29 de novembro de 2009

Nicolinas


João de Meira, por Abel Cardoso. Colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Anda no ar, nos dias que correm, alguma polémica acerca da designação Nicolinas, atribuída às festas dos estudantes de Guimarães. Estas festas nem sempre foram chamadas assim, usando-se antigamente a expressão "Festejos a S. Nicolau". Tanto quanto conhecemos da documentação conhecida, a palavra nicolinas apareceu no início do século XX. Ao que sabemos, o documento mais antigo em que essa expressão foi usada terá sido o pregão de 1904, escrito por João de Meira, que terminava assim:



Rapazes! Nossa música divina
Capaz de estremunhar até Morfeu!
A Música da festa Nicolina
Que a terra abala e desconjunta o Céu!
Mais força, se é possível, mais ferina,
Que inda não é bastante este escarcéu!
Façamos tal restolho, tal chinfrim
Que o inferno pareça aqui assim!...



Voltamos a encontrar a expressão Festas Nicolinas numa notícia sobre a célebre posse do Padre Monteiro do ano de 1904, publicada no jornal Independente, em 11 de Dezembro daquele ano. João de Meira era um dos principais colaboradores daquele jornal. Aqui fica a sua transcrição:



Festejos a S. Nicolau

A POSSE DO PADRE MONTEIRO

Com grande entusiasmo, realizou-se este ano, na noite de 4 do corrente, a costumada posse em casa do nosso prezado amigo snr. padre António Augusto Monteiro.

Eram quase 9 horas quando tomou a presidência o rev. Francisco António Peixoto de Lima, presidente vitalício e grande entusiasta das festas nicolinas, secretariado pelos snrs. dr. António Amaral e Jerónimo Sampaio.

Lida a acta da última sessão, passou-se à ordem da noite que consistiu em fazer passar ao estômago maçãs, uvas, nozes, pinhões, castanhas, figos de ceira, doce sortido, pastéis e vinho verde, de Lamego, de Murça, cognac e aguardente de bagaço.

Aos brindes, pediram o chapéu os snrs: padre Francisco Lima, que fez uma saúde a todos os seus consócios naquela posse, especializando o seu velho o querido amigo padre António Monteiro.

O snr. dr. António Amaral brindou ao dono da casa e fez votos para que sua exa. abundasse sempre nas mesmas ideias.

O snr. João Amaral bebeu à saúde de todos os assistentes e pediu para que se exarasse na acta um voto de profundo pesar pelo falecimento do entusiasta rev.º Eugénio de Araújo Mota.

O snr. Manuel Luís do Pina disse que, se um dia os estudantes, por qualquer motivo, deixassem da fazer a festa que se fizesse todo o possível para readquirir o quadro de Minerva, a fim de ser colocado na sala do padre Monteiro visto ser ali que todos os anos se reuniam os verdadeiros entusiastas das festas do S. Nicolau.

O snr. Jerónimo Sampaio, depois de agradecer as amáveis referências do seu amigo padre Lima saudou os três militares ali presentes: major Flores, capitão Martins e tenente Novais Teixeira e fez os mais sinceros votos para que nunca deixasse de se reunir ali em alegre convívio, aquele grupo de entusiastas das festas escolásticas

O snr. Fernando Amaral bebeu à saúde do padre Monteiro, rei-imperador daquela festa tão simpática.

O snr. João Barbosa brindou ao seu amigo padre António Carvalho, o qual agradeceu, saudando todos os assistentes.

O snr. major Flores, em seu nome e no do filho do Vae-Boden da Transilvânia ,pedia desculpa de não ter comparecido à posse no ano anterior e bebeu à saúde dos novos e velhos entusiastas.

O sur. padre Monteiro, agradecendo as amáveis referências que lhe foram dirigidas, declarou que todos os anos receberia naquela noite, com o maior prazer os seus amigos e entusiastas dos tradicionais folguedos.

A dança do Rei David foi magistralmente executada, bem como o hino escolástico, que foi deliciosamente cantado sob a hábil regência do entusiasta Domingos Leite Mendes. Seis vezes foi bisado e seis vezes foi extraordinariamente aplaudido.

Na sala compareceu, por mero acaso, um distinto fotógrafo amador que de bom grado se prestou a fotografar sua majestade o rei-imperador António Monteiro e sua alteza realíssima o príncipe Francisco Lima, cujo grupo será distribuído para o ano, se o cliché não estiver inutilizado, o que é mais provável, em virtude da muita luz que estava na sala.

