinhos e doiradinhos dão-lhe uma tal graça que não sabemos porque o pobre do castelo nos dá seus ares de el-Rei D. Afonso Henriques vestido à janota.
Na opinião do articulista do Ecco Popular, o velho castelo de Guimarães estava a ser metamorfoseado num mirante chinês, com pintadinhos e doiradinhos. Um texto publicado no A Nação, em 30 de Setembro, dava conta da continuação do processo de descaracterização do monumento, e deixa um conselho sábio: “se não são capazes de compreenderem o que é a reparação de um antigo monumento, deixem-no como está”:
Consta-nos que a comissão encarregada da reparação do castelo de Guimarães tem continuado a exercer uma missão inteiramente contrária ao título da sua criação. Longe de reparar, destrói; longe de reestabelecer o que o tempo, e algumas vezes a ignorância, danificou, tem arruinado mais em poucos tempos, do que alguns séculos o poderiam fazer.
Pedimos a mais séria atenção do governo para semelhante objecto. Desejávamos ver desmentidas estas notícias, porque nos dói tanta barbária, onde esperávamos encontrar gente civilizada.
Inda que o governo [apure] se é ou não verdade que o palácio do Conde D. Henrique, aquele primeiro abrigo do fundador da monarquia, vai caindo aos golpes do camartelo.
Esperámos que não brademos debalde.
Queremos que se repare o castelo, queremos ver aquele monumento ressuscitado hoje, como era no primeiro século de sua existência.
Restaurem a cisterna, restaurem os muros; numa palavra, restaurem o castelo; não façam mirantes.
Se não são capazes de compreenderem o que é a reparação de um antigo monumento, deixem-no como está.
Sabemos que já alguém chama à comissão de reparadores do castelo — a Comissão do Mirante.
Ao menos adquirem um nome, que os há-de honrar!
Lembrem-se que a pedra também fala à posteridade.

Foi caso para dizer-se: com amigos como estes, quem precisa de inimigos?
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15 de dezembro de 2017

Os "amigos" do Castelo (1)

O Castelo de Guimarães em 1850. Desenho e litografia de J. P. Monteiro. 

