30 de abril de 2016

O Castelo de Guimarães em 1863


O Castelo de Guimarães, in Arquivo Pitoresco, vol. VI, 1863, Lisboa, 1863, p. 205

Campeia o velho alcáçar sobre uma colina pouco elevada ao Norte de Guimarães e no ponto em que termina a cidade. Para o lado desta, desce o terreno com suave declive e todo assombrado de choupos, castanheiros, oliveiras e anosos carvalhos, toldando com sua espessa e frondosa copa os caminhos que serpeiam pela colina. No lado oposto, é o pequeno outeiro formado de grandes penedos, dispostos de modo como se a natureza quisesse fabricar com eles aprumada muralha. Prolonga-se com os penedos comprida fileira de castanheiros, tão altos e esguios que acompanham em toda a altura a parede do antigo paço; e desde a raiz dos rochedos trepam heras, que vão subindo e vestindo de manto de verdura o velho monumento, até lhe engrinaldarem as janelas, brincando daí e prendendo-se à ramagem dos castanheiros, que ora as beija docemente impelida da brisa, ora as açoita agitada da tempestade.

Na vasta colaboração que o historiador e arqueólogo Inácio de Vilhena Barbosa (1811-1890) publicou nas revistas O Panorama, Ilustração Luso-Brasileira, Arquivo Pitoresco e O Ocidente, incluem-se diversos textos históricos e reportagens que tratam de Guimarães e dos seus monumentos, alguns dos quais já aqui publicados. O delicioso fragmento que transcrevemos acima foi retirado do texto de 1863, publicado no Arquivo Pitoresco, tendo como ilustração a gravura que também aqui se reproduz.
Valem bem a pena os minutos que se ganham com a sua leitura.


