29 de fevereiro de 2008

O Muro do Toural

Reconstituição aproximada da antiga cerca de muralhas de Guimarães, correspondendo o ponto A à Torre da Piedade (Porta da Vila) e o ponto B ao Postigo de S. Paio.

Em 1932, Alfredo Guimarães publicou, no jornal Notícias de Guimarães, três textos em que junta uma série de informações interessantes para o conhecimento da compleição da antiga murava que atravessava o Toural pelo seu lado voltado a nascente, que aqui iremos trazer de novo à luz. Aqui fica o primeiro.


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Para as noites de Inverno

O Muro do Toural

(entre a Torre da Piedade e o Postigo de S. Paio)

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A sessão da Câmara em 29 de Outubro de 1793 foi com certeza, no tempo, muito importante, e pode evocar-se, hoje, curiosíssima para o estudo da fisionomia arquitectural urbana.

Serviam desde 1792 de Vereadores — Tomás António Leite de Almada, José de Freitas do Amaral e João de Sousa da Silveira. Era Procurador do Concelho — Pedro António Fonte Nova. Tesoureiro — António José de Macedo. O Doutor Provedor da Comarca — José Manuel de Sousa Pissarro oficiara sobre dois assuntos considerados graves de administração municipal. Naquele dia, o Senado da Câmara deliberou e aprovou o teor da resposta. Talvez ainda o melhor seja traduzi-lo em linguagem de nossos dias, sem lhe alterar o sabor.

“Senhor Governador da Comarca: Havendo de dar resposta aos dois ofícios que vossa Senhoria dirigiu a este Senado, datados em 22 e 26 do corrente, sobre os dois importantes objectos neles contemplados, nos determinamos recorrer a uma inspecção ocular para que procedendo com deliberação de causa, mais fácil e seguramente viéssemos no conhecimento dela. E com efeito, pelo que pertence ao primeiro dos objectos – que respeita a demolição da Torre da Senhora da Piedade - convém este Senado com a acertada deliberação de vossa Senhoria, depois de ver e examinar que ela se acha em princípios de ruína, tendo já muitas das suas pedras deslocadas e quebradas, e ameaçando para o futuro um total dilaceramento que ela dá. Actualmente a Vila (tem) uma disforme entrada e perigosa, não só à passagem dos carros e carruagens, mas ainda à contínua servidão dos habitantes, principalmente de noite, por ser um cómodo sítio para roubos, assassínios e devassidões. Que, sobre o plano da sua edificação, se pode construir uma nobre e muito mais elegante passagem para a Vila. E que finalmente, depois de se evitarem os referidos danos ao público, pode conseguir-se o adiantamento das obras públicas, primeiro com a aplicação que para ali se fizer do produto da sua pedra, e de que tanto se precisa para o reparo das calçadas, actualmente quase impraticáveis, e refazimento dos canos, por onde se conduz a água para toda a Vila, e outras. «E por isso certos das peeçimas (as péssimas intenções de demolir a Torre) intemções de Sua Magestade hé Justo que umilliçimamente se lhe rogue a sobredita demolissão e com a indicada aplicassão.» E pelo que respeita ao segundo dos mesmos objectos – o de alterar; a forma dos edifícios que te hão-de construir sobre a base do moro, que Sua Majestade mandou demolir desde a Torre da Senhora da Piedade até ao Postigo de S. Paio, deixando de se edificarem em linha curva, para não ficar disforme desde o seu princípio uma obra que virá aliás a ser elegantíssima, e digno objecto de emulação, formando-se em linha recta e segundo o prospecto já aprovado - este Senado se conforma igualmente com as suas ideias patrióticas, quando se dirigem a persuadir a construção do sobredito edifício pela indicada forma, por ser mais conforme a realçar o gosto geral da Vila (parece ser o que dizer querem) e mais belo e nobre o edifício de nivelamento recto do que formado por curva (olivelamento recto, olivelação curva) um regular do que um irregular. Mas por outra parte, não se deve perder de vista o interesse que ao público resulta de se não encurtar nem diminuir a extensão do Campo do Toural, toda necessária para a sua beleza, e recreio dos habitantes, e comodidade pública da Feira, que nela já mal se pode arranjar. E considerando que a direcção, na vistoria a que vossa Senhoria procedeu, em 25 do corrente, para determinar o sobredito alinhamento recto, vinha a encurtar o mesmo Campo em 50 palmos, na parte da Torre da Senhora da piedade, aonde nas feiras se costuma fazer acomodação para os que vendem fiados, panos de linho, etc., e em 5 na parte oposta: E atendendo a que o referido alinhamento recto é só útil enquanto é compatível com o interesse do público – por isso; na inspecção a que procedemos, se trabalhou em ver se era praticável a edificação recta, sem diminuição considerável do mesmo Campo. E com efeito se achou, por meio das medições que se fizeram, que o alinhamento do sobredito edifício, feito pela direcção de uma linha recta tirada de um ponto, que se tomou na Torre da Senhora da Piedade e que, passa por outro que se considera no maior cotovelo do muro, que se esta demolindo, para outro ponto, que se fixou próximo ao Postigo de S. Paio, vem, das extremidades da linha, a encontrar o sobredito em partes ainda consideráveis de figura triangular rectangular, a saber: da parte da Senhora da Piedade, em 29 palmos na base do triangulo; e na parte contrária, em 22 na base do oposto. Mas, como este golpe que assim se vem a dar no Campo, ainda seja prejudicial, apesar de já ser mais pequeno do que o de 50 palmos na sua parte mais principal; e atendendo a que o muro tem de latitude na sua base mais de 14 palmos que na continuação, no seu maior cotovelo se pode reduzir sem prejuízo dos edificantes... Por isso, fazendo-se a edificação pela direcção de outra recta, paralela à primeira, que se tirou mais em distância a ela 14 palmos para o muro ou parte oriental, vem a diminuir-se ao Campo, na parte da Torre da Piedade, que já se acha ocupada com um Passo, somente 15 palmos, e na parte oposta somente 8, diminuição que fica compensada pelo outro espaço de 14 palmos de base do muro, que, no seu maior cotovelo, e no mesmo plano, se faz campo. E é nesta consideração que este Senado convém que debaixo da mesma humildade se rogue à nossa clementíssima Soberana, para que se digne declarar a Provisão, de que vossa Senhoria no seu primeiro ofício se lembra. Deus guarde...”

(Continua).

[Eduardo de Almeida, in Notícias de Guimarães n.º 41, ano 1, 23 de Outubro de 1932]

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27 de fevereiro de 2008

Vimaranenses: António de Vilas-Boas e Sampaio

Nasceu este nobre fidalgo e ilustre genealogista e poeta na freguesia de S. Martinho de Fareja, então do termo de Guimarães (hoje do concelho de Fafe), a 27 de Agosto do 1629, filho de Diogo Vilas-Boas Caminha e D. Ana de Carvalho e Sampaio.

Estudou primeiras letras e filosofia em Braga, de onde passou a Coimbra, matriculando-se em direito cesáreo na Universidade, no qual recebeu o grau de bacharel. Ocupou diversos cargos na magistratura portuguesa, como foram: Juiz de fora em Vila do Conde e Viseu; Corregedor em Torre de Moncorvo; Provedor em Coimbra; Desembargador da Relação do Porto, cargo de que tomou posse a de Fevereiro de 1689.