Já quase ao terminar aquela alegre festa, apareceu na rua a briosa academia e em frente da habitação do snr. padre Monteiro saudou com bravos e palmas os velhos entusiastas das festas. À janela apareceram todos os convidados do padre Monteiro que, por sua vez, levantaram vivas aos académicos e principalmente à comissão de 1904.

À posse compareceram os seguintes snrs: Padre António Monteiro, padre António Mendes Leite, padre António de Carvalho, António Amaral, Fernando Amaral, Alves Mendes, Jerónimo Sampaio, João Andrade, Domingos Leite Mendes, padre Francisco Lima, padre Manuel Ramos, Major Fores, José de Freitas, João Lopes de Faria, capitão Martins, tenente Teixeira, João Barbosa e Rodrigo José Leite Dias.

Foi lido um ofício em nome do snr. Agostinho Dias de Castro, pedindo desculpa de não comparecer na posse por se encontrar actualmente no Seminário de Braga.

Independente, 4.º ano, n.º 159, Guimarães, 11 de Dezembro de 1904

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14 de novembro de 2009

Os limites da cidade de Guimarães em 1853


Vista de Guimarães, em meados do século XIX.

Em 1916, o jornal o Republicano, de Guimarães, publicou uma nota em que se descreviam os limites de Guimarães, em meados do século XIX, no momento em que de vila passou a cidade:

Velharias

A vila de Guimarães, elevada à categoria de cidade por decreto de 22 de Junho de 1853, como os leitores sabem, tinha os seguintes limites:

1.º Arco dos Capuchos.

2.º Embocadura da Rua de Santa Cruz, junto às casas do Padre Martinho.

3.º Carrapatosa, ou Casa das Hortas.

4.º Portal de ferro do Conde de Vila Pouca, do lado das Capuchas.

5.º A casa de Vila Verde, além do rio da Rua de Couros.

6.º A cancela do fim da Rua de Relho.

7.º O portal do Sabacho, acima do Estrepão.

8.º O ortatório da rua de Cruz de Pedra, ou o largo desta Rua.

9.º O portal de ferro da quinta dos Pombais.

10.º A porta do carro, que dá entrada para a cerca do extinto convento de S. Domingos.

12.º As casas do portelo ao Norte da Margaride.

[O Republicano, n.º 2, ano 1, Guimarães, 1 de Abril de 1916.]

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10 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (6)


[Ler texto anterior]
 
Do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, provavelmente o primeiro proprietário da edição de 1572 de Os Lusíadas da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, eis a biografia conhecida, traçada pelo Abade de Tagilde no n.º 1 da Revista de Guimarães:

Torquato Peixoto de Azevedo

Filho do sargento-mor João Rebelo Leite e de sua mulher D. Isabel Peixoto de Azevedo, irmão do célebre João Rebelo Leite, cujos serviços à pátria na guerra da Aclamação lhe granjearam a graduação de Mestre de campo ad honorem por carta régia de 15 de Janeiro de 1664 e a quem bem cabe a antonomásia de Lidador Vimaranense, que lhe dá o P.e Caldas, nasceu o nosso terceiro monografo — e não primeiro, como erradamente se afirma no Dicionário Popular dirigido pelo exc.mo Pinheiro Chagas — a 2 de Maio de 1622.

Desde criança madrugou nele a inclinação para as letras, especialmente para a história, predilecção que sempre conservou até aos últimos dias de sua vida, empregando todas as horas, que lhe restavam das suas obrigações sacerdotais, no estudo para que, como ele mesmo diz, a ociosidade, mãe de vícios por inimiga da virtude, não fosse ocasião de estragar-se-lhe a honra.

Trabalho tão assíduo não podia deixar de produzir fruto, e assim a sua pena se (levem além de três cadernos de importantes notícias, trinta e cinco volumes; vinte e dons dos quais no tempo de Barbosa Machado se achavam em poder de Manuel Peixoto dos Guimarães Freitas e Miranda, senhor da quinta de Lamelas na freguesia de Santo Adrião de Vizela então do termo de Guimarães e hoje do concelho de Felgueiras, filho de D. Mafalda Luísa Leite de Azevedo, filha de António Leite Ferreira, irmão do nosso monógrafo.

Segundo o testemunho de Barbosa Machado e de D. António Caetano de Sousa, dez destes volumes ocupavam-se das vidas de diversos reis de Portugal e Castela, duques de Bragança e de Lorena e descendência das casas reais de Castela e Áustria e as doze restantes tratavam de genealogias de famílias portuguesas, provavelmente minhotas, examinadas com judiciosa crítica.

