30 de março de 2011

CEC: “É necessário dar mais solidez a essa esperança.”


Guimarães, vista a partir do Monte Cavalinho, numa fotografia anterior a 1863
 
Reuniu ontem, 29 de Março, o Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães. Na reunião, foi aprovada por unanimidade uma moção onde se reflecte sobre o momento actual do processo de preparação da Capital Europeia da Cultura e se recomenda ao Conselho de Administração da FCG "que prestasse especial atenção aos temas da comunicação e do envolvimento da cidade e das suas instituições". Na ausência de publicação, até ao momento, no espaço institucional próprio, aqui se transcreve o documento na íntegra. Merece leitura atenta.

 

 
Conselho Geral, 29 de Março de 2011

MOÇÃO
 
Esta reunião do Conselho Geral teve lugar num momento particularmente exigente do projecto Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura.

A 9 meses da abertura do evento, a concretização do programa corre agora contra o tempo. O ambiente local em torno do projecto tem sido marcado por episódios desgastantes. A crise económica, financeira e política do País pode criar dificuldades suplementares e consideráveis ao desenvolvimento do projecto.

Os membros do Conselho Geral reunido a 29 de Março analisaram aprofundadamente a situação, ouvindo e debatendo as posições expressas, tanto pelos responsáveis da Fundação como das instituições com responsabilidade na Cidade, a começar pelo Sr. Presidente da Câmara.

O Conselho foi particularmente sensível aos argumentos em favor do reforço da coesão local como condição para enfrentar o momento complexo que a Guimarães 2012 atravessa. Tomou boa nota dos propósitos enunciados pela Câmara Municipal e apelou aos representantes das entidades envolvidas para que os ponham em execução rapidamente, na convicção de que daí resultarão ganhos de eficácia e coordenação nos trabalhos da Capital Europeia, e empenho acrescido das pessoas e das instituições mais qualificadas de Guimarães.

A tão breve distância de 2012, é indispensável criar condições para relançar a confiança e o entusiasmo em torno do projecto, de forma a garantir a adesão e apoio da comunidade vimaranense à Capital europeia da Cultura 2012. Esta constituirá uma oportunidade irrepetível para projectar a cidade, a sua história e o seu património, os seus valores e os talentos das suas diversas gerações.

O Conselho Geral recomendou ao Conselho de Administração da Fundação que prestasse especial atenção aos temas da comunicação e do envolvimento da cidade e das suas instituições. De acordo com as intervenções dos conselheiros, esta é uma questão sensível que exige melhorias rápidas e eficazes.

Da Capital Europeia da Cultura, Guimarães pode e deve esperar resultados muito positivos em termos de projecção da cidade no plano externo, em Portugal e fora de Portugal. É necessário dar mais solidez a essa esperança.

O Conselho Geral entende que com imaginação e persistência, compete à Fundação e às entidades que a instituíram, a Câmara Municipal e o Ministério da Cultura, cooperarem no sentido de assegurarem uma adequada audição de todos os interessados nas orientações da Capital da Cultura.

O Conselho Geral recomenda, em especial, que seja estreitada a cooperação entre a Fundação e a Câmara, nomeadamente através da Vereadora da Cultura.

Nesse sentido, o Conselho Geral recomenda ao Conselho de Administração que promova uma reflexão estratégica com vista a adoptar práticas que permitam uma ligação reforçada entre a CEC2012 e os agentes culturais, económicos e sociais de Guimarães e da região, que procure melhorar a articulação com o Ministério da Cultura e que faça o necessário para projectar de forma continuada e activa, nacional e internacionalmente, a CEC 2012.
 
Jorge Sampaio
Adriano Moreira
José Manuel dos Santos
Luís Braga da Cruz
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27 de março de 2011

Cabras



Uma deliberação tomada pela Câmara Municipal de Guimarães na última semana tem dado muito que falar, pelo seu lado insólito (no sentido de não ser costume). Vão ser adquiridas umas quantas cabras, que serão utilizadas na limpeza de várias freguesias do concelho. Confesso, sem ironia, que simpatizo com a medida, acreditando que pode tornar-se num caso de sucesso (e de estudo). Trata-se de uma solução, porventura inesperada, que tem vindo a ganhar aderentes e que contra entre os seus utilizadores uma empresa tão intrinsecamente ligada às novas tecnologia, como a Google, que já adoptou esta solução.