Faleceu a 20 de Novembro di 1701 e foi sepultado na sua capela do Paço de Vila Boas, freguesia de Airó, que ele havia erigido era honra de S. José. Não quis que se lhe escrevesse epitáfio, mas na parede da capela, junto da sepultura estão gravados os seguintes versos:

Qui tibi pusillum dicat, Josephe, sacellum

Coelum pro dono, te auxiliante petit

Et si magna petit parvo pro munerenos it

Esse nihil quod dat, quod petit omne putat

Escreveu diferentes obras em prosa e verso, pelas quais é merecidamente reputado um benemérito das letras. São elas:

“Nobiliarquia Portuguesa, Tratado da nobreza hereditária e política”. Desta obra conhecem-se quatro edições, havendo na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento a primeira (1676) e a última (1754) e é ela tida como a principal publicação do autor, estimada pela sua dicção fácil e pura, embora por vezes seja muito crédulo, como afirma o sr. Inocêncio.

“Auto da Lavradora de Airó”. Saiu sob o pseudónimo de João Martins. Foi escrita para celebrar o fértil monte de Airó e nela finge o autor os amores de certo pastor e uma ninfa, sendo ele transformado no dito monte ela na fonte da Virtude que está junta ao referido Airó, célebre pelas suas qualidades terapêuticas, como ele afirma na “Nobiliarquia”.

“Arte de bem morrer: industrias para fazer uma boa morte”. Traduzida do italiano, impressa em Coimbra e dedicada pelo editor à esposa do tradutor, D. Maria Ferraz de Almeida.

“El baxel de Cupido navegación entretenida de Roberto y Cinthia”. Esta obra composta na meninice não chegou a ser impressa, porque o autor na velhice a rasgou.

“Saudades do Tejo e Lisboa na ausência da Senhora Catarina rainha da Grã-Bretanha”. Poema heróico, impresso em 1841 na imprensa da Universidade, juntamente com o “Auto”.

“Genealogias de muitas famílias ilustres o nobres deste Reino”. Esta ficou manuscrita e deve existir em poder de seus descendentes.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 42, Guimarães, 21 de Agosto de 1884]

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26 de fevereiro de 2008

Novais Teixeira, escritor e tradutor

Madrid. 5 de Março de 1934. Retrato do jornalista Joaquim Novais Teixeira, busto. Com dedicatória manuscrita a tinta preta na emulsão: "A Manuel Mendes, com um abraço do Novais Teixeira. Madrid 5-3-1934". Da colecção da Fundação Mário Soares.

Joaquim Novais Teixeira foi uma figura destacada da nossa cultura ao longo do século XX. Além da sua colaboração na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, de que foi secretário-geral, o seu nome aparece associado a diversas publicações. Dele conhecemos uma obra da juventude, um livrinho de poesia intitulado Pinhas bravas, publicado em 1918. Dedicou-se também à tradução, tendo transposto do castelhano para português diversas obras. Esta actividade foi particularmente intensa no ano de 1927. No Brasil, teve particular ressonância a edição que preparou das cartas do Padre António Vieira, que veio ao lume pela primeira vez no ano de 1948.

Aqui fica uma breve lista de obras às quais está associado o nome de Novais Teixeira, como autor, como tradutor e como organizador:

TEIXEIRA, Joaquim Novais, Pinhas bravas, Novais Teixeira. - Porto: A. Luz, 1918.

BAROJA, Pio, A vida dos átomos. Trad. Novais Teixeira. Ilustração de Almada Negreiros. Lisboa: Aillaud. A. 3, n.º 72 (Natal 1928), p. 48-49.

Dias Decisivos. A Defesa das Américas. Tradução de Joaquim Novais Teixeira. Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1941.

INSUA, Alberto, A Mulher que precisa de amor, trad. de Novais Teixeira. - Porto : Civilização, 1927..

INSUA, Alberto, A Mulher que esgotou o amor: romance da actualidade, trad. de Novais Teixeira. - Porto: Civilização, 1927. - 325 p.

FERNANDEZ FLOREZ, W., A Tragédia da Chave, trad. de Novais Teixeira; il. de Almada Negreiros, Ilustração, Lisboa, 3 (69) 1 Nov. 12928, p. 23-24

MÁS, José, A orgia: romance sevilhano, trad. de Novais Teixeira. - Porto: civilização, 1933.

MATA, Pedro, Um grito na noite: romance, trad. de Novais Teixeira. - Porto: Livraria Civilização, 1927.

ZOZAYA, António, As auroras. Trad. de Novais Teixeira. - Porto: Livraria Civilização, 1927.

HERNÁNDEZ CATÁ, Alfonso, Os sete pecados; tradução de Novais Teixeira. - Porto: Livraria Civilização, 1927.

VIEIRA, António, Cartas, Selecção de Novais Teixeira, com prefácio de Luís de Paula Freitas. Rio de Janeiro, W. M. Jackson, 1948.

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Outros Carnavais: o de 1857 (5)

O Entrudo. - Passou-se este folguedo desatinado, sem que víssemos um único desses jogos bárbaros, com que, há bem poucos anos, os cidadãos se maltratavam reciprocamente. Na terça-feira, dia chamado vulgarmente de entrudo, vimos centenares de pessoas correrem as ruas da cidade atrás dos máscaras, sem que ocorresse o menor desgosto, ou perturbação da ordem. Entre muitas exibições demos particular apreço ao Engajador – ao que solicitava acções para a companhia Viação Portuense - e, sobretudo, ao Engenheiro, e seus sequazes que vinham planear as estradas nas diversas direcções da cidade, todos vestidos em carácter, e com os instrumentos próprios, não esquecendo após este grupo o cofre aberto para receber as contribuições.

À noite houve igual enchente à do Domingo no teatro de D. Afonso Henriques, e dançou-se com desespero, mas bem. A não ser certos figuros da íntima classe, que ainda vimos empoados diríamos: que nem a memória já existia do antigo entrudo.

[A Tesoura de Guimarães, n.º 50, Guimarães, 27 de Fevereiro de 1857]

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25 de fevereiro de 2008

"Joaquim Novais Teixeira de Guimarães para o Mundo"

Na caixa de comentários deste post, mão amiga deixou um texto muito interessante sobre Joaquim Novais Teixeira, assinado por Paulo Cunha, investigador vimaranense que se tem debruçado sobre a história do cinema, que agora trazemos para aqui. Merece ser lido. Diz assim:

Por vezes, por caprichos do acaso, temos a felicidade de deparar com certos percursos pessoais que, pela sua intensidade e diversidade intervencionista, mais parecem resultar da súmula da vida de cinco ou seis pessoas.

Joaquim Novais Teixeira é um desses melhores exemplos. Ao longo de sete décadas, este vimaranense foi escritor, jornalista, activista político, crítico literário e cinéfilo, programador cultural, comentador de política internacional e administrador.

Para além desta intensidade intervencionista, o percurso deste vimaranense conheceu também uma diversidade geográfica muito rara para figuras do seu tempo. Motivado por questões profissionais ou pessoais, Novais Teixeira radicou-se em diferentes países europeus e da América latina, viajando ainda por diversos destinos no Norte de África, circunstâncias que marcaram decisivamente a sua forma de pensar e de entender o mundo seu contemporâneo.

Nascido em Guimarães, a 21 de Abril de 1899, foi aí que Joaquim Novais Teixeira iniciou os seus estudos e completou o curso dos liceus. Ainda jovem, revelou uma irreverência e inconformidade intelectual ao fundar alguns jornais de pequena dimensão e de duração esporádica.

