2 de março de 2008

O Muro do Toural (2)

Continuado daqui...

______________________________________________________________


Para as noites de Inverno

O Muro do Toural

(entre a Torre da Piedade e o Postigo de S. Paio)

______________________________________________________________

II

A velha muralha ia sendo pouco a pouco destruída. Em 1780 a Irmandade da Senhora da Consolação e Santos Passos, requereu lhe fosse cedida a pedra dos muros no sítio dos Palheiros e a Torrinha da Freiria, que estava arruinada. Afixaram-se editais e a Câmara verificou (31-Outubro) que não havia reclamação alguma. Em sessão de 6 de Janeiro de 1793, nobreza e povo informam ser útil remover a pedra, que tinha caído do muro da rua dos Palheiros e que se desse a João Machado de Melo, para reparar as suas casas que ficam da outra parte da rua, obrigando-se, como se obrigou a restituí-la à Câmara quando lhe fosse pedida.

Sobre edificações na Alfândega levantara-se litígio em 1792 Inácio José de Sousa Guimarães e Francisco José da Costa haviam requerido aforamento para edificação de casas na praça do pão da Alfândega. Nobreza e povo, no dizer do Livro das Vereações disseram ser de utilidade esse melhoramento; outros contra vieram que preferível seria continuarem ali as padeiras. Que o terreno supra, alvitraram os primeiros, fosse unido ao prazo de António Alves Ribeiro Guimarães, do Postigo de S. Paio, pois, em requerimento, se obrigara a fazer uma Alpendrada para as padeiras, onde a Câmara designasse; teimaram os outros que era mais conveniente ficarem ali as padeiras. E pouco depois surgia uma acertada medida - nobreza e povo aprovaram o requerimento da Câmara a sua Majestade para que ela desse o plano e risco de todos os edifícios que na Vila se fizessem, tal como sucedia no Porto, afim dela se aformosear e regularizar. Acertada medida, acrescente-se, mais ainda se, então, como antes e depois, houvesse verdadeiro critério na conservação do antigo e na traça e directriz do novo, sem o emaranhar naquele, destruindo-o, para rasgar este para o alto sadio e seco em vez de o atolar no fundo pantanoso e sombrio, deixando-nos típica a Vila Antiga, com a cercatura de muralhas, de cujas portas e torres seguiam as novas artérias, amplas e soalheirentas.

Vê-se que, por aqueles anos, enfebrava a ânsia de obras novas. Apontaremos resumidamente algumas. Em Setembro de 1787, anuindo aos desejos do Corregedor da Comarca, a Câmara deliberou concorrer com 240S000 réis para as despesas das ferramentas precisas na construção da Estrada de Guimarães ao Porto. O Corregedor, atendendo ao proveito resultante a Guimarães da projectada obra, havia sido dela assim encarregado pela Intendência da Polícia. António Cardoso de Menezes Ataíde e Vasconcelos arrematou, por 28$800 réis, a construção dos Pontilhões de S. Lázaro (Fevereiro de 1788); e neste mês e ano, os mestres pedreiros Vicente de Carvalho, de Fermentões, e Custódio José, arremataram as calçadas da Vila (a compostura) a 1$600 réis a braça e a rebolida a 600 réis; e logo em Março, aquele Vicente José de Carvalho arrematou o encanamento da água da Praça da Oliveira, e João da Silva, carpinteiro, também de Fermentões, e Mateus Pereira, afifano, o conserto do açougue. No ano seguinte (1789) — Miguel Pereira de Carvalho, de Arões, arrematou por 30$000 reis a construção do tanque da Fonte das Passarinhas, no Terreiro de S. Francisco, conforme o risco dado, sendo a obra de pedra à custa da Câmara; Vicente de Carvalho, o encanamento da água da Fonte das Dominicas e Pedro António Lourenço, o encanamento da água que da Torre da Senhora da Guia vai para o Campo da Feira. Ao juiz de Fora cometera-se o encargo da Estrada de Braga – a Câmara vistoria a terra, que se tomou, no sítio da Conceição, para se comprar aos donos e dá-lhe 120$000 réis, para ajuda, especialmente por ter feito a calçada adiante da Ponte de Santa Luzia para a Conceição, uma entrada na vila, “que não tinha alguma boa e ficou das melhores deste Reino, o que não pôde efectuar só com os donativos da nobreza e povo”. Porque Pedro António Lourenço era mestre de obras grandes, a Câmara, em 1790, não podendo ele dar expediente a todo o serviço, pôs certos em arrematação, além das calçadas e conserto das águas, que vêm da Serra, e ele tomara. Este conserto das águas, em 1791, foi arrematado por António Costa, carpinteiro, da Rua da Cadeia, cujas obrigações eram - rever de 3 em 3 dias todo o cano da água e dar parte à Câmara para se providenciar conforme o necessário; fazer os betumes para a vedação e se não fossem capazes, se mandariam fazer à sua custa; pôr 12 alcatruzes de sua ordem, e os mais pagará a Câmara; dar conta da água que andasse extraviada.

(Continua).

[Eduardo de Almeida, in Notícias de Guimarães n.º 42, ano 1, 30 de Outubro de 1932]

Partilhar:

0 comentários: