31 de março de 2008

Vimaranenses: Luís António da Costa Pego Barbosa

Filho de Francisco da Rocha Veloso e de D. Isabel da Trindade Barbosa, nasceu este nosso patrício a 24 de Setembro de 1710. Estudou humanidades em Braga e tão aproveitadamente se entregou ás letras, que estas lhe abriram carreira para os mais elevados cargos que desempenhou.

Foi fidalgo capelão da Casa Real, oficial da secretaria de estado dos negócios do reino, cavaleiro professo na ordem de Cristo, beneficiado da igreja de Santa Maria de Castelo Branco.

Era senhor do morgado de Santo Estêvão e Padroeiro da igreja de S. Pedro, desta cidade, para a qual conseguiu o título e honrarias de basílica, a primeira, que na prima diocese se reconhece e a terceira que ilustra o orbe lusitano, categoria que lhe foi dada por Bento XIV a 26 de Março de 1751.

Muitas das corporações religiosas de Guimarães devem inúmeros benefícios a este incansável patrício. A S. Pedro, além da graça referida, deu diversas alfaias e entre estas um cálice de muito merecimento pelas figuras que o ornavam, levantadas em alto-relevo e que foi roubado na invasão francesa. Às Capuchinhas fez presente das três devotas imagens, Senhora da Madre de Deus, Menino e S. José, com as quais despendeu quantia superior a cinco mil cruzados.

Foram brilhantíssimos os festejos realizados em Guimarães por ocasião da chegada e colocação destas imagens na igreja do convento, descrição que pode ver-se no – Guimarães, apontamentos, etc. – tomo I, pág. 325 e seguintes, leitura que recomendámos.

O nosso vimaranenses escreveu “Novena da Senhora da Madre de Deus de Guimarães”, o “Directório paras os Sábados”, da mesma Virgem e a “Novena do Príncipe dos Apóstolos S. Pedro ara a Basílica de Guimarães”.

As acções beneméritas de Pego Barbosa foram elogiadas num opúsculo em oitavas, “Elogio Métrico”, publicado pelo Dr. Domingos José de Freitas Sampaio, outro ilustre vimaranense.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 46, Guimarães, 18 de Setembro de 1884]

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30 de março de 2008

Vimaranenses: Manuel da Madre de Deus Miranda

Entre os oradores notáveis que ilustraram o século XVII, ocupa distintíssimo lugar o nosso patrício Manuel da madre de Deus Miranda, filho de Cristóvão Machado Ricolado ou Riconado e D. Brittes Machado da Maia Miranda, que a 23 de Junho de 1641 recebeu a Murça da congregação de S. João Evangelista.

Formado na Universidade de Coimbra, pregador geral, ocupou o importantíssimo cargo de provedor do hospital geral da Caldas da Rainha.

Faleceu a 23 de Setembro de 1692.

Ainda hoje podemos avaliar seus conhecimentos, relendo os sermões que deixou manuscritos.

Entre os impressos há um que foi recitado nesta cidade na festa de Corpus Christi, na Colegiada, em 1685.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 46, Guimarães, 18 de Setembro de 1884]

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29 de março de 2008

Vimaranenses: Agostinho Barbosa (2)

Deixámos já biografado este nosso ilustre patrício, nascido a 17 do Setembro de 1590, no número 3 do nosso jornal, para onde enviámos os leitores. Dá-nos porém ocasião a falar dele a menção, que devemos aqui fazer de uma obra, que posteriormente se descobriu manuscrita, e que tem o grande mérito de ser escrita, como supomos, pelo próprio punho do insigne bispo, quando estudante em Coimbra e desconhecida de todos os bibliógrafos.

Foi esta obra oferecida em Dezembro de 1883 à Sociedade Martins Sarmento pelo Exmo. Francisco Ribeiro Martins da Costa e pode ser examinada na Biblioteca.

É livro em quarto e tem 74 folhas, exclusive o index que ocupa duas e uma poesia latina dedicada à protagonista da obra, que ocupa outras duas.

Ao Index segue-se o rosto que diz: Vida, Morte, e Milagres da Mui Ilustre e Santa Matrona Margarida de Chaves. Conimbricae. Segue-se no verso o sub-rosto que diz: “Esta é a suma da vida milagres da ilustre e Santa Matrona Margarida de Chaves que tirei recupiladamente de uns cartapácios que me emprestou o P. Gonçalo Correia de Sousa filho da dita santa andando na Universidade de Coimbra em Dezembro de 1610. Agostinho Barbosa.

O título dá uma ideia geral da obra, a biografia de Margarida de Chaves, natural da ilha de S. Miguel, falecida com fama de santidade e para a beatificação da qual se empregaram diversos trabalhos como do mesmo livro consta.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 46, Guimarães, 18 de Setembro de 1884]

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27 de março de 2008

Vimaranenses: Fr. Estêvão de S. Paio

Importante foi o papel representado por este nosso patrício, granjeando-lhe um nome imortal, nos fastos da nação. Estêvão do S. Paio nasceu nesta cidade, então vila, na primeira metade do século XVI recebeu o hábito no convento dominico de Lisboa, onde se tornou célebre pelo seu talento e ciência.

Era muito afeiçoado à nobre casa do Vimioso e por isso seguiu como esta o partido de D. António, prior do Crato, que era o partido da independência da pátria. Tão saliente se tornou o nosso vimaranense que os espanhóis lhe deram a merecida recompensa, encarcerando-o em hórrida masmorra.