Em 1916 muda-se para o Porto, onde prossegue os estudos no Instituto Industrial e Comercial. Nessa cidade funda o jornal literário A Luz, uma experiência mais consciente, e publica a sua primeira obra poética, Pinhas Bravas. Destas experiências juvenis aparentemente inconsequente ressalta uma interessante simbiose que iria conduzir a sua intervenção futura: uma intensa vontade de intervenção cívica e um forte espírito criativo.

Em 1919 emigra para Espanha, onde é funcionário bancário e colabora em vários jornais madrilenos. Apesar de distante, Novais Teixeira mantém relações com o seu país, exercendo funções de correspondente do Comércio do Porto e do Diário de Notícias e de colaborador literário da Ilustração e do Magazine Bertrand.

Contudo, no país vizinho, o vimaranense inicia uma nova rede de amizades e relações pessoais. Ávido de uma intervenção cívica, Novais Teixeira conheceu os melhores círculos intelectuais e artísticos madrilenos, convivendo com figuras cimeiras da cultura espanhola como Federico Garcia Llorca, Miguel de Unamuno, Pio Baroja, Diez Canedo, Manuel Azaña e Valle-Inclán. Entre outras amizades pessoais, destaque para uma relação privilegiada com o cineasta Luís Buñuel.

A sua aproximação aos círculos republicano e progressista permite-lhe ascender profissionalmente com a implantação da República espanhola. Novais Teixeira começou por ser nomeado Director do Serviço de Imprensa Estrangeira na Presidência do Ministério do governo republicano e, mais tarde, foi nomeado pelo Presidente Manuel Azaña para chefe do Serviço de Imprensa Espanhola.

Durante o período da guerra civil espanhola, foi conselheiro de Largo Caballero e viveu os episódios militares da retirada de Valência, Barcelona e Figueras, derrotas republicanas decisivas no desfecho do conflito. Em 1938, perante a iminência da vitória franquista em Espanha e o seu envolvimento na resistência republicana, Novais Teixeira procura refúgio em França.

Durante a sua estada em Espanha, e particularmente desde a vigência da ditadura militar de 1926, o jornalista procurou apoiar, através da solidariedade e assistência, alguns refugiados oposicionistas dos governos vigentes em Portugal. Em Agosto de 1940, acompanhando outros exilados políticos portugueses, tenta regressar a Portugal, mas é detido na fronteira pelas autoridades espanholas. Vários vultos do jornalismo e das letras espanholas subscrevem uma representação em seu favor.

Em Fevereiro de 1941, face às situações políticas e sociais verificadas em Portugal (regime salazarista), em Espanha (regime franquista) e em França (ocupação das tropas de Hitler), Novais Teixeira vê-se obrigado a procurar exílio no Rio de Janeiro.

Radicado no Brasil, Novais Teixeira tira proveito da sua experiência acumulada e da sua intervenção cívica contra os regimes autoritários para trabalhar e dirigir a Interamericana, um importante serviço de propaganda dos Aliados no Brasil.

Dentro do mesmo espírito, prossegue a sua actividade profissional na organização do Serviço Francês de Informação, um importante organismo dedicado ao intercâmbio cultural franco-brasileiro. Para além destas actividades profissionais, ainda encontra tempo para colaborar com os jornais Diário de Notícias, Jornal e Jornal Carioca.

Em Abril de 1948, finda a Segunda Guerra Mundial, regressa a França. Em Paris, o jornalista desempenha agora as funções de representante dos jornais Globo (Rio de Janeiro) e Estado de São Paulo (São Paulo), para além de outros jornais e revistas do interior do Brasil. Nas suas novas funções, Novais Teixeira destaca-se sobretudo no comentário da política internacional, efectuando importantes viagens a Itália, Suiça, Tunísia, Argélia e Marrocos.

No entanto, não deixa esmorecer a sua paixão artística e intelectual e exercita a crítica de arte e de cinema, assumindo a cobertura de importantes certames internacionais como a Bienal de Veneza e os festivais de cinema de Cannes, Veneza, Locarno e Berlim.

Tal como havia sucedido anos antes em Madrid e na sua primeira passagem por Paris, Novais Teixeira participou de forma activa em diversos círculos culturais e artísticos. Relaciona-se de forma mais intensa com várias figuras das artes e letras portuguesas radicadas em França, nomeadamente o casal Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, o historiador de arte José-Augusto França e o artista surrealista António Dacosta, seu amigo íntimo.

Entretanto, o prestígio pessoal de Novais Teixeira dá-lhe uma destacada notoriedade em certos sectores da sociedade francesa. Em 1952, é convidado para integrar o júri do prestigiado Festival de Cinema de Cannes, e dois anos depois é convidado a organizar a representação estrangeira do Festival Internacional de São Paulo.

A reputação profissional conquistada junto dos colegas de profissão e o seu activismo político permitiram que presidisse à direcção da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique (FIPRESCI).

Paralelamente, Novais Teixeira desempenhou um papel fundamental na divulgação dos novos movimentos cinematográficos brasileiro e português em França. Amigo de Nelson Pereira dos Santos, figura de proa do designado “cinema nôvo brasileiro”, o jornalista contribuiu para a promoção de várias obras de jovens cineastas brasileiros integrados no movimento criativo que despontou em finais da década de 50.

De um modo idêntico, Novais Teixeira ajudou a divulgar algumas tendências renovadoras no cinema português. O primeiro beneficiário foi Manoel de Oliveira, cuja obra O Pintor e a Cidade, aquando da sua estreia no Festival de Veneza, foi promovida pelo jornalista vimaranense junto de nomes de referência na cinematografia internacional como André Bazin.

Mais tarde, em pleno período de afirmação internacional do designado “novo cinema português”, Novais Teixeira colaborou com o crítico francês Jean Gili na organização da IX edição do Festival de Cinema de Nice, dedicado nesse ano ao Jeune Cinema Portugais (Março de 1972) e acompanhou com interesse o percurso de algumas obras desse movimento.

Em 1958, Novais Teixeira teve finalmente a possibilidade de regressar a Portugal pela primeira vez desde que partira em 1919. Quatro décadas depois de partir como mais um desconhecido, Novais Teixeira voltava como um prestigiado jornalista e promotor da cultura portuguesa além fronteiras. Daí em diante, Novais Teixeira regressou com regularidade a Portugal, quer para compromissos profissionais como para deleite pessoal.

Em Dezembro de 1972, Joaquim Novais Teixeira morre em Paris.

Paulo Cunha [15/09/2004]

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23 de fevereiro de 2008

Alberto Sampaio, "deputado de Guimarães"


No dia 29 de Junho de 1884, quando em Guimarães decorria a Exposição Industrial, com Alberto Sampaio ao leme, realizaram-se em Portugal eleições constituintes. O historiador vimaranense contava-se entre aqueles cujos nomes foram então a votos.

Sobre essas eleições e os seus resultados, já muito se tem dito. Citaremos, por exemplo, o historiador Manuel Alves de Oliveira, num texto que publicou em 1984, no Boletim dos Trabalhos Históricos, num texto alusivo à passagem do primeiro centenário da célebre exposição:

"Em 29 de Junho, catorze dias depois do acto inaugural da Exposição, a que dera o melhor do seu esforço e da sua boa vontade, realizaram-se eleições constituintes, tendo sido Alberto Sampaio proposto, por um grupo dos seus amigos, deputado pelo círculo de Guimarães. Porém, e contra toda a expectativa, o que vem comprovar o carácter volúvel e impressionável das multidões sempre abertas às falsas promessas dos políticos, Alberto Sampaio só conseguiu obter 190 votos, sendo então eleito o deputado apresentado pelo Partido Regenerador, João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco, por 3 261 votos."

