10 de abril de 2016

Donães: o renascer de uma praça

O espaço onde está a (re)nascer a Praça de Donães (fotografia da Câmara Municipal de Guimarães)

Iniciaram-se, finalmente, as obras de requalificação do espaço da rua de Donães e da antiga rua de Estrepão (actual rua João de Melo), que fará nascer no centro histórico de Guimarães uma nova praça, com dimensões muito razoáveis.
Da história da rua de Donães sabemos muito pouco. Sobre o seu nome escreveu Maria Adelaide Morais, num texto sobre a toponímia vimaranense:
“Donães... Alguém invocou Dona Nais remota e vaga dama, o tempo a corromper-lhe o nome.”
Quem seria esta Dona Nais que deu o nome à rua? Não sabemos. Há um par de anos, vi contada como “muito antiga” uma história em que a D. Nais seria uma fidalga caridosa que fornecia a luz que iluminava o trabalho dos ferreiros que por ali teriam as suas oficinas com e forjas. Num texto sobre toponímia, publicado há alguns anos em O Comércio de Guimarães por Domingos Ferreira, lemos:
“Pelas informações recolhidas essa designação resulta da influência que uma antiga dama e fidalga exercia sobre os artífices, sendo uma espécie de modelo por dedicar parte do seu tempo a alumiar os ferreiros para assim efectuarem os trabalhos da forja. Segundo a tradição oral, essa nobre mulher inspirava os artífices com a sua beleza e virtuosidade, na criação de peças forjadas que hoje enriquecem alguns museus e casas brasonadas deste País e no estrangeiro.”
A ser verdade, aquele lugar teria sido, já na Idade Média, um bairro de ferreiros, de que o hábil e muito imaginativo artesão Gaspar Carreira seria hoje o último mestre, uma vez que um documento de 1282 se refere à “platea de dona Nays”, isto é, à Praça de Dona Nais.
Ora, na sua dissertação de doutoramento sobre Guimarães (“Guimarães: duas vilas, um só povo”), a medievalista Maria da Conceição Falcão Ferreira demonstrou, a partir da análise dos documentos disponíveis, que na praça de Dona Nais prevaleciam os mercadores e os mesteres do vestir (alfaiates, com os seus oficiais costureiros), havendo também registo de que ali também teriam tido residência mestres de outros ofícios (um pedreiro/calceteiro, um ourives e um tecelão), para além de clérigos, de um escudeiro e de um tabelião. Não era, manifestamente, espaço para os celebrados mestres das artes do ferro de Guimarães, burgo onde já existiam, na Idade Média, a rua da Forja e a rua Ferreira ou Ferraria. Estou em crer que a associação da rua de Donães ao ofício do ferreiro é muito mais recente do que do que o que a suposta tradição da fidalga que alumiava os ferreiros nos sugere.
Mas, se não sabemos quem era Dona Nais, ou Nays, ou Anaïs (segundo João de Meira, este seria o seu nome original), algo sabemos do espaço a que deu nome. No século XIII era uma praça, cujo miolo foi ocupado, nos séculos que se seguiram, por novas edificações que acabaram por a reduzir a uma rua que ligava a rua dos Mercadores, actual rua da Rainha, à rua Nova do Muro, hoje simplesmente rua Nova, onde, no último quartel do século XX plantaram um edifício contemporâneo, completamente desligado do espaço envolvente, que agora vai abaixo, para abrir o espaço que permitirá devolver Donães à sua condição original de praça. Guimarães livra-se de um mono e ganha uma nova praça (não lhe chamem largo, que é coisa diferente) com uma dimensão que não suspeitávamos. Uma intervenção que se saúda, pela sua inteligência e pelo seu baixo custo.
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Uma última nota, que hesitei em partilhar: não negando a razoabilidade e a necessidade da remoção do quisto urbano que representava o edifício da casa dita dos pobres, confesso que tenho tido alguma dificuldade em assimilar a opção que foi tomada na deslocalização do serviço que ali se prestava. O pensamento que me ocorreu quando, há alguns meses, soube da intenção de transferência desse serviço para um edifício isolado, situado junto a um canto do recinto da feira municipal e restaurado para o efeito foi o de que poderíamos estar a afastar das vistas, das nossas e das dos que nos visitam, uma realidade humana que não será muito glamorosa nem especialmente interessante para figurar num cartaz turístico. Confesso que revivi essa sensação quando tomei conhecimento das obras na Casa de Donães e do destino que lhe vai ser dado.
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