A eficácia das cabras na limpeza está amplamente comprovada. Até em Guimarães, como se comprova pelas queixas que antigamente eram levadas às autoridades, contra "os danos e perdas" que as cabras "faziam e davam" nos pastos, de que se queixavam os moradores de Corvite, Pencelo e Fermentões em 1628, ou "nos matos novamente sementados de tojo", como consta em deliberação da vereação de 1826.

Caso, por qualquer razão, algum dia se decida pôr termo à experiência, nem tudo se perderá. Quanto ao destino a dar aos caprinos, pode ser a panela.

A propósito, vem-me à memória a grande discussão poética acerca da chanfana, que teve lugar na segunda metade do século XVIII, quando D. José, príncipe do Brasil, quis saber "que coisa era chanfana". O poeta vimaranense António Lobo de Carvalho respondeu à pergunta com o seguinte soneto:
 
D'alto barrete, à laia de turbante,
Os braços nus, a faca na cintura,
Co'um pano por timão à dependura,
Trabalha o Isidro, a turco semelhante:
 
Do elástico bofe inda pingante,
Da barriga do porco alva gordura,
Faz por tal modo uma tal fritura,
Que aos tonéis cheios toca a sé vacante!
 
Esta, príncipe augusto, é que eu aprovo,
Chanfana santa, assaz famigerada,
Com que o turco amotina o vosso povo:
 
O pior é, que lambe d'estocada
Aos peraltas o seu cruzado novo,
Menos a mim, que nunca paguei nada!
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23 de março de 2011

Os Vimaranenses


Guimarães, 1900: os vimaranenses homenageiam uma das suas principais referências, Francisco Martins Sarmento

Num tempo em que tanto se fala dos vimaranenses e do seu tão especial modo de ser, recupero aqui um texto que escrevi há uns anos, a pedido dos meus amigos do Cineclube de Guimarães:

Dos vimaranenses

Nem sempre os nomes se ajustam convincentemente aos objectos nomeados. Conheço eu um José que tem cara de Serafim, um Francisco que melhor se chamaria se se chamasse Domingos, um Custódio que só podia ser Alfredo, mas não é. O mesmo desajuste sucede, com frequência, com os nomes que se dão aos que nascem ou moram em cada terra. Porque lisboeta não servia, começaram a chamar-lhe alfacinha. Um autóctone do Porto não tem, nem poderia ter, cara de portuense. Por isso lhe chamam, com toda a propriedade, tripeiro. Como dos de Braga não se sabe muito bem o que possam ser, ou parecer, chamam-lhes, sem critério, brácaros, bracaraugustanos, bragueses ou bracarenses. O mesmo sucede com um aborígene de Coimbra, a quem podem apelidar, indiferentemente, de coimbrão, conimbricense, conimbrigense, colimbriense ou coimbrense. Já um natural de Guimarães só podia ser vimaranense, porque, neste caso, o significante e o significado se ajustam com a precisão da relojoaria suíça.
Os vimaranenses apareceram antes de Portugal (aliás, como em Guimarães todos sabem, foi por já haver vimaranenses que, depois, pôde haver Portugal). Como tudo nesta terra, a busca da origem do gentílico que identifica os seus nativos conduz-nos até à pré-história deste país. Ainda o ano mil vinha longe, já havia vimaranenses. O nome que os designa tem origem germânica, por via de importação gótica, sendo o resultado da soma de duas partículas: weig, luta, ou weihs, santo, e mahrs, cavalo. De weigmahrs ou weihsmahrs, o cavaleiro combatente ou o cavaleiro santo, derivaram vimaranes e vimaranense. Cavaleiros, combatentes, santos: eis os vimaranenses.
Assim são os vimaranenses: gente solidária e guerreira, com uma profunda devoção pelas marcas da sua identidade, que se inscrevem no seu código genético, seja ele composto de reminiscências simbólicas ou de granito. Por aqui ainda persistem as ideias de fidelidade aos ancestrais e de pertença a uma estirpe única, embebida na tradição cavaleiresca e medieval. É nesse espírito que os vimaranenses se revêem. Entre eles, o cimento identitário é sólido e inquebrantável. Apesar de serem, as mais das vezes, intolerantes para com os outros vimaranenses, juntam-se sempre a uma só voz quando toca a reunir para enfrentarem a ameaça externa: os estrangeiros, os arcebispos, as ofensas aos seus, o Secco, o Ávila, o Braga ou o Boavista. É nesses momentos que irrompe, em toda a sua grandiosidade, esse estado único que é o ser vimaranense. Combatente e santo.
Porque têm história, a história é objecto de culto entre os vimaranenses. Não exactamente a história-ciência, tal como agora consta dos livros e se ensina nas universidades. Essa, não lhes diz grande coisa, porque há uma outra história, a deles, muito mais antiga, muito mais perene, que se transmite de geração em geração, carregada de verdades inquestionáveis. É a essa história que os vimaranenses se vinculam e que veneram como parte indissociável da sua herança colectiva. Até o mais humilde e menos letrado dentre eles será capaz de a defender, com a galhardia e a veemência dos que se sabem senhores da razão, com o mais ilustrado dos catedráticos. Porque, como já alguém disse, em Guimarães somos todos historiadores.
Todos os vimaranenses pertencem a linhagens antiquíssimas. No mínimo, são descendentes de Afonso Henriques. Todos são filhos de algo. É por isso que perguntam, sempre que alguém lhes é apresentado:
-É filho de quem?
Há quem tenha dos vimaranenses a imagem de homens e mulheres circunscritos ao seu castelo, aos redutos da memória, do passado e das tradições imutáveis. Nada mais longe da verdade. Os vimaranenses são cidadãos do Mundo. Ao longo dos séculos, também constituíram a sua diáspora. Eles estão por toda a parte, espalhando o nome desta terra, como não acontece com nenhuma outra, desde a sorridente Bárbara, estrela da TV, à última Miss Brasil, Natália, passando pelo carismático seleccionador da Costa Rica no último Mundial de Futebol, Alexandre. Todos são Guimarães.
Consta mesmo que no Brasil haverá mais Guimarães do que em Guimarães. Até na política: um notabilíssimo Guimarães, Ulysses, foi presidente, por duas vezes, da Câmara dos Deputados. E ninguém o negará: sem os Guimarães, a literatura brasileira seria bem mais pobre. São Guimarães, por exemplo, o Rosa, que no Brasil renovou o romance, e o Bernardo, que escreveu as aventuras e desventuras da desditosa Escrava Isaura, assim como o poema imoral A Origem do Mênstruo, que basta ser lido para se perceber que só podia ter sido escrito por um dos nossos.
Como bons portugueses, os vimaranenses, além de historiadores, também são poetas. O maior de todos os poetas de Guimarães também era brasileiro e chamava-se Alphonsus Henriques de Guimaraens Filho. Existirá nome mais vimaranense?
Nos vimaranenses há um lado beato e bentinho, que Raul Brandão, que bem os conhecia, descreveu magistralmente em A Farsa. Alguns deles, chegam a ter cheiro de santidade. Mas também são gente dotada de uma ironia escarninha e libertina, por vezes escatológica, que iluminam com um vernáculo sonoro, desapiedado e desconcertante. Assim se explica que eles alcunhassem de procissão do caga-ratos uma das mais antigas e solenes manifestações da sua religiosidade, o cortejo do Corpus Christi.
Dizem dos de Guimarães que são gente sem lei. Nada mais injusto. Para os de Guimarães há leis que são sagradas. As suas, mesmo que não estejam escritas.
Dizem também, inspirando-se em certa figura que espreita do alto para a praça da Oliveira, que os de Guimarães têm duas caras. Não é verdade. Têm muitas mais, porque cada vimaranense tem a sua. E apenas uma. Com excepção do Cucúsio, que tinha duas.
[António Amaro das Neves, in Os Vimaranenses, edição do Cineclube, Guimarães, 2007]
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21 de março de 2011