A história desta eleição é um pouco diferente da que tem sido contada. Na verdade, Alberto Sampaio nunca foi candidato a deputado e o seu nome foi introduzido nas urnas de voto por um número significativo de vimaranenses num gesto de homenagem e, ao mesmo tempo, de reacção contra a imposição, pelos principais partidos, de nomes estranhos a Guimarães. Isso mesmo se pode confirmar lendo a notícia que então foi publicada no jornal Comércio de Guimarães, em que se dava conta do modo como tinham decorrido as eleições em Guimarães:

"Em Guimarães a eleição correu pacífica e sossegadamente.

À última hora tocou-se a rebate nos campanários políticos, e o povinho obedeceu em rebanho.

Muitos eleitores não foram à urna; outros votaram pelo imposto regenerador, outros pelo candidato progressista, e outros prestaram a última homenagem a um nosso conterrâneo, cavalheiro modestíssimo, que empregou todos os esforços para que o seu nome não entrasse em lista alguma, obtendo, apesar disso, uma votação honrosíssima, eloquente e mui significativa.

Em algumas assembleias alguns eleitores riscavam francamente o candidato imposto e inscreviam o nome de Alberto Sampaio.

Era assim que os eleitores respondiam à imposição de um deputado estranho que foi eleito sem apresentação alguma."

[O Comércio de Guimarães, n.º 10, I ano, 2 de Julho de 1884]


Será o mesmo jornal, mais de duas décadas depois, que nos revelará com mais detalhe a história da suposta candidatura de Alberto Sampaio a deputado:


Variedades

(Apontamentos inéditos para a história de Guimarães)

Exposição Industrial

"Foi no dia 15 de Junho de 1884 que nesta cidade se inaugurou a Exposição Industrial, no palacete de Vila Flor, de iniciativa da benemérita Sociedade Martins Sarmento, exposição que foi elogiada por muitos visitantes ilustres.

Foi incansável na sua organização o snr. Dr. Alberto Sampaio, e de tal modo se houve, que um grupo de rapazes patriotas, passando por cima de todas as conveniências políticas e de interesses mesmo pessoais, não duvidaram em uma tarde, à frente de milhares de pessoas, aclamarem-no como deputado de Guimarães, pois se estava em vésperas de eleições.

Sua Exa., com aquela modéstia que de todos é conhecida, e mais seu exmo. irmão, na noite desse mesmo dia procuraram esses rapazes, e, agradecendo-lhes a lembrança, pediram-lhes que não insistissem na propaganda.

Apesar de S. Exa. não aceitar a lembrança, por motivos dignos de respeito, esses mesmos rapazes, sozinhos, na urna meteram uns 200 votos com o seu nome, de nada se receando.

Foram tempos evolutivos de progresso pátrio, que ainda hoje lembram a muitos com a maior saudade.

A exposição, por todos os motivos, foi brilhantíssima, tecendo-lhe a imprensa toda do país os maiores elogios, e foi ela, sem dúvida alguma, a causa única de ter hoje esta cidade a escola industrial."

[Comércio de Guimarães, n.º 2049, XXII ano, 23 de Março de 1906]

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Vimaranenses: Padre António José Lisbão

Não é filho do nosso concelho, mas escolheu-o para sua pátria adoptiva, aquele cuja biografia vamos esboçar e adquiriu o direito de entrar na lista dos beneméritos desta terra pelos relevantes serviços que ao concelho prestou.

António José Lisbão, nasceu na vila de S. Pedro do Sul, aos 7 de Fevereiro de 1802. Filho de pobres mas honestos ascendentes, desde sua meninice mostrou decidida vocação para as letras e para o respeitável estado eclesiástico. Auxiliado pelo bispo que então era de Viseu, conseguiu receber a sagrada Ordem de Presbítero. Dirigindo-se para esta terra foi por muitos anos administrador da nobre casa de Sezim, subúrbios desta cidade. Nomeado em 1846 pároco encomendado da freguesia de S. Vicente de Mascotelos administrou esta igreja durante o longo período de 22 anos, onde deixou memória indelével pela sua caridade, lhaneza e afabilidade de trato, o que lhe adquiriu a estima e consideração de todos os paroquianos, que o amavam como a pai carinhoso. Pela sua parte o rev. Lisbão jamais olvidou seus fregueses desejoso de continuar a entornar, mesmo de além da campa, sobre eles seus benefícios, em 31 de Janeiro de 1869 doou à Santa Casa da Misericórdia desta cidade a quantia de réis 1:600$000 com a obrigação de esta dar vestidos e uma manta – nos primeiros dois anos – a 5 homens pobres da referida freguesia e habitantes das três casas térreas e uma sobradada, sitas no lugar de Santo Amaro, freguesia de S. Tiago de Candoso; nos segundos 2 anos, 5 vestidos a mulheres pobres nas mesmas condições; nos terceiros 2 anos, 40:000 réis de milhão, para ser distribuído pelos chefes de família, pobres ou ricos, da mesma freguesia e ditas 4 casas e assim sucessivamente in perpetuam.

Em seu testamento instituiu nas Ordens T. Dominica e Franciscana um legado de 50 broas de pão para serem distribuídas anualmente por cada uma delas a outros tantos terceiros pobres, À Santa Casa da Misericórdia legou o remanescente de sua herança com o obrigação de se dar o ensino primário a tantos meninos e meninas que ser possa da freguesia de Mascotelos dando-se a calda um destes anualmente no aniversário de seu falecimento uns socos e um lenço.

Havia em vida mandado construir na mesma freguesia o formoso cemitério paroquial, primeiro do concelho, onde quis ser sepultado e onde jaz num modesto mausoléu em que se acha gravada a seguinte inscrição: - Aqui jaz o Reverendo António José Lisbão, nascido em S. Pedro do Sul a 7 de Fevereiro de 1802. Foi pároco desta freguesia de Mascotelos desde 2 de Janeiro de 1846 até 20 de Dezembro de 1865. Deixou um legado perpétuo a esta freguesia e mandou construir este cemité io. Faleceu em Guimarães a 23 de Agosto de 1876. Non recedet memoria ejus. (Ecles. cap. 30 v. 13.) P. N. A. M. -

A data do termo da paroquialidade não é exacta, apesar de ser transcrita do seu testamento, pois no arquivo paroquial de Mascotelos existem assentos lavrados e assinados pelo rev. Lisbão a 24 de Novembro do 1867.

Em uma sessão de assembleia-geral da Sociedade Martins Sarmento do ano de 1882 por proposta da direcção fez-se honrosa comemoração deste nosso patrício adoptivo como um benemérito da instrução primária deste concelho.

Espancar as trevas do espírito e vestir os nus, são os títulos preciosos que recomendam o rev. Lisbão à nossa respeitosa veneração.

O seu retrato acha-se na galeria dos benfeitores da Misericórdia, Ordens de S. Francisco e S. Domingos e na sacristia da Igreja paroquial de Mascotelos.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 42, Guimarães, 21 de Agosto de 1884]

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22 de fevereiro de 2008

Outros Carnavais: o de 1857 (4)

Baile. – No dia 12 do corrente, houve um lindo e variado baile de máscaras em casa da Exma. condessa de Basto.

[A Tesoura de Guimarães, n.º 47, Guimarães, 17 de Fevereiro de 1857]

Baile de máscaras. – Continuam domingo 22 e terça-feira 24 do corrente os bailes de máscaras no teatro de D. Afonso Henriques. Afirmam-nos, que há-de haver concorrência, e máscaras de bom gosto.