Conseguindo evadir-se dirigiu-se para França e aí tão optimamente aproveitou seu tempo na cultura das letras, que recebeu o grau de doutor era teologia na Universidade de Tolosa. Perito no latim foi encarregado de verter para esta língua as crónicas e livros portugueses que se ocupassem da ordem dominicana e traduziu a “Vida de S. Fr. Gil”, a de “S. Gonçalo de Amarante”, a “Conversão de S. Pedro Gonçalves”, a “Vida de Pr. Paio, primeiro prior de Coimbra”, a de “S. Lourenço Mendes” e a de “Fr. Pedro", porteiro do convento de Évora, sendo estas obras impressas em Paris num volume a que deu o título – “Thesaurus Arcanus Lusitanus Gemmis Refulgens”, dedicado ao bispo de Angers, capelão de Carlos IX e Henrique III de França. A esta obra vem unido um catálogo dos gerais da Ordem, cardeais e varões insignes que a ela pertenceram, que todavia não se reputa muito exacto. Por seus trabalhos também se publicaram em 1596 algumas das obras de S. Tomás a que ele antepôs um prefácio.

O assíduo labor literário não o fazia esquecer da sua querida pátria que via sujeita ao domínio espanhol. Aparecendo em Veneza um indivíduo, Marcos Tullio Catizoni, que se dizia ser o malogrado Rei D. Sebastião e que era o quarto que por tal se inculcava, sendo também o que mais vivas impressões deixou, Estêvão de S. Paio, influenciado por D. João de Castro, parte para Veneza reconhecer a identidade do monarca, sofrendo horrível decepção porque imediatamente se convenceu que o pretendido rei não passava dum impostor, que buscava explorar a credulidade e patriotismo de muitos portugueses emigrados em Itália; tinha porém avançado muito e não era possível recuar.

Desta época, 1600,é a sua obra “Juramentum Regis Aldefonsi Primi Portugaliae Super Approvatione et Confirmatione Visionis in Campo Auriquii”, obra de propaganda a favor da causa nacional.

Devotado à causa da pátria, seguiu os passos do Rei em que ele antevia um incentivo para levantar os ânimos portugueses e sacudir o ominoso jugo de Castela. Empregou todos os esforços para conseguir a liberdade do italiano, encerrado primeiro em Nápoles e depois entregue por perfídia à Espanha, que o condenara às galés. O nosso patrício não cessou de socorrer e auxiliar com dinheiro o condenado, o que sabido do governo espanhol, foi causa de se buscar por todos os meios haver à mão tão fervoroso patriota.

Preso cm Trás-os-Montes foi enviado para San Lucar de Barrameda, onde, instaurando-se-lhe processo, foi executado a 30 de Agosto de 1603.

O inteligentíssimo Fr. Estêvão de S. Paio, como escreve o Dicionário Popular, merece o reconhecimento e o afecto de todos os portugueses, porque foi levado a fazer tudo o que fez pelo vivo desejo que tinha de restituir a independência à sua pátria e foi por conseguinte, expirando em San Lucar de Barrameda, um Mártir da causa nacional.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 43, Guimarães, 28 de Agosto de 1884]

Nota: O nome deste dominicano, com uma história de vida tão curiosa e atribulada, também pode aparecer escrito com Sampaio, por extenso, em vez de S. Paio.

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26 de março de 2008

Vimaranenses: Fr. António de S. Miguel

Nasceu este nosso patrício a 28 de Agosto de 1661, sendo filho de Damião Moreira, Provedor da Comarca, e de D. Ma ria da Fonseca.

Dando desde os primeiro anos indícios de grande talento e havendo aprendido com muita brevidade a língua latina e humanidades, resolveram seus pais dedicá-lo à vida religiosa.

Recebeu a cógula beneditina a 8 de Maio de 1678 no mosteiro de Tibães, tendo 17 anos de idade.

Estudou filosofia em Pombeiro, teologia em Coimbra e após 4 anos de passante, foi leitor de Artes no mosteiro de Santo Tirso.

Desejando avançar no caminho da virtude e trabalhar por meio da pregação na salvação do próximo recolheu-se ao convento do Porto, depois de da ter renunciado as cadeiras, e aí se entregou ao ministério do púlpito, no qual colhia abundante fruto.

Com o fim de alcançar a reforma da 3.ª Ordem, partiu para Roma, onde atraiu as atenções da Cúria pela sua ciência e virtude, e havendo alcançado a desejada reforma, voltou ao reino, sendo então eleito abade do convento de Carvoeiro, comarca de Viana, o qual foi destinado para se implantar a reforma.

Depois de austeras penitências e contínuos jejuns aqui faleceu a 14 de Setembro de 1721 com 62 anos de idade e 54 de religião.

Compôs as seguintes obras “Sermões Vários”, 1 tomo; “Cerimonial para uso da Monástica Congregação do reino de Portugal disposto conforme os decretos da S. C. dos Ritos”: este volume in folio ficou manuscrito.

Deste nosso ilustre vimaranense não teve conhecimento nosso amigo Padre Caldas, e é certo encontrar-se notícia dele na “Biblioteca Lusitana”, tomo 1.º, bem como no “Dicionário Popular”, obra ainda não completa.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 43, Guimarães, 28 de Agosto de 1884]

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20 de março de 2008

O meu mundo não é deste reino

Bem sei que este assunto foge da linha temática deste espaço, mas sou professor e tudo o que aqui escrevo é escrito a pensar, também, nos meus alunos. Pode alguém ser quem não é?