O Castelo de Guimarães
Numa extremidade de Guimarães, entre o Norte e Leste, estendem-se por terreno acidentado umas fileiras de casinhas, tão velhas e humildes, que mais parecem uma pobre aldeia do sertão do que o bairro de uma cidade. Todavia, se a riqueza e as artes lhe recusaram absolutamente todos os títulos que podem atrair a atenção do viajante, concederam-lhe os séculos por nobreza brasão de alta antiguidade.
Esse bairro é a vila antiga ou, diremos melhor, a povoação que precedeu a vila hoje cidade de Guimarães. Refere o autor da “Corografia Portuguesa”, que tivera por fundadores os galo-celtas, 500 anos antes do nascimento de Jesus Cristo. Preferimos, contudo, dizer que a sua origem está escondida entre os mais recônditos mistérios do tempo.
Se as conjecturas em tais casos são boas, o que pode supor-se mais próximo da verdade é que serviu de núcleo à povoação uma torre ameiada, também de fundação duvidosa, mas que há motivos para a crer obra dos romanos.
Passados muitos anos, governava parte do Minho e da Galiza, em nome dos reis de Leão, Hermenegildo, conde de Tui e do Porto, casado com D. Mumadona, tia de D. Ramiro II de Leão.
Faleceu o conde deixando a condessa senhora de muitos bens e de avultados rendimentos.
Logo que enviuvou, resolveu D. Mumadona trocar os prazeres e vaidades do mundo pelas asperezas e penitências do claustro; e, para este fim, edificou um mosteiro em uma quinta que possuía pouco distante da torre e da pequena povoação acima referidas (ano de 927).
Já noutro lugar tratámos do mosteiro, que ao princípio foi duplex, isto é, de frades e freiras, vivendo em edifícios separados, e só a igreja em comum; e que depois foi unicamente de monges beneditinos, sendo constituído ao diante o seu templo em colegiada com dignidades e cónegos, consagrada a Nossa Senhora da Oliveira, e o mosteiro convertido em paços do dom prior.[1]
Achava-se a condessa recolhida com as suas freiras no mosteiro de Santa Maria, quando veio uma triste nova lançar as servas do Senhor em sustos e cruéis ansiedades. Os moiros, capitaneados por um chefe audacioso, chamado El Mansur, faziam repetidas correrias por terras cristãs, espalhando na passagem o terror, a assolação e a morte.
Era, pois, urgente prevenirem-se contra qualquer invasão dos infiéis, tanto mais possível, e para temer, quanto era certo que a fama apregoava por toda a parte a munificência com que a fundadora dotara o templo de Santa Maria com mui preciosos vasos sagrados e riquíssimas alfaias.
Porém, o mosteiro era indefensável. Construído simplesmente para casa de oração, nada mostrava que se parecesse com a mais mínima feição de fortaleza, como se via em algumas edificações deste género, que a necessidade dos tempos fizera de construção meio religiosa, meio guerreira. Além disso, estava em sítio quase ermo, apenas povoado da pobreza que se ia acercando daquelas santas paredes para se valer da protecção caridosa da condessa.
Determinou por tanto D. Mumadona fundar um castelo para defensa daqueles povos e do mosteiro e, em casos extremos, para servir aos cristãos de último refúgio.
A torre antiga, que se erguia nas vizinhanças do mosteiro, alta, de excelente construção, e com sua coroa de ameias, era de per si um valioso contingente para a obra que se projectava, além de ser a sua posição muito apropriada para assento de uma boa fortaleza, quer pela elevação do terreno, quer pelas rochas que aí se lhe ofereciam para base.
Começada a fabrica com o fervor de quem tinha abundância de meios e grande necessidade dela, não tardou muito a concluir-se, ficando um castelo fortíssimo, não pela grandeza da área que ocupava, mas sim pelas grossas muralhas de cantaria e pelas torres ameiadas, que a espaços as guarneciam. A torre antiga ficou solitária no centro da fortaleza como torre de menagem.
Volveram-se os anos, passou-se quase um século, e Portugal foi dado com título de condado por D. Afonso VI, rei de Castela e Leão, a D. Henrique de Borgonha, em dote de sua mulher, a rainha D. Teresa, filha daquele monarca.
A este tempo, as humildes choupanas que tinham procurado abrigo à sombra do mosteiro da condessa Mumadona, haviam-se transformado em casas mais bem construídas, e estas tanto se tinham multiplicado que já formavam uma grande povoação com o nome de Guimarães. Foi aí que o conde D. Henrique e D. Teresa vieram estabelecer a sua corte, preferindo-a a Braga, cidade antiquíssima, provavelmente em atenção à segurança que lhes oferecia o castelo de D. Mumadona.
Procederam a alguns trabalhos de restauração da fortaleza e edificaram nela uns paços para sua residência.
Viveram nestes paços a maior parte do tempo, durante a constância do matrimónio. Neles nasceu e foi criado D. Afonso Henriques.