[A Tesoura de Guimarães, n.º 48, Guimarães, 20 de Fevereiro de 1857]

Música e foguetes. – No Domingo pelas 4 horas da manhã fomos despertados pelos sons marciais da música de caçadores N. 7, e pelo estrondo dos foguetes, que na mesma ocasião eram lançados ao ar.

Acreditámos, que isto havia de causar satisfação a pouca gente porque sendo esta uma hora de descanso, ninguém pode achar divertimento, quando exista o incómodo.

Máscaras. – No mesmo dia à tarde correram as ruas desta Cidade diversos máscaras, entre estes houve três danças, levando a palma o baile denominado – dos velhos – não só porque iam muito bem vestidos, mas até pelo chiste da dança.

Teatro. – Quase lodos os máscaras com pequena excepção, que de tarde tinham aparecido nas ruas da cidade, e muitos outros de bom gosto concorreram à noite ao teatro de D. Afonso Henriques, de sorte que o palco não linha capacidade pura os acomodar. - Dançou-se muito, e bem; ficando satisfeitos os espectadores, e não menos a direcção do teatro, porque houve completa enchente.

Soirée. – O de quinta-feira passada em casa do exmo. sr. J. J. Machado Ferraz foi muito concorrido, e esteve animado.

Outro. - Não o foi menos, o que teve lugar ontem em casa do ill.mo sr. dr. Albuquerque: em ambos se viram máscaras de muito bom gosto.

[A Tesoura de Guimarães, n.º 49, Guimarães, 24 de Fevereiro de 1857]

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21 de fevereiro de 2008

Sobre Joaquim Novais Teixeira


A nota biográfica publicada no jornal Notícias de Guimarães, aquando do falecimento de Joaquim Novais Teixeira, que a seguir se transcreve, ajuda-nos a perceber a dimensão deste vimaranense das quatro partidas do Mundo. O texto é de 1972, tendo, naturalmente, algumas das marcas daquele tempo.

Joaquim Novais Teixeira, escritor e notável jornalista, nasceu em Guimarães a 21 de Abril de 1899 Nesta cidade tirou o curso dos liceus e fundou alguns jornais que foram o repositório dos seus primeiros trabalhos nas letras. Passando ao Porto, aí frequentou o Instituto Industrial e Comercial, fundando outro jornal literário, A Luz. Ainda estudante, em l919, emigrou para Espanha, no sabor das lutas políticas de então, e ali constituiu família e ficou até 1938, lendo sido funcionário bancário e jornalista, com vasta colaboração para jornais madrilenos, além de ser sido correspondente de O Comércio do Porto e do Diário de Notícias, de Lisboa, e colaborador assíduo de várias revistas, entre as quais Ilustração e Magazine Bertrand. Pertenceu, em Madrid, e por direito de espírito, aos melhores círculos intelectuais literários, sendo amigo pessoal de Valle-Inclán, Garcia Lorca, Pio Baroja, Unamuno, Diez Canedo, Manuel Azaña, etc. Quando foi proclamada a República e este último grande escritor desempenhou os mais altos cargos governamentais, foi director do serviço da Imprensa Estrangeira na Presidência, do Ministério. A sua situação social e prestígio pessoal permitiram-lhe prestar largos e valiosíssimos serviços de solidariedade e assistência aos numerosos emigrados políticos portugueses que, por aquela época, chegavam de todos os pontos do País a Madrid, visto estar no auge da luta de oposição democrática em Portugal, contra os governos saídos do revolução militar de 28-V-1926. Durante a Revolução Espanhola, por coerência mental e imposição do seu carácter, seguiu Manuel Azaña, já então Presidente da República, sendo chefe do Serviço da Imprensa Espanhola, e vivendo a odisseia da retirada para Valência, Barcelona e Figueras, sofrendo todas as horas trágicas do medonho conflito, arrostando com os enormes perigos da hostilidade dos extremistas, especialmente os comunistas, que não poderiam compreender o seu romantismo liberal, nota dominante e perene da sua mentalidade política. Passou depois a França e ali permaneceu durante os primeiros tempos da ocupação, tendo assistido à entrada dos alemães em Paris. Em Agosto de 1940, acompanhando os emigrados políticos portugueses a quem se abriam as portas do seu pais por virtude da guerra mundial, regressou a Portugal, sendo porém detido na fronteira. Apesar de um movimento de jornalistas de todos os matizes políticos que subscreveram uma representação em seu favor e de se ter feito prova, não só do seu inequívoco anticomunismo mas também de que, durante a tua permanência junto dos governos republicanos espanhóis, não tomara parte em nenhum acto de guerra mas, ainda, e com o maior risco para a sua vida, albergara em casa e facilitara a fuga a muitos personalidades do mundo doa letras e das artes cuja morte seria certa sem a sua dedicação, não pareceu conveniente a sua permanência no País e assim, viu-se compelido a, em Fevereiro de 1941, seguir para o Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro. Ali trabalhou na Interamericana que era, na época, o serviço da propaganda doa Aliados, no Brasil, acabando por dirigir este organismo. Passou depois a organizar, ocupando nele um alto posto, o Serviço Francês de Informação, do intercâmbio cultural franco-brasileiro, colaborando em Diário de Notícias, Jornal e Diário Carioca, entre outros. Em Abril de 1948 voltava a França, estabelecendo-se em Paris e colaborando activamente na Imprensa Brasileira, em especial em O Globo, do Rio de Janeiro, e no Estado de São Paulo, além de outros jornais e revistas do interior do Brasil e, ainda, no Primeiro de Janeiro, do Porto. Os seus grandes méritos de comentador de política internacional, ramo do jornalismo em que se afirmou um dos melhores especialistas mundiais, a sua cultura vastíssimo, a sua argúcia de crítico de arte e de Cinema, outra faceta da sua actividade em que triunfa completamente, tornam-no um profissional dos primeiros, disputados os seus trabalhos pelas melhores revistas e jornais. No Brasil foi um dos mais considerados jornalistas e assim O Globo e O Estado da São Paulo o nomearam seu representante-geral na capital francesa. São notáveis as suas reportagens na Itália e Suíça e os seus estudos sobre a questão franco-árabe realizadas depois de uma extensa visita à Tunísia, Argélia e Marrocos durante a qual entrevistou as personalidades mais notáveis francesas e árabes, bem como as críticas das Bienal de Veneza e Cannes, etc. Em 1954 organizou a representação europeia ao I Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Publicou, aos 17 anos, um livro de versos Pinhas Bravas, muito elogiado pela crítica, e foi colaborador, tendo antes sido secretário-geral, da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, de onde extraímos algumas das notas biográficas acima publicadas.

Foi durante alguns anos membro da Comissão executiva da Associação de Correspondentes da Imprensa Estrangeira, de Paris. Em 1958 foi membro do Júri do Festival Cinematográfico de Berlim e em, 1959 do Júri do Festival Cinematográfico de Locarno.

Condecorado pelo Governo Francês com a Ordem das Palmas Académicas, continuou o seu labor jornalístico, especialmente para os Jornais brasileiros, sendo reputado um dos mais notáveis comentadores da vida política mundial.

Ainda recentemente, há poucos meses, foi agraciado pelo Ministro dos Negócios Culturais da França com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, como recompensa da actividade desenvolvida depois de bastantes anos no domínio artístico, ao serviço da cultura francesa.