Quando começou a moda de atacar os professores, com recurso a argumentos demagógicos, irresponsáveis e injustos, muitas vezes usados por gente que reputo de inteligente, transformando-os numa caterva de madraços e incapazes que era preciso meter na ordem, estava-se a ver onde isso ia dar. A violenta humilhação de uma professora por obra de uma aluna, perante o gáudio alarve da turma a que pertence, tudo filmado ilegalmente e colocado na net, deveria fazer soar campainhas nas consciências dos responsáveis pela política educativa deste país.

Aqueles jovenzinhos cometeram vários crimes tipificados na lei, que adivinho que ficarão sem castigo. E não me surpreenderá por aí além se amanhã for levantado um processo disciplinar à professora, por se ter atrevido a tirar o telemóvel à aluna. Porque, nos tempos que correm, assim se fazem as coisas neste país.

Naqueles minutos brutais, que me doeram como murros no meu próprio estômago, falhou a professora, na sua impotência para lidar com uma situação impensável, falhou a escola, mas, antes de mais, falharam as famílias daqueles jovens, falhou o país, falhámos todos.

O incidente do Carolina Michaelis é a demonstração de que algo está muito mal na nossa educação e de que a campanha de descrédito e de desautorização dos professores só poderia produzir efeitos perversos, susceptíveis de minarem os fundamentos da sociedade democrática. Seria bom que se percebesse que aqueles jovens candidatos a delinquentes são cidadãos do futuro deste país.

(E, lá ao fundo, enquanto via aquelas imagens, pressenti os ecos de vozes que incitavam:

- Força!)

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19 de março de 2008

Influência de Martins Sarmento na obra de Alberto Sampaio

Francisco Martins Sarmento e Alberto Sampaio

Alberto Sampaio referia-se a Francisco Martins Sarmento como o meu sábio amigo. Não faltam testemunhos da amizade que o uniu ao arqueólogo da Citânia de Briteiros, que se estreitou quando, já bacharel, Alberto Sampaio regressou a Guimarães e que se prolongou até à morte de Sarmento. No texto introdutório que escreveu para a edição de 1923 dos Estudos Histórico e Económicos de Alberto Sampaio, Luís de Magalhães descreve a génese da obra historiográfica do autor das Vilas do Norte de Portugal e a influência que nela exerceram os trabalhos de Martins Sarmento:

“A esse tempo, escavando as citânias, remexendo nas suas ruínas, Martins Sarmento, com o seu vasto saber, a sua extraordinária perspicácia, as suas subtis intuições, decifrava, à luz da moderna ciência, esses enigmas arqueológicos, espalhados tão profusamente na região de Entre Minho e Douro. As suas investigações, alumiadas pela clareza dos raciocínios, revelavam toda uma estratificação histórica desaparecida, um mundo extinto, uma civilização fossilizada que fora como a raiz profunda e obscura das actuais formas da nossa vida social e económica.

Amigo íntimo de Sarmento, vivendo, como ele, em Guimarães, Alberto Sampaio seguiu de perto e com apaixonado interesse os seus trabalhos, que tantos subsídios elucidativos ofereciam às questões históricas em que o seu espírito andava empenhado. E, sobre a base das descobertas do ilustre arqueólogo na parte relativa à proto-história e à etnografia, traçou, o seu primeiro livro, o magnífico estudo sobre A Propriedade e a Cultura no Minho, que, desde logo, o colocou na primeira linha dos nossos publicistas de economia rural. E tanto que Oliveira Martins, ao elaborar o seu projecto de lei de Fomento Rural (que, sendo, talvez, o maior atestado da sua vasta capacidade de estadista é, por outro lado, a prova da nossa inqualificável incúria legislativa, que o deixou dormindo o eterno sono do esquecimento na sepultura duma comissão parlamentar) recorreu à colaboração e ao conselho de Alberto Sampaio, cujo conhecimento, ao mesmo tempo teórico e prático, erudito e técnico, da agricultura no norte do país, lhe era um precioso auxílio para dar ao seu monumental trabalho aquela exequibilidade pronta e segura que deve ser o ideal de todas as criações legislativas.”

Um pouco mais adiante, no mesmo texto, Luís de Magalhães, também ele amigo e confidente de Sampaio, situa a sua obra deste modo:

“Entre a obra arqueológica de Martins Sarmento e a obra histórica de Herculano, a de Alberto Sampaio interpõe-se como um nexo, uma ligação que as conjuga, as une e lhes dá continuidade, fazendo desaparecer um grande hiato de treva, de incerteza e de ignorância.”

Texto também publicado aqui.

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16 de março de 2008

14 de março de 2008

Guimarães em voo de pássaro

O Toural no Virtual Earth, em perspectiva a partir lado poente

A última actualização do Virtual Earth passou a disponibilizar imagens das principais cidades de Portugal, em 3D com o Bird's Eye, que consiste em fotografias de alta resolução obtidas a partir de ângulos de 45 graus em relação ao solo. Guimarães também lá está.
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11 de março de 2008

Do Toural: o último debate

Ontem, o projecto para o Toural e para a Alameda esteve novamente em discussão. O debate do Centro Cultural Vila Flor foi algo diferente do realizado na Sociedade Martins Sarmento, menos emotivo, com os técnicos a assumirem uma postura mais serena e aberta aos diferentes contributos que iam surgindo de um público igualmente interessado, mas em menor número do que na sessão anterior.

