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Mensagens

A mostrar mensagens de Abril, 2016

O Castelo de Guimarães em 1863

Campeia o velho alcáçar sobre uma colina pouco elevada ao Norte de Guimarães e no ponto em que termina a cidade. Para o lado desta, desce o terreno com suave declive e todo assombrado de choupos, castanheiros, oliveiras e anosos carvalhos, toldando com sua espessa e frondosa copa os caminhos que serpeiam pela colina. No lado oposto, é o pequeno outeiro formado de grandes penedos, dispostos de modo como se a natureza quisesse fabricar com eles aprumada muralha. Prolonga-se com os penedos comprida fileira de castanheiros, tão altos e esguios que acompanham em toda a altura a parede do antigo paço; e desde a raiz dos rochedos trepam heras, que vão subindo e vestindo de manto de verdura o velho monumento, até lhe engrinaldarem as janelas, brincando daí e prendendo-se à ramagem dos castanheiros, que ora as beija docemente impelida da brisa, ora as açoita agitada da tempestade.
Na vasta colaboração que o historiador e arqueólogo Inácio de Vilhena Barbosa (1811-1890) publicou nas revistas O P…

Da memória e do esquecimento

Alguns amigos e jornalistas têm estranhado o meu silêncio acerca do novo equipamento museológico que hoje terá sido inaugurado em Guimarães, a cuja concepção e desenvolvimento estive ligado desde o primeiro momento, que aconteceu há precisamente 10 anos, na sequência de uma visita à Casa da Cultura de Paraty, na companhia de dois amigos, ponto de partida para um documento de cuja redacção fiquei encarregado, intitulado “Proposta para a criação de um centro de referência da história e da cultura de Guimarães”, que começava assim:
Guimarães tem uma cultura milenar, com uma estreita vinculação à memória histórica, material e imaterial, que está inevitavelmente sujeita à usura do tempo. O trabalho de reabilitação do Centro Histórico, universalmente reconhecido com a sua consagração como Património Mundial, contribuiu para resgatar do esquecimento o património construído. Para além da monumentalidade do seu Centro Histórico, Guimarães possui referenciais únicos no quadro do património cultu…

J. Rentes de Carvalho sobre J. Novais Teixeira

Na Revista do Expresso de hoje pode-se (deve-se) ler uma entrevista deleitosa de um espírito livre que num livro explicou aos holandeses sem papas na língua o que eles eram, como só um português emigrante na Holanda podia explicar, e noutro explicou aos mesmos holandeses o que são os portugueses, como só um português podia explicar, e que, quando os portugueses o leram, muito se espantaram com o que estavam a descobrir sobre si mesmos. Na entrevista, o rebelde José Rentes de Carvalho, um dos mais admiráveis escritores portugueses que Portugal tanto tardou a descobrir, fala da influência do jornalista e escritor vimaranense Joaquim Novais Teixeira no percurso da sua vida.
Aqui fica o excerto da entrevista em que se refere a Novais Teixeira:
Ao chegar a Paris, o que foi fazer? O jornalista [Joaquim] Novais Teixeira arranjou-me uns biscates para o “Estado de São Paulo”. Há uma história engraçada com ele. Eu tinha escrito uns contos para um jornal de Moncorvo e levei aquilo comigo, cheio …

Sobre a classificação da muralha

Na última reunião da Câmara Municipal de Guimarães foi aprovada, por unanimidade, uma proposta do vereador da CDU, Torcato Ribeiro, para se dar início ao processo de classificação da muralha de Guimarães como monumento nacional. Esta aprovação visa reparar uma situação sui generis, de que já aqui falámos, cuja divulgação parece ter surpreendido alguns responsáveis políticos locais que, pelas responsabilidades que que lhes estão atribuídas, se suporia que poderiam estar munidos de informações melhor fundamentadas. Porém, tal surpresa é perfeitamente compreensível, já que há décadas se tinha como verificado que a muralha de Guimarães tinha sido classificada como monumento nacional pelo decreto de 1910 que tem como anexo a lista dos monumentos nacionais portugueses à data, onde se inclui uma dúzia de imóveis localizados em terras de Guimarães. Essa suposta classificação tem sido veiculada em documentos e inventários oficiais referentes ao património classificado de Guimarães, e até funda…

