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A mostrar mensagens de Janeiro, 2012

Cidade, não região

A propósito de lamentos que nos vão chegando ecos, de que Guimarães não estaria a envolver concelhos vizinhos da Capital Europeia da Cultura, parece-me que fará sentido recordar uma história que tem estado esquecida. Conta-se em poucas palavras. No dia 17 de Fevereiro de 2006, o Reitor da Universidade do Minho, Guimarães Rodrigues, avançou com a proposta, anteriormente sufragada pelo Conselho Cultural da UM, para uma candidatura de Braga e Guimarães, com Famalicão e Barcelos, a Região Europeia da Cultura em 2012. Aquando do anúncio, o saudoso Professor Lúcio Craveiro da Silva, então Presidente do Conselho Cultural, já havia sondado e assegurado o suporte à iniciativa dos responsáveis autárquicos de Guimarães e de Braga. A autarquia de Braga não assumirira o apoio e acabaria por retirar o tapete à iniciativa. Por essa altura, um dos principais mentores da política cultural do município de Braga, Rui Madeira, escrevia no Correio do Minho um texto onde se lia:
"(…) Que espírito presi…

Deste tempo

Os dias andam bonitos. Para trás, ficou a cidade cabisbaixa sobre a qual pairava o pressentimento da oportunidade perdida. Dela, já nos vamos esquecendo. Este é o tempo luminoso em que se recebem as primícias do que se semeou. Sem deixar de ser o que sempre foi, a cidade transfigurou-se. Por estes dias, vimos ressurgir, revigorado, o entusiasmo apaixonado desta gente tão singular. E veremos cumprir-se o título feliz do P3: Guimarães levantou-se e andou.
[Há em Guimarães quem apelide a gente de Braga de marroquina. Vá-se lá perceber porquê. Até porque Braga parece estar mais longe  de Guimarães do que Singapura.]

Das novas do achamento

Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente. Pero Vaz de Caminha, 1 de Maio de 1500
Era uma vez uma cidade obscura e quase desconhecida. Ficava longe, muito longe da capital do império. Tão longe que só se dava conta da sua existência quando por lá um catraio desacautelado punha a mão onde não devia pôr e era atacado pela alergia ao nemátodo do pinheiro. Em dias assim, mas apenas nesses, até se falava de tal cidade nas crónicas da nação. Nos dias breves que correm, tem sido diferente. Chegaram os descobridores, com o espanto de quem olha para coisa antiga com olhos de novidade. De repente, os aborígenes dessa cidade dão consigo a partilharem a perplexidade dos índios em tempo de descobrimento. E os novos Peros Vaz de Caminha, maravilhados com o exotismo e a bizarria das suas descobertas, não páram de mandar cartas sobre o achamento, onde vão dando conta do assombro que lhes provoca o avistamento de gente tão singular.
Os nativos, que andam encantado…

Do amor a Guimarães

... Porque tanto amamos a nossa Guimarães? Fôra uma junqueira brava, com um passado de cabana, amortecida na atonia das horas indiferentes e paradas! Mas ela tem, neste formoso quadro minhoto, a mais enternecida paisagem de suavidade e maravilha. As suas casinhas arruam-se em estâncias saudosas. Tressua a pedra dos seus muros o sangue forte dos gloriosos fundadores da nossa nacionalidade. E nem uma só hora, uma só, viveu a inquietação da alma pátria em que ela não estivesse identificada com toda a sua alma. Era terrível e vitoriosa a sua espada, porque ela mesma lhe forjara a têmpera. Longamente se entregou a um sonho de misticismo fervoroso — e é ainda essa luz tão meiga e profunda, admirável, que ilumina os olhos das suas moças. Fez o bragal — do linho da terra, o doce — do fruto das suas árvores. Pintou, agricultando, o quadro esverdecido e doirado das suas encostas e das suas várzeas. Cantou e sofreu. Foi S. Mamede e verteu, regou com seu sangue Aljubarrota, Ceuta e Índia. Não tem…

Novais Teixeira, por J. Rentes de Carvalho

A figura de Joaquim Novais Teixeira marcou profundamente aqueles que com ele conviveram. Para muitos, mesmo na terra que o viu nascer, continua quase esquecido. Na última edição do Jornal de Letras, o escritor J. Rentes de Carvalho, que conviveu intimamente com Novais Teixeira,  publicou um testemunho sobre "o mais dedicado dos mestres", que vale a pena ser lido. Aqui fica, apanhado no blogue do escritor, Tempo Contado:
Um que deixou marca
Tirante a família, na minha longa vida são bastantes os que recordo, poucos, meia dúzia se tanto, os que até agora deixaram marca perene. Tivesse eu de fazer deles uma lista, Joaquim Novais Teixeira (1899-1972) ocuparia o primeiro lugar. Trinta anos nos separavam e, contudo, mau grado o fosso entre as suas extraordinárias vivências e a ingenuidade do rapaz que começava na vida, logo no primeiro encontro criámos um genuíno laço de amizade.
Foi para mim o mais dedicado dos mestres, guiando, explicando, aconselhando, avisando, mas sempre cuidado…