Repondo a verdade


Dizem-me que a responsável máxima pela organização da CEC terá afirmado (declarações que, confesso, ainda não ouvi) que eu não teria moral para falar acerca do envolvimento da população na preparação da Capital Europeia da Cultura porque, enquanto membro do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães, nunca me teria pronunciado sobre tal assunto naquele órgão, que integro por indicação da Câmara Municipal de Guimarães. Não pretendo entrar em polémicas que apenas podem contribuir para azedar algo que já não é muito doce, mas, porque está implícito, em tais declarações, algo que me atinge e afecta, por levantar questões de carácter, sou obrigado a esclarecer o seguinte:
  1. Não corresponde à verdade que eu não tenha levantado em sede de Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães a questão dos problemas na comunicação da Fundação com a cidade e com os cidadãos e das dificuldades que esses problemas geravam na relação dos vimaranenses com a sua Capital Europeia da Cultura. Fi-lo, com todas as letras, na última reunião do CG, antes de falar em público sobre o assunto. Fi-lo, aliás, com a preocupação que sempre me guiou: contribuir positivamente para que os cidadãos de Guimarães se revejam na sua Capital Europeia da Cultura. Na altura, quem me respondeu foi o Senhor Presidente da Câmara. E, noto, só falei em público sobre o assunto depois de perceber que a relação da cidade com a CEC estava a ser envenenada pelas sucessivas polémicas que vinham a lume.
  2. Nas intervenções públicas que tive sobre a preparação da CEC tenho dado conta das minhas preocupações em relação à existência de um problema de comunicação com a cidade e com os cidadãos e de um problema de comunicação em geral. Quanto às linhas de programação, as referências que tenho feito são, em geral, elogiosas, em especial para as áreas que conheço melhor.
Nada mais tenho a dizer sobre este assunto, a não ser no tempo e no lugar próprios.

Se a relação entre a CEC e os vimaranenses está inquinada, a responsabilidade não é minha, nem, muito menos, dos vimaranenses. Se a CEC e a FCG têm má imprensa, aos seus responsáveis compete perceber porquê. O que perturba os vimaranenses é, a cada dia que passa, terem que ler nos jornais notícias negativas acerca de algo que deveria ser um grande momento de envolvimento e de mobilização colectiva. Não estão habituados a tal. Nunca o estarão. Quem ainda não percebeu que todos os problemas e polémicas que têm rodeado a construção da CEC atingem seriamente a auto-estima dos cidadãos de Guimarães, levando-os a reagir negativamente, ainda não percebeu nada. E já era tempo, não era?
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20 de março de 2011

O Chafarica


Chafarica (caricatura de Domingos Dantas)

Quem sempre fumar quiser,
e cair no seu agrado,
inda que não leve trocado, 
basta ir uma... mulher.
 
Cigarros fortes?... Não há!
Diz-lhe o nosso Pinheirinho,
a sorrir de... Pelourinho.
No Chafarica... Só lá!...
 
Mas, ele, que é sempre amiguinho,
e sempre fez eu favor,
torna-lhe, em frase de amor, 
Sempre lhe arranjo... um massinho.
 
E assim, naquela atitude
ingénua, toda bondade,
à mulher faz a vontade, 
sem perder sua virtude.   

AGROVERDE

In A Ortiga, n.º 3, Guimarães, 13 de Dezembro de 1925
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19 de março de 2011

A. L. de Carvalho



A. L. de Carvalho (caricatura de Domingos Dantas)

 

Pac'ência, senhor Carvalho!
O que saiu, ai está;
Cá em casa melhor não há.
………………………………..
O amigo Domingos Dantas
deu-se ao pequeno trabalho
de andar a pau..., e às tantas...
………………………………..
Se alguma falta notar,
peço desculpa ao amigo.
Mas (pra nós, e a conversar),
falta-lhe... uma ceira de figo !...
E o... guarda-sol elegante,
para o tornar mais galante.

AGROVERDE.


 
In A Ortiga, n.º 2, Guimarães, 29 de Novembro de 1925
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18 de março de 2011

Couteiro, capitão-teinador do Vitória Sport Clube



Couteiro (caricatura de Domingos Dantas)
"Conhecem?

Naturalmente. Nem outra coisa era de esperar. Pois quem não conhecerá o Couteiro, o infatigável capitão treinador do Vitória Sport Club? Apesar de novo cá no "berço", é já bastante conhecido, principalmente no nosso meio desportivo, onde há desportistas de verdade."

In A Ortiga, n.º 1, Guimarães, 15 de Novembro de 1925
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16 de março de 2011

A “Academia” de Guimarães, no último quartel do séc. XIX


Luís de Magalhães

No volume especial da Revista de Guimarães publicado em 1900 em homenagem a Francisco Martins Sarmento, o escritor Luís de Magalhães reflecte sobre a importância das obras de Martins Sarmento e de Alberto Sampaio no contexto da cultura portuguesa do seu tempo.