Depois da morte do conde D. Henrique, acontecida em 1114, continuou a ser Guimarães sede da corte de Portugal durante o governo da rainha D. Teresa, e no de seu filho, o infante D. Afonso Henriques, até este príncipe a transferir para Coimbra, onde o esperavam as honras da realeza.
Durante este período, foi o castelo de Guimarães teatro de importantes sucessos.
Primeiramente, os amores da rainha D. Teresa com o conde Fernando Peres de Trava, que alienaram da mãe o amor e obediência do filho, e da soberana o respeito e lealdade dos vassalos, acabando por expulsá-la do governo e do país. Depois o cerco do castelo pelas tropas leonesas, comandadas pelo próprio rei D. Afonso VII, e o acto de dedicação com que o fiel aio de Afonso Henriques, Egas Moniz, salvou o príncipe e a fortaleza de caírem em poder dos sitiadores, fazendo com que estes levantassem o cerco (1127). Mais tarde, foi uma cena de rebeldia que aí se passou, durante as funestas discórdias do infante D. Afonso com el-rei D. Dinis, seu pai, vindo o infante com os mais vassalos rebelados pôr em estreito assédio o castelo de Guimarães, que Mem Rodrigues de Vasconcelos corajosamente defendeu e conservou por el-rei (1323). Daí a quarenta e seis anos, na guerra que rebentou entre el-rei D. Fernando de Portugal e Henrique II de Castela, sustentou aquela fortaleza novo cerco, ficando vitoriosa em todos os assaltos que lhe deram os castelhanos, capitaneados por Henrique II em pessoa.
A invenção da pólvora, mudando inteiramente a táctica da guerra e fazendo tomar às fortalezas novas formas, pôs termo aos fastos militares dos antigos castelos, que pela maior parte foram abandonados e expostos à acção destruidora do tempo e às devastações dos homens.
O castelo de Guimarães, felizmente, não foi condenado a esse abandono assolador. É um dos mais bem conservados que há no reino.
Depois de despojado das honras militares, ficou servindo por largos anos de cadeia pública da vizinha vila; e, quando o dispensaram deste serviço, deixaram-lhe um guarda que, residindo nele e tendo cuidado em fechar a porta de noite, vela, até certo ponto, pela sua conservação.
Compõe-se o castelo de sete torres quadrangulares, unidas por altas muralhas ameiadas, e da torre de menagem, muito mais elevada do que as outras. Duas das sete torres defendem a porta principal, que está voltada para o Sul, e lhe apertam a passagem. Outras duas guardam a porta que dava saída para o campo extramuros e que olha para o Norte. As três que restam guarnecem as muralhas entre as duas portas, uma do lado de Oeste e duas da parte de Leste.
Interiormente, encosta-se à muralha uma escada de pedra que conduz ao adarve, passeio que vai correndo em volta dos muros, junto às ameias, com bastante largueza para os soldados daí defenderem o castelo.
As torres têm por coroas terrados orlados de ameias, para os quais se sobe por escadas de pedra que, principiando nos adarves, vão encostadas às paredes exteriores das mesmas torres.
O espaço que as muralhas deixam livre no interior da fortaleza tem de comprimento obra de 52 metros e 36 de largura, pouco mais ou menos.
No centro exactamente ergue-se a grande torre de menagem, também quadrangular e com sua coroa de ameias. Tem a porta de entrada no mesmo nível do adarve da muralha fronteira, o qual servia de apoio à sua ponte levadiça. Dali para baixo não se vêem na torre portas nem frestas; e dali para cima era dividida em três pavimentos, apenas alumiados pela escassa luz que a furto se coa pelas estreitas e pequenas frestas abertas nas quatro paredes. Ao presente, já não conserva a ponte levadiça, nem a distribuição de pavimentos, mas deixa ver o lugar deles, assim como sobre a porta se divisam as aberturas a modo de óculos, por onde corriam as cadeias de ferro que suspendiam e baixavam a ponte.
Dizem os nossos antiquários que à entrada desta torre se via gravada em uma pedra a seguinte inscrição romana: via maris, caminho do mar; do que alguns dos mesmos escritores pretenderam tirar a origem do nome Guimarães, por corrupção de Vimaranes. Outros, porém, querem, com melhor fundamento, que esse nome proveio da quinta de Vimaranes, onde a condessa D. Mumadona fundou o seu mosteiro de Santa Maria. O nome da quinta consta de escrituras autênticas. Quanto à inscrição, se acaso existiu, gastou-a o tempo. Tendo nós visitado muitas vezes este castelo não achámos vestígio algum dela.
Entre a torre de menagem e a muralha da cerca do lado de Oeste avultam as ruínas do paço do conde D. Henrique e da rainha D. Teresa. Ocupava este paço todo o lado de Oeste do castelo, desde a torre vizinha das duas que defendem a porta principal da fortaleza, até às duas torres que estão de guarda à porta do Norte. As paredes do palácio da parte de Oeste e Norte apoiam-se sobre as muralhas do castelo e conservam-se inteiras, mostrando perfeitamente a divisão das casas. As outras paredes do lado de Leste e Sul tinham por assento o mesmo solo em que se levanta a fortaleza, porém ambas estão quase de todo aluídas.
