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A mostrar mensagens de 2014

Afonso Henriques, santo? (4)

O principal argumento para a presunção da santidade de Afonso Henriques é o do Milagre de Ourique, que serve para sustentar, em simultâneo, a aclamação do príncipe como rei de Portugal e a existência de Portugal e o seu destino imperial enquanto emanação da vontade divina. É certo que, na história do Homem, não faltam coincidências singulares, mas não me parece que seja obra do acaso que o dia, 25 de Julho, em que se assinala o nascimento de Afonso Henriques seja o mesmo em que se celebra a Batalha de Ourique.
Aqui fica a descrição da aparição de Cristo crucificado a Afonso Henriques na véspera da batalha e da batalha propriamente dita.
Mais à frente, iremos recordar a polémica que envolveu Alexandre Herculano e membros do clero, a propósito da Milagre de Ourique, na sequência da publicação do primeiro volume da História de Portugal.

[24 de Julho] No Campo de Ourique (conhecido nas Histórias pelo caso que queremos referir) se viram neste dia, ano de 1139, dois Exércitos formados. Em um…

Afonso Henriques, santo? (3)

[25 de Julho] Dom Afonso Henriques, filho do Conde D. Henrique e de sua mulher a Rainha Dona Teresa, senhores de Portugal, nasceu na Vila de Guimarães neste dia, ano de 1109, e logo no princípio da vida participou favores do Céu, porque nascendo com um defeito natural, que o fazia inábil para os exercícios militares [único meio de conseguir a Coroa] seu aio, o famoso Egas Moniz, o levou a uma milagrosa imagem da Mãe de Deus, em cuja soberana protecção achou pronto remédio, e restituído à inteira perfeição da natureza, assistido de sobrenatural protecção, veio a ser um dos mais esclarecidos Príncipes, de quantos enobreceu a fama e eternizou a memória.
Padre Francisco de Santa Maria, Anno Historico, Diario portuguez - Noticia abreviada De pessoas grandes, e cousas notáveis de Portugal, Tomo II, Oficina de Domingos Gonçalves, Lisboa, 1744, pp. 403-404.
Segundo a tradição mais recorrente,  o filho do Conde D. Henrique e da Rainha D. Teresa nasceu no dia 25 de Julho de 1109. Baptizaram-no co…

Memórias da resistência e da liberdade

Acaba de ser lançado o livro Guimarães Daqui houve resistência, coordenado por César Machado, desenhado por Alexandra Xavier e ilustrado por Nuno Vieira. A edição é do Cineclube de Guimarães, com apoio da Câmara Municipal de Guimarães. O lançamento aconteceu no dia 11 de Julho, no Salão Nobre da ACIG. Como objecto, este livro é do melhor que tem sido feito por aí. Quanto ao conteúdo, composto por um conjunto de 25 longos depoimentos recolhidos e tratados pelo organizador, é surpreendente.
Quando César Machado me falou deste projecto pela primeira vez, há exactamente um ano, foi no final da apresentação o livro de Jerónimo Silva com memórias pessoais e alheias da antiga Escola do Godinho ou das dominicas, estava longe de antecipar o seu resultado final. Na altura, tinha-se falado acerca da importância das memórias dos indivíduos enquanto componentes da memória colectiva e da falta de tradição memorialista em Guimarães, provavelmente a terra portuguesa onde se publicam mais livros de h…

Afonso Henriques, santo? (2)

Durante séculos, a canonização de Afonso Henriques foi um desígnio nacional que, ora se apagava, ora ressurgia, especialmente em tempos em que a independência nacional precisava de ser melhor escorada. Assim aconteceu nas cortes de 1641, na sequência da Restauração da Independência. Noutro contexto - o da necessidade de afirmação da origem divina do poder real-, D. José I dará seguimento a iniciativas que vinham do tempo do seu pai, D. João V, mandando iniciar novo processo para a canonização do primeiro rei de Portugal. Aconteceu no dia 6 de Junho de 1753. Referindo-se àquela data, Fr. Cláudio da Conceição escreveria, no seu Gabinete Histórico (obra que, em 1828, dedicou a outro rei absoluto, D. Miguel):
Tendo-se sempre desejado neste Reino a canonização do seu primeiro Rei, o Senhor D. Afonso Henriques, na consideração das suas muitas e relevantes virtudes, se têm feito para isso várias diligências. No reinado do Senhor Rei D. João III se fez o costumado processo sobre suas virtudes. …

Afonso Henriques, santo?

