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A mostrar mensagens de Novembro, 2009

Nicolinas

João de Meira, por Abel Cardoso. Colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Anda no ar, nos dias que correm, alguma polémica acerca da designação Nicolinas, atribuída às festas dos estudantes de Guimarães. Estas festas nem sempre foram chamadas assim, usando-se antigamente a expressão "Festejos a S. Nicolau". Tanto quanto conhecemos da documentação conhecida, a palavra nicolinas apareceu no início do século XX. Ao que sabemos, o documento mais antigo em que essa expressão foi usada terá sido o pregão de 1904, escrito por João de Meira, que terminava assim:



Rapazes! Nossa música divina
Capaz de estremunhar até Morfeu!
A Música da festa Nicolina
Que a terra abala e desconjunta o Céu!
Mais força, se é possível, mais ferina,
Que inda não é bastante este escarcéu!
Façamos tal restolho, tal chinfrim
Que o inferno pareça aqui assim!...



Voltamos a encontrar a expressão Festas Nicolinas numa notícia sobre a célebre posse do Padre Monteiro do ano de 1904, publicada no jornal Independente, em 11 d…

Os limites da cidade de Guimarães em 1853

Vista de Guimarães, em meados do século XIX.

Em 1916, o jornal o Republicano, de Guimarães, publicou uma nota em que se descreviam os limites de Guimarães, em meados do século XIX, no momento em que de vila passou a cidade:

Velharias

A vila de Guimarães, elevada à categoria de cidade por decreto de 22 de Junho de 1853, como os leitores sabem, tinha os seguintes limites:

1.º Arco dos Capuchos.

2.º Embocadura da Rua de Santa Cruz, junto às casas do Padre Martinho.

3.º Carrapatosa, ou Casa das Hortas.

4.º Portal de ferro do Conde de Vila Pouca, do lado das Capuchas.

5.º A casa de Vila Verde, além do rio da Rua de Couros.

6.º A cancela do fim da Rua de Relho.

7.º O portal do Sabacho, acima do Estrepão.

8.º O ortatório da rua de Cruz de Pedra, ou o largo desta Rua.

9.º O portal de ferro da quinta dos Pombais.

10.º A porta do carro, que dá entrada para a cerca do extinto convento de S. Domingos.

12.º As casas do portelo ao Norte da Margaride.

[O Republicano, n.º 2, ano 1, Guimarães, 1 de Abril de 1916.]

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (6)

[Ler texto anterior]

Do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, provavelmente o primeiro proprietário da edição de 1572 de Os Lusíadas da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, eis a biografia conhecida, traçada pelo Abade de Tagilde no n.º 1 da Revista de Guimarães:

Torquato Peixoto de Azevedo

Filho do sargento-mor João Rebelo Leite e de sua mulher D. Isabel Peixoto de Azevedo, irmão do célebre João Rebelo Leite, cujos serviços à pátria na guerra da Aclamação lhe granjearam a graduação de Mestre de campo ad honorem por carta régia de 15 de Janeiro de 1664 e a quem bem cabe a antonomásia de Lidador Vimaranense, que lhe dá o P.e Caldas, nasceu o nosso terceiro monografo — e não primeiro, como erradamente se afirma no Dicionário Popular dirigido pelo exc.mo Pinheiro Chagas — a 2 de Maio de 1622.

Desde criança madrugou nele a inclinação para as letras, especialmente para a história, predilecção que sempre conservou até aos últimos dias de sua vida, empregando todas as horas, que lhe restavam d…

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (5)

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Apurado tudo quanto haveria para apurar em relação ao último proprietário do volume do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, antes da sua entrada para o acervo da SMS, passou-se a explorar a pista "Azevedo", manuscrita no frontispício da obra. Como Azevedo se trata de um sobrenome relativamente comum, tentou-se encontrar algum nexo entre os Lusíadas, Guimarães e alguém assim chamado. Colocaram-se diversas hipóteses, das quais ressaltou uma especialmente plausível: um dos primeiros monógrafos de Guimarães, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705), autor das Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, que conhecia bem a obra de Camões, a quem cita, dizendo que o insigne Camões a quem nada ficou por dizer tocou a luz (pp. 155-156 do manuscrito de 1692 e 202-203 da edição impressa de 1845, que contém graves erros de transcrição, como por exemplo o de, na citação da estrofe 7.ª do Canto I, trocar o Ocidente, que aparece no manuscrito, pelo Oriente…