A primeira nota que aqui se regista é a evidência de que os técnicos, em especial o arquitecto Fernando Seara de Sá, têm muito mais certezas do que os decisores políticos, nomeadamente o Presidente da Câmara, António Magahães.

Com mais esta sessão, há perguntas que já foram colocadas e que continuam sem resposta, em particular as que se referem aos estudos sobre a mobilidade e as necessidades de estacionamento que, ao que dizem, justificam as soluções propostas. Muito se ganharia se os resultados desses estudos técnicos, mesmo que preliminares, tivessem sido divulgados antes ou durante o processo de discussão pública do projecto. Mas ainda é tempo para o fazer.

O mesmo se dirá em relação às prospecções geológicas que terão sido feitas. Não faltam testemunhos que indiciam que o terreno do Toural, especialmente na sua frente voltada ao sul, terá uma compleição rochosa. Ao que se vai dizendo, os resultados das tais prospecções irão em sentido contrário. Para afastar dúvidas, seria recomendável que se revelassem os resultados dessas sondagens e se mostrasse a fiabilidade da técnica utilizada (que não percebi bem qual fosse). Entretanto, persistirá uma dúvida não desprezível: até que profundidade é que há garantias de que o terreno não oferece problemas?

Às dúvidas, que o próprio Presidente da Câmara avançou, quanto à probabilidade de achados arqueológicos virem a interferir seriamente no andamento das obras, se avançarem, houve quem respondesse com certezas muito optimistas. Cá por mim, não as tenho assim tão certas. E direi mais: do meu ponto de vista, bem que gostaria que se fizessem prospecções arqueológicas no Toural (confesso que alimento alguma curiosidade em saber o que se esconde ali debaixo). Dos argumentos que escutei sobre a improbabilidade de se encontrar algum achado relevante no Toural, um pareceu-me particularmente curioso, aquele que falava da profundidade a que se poderiam encontrar vestígios arqueológicos. Dizia-se que, a haver achados, eles não apareceriam a mais do que uns quantos metros de profundidade. Não percebi, confesso, onde se queria chegar. A quem tem tantas certezas nesta matéria, certamente com base numa qualquer ciência divinatória que não a Arqueologia nem a História, lembro que as prospecções arqueológicas no Centro Histórico de Guimarães costumam dar resultados aparentemente surpreendentes: quando se esperava muito, tivemos nada; quando se esperava nada, tivemos muito. Pelos vistos, não falta quem se recorde da demanda pela antiga igreja da praça de S. Tiago, mas que esquece, muito convenientemente, os muito mais recentes achados da Casa dos Lobo Machados e as suas consequências na vida da ACIG.

Já disse que não me admirava que fossem dos comerciantes do Centro Histórico as primeiras queixas em relação aos efeitos das obras do Toural. Estava certo de que, começados os trabalhos, não tardariam em ir bater à porta da Câmara com a queixa do costume: os prejuízos para o negócio. O que não esperava, era ver a lamúria já no adro, ainda sem ter saído a procissão, e sem sequer se saber se sairá ou não. Não faz nenhum sentido os comerciantes pedirem subsídios à Câmara para cobrirem eventuais prejuízos que lhes advenham da quebra do negócio em tempo de obras. Se o projecto avançar com pretexto nos benefícios que trará para o comércio, será expectável que os beneficiados, em vez de estenderem a mão a pedirem apoios públicos, a estendam para mostrarem que estarão dispostos a assumir a sua quota-parte na responsabilidade de custear o empreendimento de que serão os principais favorecidos.

Mais um debate, e continuo com dúvidas quanto à necessidade de estacionamento enterrado no Toural (para já não falar no inaudito túnel que para lá é proposto). Ainda há dias, no debate que a Muralha promoveu sobre a proposta de nova localização para a feira semanal, um técnico da Câmara Municipal demonstrou que aquele equipamento ficará muito bem servido pelo estacionamento já disponível dentro de um perímetro de quinhentos metros. Então, como é? Quinhentos metros é uma distância aceitável para quem vai à Feira e de lá vem com os seus carregos, e duzentos ou trezentos já não o serão para quem vai às compras no Centro Histórico?

Temos ouvido dizer que o parque subterrâneo do Toural é necessário para substituir os lugares de aparcamento que serão eliminados nos largos João Franco e Condessa do Juncal e na Alameda (para não falar na possível eliminação do parque privado do Centro Comercial Santo António, que não se percebe bem como continuará a funcionar, após o encerramento do trânsito naquela artéria). Esse tem sido o melhor argumento que tenho ouvido para justificar a necessidade do parque no Toural. Mas levanta-me uma inquietação: metendo no novo parque os automóveis que agora estacionam nos parques que irão desaparecer, não me parece que vamos ter mais lugares de estacionamento do que os que temos hoje. Ou, dito de outra maneira: se os carros que vão estacionar no Toural são os mesmo que já hoje estacionam ali por perto, o resultado líquido deste empreendimento será, em lugar da proclamada reanimação no comércio local, apenas, e tão só, mais do mesmo que já hoje temos.