Uma outra obra se deve ao estudo incansável do P.e Torquato Peixoto de Azevedo e é ela que nos leva a ocuparmo-nos agora deste nosso patrício. São as Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, impressas em 1845 no Porto — tipografia da Revista.

Esta obra, escrita pelo seu autor para fornecer a seus leitores exemplos não só "para conservação da vida humana como para o conhecimento do perigo de que nos devemos desviar para não chegar a perder a eterna" compreende "as primeiras polícias da nossa antiga Araduca, a fundação da nova Guimarães e de sua igreja real; sua grandeza, moradores, freguesia, concelhos, coutos e honras de seu termo; edifícios, mosteiros, capelas, rios, pontes e fontes suas vizinhas; morgados e privilegias, isenções e liberdades com que foram honrados de seus réis; casos e sucessos que na sua defesa e do reino lhe sucederam", Assim o promete a autor na prefação. Satisfaria?

Tem a Antiga Guimarães 142 capítulos, que nem todos se ocupam de Guimarães, pois os primeiros 44 tratam, ainda que resumidamente, da divisão da terra pelas filhos de Noé, descrição da Europa, povoação da Espanha e diferentes divisões que no correr dos tempos sofreu, formação de Portugal, povoação e sucessos de Entre-Douro-e-Minho, tanto no tempo dos Gregos, Celtas — se estes aqui vieram —. Como no dos Romanos, Gados e Árabes. Os restantes 98 capítulos, que abrangem 355 páginas, ocupam-se do que mais directamente diz respeito a Guimarães situada "no meio de tão excelente província de Entre-Douro-e-Minho, como pedra preciosa desta jóia, esmaltada de excelências".

No curto espaço duma biografia e escrita corrente calamo não nos é possível, embora possuíssemos a competência que nos mingua, desenvolver apreciações criticas relativas aos capítulos, que tratam das causas de Guimarães, e mesmo porque a confrontação da Antiga Guimarães com a obra ultimamente publicada Guimarães, apontamentos etc., põe em relevo as faltas e merecimentos do P.e Torquato.

Suposto que este título da Antiga Guimarães não seja muito próprio para cativar e prender a atenção do leitor e apesar de em tanta variedade de factos depararmos algumas inexactidões e mesmo contradições e por vezes nos enfadar tanta difusão, talvez desnecessária e nem sempre uma rigorosa crítica lhes servir de norte, as Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães hão de sempre ser consultadas por quem deseje conhecer as transformações por que a velha pátria do rei conquistador ia passando.

O P.e Torquato coloca-nos à mão muitos dados, cujo conhecimento só alcançaríamos manuseando grossas volumes e dá-nos conta de outros, que não adquiriríamos sem o seu auxílio. Deixa-nos alguns pontos que desejaríamos mais lucidamente desenvolvidos e de boamente prescindiríamos de algumas minuciosidades, que nos narra. Mas onde a formosura sem senão?

É necessário também ter em vista a época em que escreveu o nosso patrício; sua obra não podia deixar de ressentir-se da influência do seu tempo e neste quase todas as produções literárias, como diz o Dicionário Popular, são difusas, prolixas, obscuras.

Eis o nosso desautorizado parecer acerca da P.e Torquato Peixoto de Azevedo, esse indefesso vimaranense, que terminou sua longa carreira na idade de 83 anos aos 23 de Junho de 1705.

João Gomes de Oliveira Guimarães, "Monógrafos vimaranenses", Revista de Guimarães, n.º 1 (4) Out.-Dez. 1884, p. 190-195

Se as Memórias ressuscitadas do Padre Torquato se ressentem, quanto à objectividade histórica, da influência do seu tempo, da sua leitura parece resultar claro tratar-se de um excelente prosador.

Tem a antiguidade muitas sombras, porque são nela tantas as escuridades como os anos, e o que se soube bem esconder nunca se pode bem conhecer, pelo que acham os tempos testemunhas falsas nas histórias, se os anais não são verdadeiros, e é temeridade querer pôs à luz o seu principio, quando o descuido dos que viveram naqueles primeiros séculos não deixaram notícias de suas memórias…

Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memorias ressuscitadas da antiga Guimarães, 1692 (edição de 1845, cap. I, p. 9).