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (4)

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No livro de actas da direcção da SMS está registado que, na sessão de 1 de Novembro de 1886, foi decidido comprar por duzentos mil réis as livrarias dos dois irmãos Cardoso (o cónego dedicava-se à escrita, sendo autor de diversas peças teatrais; o seu espólio literário foi doado por uma irmã à SMS). No "Boletim" referente ao último trimestre de 1996, publicado na página 48 do n.º 4 da Revista de Guimarães (1887), faz-se menção à aquisição destas importantes livrarias, obtidas pela diminuta quantia de 200$000 réis. Quanto ao espólio adquirido, diz-se que é composto na sua máxima parte de obras de reconhecido merecimento e necessidade incontestável. Nada se refere quanto aos Lusíadas. A notícia de que esta obra fazia parte do acervo bibliográfico adquirido pela SMS aparece no jornal O Comercio de Guimarães, em 10 de Janeiro de 1887:

A primeira edição dos «Lusíadas»

Entre as obras valiosas e raras, que faziam parte da importante livraria do falecido jurisconsu…

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (3)

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Como os livros que eram oferecidos à Sociedade Martins Sarmento eram registados nas actas da Direcção e nada havendo a respeito do exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, presumiu-se que a obra teria chegado á biblioteca por outra via. Seguindo uma indicação da investigadora Maria José Meireles, que já se tinha deparado com uma referência à chegada dos Lusíadas na década de 1880, foi possível apurar que, afinal, o exemplar da SMS não tinha sido doado, mas que havia sido comprado num leilão, após a morte do seu anterior proprietário o Dr. Bento Cardoso, um conhecido bibliófilo, reputado advogado de Guimarães, (Camilo Castelo Branco refere-o na Brasileira de Prazins). Nas páginas 166 e 167 da 2.ª edição, de 1996, da obra Guimarães – Apontamentos para a sua História, do Padre António José Ferreira Caldas (1.ª edição: 1881), encontra-se a seguinte nota:

"— Bento António de Oliveira Cardoso, cavaleiro da Ordem de S. Tiago da Espada, bacharel em cânones pela uni…

"... Porque tanto amamos a nossa Guimarães?"

"… Porque tanto amamos a nossa Guimarães? Fora uma junqueira brava, com um passado de cabana, amortecida na atonia das horas indiferentes e paradas! Mas ela tem, neste formoso quadro minhoto, a mais enternecida paisagem de suavidade e maravilha. As suas casinhas arruam-se em estâncias saudosas. Tressua a pedra dos seus muros o sangue forte dos gloriosos fundadores da nossa nacionalidade. E nem uma só hora, uma só, viveu a inquietação da alma pátria em que ela não estivesse identificada com toda a sua alma. Era terrível e vitoriosa a sua espada, porque ela mesma lhe forjara a têmpera. Longamente se entregou a um sonho de misticismo fervoroso — e é ainda essa luz tão meiga e profunda, admirável, que ilumina os olhos das suas moças. Fez o bragal do linho da terra, o doce — do fruto das suas árvores. Pintou, agricultando, o quadro esverdecido e doirado das suas encostas e das suas várzeas. Cantou e sofreu. Foi S. Mamede e verteu, regou com seu sangue Aljubarrota, Ceuta e índia. Não t…

"O tempo que se perde, não se torna mais a achar"

"O período que permeia entre a data actual de apresentação da candidatura à atribuição do título de Capital Europeia da Cultura e o ano de celebração desse título, em 2012, será o TEMPO adequado para impulsionar novas forças de actividade cultural na cidade e no concelho, no sentido, nomeadamente, de criar condições para a sustentabilidade do projecto da Capital."
Do documento de Candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura.