Em 1829, 1836 e 1839 aventou-se a demolição do castelo ou, pelo menos da sua torre de menagem. Em 1836, quando ainda não se tinham apagado os ecos da guerra civil, a proposta partiu de um liberal mais exaltado, que pretendia fazer ao Castelo de Guimarães o mesmo que os revolucionários da França de 1779 fizeram à Bastilha, “por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”. Nos três casos, havia uma outra razão, menos revolucionária: as pedras do castelo (ou a receita da sua venda) seriam muito úteis para melhoramentos urbanos, nomeadamente para a reparação das calçadas das ruas. Das três vezes prevaleceu o valor histórico e patrimonial do velho monumento, que sobreviveu às tentativas para o derrubar.
Poucos anos mais tarde, quando o século XIX dobrava a meio, já o espírito do tempo era bem diferente. Já não se falava em arrasar o castelo, mas em cuidar dele. A Câmara Municipal instalou uma Comissão de cidadãos com a missão de “reparar, reedificar e embelezar o Castelo desta mesma Vila tão notável pela sua tradição e antiguidade, como belo e agradável pela sua posição”. No dia 21 de Julho de 1850, esta comissão fez distribuir uma circular em que anunciava os seus propósitos e solicitava o apoio, nomeadamente financeiro, dos seus concidadãos para poderem levar a bom termo a sua missão. E o velho e austero castelo de Guimarães, que tinha resistido a três tentativas para o derrubar, quase que morria às mãos de quem se apresentou para o salvar. Mas essa é uma história que contaremos mais lá para diante.
Por agora, aqui fica o artigo que Alberto Vieira Braga publicou em 1927, em que divulgava a circular da comissão de 1850.
~*~
O Castelo de Guimarães
Os seus velhos Amigos de há perto de um século.
Principiam agora a dispensar no Castelo de Guimarães muitas honras, honras de Chamadoiro no tocante ao registo ministerial, e se de alguma coisa estas crismas valem, que valham praticamente, tornando os honrarias protocolares no valimento de obras necessárias, a que de há muito espera aquela relíquia, considerada Monumento Nacional nos livros velhos das repartições ligadas ao assunto monumentos.
Agora todos lhe querem e o querem, porque o vêem desencantado dos quintalórios, tendo merecido honras de proveito e de valor no esforço votado, quase que em silêncio e modestamente, para desentulhar, num rasgado de nova sensação, tão majestoso Castelo, que nos aparece nas primitivas bases de domínio e
Quem sabia lá como aquilo era!
E afinal assim por ali de roda devia ter sido o pedestal do Castelo dominador.
Fez bem a Câmara em ordenar aquela sua melhor obra, e muito se deve a José de Pina, que tem sabido olhar por ela e dela tem sido a alma, dispensando-lhe amor e saber, no arranjo da moldura para ainda ao jeito tão grande maravilha, imponente nas torres que se levantaram no passado em mirantes de vigília e de guerra.
Agora, que os que lhe deram as honrarias da nova incorporação ministerial, lhe completem a obra, para que o Castelo de Guimarães seja como deve e merece, o orgulho maior dos Portugueses.
Na imprensa tem tido ele, ultimamente, os melhores pugnadores, bons e persistentes pugnadores, tem sido incensado como merece, tem sido carinhosamente tratado de palavras, e de ânimo valoroso e em riste têm os pugnadores vigilantes, entusiasmado os homens do mando para que para que façam no Castelo as obras de que necessita.
Amigos, teve-os sempre. O interesse dos Vimaranenses por aquela relíquia, foi de todos os tempos.
E é bom que se saiba tudo isto, para satisfação nossa, para elogio dos nossos antepassados, que sempre pugnaram pela melhoria e conservação do Castelo de Guimarães.
Quem revolve papéis velhos topa sempre coisas interessantes, e interessante não deixa de ser a circular que um grupo de Vimaranenses espalhou há 77 anos pela vila de Guimarães, em defesa do Castelo.
Dessa data em diante, uma vez o grito lançado, surgiram os primeiros amigos do Castelo.
É curioso o plano de melhoramentos de então, muito ao sabor desses tempos, que não se abriam em rasgos e larguezas de obras bem calculadas e bem ajustadas.
Mas louvemos-lhes a boa vontade.
Com os tempos, é bem certo, voltam outros homens e mudam muitas coisas.
Surgiram, pois, em 1850, os primeiros amigos do Castelo, e deles nasceu o primeiro plano de obras.
Não queremos dizer que esta data seja a mais antiga defensora do Castelo. A mais antiga e conhecida até hoje, sim, é natural...
A circular diz:
“A Comissão composta dos Cidadãos abaixo mencionados, e instalada debaixo dos auspícios da Ilma. Câmara desta Vila de Guimarães, para o fim de explorar, reparar, reedificar e embelezar o Castelo desta mesma Vila tão notável pela sua tradição e antiguidade, como belo e agradável pela sua posição apresentando os melhores pontos de vista, convida todos os Cidadãos desta mesma Vila para subscreverem com quaisquer quantias a fim de ser levada a efeito uma tal empresa de reconhecido e geral interesse.
A Comissão tem em vista reparar os muros do Castelo que se acham desmoronados, e em estado de ruína, fazer portas, escadas, parapeitos e grades, para que se possa passear em volta do mesmo Castelo com segurança e suavidade — tornar comunicáveis os pequenos castelos com o grande Castelo Central, fazendo-se neste diferentes andares, sendo o último um terraço, que pela sua elevação apresentará o melhor golpe de vista — reparar a Capela de S. João e fazer enfim tudo o mais que se torne útil e conveniente na proporção dos meios que se forem obtendo.
A Comissão não poupará esforços para corresponder à confiança da Ilma. Câmara sempre desvelada em promover os interesses e vantagens do Município. A mesma Comissão para dar aos Cidadãos desta Vila um testemunho liei dos interesses que toma nesta empresa, não só concorre com seus trabalhos e fadigas, mas também subscreve com quotas pecuniárias, e espera que seus Concidadãos Vimaranenses animados de igual interesse seguirão o seu exemplo.
Guimarães, 21 de Julho de 1850,
Presidente
Rodrigo Lobo Machado e Couros.
Domingos de S. Miguel Durães.
João Machado de Melo e Castro.
Francisco de Azevedo Varela.
Custódio José Fernandes Guimarães.
João António Fernandes Guimarães.”

