26 de julho de 2014

Afonso Henriques, santo? (4)

Aparição de Cristo Crucificado a Afonso Henriques em Ourique (gravura da colecção da Sociedade Martins Sarmento)

O principal argumento para a presunção da santidade de Afonso Henriques é o do Milagre de Ourique, que serve para sustentar, em simultâneo, a aclamação do príncipe como rei de Portugal e a existência de Portugal e o seu destino imperial enquanto emanação da vontade divina. É certo que, na história do Homem, não faltam coincidências singulares, mas não me parece que seja obra do acaso que o dia, 25 de Julho, em que se assinala o nascimento de Afonso Henriques seja o mesmo em que se celebra a Batalha de Ourique.

Aqui fica a descrição da aparição de Cristo crucificado a Afonso Henriques na véspera da batalha e da batalha propriamente dita.

Mais à frente, iremos recordar a polémica que envolveu Alexandre Herculano e membros do clero, a propósito da Milagre de Ourique, na sequência da publicação do primeiro volume da História de Portugal.


[24 de Julho]
No Campo de Ourique (conhecido nas Histórias pelo caso que queremos referir) se viram neste dia, ano de 1139, dois Exércitos formados. Em um tremulavam as Cruzes, em outro as meias Luas. Daquele era General o nosso primeiro Rei Dom Afonso Henriques, então Infante ou Príncipe. Deste o era Ismário, poderosíssimo Rei entre os Mouros, acompanhado de quatro, também muito poderosos, além de outros, que o eram menos, todos da mesma Nação. O primeiro Exército se compunha apenas de treze mil combatentes. O segundo de mais de quatro centos mil. Esta grande diferença meteu em considerações ao nosso Príncipe e, aos seus, muito mais. Todos eram valorosos e destemidos mas, neste caso, receavam com razão o combate. Julgavam que entrar nele com forças tão desiguais, mais seria temeridade que valentia. Viam que naquelas poucas tropas se cifrava a defesa de Portugal e discorriam que seria imprudentíssimo arrojo expor à contingência de um sucesso a saúde pública. Confessavam ser justo que os milagres se estimem quando Deus os faz, porém não o obrar cegamente, na confiança de que Deus os faça. Em consequência destes discursos, vagava e invalecia entre os Soldados uma voz de que não convinha outra coisa senão que o Exército se retirasse a lugar seguro. Flutuava o nosso Príncipe em um mar de vários e encontrados pensamentos: de uma parte, não negava a evidência do perigo; por outra, fiava muito do seu valor e do valor daqueles poucos Portugueses e, sobretudo, da justiça da causa e da protecção do Céu, que sempre experimentara propício. Lidando com estes pensamentos, entrada já a noite, entrou na sua tenda. Não lhe deixaram os cuidados, como costumam, admitir descanso. Pegou de uma Bíblia, e abriu logo no Cap. 7.º do Livro dos Juízes, onde se refere a vitória que Gedeão alcançou de quatro Reis Madianitas rompendo e destroçando cento e trinta e cinco mil inimigos com só trezentos dos seus. Alegre com tão feliz encontro, levantou o coração ao Senhor dos Exércitos e, com ardentes e fervorosos suspiros, implorou a sua protecção. A este tempo adormeceu e logo começou a sonhar que via um velho de presença venerável, o qual lhe assegurava a vitória e lhe prometia que o Autor da vida se dignava de lhe aparecer crucificado naquela mesma noite. Eis que, no mesmo tempo, entra João Fernandes de Sousa, Fidalgo da sua Câmara, e lhe diz que ficava à porta um homem velho que pedia audiência e que mostrava trazer negócio importante. Entrou e referiu o mesmo que o Príncipe sonhara, acrescentando grandes promessas de futuras felicidades para o mesmo Príncipe e para os Reis seus sucessores, concluindo que, a certo sinal, saísse ao campo a lograr a maravilhosa visão que lhe estava prometida e, ditas estas palavras, se despediu. Ficou o venturoso Príncipe esperando, entre júbilos e alvoroços, o desejado final. No ponto que o ouviu, saiu ao campo e, levantando os olhos ao Céu, viu para a parte do Oriente um resplendor formosíssimo, o qual pouco a pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele, viu o salvífero sinal da Santa Cruz e, nela crucificado, o Redentor do Mundo, assistido de inumerável multidão de espíritos Angélicos. Prostrado por terra, se confessou indigno de tão singular e tão soberana mercê. Mas o Piedosíssimo Senhor o animou e consolou, dizendo que entrasse seguramente na batalha, na manhã seguinte, porque tinha certa e infalível a vitória. Que na mesma manhã o aclamariam Rei os Portugueses. Que aceitasse o Título, porque era disposição e vontade sua que ele fosse Rei de Portugal, Reino que a sua altíssima providência havia destinado para Império, para levar o seu Nome às partes mais remotas da terra. E que, em prova de que recebia o mesmo Reino debaixo da sua Protecção, era servido que ele e seus sucessores formassem as suas Armas das cinco chagas e trinta dinheiros, preço com que comprara a Redenção dos homens e com que fora comprado. Ditas estas palavras, desapareceu a celestial visão e o venturoso Príncipe voltou para os arraiais, cheio (como se deixa ver) de imponderável alegria e revestido de invencível fortaleza.
Padre Francisco de Santa Maria, Anno Historico, Diario portuguez - Noticia abreviada De pessoas grandes, e cousas notáveis de Portugal, Oficina de Domingos Gonçalves, Lisboa, 1744, pp. 398-400.