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9 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (5)


[Ler texto anterior] 
 

Apurado tudo quanto haveria para apurar em relação ao último proprietário do volume do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, antes da sua entrada para o acervo da SMS, passou-se a explorar a pista "Azevedo", manuscrita no frontispício da obra. Como Azevedo se trata de um sobrenome relativamente comum, tentou-se encontrar algum nexo entre os Lusíadas, Guimarães e alguém assim chamado. Colocaram-se diversas hipóteses, das quais ressaltou uma especialmente plausível: um dos primeiros monógrafos de Guimarães, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705), autor das Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, que conhecia bem a obra de Camões, a quem cita, dizendo que o insigne Camões a quem nada ficou por dizer tocou a luz (pp. 155-156 do manuscrito de 1692 e 202-203 da edição impressa de 1845, que contém graves erros de transcrição, como por exemplo o de, na citação da estrofe 7.ª do Canto I, trocar o Ocidente, que aparece no manuscrito, pelo Oriente).



Procedeu-se, em seguida, à comparação do 'Azevedo' do frontispício dos Lusíadas com o da assinatura do Padre Torcato no manuscrito das suas Memórias ressuscitadas… e, apesar da diferença óbvia no desenho da letra z, que resulta do facto de, nos Lusíadas, a palavra ter sido quebrada em duas linhas (Azeve/do), apresenta semelhanças muito convincentes: os dois Azevedos parecem ser um só. Em seguida, procuraram-se outros manuscritos do Padre Torcato e encontrou-se um grosso volume contendo um Nobiliário, da sua autoria, onde se traçam as genealogias de diversas famílias da nobreza portuguesa. Cotejando este manuscrito com a rubrica que aparece nos Lusíadas, desvaneceram-se as dúvidas, mesmo em relação ao z dissonante. O 'Azevedo' da marca de posse dos Lusíadas é o ilustre Padre Torcato Peixoto de Azevedo.
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8 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (4)



No livro de actas da direcção da SMS está registado que, na sessão de 1 de Novembro de 1886, foi decidido comprar por duzentos mil réis as livrarias dos dois irmãos Cardoso (o cónego dedicava-se à escrita, sendo autor de diversas peças teatrais; o seu espólio literário foi doado por uma irmã à SMS). No "Boletim" referente ao último trimestre de 1996, publicado na página 48 do n.º 4 da Revista de Guimarães (1887), faz-se menção à aquisição destas importantes livrarias, obtidas pela diminuta quantia de 200$000 réis. Quanto ao espólio adquirido, diz-se que é composto na sua máxima parte de obras de reconhecido merecimento e necessidade incontestável. Nada se refere quanto aos Lusíadas. A notícia de que esta obra fazia parte do acervo bibliográfico adquirido pela SMS aparece no jornal O Comercio de Guimarães, em 10 de Janeiro de 1887:

A primeira edição dos «Lusíadas»

Entre as obras valiosas e raras, que faziam parte da importante livraria do falecido jurisconsulto, snr. Dr. Bento António de Oliveira Cardoso, adquirida, como noticiámos, pela benemérita Sociedade Martins Sarmento, encontra-se a primeira edição dos «Lusíadas» impressa em 1572, sendo ainda vivo o grande poeta.

O exemplar dessa edição, que, como se sabe, é raríssima e dum alto valor, está no mais perfeito estado de conservação, e cobre-a uma encadernação magnífica e sólida.

Estabelecido o modo como o volume chegou à posse da Sociedade Martins Sarmento, falta traçar-lhe o percurso até entrar na posse de Bento Cardoso. Num dos anúncios para a venda da biblioteca de Bento Cardoso publicados no Comércio de Guimarães, encontrámos a referência a um catálogo que poderia ser consultado por eventuais interessados que com a compra dos livros também deveria ter passado para a posse da SMS. Efectivamente, no ficheiro dos manuscritos da Biblioteca da Sociedade há um documento com o título Catálogo dos livros do Dr. Bento António de Oliveira Cardoso. Trata-se de um grosso volume, com excelente encadernação. Infelizmente, todas as suas páginas ficaram em branco.