Agora, e pelo mesmo preço, um alvitre:
Que aprontem as obras no próximo ano, lá para a data da batalha de S. Mamede, e servindo o Castelo de pano de fundo, de cenário imponente e majestoso, fora ou dentro, quer na lembrança das lutas íntimas, quer na recordação de guerrilhas em campo livre, façam que ali, alguém de nome, em apoteose, venha dizer do valor daquele monumento e do seu significado dentro da história de Portugal, fazendo-nos viver aquela vida toda de entre as muralhas, ameias e torres, erguendo os nossos olhos as figuras mais prestigiosas do tempo, e assim terão dado uma lição de civismo, de passo que tornarão conhecida do povo a história de Guimarães, ligada ao tão falado Castelo, velho Monumento Nacional.
Alberto V. Braga
O Comércio de Guimarães, 14 de Outubro de 1927

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14 de dezembro de 2017

Não vai abaixo.

Em 1836, como já vimos, foi estrondosamente chumbada em reunião da Sociedade Patriótica Vimaranense uma proposta para demolir o Castelo. Já vimos também que não tinha sido a primeira vez que alguém tentou avançar com ideia tão peregrina. Também não terá sido a última. Em 1939 voltou a estar em cima da mesa, como nos diz Alexandre Herculano, na segunda parte do artigo que publicou no jornal O panorama, em Fevereiro de 1839, com o título “Monumentos”, onde, a dada altura, escreve, a propósito das obras que os cónegos tinham mandado fazer na Colegiada:
E os habitantes de Guimarães que disseram, durante oito anos que os vermes andaram a roer naquele cadáver?
Louvaram o bonito da nova obra: e alguns há que já se lembram [segundo nos diz o nosso correspondente] de demolir os restos das venerandas muralhas, que de tantos combates são testemunhas, e de pôr ao livel do chão as paredes que ainda existem dos paços de D. Henrique; dos paços, onde D. Afonso 1 .º nasceu, e onde, passados anos, entrou vitorioso do sua mãe, que vendera a terra de homens livres por preço do amor do estrangeiro. Arrasar-se-ão, pois, os restos dos muros alevantados pelo rei lavrador, e os paços dos nossos primeiros monarcas, e apenas ficara aí o frontispício da antiga colegiada, como esquecido pelos vândalos do pau dourado, e do estuque, enquanto se aguçam as picaretas que o devem derrubar, ou se vai delindo a cal, com que, para rasgar de todo o último documento de nobreza da velha Guimarães, se há-de branquear e estragar esta última página do passado, para consolação e regalo da ilustradíssima geração actual.
E haverá um governo que o permita?*
Texto de Alexandre Herculano, originalmente publicado sem assinatura em O panorama: jornal literário e instrutivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis Vol. III, 3.º da 1ª Série, N.º 93, 9 de Fevereiro de 1839, p. 44.
No jornal O Ecco, na sua edição de 12 de Novembro de 1839, voltámos a encontrar referência à intenção de vender a pedra do Castelo e do Paço dos Duques, num texto que reproduz de um outro periódico, O Paquete do Ultramar, onde se lia:
Assim vemos nós esses gigantescos edifícios que a piedade erguera, caírem, uns no alvião da inovação, outros à fúria sistemática dos tempos. Agora mesmo dois respeitáveis edifícios de Guimarães, os mais velhos, os mais históricos foram louvados para serem vendidos!! Um é o Castelo! o outro o Palácio do Duque D. Jaime! Monumentos orgulhosos, sobre cujas cúpulas eternas tinham passado os Séculos! Ambos serão da fundação da Monarquia, e o último servia de quartel desde a Guerra Peninsular; quartel em que a Nação gastou muitos mil cruzados; para agora ver em terra, com o vil interesse de lhe vender a pedra!! E não surgiram das sepulturas as sombras de nossos A vós, e não suspenderam o alvião deste Progresso vandálico! Não haverá uma Câmara que se oponha! Sofrerá o passado ser absorvido pelo presente! as recordações históricas pelo esquecimento! e a glória do nosso nome pelo charlatismo nivelador! Homens das inovações, sectários do vandalismo moderno, que mal vos fez a nossa infeliz Pátria? quereis que este torrão chamado Portugal não seja português? quereis que ele seja castelhano? envergonhais-vos se nossos Pais venceram sempre os Castelhanos, e em 1640 anularam com heroísmo a venda infame que traidores deles fizeram aos vassalos de Filipe! Que quereis vós? Grande parte de nossos venerandos templos desapareceram da face do País para apagar os Emblemas da Religião! Nossos monumentos históricos vão caindo para extinguir a memória de nossos antigos feitos! Arrasai o Convento de Belém, que marca a época do descobrimento da Índia! Arrasai o Convento da Batalha, que nos lembra o combate de Aljubarrota, e a vergonha dos vossos amigos Castelhanos! Derrubai a Estátua, que nos memora a reedificação da Capital, e o reinado de um grande Rei! Vossa lava revolucionaria levou consigo a lei fundamental do País! nossos, antigos códigos, nossa indústria, nosso comércio, nosso exército, nossa riqueza; que mais quereis!
O Ecco, Jornal crítico, literário e político, n.º 423, 12 de Novembro de 1839, p. 7162-7163 (transcrição de artigo publicado no n.º 104 da publicação Paquete do Ultramar)