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (2)

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Não existindo documento de registo da entrada na Sociedade Martins Sarmento do exemplar da edição de 1572 de Os Lusíadas, à partida apenas se sabia, com certeza, que a obra já se encontrava na Biblioteca da SMS em 1887, aquando da edição do seu primeiro catálogo impresso (onde já consta, mas sem qualquer indicação de proveniência), e que ostenta, além do carimbo da SMS, uma outra marca de posse, manuscrita na base do frontispício ('Azevedo').

No "Dicionário Bibliográfico Português", de Inocêncio Francisco da Silva, publicado num tempo em que a versão Ee… era tida como a 2.ª) aparece uma listagem dos exemplares desta edição de que Inocêncio teria notícia (p. 251, tomo 14.º), a saber:

1.º o da Biblioteca Nacional de Lisboa: 2.° o que existia no convento de Jesus, pertencente hoje á Academia, dado aos religiosos do dito convento pelo falecido dr. Lima Leitão, como consta de uma declaração autógrafa nele exarada: 3.° o que foi do falecido Visconde de A…

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento (1)

Entre os incontáveis tesouros que se guardam na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, conta-se um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas. Por facilidade, reproduzo aqui a descrição que preparei há alguns anos para a página na internet da Casa de Sarmento:

Os Lvsiadas / de Luis de Camões .- Impressos em Lisboa : em casa de Antonio Gõçaluez Impressor, 1572, 186 f.; 4ª (25 cm).

Edição conhecida por edição "Ee".

A primeira edição, de 1572, produzida em casa do impressor António Gonçalves, de Lisboa tem sido objecto de uma velha controvérsia, iniciada no século XVII com a publicação de "Os Lusíadas Comentados" de Manuel de Faria e Sousa, que descobriu que o pelicano que figura no frontispício da edição de 1572 aparece voltado para o lado esquerdo, nuns exemplares, e para o direito, em outros. A partir dos comentários deste autor, passou a aceitar-se a existência de duas edições da obra no ano de 1572, geralmente identificadas por A (pelicano voltado para a esquerda…

Martins Sarmento, por Raul Brandão

Francisco Martins Sarmento, retrato a carvão de Abel Cardoso. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

O sábio, e o arqueólogo sobretudo, sempre me apareceram sob este aspecto singular: homens que, à força de conviverem com a ciência hirta e as secas pedras, tinham endurecido o coração; homens de método e experiência, desavindos de tudo o que na vida e na natureza é simples e emotivo: árvores, amores, sol, o quinhão dos poetas enfim. Depois, porém, que conheci Martins Sarmento comecei a duvidar: estava diante dum sábio a valer, e ao mesmo tempo — o que é mais raro e mais apreciável — dum grande homem de coração e carácter.
Guimarães deve-lhe muito: escolas, instrução, e essa admirável biblioteca Martins Sarmento, que tem, ao contrário de quantas outras eu conheço, a extraordinária opinião de que os livros se fizeram para se ler e assim os empresta a quem os queira, sócio ou não.
E este foi o pensamento dominante de toda a sua vida — instruir. Por isso Martins Sarmento tem um valor m…

Como António Lobo de Carvalho ganhou uma casaca nova

De António Lobo de Carvalho tem-se destacado a sua verve desabrida e obscena. Mas os sonetos de António Lobo, onde o tom jocoso estava quase sempre presente, também adoptavam outros registos, e, por vezes, não escondiam propósitos comezinhos, como ser convidado para um jantar ou... obter uma casaca. Aqui fica um exemplo, num soneto dirigido ao Conde da Calheta, em que anunciava que a condessa sua esposa iria dar à luz um filho varão:

Eu tenho, excelso conde, um livro antigo,
Nunca das mãos me sai ou da algibeira,
Que um cigano deixou a uma parteira,
A qual em vida quis casar comigo!

Contém de adivinhações um longo artigo
Sinais de parto pela vez primeira;
E trata esta questão em lauda inteira,
La Dama encinta si trae hombre, ó hijo;

Com que eu cá me entendo: isto suposto,
Quereis vós apostar um tanto ou quanto,
Pois mais que o ganho, a perda vai de gosto?

Se for varão, que venha a lume santo,
Perdeis uma casaca, e eu sempre aposto.
Sendo fêmea, atrás dela andar de manto.


Fosse pelas virtudes do livr…