Em 1908, Guimarães defende o seu Castelo (1)

Adarve do Castelo de Guimarães, numa fotografia de Eleutério Cerdeira, do princípio do século XX. Em primeiro, o telhado do paiol militar. Do lado esquerdo, são visíveis os arames da ramada que lá dava uvas.

E meados de 1908, o Castelo de Guimarães, que pertencia ao Ministério da Guerra, estava votado ao abandono, desfazendo-se” se de ano para ano a olhos vistos”. A continuação do paiol das tropas no seu recinto colocava o monumento (e a própria cidade) em risco. Guimarães mobilizou-se em defesa do mais emblemático monumento nacional. A imprensa local deu voz a essa exigência, com destaque para o jornal O Comércio de Guimarães, que publicou uma longa série de artigos tendo o Castelo como tema. O primeiro, que aqui se reproduz a seguir, foi publicado no dia 10 de Julho de 1908.

O Castelo de Guimarães
I
Já há muito que o nosso jornal, depois de ouvir os queixumes dum visitante ilustre e conhecedor da grandiosidade da nossa história pátria, condenou o indiferentismo a que estava lançado o vetusto castelo de Guimarães, o palácio do homem, que fez esta grande nação, e se bem nos recorda, apelou ele para o patriotismo da benemérita Associação Comercial, que não se demorou em representar ao governo pedindo os reparos necessários.
A petição da Associação Comercial foi atendida, mas nada se fez, como, em regra, sempre sucede em Portugal, para o que é de conveniência pública.
O castelo de Guimarães é um monumento nacional e, todavia, ele desfaz-se de ano para ano a olhos vistos, não tem o asseio nem a limpeza devida, possuindo uma escada de madeira podre que dá subida à torre de menagem, e para cúmulo, serve essa veneranda relíquia de paiol, o que equivale a dizer, tem em si o necessário para um dia, com qualquer descarga eléctrica, voar pelos ares!
Bem sabemos que nele há, como prevenção, um pára-raios; mas também sabemos que isso, suposto seja muito conveniente, não pode obstar de todo ao perigo, em que ele está, e até toda a cidade.
Os nossos ilustres colegas locais vêm iniciando uma campanha no sentido de chamarem para este importante assunto a atenção do governo.
Cá estamos também com as nossas humildes forças, e bom será que todos se unam em coluna cerrada contra o desmazelo, quase criminal, dos poderes públicos.
O castelo de Guimarães deve ser reparado convenientemente, primeiro que tudo, dando-se-lhe ao mesmo tempo limpeza e asseio condigno do primeiro monumento nacional, e nem tão grande será essa despesa.
É digno do maior elogio o procedimento do sr. Tenente-coronel Flores, quase um filho desta terra, patriota devotado, como sempre o tem mostrado, expondo ao ministério da guerra o estado de ruína em que o mesmo castelo se achava.
Secundemos nós todos os seus louváveis esforços.
O Comércio de Guimarães, 10 de Julho de 1908


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