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5 de março de 2008

O Muro do Toural (3)

Continuado daqui...

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Para as noites de Inverno

O Muro do Toural

(entre a Torre da Piedade e o Postigo de S. Paio)

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II

As edificações no Toural vinham-se discutindo desde 1701 Em sessão de 24 de Setembro, o Procurador do Concelho fez termo de ser obrigado pelo Provedor a assinar uma vistoria para aforar terrenos destinados à edificação de casas junto ao muro no Rocio do Toural, sem consentimento da Câmara. E a 26, requereu o Procurador que se não registassem quaisquer Provisões que alcançassem os que pretendiam edificar casas junto ao muro do Toural - António José de Sousa, António Alves Ribeiro e outros -, sem se lhe dar vista, por o aforamento ser contra lei. Assim começou a discussão, que se prolongou, como já se viu, pelo ano de 1792. E seja, de passagem, frisado, por curiosamente significativo, que, neste ano de 1792, ao mestre-pedreiro Pedro António Lourenço, como arrematante das calçadas, a muito importante quantia de 400$000 réis foi paga pela Câmara.

Ora, além deste espicaçamento obreiro, outras razões havia naquele ano de 1793 - reportando-nos à data do pitoresco documento, causa desta nota -, de natureza política a estimular a actividade administrativa. A Revolução Francesa produzira o maior abalo em toda a Europa, que procurava congregar-se a exterminar e abafar pelas armas os -princípios impetuosa e sangrentamente proclamados. Mais ainda, a notícia da execução de Luís XVI efervescera os ânimos. Certo é que, em Maio, depois de ser lida a Carla Régia que participava o nascimento (29-4-1793) de uma Princesa da Beira, Guimarães entrou rijamente em festa. Houve repiques, luminárias 3 noites e na do dia do baptismo. Iluminação da casa da Câmara. Música. Tríduo solene na Colegiada. Te-Deum. No dia 5, saíram muitos curiosos, seculares e eclesiásticos, todos em carrinhos e no fim um coche com a figura do Senado vestido à corte, cantando a instrumental, “e depois vieram à Casa da Câmara buscara a bandeira e voltaram ao Toural levantar o mastro das festas. Na Oliveira, donde saiu a 17 uma luzida procissão com figuras a pé e a cavalo, adereçadas e vestidas a todo o custo, que deram os negociantes, levando a Senhora, pregou dois sermões um afamado Mestre graciano, do Convento do Pópulo de Braga. Acompanharam procissão o Senado, a Nobreza e o Cabido. Depois, bailes, máscaras e dois dias de toiros. Os ourives deram 3 noites de fogo, em que gastaram 150S000 réis. Por último uma grande contradança, com que findaram as festas. “Como nunca se fez nesta vila”.

A sessão da Câmara de 26 de Março de 1794 dá nota das consequências das obras, de que tratado citado e transcrito documento de 1793. A Câmara resolveu informar da conveniência de continuar a feira do pão na Oliveira, dando as razões da mudança do Toural Assim votara a nobreza e povo, na consulta feita ao abrir do mês. Daquela informação se vê que o Toural ficou consertado com os edifícios novos; que tinha dantes uma alpendrada encostada ao muro e em toda a extensão dele; que António Alves (Ribeiro Guimarães) tinha feito um grande edifício no Postigo de S. Paio; que tinha. Sido mudada, para o Campo da Feira, a feira do gado, como já em tempos ordenara D. João V (Provisão de 20-Fevereiro-17322).

[Eduardo de Almeida, in Notícias de Guimarães n.º 42, ano 1, 6 de Outubro de 1932]

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3 de março de 2008

Braga contra Guimarães, segundo Oliveira Martins (2)


BRAGA CONTRA GUIMARÃES (23-1)

Voltamos hoje a este assunto. Já anteontem dissemos o suficiente para que o público possa apreciar a nossa opinião a respeito da pendência declarada entre as duas cidades do Minho. Sem nos declararmos por uma nem por outra, porque é sempre indiscreto intrometer-se a gente em negócios alheios, dissemos todavia que o Porto não podia deixar de simpatizar com aquela que reclamava o acolher-se ao seu grémio distrital. Dissemos mais que, se Guimarães se diz lesada e nisso funda o seu pedido de desanexação, Braga igualmente alega que Guimarães lhe deixa perda... mas insiste por continuar nessa condição ruinosa! Alegamos ainda ser mais digna de simpatia a atitude do que, declarando-se lesado, apenas quer mudar de condição, do que a do que insiste em conservar na dependência um aliado, mau grado seu. E por fim dizíamos que esta questão, em que todavia não podíamos nem devíamos emitir voto decisivo, era administrativa apenas — não era nem podia tornar-se política — e que devia ser debatida num terreno pacífico e sereno, para que os ódios partidários não fossem inflamar com elementos de combustão as malquerenças de duas terras, nobres ambas entre as mais nobres.

Até hoje, no campo da discussão, apenas vimos contra Guimarães o argumento de que esse concelho está encravado por três faces em concelhos do distrito de Braga, mas, francamente, este argumento, reduzido às suas devidas proporções, vale muito pouco. Como nos não propomos neste artigo defender Guimarães, nem atacar Braga, dispensamo-nos de o analisar, e de novo dizemos que administrativamente o que o Minho está reclamando é uma revisão das suas circunscrições distritais.