O saudoso finado tinha grande afeição pela sua Terra Natal, onde estivera, pela última vez, em Agosto passado. Sempre que aqui vinha percorria, em saudosa romagem, todos os recantos que lhe falavam da tua infância e procurava abraçar aqueles que conhecera e foram seus velhos condiscípulos e amigos.

Foi um vimaranense que em todo o Mundo, que percorreu, prestigiou a sua Terra e, longe embora, viveu intensamente o seu progresso e admirou os seus homens.

Sentindo profundamente a sua morte, o Notícias de Guimarães, em cujas páginas tantas vezes colaborou, apresenta sentidas condolências a seu Filho, o jornalista José António Novais, e presta à sua querida memória a homenagem da maior admiração.

[Notícias de Guimarães, n.º 2132, 11 de Novembro de 1972]
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Vimaranenses: António José Leite Guimarães, Barão da Glória

Palácio do Barão da Glória (Beau Séjour), Lisboa.
A 16 de Agosto de 1806, na casa de Sapos, freguesia de S. João Baptista de Pencelo, Custódia Maria, mulher de António José Leite de Faria, deu à a luz uma criança, que no baptismo recebeu o nome de António.

Destinado ao comercio dirigiu-se para o Brasil e aí na capital do império por um trabalho incansável, não só como caixeiro mas como negociante por conta própria e de sociedade com seu irmão, o barão de . Nova Sintra, cuja biografia deixamos esboçada no n.° 37, adquiriu abastados haveres.

Voltando à pátria estabeleceu sua residência em Lisboa, onde faleceu a 30 de Outubro de 1876.

Se não deixou, como seu irmão, o nome vinculado a grandes estabelecimentos humanitários, o Barão da Glória, título com que havia sido agraciado, merece todavia neste lugar uma honrosa comemoração, pois em seu testamento não olvidou a terra que lhe foi berço. Legou 500$000 réis para serem distribuídos pelos pobres da freguesia de Pencelo: 100$000 réis para obras na respectiva igreja e à V. O. T. de S. Domingos, desta cidade uma inscrição de 1:000$000 réis.

Havia já em vida dado 84$000 réis para concertos de paramentos e mandara fazer a torre da dita igreja de Pencelo, facto este que aos vindouros está atestado numa inscrição gravada na padieira da porta da torre e que diz o seguinte.

“Mandou fazer o Exc.mo SR Barão da Glória da Casa de Sapos. A. J- L. G.s em1858”.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 41, Guimarães, 14 de Agosto de 1884]

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20 de fevereiro de 2008

Outros Carnavais: o de 1857 (4)

Folguedos do Entrudo. - No dia 8 ao romper da aurora os Artistas desta cidade percorreram as ruas com a banda de música do batalhão locando o hino artístico e lançando foguetes ao ar.

Mais. - No mesmo, dia de tarde, os jovens comerciantes desta cidade apareceram mascarados montados a cavalo, como que vindos de Braga e após si um deles num carrinho recitando as seguintes sextilhas:


OS BRACARENSES A QUERER TER PARTE NAS FOLIAS DO CARNAVAL EM GUIMARÃES.


Dia 8 de Fevereiro de 1857.


Briosos Vimaranenses,

Heróis de mil aventuras,

Saúdam-vos bracarenses;

Não zangueis com as figuras,

Têm o rosto amarelado,

Mas é terno, é engraçado.


Vimos da nossa cidade,

Tão decantada na história

Pela sua lealdade;

E que há-de deixar memória

Té às eras derradeiras,

Pelas suas frigideiras.


É uma terra sossegada,

Lá nunca chiam pardais,

Não se joga cacetada,

Não se berra nos jornais;

Nunca vi bondade tanta,

É toda uma gente santa.


Gostam de levar sem bulha

Água para o seu moinho,

Se às vezes ferram a pulha,

É com graça, com carinho;

Parece que são franceses,

E eles são bons portugueses.


Mas a faltar a verdade,

Na ocasião do Carnaval,

Aquela nobre cidade

Não é, não, à vossa igual;

Falam em grandes festejos,

E tudo fica em desejos.


Não digo que festa em Braga

É somente farelório,

Mas nem merece que em paga

Se aponte no reportório;

Vale tudo, bem pesado,

Trinta réis de mel coado.


Mas ali em nada há gosto,

Inda espessa gelosia

Encobre às damas o rosto,

Que sempre ver se devia,

De maneira que os janotas

Gastam lá debalde as botas.


Não se vêem, se uma fineza

Para as janelas se diz,

Surge às vezes velha Andreza,

Co’as cangalhas no nariz;

E o gamenho acatitado

Fica então desapontado.


Por isso quisemos ver

As vossos festas brilhantes,

Já das gâmbias n’um volver

Montemos nos rossinantes,

E caminhemos ligeiros,

Sem temermos atoleiros.


Apesar do grande enxurro,

A estrada está muito boa;

Por igual caminho um burro

Vai numa hora a Lisboa;

Inda é melhor, salvo o erro,

Do que um caminho-de-ferro.


Eis-nos pois na pátria vossa,

De gloriosas tradições,

Onde a névoa nunca engrossa,

Brilha gás nos lampiões,

E passeios e arvoredos

Convidam para os folguedos.


Não nos enganemos, não,

Com os festejos do entrudo,

Mal finda uma exibição,

Linda dança encanta tudo;

O que lá se diz é certo,

É aqui um céu aberto.


Mas da função o melhor

É das damas a presença;

Não há rei, nem tambor-mor,

Que o seu sorriso não vença;

É isto que em Braga falta,

E que endoudece o peralta.


Além de que em Guimarães

São sem dúvida mais belas,

Tanto as filhas como as mães

Estão sempre nas janelas;

Pôde o vento ir açoutá-las,

Que não há de lá tirá-las.


Folga pois o parvalheira

De passar-lhe pelas ruas,

E às vezes em pasmaceira

Contemplar as graças suas;

Todo o dia o Inês d’Horta

Fica ali, qual cão da porta.


Aqui sim, o tempo foge

Entrepostos e alegrias;

Oxalá nos deixeis hoje

Ter parte em vossas folias,

Que nesta terra tão plaina

Regalámos a polaina.


Faremos de bons vizinhos,

Vossas damas cortejando,

E dando-lhes mil carinhos,

Doces extremos trocando,

Diremos no fim de tudo,

Ora isto é que é entrudo.


~*~


Apoiado, que da festa

São as damas o melhor,

E ao estranho que as requesta

Dão fagueiras mais amor;

Vamos pois voltar-lhe extremos,

E seus mimos chucharemos.

[A Tesoura de Guimarães, n.º 45, Guimarães, 10 de Fevereiro de 1857]

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19 de fevereiro de 2008

Vimaranenses: Manuel Barbosa

Descendente de homens ilustres pela ciência, bastava a este benemérito vimaranense o haver sido progenitor de Agostinho Barbosa, e Simão Vaz Barbosa para ter direito a entrar nesta humilde galeria de vimaranenses ilustres. O filho sábio dá honra e alegria a seus pães, como se exprimem os livros santos. Não é porém como pai de sábios que aqui ocupa um lugar distintíssimo o licenciado Manuel Barbosa; outras são as credenciais que apresenta. Vejamo-las:

Filho do licenciado António Tomas e de Catarina Barbosa, neto do dr. Manuel Barbosa, físico do Cardeal-Infante, nasceu Manuel Barbosa a 16 de Agosto de 1510.

Desde muito criança demonstrou o talento formosíssimo de que na sua; longa carreira tantos provas deu. Perito em línguas, matriculou-se na Universidade onde, sendo discípulo, era já respeitado como mestre, sendo a sua opinião tida em máxima conta nos intricados estudos da jurisprudência.

Advogado no Porto e Guimarães, alcançou, durante o longo prazo do 30 anus, tanta importância que era sempre procurado nas mais árduas questões de ambos os Direitos, civil e eclesiástico.

Retirado à sua quinta de Aldãoo aí continuava livre das questões forenses, a sua ininterrompida convivência com os livros, quando a 6 de Junho do 1578 é nomeado por D. Sebastião Procurador da fazenda real, cargo que continuou exercendo no tempo D. Filipe II onde de sobejo patenteou a sua variada erudição e insigne prudência.

Escreveu diversas obras das quais, por diligência de seu filho Agostinho, se imprimiram as seguintes: REMISSIONES DOCTORUM AD CONTRACTUS, etc. – REMISSIONES DOCTORUM DE OFICIIS PUBLICIS, etc.

Ambas estas obras, muito apreciadas na antiga legislação, existem na bibliuteca da Sociedade Martins Sarmento, onde os curiosos podem ver o retrato do autor que se acha gravado na primeira pagina de cada uma delas e não unicamente na primeira, como por equívoco diz a Biblioteca Lusitana.

Deixou manuscritos os seguintes tratados: “Famílias do reino de Portugal e Notícias históricas” 2 vol. — “Notas ao Nobiliário do Conde D. Pedro” – “Livro da Armaria deste Reino”.

Variadíssimos conhecimentos apresenta Manuel Barbosa em todas as suas obras, que faziam 20 volumes como afirma a “História Genealógica”, além das que se imprimiram. Os seus conhecimentos em numismática podem ver-se na sua obra “Remissiones” ou no tomo IV da já citada “História Genealógica”.

Nem só nas letras foi insigne, nas também a sua piedade se tornou notável. Instituiu morgado na sua quinta do Paço de Aldão, hoje pertença do Exm.° José Ribeiro Martins da Costa, com capela na Igreja de S. Domingos desta cidade, sob a i invocação de Santo Tomás para onde trasladou em 1582 os ossos do venerável Fr. Lourenço Mendes. Em 1692 era administrador do morgado seu parente Jerónimo Vieira do Castro e em 1767 D. Ana Josefa Caetana de Figueiredo, viúva de Bartolomeu Vieira de Castro Pinto Barbudo.

O egrégio jurisconsulto, doutíssimo e estudiosíssimo, um dos maiores letrados do seu tempo, honra e glória de Guimarães, como se exprimem diversos escritores faleceu em 1639 na sua casa de Aldão e foi sepultado junto à capela de Santo Tomás, em S. Domingos. E embora hoje não possa reconhecer-se sua sepultura, seu nome e sua memória é sempre perdurável entre patrícios e estranhos.

Nota. Como esclarecimento diremos: a ossada do beato Lourenço Mendes, sepultado na Igrejas de S. Domingos, foi em 1412 colocada num túmulo de mármore, encostado à parede logo abaixo do altar do Rosário; em 1582 foi colocado no altar do Santo Tomás pelo dr. Manuel Barbosa, como dissemos, este altar porem desapareceu e é de crer que isto sucedesse nas restaurações de 1744, sendo então mudadas as ossadas para o altar de S. Pedro Mártir, onde se gravou a inscrição primitiva, que ainda hoje se lê = Hi sita Laurentii Mendes sunt ossa Beati = no mesmo altar, embora este possua outra dominação, o Coração de Jesus.

Quando neste altar fui colocada a imagem do Coração do Jesus em 1880 foi retirado, em virtude das obras a que se procedeu, o cofre forrado exteriormente a damasco encarnado, que encerra os preciosos restos e guardado na Secretaria da Ordem. Até hoje ainda não foi restituída ao seu lugar, sendo de esperar, como nos afirmaram, que isto se fará dentro em breve.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 41, Guimarães, 14 de Agosto de 1884]

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Outros Carnavais: o de 1857 (3)



Máscaras. — No próximo Domingo há baile de máscaras no teatro de D. Afonso Henriques, e outros divertimentos deste género. Deus queira não tenhamos divertimento de tambores nas horas do sono.

***

Na madrugada do Domingo 8 do corrente, continuará percorrendo as ruas desta cidade, a música de caçadores 7, tocando o harmonioso hino dos artistas, que será acompanhado com uma sonora cantoria.


Hino belo e foguetões

Vão nos astros ecoar,

E dos artistas a festa

Hão-de ao mundo anunciar.


Bando Jocoso de Damas

Há-de as ruas percorrer,

Mostrar todo o brilhantismo

É dos artistas prazer.

[A Tesoura de Guimarães, n.º 44, Guimarães, 6 de Fevereiro de 1857]

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18 de fevereiro de 2008

Novais Teixeira: vimaranense e cidadão do Mundo

Novais Teixeira, à direita, durante a entrevista a Fernandez Florez

Joaquim Novais Teixeira foi um dos vimaranenses que mais se destacaram ao longo do século XX, apesar do seu nome ter praticamente caído no esquecimento entre nós. Jornalista, no início da década de 1930 era correspondente em Espanha da revista Ilustração. Assistiu, à queda da monarquia e à implantação da II República espanhola, na qual assumiria funções de destaque, nomeadamente junto do Presidente da República, Manuel Azaña Diaz, a quem acompanhou durante a Guerra Civil. Instaurada a ditadura em Espanha, viveria no Brasil e em França, continuando a exercer o ofício de jornalista, tendo assumido grande prestígio internacional como crítico de cinema. O texto que aqui damos foi publicado na Ilustração de 1 de Agosto de 1930.




A visão séria de um humorista.

Wenceslao Fernandez Florez

Negação do político em voga, fala à “Ilustração” da situação política espanhola

É esta a primeira entrevista que eu faço em Espanha sobre o actual momento político. E não estou arrependido, louvado seja Deus! Tenho-me esquivado deliberadamente a diálogos desta natureza, a dar-lhes pelo menos pública fé, porque não creio na seriedade dos políticos, na seriedade política dos políticos» entenda-se bem. É claro que esta minha opinião, falível como todas as opiniões, não exclui a ideia de que possa haver realmente um político com seriedade política. Mas eu não acredito.

~*~

Qual a sinceridade das entrevistas políticas? Têm elas alguma eficácia para o apuramento da verdade? Que responda a consciência do próprio político, se há por aí algum político com consciência reconhecida, ou que responda a consciência do próprio jornalista, quando o jornalista se der ao luxo de carregar com tão pesado atributo. Ou apele-se ainda para uma outra consciência – a consciência do público – perante a qual, políticos e jornalistas, andam, em regra, a representar dois papeis complementares duma mesma comédia: a comédia dos seus altos destinos. Fingindo, uns, que sabem tudo o que dizem e dizem tudo o que sabem, simulando, os outros, que entre tudo o que sabem e dizem – e não dizem mais porque não sabem – se oculta o enigma cuja decifração, eles, os grandes ladinos, vão arrancando, por via do olho sagaz, à cautela ou à ignorância do político que em má hora se pôs ao alcance das suas setas fulminantes. E mentindo, uns e outros, mais ou menos conscientemente, na medida dos seus interesses particulares e políticos, quando não literários, como nalguns casos específicos, em que o jornalista, famosa besta de circo, nutrida e folheira, impando sob os arreios das suas ocas sonoridades, porejando matérias sediças, campeia empavonado num alarde de ostentação mirífica, sevandijando-se aos afagos sentimentais dum público desprevenido que lhe acaricia a garupa espumante e encasqueta uma nova cabeçada, que é todo o seu orgulho.