 
A "Academia" de Guimarães

 
Se o nosso país fosse atacado de veleidades regionalistas — Guimarães tinha o direito de reivindicar para si as honras de um centro superiormente caracterizado e individualizado no meio intelectual português.

 
O velho berço da monarquia foi, no último quartel deste século, um brilhante foco de estudos arqueológicos e históricos. Martins Sarmento de um lado, Alberto Sampaio do outro, fizeram mais, nesse período, para a investigação das nossas origens pré-históricas, étnicas, sociais, nomológicas, económicas, do que todos os institutos científicos do país. Um escavando as ruínas das citânias, comentando sagazmente os velhos monumentos históricos e geográficos, embrenhando-se na selva densa dos modernos estudos arqueológicos e dos grandes problemas etnográficos — o outro reconstituindo os textos dos Portugaliae monumenta historica, com luminoso critério formado por urna larga erudição, as evoluções sociais e históricas deste canto da península anteriores à fundação do feudo portucalense — deram à historiografia nacional o prefácio que lhe faltava, levando aos últimos limites a investigação das nossas origens.

 
Os Argonautas, a Ora Maritima, a monografia sobre a Propriedade e a cultura no Minho e As "villas" no norte do Portugal são verdadeiros monumentos históricos, gloriosos padrões do labor intelectual da nossa raça.

 
A morte de Martins Sarmento foi, assim, um desastre nacional. A sua falta deixa um vácuo impreenchível na pequena plangente dos nossos homens de ciência. Porque não foi só um sábio o que nele se perdeu: foi mais do que isso — foi um apóstolo, um fanático das ciências arqueológicas. Essa paixão iluminava-lhe os trabalhos e estudos com intensas fulgurações intuitivas que, contraprovadas depois pelo seu sólido, vasto e profundo saber, lhe rasgavam a cada passo perspectivas novas, novos caminhos no campo das teorias históricas. Era um talento criador e um espírito constitucionalmente lógico, raciocinante, analista, exegético. As suas luminosas hipóteses estabeleciam-se por meio de rigorosas demonstrações matemáticas.

 
Juntando a estas eminentes faculdades de espírito uma meticulosíssima probidade científica e um interesse pelas coisas da ciência, levado ao último extremo da generosidade e até do sacrifício — ter-se-ão talvez delineado os traços mais largos, mas mais característicos, da fisionomia intelectual desse homem benemeritamente ilustre, que foi entre nós o mestre e o chefe supremo, amado e venerado, de todo um fecundo movimento renovador dos estudos arqueológicos e paleoetnológicos.

 
Luís de Magalhães, in Revista de Guimarães, Volume especial, 1900, pp. 46-47
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13 de março de 2011

Ditos populares sobre Guimarães e os vimaranenses, segundo A. L. de Carvalho



A fechar o seu Roteiro de Guimarães, publicado em 1923, A. L. de Carvalho dá conta dos anexins (ditos populares) que se referem a Guimarães e aos vimaranenses, deles apresentando a sua interpretação. No texto de A. L., que a seguir se transcreve, note-se a interpretação da tradição das duas caras, que era a que corria no tempo em que escrevia, onde não se encontra qualquer referência à tradição de Barcelos com que, em tempos recentes, alguns persistem em explicar um velho dito popular:

 
ANEXINS DA TERRA
 
"Guimarães tem uma sé sem bispo1, um palácio sem rei2, uma ponte sem rio3":
 
1 Sé sem bispoPor os D. Priores da Colegiada, espécie de pequena diocese, haver tido jurisdição similar aos bispos – e os bairristas se ufanarem disso em conjunturas várias da sua provecta história.

2 Palácio sem rei — Por esta terra ter em alta honra haver sido corte do primeiro rei português, a ponto de em 1666 a nobreza e o povo protestar, em sessão da Câmara, contra a provisão que autorizava os frades capuchos a edificar o seu convento à custa das pedras do alcáçar real.

3 Ponte sem rio Referência à grande ponte-viaduto que em Santa Luzia domina um pequeno regato.

– "Se fores a Guimarães, tem cuidado com as canelas":
 
Alusão às pernas delgadas e reclame à indústria local dos cutileiros, que aproveitam o osso para cabos de facas, garfos, etc.

– "Os de Guimarães têm duas caras":
 
Se os outros dizeres são apenas desdenhosos, este é certamente desconceituoso. Como todavia o povo nada inventa sem um fundamento, ainda que imaginário, digamos como nasceu o... aleive.