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7 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (3)



Como os livros que eram oferecidos à Sociedade Martins Sarmento eram registados nas actas da Direcção e nada havendo a respeito do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, presumiu-se que a obra teria chegado á biblioteca por outra via. Seguindo uma indicação da investigadora Maria José Meireles, que já se tinha deparado com uma referência à chegada dos Lusíadas na década de 1880, foi possível apurar que, afinal, o exemplar da SMS não tinha sido doado, mas que havia sido comprado num leilão, após a morte do seu anterior proprietário o Dr. Bento Cardoso, um conhecido bibliófilo, reputado advogado de Guimarães, (Camilo Castelo Branco refere-o na Brasileira de Prazins). Nas páginas 166 e 167 da 2.ª edição, de 1996, da obra Guimarães – Apontamentos para a sua História, do Padre António José Ferreira Caldas (1.ª edição: 1881), encontra-se a seguinte nota:

"— Bento António de Oliveira Cardoso, cavaleiro da Ordem de S. Tiago da Espada, bacharel em cânones pela universidade de Coimbra, sócio correspondente da Associação dos advogados de Lisboa, etc. Nasceu a 25 de Janeiro de 1806. Escreveu magistralmente sobre vários assuntos jurídicos, que se acham publicados na Gazeta dos Tribunais e no Portugal, assim como vários artigos sobre medicina legal. A respeito da sua ALEGAÇÃO JURÍDICA, QUESTÃO DE ÁGUAS SUBTERRÂNEAS, etc., diz o snr. António Gil que é uma das mais ricas alegações que se podem imaginar, rica na forma e na matéria, e notável principalmente na parte em que trata dos vedores, e da vedoria, por ser este assunto, se não completamente ignorado, ao menos bastante estranho a quase todos que cursam o foro na capital. As ALEGAÇÕES JURÍDICAS do nosso egrégio patrício, das quais faz comemoração honrosa o snr. Inocêncio no seu DICIONÁRIO, são de tal alcance e valimento, que não posso roubar-me ao desejo de citar aqui algumas das mais importantes, e que por isso mereceram levantados encómios dos mais abalizados jurisconsultos do nosso país. Seja a primeira REFLEXÕES JURÍDICAS A FAVOR DA MISERICÓRDIA DE GUIMARÃES, com o seguinte enunciado: «Devem as misericórdias pagar emolumentos aos párocos pelo baptismo dos expostos, e será justo e louvável ou racionável tal costume quando exista? - Não, porque tudo quanto se der ao pároco por tal título é à custa dos miseráveis expostos ou de suas pobres mães que na dita misericórdia vão procurar um asilo em tal transe». - Vem publicada na Gazeta dos Tribunais, tom. XIV, nº 1981, e é ali tratada a questão com tal proficiência, que a redacção a aprecia deste modo: «Esta alegação jurídica acha-se tão bem deduzida, e é tão rica de argumentos tirados do direito canónico e do direito civil, que nada deixa a desejar, podendo servir de modelo no seu género». É igualmente digna de menção a sua ACÇÃO DE PETIÇÃO DE HERANÇA que se lê no tom. XXV da mesma Gazeta, nº 3713. Tratam-se aqui com uma profundidade e erudição jurídica e médico-legal, pouco vulgar, duas das mais importantes e duvidosas questões que se debatem e tem debatido no nosso foro tanto antigo como moderno. Finalmente no tom. XXVIII da mesma Gazeta, e ainda em outras muitas, o nosso prodigioso patrício apresenta-se nas variadíssimas e intrincadas questões jurídicas como um dos mais distintos, mais vigorosos e invencíveis polemistas. O nosso imortal jurisconsulto possui ainda muito notável erudição em todos os ramos de literatura, e é senhor duma das mais selectas e preciosas livrarias da província do Minho."

Bento Cardoso faleceu em 12 de Abril de 1886. Consultados os jornais da época, encontrou-se a notícia da sua morte, redigida em termos muito curiosos para um obituário, no Religião e Pátria de 14 daquele mês:

"— Falecimento – Até que enfim, já não é deste mundo o exmo. snr. dr. Bento António de Oliveira Cardoso, o abalizado jurisconsulto, honra e glória desta terra e ornamento distintíssimo do foro português. Vitimou-o anteontem a penosíssima enfermidade que há muito tempo o atormentava, e o seu cadáver teve hoje os respectivos ofícios fúnebres na igreja de S. Francisco, sendo depois conduzido, em luzido cortejo, ao cemitério municipal, onde foi sepultado."

No Comércio de Guimarães de 18 de Novembro seguinte aparece um anúncio intitulado "Venda de Livraria, onde se lê que até ao dia 31 de Dezembro do corrente ano, está patente o catalogo da livraria que foi do falecido Dr. Bento António de Oliveira Cardoso, na casa do mesmo falecido, rua de Camões, n. 101". A residência na rua de Camões parecia ser um bom augúrio… No Religião e Pátria de 4 de Dezembro, já se noticiava que a Sociedade Martins Sarmento "adquiriu por compra, para a sua biblioteca as livrarias do afamado jurisconsulto dr. Bento António de Oliveira Cardoso e do seu irmão cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso". Por esses dias, não se encontra qualquer referência ao poema de Camões.