Colegas, mais avezados neste género de entrevistas sensacionais, têm procurado visar o alvo político espanhol, interrogando o político. Outros, mais interessados em colher-lhes o fruto, têm tentado visar o seu próprio alvo, servindo-se do político condescendente. Outros, ainda, têm-se limitado a servir o político, sem que o político se dignasse servi-los a eles no apuramento da ambicionada verdade. Qualquer destes processos peca, quanto a mim, de desonesto ou ineficaz.

A ciência política do político peninsular é matéria acessível a todo o cérebro atento, que sobre ela pode opinar com o mesmo conhecimento de causa e com mais garantias de imparcialidade. Daí que preferisse eu, sempre que o dever me encaminhou para essa senda dolorosa, opinar por minha conta e risco, acorrentado à firme convicção de que melhor servia assim a legítima curiosidade dos meus leitores.

~*~

Mas o homem põe... e a Ilustração dispõe. A voz amiga do seu Director exigia-me uma entrevista de Carácter político. Queria um depoimento autorizado sobre a emaranhada situação política deste país. E veio-me surpreender com este telegrama categórico:

“Mande urgente próximo número entrevista política homem representativo.”

Que fazer? Eu já lhes disse que não tenho fé nas entrevistas políticas. Surpreender a boa fé da Ilustração, mandando-lhe como boas umas declarações que reputaria más? O conflito era grave. Lancei-me numa grande meditação. E meditando, meditando vim cair nesta tábua salvadora: o telegrama não impunha, como condição expressa, que o entrevistado fosse um político profissional. A ideia do ludíbrio ganhou proporções infranqueáveis. E fui à cata dum homem representativo, sincero, que oferecesse garantias de seriedade, à margem das lutas partidárias do momento. Um escritor? Mas, onde se apanha hoje um escritor espanhol que não seja um político militante?... Uma excepção? Onde encontrar uma excepção? Eureka! Fernandez Florez! Eis o homem! A sua autoridade de crítico social, que tem assestado contra a política os seus dardos mais mordazes, daria categoria ao depoimento. De resto, pôr um humorista em contacto com uma tragédia é buscar o efeito de contrastes estridentes e às vezes luminosos.

Foi assim que eu ludibriei a Ilustração e dei começo a esta entrevista política.

[...]

Assuntos tratados na entrevista de Novais Teixeira a Fernandez Florez: Acerca da seriedade dos políticos e da eficácia das entrevistas políticas – políticos velhos e políticos novos – o escritor espanhol durante a ditadura – iberismo e federalismo – plutocracia, exército e clero – alguns vultos políticos espanhóis vistos pelo grande humorista – o problema da Catalunha – o perigo espanhol, trampolim de interesses – será possível a democratização da monarquia espanhola? O texto completo está disponível em: Ilustração Portuguesa

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Outros Carnavais: o de 1857 (2)


Segunda notícia de A Tesoura de Guimarães sobre o Carnaval de 1857. O bando que se segue, lido no dia 1 de Fevereiro daquele ano, é da autoria de António José de Oliveira Cardoso, poeta, dramaturgo e cónego da Colegiada de Guimarães.

Bando – Teve lugar no último domingo, como havíamos anunciado, para por ele se dar princípio às festas do Carnaval. Às cinco horas da manhã os foguetes, os tambores, bombos e música despertaram os habitantes desta cidade. Ao meio-dia saiu o bando e recolheu à noite. O pregoeiro ia em carrinho descoberto, e as outras figuras alegóricas que o precediam, e seguiam, a cavalo; tudo ricamente vestido, e os cavalos soberbamente ajaezados. Após isto seguiam-se cem máscaras, pouco mais ou menos, a pé, tocando tambores e bombos com tal cuidado, que não obstante as recomendações para haver silêncio, mal se podia ouvir o seguinte


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BANDO DO CARNAVAL


Recitado


POR


João Pereira da Cunha


No dia 1 de Fevereiro de 1857

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Um exórdio fazer é velha usança,

Mesmo em arengas de qualquer festança,

Mas eu não o farei, que usança antiga

Do clarão do progresso é inimiga.

E donde deveria ser tirado?

Da grandeza da festa? era escusado,

Já todos sabem que o faceto Entrudo

Em grandeza, em fulgor excede tudo.

Quem há por essas ruas da cidade,

Que já não arrebente com saudade,

Do carro em que Neptuno refulgia

Entre coros de mélica harmonia?

Quem há nessas aldeias mais remotas,

Que com riso não ande as cambalhotas,

Somente de passar pela lembrança

Essa dos velhos tão chistosa dança?

Pois agora os caixeiros e os artistas

Outras cenas vão dar-vos nunca vistas,

E que pelo seu brilho surpreendente

Farão cair o queixo a toda a gente,

Sem que as venha turbar a guerra bruta

De laranjas e pós, que tudo enluta,

Pois pela ilustração enfim banida,

Nem lá na Lourinhã achou guarida.

E se alguém a atear, coitado dele!

No pelourinho se lhe tira a pele;

A lei é clara, e o rábula mais fino

O réu não salva do cruel destino,

Pois bem rebateremos suas tretas

Com outras que aprendemos nas gazelas,

Que felizmente agora são tão bastas.

Que mesmo aqui as há de duas castas;

E se não falham diligências várias,

Cedo teremos novas luminárias,

De modo que será o clarão tanto,

Que até mesmo em Paris fará espanto.

Guimarães! já faz gosto ser teu filho,

Jornais, teatros, bailes, tudo é brilho;

Os velhos nem precisão de lunetas,

Porque basta-lhe a luz das tais grizetas,

Té os meninos com a luz imensa

Os olhos abrem logo na nascença.

Mas vós, filhas gentis da pátria amada

Segui também da ilustrarão a estrada,

Não atraseis com a indolência vossa

O progresso em que vai a terra nossa.

Eu sei que já do tempo a maior parte

Gastais em namorar com graça e arte,

E que até na perfídia estais tão dextras,

Que podeis com razão chamar-vos mestras.

Sei que nas horas vagas do namoro

Rara vez à costura pagais foro,

E que é só vosso gosto dominante

Do romance a leitura interessante,

Mas se nisso o progresso haveis seguido,

Ficais estacionárias no vestido.

Não digo que arrisqueis vossa existência

Por causa do bom-tom, é imprudência

Trajar saias-balões, pois pode o vento

Elevar-vos ao ar, e num momento

Despenhar-vos aí na foz do Relho,

Ou lançar-vos lá fora do concelho.

Mas se excessos reprovo em coquetismo,

Não aprovo o que cheira a fossilismo.

Vergonha desta terra! inda encocado

Na mantilha trazeis o rosto amado?

Nasce no prado a rosa, e a natureza

Não lhe cerca de nuvens a beleza.

A mantilha é retrógrada, queimai-a,

Ao menos no fumeiro pendurai-a,

Que o tempo já passou da sua glória,

E apenas ficar deve para a história.

Sócios, cumpri meu alto ministério

Com frase de bom gosto, e com critério,

Cumpri o vosso pois, mas com tal jeito,

Que já da ilustração mostreis o eleito;

É bárbaro o tambor, se tanto soa,

Que os mais duros ouvidos atordoa,

De mansinho rufai, conheça o povo

Que até nisso é melhor o gosto novo.

A. J. O. Cardoso.


[A Tesoura de Guimarães, n.º 43, Guimarães, 3 de Fevereiro de 1857]

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