Uma figura de pedra que encima o edifício da Câmara, e à qual o povo simboliza como sendo Guimarães, veste, à fantasia, uma armadura de guerreiro. Nessa armadura vê-se, além de uns dominós em charlateira sobre os ombros uma cara-máscara sobre o abdómen.

Eis o fundamento do dito. Nenhum facto histórico o originou, e, muito menos, a honorabilidade colectiva dos vimaranenses o justifica.

Se não... lá estava o privilégio concedido aos filhos da terra, em 1362*, por El-Rei D. Dinis: "quem disser mal ou doestar** homem de Guimarães, morra por ele morte de traidor, isto pelos serviços que lhe têm feito seus antecessores..."

 
A. L. de Carvalho, Roteiro de Guimarães, Guimarães, 1923, p. 94.

Notas (AAN): 
* Aliás, 1324 (1362 é a data segundo a Era de César, que se adoptou em Portugal até ao ano de 1422, no reinado de D. João I. Em documentos anteriores a 22 de Agosto 1422, haverá que subtrair 38 anos para fazer a correspondência com a Era de Cristo).

** Doestar = injuriar.
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8 de março de 2011

Entrudar com bacalhau



Terça-feira de Carnaval. Dia de entrudar. Dia de excessos e de comer carne (dia de carne vale, de dizer adeus à carne). Em meados do século XVIII, a celebrada Academia Vimaranense, fundada em 3 de Dezembro de 1724 pelo fidalgo Tadeu Luís António Lopes de Carvalho Fonseca e Camões, realizou mais uma das suas aparatosas sessões solenes onde se declamava poesia, assinalando a mudança para Guimarães do Arcebispo D. José de Bragança. À Academia deu-se o tema, Um miserável que por não gastar entrudou com bacalhau, que foi glosado por nove dos membros daquela agremiação de eruditos. Estava-se no Carnaval de 1747, e o assunto vinha a calhar com a quadra.

Aqui ficam as décimas de Tadeu Luís. Por elas se verá o pouco prestígio que então tinha o bacalhau enquanto objecto gastronómico.

 

AO SEGUNDO ASSUNTO:

Um miserável que por não gastar entrudou com bacalhau.

 
DÉCIMAS
 
Um comedor entrudal
Miserável da maleita
Que lazarando se deita
Nas escadas do Toural:
E qual outro Sarrabal,
Tratando de Astronomia,
No seu prognóstico via,
Sem nunca botar cão fora,
Lazeiras a toda a hora,
Estrelas ao meio dia.
 
Neste dia o comedor
Falando ao seu indivíduo,
Lhe pergunta: Neste tríduo
Que desejas de sabor?
Queres um bolo do amor?
Queres sopa de repolho?
Ou queres perdiz com molho?
Quero, lhe diz o marau,
Quero comer bacalhau,
Ou quero comer um rolho.
 
Que é de homem de entendimento
A inimigo necessário
Comê-lo antes voluntário,
Do que aturá-lo violento:
E fez mau cozimento
Este comestível rudo,
Quem o come no Entrudo,
Mostra com desgarre guapo,
Que nem ele lhe faz papo,
Que tem papo para tudo.

E assim mui contente e ledo
Com o bacalhau me imbigo;
Que quem busca o inimigo,
Mostra que lhe não tem medo:
Disse e ficou mudo e quedo;
E eu lhe respondi sem falha:
Vá você, já que nos ralha,
Que é um asno, um rechimbau,
Que quem rói bacalhau,
É capaz de roer palha.
De Tadeu Luís.

 
(in Guimaraens agradecido: applauzo metrico, que a celebre Academia da muito notavel Villa de Guimarães recitou na presença e em louvor do Seremo Sr. D. Jozé, arcebispo e senhor de Braga..., Coimbra: Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1747, págs. 120-121)
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6 de março de 2011

Para além da nuvem

 

Talvez a nuvem nos tolde o olhar, escondendo o que fica para lá dos acidentes, dos incidentes, das polémicas, dos tiros no pé e dos rumores que andam no ar.

