A nêspera (3)


No início desta série de textos dedicada a esse fruto quase esquecido, escrevi que a nêspera tem muita história e muita literatura. Agora, vou começar a explicar porquê. A forma, a consistência e o processo de maturação da nêspera prestam-se a metáforas, trocadilhos e eufemismo que remetem, nomeadamente, para jogos sexuais e para a fragilidade da condição humana, que diversos escritores trabalharam nas suas obras.
No Novo Diccionario das Linguas Portugueza e Franceza, de José Marques, publicado em 1764, encontrei um provérbio que remete para o processo de amadurecimento da nêspera, que, tal como os pequenos e grandes empreendimentos humanos, carece de tempo, constância e paciência até que alcance a sua plenitude:
Com o tempo e a palha as nêsperas amadurecem.
Por não encontrar qualquer outra referência a este provérbio em língua portuguesa, suponho tratar-se de uma versão aportuguesada do original italiano con il tempo e con la paglia maturano le nespole.

[A propósito, refira-se que, em Itália, o fruto da nespereira europeia, germânica ou comum, não obstante o decaimento, em tempos recentes, do seu cultivo e do seu consumo, a ponto de já ser classificado como uma espécie esquecida ou menor, continua a alimentar tradições populares significativas. Há mesmo uma pequena povoação do Piemonte, Farigliano, onde, a par de S. Nicolau, a nêspera — aí chamada de puciu — é um dos protagonistas de uma festividade que acontece no início de Dezembro de cada ano. Na Fiera dei Puciu e di San Nicolao (Feira da Nêspera e de S. Nicolau) destaca-se a distribuição comunitária da minestra degli uomini, uma sopa particularmente substancial, preparada pelos homens da terra, que dá sustento e ajuda a enfrentar o frio Inverno.]

A nêspera, com o sentido que lhe é dado no provérbio italiano, enquanto metáfora de amadurecimento tardio, tem sido recurso de alguns dos maiores escritores da língua inglesa. O exemplo mais antigo que encontrei leva-nos até à Idade Média. Está nos Contos de Cantuária (The Canterbury Tales), de Geoffrey Chaucer (c. 1343-1400), nos versos 14 a 28 do prólogo do Conto do Feitor (The Reeve's Tale):
Terminou o tempo o pasto, é a hora da forragem. O meu coração está ressequido como os meus cabelos. Acontece-me como às nêsperas, esse fruto que vai de mal a pior, até que fica podre, no refugo ou na palha. Temo que nós, os velhos, obedecemos a esta lei: não podemos ser maduros, enquanto não estivermos podres. Continuaremos a dançar, enquanto o mundo nos der música. Sempre haverá um prego a atravessar-se no nosso desejo, por termos a cabeça branca e o rabo verde, como o alho-porro. A nossa força pode ter desaparecido, mas não nos abandonaram os desejos lascivos. Quando já não os pudermos concretizar, poderemos falar deles, como que a revolver as cinzas em busca do antigo fogo.
Neste trecho da obra de Geoffrey Chaucer, a nêspera surge como metáfora irónica do destino do homem que, com a idade, alcança a maturidade e a sabedoria que lhe permitem contemplar o objecto do desejo com uma veemência que o corpo já resiste a acompanhar.
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O excerto dos Contos da Cantuária utilizado nesta publicação é tradução cá da casa, a partir da seguinte versão do texto medieval, em inglês contemporâneo:

Grass time is done, my fodder is rummage,
This white top reveals my old years,
My heart, too, is as mouldy as my hairs,
Unless I be like medlar, all perverse.
That same fruit increasingly grows worse,
Until it's rotten in mullock or straw.
We old men, I fear, obey this law:
Until we're rotten, we cannot be ripe;
We always hop along, while the world will pipe.
Our will is always catching on the nail,
To have, if hoary head, a verdant tail,
As has the leek; for though our strength be gone,
Our wish is yet for folly till life's done.
For when we may not act, then will we speak;
Yet in our ashes is there fire to reek
Geoffrey Chaucer, The Canterbury Tales, “The Reeve's Prologue”, linhas 14-28

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