O que diz Herculano, baseado em informação que lhe fora transmitida de Guimarães é confirmado pela acta da reunião da vereação da Câmara de Guimarães de 22 de Outubro daquele ano, de onde se fica a saber que um tal Joaquim José da Cunha pretendia que lhe fosse concedido, por aforamento, uma porção de terreno pertencente ao castelo. Naquela reunião, foi cancelada a vistoria ao terreno pretendido, que estava marcada para do dia 27 de Novembro daquele ano, até que se apurasse quem era o seu proprietário, se a Câmara, se o Estado.
Não consegui apurar se a vistoria se chegou a realizar. O que é certo é que, três dias depois da data para que estava inicialmente prevista, a Câmara dirigiu à rainha D. Maria II um pedido para que fossem conservados aqueles dois monumentos.
Não foi desta que o castelo foi abaixo.




* A versão refundida deste texto que foi publicada no segundo tomo dos Opúsculos de Alexandre Herculano é um pouco diferente:

E que disseram os habitantes de Guimarães, durante oito anos em que os vermes andaram a roer naquele cadáver?

Louvaram o bonito da obra. O longo tasquinhar do cabido despertou-lhes, até, o apetite. Alguns lembram-se já de demolir as muralhas da vila reconstruídas por D. Dinis. Talham ainda ban­quete mais lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique; dos paços onde Afonso I, nasceu. A glória dos cónegos de Santa Maria, da Oliveira, tão dispendiosamente; conquistada, ofuscar-se-ia, assim, por pouco dinheiro, como a luz pálida da lua nos esplendores do surgir do sol.

Alexandre Herculano, “Monumentos Pátrios”, in Opúsculos – Obras Públicas, 1873, Tomo II, págs. 39-43





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