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"... Porque tanto amamos a nossa Guimarães?"


"… Porque tanto amamos a nossa Guimarães? Fora uma junqueira brava, com um passado de cabana, amortecida na atonia das horas indiferentes e paradas! Mas ela tem, neste formoso quadro minhoto, a mais enternecida paisagem de suavidade e maravilha. As suas casinhas arruam-se em estâncias saudosas. Tressua a pedra dos seus muros o sangue forte dos gloriosos fundadores da nossa nacionalidade. E nem uma só hora, uma só, viveu a inquietação da alma pátria em que ela não estivesse identificada com toda a sua alma. Era terrível e vitoriosa a sua espada, porque ela mesma lhe forjara a têmpera. Longamente se entregou a um sonho de misticismo fervoroso — e é ainda essa luz tão meiga e profunda, admirável, que ilumina os olhos das suas moças. Fez o bragal do linho da terra, o doce — do fruto das suas árvores. Pintou, agricultando, o quadro esverdecido e doirado das suas encostas e das suas várzeas. Cantou e sofreu. Foi S. Mamede e verteu, regou com seu sangue Aljubarrota, Ceuta e índia. Não temeu o Império dos Filipes e defrontou-se com Napoleão. E trabalhou sempre. A enxada, o escopro, o cinzel, a forja. Apegou-se à terra, entocou-se nas oficinas, sulcou os mares, estremeceu na ânsia da arte. Com insistência tão devotada e tão amorosa, ao comprido de tantos séculos, que, neste recanto afastado, ao mesmo tempo que amassava em glória um passado brilhante e limpo, fortalecia uma grande e bela tradição de trabalho, essa de que descende e criou a laboriosa e honrada Guimarães de nossos dias."

Setembro de 1925
Eduardo de Almeida
[in Guimarães - O Labor da Grei, Guimarães, 1926]
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6 de novembro de 2009

"O tempo que se perde, não se torna mais a achar"


"O período que permeia entre a data actual de apresentação da candidatura à atribuição do título de Capital Europeia da Cultura e o ano de celebração desse título, em 2012, será o TEMPO adequado para impulsionar novas forças de actividade cultural na cidade e no concelho, no sentido, nomeadamente, de criar condições para a sustentabilidade do projecto da Capital."
Do documento de Candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura.

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Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (2)




[Ler texto anterior]

Não existindo documento de registo da entrada na Sociedade Martins Sarmento do exemplar da edição de 1572 de Os Lusíadas, à partida apenas se sabia, com certeza, que a obra já se encontrava na Biblioteca da SMS em 1887, aquando da edição do seu primeiro catálogo impresso (onde já consta, mas sem qualquer indicação de proveniência), e que ostenta, além do carimbo da SMS, uma outra marca de posse, manuscrita na base do frontispício ('Azevedo').

No "Dicionário Bibliográfico Português", de Inocêncio Francisco da Silva, publicado num tempo em que a versão Ee… era tida como a 2.ª) aparece uma listagem dos exemplares desta edição de que Inocêncio teria notícia (p. 251, tomo 14.º), a saber:

1.º o da Biblioteca Nacional de Lisboa: 2.° o que existia no convento de Jesus, pertencente hoje á Academia, dado aos religiosos do dito convento pelo falecido dr. Lima Leitão, como consta de uma declaração autógrafa nele exarada: 3.° o que foi do falecido Visconde de Almeida Garrett, pertencente hoje ao sr. José Maria da Fonseca: 4.° o da colecção Norton: 5.° o da colecção Adamson (vendido por 11 £): 6.° o que foi do dr. Abranches, e depois de Joaquim Pereira da Costa: 7.° o que pertenceu ao extinto mosteiro de S. Bento de Lisboa, daqui levado pelo ex-beneditino Fr. João de S. Boaventura em 1834 (vej. no Dicionário, tomo III, pág. 330) existente agora na Biblioteca Pública do Rio de Janeiro: 8.° o do Gabinete Português de Leitura da mesma cidade, comprado por 154:000 réis (moeda do Brasil): 9.° o da Biblioteca Imperial de Paris, etc., etc.