Não nos parece que valha também demasiado o facto de se ter tocado a Maria da Fonte em Nine ou nas ruas da antiga metropolita das Espanhas, porque esse hino, popular ainda, é frequente ouvir-se em muitas romarias minhotas, e, se tem escassa significação quando cantado ao divino, não a adquire maior quando se entoa contra o berço da monarquia, porque nesta denominação não vai incluída alusão alguma à forma do nosso Governo. Não! os trombones das filarmónicas de Nine, não eram republicanos, nem progressistas, nem regeneradores: eram apenas bracarenses.

Sério e grave, porém, é o que na quarta-feira se passou na Câmara, quando o chefe do Partido Progressista muito naturalmente pediu ao Governo explicações sobre essa agitação local, e o presidente da Câmara, tapando-Ihe a boca de um modo insólito, provocou o tumulto que sabemos. Não é decerto por tal forma que o prestígio do Governo cresce nem que se consolida o respeito assaz claudicante pelas instituições parlamentares.

Sério e grave porém é o que porventura se está passando na Câmara agora mesmo, enquanto escrevemos este artigo. Como cobrirá o Governo um presidente da Câmara que tem dado já tão sobejas provas de incapacidade? Como responderá agora, quando o interpelarem acerca da nomeação do Marquês de Valada, acerca das suas tropelias doidas, acerca das suas portarias anárquicas, rebelando-se contra o próprio superior hierárquico, o Ministro do Reino, que tem na mão? Como se limpará desta série de torpezas e indignidades que, partilhando dos conhecidos caracteres de Atenas e de Roma, reúne os vícios mais abjectos à corrupção simoníaca, para em resultado provocar a desordem administrativa, acendendo o fogo dos ódios locais?

Sério e grave é este lado da questão; o outro, o administrativo, sem deixar de ter seriedade, nem gravidade, deve ficar alheio à política para onde alguns parece quererem encaminhá-lo, porque um partido não pode nem deve tornar-se solidário com os ódios nem com os interesses de nenhuma cidade; e porque o Partido Progressista deve fugir cuidadosamente ao laço porventura armado pelo sr. Fontes, hábil maquinista cenógrafo, para o prender aos bancos do Poder, sumindo-se ele comodamente e sub-repticiamente ao julgamento implacável que o espera.

Este gabinete fontista não pode nem deve cair senão esmagado sob o peso da condenação pública. Não pode nem deve cair por acidente parlamentar, por um conluio de deputados; e se de tal modo suceder, ai de quem lhe herdar o espólio! Oxalá pois que hoje, quando se abrir o debate da questão de Guimarães, debate que o procedimento do presidente da Câmara tornou irritante; oxalá, dizemos, que os nossos amigos e correligionários tenham o sangue-frio para medir bem a gravidade da situação.

O fontismo não pode descer naturalmente do Poder: tem de ser despenhado do alto do seu trono, para que, rolando pelos degraus desconjuntados, chegue a baixo feito em astilhas. Ê réu de dois crimes de lesa-pátria - é perdulário e é corrupto. Da inépcia não falemos porque ninguém tem culpa de ser destituído: a culpa é de quem se mete com gente incapaz.

O fontismo recebeu os fundos a 54 e levou-os agora a 43; fez perder 11 pontos, ou 60.000 contos aos portadores de títulos portugueses. O fontismo lega um deficit de 10.000 contos e uma dívida flutuante de 12.000. O fontismo deixa a anarquia em todos os ramos de administração, incluindo os ultramarinos, cuja análise os leitores têm aqui visto exposta de um modo incontestável. O fontismo finalmente deixa as faces deste pobre país vermelhas de miserável vergonha por um sem número de casos que em qualquer parte teriam perdido para sempre homens do Governo, mas que, entre nós, quando não são aclamados como prodígio de habilidade, são encarados com uma indiferença enfastiada.

Pois bem. O caso de Guimarães não pode tornar-se o julgamento da política financeira do Governo, mas pode tornar-se o julgamento da sua política administrativa e a sentença fulminante da sua actividade corruptora. A anarquia do Minho e o Marquês de Valada em Braga são duas marcas de fogo com que deve ser ferrado na testa. Se cair assim cai bem; mas se desaparecer por um alçapão agarrado a Guimarães, os que ficarem na cena serão vencidos. A queda verdadeira será para eles, porque a breve trecho, como nas mágicas, o sr. Fontes surgirá por outro alçapão.

Oliveira Martins, A Província, vol. II, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1958, págs. 71-74. Texto inicialmente publicado na edição de 23 de Janeiro de 1886.

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2 de março de 2008

O Muro do Toural (2)

Continuado daqui...

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Para as noites de Inverno

O Muro do Toural

(entre a Torre da Piedade e o Postigo de S. Paio)

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II

A velha muralha ia sendo pouco a pouco destruída. Em 1780 a Irmandade da Senhora da Consolação e Santos Passos, requereu lhe fosse cedida a pedra dos muros no sítio dos Palheiros e a Torrinha da Freiria, que estava arruinada. Afixaram-se editais e a Câmara verificou (31-Outubro) que não havia reclamação alguma. Em sessão de 6 de Janeiro de 1793, nobreza e povo informam ser útil remover a pedra, que tinha caído do muro da rua dos Palheiros e que se desse a João Machado de Melo, para reparar as suas casas que ficam da outra parte da rua, obrigando-se, como se obrigou a restituí-la à Câmara quando lhe fosse pedida.

