13 de março de 2011

Ditos populares sobre Guimarães e os vimaranenses, segundo A. L. de Carvalho



A fechar o seu Roteiro de Guimarães, publicado em 1923, A. L. de Carvalho dá conta dos anexins (ditos populares) que se referem a Guimarães e aos vimaranenses, deles apresentando a sua interpretação. No texto de A. L., que a seguir se transcreve, note-se a interpretação da tradição das duas caras, que era a que corria no tempo em que escrevia, onde não se encontra qualquer referência à tradição de Barcelos com que, em tempos recentes, alguns persistem em explicar um velho dito popular:

 
ANEXINS DA TERRA
 
"Guimarães tem uma sé sem bispo1, um palácio sem rei2, uma ponte sem rio3":
 
1 Sé sem bispoPor os D. Priores da Colegiada, espécie de pequena diocese, haver tido jurisdição similar aos bispos – e os bairristas se ufanarem disso em conjunturas várias da sua provecta história.

2 Palácio sem rei — Por esta terra ter em alta honra haver sido corte do primeiro rei português, a ponto de em 1666 a nobreza e o povo protestar, em sessão da Câmara, contra a provisão que autorizava os frades capuchos a edificar o seu convento à custa das pedras do alcáçar real.

3 Ponte sem rio Referência à grande ponte-viaduto que em Santa Luzia domina um pequeno regato.

– "Se fores a Guimarães, tem cuidado com as canelas":
 
Alusão às pernas delgadas e reclame à indústria local dos cutileiros, que aproveitam o osso para cabos de facas, garfos, etc.

– "Os de Guimarães têm duas caras":
 
Se os outros dizeres são apenas desdenhosos, este é certamente desconceituoso. Como todavia o povo nada inventa sem um fundamento, ainda que imaginário, digamos como nasceu o... aleive.

Uma figura de pedra que encima o edifício da Câmara, e à qual o povo simboliza como sendo Guimarães, veste, à fantasia, uma armadura de guerreiro. Nessa armadura vê-se, além de uns dominós em charlateira sobre os ombros uma cara-máscara sobre o abdómen.

Eis o fundamento do dito. Nenhum facto histórico o originou, e, muito menos, a honorabilidade colectiva dos vimaranenses o justifica.

Se não... lá estava o privilégio concedido aos filhos da terra, em 1362*, por El-Rei D. Dinis: "quem disser mal ou doestar** homem de Guimarães, morra por ele morte de traidor, isto pelos serviços que lhe têm feito seus antecessores..."

 
A. L. de Carvalho, Roteiro de Guimarães, Guimarães, 1923, p. 94.

Notas (AAN): 
* Aliás, 1324 (1362 é a data segundo a Era de César, que se adoptou em Portugal até ao ano de 1422, no reinado de D. João I. Em documentos anteriores a 22 de Agosto 1422, haverá que subtrair 38 anos para fazer a correspondência com a Era de Cristo).

** Doestar = injuriar.
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