Todavia, para lá da nuvem, nem tudo são más notícias. Falando da Capital Europeia da Cultura que nos calhou em sorte, tenho dito e escrito que não tenho qualquer receio em relação ao ano de 2012 em Guimarães: vai ser um sucesso, a cidade vai estar mobilizada e os vimaranenses vão participar na festa com o entusiasmo e a generosidade de sempre. Para tal contribuirá o trabalho daqueles que estão a trabalhar na programação da CEC, os programadores.[*]

Apesar dos constrangimentos que são visíveis e dos que, não o sendo, se percebem, vão montando as peças do puzzle de 2012 com seriedade, empenho, criatividade e inegável qualidade geral. Das áreas de programação que conheço melhor ("Pensamento" e "Cinema e Audiovisual"), é visível a preocupação em montar um programa de dimensão europeia com a marca de Guimarães, porque deverá ser Guimarães a estar, durante um ano, no centro da cultura europeia, porque é esse o sentido do conceito de capitalidade. Não duvido de que esta orientação esteja no cerne das preocupações das restantes áreas de programação. O problema é não se saber o suficiente. O programa apresentado ao público no dia 31 de Janeiro carece de ser divulgado, analisado e explicado, para que se torne compreensível. Para tal, é imperioso escutar os programadores, cujo silêncio, de tão misterioso e incompreensível, gera um imenso ruído.

[*] Se não me preocupa 2012, preocupa-me o tempo antes e o tempo depois de 2012. Porque é, ou devia ser, no tempo antes que se lançam, ou deveriam lançar, as bases do que permanecerá no tempo depois – o tal lastro, tão presente no discurso oficial, sempre que se fala do legado da CEC para o futuro.
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3 de março de 2011

Termos de Guimarães no 'Novo Dicionário de Cândido de Figueiredo'



Cândido de Figueiredo

Em 1899, Cândido de Figueiredo (1846-1925), publicou a primeira edição do seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, que depois teria inúmeras actualizações. Da edição de 1913, respigámos termos que têm a sua origem em Guimarães:


Cerilhoto, (lhô) m. Prov. Minh. Diminuta porção de excrementos sólidos humanos, recentemente expelidos. (Colhido em Guimarães)

Companhom, m. Ant. O mesmo que companheiro: "emprazamos a vos Esteuam Annes comigo, nosso companhom." Mss. de 1531, no arquivo da Colegiada de Guimarães. (Fr. compagnon)

Guimarães, cidade do Minho. Há mais duas formas: Guimaraens, usada por Camilo e outros, e Guimarais, usada por alguns escritores partidários da simplificação ortográfica.

Ladripo, m. Prov. Minh. Aquele que ladripa. (Colhido em Guimarães) [ladripar é sinónimo de furtar]

Mingar, v. i. Pop. O mesmo que minguar: "…Duas fontes, uma das quais não cresce nem minga." Rev. de Guimarães, vol. XV, 160.

Pedida, f. Ant. O mesmo que pedido: «saluo a pedida do Papa ou a pedida noua dElRey». Documento de 1351. Cf. Revista de Guimarães, XXXIII, 17.

Pescadeira, f. Ant. Mulher, que vende pescada; peixeira. Cp. Livro dos Acórdãos, da Câmara de Guimarães, (1692) (De pescadeiro)

Rebaixe, m. O mesmo que rebaixo. Escavação longitudinal. Cf. Rev. de Guimarães, XV, 160.

Recintar, v. t. Prov. Minh. Recintar o avental, levantar-lhe as pontas e segurá-las na cinta. (Colhido em Guimarães) (De re…+cinta)

Samagaio, m. Prov. Minh. Pão, usado nas festas de baptizado, em Guimarães, e que, no dia do baptismo, a madrinha do neófito deve dar a quem o peça.

Vimaranense, adj. relativo a Guimarães. M. Habitante de Guimarães. (Do b. lat. Vimaranum, n. p.)
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2 de março de 2011

As obras da Colegiada, segundo Ramalho Ortigão



Ramalho Ortigão, na sua obra O Culto da Arte em Portugal, refere-se às obras da Colegiada da Oliveira da década de 1830, que já tinham sido objecto de severa crítica por parte de Alexandre Herculano. Ramalho dá particular relevo a um vitral que "fazia explodir em apoteose a policromia do espelho" e que, tanto quanto é possível saber-se, nunca terá existido:

Em Guimarães mascaram indignamente de cal e de madeira as colunas e as arcarias da venerável igreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos primeiros anos do século X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa Mumadona. No claustro do século XIII, que envolve uma parte da igreja, revestem de caixilharia envidraçada a graciosa arcaria, e rebocam espessamente a cal os capitéis das colunas. A flamante janela gótica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia explodir em apoteose a policromia do espelho, emoldurado na sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em fantasiosos ressaltos de mísulas, sob rendilhados baldaquinos, é impiedosamente arrasada e substituída por uma chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro óculos.