Sobre edificações na Alfândega levantara-se litígio em 1792 Inácio José de Sousa Guimarães e Francisco José da Costa haviam requerido aforamento para edificação de casas na praça do pão da Alfândega. Nobreza e povo, no dizer do Livro das Vereações disseram ser de utilidade esse melhoramento; outros contra vieram que preferível seria continuarem ali as padeiras. Que o terreno supra, alvitraram os primeiros, fosse unido ao prazo de António Alves Ribeiro Guimarães, do Postigo de S. Paio, pois, em requerimento, se obrigara a fazer uma Alpendrada para as padeiras, onde a Câmara designasse; teimaram os outros que era mais conveniente ficarem ali as padeiras. E pouco depois surgia uma acertada medida - nobreza e povo aprovaram o requerimento da Câmara a sua Majestade para que ela desse o plano e risco de todos os edifícios que na Vila se fizessem, tal como sucedia no Porto, afim dela se aformosear e regularizar. Acertada medida, acrescente-se, mais ainda se, então, como antes e depois, houvesse verdadeiro critério na conservação do antigo e na traça e directriz do novo, sem o emaranhar naquele, destruindo-o, para rasgar este para o alto sadio e seco em vez de o atolar no fundo pantanoso e sombrio, deixando-nos típica a Vila Antiga, com a cercatura de muralhas, de cujas portas e torres seguiam as novas artérias, amplas e soalheirentas.

Vê-se que, por aqueles anos, enfebrava a ânsia de obras novas. Apontaremos resumidamente algumas. Em Setembro de 1787, anuindo aos desejos do Corregedor da Comarca, a Câmara deliberou concorrer com 240S000 réis para as despesas das ferramentas precisas na construção da Estrada de Guimarães ao Porto. O Corregedor, atendendo ao proveito resultante a Guimarães da projectada obra, havia sido dela assim encarregado pela Intendência da Polícia. António Cardoso de Menezes Ataíde e Vasconcelos arrematou, por 28$800 réis, a construção dos Pontilhões de S. Lázaro (Fevereiro de 1788); e neste mês e ano, os mestres pedreiros Vicente de Carvalho, de Fermentões, e Custódio José, arremataram as calçadas da Vila (a compostura) a 1$600 réis a braça e a rebolida a 600 réis; e logo em Março, aquele Vicente José de Carvalho arrematou o encanamento da água da Praça da Oliveira, e João da Silva, carpinteiro, também de Fermentões, e Mateus Pereira, afifano, o conserto do açougue. No ano seguinte (1789) — Miguel Pereira de Carvalho, de Arões, arrematou por 30$000 reis a construção do tanque da Fonte das Passarinhas, no Terreiro de S. Francisco, conforme o risco dado, sendo a obra de pedra à custa da Câmara; Vicente de Carvalho, o encanamento da água da Fonte das Dominicas e Pedro António Lourenço, o encanamento da água que da Torre da Senhora da Guia vai para o Campo da Feira. Ao juiz de Fora cometera-se o encargo da Estrada de Braga – a Câmara vistoria a terra, que se tomou, no sítio da Conceição, para se comprar aos donos e dá-lhe 120$000 réis, para ajuda, especialmente por ter feito a calçada adiante da Ponte de Santa Luzia para a Conceição, uma entrada na vila, “que não tinha alguma boa e ficou das melhores deste Reino, o que não pôde efectuar só com os donativos da nobreza e povo”. Porque Pedro António Lourenço era mestre de obras grandes, a Câmara, em 1790, não podendo ele dar expediente a todo o serviço, pôs certos em arrematação, além das calçadas e conserto das águas, que vêm da Serra, e ele tomara. Este conserto das águas, em 1791, foi arrematado por António Costa, carpinteiro, da Rua da Cadeia, cujas obrigações eram - rever de 3 em 3 dias todo o cano da água e dar parte à Câmara para se providenciar conforme o necessário; fazer os betumes para a vedação e se não fossem capazes, se mandariam fazer à sua custa; pôr 12 alcatruzes de sua ordem, e os mais pagará a Câmara; dar conta da água que andasse extraviada.

(Continua).

[Eduardo de Almeida, in Notícias de Guimarães n.º 42, ano 1, 30 de Outubro de 1932]

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1 de março de 2008

Braga contra Guimarães, segundo Oliveira Martins

Aquando do conflito Brácaro Vimaranense de 1885-1886, J. P. Oliveira Martins era o responsável pelo jornal A Província, que acompanhou de perto, de ambos os lados, os desenvolvimentos da contenda. A dada altura, o historiador publicou dois textos sobre a matéria, onde desenvolve algumas reflexões sobre as circunscrições dos distritos. Aqui fica o primeiro desses textos onde, a dada altura, Oliveira Martins pergunta, referindo-se ao Porto, a Viana do Castelo e a Braga: Podem acaso três cidades assim vizinhas ser capitais de distrito?


BRAGA CONTRA GUIMARÃES (21-1)

Sabem os nosso leitores que na pendência levantada entre Braga, a Augusta, e Guimarães, que foi berço da monarquia, nos temos abstido porque essas questões locais devem ser dirimidas apenas entre os interessados, e mal vai quando um partido perfilha a causa de uma ou outra localidade. A Província tem sido e será o campo aberto a ambos os contendores, embora, como habitantes do Porto, não pudesse deixar de nos ser agradável o ver entrar no nosso grémio distrital uma cidade tão nobre e tão importante como é a de Guimarães.