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[25 de Julho]
Favorecido Dom Afonso Henriques com a celestial visão de Cristo senhor nosso e confirmado na resolução de acometer com exército tão desigual os dos Reis Mouros, que tinha à vista no Campo de Ourique, como dissemos no dia precedente, amanheceu finalmente no ano de 1139 este ditoso e alegre dia, consagrado à festa do Apóstolo Santiago, primeiro Pregador da Fé em Portugal e singular Protector dos Católicos nas guerras contra os infiéis. Foi maior que todo o encarecimento o ânimo e alvoroço que se viu em todos os Portugueses. Eram todos os mesmos homens, mas parecia haverem entrado neles outros corações. Parecia que a luz da manhã havia desterrado, juntamente, dos Horizontes as trevas, dos corações os receios. Já não havia quem atendesse à desigualdade do número, todos esperavam o final da batalha com firme certeza da vitória. Tratou logo o valoroso Príncipe de ordenar os seus esquadrões e, ao mesmo tempo, sem persuasão alguma e com resolução universal, ao som de instrumentos marciais, entre vivas e aplausos, o aclamaram Rei. Três vezes repetiu o exército Português a mesma instância e aclamação. Pelo que, e muito mais pela Divina ordem que tinha, como já dissemos, não podia deixar de aceitar, como aceitou, aquele título Real, que depois lhe confirmou a Santa Sé Apostólica pelos Pontífices Inocêncio, Honório, Alexandre terceiros e Lúcio segundo.
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No mesmo dia e ano sobreditos e na mesma hora, depois de ser aclamado Dom Afonso Henriques Rei de Portugal, 0 estrondo alegre do nosso campo não deixou de meter em confusão o contrário e, usando de tão oportuna ocasião, do alvoroço dos seus e do terror dos inimigos, antes de fazer sinal de acometê-los, disse o novo Rei aos seus soldados:
Bons amigos e fiéis companheiros. Por especial providência do Altíssimo temos hoje diante de nós junto todo 0 poder dos infiéis que oprimem a nossa pátria em tantas partes dela, para que em uma só batalha poupemos os trabalhos e os perigos de muitas. Quer Deus que acabemos de uma vez com esses inimigos do seu nome. Sem dúvida nos há-de afligir, pois defendemos a sua causa. É este dia do Apóstolo Santiago, Patrono das Espanhas, de que Portugal é uma nobilíssima porção, e devemos confiar que fará muito particular empenho por enobrecer o seu dia com a nossa vitória. Inumerável é o exército que vemos, ou não acabamos de ver, pela extensão imensa com que inunda este largo campo. Mas, que importa, se temos da nossa parte 0 Senhor dos Exércitos, a quem é tão fácil vencer a muitos, como a poucos. Se somos instrumentos do seu poder, nada obsta a debilidade do instrumento se a mão é toda-poderosa. Eia, valorosos Portugueses, é tempo de investir e pelejar em defesa da Fé, da Lei, da pátria, da honra, da liberdade.
