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João de Meira, 1881-1913 (4): A Parvónia


O primeiro número tem a data de 5 de Agosto de 1898. Apresenta-se como uma folha avulsa de arte e crítica. Os textos que publica vêm assinados por pseudónimos: Diabo, Lusbel, Satan, Diabinho. O último pertencia a António Garcia de Sousa Ventura, os restantes eram de João de Meira. Trata-se duma publicação irreverente e satírica, com manifestas intenções iconoclastas, que poderiam ser atribuídas à juventude dos seus autores. João de Meira, a alma mater  deste projecto editorial tinha, na altura, 17 anos acabados de completar e o seu camarada nestas lides, que seguiria a carreira na marinha, chegando a Contra-Almirante e a Chefe de Estado-Maior Naval (1941-1946), era ainda mais jovem, tendo 15 anos de idade.

Logo na sua primeira edição, A Parvónia mostrava ao que vinha, como o demonstra um poema que Lusbel assina:



Parvónia

Berço de el-Rei Afonso, um rei salteador
Que tinha bico de águia e garras de condor
Que pela escuridão da noite, ousado vem
De assalto conquistar, aos moiros, Santarém.
Entre ele e o salteador nocturno duma estrada
A diferença é pequena é mesmo quase nada.
Um rouba a exclamar de Deus bem alto o nome,
Outro só porque o impele e atormenta a fome.
Berço de el-Rei Afonso, um rei salteador,
Que vós ó meus patrícios dignos de louvor,
Colocastes num campo em trágica postura,
De molde a deixar ver rija musculatura.
Berço de el-Rei Afonso, o teu velho colchão,
Colchão que tem servido a muita geração,
Exala um cheiro mau cheiro amoniacal;
Esta podre e safado; não vale já real.
Pudesse a minha voz erguer-se para cantar,
Num canto patriota a terra do meu lar,
Pudesse-lhe eu chamar a terra sem rival,
Não tivesse ela em si o largo do Toural
E dentro do Toural um lago nada mau
Onde os vizinhos vão molhar o bacalhau,
Pudesse a minha voz erguer-se para cantar-te
Que eu partia daqui, iria a toda a parte
Com a lira na mão, como velho rapsodo
Que saía da Grécia e pelo mundo todo
Cantando celebrava a pátria lá distante
Num hino dolorido, um hino emocionante;
Mas se olho para ti berço dum salteador,
Se olho para ti só vejo imerso em dor
Ruinas do passado e nada do presente,
Como velha cidade susta de repente
Que ficasse a dormir um sono secular.
Guimarães, Guimarães, eu quero-te acordar.
Tu não despertas não, tocando-te de manso
De chamar-te baixinho, ó terra já me canso.
É preciso acordar enfim desse letargo
E o remédio é este, é um remédio amargo,
Que custa infligir e custa a suportar.
Ferro em brasa, ventosas e hás-de despertar!
Então ó Guimarães, então te cantarei
Berço da tirania berço de Afonso... um rei.
                                                                      Lusbel

A Parvónia, n.º 1, Guimarães, 5 de Agosto de 1898

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