Mas, como membros do Partido Progressista, não concebemos que este possa identificar-se com os interesses de Guimarães e menos ainda com os de Braga, porque em ambas essas localidades, como em todas as do Reino, o nosso partido tem adeptos fiéis, adeptos ilustres, em grande número. Nem a causa de uma localidade pode jamais ser a causa de um partido como é o nosso, que abrange todo o Reino e um povo inteiro.

Por isso nos dói ver que as manifestações recentes vão tomando um carácter que pode tornar-se partidário; e que Braga entoa contra Guimarães esses hinos heróicos da Maria da Fonte, que ambas deviam entoar agora de mãos dadas contra um Governo por tantos lados parecido com o cabralismo de 1846.

Há nisto um grave erro e até um perigo, porque de ambos os lados vemos progressistas, de ambos eles regeneradores, e prejudicaria decerto a uns e a outros que uma questão apenas local fizesse de Braga progressista e de Guimarães regeneradora, ou vice--versa, porque é bom que em cada cidade os litigantes estejam representados.

São inimigas antigas as duas cidades do Alinho, e essa rivalidade, às vezes acesa até ao ódio, é um exemplo anacrónico das velhas lutas municipais da Idade Média, quando cada concelho estava numa atitude, senão hostil, reservada para com os vizinhos, precisamente como sucede hoje às nações. B que a amplitude dos sentimentos de coesão social se alargou, nos séculos decorridos, dos limites de cada município, aos limites de cada nação.

Esse anacronismo porém existe, é um facto, entre Guimarães e Braga, e decerto a tradição entra por muito no conflito a que temos assistido ultimamente; sendo para notar que Guimarães se queixe dos prejuízos que sofre, e Braga igualmente alegue o peso e a carga que lhe traz a inclusão de Guimarães no seu distrito. Ora se é óbvio que, sentindo-se lesada, Guimarães peça a desanexação, é contraproducente que Braga, declarando-se também lesada, reclame a conservação do statu quo. Observe-se, além disso, que é diversa a situação de uma cidade que, usando de um direito legítimo manifesta o desejo de fazer parte de outro grémio administrativo, da situação de outra cidade que procura manter contra vontade os vizinhos no seu distrito e sob o seu mando.

E, sem querer, íamos entrando na questão, quando o nosso propósito é dizer apenas o que ela nos sugere sob um ponto de vista administrativo e sob um ponto de vista político. Em princípio, entendemos que ninguém, homem, família ou cidade, pode nem deve ser compelido ao quer que seja, sempre que se não derem causas de ordem superior que a tanto obriguem. Existem elas contra a pretensão de Guimarães? Negue-se-lhe pois o deferimento. Não as há? Não há inconveniente para o país em que Guimarães pertença ao distrito do Porto? Defira-se o requerimento.

A nosso ver esta questão prende-se com uma questão mais geral e urgente, ainda sob o ponto de vista da economia, qual é a do alargamento da área dos distritos, especialmente no Minho. As circunscrições actuais são anacrónicas perante a facilidade dos meios de comunicação. Do Porto vai-se a Braga em duas horas, de Braga a Viana vai-se em três horas. Podem acaso três cidades assim vizinhas ser capitais de distrito? Os três distritos do Norte litoral do Douro representam a área total de 748.000 hectares: pois o distrito de Beja representa por si só 1.076.000 hectares!

A distância, dados os meios de locomoção, isto é, a área considerada de um modo não apenas topográfico, é sem dúvida o principal elemento de uma delimitação de fronteiras distritais. Bem sabemos porém que se deve meter em linha de conta a população, mas ainda aqui achamos o distrito de Lisboa com 523.000 habitantes, e os três distritos a que nos estamos referindo com 1.014.000 habitantes. De modo que, ainda tendo apenas em vista a população, se deveria suprimir um dos distritos do Minho.

Eis aqui pois o sentido em que desejaríamos ver debatida a questão entre Braga e Guimarães, fora de qualquer preocupação propriamente política. Primeiro, por que o problema é apenas administrativo; segundo, porque fazê-lo partidário tem um risco grave — lembrem-se disto os nossos amigos — é que o Governo, vendo-se perdido na opinião, escolha essa questão especial para cair.

De tal forma escapará à queda que as coisas lhe estão preparando, e sairá incólume do desabamento que precipitou com as suas loucuras e com os seus crimes. Evitará o justo castigo dos seus malefícios, podendo organizar mientras vuelve todos os artifícios, todas as armadilhas, todos os sofismas, todos os cálculos mentirosos, com que preparará a sua restauração. A história de 1879-81, já o temos dito, não pode repetir-se, sob pena de morte para o Partido Progressista.

É necessário que o Governo caia, mas é necessário que caia esmagado pelas ruínas, pulverizado, condenado clara e unanimemente pela opinião pública que, mal de nós, só forma juízos decisivos quando a aguilhoam as aflições das crises angustiosas. É necessário que caia, mas quando já não for lícito a ninguém ter a sombra de uma ilusão, ou o vislumbre de uma esperança, nas mentiras descaradas da gente fontista.

Oliveira Martins, A Província, vol. II, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa, 1958, págs. 65-68. Texto inicialmente publicado na edição de 21 de Janeiro de 1886.

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