(Ramalho Ortigão, O Culto da Arte em Portugal, António Maria Pereira, Livreiro-Editor, Lisboa, 1896, págs. 70-71)
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1 de março de 2011

A Citânia de Briteiros, segundo Camilo



Em 1862, Camilo Castelo Branco publicou as suas Memórias do Cárcere, em que relata a sua passagem pela Cadeia da Relação do Porto, onde esteve preso por adultério. No Discurso Preliminar desta obra em dois volumes, Camilo descreve os dias anteriores à prisão e a sua passagem por Guimarães, onde, escreve, "procurei o conhecido, e achei um amigo, como usam raramente ser os irmãos": Francisco Martins Sarmento. A propósito da descoberta da Citânia de Briteiros, refere-se aos "sábios em medalhas e cipos", como "a gente mais estafadora do mundo". Mal ele imaginava que Martins Sarmento, anos mais tarde, se faria arqueólogo à conta da Citânia, tornando-se no mais eminente dos nossos "sábios em medalhas e cipos"...
 
A meia légua das Taipas, tem Francisco Martins uma quinta, chamada de Briteiros. Na casa magnífica da quinta vivia um par de cônjuges decrépitos, antiquíssimos criados de pais e avós do meu amigo. A extensão de salas, câmaras, corredores em longitude e forma conventual, de tudo me senhoreei. Escolhi o quarto, cujas janelas faceavam com um recortado horizonte de arvoredos, e a cumieira chão de um serro onde se divisam as relíquias de antiga povoação, que lá dizem ter sido Citânia, cidade de fundação romana.
 
Algumas horas ali passou comigo Francisco Martins; mas o máximo dos dias e as noites vivi diante de mim próprio, na soledade daquele quarto, ou em perigosas excursões à serra sobre um cavalo, que parecia vezado a passear sobre alcatifas.
 
Amanheci um dia entre as ruínas da presumida Citânia. Vi algumas pedras derruídas em cômoros, as quais denunciavam ausência de toda a arte, para de pronto desvanecer conjecturas de edificação regular. Existiam vestígios de cisterna, e descalçadas lajes dum caminho de pé-posto, que sem dúvida tinha sido estrada. A meu parecer, não irá longe da fundação da monarquia portuguesa a construção daquele presídio, se tal nome lhe cabe em vista dos estreitos limites do terreno plano. Pode ser que, nas guerras de desmembração, sequentes às primeiras conquistas do conde Henrique, guerras tão cruamente pelejadas nas circunferências de Guimarães até ás indeterminadas fronteiras, aquele ponto, onde os visionários vêem cidades cartaginesas e romanas, fosse singelamente um miradoiro de observação, que abrangia grande parte do território convizinho de Guimarães, então foco das operações militares da recente monarquia. Como quer que seja, a chamada Citânia faria derrear um antiquário, sem ele descobrir nas ruínas dela pretexto a narcotizar com um in-folio a porção do género humano, que ainda crê nas visualidades de antiquários, e decifrações arrevezadas de pedras, e quejandos desfastios de sábios em medalhas e cipos — a gente mais estafadora do mundo.

O senhor Domingos e a senhora Rosa (eram os cônjuges meus familiares) contaram-me que lá em cima na Citânia estavam moiras encantadas, que eles tinham visto em certas noites vaguearem em torcicolos com luzinhas pelo pendor da serra. Não desfaço na palavra do senhor Domingos e da senhora Rosa; mas inclino-me a crer que os velhinhos vissem pirilampo. O mesmo não direi doutra moura que viera num berço à flor do rio Ave; e no momento em que o encanto se lhe quebrou, o berço se converteu em alva fraga. Nenhuma dúvida há: lá está a fraga. A senhora Rosa sabia as lendas todas, que Almeida Garrett publicou, já desluzidas da campestre originalidade em que mas ela repetiu.

(Camilo Castelo Branco, Memórias do Cárcere, volume I, 2.ª edição, Casa da Viúva Moré – Editora, Porto, 1864, págs. XLVI a XLVIII do discurso preliminar)

 
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