Guimarães, entre a história e o futuro

Em 1537, Guimarães foi dada pelo Duque de Bragança ao infante D. Duarte, a título de dote pelo seu casamento com Isabel de Bragança. Era a essa doação que se referia o infante D. Luís, quando exclamou, ao contemplar a vila de uma janela do Paço dos Duques: - Se quem te deu te vira, não te dera.
É assim Guimarães: uma cidade que encanta os que a vêem. António Lobo de Carvalho alcandorou-a à condição de “pátria do amor”. Torga, que tinha do Minho uma imagem pouco gentil, fixou o olhar nas suas “varandas torneadas onde ainda hoje apetece namorar”. Saramago diria de Guimarães que é um bom sítio para iniciar namoros. Esta é uma cidade que se deixa namorar.
A história é um dos elementos matriciais da constituição vimaranense. Não haverá muitos lugares onde um facto histórico com muitos séculos seja capaz de atear paixões inflamadas. Guimarães é um desses lugares. Aqui, o rasto do passado está por toda a parte. Nas pedras, nos documentos, nas ruas e praças, nos nomes das lojas, dos restaurante…

Os brasões do chafariz

O chafariz do Toural é encimado por uma esfera armilar, abaixo da qual se encontra um elemento escultórico de quatro faces, em duas das quais aparece uma águia. Nas restantes, estão representados, de um lado, as armas reais portuguesas e, do outro, o brasão de Guimarães, com a Virgem Maria com o Menino, tendo uma oliveira à sua direita. O Padre Torcato Peixoto de Azevedo dá-nos uma descrição um pouco diferente deste elemento do chafariz. Não refere o brasão de Guimarães, apenas indicando a existência de”um escudo com as armas de Portugal, e nas costas deste outro com uma águia negra coroada de ouro, com um letreiro aos pés que diz: ano de 1588”. Antigamente, tantos os brasões como as duas águias eram pintados.
Quando os franceses andaram por Guimarães, aquando da invasão de 1809, os escudetes das armas reais foram picados. Os que agora lá se encontram foram cravados posteriormente.

A cidade a cores

Ao olharmos para a fachada renovada do edifício da antiga Pensão Imperial, vamos escutando alguns comentários curiosos, que denunciam alguma estranheza em relação à utilização da cor naquela fachada. Ora, tal estranheza é o resultado da moda, relativamente recente, de “lixiviar” as fachadas dos edifícios, pintando-as de branco. Antigamente, a cidade era bem mais colorida. Olhando-se para antigas fotografias - infelizmente, para o que aqui nos importa, a preto e branco - percebe-se claramente, pelas diferentes gradações dos cinzentos das fachadas, que a paleta de cores usada no exterior dos edifícios era variada. Desse colorido, quase que só sobrou o dos prédios revestidos a azulejos. Quase tudo o resto é, agora, branco e algo deslavado.

Dantes, a cidade devia ser um pouco mais alegre.

Pode ser que a recuperação da Pensão Imperial se afirme como modelo para que, a exemplo do que já foi acontecendo no Centro Histórico, a zona extramuros de Guimarães vá recuperando alguma cor.

Que romaria é esta?

Quando, há pouco, cheguei a Guimarães, depois de um par de dias fora, ao ver a multidão que andava na rua, dei comigo a tentar perceber que festa era aquela. Segundo o calendário, 8 de Janeiro é dia de S. Severino, santo que, confesso, não me diz muito e do qual não consta que tivesse direito a romarias entre nós. Não demorei muito para perceber que a razão da festa era… Guimarães.
Depois de perto de dois anos em que esta cidade quase só era notícia pela sucessão de trapalhadas que envolviam a Fundação Cidade de Guimarães, percebe-se que algo mudou. Foi-se embora a má imprensa e Guimarães passou a ser notícia permanente nos jornais e revistas, nacionais e internacionais, por aquilo que é. Sente-se que esta cidade está na moda, suscitando o interesse da comunicação social, que a vai mostrando ao mundo. E, como esta Guimarães é o que é, não falta por aqui material informativo susceptível de gerar encantamento e curiosidade em quem a não conhece ou a conhece mal, suscitando a vontade de…