Donães: o renascer de uma praça

Iniciaram-se, finalmente, as obras de requalificação do espaço da rua de Donães e da antiga rua de Estrepão (actual rua João de Melo), que fará nascer no centro histórico de Guimarães uma nova praça, com dimensões muito razoáveis. Da história da rua de Donães sabemos muito pouco. Sobre o seu nome escreveu Maria Adelaide Morais, num texto sobre a toponímia vimaranense: “Donães... Alguém invocou Dona Nais remota e vaga dama, o tempo a corromper-lhe o nome.” Quem seria esta Dona Nais que deu o nome à rua? Não sabemos. Há um par de anos, vi contada como “muito antiga” uma história em que a D. Nais seria uma fidalga caridosa que fornecia a luz que iluminava o trabalho dos ferreiros que por ali teriam as suas oficinas com e forjas. Num texto sobre toponímia, publicado há alguns anos em O Comércio de Guimarães por Domingos Ferreira, lemos: “Pelas informações recolhidas essa designação resulta da influência que uma antiga dama e fidalga exercia sobre os artífices, sendo uma espécie de modelo por …

Reflexões soltas em volta duma torre

Aqui partilho umas quantas reflexões soltas, em jeito de epílogo muito pessoal, sobre a questão da Torre da Alfândega.
1. Leio no O Comércio de Guimarães de hoje um texto muito interessante da historiadora Manuela Alcântara onde, com base em documentação existente no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta traz novos dados acerca da Torre da Alfândega e dos proprietários do n.º 33 da rua do Anjo, entre 1844 e 1873, em tempo em que esteve na posse dos descendentes de Antónia Joaquina, mãe de José António Peixoto de Lima, que a adquirira em hasta pública em Outubro de 1841. Este imóvel permaneceria na família Lima até 1924, ano em que foi adquirido pelo médico vimaranense Fernando Gilberto Pereira. Este trabalho, de uma estudiosa com quem muito tenho aprendido, ajuda a perceber que há muito para saber sobre o processo de derrube e de apropriação privada da muralha e das torres que cercaram o burgo vimaranense desde a Idade Média.
2. No mesmo jornal, leio também o relato da última reunião da ve…

Ainda o 33 do Anjo

Era primeiro de Abril e aqui se cumpriu a tradição do dia das mentiras, com uma mentira construída com um aglomerado de pequenas verdades.O último texto que aqui publiquei, embora assente numa leitura plausível da escritura de venda e dos registos do imóvel da antiga Porta de S. Paio que tem andado nas bocas da gente, é uma leitura especulativa que não tem a mínima aderência à realidade dos factos que são conhecidos, a começar pelo título. A questão da venda do imóvel onde está inserida a Torre da Alfândega, longe de ser um não-assunto, é um assunto importante e pertinente. Ou não estivéssemos a falar da última torre do sistema defensivo de Guimarães. Analisando todas as informações disponíveis, reafirmo, de modo peremptório, absoluto e definitivo, sem qualquer receio de vir a ser desmentido, que o imóvel que foi vendido em Agosto de 2014, podendo estar deficientemente descrito na correspondente escritura, compreende os números 6, 8, 10 e 12, da rua Dr. Avelino Germano, e 33, 35, 37 e …

Quando o assunto do momento é, afinal, um não-assunto*

[Texto editado às 00:00 do dia 2 de Abril de 2016*]
Hesitei em publicar esta nota no dia de hoje por uma razão singela: por ser o “dia das mentiras”, poderia levar alguns a assumirem que se trata de uma das tradicionais petas. No entanto, por entender que a informação que se segue é relevante para o esclarecimento de um assunto que tem provocado um debate apaixonado, inegavelmente importante, mas agora percebo que foi despoletado por motivos desacertados, por ter tido origem em premissas equívocas e num facto que, na verdade, não aconteceu.
Um velho amigo, profissional há muitos anos na área da mediação imobiliária, fez questão de vir ter comigo à Apúlia para, com documentos na mão, me demonstrar que, afinal, estava certo o título do jornal O Comércio de Guimarães de 23 de Março de 2016, que revelava que o edifício que foi adquirido no dia 12 de Agosto de 2014 pela empresa Marvalu - Investimentos e Gestão Imobiliária, S.A., de Domingos Machado Mendes, não confronta com a Torre da Alfâ…