Quanto ao exemplar da Biblioteca da SMS, nada em Inocêncio. O seu continuador, Brito Aranha, na página 32 do Tomo 5.º, insere uma outra listagem dos exemplares da versão Ee…:

Desta segunda edição, são conhecidos os seguintes exemplares em Lisboa: da academia das ciências, da biblioteca nacional (dois, um em melhor estado de conservação, que o outro); dos srs. Fernando Palha, conselheiro Gama Barros (que pertenceu ao falecido José Maria da Fonseca); bacharel António Augusto de Carvalho Monteiro (que o adquiriu no leilão dos livros do conselheiro Minhava), e João Henrique Ulrich; no Porto: o sr. dr. José Carlos Lopes, no Brasil: sua majestade o imperador, o gabinete português de leitura do Rio de Janeiro, e a biblioteca nacional da mesma cidade; e em Paris: a biblioteca nacional. O exemplar da segunda edição, que possui a biblioteca nacional do Rio de Janeiro, foi comprado em 1880 ao livreiro editor, sr. B. L. Garnier por 405$000 réis (moeda fraca). Pertencera a D. Diogo de Rocaberti y de Pau, cuja assinatura autografa vem na folha do rosto. Está em perfeito estado de conservação.

Também aqui, nenhuma referência ao exemplar da SMS.

Para a edição em fac-simile dos Lusíadas (ed. de 1921), a Biblioteca Nacional fez o levantamento dos exemplares existentes, cujo resultado aparece na pág. XXXIV da obra. É o seguinte:

EXEMPLARES DE Ee

A Biblioteca Nacional de Lisboa possui quatro, marcados na Camoneana com os n.os 2, 3 (foi este o reproduzido), 4 e 11 (preto). O frontispício, licenças, privilégio (4 pág.) e as ff. 177 e segg. do texto de Ee 11 pertencem à ed. de 1597, sendo por isso colocado ao pé dos exemplares desta ed. Foi posto o n.º 1 ao exemplar de E.

Ha também um exemplar de Ee na Biblioteca da Academia das Sciências. Vai reproduzida uma est. deste ex. no § 1 da Introd.

Responderam à circular da Direcção da B. N. de Lisboa, informando que possuíam um exemplar de Ee, as seguintes entidades

Portugal, Lisboa: Os Srs. Henrique da Gama Barros, D. Francisco de Almeida e Conde de Avilez. Porto: Ateneu Comercial (1). Guimarães: Sociedade Martins Sarmento (2).

Brasil, Rio de Janeiro: Gabinete Português de Leitura (3).

França, Paris: Biblioteca Nacional (4).

Inglaterra, Londres: Museu Britânico (5). Oxford: A Bodleiana (6). Comunica também a Direcção do Museu Britânico que existem ali dois exemplares de E, num dos quais as 2 primeiras folhas são de Ee.

Itália, Nápoles: Biblioteca Nacional. Ex. que pertenceu à casa Farnese (7).

Os números entre parêntesis remetem para pormenores de cada exemplar que foram objecto do inquérito da BN, que aqui se omitem.

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5 de novembro de 2009

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (1)





Entre os incontáveis tesouros que se guardam na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, conta-se um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas. Por facilidade, reproduzo aqui a descrição que preparei há alguns anos para a página na internet da Casa de Sarmento:

Os Lvsiadas / de Luis de Camões .- Impressos em Lisboa : em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572, 186 f.; 4ª (25 cm).

Edição conhecida por edição "Ee".

A primeira edição, de 1572, produzida em casa do impressor António Gonçalves, de Lisboa tem sido objecto de uma velha controvérsia, iniciada no século XVII com a publicação de "Os Lusíadas Comentados" de Manuel de Faria e Sousa, que descobriu que o pelicano que figura no frontispício da edição de 1572 aparece voltado para o lado esquerdo, nuns exemplares, e para o direito, em outros. A partir dos comentários deste autor, passou a aceitar-se a existência de duas edições da obra no ano de 1572, geralmente identificadas por A (pelicano voltado para a esquerda) e B (pelicano voltado para a direita) ou Ee e E, conforme no penúltimo verso da primeira estância apareça, sem a conjunção E entre gente remota edificarão ou apenas Entre…

A Sociedade Martins Sarmento possui um exemplar da edição conhecida por A ou Ee, hoje admitida como edição princeps, que apresenta o colo do pelicano voltado para a esquerda, e cuja impressão se pensa ter sido acompanhada pelo próprio poeta.

A primeira edição do poema camoniano deu origem a uma polémica, iniciada por Manuel de Faria e Sousa, na sua edição de 1639 de Os Lusíadas Comentados, quando constatou que o pelicano que figura no frontispício da obra aparecia voltado ora para a esquerda ora para a direita, em diferentes exemplares dessa edição, concluindo que terão saído do prelo, no ano de 1572, duas edições da obra.