Ainda não havia acabado de dizer estas palavras, quando já as trombetas e caixas tocavam a atacar a batalha. Travou-se um duríssimo combate e um dos mais assinalados que aconteceram no mundo. Combatiam os nossos com valor denodado, resistiam os contrários com obstinada porfia. Esteve muitas horas contingente o sucesso, por vezes se renovou a peleja. O nosso Rei deu princípio à vitória, passando com a lança de parte a parte a El-Rei de Silves. A todos exortava com palavras, a todos precedia com estupendas acções. Com a espada na mão, fez tais extremos que podiam pôr em esquecimento os mais famosos que as histórias celebram. Cada golpe seu era um estrago fatal dos inimigos. Martim Moniz, que governava o lado direito, foi morto, quando obrava maravilhosas proezas, assim outros ilustres Capitães Portugueses, com que parecia irem-se melhorando os infiéis, reforçados com luzidas tropas Andaluzas, governadas por El-Rei de Badajoz, que puseram aos nossos em perigosíssimo aperto. Mas, concorrendo as alas de um e outro lado, se renovou temerosamente o conflito. Os nossos, ainda que poucos em número, excediam em ordem e em valor. Os Mouros vacilavam na sua própria multidão e começaram a revolver-se e a perder terra. Defendiam-se, mais constantes e obstinadas, as tropas que acompanhavam a El-Rei Ismário com um sobrinho seu, mancebo de alentados brios. Acudiu o nosso Rei àquela parte, como um raio, e, seguido de muitos nobres Cavaleiros, foram abrindo com as espadas um largo caminho entre os infiéis. Foi morto o sobrinho de Ismário e, vendo-se este em evidente perigo de ser cativo ou morto, se pôs em vergonhosa e precipitada fugida. Então, descaíram de ânimo os inimigos e já as nossas armas não achavam neles resistência. Vagavam sobre eles, sem reparo, os golpes. Uns caíam despedaçados, outros fugiam temerosos e se atropelavam mutuamente. Já os nossos cavalos não pisavam terra, senão corpos, ou mortos ou vivos ou palpitantes, nadando em seu próprio sangue, tão copioso que dois ribeiros vizinhos foram tingir de outra cor os rios Corbi e Terges e estes o célebre Guadiana. Sobre seis horas de obstinadíssimo combate, se declarou finalmente a vitória a favor dos Portugueses, e foi ela uma das mais insignes que lemos nos Anais da fama. Por ser entre exércitos tão desiguais, como eram treze mil combatentes contra mais de quatrocentos mil, ou seiscentos mil, como afirmam muitos Escritores, por ser de um Rei contra cinco, ou contra vinte, como querem alguns, por durar não menos de seis horas e porque nela teve sólido e seguro fundamento a gloriosa fábrica da Monarquia Portuguesa. No lugar de tão gloriosa vitória, na pequena Ermida que o Ermitão habitava, ainda que reduzida a melhor forma e consagrada às Chagas de Cristo crucificado, mandou El-Rei Dom Sebastião levantar uma Igreja no mesmo lugar, e gravar em um arco triunfal a seguinte elegante inscrição, feita pelo insigne Mestre André de Resende:

Hic contra Ismarium, quatuorque alios Sarracenorum Reges, inumeramque barbarorum multitudinem pugnaturus felix Alphonsus Henricus ab exercitu primus Lusitanae Rex appellatus est, & a Christo, qui ei Crucifixus apparuit; sad fortiter pugnandum [agendum?] commonitus copiis exiguit tantam hostium stragem edidit, ut Cobris, & Tergis fluviorum confluentes cruore inundarint. Ingentis, ac stupendae rei, ne in loco, ubi gesta est, per infrenquentiam obsolescerest Sebastianus primus, Lusitanae Rex, bellicae virtutis admirator, & maiorum suorum gloriae propagator, erecto titulo, memoriam renovavit


Padre Francisco de Santa Maria, Anno Historico, Diario portuguez - Noticia abreviada De pessoas grandes, e cousas notáveis de Portugal, Oficina de Domingos Gonçalves, Lisboa, 1744, pp. 404-407.
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