O problema do estacionamento

Já passa quase um mês desde que o Toural e a Alameda foram devolvidos ao uso público, depois de terem sido o centro daquele que foi o empreendimento mais extenso de que há memória em Guimarães, em muitos séculos. Os resultados da obra vão sendo assumidos pacificamente pela cidade, que ficou mais airosa e confortável para os que a habitam ou a visitam.
No ar, ainda persistem os ecos de algumas das controvérsias que a requalificação gerou. Não me refiro aos que criticam a obra por motivos estéticos, que aceito, mesmo discordando, mas aos que prenunciavam que a praça se iria tornar num deserto. A estes, a realidade encarregou-se de os desmentir rapidamente. Em larga medida, é o modo como as pessoas estão a usar a praça que demonstra que a sua requalificação foi bem sucedida.
Há uma crítica que me merece alguma reflexão, a dos que discordam da opção de não dotar o Toural de um parque de estacionamento subterrâneo. Compreendo essa crítica, embora não me faltem argumentos para demonstrar que,…

Guimarães, segundo Craesbeeck (6)

[Conclusão]
6. Nos exercícios fabris excede a todos os povos de Espanha; nos mais não inveja aos povos vizinhos; na política do governo é bem conhecida, pois foi a província corte Lusitana, e nela se observaram sempre os ditames ajustados da justiça; primeira Torre do Tombo; primeira nas medidas do pão, e vinho, aonde as mais comendas vinham ajustar as suas; primeira Relação; primeira Casa dos Contos: ainda hoje conservam as paredes os títulos e lugares. A nobreza apregoa o Conde de D. Pedro no seu “Nobiliário”, epílogo das ilustres famílias nela originalmente nascidas; e outras muitas se acham nos títulos do Cartório desta Colegiada, mais antigas. No serviço político, publiquem-no as coroas de D. Afonso Henriques, os bastões do grande Capitão D. Gonçalo Mendes, e de outros muitos, fechando o número e coroado Rei do Pegu, Salvador Ribeiro; na religião, os muitos conventos, os muitos Santos; e os muitos homens de Letras e Armas, que floresceram: de que tudo trata, com largueza, a “Corog…

Guimarães, segundo Craesbeeck (5)

Guimarães, segundo Craesbeeck (4)

[continuação]


4. Sobre o terreno, fundadores e sua antiguidade temos já tratado; e quanto aos ares é o sítio fresco, airoso, em tudo propício à propagação humana e procriação dos frutos, tão aprazível aos olhos, que vista de longe de um Infante Português, sujeita ao inferior domínio, disse: - Quem te deu, não te viu; que se te vira, não te dera. - Cinco mil fontes, de copiosas e cristalinas correntes, inundam o terreno, fertilizando os campos e regalando os corpos, formando multiplicados ribeiros, que incorporados no precipitado Ave e fresco Avizela, desafogam no Oceano o túmido da sua inundação copiosa. A frugalidade dos mantimentos recomendam mais de cinquenta mil cruzados que os dízimos rendem às igrejas, e não menos que ao Príncipe nas suas sisas, tributos e próprios; desta rendosa soma se colhera a opulência de sua riqueza nos frutos naturais; para a multiplicação destes amontoou Ceres as espigas e acumulou Baco os cachos, dando-se as mãos; ocupa este os extremos no levantado das …

Guimarães, segundo Craesbeeck (3)

[continuação]
3. Das portas que acima fizemos menção são: a primeira de Santa Bárbara, mais vizinha do castelo; sucede a estrada régia para a ponte de Mem Guterres, vulgarmente chamada de Domingos Terres; comunicação para as terras de Basto, Barroso, e outras mais de Trás-os-Montes; a porta de S. António, chamada de Garrida, segunda em ordem e primeira na situação da nova muralha, começada pelo Senhor Rei D. Afonso, 3.º Conde de Bolonha: via régia para a ponte de Donim, comunicação para as terras de Lanhoso, S. João de Rei e Bouro (primeira via de Adriano que penetrava o Reino de Galiza); a porta de Santa Luzia, segunda em ordem da nova muralha, correspondente à ponte de S. João, por outro nome Pedrinha, estrada pública para a cidade de Braga, Ponte de Lima, e mais terras desta província; a quarta porta, intitulada de S. Domingos, terceira em ordem da nova muralha, via régia para a ponte de Cervas, cita entre os confins de Guimarães e Barcelos, por onde se comunicam ambas, e se penetr…