Há alguns anos, Kenneth David Jackson, da Universidade de Yale, que consultou e comparou diferentes exemplares de 1572 de Os Lusíadas, foi de encontro a uma conclusão já avançada em 1846 por Rodrigo da Fonseca Magalhães, segundo a qual as diferenças detectadas em diversos exemplares da obra seriam o resultado de correcções efectuadas por Luís de Camões durante o processo de impressão. Não haveria, portanto, mais do que uma edição de 1572.

Quando a Universidade do Minho decidiu assinalar o seu trigésimo aniversário com a edição de um fac símile do exemplar de Os Lusíadas da SMS, com prefácio de Vítor Aguiar e Silva, tentei descobrir o rasto daquele volume até à sua entrada na Biblioteca de Guimarães. Aquilo que encontrei tem as suas curiosidades, que irei descrever aqui por estes dias.
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3 de novembro de 2009

Martins Sarmento, por Raul Brandão

Francisco Martins Sarmento, retrato a carvão de Abel Cardoso. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.


O sábio, e o arqueólogo sobretudo, sempre me apareceram sob este aspecto singular: homens que, à força de conviverem com a ciência hirta e as secas pedras, tinham endurecido o coração; homens de método e experiência, desavindos de tudo o que na vida e na natureza é simples e emotivo: árvores, amores, sol, o quinhão dos poetas enfim. Depois, porém, que conheci Martins Sarmento comecei a duvidar: estava diante dum sábio a valer, e ao mesmo tempo — o que é mais raro e mais apreciável — dum grande homem de coração e carácter.

Guimarães deve-lhe muito: escolas, instrução, e essa admirável biblioteca Martins Sarmento, que tem, ao contrário de quantas outras eu conheço, a extraordinária opinião de que os livros se fizeram para se ler e assim os empresta a quem os queira, sócio ou não.

E este foi o pensamento dominante de toda a sua vida — instruir. Por isso Martins Sarmento tem um valor mais alto, mais nobre: além dum sábio e dum grande coração, foi um homem que olhou para o futuro. Fundando escolas, dedicando a sua vida inteira à instrução, trabalhou para os homens de amanhã.

E eles decerto não o esquecerão.

Raul Brandão, in Revista de Guimarães, Volume especial, 1900, p. 73
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1 de novembro de 2009

Como António Lobo de Carvalho ganhou uma casaca nova



De António Lobo de Carvalho tem-se destacado a sua verve desabrida e obscena. Mas os sonetos de António Lobo, onde o tom jocoso estava quase sempre presente, também adoptavam outros registos, e, por vezes, não escondiam propósitos comezinhos, como ser convidado para um jantar ou... obter uma casaca. Aqui fica um exemplo, num soneto dirigido ao Conde da Calheta, em que anunciava que a condessa sua esposa iria dar à luz um filho varão:

Eu tenho, excelso conde, um livro antigo,
Nunca das mãos me sai ou da algibeira,
Que um cigano deixou a uma parteira,
A qual em vida quis casar comigo!

Contém de adivinhações um longo artigo
Sinais de parto pela vez primeira;
E trata esta questão em lauda inteira, 
La Dama encinta si trae hombre, ó hijo;

Com que eu cá me entendo: isto suposto,
Quereis vós apostar um tanto ou quanto,
Pois mais que o ganho, a perda vai de gosto?

Se for varão, que venha a lume santo,
Perdeis uma casaca, e eu sempre aposto.
Sendo fêmea, atrás dela andar de manto.


Fosse pelas virtudes do livro do cigano, fosse por mera sorte, o poeta acertou no seu prognóstico. A Condessa da Calheta pariu um rapaz, em dia de Santa Rita de Cássia. António Lobo livrou-se de ter andar de manto, atrás de uma condessinha, e não tardou a reivindicar a casaca que ganhou na aposta:


Santa Rita a impossíveis consagrada,
Todo o mundo a respeita com fé pia
Cássia o diga, que incrível romaria
Não cobre o seu altar, e a sua entrada!

Mas co'a ilustre condessa atribulada
Na acção do parto, cuja dor sentia,
Que fez a Santa? Emprestar-lhe o seu dia,
Mas, além disso, não lhe fez mais nada.

Mais fiz eu, que observando o meu planeta,
Bem que sou de futuros língua fraca,
Vaticinei um conde em linha recta.

Morda-se a inveja agora ímpia e velhaca,
E em tanto acendereis a este profeta
Três velas de calção, véstia e casaca!


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