No último 24 de Junho foi apresentada uma tradução do latim da obra Apparatus Historicus, de 1728, do vimaranense José Pinto Pereira, editada pela Câmara Municipal de Guimarães, que reúne um conjunto de dez argumentos ou indícios de santidade do rei Afonso, que pretendiam demonstrar que Afonso Henriques foi suficientemente piedoso e virtuoso para aspirar à beatificação. Da edição em referência, trataremos a seguir. Por agora, aqui fica, para enquadramento da questão, o que sobre ela escreveu o Padre Ferreira Caldas no capítulo dedicado a El-rei D. Afonso Henriques, no seu Guimarães – Apontamentos para a sua História:

Depois da última façanha alcançada contra o Miramolim de Marrocos sobreveio ao incansável herói uma prolongada enfermidade, da qual faleceu a 6 de Dezembro de 1185.
O seu corpo foi sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em humilde monumento, que el-rei D. Diniz principiou a ornar, e D. Manuel tornou magnífico, nas paredes da capela-mor do mesmo mosteiro. Todo o por…

A Grande Guerra vista de Guimarães (1): O Atentado de Serajevo

Há 100 anos, neste dia 28 de Novembro aconteceu em Serajevo o incidente que ser viria de pretexto para a guerra que, havia muito, os europeus sabiam que ia acontecer, sem saberem quando nem como. Gravilo Princip, estudante sérvio pertencente à organização Mão Negra, depois de um atentado à bomba falhado, acabaria por cumprir a missão de que incumbira, aproveitando uma oportunidade que o acaso lhe entregou: abateu a tiro o herdeiro do Império Áustro-Húngaro, Francisco Fernando, e a sua esposa, a duquesa Sofia. Nos dias que se seguiram até ao final do mês de Julho, accionaram-se na Europa os mecanismos das alianças militares e começou a guerra que muitos previram que fosse curta, mas que seria longa de quatro anos e a mais sangrenta de todas as guerras até aí acontecidas desde que o Mundo é Mundo. O atentado de Serajevo teve pouca repercussão na imprensa portuguesa. Por esses dias, no extremo ocidental da Europa as páginas dos jornais enchiam-se com inflamadas discussões de política inte…

A marca Guimarães

Guimarães, what else?


Coração, coração

Leio no site da Câmara Municipal de Guimarães: O Município de Guimarães apresentou, esta quinta-feira, 12 de junho, a sua nova imagem institucional inspirada na identidade da Capital Europeia da Cultura, adotando a sua simbologia e capitalizando o legado emocional desenvolvido ao longo do evento, numa criação tipográfica que concentra num coração o amor que os vimaranenses têm pela sua história, com referências gráficas às ameias do Castelo e ao Elmo de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. A utilização do símbolo, que entrará em vigor aquando da comunicação de iniciativas relacionadas com as comemorações solenes do “24 de junho – Dia Um de Portugal”, assinala o início de um outro ciclo, «sem romper com o passado, para que a apropriação ocorra naturalmente e sem atrito», refere João Campos, autor do logótipo da Capital Europeia da Cultura e responsável pelo “restyling” da imagem corporativa da marca.
Concordo com o que, sobre este assunto, já escreveu Francisco Brito, num texto…

A Batalha de S. Mamede, contada por Santos Simões

O 24 de Junho de 2004 é um dia que me ficou gravado na memória a tintas muito vivas. Era feriado em Guimarães. Nos varandins graníticos da Sociedade Martins Sarmento, as bandeiras erguiam-se a meia haste, em homenagem a Santos Simões, que tinha falecido na véspera. As portas estavam abertas para os que ali vinham visitar o Presidente pela última vez. Entre eles, Emídio Guerreiro que, um dia, encarregara Santos Simões de executar as suas últimas vontades (por essa altura, ele, que era quase um quarto de século mais novo do Emídio Guerreiro, confidenciara-nos, divertido: “Tenho ali no cofre um documento com as disposições do Emídio Guerreiro para o seu funeral, mas mal ele sabe que, quando eu for, ele ainda cá fica…”). Nesse dia, participei, pela primeira vez, na sessão solene do 24 de Junho em representação da SMS, acompanhando o vice-presidente António Ribeiro. Aqueles também eram dias de futebol. Decorria o Campeonato da Europa e, naquele 24 de Junho, Portugal teve uma vitória import…