Constava o paço de dois andares mui baixos e acanhados. As janelas da frente de Oeste, as quais existem em bom estado, são pequenas, quadradas e divididas ao meio por um pilar sextavado. Todas têm assentos de pedra. A verga é direita como a de todas as portas e frestas do castelo, no que acharam os estudiosos uma profícua lição sobre a arquitectura na época da condessa Mumadona e do conde D. Henrique, isto é, nos séculos X e XI.
A maior sala desta parte do edifício tem duas janelas, colocadas nas extremidades, deixando entre si um comprido vão de parede e tendo, no centro de outra parede, uma grande e tosca chaminé. Às mais casas, que não eram muitas, apesar de terem as paredes demolidas, deixam bem ajuizar da sua pequenez. As duas torres com que o paço confinava também serviam de aposentos régios, mas cada uma apenas contém um quarto mui limitado. Actualmente, entra-se para o paço pela torre do Norte, depois de se ter subido grosseira escada de pedra, encostada à muralha desse mesmo lado, como as outras de que acima falámos.
Entre a torre de menagem e o lanço de muro de Leste ficavam a ermida, uma casa onde talvez se aquartelava a tropa, e a prisão. Esta última é um apertado cubículo, com uma janela a pouca altura do chão, de forma quadrada e defendida com grossos varões de ferro. No meio da casa, levanta-se da terra metade de um grande rochedo perfeitamente esférico, ao qual está presa uma formidável corrente de ferro.
Campeia o velho alcáçar sobre uma colina pouco elevada ao Norte de Guimarães e no ponto em que termina a cidade. Para o lado desta, desce o terreno com suave declive e todo assombrado de choupos, castanheiros, oliveiras e anosos carvalhos, toldando com sua espessa e frondosa copa os caminhos que serpeiam pela colina. No lado oposto, é o pequeno outeiro formado de grandes penedos, dispostos de modo como se a natureza quisesse fabricar com eles aprumada muralha. Prolonga-se com os penedos comprida fileira de castanheiros, tão altos e esguios que acompanham em toda a altura a parede do antigo paço; e desde a raiz dos rochedos trepam heras, que vão subindo e vestindo de manto de verdura o velho monumento, até lhe engrinaldarem as janelas, brincando daí e prendendo-se à ramagem dos castanheiros, que ora as beija docemente impelida da brisa, ora as açoita agitada da tempestade.
É belo e grandioso o aspecto da fortaleza, erguendo entre maciços de verdores o vulto venerando, tostado pelo sol de tantos séculos, acatado por tantas gerações, honrado com tão gloriosas memórias e enfeitado com tradições de cavalaria e de amores.
Mas se o castelo assim se apresenta à vista com tantos encantos por qualquer parte que o contemplem, os panoramas que ele oferece ao viajante do alto das suas torres são tais que não haverá talento, certamente, capaz de os descrever só com palavras.
Para o lado do Sul, em lugar mais baixo, estende-se a cidade de Guimarães, sobressaindo dentre apertado cinto de viçoso arvoredo, que parece querer competir com as grimpas dos 16 campanários dos templos da cidade. Em torno da povoação, vê-se larga cercadura de prados verdejantes, orlados de carvalhos e castanheiros, pelos quais trepam vides até lhes abraçarem os mais altos ramos. Seguem-se aos prados vicejantes colinas, nas quais se encostam as belas residências dos srs. condes de Vila Pouca e de Arrochela, com seus jardins ornados de fontes e balaustradas, e dispostos em trono.
Olhando para o Norte lá está o romântico mosteiro de Santa Marinha da Costa, outrora de monges de S. Jerónimo, tão graciosamente situado a meia altura de um monte todo coberto de espessos bosques. Mais para Leste, levanta-se a serra de Santa Catarina, com o seu diadema de agigantados penhascos formando uma formosa lapa, que serve de capela à santa que dá o nome à montanha; a qual é tão rica de vegetação que as árvores corpulentas, que a vestem de alto a baixo, escondem completamente os rochedos colossais de que a serra está eriçada, e as torrentes que se quebram contra as fragas e se precipitam nos algares.
Para o lado de Oeste, varia a paisagem. Colinas pouco elevadas, vales pouco profundos, por toda a parte verdores, aqui e ali espalhados muitos casais e ermidas, aparecendo furtivamente por entre a ramagem das árvores, e tudo isto moldurado ao longe por extensa cordilheira de serras, erguidas em anfiteatro como ondas que, umas após outras, correm encapeladas contra a praia, constituem um painel não menos encantador do que os outros quadros.
I. DE VILHENA BARBOSA.
(in Arquivo Pitoresco, vol. VI, 1863, Lisboa, 1863, pp. 204-206)




[1] Vid. o artigo e gravura a pg. 353 no vol. IV.
Partilhar:

0 comentários: